Das duas, uma: ou racismo ou racismo

língua

língua | n. f. | n. m.

(latim lingua, -ae)

nome feminino

1. [Anatomia] Órgão móvel da cavidade bucal.
2. [Entomologia] Tromba dos insectos lepidópteros.
3. [Linguística] Sistema de comunicação comum a uma comunidade linguística.
4. [Figurado]
Estilo de escrita, discurso ou expressão característicos de alguém.
“língua”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

 

Das duas, uma: ou a definição de “Língua” está errada em todos os dicionários e enciclopédias ou então as comunidades por ela identificadas distinguem-se de quaisquer outras por isso mesmo.

Das duas, uma: ou a relação de causa e efeito entre o AO90 e a “adoção” compulsiva da língua brasileira não é ainda evidente, embora seja um facto, ou então não existe nem “acordo” nem “adoção”, de facto.

Das duas, uma: ou está em curso uma campanha de brasileirização sustentada e financiada pelo Estado português, ou então não, tal coisa não passa de mera ilusão ou falta de “entendimento”.

Das duas, uma: ou os portugueses são racistas e xenófobos e em especial em relação a brasileiros, ou então não existe qualquer nexo entre essa alegação e as queixas” em catadupa.

Das duas, uma: ou a relação de causa e efeito entre a imposição selvática da língua brasileira e o extermínio da Língua Portuguesa não é ainda evidente ou então a chamada “língua universau” afinal nunca foi inventada.

Por simples exclusão de partes, temos portanto que não apenas existem como são óbvios os nexos de causalidade entre:

  1. A”adoção” do AO90 e a imposição manu militari do “fálá” brasileiro e, por conseguinte, da sua transcrição fonética, pois nisso consiste semelhante cacografia.
  2. Os dois partidos políticos que se revezam no Poder impõem o AO90, em submissão aos interesses do Brasil e em função dos seus próprios interesses (políticos e económicos).
  3. Ambos os lados dos associados contam com a “comunicação social” (OCS) avençada para lavagens ao cérebro em massa e em sessões contínuas, encenando e repetindo ad infinitum pretensos episódios de “racismo” e “xenofobia”.
  4. Seleccionados os alvos (OCS, ensino básico, academias e demais instituições subsídio-dependentes, públicas ou privadas) e estabelecidas as prioridades do «processo de apagamento da identidade portuguesa em curso», procederam os governantes e seus assalariados ao estabelecimento do “fato consumado” e avançam agora para… as consequências.
  5. Como elemento “facilitador” do plano de linguicídio e aculturação , os manobradores servem-se da lusofobia que se vitimiza para (tentar) calar qualquer tipo de oposição ao plano iniciado em 1986.
  6. Lusofobia, como aliás qualquer outra fobia (medo patológico ou aversão), é uma forma de racismo.

Sem o AO90 — a origem de toda a trama — não haveria (como, de facto, não há) “xenofobia” alguma, nem mesmo a expressamente inventada para justificar as “queixas” de auto-proclamadas “vítimas”. A verdade é que antes da imposição do absurdo (2008) não apenas jamais tinha ocorrido fosse a quem fosse a necessidade de um “acordo” como também os dois países conviviam pacificamente, os portugueses com a Língua Portuguesa e os brasileiros com uma língua própria, descendente da nossa mas que desde há muito se autonomizou e que agora já pouco ou nada tem a ver com a original.

A lusofobia é um fenómeno arreigado no subconsciente do brasileiro “médio” e o complexo de culpa do ex-colonizador, que afecta não apenas o português “médio” como — ou principalmente — a camarilha pseudo-intelectualóide nacional, formam em simbiose uma espécie de base “ideológica” para “justificar” o injustificável.

Sem o AO90, lusófobo e complexado, não teria surgido qualquer alegação de “xenofobia”, real ou imaginária. Logo, não estaria em curso um processo de feroz aculturação, a pretexto de uma pretensa expiação de culpas… inventadas.

O povo português sempre se integrou em qualquer comunidade estrangeira, mesmo as mais racistas, e sempre acolheu (e bem) imigrantes de qualquer nacionalidade, etnia e Língua — incluindo a proveniente do lado de lá do Atlântico.

Outro tanto já não se passa em sentido inverso. Nisto não há “das duas uma” porque não há duas, só há uma. Racistas são os brasileiros. Eles próprios o dizem. E escrevem. E até gritam.

De tão gritante que é a realidade.

Livro ilumina herança africana do português do Brasil

“Folha de S. Paulo” (Brasil), 30.07.22
Sérgio Rodrigues – colunista da Folha

 

[RESUMO] Novo livro da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro reforça a importância da autora no estudo das influências de línguas africanas no português falado no Brasil e oferece uma contribuição ao combate, no campo do idioma, do racismo entranhado na sociedade brasileira.

