Mês: Outubro 2022

«Está nas nossas mãos» [Internet Archive]

Explore more than 753 billion web pages saved over time

Na imagem acima, o registo da Wikipédia portuguesa que hoje em dia é… brasileira, pois claro: transformou-se na “Wikipédjia Lusôfuna“. Diversos outros exemplos de teor semelhante — e igual eficácia — poderiam ser aqui e agora citados, apenas naquilo que diz respeito aos conteúdos do Apartado 53 (e do “site” original da ILCAO), sobre a forma como aquele extraordinário serviço corta pela raiz qualquer veleidade dos mitómanos patológicos na sua saga de reescrita da História. Enquanto funcionar, a WayBack Machine impossibilita que mentirosos profissionais neguem ter dito ou escrito o que escreveram ou disseram, assim como permite que o mais comum dos utilizadores siga o rasto, toda a história, incluindo eventuais alterações, mudanças ou até o desaparecimento, de qualquer documento, página, gravação, “website”, plataforma ou serviço.

Os vendidos da ordem e os idiotas úteis do costume continuam a negar a realidade e nem esfregando-lhes provas no focinho irão alguma vez admitir a mais comezinha das evidências, uns, ou finalmente acordar para a realidade, outros. Por exemplo, apesar de também isso negarem, como negam tudo o que não convém aos seus patrões, os donos da “língua univérrsau”, o processo de apagamento selectivo da História e da Cultura de Portugal não ocorreu “apenas” na Wikipédia ex-portuguesa, mas também em serviços tão diversos e plataformas tão diferentes como a Google ou os diversos “browsers” (Chrome, Firefox e outros), todas as redes anti-sociais (Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin etc.), os “sistemas operativos” de computadores e até dos telemóveis, mais os programas de trabalho de uso generalizado (processamento de texto, Excel).

Sempre a coberto das falácias mais imbecis (o que confere, atendendo a quem as propaga e quem lhes dá ouvidos), da “língua univérsau” ao “mundô dá lusôfuniá”, passando pelo mercado único “de 280 milhões de falantes” de brasileiro, aquela gentinha continua a propagandear — com o apoio activo dos caciques tugas (PR, PM, Governo, deputados) — os putativos méritos da aniquilação da Língua Portuguesa a troco do “valor económico da língua” brasileira.

Pois se quanto a computadores pessoais a “lei” da obsolescência torna difícil comprovar que tudo aquilo que cheirasse vagamente a Português (ou a português, adjectivo) foi e continua a ser metódica e selvaticamente eliminado por acordistas e outros desgraçados, já quanto aos conteúdos da Internet não é assim, felizmente: não tendo o exclusivo absoluto — algumas secretas fazem o mesmo nos seus “inexpugnáveis” servers –, o serviço de Internet Archive é o único verdadeiramente à disposição de qualquer pessoa.

Esta WayBack Machine é ainda uma das já escassas ferramentas ao serviço da sociedade civil, à escala global, incluindo a defesa dos direitos, liberdades e garantias individuais outrora constitucionalmente protegidos… nos bons velhos tempos em que a Constituição tinha algum valor.

Das referidas prerrogativas básicas, agora servindo apenas para tiro-ao-alvo de agentes, delatores e provocadores por conta dos donos disto tudo, como sejam a liberdade de opinião e o direito ao livre pensamento, a única hipótese de defesa — conviria talvez tentar decifrar o que não está, por motivos óbvios, expresso na formulação — é a confrontação utilizando… factos. Isto é, no cada vez mais improvável caso de haver querela judicial, então quem for acusado apenas poderá defender-se expondo as contradições, denunciando as mentiras da acusação. Quanto à presumível idoneidade do juiz em semelhante litígio — que julgará em causa própria, bem entendido –, bom, esmiuçar isso talvez seja para já um pouco extemporâneo. Lá iremos, em podendo.

