Independência ou morte

O chamado “grito do Ipiranga”. Diz a lenda que em 7 de Setembro de 1822, nas margens de um riacho, o Ipiranga, D. Pedro (filho de Rei português) proferiu em voz alta aquilo que viria a ser considerado como o mote para a independência do Brasil.

Com o aproximar do dia 7 de Setembro, também conhecido pelos brasileiros como “Dia da Independência do Brasil”, “Sete de setembro[sic]” e “Dia da Pátria”, movimentam-se cada vez mais e com maior intensidade as forças políticas que também do lado de cá apoiam uma das facções em confronto no “gigante” sul-americano.

Apesar de todas as “notícias” sobre o assunto e os artigos de “opinião” ou de pura propaganda a pretexto da data serem, por conseguinte, do mais puro e duro viés político-partidário, jamais atendendo a qualquer tipo de relato histórico com um mínimo de rigor, ainda assim podemos tentar filtrar, de entre o emaranhado palavroso-propagandístico eivado de insultos a Portugal, alguns dados soltos com interesse para o entendimento cabal daquilo que se vai passando em Portugal em benefício dos interesses do Brasil.

El-Rei D. Pedro IV de Portugal, Duque de Bragança, Imperador do Brasil

A forma politicamente vesga e sociologicamente cavernícola como a nomenklatura tuga trata (d)os assuntos brasileiros reflecte-se claramente na inacreditável sucessão — em quantidade, extensão e número de envolvidos — de peças “jornalísticas” sobre a data em que, segundo não rezam as crónicas mas muito repetem alguns nas suas, Portugal deixou de “explorar” os brasileiros, de “roubar” o ouro “deles” e de cometer genocídio (!!!) sobre os povos indígenas lá dos sertões e das florestas amazónicas.

Estribados numa pretensa superioridade do Brasil e dos brasileiros em relação ao “colonizador explorador e torcionário”, essa alucinação rapidamente resvalou ainda mais para baixo, para uma forma de desprezo pelas reais origens daquele país, para a hostilização sistemática dos portugueses em geral e para uma verdadeira sanha persecutória quanto a tudo aquilo que mesmo se remotamente lhes cheire a “terrinha”. Este absurdo e insuportavelmente insultuoso preconceito está já estudado, se bem que mal, e dicionarizado, neste caso muito bem: lusofobia. Um tipo de racismo, portanto, como claramente denota o sufixo, um exclusivo que brasileiros dedicam a Portugal.

Tão insustentável abjecção — não apenas terminológica — é absolutamente única, no conjunto das nove ex-colónias portuguesas espalhadas pelo mundo. No entanto, nem o facto de este fenómeno ser exclusivamente brasileiro serve ao menos como atenuante ou simples motivo de reflexão para boa parte dos nossos compatriotas, em especial os políticos, os bajuladores profissionais (mais aqueles que sonham com o “mercado brasileiro” ou miragens do género), os imitadores compulsivos, os maluquinhos da bola e outros indiferenciados de nacionalidade duvidosa e carácter nenhum.

https://made-portugal.blogspot.com/2017/09/a-historia-do-coracao-de-d-pedro-iv.html

Vaso com o recipiente em que está conservado o coração de D. Pedro (igreja da Lapa, Porto)

A campanha mais recente, no âmbito do rápido esganamento lusofóbico, diz respeito ao coração do Rei D. Pedro IV de Portugal, simbolicamente legado pelo próprio à cidade do Porto — não à edilidade, note-se, e muito menos ao presidente da dita –, que vai já servindo como arma de arremesso político para efeitos de promoção individual (ou de seita, por junto), no que ameaça transformar-se em mais uma telenovela brasileira ao estilo mexicano, ou seja, com milhares de episódios cuja finalidade única é ir entretendo o pagode.

