A pátria (ou mátria) da língua matriz

Este texto de Renato Epifânio deve ser lido na íntegra, evidentemente, sem prejuízo de que dele destacando apenas algumas frases marcantes possamos compreender melhor a essência do que é dito.

  • «o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado»
    Exacto. É uma constatação demasiadamente óbvia para que dela tentem escapar — utilizando uma “lógica” extremamente inventiva, à falta de melhor –, como vamos cada vez mais lendo e ouvindo por aí, alguns brasileiros ressabiados e também uns quantos portugueses com “síndrome do colonizador”, essa terrível (e contagiosa) mania da auto-flagelação que afecta as parcas circunvoluções cerebrais dos infelizes portadores da maleita.
  • «Portugal criou o Brasil — no plano linguístico, cultural e civilizacional»
    O país não existiria e o “gigante” não teria sequer tamanho para montar um sambódromo ou, sejamos mais optimistas, um simples campo de futebol (50 por 110 metros, mais ou menos). Sem os “bandeirantes”, portugueses que desde o século XVI estenderam o domínio da colónia muito para além do que “permitia” o Tratado de Tordesilhas, aquelas terras de Vera Cruz seriam hoje, com imensa sorte, um “gigante” do tamanho do Principado da Pontinha, por exemplo. Mas nem foi “só” isso o mais importante resultado da expansão empreendida pelos nossos antepassados. A frase citada diz realmente tudo. Até porque os adjectivos são concomitantes e consequentes: Portugal criou o Brasil no plano linguístico, logo, cultural, logo, civilizacional. Aquilo que alguns brasileiros designam agora como “genocídio”.
  • «duzentos anos após a independência do Brasil, ouvir ainda algumas vozes a não reconhecerem a matriz lusófona»
    São muito imaginativos, uns e outros, brasileiros que já cá estão e outros que ainda não. Fora os tugas (os tais portadores da síndrome, os tais complexados, os tais mais brasileiristas do que o Tiririca Pióquitánumfica) mai-las suas alucinações e traumas que foram catar às telenovelas e à bola. Porém, há que destrinçar os conceitos — o de “matriz” não implica necessariamente “amarração” — porque é essa a natureza das coisas: o vivente nasce de uma mãe (a origem etimológica, do latim mater, depois registo de nascimento) mas não fica para toda a vida amarrado à sua origem uterina, o conjunto de amarras e a âncora são recolhidos e o navio parte mar afora. Ou, dito de uma forma menos elíptica e figurativa, concretamente, o Brasil largou a amarração que o prendia a Portugal. Depois de recolher a âncora a bordo, o Brasil tornou-se independente, política e culturalmente. Portanto, a língua que nasceu da portuguesa está desde 1822 a navegar nos seus próprios mares, com marés e marinheiros e adamastores e sereias que são só deles, brasileiros, e dela, a língua brasileira.
  • «duzentos anos após a sua independência, a responsabilidade pelo estado do Brasil é, toda ela, dos brasileiros.»
    É todo o povo brasileiro o único responsável pelo rumo que todos tomaram e por todas as viragens — fortuitas ou simplesmente estúpidas — para estibordo ou bombordo, por todas as manobras e decisões que no seu entender a cada momento se imponham. Não podem culpar outros quando porventura se enganam na rota, se andam à bolina mas para a ré, se pela proa não se vislumbra nunca a terra prometida. Não podem gabar-se de grandes ou pequenos avanços e culpar quem largaram em terra (e bem, adeus, boa viagem) pelo mau tempo, as tempestades, a falta ou o excesso de vento, a falta de mantimentos, o excesso de ratazanas, o escorbuto, a disenteria e o mais que lhes apetecer de repente evacuar. Os portugueses, a 7.500 km de distância, têm os seus próprios problemas, como sucede em qualquer outro país, e a nenhum deles ocorre “resolvê-los” culpando colectivamente um outro povo, os celtas, godos, romanos, espanhóis ou marroquinos pelos fracassos que são integral e unicamente seus. Ao que parece, até porque do lado de cá também moram uns quantos portugueses que adoram “projecções”, explicar tão simples coisas a um brasileiro é missão impossível, mais receptividade teria uma galinha (ou um galo de Barcelos) a que se demonstrasse com provas qual é, como é e porquê a sua oval origem.
  • «desfasamento qualitativo no plano linguístico, cultural e civilizacional»
    “Qualitativo”, note-se. Muito bem. Aplausos. A língua brasileira seguiu o seu próprio caminho, o que é problema deles, repita-se, no improvável caso de que vejam nisso o mais ínfimo problema, optou pelo facilitismo a qualquer preço e portanto aquilo que existe hoje em dia é uma espécie de Novilíngua extremamente “simplificada”; simplificação essa que ocorreu e ocorre ainda, cada vez mais radicalmente, em todos os aspectos estruturais, essencialmente na sintaxe, mas também na morfologia, além da mais básica, a fonética, e, para cúmulo da “simplificação”, na ortografia — cujo conceito foi pura e simplesmente abolido; “escrever como se fala” é a negação absoluta do dito conceito. E é, como sabemos, com base precisamente nesta patranha abominável que acordistas em geral e brasileiristas em particular tentam impingir às pessoas aquilo a que chamam “acordo” — que não passa afinal de uma imposição ditatorial — e dizem que é “ortográfico” — ou seja, o pretexto político para a central de negócios CPLB.

