Uns grelhados e outros assados

«Ana Cristina Leonardo estudou Filosofia. Há muito ligada à edição e jornalismo, trabalhou na Assírio & Alvim e em diversos jornais e revistas. Mantém actualmente uma crónica no Expresso. Publicou em 2008 o livro infantil, ilustrado por Álvaro Rosendo, «Joaninha, a Menina que não Queria Ser Gente» e, em 2018, o romance «O Centro do Mundo». Tem três filhas e dois netos e vive no Algarve com dois cães.» [“Wook”]

Do encanto de uma galinha assada

Ana Cristina Leonardo

“Público” (suplemento “Ipsilon”), 08.07.22

 

 

Cinquenta e quatro anos após a morte de Manuel Bandeira — um reconhecido poeta maior do Modernismo brasileiro — Portugal é o convidado de honra da 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a decorrer naquela cidade entre 2 e 10 de Julho.

Na informação oficial publicada no site do Instituto Camões, organismo criado em 1992 para a defesa e divulgação da língua e da cultura portuguesas a funcionar sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros — e talvez nesse vínculo administrativo se encontre a explicação para a tenência de aço com que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, o licenciado em economia Augusto Santos Silva, defendia o Acordo Ortográfico que só seria alterado por cima do seu cadáver, salvo seja… — pode ler-se que a comitiva integra “21 autores de Portugal, de Países Africanos de Língua Portuguesa e de Timor-Leste” a que “irão juntar-se dois renomados ‘chefs’, Vitor Sobral (sic) e André Magalhães”.

Não nos passando pela cabeça que a cultura — nomeadamente a literária — não seja para comer, ainda assim nos espantamos pelo destaque dado aos dois cozinheiros, mesmo se renomados. Afinal, tratando-se de um acontecimento ligado à edição e não a tachos e frigideiras, seria legítimo esperar que o acento fosse posto no nome dos escritores (e já agora em Vítor…) ou, pelo menos, que a lista dos participantes se apresentasse completa: ou há moral, ou comem todos!

Nada a obstar à relação entre estômago e literatura, binómio há muito ilustrado com excelência nos livros do crítico camiliano José Quitério, uma referência de estalo para todos os que nasceram antes da invenção dos pastéis de bacalhau com queijo da Serra ou da exportação dos pastéis de nata para o mundo. Podia referir ainda, provando que nada me move contra a arte da mesa, o hilariante ‘Cabeça, Coração, Estômago’ (Camilo Castelo Branco, Alêtheia, 2016). E há também, claro, aquele panfleto de JulienGracq, adequadamente chamado ‘A Literatura no Estômago’ (Assírio & Alvim, apresentação e tradução de Ernesto Sampaio, 1987) mas aí a salada é outra.

Sem abandonar o tema, é de toda a justiça juntar ao rolo corajoso texto do crítico António Guerreiro, publicado a 9 de Abril de 2011 no semanário Expresso (‘Retrato do Escritor Enquanto Saltimbanco’), a propósito “da edição desse ano do Festival Literário da Madeira, onde se punha em evidência o formidável convívio entre a ‘grande bouffe’ e “a pura substância espiritual” que moveria os promotores do encontro.

Não só de ‘chefs’ nos fala o Instituto Camões. Fica-se igualmente a saber que um dos objectivos essenciais da nossa participação é “promover Portugal como destino de múltiplas experiências de turismo literário”.

Supina!, pensei eu, já a imaginar ‘charters’ de turistas literários a quererem reservar o quarto do Largo do Carmo onde Fernando Pessoa viveu no princípio do século XX (disponível no Airbnb a preços razoáveis). Não será o mesmo do que dormir na cama do poeta na rua Coelho da Rocha, mas esse foi um privilégio reservado a ‘happyfew’ (se considerarmos um privilégio dormir, sob a ameaça de fantasmas, numa cama notoriamente desconfortável…).

Não me esqueci de Manuel Bandeira. Em 1930 inclui no seu livro ‘Libertinagem’ o poema ‘Poética’. Começa assim:

“Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem-comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor / Estou farto de lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo / Abaixo os puristas”

E vai por ali fora, espadeirando sem dó nem piedade:

“…Estou farto do lirismo namorador / Político / Raquítico / Sifilítico / De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.”

Para terminar com

“Quero antes o lirismo dos loucos / O lirismo dos bêbedos / O lirismo difícil e pungente dos bêbedos / O lirismo dos clowns de Shakespeare — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Que diria hoje Manuel Bandeira do mote da participação portuguesa na Bienal, que, lemos no site do Instituto Camões, traz a assinatura de Valter Hugo Mãe:’ É Urgente Viver Encantado?’