Parece já certo, porém, porque assim decidiram uns fulanos quaisquer, que depois de tronco e membros também o músculo cardíaco do antigo Imperador português do Brasil andará em bolandas de cá para lá e, assim esperemos com fervor, igualmente de volta, de lá para cá. Pobre coração, pobre Rei aquele, que nem depois de morto vai para dois séculos tem paz e sossego. Ao que parece, tão intensos são os apetites necrófilos — os pátrios e os importados –, o lapidar Requiescat In Pace (RIP) não se aplica a D. Pedro; por aí anda ele aos pedaços (ou pedaços dele), contrariando a máxima popular “quem lhe comeu a carne que lhe roa os ossos”, já que no seu caso a ordem dos factores está invertida, foram primeiro os ossos.

Sobre esta espécie de tortura necro-histórica estão abaixo transcritos dois textos basto ilustrativos (se bem que pouco ou nada ilustres).

O primeiro, muito curto, é um simples “postal” da agência Brasilusa dando aparentemente conta dos planos já determinados e em curso, incluindo o facto de estar planeado o transporte do órgão a bordo de uma aeronave da Força Aérea Brasileira. Não sendo especialista em questões protocolares — a começar pelas dúvidas sobre o total ineditismo deste tipo de ida-e-volta — parece-me, no entanto, perfeitamente legítimo duvidar de que seja assim tão usual uma unidade militar estrangeira, fora do seu próprio território, zona marítima ou espaço aéreo, recolher património nacional de um país independente no território deste. A Força Aérea Portuguesa não tem aviões? Essa manobra da FAB não poderia ser encarada como provocação pela FAP, por exemplo?

Lula da Silva “Doutor” Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, Março 2011

O segundo texto, da mesma agência Brasilusa (porque será?), apesar de extenso, merece algum “investimento” em tempo e sobretudo em paciência. Ambos os investimentos serão com certeza recompensados, tal é a quantidade de alçapões partidários e de tal forma é evidente o monolitismo político, sempre monotonamente estrábico, de que dão bastas mostras os seleccionados — segundo os mesmos critérios zarolhos — para depor a sua fé inquebrantável nos méritos do impecável Lula, esse ilustre doutorado pela Universidade de Coimbra. Embora a dita selecção tenha liminar e consequentemente excluído o outro candidato que também pretende alojamento gratuito no Palácio da Alvorada, na capital brasileira, ficamos cientes — como se interessasse para alguma coisa o caldo político brasileiro, as suas caldeiradas, peixeiradas e outros cozinhados — de que afinal o coração de D. Pedro IV de Portugal irá servir no Brasil como acepipe da comezaina: ganhe quem ganhar o “aluguéu”, bem poderiam as “autoridades” portuguesas ao menos ter o cuidado de que Portugal não se imiscua nos assuntos internos brasileiros ou não se embarace nos problemas intestinos lá do “pedaço”.

Ainda que sejam curiais alguns itens do argumentário contra a transladação, as pessoas que os apresentam ralam-se tanto com o órgão como com a memória daquele monarca em particular ou, de resto, com a verdade histórica da colonização portuguesa do Brasil. Ou com a verdade tout court.

Entre os anos de 1500 e 1822, segundo a versão comummente pregada (e ensinada) naquele “país-continente”, os portugueses apenas destruíram e saquearam, não fizeram mais do que escravizar o “povo”, chegando mesmo à terminal fase de “genocídio” ao estilo nazi.

É-nos sistematicamente impingida a narrativa do horrível “pecado original” cometido por Pedro Álvares Cabral, dos 300 anos sob o feroz jugo de reis sanguinários, D. João IV, D. Afonso VI, D. Pedro II, D. João V, D. José, D. Maria I, D. João VI, da “opressão” selvaticamente imposta por uns quantos “estúpidos” e “atrasados”, como, por exemplo, Pero Vaz de Caminha, o padre António Vieira ou Bartolomeu de Gusmão. Por todos estes pecados capitais estamos nós outros, portugueses, para a eternidade condenados a arder nas chamas do Inferno.

E muito caladinhos, porque se não…

Coração de D. Pedro exposto no Porto antes de ser transladado para o Brasil

Autarquia e Irmandade da Lapa acordaram mostrá-lo na Igreja da Lapa nos dias 20 e 21 de Agosto, em horário ainda a determinar.