A verdade é que do chamado “estado de direito democrático”, sem quaisquer maiúsculas, note-se, já pouco resta de democrático, de direito sobram apenas as letras, muita conversa e alguns “pareceres”, e quanto ao Estado propriamente dito estamos mais do que conversados. A instauração metódica de um regime de pensamento único, a feroz ditadura da linguagem politicamente correcta e, por fim, a imposição ditatorial de uma língua (logo, de uma cultura) estrangeira, são tudo coisas que não auguram nada de bom. Qual banda do Titanic que estivesse agora mesmo entoando uma marcha fúnebre.

“E então o que se pode fazer?”

Bem, algumas coisas. Pequenas coisas. Muitas pequenas coisas não é coisa pequena.

Neste caso, por exemplo, apoiando o Arquivo da Internet. Afinal, quem lá trabalha só pede ajuda para continuar a ajudar toda a gente…

Dear Patron,

A little while ago, I asked you to make a donation to the Internet Archive, and you said “maybe later.” Now more than ever before, we need your help—will you support a library you can trust?

CHIP IN

They’re trying to change history—don’t let them. Today disinformation and misinformation are more dangerous than ever before. The Internet Archive is working to bring trustworthy, verifiable information to anyone looking for it: history that cannot be rewritten, facts that cannot be contorted, and events that cannot be “disappeared”.

Today is the Internet’s day. As current events develop, we’re all turning to our screens for information—and we want to make sure that it’s information you can trust. Right now the Internet Archive is preserving history as it unfolds. We’re hard at work preserving the record of what’s being said, who’s saying it, and when, creating a record of verifiable information in the midst of rapidly developing situations.

We believe information should be free for everyone, always. We don’t charge for access, sell user data, or give in to the Internet’s “original sin” of the ad model. Instead, we rely on the generosity of individuals like you to keep the lights on and the servers running. It’s on us—all of us—to keep the record straight.
If you find our public record useful, please consider contributing $5, $10, $25 or whatever you can afford to help us build the web we deserve. Together we can continue advancing Universal Access to All Knowledge. Thank you for joining me.
Brewster Kahle
Founder & Digital Librarian

[Imagens de topo e de rodapé de: Britannica.]

O Português é língua estrangeira no Brasil

Escusado será dizer que mesmo depois disto o tugazinho brasileirista continuará, no seu atávico embevecimento para com tudo o que (lhe) cheire ao “gigante” sul-americano, a negar a mais comezinha das evidências, como mais uma vez se comprova: o Português e o brasileiro são línguas diferentes.

Começaram já a chover as desculpas do costume, uns quantos a rir-se do “ignorante”, outros fabricando piadolas sobre o dito e o seu… dito, outros ainda inventando teorias mirabolantes sobre os verdadeiros motivos subjacentes: como, por exemplo, e nisso, para variar, até têm alguma razão, a interferência do Primeiro Ministro tuga nos assuntos internos do Brasil, um país soberano.

A bajulação militante, uma particularidade exclusiva de alguns tugas, aliada a outras não menos peculiares características de tal degenerescência, vai fazendo o seu caminho, impante e até aparentemente triunfante.

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Que aquele candidato presidencial brasileiro estaria simplesmente a brincar, dizem.

Que não passa de um idiota, dizem. Que o tal idiota, por mero acaso Presidente da República Federativa do Brasil, disse que não entende Português só para se vingar de António Costa, o infeliz que “acha” que o cargo de Primeiro-Ministro de Portugal só vale quando ele está de fato e gravata; desengravatando-se, em camisa, é um gajo qualquer.

Que terá sido uma espécie de lapsus linguae, o que de resto é um contra-senso para ambos os candidatos, incluindo ou especialmente o outro, a quem a Universidade do Calçadão de Coimbra cedeu o título de “doutor” Honoris Causa, já que será no mínimo duvidoso conhecer qualquer dos dois a expressão latina (uma “língua estrangeira”, como sabemos, e ainda por cima das da pior espécie, visto que está “morta”).

Enfim, as desculpas esfarrapadas sucedem-se, agora por maioria de razões, dada a excelente oportunidade que ignorantes aproveitam para chamar “ignorante” a um ignorante, e, também como habitualmente acontece, a nenhum desses brasileiristas (incluindo os que se intitulam a si mesmos como “anti-acordistas” mas que não querem “guerras com o Brasil” porque adoram levar porrada sem dar troco) ocorre sequer admitir que “olha, se calhar” o tipo não entendeu mesmo a pergunta. Que não entendeu a pergunta porque o jornalista português — para variar — não falou em brasileiro (como Marcelo ou Durão Barroso ou Costa ou outro qualquer brasileirista deslumbrado). Não entendeu aquele fulano da mesma forma que não entende Português a maioria da população do “gigante”.