“Nós falamos um português africanizado.” O lançamento de “Camões com Dendê” (Topbooks), da etnolinguista baiana Yeda Pessoa de Castro, 84, seria um acontecimento cultural de grande magnitude em qualquer época. Neste momento de reavaliação histórica radical da herança deixada na sociedade brasileira por séculos de escravidão negra, é ainda maior.

Principal autoridade brasileira em línguas africanas, com tese de doutoramento defendida em 1976 na Universidade Nacional do Zaire (atual República Democrática do Congo), Castro destaca o quanto havia de pioneirismo em seu percurso acadêmico, àquela altura, no cenário abertamente eurocêntrico da universidade brasileira.

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A etnolinguistaYeda Pessoa de Castro, autora de ‘Camões com Dendê’
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“O CNPq me negou bolsa de doutorado, disseram que eu tinha que estudar línguas africanas em Londres”, lembrou ela em maio deste ano, ao lançar o livro no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

De tanto caminhar “na contramão da história”, como gosta de dizer, a história —que, como sabemos, é tudo menos linear — a alcançou. Combater o racismo profundamente entranhado na sociedade brasileira é e será por muito tempo uma guerra em múltiplas frentes. No campo da língua, o pensamento antirracista tem uma dívida impagável com Castro.

Trata-se da primeira intelectual brasileira a ter compreendido que o estudo da influência africana no português brasileiro exigia estudar… a África, ora vejam. O caminho que temos pela frente —aquele que, se tudo der certo, levará o Brasil a se encontrar um dia com o Brasil — é tão longo que daqui não se enxerga o fim.

No mesmo evento de maio, a etnolinguista lembrou que, em 2022, ainda não há “uma única universidade brasileira que tenha línguas africanas ou indígenas no currículo”.

Curiosamente, a autora de “Falares Africanos na Bahia: um Vocabulário Afro-brasileiro” (2001) e “A Língua Mina-Jeje no Brasil: um Falar Africano em Ouro Preto do século XVIII” (2002) seguiu em suas escolhas heterodoxas de carreira um conselho antigo — e por décadas desdenhado — de Nina Rodrigues (1862-1906), polímata maranhense cujo livro póstumo “Os Africanos no Brasil” tem o mérito do pioneirismo e a mácula dos preconceitos raciais de seu tempo.

“Deixando de lado as convicções científicas absurdas de uma época, valeu-me aquela advertência precursora de Nina Rodrigues […], ao afirmar ‘indispensável o conhecimento das línguas africanas para a determinação dos povos que as falavam’”, escreve a autora de “Camões com Dendê”, título que lhe foi sugerido pelo grande africanista Alberto da Costa e Silva.

O livro é um tijolo, um amplo balanço de carreira com suas 576 páginas divididas em duas partes de tamanho equivalente.

Analítica, a primeira metade retoma, atualiza e amplia ao longo de sete capítulos as contribuições trazidas anteriormente pela autora. A segunda metade é um sólido “Vocabulário afro-brasileiro” com cerca de 3.500 verbetes —”sendo 1.322 de base banto, 1.299 do oeste africano, yorubá e ewe-fon, 34 de origem imprecisa, 853 de formação brasileira, entre eles decalques, híbridos e regionalismos provenientes de línguas não africanas”.

Em termos de novidade, o destaque vai para o quinto capítulo, “Língua e religiosidade, binômio de resistência”. Nesse estudo da língua dos terreiros, a autora busca em traços linguísticos mais resistentes à ação do tempo, porque ritualísticos, as marcas do “maior centro de resistência e defesa cultural do negro-africano trazido para as Américas em escravidão”.

No cômputo geral, trata-se sem dúvida de um clássico instantâneo, uma obra que amplia nossa compreensão ainda incipiente da língua mestiça que falamos — e, em grande medida, também escrevemos — no Brasil. Idioma que, muito mais do que um português temperado por algumas palavrinhas pitorescas de origem africana e indígena, é estruturalmente distinto daquele que fala o ex-colonizador.

Distinto a tal ponto que Castro não hesita em se rebelar contra o subtítulo de seu próprio livro, “O português do Brasil e os falares afro-brasileiros”. O problema, para ela, está nesse hífen com que o Acordo Ortográfico nos obriga a separar “afro” de “brasileiro”, como se alguma separação fosse possível em um país onde “o que é ‘afro’ permeia, em diferentes graus de intensidade, todas as camadas da sociedade”. Ela afirma usar o tracinho “a contragosto” e com um sentimento de “revolta profunda”.