“Público”/Lusa, 28 de Julho de 2022

 

O coração de D. Pedro vai estar em exposição na Igreja da Lapa, no Porto, antes da sua transladação para o Brasil, a 21 de Agosto, no âmbito das comemorações do bicentenário da independência, adiantou esta quinta-feira a autarquia.

Segundo a Câmara do Porto, o coração do rei vai estar em exposição nos dias 20 e 21 de Agosto na Igreja da Lapa, fruto de uma colaboração entre a autarquia e a Irmandade da Lapa, estando o horário ainda a ser definido pelas duas instituições.

O coração de D. Pedro deverá ser transladado durante a noite do dia 21 de Agosto para o Brasil, revelou ainda a autarquia, adiantando que falta apenas a confirmação por parte da Força Aérea Brasileira (FAB).

O órgão chegará no dia 22 de Agosto ao Palácio Planalto, em Brasília, onde será recebido com “honras militares”.

Depois da cerimónia, o coração será transportado para o Palácio Itamaraty, também na capital brasileira, onde ficará em exibição “controlada” até às comemorações do bicentenário da independência do país, a 7 de Setembro, regressando depois ao Porto, onde se prevê que chegue a 9 de Setembro.

A 30 de Maio, o embaixador brasileiro George Prata, um dos coordenadores das comemorações, anunciou que o governo do seu país tinha enviado um pedido oficial a Portugal para a trasladação do coração de D. Pedro.

A 22 de Junho, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, anunciou que a autarquia autorizaria a transladação temporária do coração para o Brasil, embora esta ficasse ainda dependente de pormenores de transporte e segurança a acertar com as autoridades brasileiras. E a 18 de Julho o executivo autárquico aprovou por unanimidade uma proposta que autoriza a transladação através da celebração de um contrato de comodato a celebrar com o governo brasileiro.

[Transcrição integral. Destaques e sublinhados meus.
Cacografia brasileira do original corrigida automaticamente.]

“Deixem o coração de D. Pedro no Porto”, pedem intelectuais brasileiros

Historiadores, escritores e filósofos brasileiros criticam a autorização da Câmara do Porto de trasladar para o Brasil o coração de D. Pedro IV. Rui Moreira é acusado de desrespeitar e ofender a memória do primeiro imperador daquele país. E dizem que o autarca pode tornar-se “um actor coadjuvante” de uma “manifestação golpista” de Jair Bolsonaro nas celebrações do bicentenário da independência do Brasil.

Adriana Negreiros – “Público”, 31 de Julho de 2022

Quando leu a notícia de que o coração de D. Pedro IV seria trasladado de Portugal para o Brasil, a arqueóloga e historiadora brasileira Valdirene Carmo Ambiel temeu o pior. A primeira imagem que lhe veio à mente foi a do Monumento à Independência, em São Paulo, onde estão guardados os restos mortais de D. Pedro e das suas duas esposas, as imperatrizes Maria Leopoldina e Amélia Leuchtenberg — o monarca casou-se com a segunda em 1829, três anos após a morte da primeira. Desde 2013 — ano em que defendeu dissertação de mestrado em Arqueologia na Universidade de São Paulo (USP) sobre os restos humanos dos primeiros imperadores do Brasil — que Ambiel chama a atenção para o estado de conservação do monumento, “construído numa região de aterro e próximo ao riacho do Ipiranga”. Foi nas margens do riacho que D. Pedro declarou a independência do Brasil, em 7 de Setembro de 1822. Segundo Ambiel, devido ao relevo natural do terreno, aquela construção sofre há décadas de infiltrações: a água da chuva acumula-se na parte superior do monumento e desce para o subsolo, onde está a Cripta Imperial com os corpos de D, Pedro, D. Leopoldina e D, Amélia. “A humidade pode provocar danos irreversíveis aos restos mortais”, adianta.