Os tugas que vergam a cerviz até ao chão, os que apreciam andar de rojo e à babujem, os traidores, vendidos e mercenários pretendem tão-só aproveitar as sobras dos “negócios estrangeiros” brasileiros, a sua “expansão” neo-imperialista, a “difusão” da CPLB, o “valor económico da língua“… brasileira.

Daí o #AO90, daí a CPLB, daí a “porta dos fundos” para a UE, daí o assalto às ex-colónias portuguesas em África e na Ásia.

Dirão com certeza alguns, já em desespero de causa perante a crueza da realidade, que isto não tem nada a ver com a sua querida “língua universau”.

Não? Não tem? Ah, pois não, tem só a ver com o Espanhol. Ou com o portunhol, vá.

«“Não falo espanhol nem portunhol”. Foi esta a explicação dada pelo Presidente brasileiro e recandidato às eleições Jair Bolsonaro para justificar o facto de não perceber uma pergunta (…)»

«No final do debate com Lula da Silva, Bolsonaro respondia a perguntas dos jornalistas e afirmou não entender a linguagem em que lhe foi feita uma das perguntas.»

«O Presidente do Brasil não terá gostado do pedido de comentário ao facto de estas eleições estarem a ser seguidas com “enorme preocupação” internacionalmente.»

«O presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), não entendeu a pergunta de um jornalista português da emissora RTP. Disse não entender “portunhol” ou “espanhol” quando a profissional ofereceu para repetir a pergunta…» [notícia em brasileiro]

No final do debate com Lula da Silva, Bolsonaro respondeu a algumas perguntas, incluindo a de um jornalista português e disse não entender a linguagem em que lhe foi feita uma das perguntas. “Se repetir vou continuar não entendendo tá? É que eu não falo nem espanhol, nem portunhol”, respondeu Bolsonaro.

Jornalista da RTP pediu um comentário à preocupação de líderes internacionais em relação ao resultado das eleições. Bolsonaro disse não ter percebido a questão: “Não falo espanhol nem portunhol”.

 

E novidades, há? Ah-ah, pois há.

Depois das últimas novas páginas anunciadas, há uns meses, e após o início da recente mudança de “instalações”, o Apartado 53 acaba de ocupar (discretamente, claro, nada de ocupações selvagens) mais umas quantas assoalhadas virtuais. Disso mesmo agora se dá conta.

Apenas por curiosidade antropológica, digamos assim, refira-se que este modestíssimo blog existe há exactamente 2682 dias (de 23.06.2015 até hoje, 25.10.2022), ao longo dos quais foram publicados 1282 “posts” e criadas 91 páginas.

Destas, as mais recentes são…

Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos

CDDAC – artigos 1.º a 39.º
CDDAC – artigos 40.º a 82.º
CDDAC – artigos 83.º a 120.º
CDDAC — Artigos 121.º a 156.º
CDDAC — Artigos 157.º a 194.º
CDDAC — Artigos 195º-228º

Aquilo que prevalece nestas determinações legais é que o autor de qualquer tipo de obra escrita, edição literária ou técnica ou jornalística ou outra (como, por exemplo, uma tese académica) pode e deve recusar o #AO90, pode e deve escrever, publicar e ser lido/a em Língua Portuguesa. Nada nem ninguém, seja quem ou que entidade for, editora ou patronato, chefia ou grupo de pressão, jamais poderá perverter os direitos autorais legalmente consagrados e juridicamente protegidos.


