O cansaço é perfeitamente natural e aceitável quanto ao já enorme acervo noticioso e documental que envolve tudo aquilo que aqui foi dito e repetido, explicado, demonstrado, ilustrado. Esse cansaço (público) é o princípio fundamental da estratégia acordista e a anestesia mental a sua técnica de eleição. É à base de cansaço e anestesia que podem instaurar a política do facto consumado.
Boa parte dos episódios e incidências que marcam o processo de demolição cultural em curso têm sido neste “blog” persistente e sistematicamente relatados, escalpelizados, documentados, outro tanto sucedendo — as duas realidades são concomitantes e consequentes — com a metodologia e os objectivos de cariz político-económico que enformam o AO90 enquanto instrumento primordial do linguicídio do Português.
Efectivamente, desde o lançamento do plano de brasileirização, através e a pretexto de uma pretensa “unificação ortográfica”, até às mais recentes movimentações de bastidores, em especial nos meandros esconsos da chamada “diplomacia”, passando pelas sucessivas campanhas de propaganda e lavagem cerebral em massa através dos mais diversos organismos oficiosos, por fim já vamos vendo que afinal todas as peças do puzzle encaixam mesmo, que afinal não havia pessimismo algum nas previsões, que afinal as “teorias da conspiração” não eram teorias coisíssima nenhuma.
O plano original, ainda em tosco, urdido por meia dúzia de portugueses que foram expressamente ao Brasil traficar a Língua Portuguesa, nos idos de 1985 e 86, foi posteriormente redesenhado — então já com os préstimos de verdadeiros profissionais em desinformação, especialistas em psicologia de massas e especuladores bolsistas de alto gabarito — tendo sido “implementado” à força com base no “acordo” de 1990. Após um longo período de aparente letargia, a marcar passo, e contando com um paciente trabalho de “remoção” de obstáculos (apadrinhamento presidencial e governamental, assinaturas de 3 valendo por 8, pareceres ignorados, opositores silenciados, garantia de aprovação parlamentar), o AO90 seria finalmente aprovado em 2008 com a conivência da esmagadora maioria dos deputados que passeiam seus bocejos pelos Passos Perdidos.
Com tamanho triunfo nas mãos, o que equivalia a um cheque em branco passado pelo Estado português ao portador, então sim, o plano de brasileirização foi lançado a todo o vapor. A transcrição fonética do falar “culto” brasileiro — nisso consiste o acordo que de ortográfico nada tem — tornou-se obrigatório no Ensino e em todos os organismos oficiais (portugueses, só os portugueses, em tudo isto o papel do Brasil é exclusivamente o de assistir à paródia) a partir de 1 de Janeiro de 2010. E de então para cá foi, como diz(ia) o povo, um ver se te avias: a começar pelos “órgãos de comunicação social” — emissores de material de propaganda a soldo do patrão governamental — e a terminar nas instituições e empresas dos mais diversos sectores que são ou estão de alguma forma dependentes do Estado, gradualmente grande parte do tecido socioeconómico nacional “adotou” a cacografia brasileira.
Tudo decorreu entre os “mentideros” da política e os bares de porta fechada onde se cozinham e apuram os maiores pitéus em metal sonante, mas hoje em dia, decorridos 36 anos desde o lançamento do primeiro calhau, as mais diversas incidências — e até alguns aparentes acidentes de percurso — encaixam perfeitamente uns nos outros, como peças de Lego, compondo um quadro terrível que era até há poucos anos quase indecifrável.
Agora, quando vemos e lemos “notícias” sobre “queixas” de brasileiros por xenofobia, racismo e preconceito em Portugal, percebemos que isso não passa de mais uma manobra com finalidades políticas, que aquilo não é mais do que pura e dura vitimização, em busca de ainda mais dividendos e privilégios.
Agora entende-se com a maior das facilidades para que serve, ao certo, o “acordo de mo(r)bilidade” e como o AO90 serve de respaldo e cobertura política para essa manobra, sabendo-se que desde há muitos anos foram assinados acordos de mobilidade com vários dos PALOP, se não com todos eles. O mesmo vale para uma série de outras benesses gratuitas e ainda veremos o que mais virá.
Sempre com o AO90 a servir de pretexto ideológico e com a CPLP a funcionar como expediente para alguma cobertura política, foram subsequente e sucessivamente implementadas diversas medidas cujos únicos objectivos sempre foram — ao contrário do que faz constar a persistente propaganda governamental — privilegiar os interesses geoestratégicos e político-económicos da República Federativa do Brasil. É esse, aliás, o factor comum que explica a “adoção” forçada do “fálá” brasileiro, as represálias, a censura e a repressão de quaisquer contestações ou contestatários, a pulverização dos acordos diplomáticos entre Portugal e as suas ex-colónias africanas, o acordo de morbilidade (com gralha na designação oficial) e, por fim, a presidencialmente almejada dupla nacionalidade luso-brasileira “facilitada”, válida apenas para uma das partes.