Foi por isso que Valdirene Ambiel estremeceu ao ler que o coração de Dom Pedro IV estava prestes a atravessar o Atlântico — um pedido do Governo do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para as celebrações do bicentenárioda independência. Decidiu, então, fazer o que estivesse ao seu alcance para impedir o traslado, autorizado em Junho pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, guardião do órgão. A primeira iniciativa foi protestar através das redes sociais. “Se não conseguimos fornecer o mínimo de respeito e dignidade ao corpo de D. Pedro, qual o sentido em trazer seu coração, mesmo que por pouco tempo?” escreveu, no final de Junho, num post do Instagram. Também concedeu entrevistas, distribuiu imagens que comprovam a infiltração no Monumento à Independência e antecipou informações de uma nova investigação em curso, cujo resultado trará a reconstituição facial dos três imperadores. O trabalho está a ser feito a partir de imagens tomográficas dos crânios e terá um alto grau de realismo, promete Ambiel.

Todas as iniciativas, afirma, são em nome do “respeito à memória do ser humano”. Para a arqueóloga, o mesmo cuidado deveria ser dado à vontade do próprio D. Pedro. Antes de morrer, ele pediu que o seu coração fosse doado à cidade do Porto. O gesto foi um agradecimento à resistência da população, que defendeu o monarca durante o Cerco do Porto, entre Julho de 1832 e Agosto de 1833. Nessa altura, o exército liberal de D. Pedro venceu as tropas absolutistas do irmão D. Miguel. “Quando estive no Porto, em 2015, pude constatar o respeito que há pela figura do monarca na cidade”, conta Ambiel. “Essa cumplicidade deve ser respeitada.”

“Projecto ridículo e risivel”

Aldirene Carmo Ambiel não é a única investigadora brasileira a opor-se à ida do coração de D. Pedro IV para o Brasil. Há, entre historiadores, escritores, filósofos e outros intelectuais uma forte reacção adversa à iniciativa. Essa resistência é expressa de duas maneiras principais. A primeira, na forma de uma dura crítica à solicitação da presidência de Jair Bolsonaro, acusado de usar o coração do imperador do Brasil para fazer do Sete de Setembro — o feriado da independência — um “grande espectáculo da pujança dos militares”, nas palavras da historiadora Lilia Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Ela é autora de 19 livros, entre os quais ‘O Sequestro da Independência: uma história da construção do mito de Sete de Setembro‘, em co-autoria com Carlos Lima Jr. e Lúcia Stumpf, que será lançado no Brasil no dia 5 de Agosto. “O empréstimo do coração é um projecto ridículo e risível”, afirma Schwarcz. “O Governo brasileiro aposta no aumento das armas e da morte. Somente um Governo que se guia pela ideia de que a violência é intrínseca pode fazer tal espectáculo de um órgão.”

A segunda reacção dos pensadores brasileiros expressa-se num sentimento de decepção com as autoridades portuguesas por terem atendido ao pedido do Governo de Bolsonaro, Esse desapontamento é endereçado sobretudo à figura de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto. Para o escritor Laurentino Gomes, autor dos best-sellers ‘1808’, ‘1822’ e ‘1989′ (Porto Editora) e da recém-concluída trilogia ‘Escravidão’ (o primeiro volume saiu em Portugal pela Porto Editora, em 2021), a biografia de Moreira “corre riscos”. “Rui Moreira, que conheço e admiro há anos, já anunciou que pretende acompanhar pessoalmente a viagem do coração de D. Pedro ao Brasil. Sinto informá-lo que são grandes as chances de que se torne um actor coadjuvante em uma manifestação golpista do Presidente Jair Bolsonaro”, afirma o escritor, para quem a decisão da Câmara do Porto foi “ingénua e precipitada”. O P2 pediu esclarecimentos à Câmara do Porto, que não respondeu, e à Irmandade da Nossa Senhora da Lapa, que remeteu para a autarquia.

Gomes afirma que, recentemente, durante “a Bienal Internacional do Livro de São Paulo “(na qual Portugal foi o país homenageado), “Bolsonaro humilhou publicamente” o Presidente da República de Portugal. “Bolsonaro não compareceu ao evento e “desconvidou” Marcelo Rebelo de Sousa para um almoço programado em Brasília. Não terá qualquer prurido em fazer o mesmo com o presidente da Câmara do Porto. Para mim, seria penoso ver, uma vez mais, um representante da democrática República Portuguesa passar por um constrangimento dessa natureza”, avalia Gomes.