Antes de mais, de onde surge o mote? De uma frase retirada ao ‘As Mais Belas Coisas do Mundo’, livro que é, e reproduzo do portal da editora: “A história de um menino que, dentro do abraço do avô, procura encontrar respostas para os mistérios do mundo. O avô, que tem ar de caçador de tesouros, revela-lhe o maior de todos para curar a tristeza e a despedida: o encanto”.

Cito o mote no seu contexto: “Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se desilude, morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza”.

Podia agora falar do meu avô que nada me pedia (eu alheada dos meandros da inspiração…), limitando-se ele prosaicamente a passar-me em silêncio nacos vermelhos de melancia sem sementes, mas para voltar a Manuel Bandeira, se o ‘É Urgente Viver Encantado’ não tresanda a “lirismo bem-comportado” que se abata sobre mim uma praga de Alvor e, para quem não conhece, em comparação com as pragas de Alvor, Putin é um copinho-de-leite.

Pergunto: a que ponto chegou a infantilização (ou o aparvalhamento) dos espíritos para que lirismo tão pateticamente raquítico pudesse ser escolhido para mote de um pais com séculos de idade suficientes para ter juízo? E que dizer dos rodriguinhos linguísticos, do tom moralizador, da escrita inspiracional?

Em ‘A Literatura no Estômago’, libelo radical contra um meio literário atulhado de mediocridade e vedetismo, corria a década de 1950, JulienGracg, o autor do soberbo ‘A Costa das Sirtes’, denunciava a frivolidade com que se urdiam reconhecimentos efémeros, repartidos pelos eleitos “como essas pastas ministeriais caídas nas mãos de candidatos em nada indicados para o efeito senão pelo facto de estarem sempre lá”. E o problema da mediocridade é precisamente esse: não a sua existência mas o espaço que ocupa.

JulienGraca, pseudónimo escolhido por Louis Poirier, foi, como entre nós Herberto Helder, um negacionista dos prémios literários. O mesmo Herberto com quem Valter Hugo Mãe só conseguiu falar pelo interfone (palavras do próprio), depois de ter tocado à campainha de casa do poeta e este se ter recusado a abrir-lhe a porta.

Se fui capaz até agora de não falar da guerra, e tendo começado pelo autor de ‘Vou-me embora praPasárgada’, permitam-me que termine com Mário Quintana, outro brasileiro a quem, aliás, Bandeira dedicaria o poema ‘Meu Quintana’, lido por si próprio durante uma sessão da Academia Brasileira de Letras, após esta ter recusado por três vezes o ingresso ao poeta gaúcho (como curiosidade, acrescento que o alquimista Paulo Coelho foi eleito membro em 2002 — a decadência vem de longe, como o Constantino…).

Pois andava eu pelo Sul do Brasil e por acaso de táxi. Dias antes, um autóctone de fisionomia mais portuguesa do que a minha — e a mim ninguém me toma por sueca… — convencido de que eu era açoriana, logo, descendente de baleeiros, presenteara-me com um: “Vieram para aqui matar as nossas baleias!”, o que, de um ponto de vista especista, sempre era menos mau do que se me tivesse dito: “Vieram para aqui matar os nossos índios!”

‘Quid pro quo’ ultrapassado sem derramamento de sangue, depressa seria olvidado à luz de um novo e feliz encontro.

Como disse, ia de táxi. O motorista, professor de História que compunha o final do mês ao volante do Mercedes, às tantas pergunta: “Moça, gosta de poesia?” Não era ainda ultrapassada a minha hesitação na resposta, e vai ele e desengatilha: “Aposto que não conhece esta. É do Mário Quintana”. E declama: “O que tem de bom uma galinha assada é que ela não cacareja”.

Engasgados de riso e estacionada a viatura, ainda houve direito a mais Quintana (“… Eles passarão, eu passarinho”), a Pessoa, Drummond, Camões, a Bandeira e naturalmente a brajolas como no ‘Samba no Bexiga’ do Adoniran Barbosa. Há testemunhas!

 

[Transcrição integral, a partir da edição em papel, de crónica da autoria de Ana Cristina Leonardo. “Público” (suplemento “Ipsilon”), 08.07.22. Destaques e “links” meus. Imagem de: “Wook“.]

Não é lá muito apropriado pespegar em Ana Cristina Leonardo o mesmo apodo com que enfeitei o jornalista Carlos Fino, salvo seja, mas não será por se tratar de uma senhora que desmerecerá de idêntico título honorífico, por assim dizer. Bom, talvez algo como “muito senhora do seu nariz” seja neste caso mais adequado, se bem que mantendo na íntegra toda a carga do significado da referida pilosidade nasal na expressão idiomática. Enfim, dispensemos minudências, o que interessa é o conteúdo e, especialmente, o significado que a autora do texto agora transcrito atribui… à galinha assada. Ou seja, e peço desde já desculpa à própria se porventura percebi mal, que o cacarejar irritante dos pretensiosos só pode acabar numa bela de uma churrascada. Para a qual não serão convidados, bem entendido, a não ser para serem servidos como prato principal da tainada, os galináceos que em terras de Vera Cruz se esganiçam para abichar uns quantos grãos de milho.