“Camões com Dendê” sustenta que a alteração do português em contato com as línguas dos mais de 4 milhões de africanos escravizados que para cá foram trazidos “se fez sentir em todos os seus componentes, léxico, semântico, prosódico, sintático e, de maneira rápida e profunda, na língua falada, o que deu ao português do Brasil um caráter próprio, diferenciado do português de Portugal, principalmente pelo vocalismo face ao consonantismo da atual pronúncia lusitana.” No sétimo capítulo, os aspectos técnicos dessa alteração são esmiuçados.

Castro não gosta de academiquês e persegue a clareza sempre que possível, o que torna o livro acessível a não linguistas. Isso está longe de significar que ele seja de leitura fácil. Na falta de um quadro de referências prévio, acompanhar a densidade das discussões exige uma curiosidade perto de insaciável, e talvez não sejam muitos os leigos interessados nas meticulosas árvores genealógicas das línguas africanas e nos mapas de sua distribuição geográfica pelo continente que compõem o primeiro capítulo.

Ao leitor não especializado, recomenda-se pular as partes que julgar áridas e buscar os muitos oásis de compreensibilidade. Sem esquecer que é justamente a profundidade da pesquisa e o rigor no debate teórico que permitem à autora apontar, na mais que legível revisão bibliográfica do sexto capítulo, os pontos onde acredita que os estudos acadêmicos brasileiros tradicionais falharam e falham na avaliação de nossa herança linguística africana —e por quê.

Castro é uma crítica veemente do que chama de “yorubacentrismo”, nascido com o já citado Nina Rodrigues, que concentrou seus estudos de campo em Salvador, e amplificado por estudiosos estrangeiros como Roger Bastide e Pierre Verger.

Como demonstra a etnolinguista, o iorubá (que ela prefere escrever com y, hoje parte do alfabeto oficial brasileiro), também chamado de nagô, língua do oeste africano, é de entrada relativamente recente no Brasil quando comparado com o kikongo, o kimbundo (com k mesmo) e o umbundo, línguas do grupo banto que nos chegaram sobretudo de Angola e que foram dominantes no Brasil Colônia.

“Calcula-se que 75% dos mais de quatro milhões de indivíduos transplantados da África Subsaariana para o trabalho escravizado no Brasil […] foram trazidos do mundo banto-falante”, escreve.

Tratadas com relativo menosprezo pela tradição acadêmica brasileira, inclusive por serem ágrafas, essas línguas compuseram o solo em que, segundo outra tese da autora, o português antigo e os idiomas dos escravos puderam se misturar e entrar em “entendimento” sem dar origem a uma língua crioula —hipótese defendida por outros autores— como a que nasceu em Cabo Verde.

Segundo Castro, isso ocorreu devido uma “similitude casual, mas notável, da estrutura do substrato linguístico banto com o português seiscentista e arcaizante”. É uma tese que “Camões com Dendê” defende com garbo, não uma verdade escrita na pedra.

Como observa a autora, “a discussão em torno das diferenças que afastaram o português do Brasil do português de Portugal ainda continua aberta“. Depois desse livro, contudo, será mais difícil defender que o afastamento se deveu apenas a fatores internos da língua de Camões — ou seja, inteiramente brancos.

“Se as vozes dos quatro milhões ou mais de indivíduos escravizados, falantes negro-africanos, que foram trazidos para o Brasil ao longo de quatro séculos consecutivos, não fossem abafadas em nossa História por descaso e preconceito acadêmico“, afirma, “não haveria dúvida de que a consequência mais direta daquele tráfico foi a alteração da língua portuguesa seiscentista e das caravelas, na antiga Colônia sul-americana”.

Camões com Dendê: o Português do Brasil e os Falares Afro-brasileiros

Preço R$ 92,90 (576 págs.)
Autor Yeda Pessoa de Castro
Editora Topbooks

 

[Transcrição integral de artigo publicado no jornal
“Folha de S. Paulo” (Brasil) em 30.07.22.
Sérgio Rodrigues – colunista da Folha. Com a cacografia brasileira
do original publicado no Brasil. Destaques e “links” (a verde) meus.]

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-14/nao-se-pode-pensar-a-democracia-real-no-brasil-se-o-racismo-nao-for-um-ponto-central.html?rel=mas

People protest racism and hate crimes during a Black Lives Matter demonstration in Sao Goncalo, Brazil, Friday, June 5, 2020, spurred by the death of a 14-year-old black youth who was killed inside his home during a police operation. (AP Photo/Silvia Izquierdo) [jornal “El Pais” (Brasil)

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