Muito mais haveria a dizer sobre este artigo, que, de facto, condensa em poucas palavras muito ou quase tudo daquilo que é essencial para o entendimento da questão-ortográfica-que-não-é-ortográfica-coisíssima-nenhuma.

Uma abordagem pela afirmativa é de facto bem achado: “sim, é verdade”. Não é difícil imaginar os acordistas aos pulinhos, todos contentes: “Boa! Este também engoliu a patranha. “É verdade”, diz ele. “Portugal não descobriu o Brasil”. Eish. Bestial. Olha lá. Já condecorámos este? Tratas tu disso ou trato eu?

Sim, é verdade: Portugal não descobriu o Brasil

Portugal não descobriu o Brasil pela simples mas suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado.

Renato Epifânio
“Público”, Sábado, 13 de Agosto de 2022

 

Como seria de esperar, os duzentos anos da independência do Brasil têm propiciado uma série de reflexões sobre o passado, o presente e o futuro desse imenso pais, em muitos casos na sua relação com Portugal.

Sem surpresa, verificamos que há algumas vozes no Brasil que ainda não superaram à tentação freudiana de “matar o pai” — neste caso, Portugal. Como se o Brasil se tivesse criado “apesar de Portugal”. Podemos até compreender essa tentação freudiana — comparativamente, o Brasil é ainda um pais adolescente. Mas já vai sendo tempo de o Brasil superar essa tentação e de assumir, sem complexos, toda a sua história.

De facto, Portugal não descobriu o Brasil. Qualquer país — para mais, um pais imenso como o Brasil — é muito mais do que um território. É um território habitado por um povo que reflecte, na sua vivência desse território, uma língua, uma cultura, uma civilização. O que só de forma muito incipiente acontecia quando Pedro Álvares Cabral fez a sua viagem.

Podemos pois assim dizer que Portugal não descobriu o Brasil — pela simples mas suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado. Muito mais do que isso, o que devemos dizer é que Portugal criou o Brasil — no plano linguístico, cultural e civilizacional —, naturalmente que com o contributo das comunidades indígenas (que, por si só, não formavam um povo, tal a sua dispersão geográfica e dialectal) e de todas as outras comunidades que, século após século, fizeram do Brasil o seu pais.

O facto de alguns brasileiros (e também de alguns portugueses, por arrasto) terem ainda relutância em reconhecer a verdade histórica não produz, por si só, uma “verdade alternativa”. Sim, é certo que a história podia ter sido diferente — e há brasileiros que, retrospectivamente, desejavam uma outra colonização. Lamentamos desiludir: se o Brasil tivesse sido colonizado pelos espanhóis, o mais provável era que se tivesse fragmentado em vários países, como aconteceu em toda a restante América Latina. Ou seja, o Brasil não existiria.

Se, por outro lado, o Brasil tivesse sido tomado pelos neerlandeses, como esteve para acontecer, provavelmente teríamos hoje um país mais desenvolvido no plano económico — mas à custa de tudo o mais, como aconteceu na África do Sul, com o sistema do “apartheid” (o que importa recordar, particularmente aqueles que tanto demonizam o modelo português de miscigenação), Custa, pois, duzentos anos após a independência do Brasil, ouvir ainda algumas vozes a não reconhecerem a matriz lusófona deste imenso país. Sendo que, duzentos anos após a sua independência, a responsabilidade pelo estado do Brasil é, toda ela, dos brasileiros. Também já vai sendo tempo de se reconhecer isso.

Imagine-se que Portugal ainda hoje, por exemplo, se queixava do Império Romano. Sim, também é verdade que os romanos invadiram este território a que hoje damos o nome de Portugal. Dado o desfasamento qualitativo no plano linguístico, cultural e civilizacional em relação às comunidades que por cá habitavam, naturalmente que assumiram uma hegemonia política quase que absoluta na época. Entretanto, porém — e eis aqui toda a diferença —, nós já assumimos há muito essa herança. Porque só assim — assumindo o passado —, há, tanto no plano pessoal como colectivo, real futuro.

Renato Epifânio
Presidente do MIL — Movimento Internacional Lusófono e professor universitário

[Transcrição integral (sem os “links” do original “online” ) a partir de cópia em formato PNG (imagem acima)
publicada no “blog” do MIL — Movimento Internacional Lusófono. Destaques meus.]

 

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