A historiadora brasileira Isabel Lustosa, investigadora integrada na Universidade Nova “de Lisboa e autora, entre outros livros, da biografia D. Pedro I: Um Herói sem Nenhum Caráter’ – (Companhia das Letras, 2006), também não “compreende os motivos pelos quais as autoridades portuguesas concordaram com o pedido do Governo brasileiro. “É surpreendente que Portugal tenha agido assim”, lamenta a historiadora, convicta de que o recomendável seria fazer-se a última vontade do monarca e manter o coração no Porto.

[legenda de foto]
Indignação
O coração de D. Pedro |V está depositado na Igreja da Lapa, no Porto. Em Junho, o presidente da câmara municipal, Rui Moreira, autorizou a – trasladação do órgão para o Brasil. A decisão do autarca provocou um misto de incredulidade e indignação entre muitos intelectuais brasileiros []

Ao contrário do que muitos afirmam, D. Pedro não deixou registado por escrito o desejo de que o órgão permanecesse na cidade. Em nenhum dos seus dois testamentos — um assinado em Paris em 21 de Janeiro de 1832; o outro finalizado em Lisboa em 14 de Setembro de 1834, dez dias antes de morrer — há recomendações quanto ao destino dos seus órgãos. No entanto, os historiadores confiam nos relatos dos que testemunharam os momentos finais do monarca. No leito de morte, conforme relata Otávio Tarquínio de Sousa no terceiro tomo de ‘A Vida de D. Pedro I’, lançado em 1952 e reeditado em 2009 pelo Senado Federal do Brasil, D. Pedro recomendou à esposa, D. Amélia, “que fosse o seu coração embalsamado e oferecido ao Porto, em testemunho da mais pura gratidão”.

“As palavras de D. Pedro foram testemunhadas por seus contemporâneos, pelos que acompanharam a sua agonia, e a história reconhece o pedido como seu último desejo”, reforça Isabel Lustosa, convicta de que não há razões para duvidar da autenticidade dos laços entre o monarca e o Porto. “Perto de morrer, ele quis viajar para a cidade. O Porto foi fundamental na história de vida do imperador e do homem. A “experiência dramática da guerra, na qual lutou bravamente, revelou-lhe valores que, talvez, nem [o próprio] soubesse tê-los”, avalia.

“Desrespeito e ofensa à memória de D. Pedro”

Para Laurentino Gomes, ao dizer “sim” ao Governo brasileiro, “a câmara de certa forma desrespeitou a vontade de D. Pedro e ofendeu a sua memória”. Diante do pedido de empréstimo, “feito à última hora e de forma atabalhoada”, as autoridades portuguesas “deveriam ter sido mais corajosas” e dito “não”. O escritor salienta que o coração é uma relíquia frágil, cuja preservação recomenda que não seja retirado da Igreja da Lapa, onde está conservado em formol e guardado a cinco chaves. “Só isso já serviria de justificação para que a Câmara Municipal do Porto recusasse o pedido do Governo Bolsonaro. Não haveria ofensa alguma ao povo brasileiro. Todos entenderiam perfeitamente a delicadeza da situação”, analisa. E alerta que “o preço a ser pago por essa imprevidência se verá na Esplanada dos Ministérios de Brasília no dia 7 de Setembro”.