De resto, é facílimo estabelecer nexos de causalidade (ver as duas citações abaixo) quando a fome se alia à vontade de comer, como sucede por regra se o triunfo da mediocridade serve os interesses (de) particulares e estes contam não apenas com a vaidade dos idiotas úteis como, sobretudo, com a sua vacuidade absoluta. Tudo se resume a abichar, por conseguinte, e é exactamente esse o verbo que Ana Cristina Leonardo — como Carlos Fino, mas a seu modo — conjuga no pretérito mais que perfeito e no presente do indicativo, incluindo declinações no tempo e no modo.

São ambos mestres no uso da palavra, portanto, como de novo se constata. E não são casos únicos, é claro, infinitamente longe disso. Também Pacheco Pereira, por exemplo, ou “nosso” MEC, outro que tal, ou ainda — sempre apenas para citar alguns nomes — Alzira Seixo, Rodrigo Guedes de Carvalho, Maria Velho da Costa, Luísa Dacosta, Pedro Mexia, “o” RAP, Sua Excelência o ex-Provedor de Justiça, o cirurgião Gentil Martins, Teolinda Gersão, Maria Teresa Horta, Pedro Barroso e tantos, tantos outros, centenas de figuras públicas cuja força mediática muito ajuda. E com eles milhares de figuras privadas, gente que apesar de tudo luta, portugueses de todos os quadrantes políticos, de todos os estratos e condições sociais, perfeitos anónimos identificados com aquilo que mais decisivamente nos define e mais claramente nos distingue: a Língua Portuguesa.

«Portugal é o país convidado de honra da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2022, que decorre entre os dias 2 e 10 de Julho de 2022.
Organizada pela Câmara Brasileira do Livro, a Bienal reúne as principais editoras, livrarias e distribuidoras de livros do Brasil, e apresentará uma programação cultural abrangente, em torno dos seguintes eixos: “Salão de Ideias” (dedicado a temas contemporâneos), “Arena Cultural” (apresentação de bestsellers e realização de sessões de autógrafos), “Cozinhando com palavras” (projecto que associa gastronomia e literatura) e “Espaço Infantil”.
Uma frase de Valter Hugo Mãe dá o mote para a participação portuguesa – É urgente viver encantado. Um mote que expressa bem o reencontro e a partilha entre autores de língua portuguesa e o público brasileiro.» (…)
«A comitiva coordenada por Portugal integra 23 autores e chefs, e inclui a participação de escritores portugueses, dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de Timor-Leste.» [citação do “site” de “o Camões” (a cacografia brasileira do original foi aqui corrigida automaticamente)]

«A relação de Valter Hugo Mãe com o Brasil é emocional. Desde que esteve em Paraty, em 2011, foi adoptado pelos brasileiros como nenhum outro autor seu contemporâneo. “O meu caso no Brasil é um pouco da dimensão do fenómeno. Teve uma forma espontânea, não obedeceu a um esquema. Foi uma surpresa para mim e para a editora [Cosac Naify]. Foi rápido, tudo se precipitou”, comenta. Antes havia a ideia de escrever um livro que tivesse contacto com o Brasil, mas o tal fenómeno de que se sentiu protagonista fê-lo abandonar o projecto. “Não escrevi, não estou a escrever e não ache que vá escrever tão cedo. Não quero que a ideia desse romance seja uma coisa prostituída a qualquer tipo de pressão. Não quero transformar o meu trabalho literário numa gratidão. Escrevi algumas crónicas, porque vou muito ao Brasil e há histórias impressionantes”, justifica.»
«Em 2012, venceu o Prémio PT de Literatura com A Máquina de Fazer Espanhóis, cinco anos depois de Gonçalo M. Tavares também ter conquistado um dos prémios mais valiosos para as literaturas de língua portuguesa. Desde então, o autor de Jerusalém fez muitas viagens ao Brasil, publicou lá todos os seus livros, acha que estão bem expostos, e assina uma crónica no Estado de S. Paulo. Um dos seus livros mais recentes, a peça de teatro Os Velhos Também Querem Viver, teve destaque nos principais jornais brasileiros. “É um pequeno livro a que deram a atenção que costumam dar aos grandes”, comenta. No entanto, não sente que haja uma ligação directa entre aquele território e o que vai fazendo. “O Brasil é importante para mim culturalmente não apenas por causa dos livros. No cinema, no teatro, nas artes plásticas, por exemplo, os brasileiros são muito, muito fortes.”» [Citação extraída de artigo, da autoria de , publicada no jornal “Público” em 3 de Abril de 2015. Destaques meus.]

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