É para que se cumpra este “projeto” de etapas múltiplas que surgem de permeio as manifestações folclóricas de vitimização a propósito das igualmente encenadas alegações de “racismo, xenofobia e preconceito“. Isto quando, afinal, se porventura tão negativos (e primitivos) sentimentos existem entre portugueses e brasileiros, então o exclusivo de semelhante aberração cabe por inteiro a brasileiros — não o contrário.
Já lá vão os tempos em que o sinistro plano foi sumariamente arquivado na gaveta sem fundo das “teorias da conspiração”. Por definição, uma teoria deixa de o ser quando factos verificáveis anulam qualquer carácter especulativo da premissa.
Aquilo a que vamos assistindo, com cada vez mais clareza e sempre sem deixar margem para a menor das dúvidas, é ao infindável desfilar de sucessivos “pacotes” de medidas governamentais que objectivamente delapidam o património histórico-cultural português.
Torna-se impossível contornar o ambiente de pesadelo que envolve tal desfile, algo como se fosse um corso de carnaval à antiga portuguesa, para variar, carros alegóricos com umas fitinhas (alusões à “língua universau”, claro) e mimos e cabeçudos e pantomineiros e sobretudo matrafonas, muitas, imensas matrafonas (acordistas, políticos, lacaios) com seus vestidos e enchumaços pretensamente engraçados, com suas pinturas grotescas enfeitando bigodes farfalhudos, com suas horríveis piadolas (o “porrtugueiss univerrsau”, a “expansão da língua”), com toda a sua confrangedora tristeza travestida de um arremedo de alegria avinhada e sórdida.
As três transcrições que se seguem constituem mais uma pequena amostra do percurso habitual.
Um político — sacando de um pretexto qualquer do restrito naipe de brasileirismo — enaltece o “dia mundial da língua” brasileira e “aproveita” para falar de uma coisa a que chama «agenda estratégica para a língua portuguesa», aproveitando a oportunidade para avançar com uma espécie de originalidade velha e relha: «plataforma de comunicação para o entendimento empresarial». Tentando escorar a “ideia”, a ver se cola, atira com a «cooperação cultural entre os dois países» e, para compor o ramalhete, refere «centros de investigação e associações locais da comunidade imigrante brasileira». Pronto. Está o mote lançado. Dará para várias glosas mas, assim de repente, dado o curto espaço temporal entre causa e (esta) consequência, serve a charla das “associações locais”.
Atirado o osso à comunicação social, esta lança-se com entusiasmo e apetite na busca de algum pretexto para reforçar a ministerial “ideia”. Por norma, nestes casos repete-se mesmo a “argumentação” usando até algumas expressões ipsis verbis. Basta portanto encontrar alguém (um qualquer “notável” ou uma organização) que se preste a cumprir as funções de idiota útil e fazer eco da mais recente inovação que ocorreu nas insondáveis circunvoluções cerebrais de tal indivíduo.
Biblicamente falando, ecce item, consummatum est. Ou, em Português vernáculo, bem mais simples, então pronto, está feito. A coisa fica ainda mais apimentada, salvo seja, se se meter uma agência estrangeira ao barulho, ainda que essa estrangeirice não passe de mais uma das imensas brasileiradas de que está o mundo virtual cheio.
E o mundo real a encher. Bem, pelo menos nesta “terrinha” que perdeu além do tino a última réstia de decência.
Celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa
João Gomes Cravinho
“Público”, 04.05.22
O trabalho conjunto de Portugal e dos países da CPLP foi determinante para que a UNESCO decidisse, em 2019, que o dia 5 de Maio ficasse consagrado mundialmente à Língua Portuguesa.
A institucionalização de um Dia comemorativo assume uma importância, tanto real como simbólica, para a promoção da causa do reconhecimento e da disseminação da nossa língua. Ao longo deste dia, em múltiplas organizações internacionais, em variados organismos regionais, nacionais e locais, em diversas entidades de natureza distinta espalhadas pelos quatro cantos do mundo, a língua portuguesa será evocada, entoada, cantada, dita. Serão destacadas as suas enormes virtualidades como ferramenta de comunicação que, como poucas, dá a volta ao mundo. Será ressaltada a plasticidade que permitiu que se espalhasse, que crescesse, e que se constituísse como elo entre povos. Será uma ocasião para recordar o intenso dinamismo e a variedade que caracteriza a língua portuguesa, e a importância cada vez maior que assume na sua expressão cultural.
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