Até ao momento, no entanto, o Governo brasileiro ainda não tem planos definidos para o coração. Não se sabe o que será feito ao órgão nem em que tipo de cerimónias será usado. Ao P2, a assessoria de comunicação do Ministério das Relações Exteriores disse que a programação “específica a ser cumprida durante a permanência do coração está sendo negociada com a parte portuguesa”, informou ainda que “a vinda do coração será oportunidade para que os brasileiros possam homenagear a figura central no processo de independência do pais”. Entusiasta da ideia de imaginar desdobramentos possíveis para a história — é autor do recém-lançado ‘A Neve Quente dos Trópicos: O Brasil sem a Família Real’ (U. Porto Press), romance sobre o que teria acontecido ao Brasil se a família real portuguesa não tivesse embarcado para lá em 1807 — o filósofo Renato Janine “Ribeiro torce para o coração não ser exposto publicamente. “Vi as fotografias e não é uma coisa bonita”, relata. “Não consigo imaginar crianças e adolescentes animados para ver um coração que parou de bater há quase dois séculos”, prossegue o filósofo, que foi ministro da Educação da Presidente Dilma Rousseff e, actualmente, é professor sénior da USP e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Ribeiro associa o pedido do Governo Bolsonaro ao ocorrido em 1972, quando os restos mortais — menos o coração — foram enviados para o Brasil a pedido do general Emílio Garrastazu Médici, então Presidente. O país vivia, à época, um dos momentos da maior e mais violenta repressão contra os adversários da ditadura militar. O pedido de Médici, assim como o de Bolsonaro, foi feito no âmbito das celebrações pelo aniversário da independência, que então completava 150 anos. O actual Presidente do Brasil é um admirador dos ditadores que comandaram o país entre 1964 e 1985. Em 2016, pouco antes de ser eleito, disse em entrevista a uma rádio local que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”.

A negociação entre o Estado Novo português — cujo Presidente, em 1972, era o também militar Américo Tomás — iniciou-se, na ocasião, com maior antecedência do que agora. Na noite de 13 de Agosto de 1971, Médici foi à televisão anunciar o acordo com as autoridades portuguesas. O professor Janine Ribeiro conta que havia, entre os brasileiros, grande expectativa de que, nessa altura, o Presidente anunciasse uma amnistia para os perseguidos pela ditadura. Ansiava-se pelo anúncio de medidas que permitissem o regresso ao Brasil de exilados políticos. “Em vez disso, ele anunciou a vinda de um cadáver, o corpo do imperador. Foi uma decepção. Ao invés de vida, morte”, descreve Ribeiro.

Quase um funeral

Em 1972, os despojos de D. Pedro cruzaram o Atlântico a bordo do navio Funchal, que partiu do Cais de Alcântara, em Lisboa, num final de dia frio e cinzento, a 10 de Abril. “A despedida foi protocolar, formal”, narrou o jornalista carioca Humberto Borges, enviado especial do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, à capital portuguesa. “O locutor da Radiotelevisão Portuguesa tentava descrever o embarque dos restos mortais do imperador como uma cerimónia que houvesse deslumbrado Lisboa. E as imagens desfilavam, bem filmadas, teimando em desmenti-lo”, ironizou, num texto publicado na edição de 23 e 24 de Abril daquele ano.

Numa cerimónia descrita pelo repórter como “curta e simples” cerca de 50 curiosos presenciaram o momento em que oficiais da Marinha portuguesa conduziram o esquife com o corpo de D. Pedro ao interior do navio. Naquele momento, foram executados os hinos do Brasil e de Portugal e os navios de escolta dos dois países deram salvas de canhão ao rei daqui e imperador de lá.

[legenda de imagem]
Coroação e preservação
Em baixo, quadro de Jean-Baptiste – Debret sobre a coroação de D. Pedro como imperador do Brasil, no dia 1 de Dezembro de 1822. Ao lado, o Monumento à Independência, em São Paulo, onde estão guardados os restos mortais de D. Pedro e das suas duas duas esposas. O monumento apresenta vários problemas estruturais, diz a arqueóloga Valdirene Ambiel []

A bordo da embarcação estavam 400 pessoas, entre os quais o Presidente Américo Tomás — e a sua comitiva de 52 convidados — jornalistas, auxiliares, militares e tripulantes. “Quatrocentas pessoas e um esquife”, dizia, com ironia, um texto publicado no Jornal do Brasil a respeito da viagem. Nos 12 dias a bordo, “os viajantes dividiam-se entre o ímpeto de buscar algum prazer no trajecto e o respeito à presença do morto. “Para encher o tempo, apesar de ser sempre lembrado que se trata de quase um funeral e de que a viagem não deveria ter qualquer cunho de diversão, foi instituído o bingo vespertino, na hora do chá”, lia-se na reportagem. Além disso, os convivas distraíam-se com cafés, licores e passeios nos convés, onde ocorriam verdadeiros desfiles de moda, “com Diers, Valentinos e Balenciagas” a exibir-se para os integrantes menos nobres do navio, intimidados nos seus “surrados paletós enxadrezados”.

Um caixão grande

O Funchal aportou no Rio de Janeiro às 8h50 do dia 22 de Abril – não à toa, data em que, em 1500, os portugueses chegaram ao Brasil. Foram 270 horas e 50 minutos de navegação, com uma parada para abastecimento em Porto Grande, em Cabo Verde, no dia 14 de Abril – no total foram gastas 800 toneladas de combustível.

A chegada, ao contrário da partida, atraiu uma multidão de curiosos ao Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, sítio da cerimónia de entrega dos restos mortais. A população presente ao evento foi estimada, na data, em cerca de 12 mil pessoas. O esquife foi recebido por uma guarda de honra formada por fuzileiros dos dois países. Aviões da Esquadrilha da Fumaça brasileira cruzaram o céu, fazendo acrobacias e soltando jactos de fumo verde e amarelo ou verde e vermelho, numa referência às cores das bandeiras de Brasil e Portugal.

No discurso durante a cerimónia, o Presidente brasileiro Garrastazu Médici fez menção ao coração de D. Pedro: “Os seus despojos mortais estarão divididos, doravante, entre a cidade do Porto e a cidade de São Paulo, como divididos estiveram sempre o seu espírito e o seu afecto entre as duas pátrias que igualmente amou”. Lembrou, durante o pronunciamento, que “o Cerco do Porto e o Grito do Ipiranga — os dois maiores momentos de sua grande vida — marcaram o seu destino histórico”.

Entre Abril e Setembro, os restos mortais de D. Pedro fizeram uma excursão pelas principais cidades brasileiras: sendo sempre recebidos com honras militares. No dia 6 de Setembro, véspera do feriado nacional, foram conduzidos num carro de combate do Exército brasileiro até o Monumento à Independência, em São Paulo. Neste espaço, já estava guardado, desde 1954, o corpo de D. Leopoldina (o de D. Amélia chegaria em 1982). O então presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Marcello Caetano, acompanhou a cerimónia, que teve um desfecho, no mínimo, constrangedor: o caixão de D. Pedro era maior do que o espaço destinado a ele no sarcófago de granito da Cripta Imperial.

“Esse foi um problema que durou vários anos”, relata a arqueóloga e historiadora Valdirene Ambiel na sua dissertação sobre os restos mortais dos imperadores. “Em 1975, a urna funerária ainda não havia sido depositada no sarcófago, o que foi criticado pelas autoridades portuguesas. Parece não ter havido preocupação com os remanescentes humanos, mas apenas com o personagem, usado como propaganda política“, critica.

Para a historiadora Lilia Schwarcz, “tudo funciona na lógica de que a história se repete como farsa, depois como tragédia.” Ela afirma que, como ocorrido meio século atrás está-se diante de uma celebração do Sete de Setembro em uma “versão mórbida”. Mais uma vez, na análise de Schwarcz, o Governo procura defender a visão segundo a qual o processo de independência do Brasil ocorreu de maneira “ordeira, pacífica e sem povo”, atribuindo protagonismo a D. Pedro.

“No Brasil, a figura de D. Pedro é controversa. E há-de ser. Entre 1822 e 1831, quando foi forçado a abdicar do trono, a popularidade dele foi por água abaixo. Ele impôs uma Constituição — de 1824 —, reprimiu qualquer manifestação contra a monarquia e teve de sair do pais devido à pressão dos brasileiros”, diz Schwarcz. Esta historiadora defende que em vez de homenagear a figura do imperador, como propõe o Ministério das Relações Exteriores, o Brasil deveria estar preocupado em “entender a independência de forma crítica e reflexiva”.

Sequestro dos símbolos nacionais

Até agora, o traslado do coração de D. Pedro foi a única iniciativa anunciada pelo Governo brasileiro para o bicentenário da independência — o vértice das comemorações, em tese, deve ocorrer no feriado de Sete de Setembro. A aproximação da data tem sido motivo de preocupação em alguns sectores da sociedade brasileira — especialmente entre os críticos do Presidente Jair Bolsonaro. As eleições presidenciais estão marcadas para o dia 2 de Outubro, 25 dias após o feriado. Na convenção que oficializou a sua candidatura à presidência, Bolsonaro convocou os seus apoiantes a saírem para as ruas “pela última vez” e pediu aos presentes que repetissem a seguinte frase: “Eu juro dar a minha vida pela liberdade.”

[legenda de (3) fotografias]
D. Pedro às voltas
Em cima; Rui Moreira com o coração de D. Pedro, em 2015. O autarca tem sido o principal alvo das críticas, por ter autorizado o empréstimo do “real” órgão ao Brasil. Para Laurentino Gomes, a decisão foi “ingénua e precipitada”. No topo, à dir., momento da chegada dos restos mortais de D. Pedro ao Rio “de Janeiro, em 1972. Ao lado, leito de – morte de D. Pedro, em 1834 []

O discurso teve ampla repercussão nos media e foi compreendido como mais uma ameaça do Presidente de inviabilizar o processo eleitoral. A suspeita havia sido reforçada em outro “acontecimento recente, quando Jair Bolsonaro se reuniu com embaixadores brasileiros e atacou a segurança das urnas electrónicas e o Supremo Tribunal Federal. Para Laurentino Gomes, é nesse contexto que a biografia de Rui Moreira corre riscos. “Desde que assumiu o Governo, o Presidente brasileiro sequestrou os símbolos e as datas cívicas nacionais, que sistematicamente tem usado para atacar as instituições democráticas. Fará isso novamente no dia 7 de Setembro”, “prevê.

“Ao contrário de celebrações de carácter ufanista, usadas como palco para manifestações golpistas e antidemocráticas do actual Governo, Brasil e Portugal poderiam aproveitar o bicentenário para reflectir em maior profundidade sobre as injustiças, as dores e sofrimentos do passado”, sugere o escritor. É a mesma opinião de Renato Janine Ribeiro, para quem o bicentenário seria uma boa oportunidade para que os dois países revisassem o tratado de dupla nacionalidade. “Não há festas “populares, colóquios, exposições em museus, obras públicas sendo entregues, livros sendo lançados. Em vez disso, temos uma agenda necrófila com ameaças à democracia. Democracia é vida e ditadura é morte.”

Se, em 1972, o corpo de D. Pedro 12 dias para chegar ao Rio de Janeiro, o coração levará cerca de dez horas para atravessar o Atlântico. Voará num avião da Força Aérea Brasileira, na companhia de Rui Moreira, caso tudo corra conforme o combinado. Até lá, a Prefeitura de São Paulo espera ter concluído as reformas no Monumento à Independência, de modo a reparar os defeitos hidráulicos e eléctricos que, na avaliação de Valdirene Ambiel, têm colocado a integridade dos restos mortais dos imperadores em risco.

[Transcrição integral. Destaques, “links” (a verde) e sublinhados meus.
Cacografia brasileira do original corrigida automaticamente.
As imagens não foram deliberadamente reproduzidas.]

[Imagem de topo: Por Pedro Américo – Martins, Lincoln. Pedro Américo: pintor universal.
Brasília, Federal District: Fundação Banco do Brasil, 1994 ISBN 85-900092-1-1, Domínio público.
Fotografia de imagem de D. Pedro IV: Portrait of_Dom_Pedro_Duke_of_Braganca-Google_Art_Project.
Fotografia de recipiente de: “Made in Portugal“. Destaques, sublinhados e “links” (a verde) meus. ]

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