Projecto de Lei n.º 527/XIII (2.ª)

Terceira alteração à Lei n.º 17/2003, de 4 de Junho (Iniciativa Legislativa de Cidadãos)

A eficácia legal do diploma original já era, per se, de muito duvidosa aplicação. Apesar de na prática este (assim designado) “instrumento de exercício de cidadania” ser uma nulidade absoluta, as sucessivas alterações ao articulado original vieram liquidar quaisquer vestígios de viabilidade de qualquer ILC. A quem ainda acredita em semelhante coisa, que aquilo vale seja o que e para o que for, bastará referir — por exemplo — o sucedido com a ILC-AO. A lei 17/2003 não passa de uma figura de estilo; serve apenas para uns políticos fazerem-se passar por grandes democratas mas é algo que não está, de todo, ao serviço da democracia.


Decreto n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945

«A entrada em vigor, no nosso País, da reforma ortográfica de 1911, que o Brasil não adoptou, trouxe como consequência diferenciações sensíveis no regime da escrita, com prejuízo da unidade intercontinental da língua portuguesa. A fim de obviar aos inconvenientes da situação criada, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras tomaram a iniciativa de um acordo ortográfico tendente a restabelecer, mediante transigências mútuas, a unidade dos dois sistemas.»

Este foi o “acordo” luso-brasileiro a que os patrões de alguns tugas nunca ligaram nenhuma e que, dez anos depois da assinatura “solene” em 1945, pura e simplesmente fizeram sair pelo cano de esgoto em 1955. 45 anos depois, não os mesmos mas outros manos de também outros tugas assinaram o AO90 e agora andam todos por aí a dizer que o que foi abolido em 45 e que “só” Portugal e PALOP cumpriram são “cedências” brasileiras. Não, não são. E andam por aí uns tipos que ainda dão crédito às tretas de brasileiristas


Internet em Pt-Pt: Chrome, Edge e Firefox

Ferramentas não apenas para “navegar” na Internet sem levar com a cacografia brasileira em “sites” governamentais (e de outros idiotas oficiosos, como os órgãos de propaganda, vulgo “media”, por conta de quem ganha eleições), como também para escrever, rever e editar textos ou outros conteúdos que não só mas que igualmente. A campanha de demolição sistemática da Língua Portuguesa ainda está em curso, até com efeitos retroactivos (daí as reedições a granel), mas os cidadãos não toxicodependentes, isto é, aqueles que não dependem do Estado, não têm de forma alguma que sujeitar-se a sessões de tortura ocular, maus tratos cerebrais e insultos à inteligência. Para isso mesmo servem os “browsers” com “plugins” ou “extensões” que tudo corrigem automaticamente, de regresso à única norma existente em Português, que é a norma portuguesa, como sabemos.

Em Portugal, a esmagadora maioria dos utilizadores serve-se do Chrome, do Edge ou do Firefox. Se nenhum destes for o seu caso, então poderá escolher meios e métodos similares na página Outros “browsers”, para uma dúzia de outros programas de “navegação” na “web”.


Texto para voz (Pt-Pt)

Para aquelas pessoas que, por algum motivo, têm dificuldades em ler, também existem formas de dar a volta ao texto. Nesta página encontra pelo menos duas — grátis, para variar.

Por conseguinte, caso tenha problemas de visão e não lhe apetecer fazer “zoom” ao monitor, se o problema é falta de tempo ou de vontade para ler pode ir ouvindo o que dizem os “posts” enquanto vai fazendo outras coisas.


Além das novas páginas agora referidas, resta ainda mencionar mais quatro, subsidiárias ou específicas, com finalidades restritas:

  1. FB_Sandards: a propósito da censura nas redes anti-sociais, e nomeadamente no Fakebook.
  2. CPLP – processo histórico: como o próprio nome indica, a resenha transcrita ajuda a compreender a génese e documenta a definição do conceito de fraude política.
  3. FLIP – “plugin” para WordPress: uma outra ferramenta de correcção ortográfica para quem tem um ou vários “blogs” WordPress.
  4. Priberam e AO90: critérios: critérios tidos em conta pela Priberam para manter todos os seus produtos num Português impecável.

Livremo-nos deles

Desta vez por excepção, muito ao contrário do habitual, recebi não apenas o original em papel como cópias integrais do artigo por e-mail, Messenger e SMS. O que se segue é, portanto, uma transcrição feita — para variar — na maior das calmas, tecnicamente falando, mas não tanto assim no que ao texto diz respeito.

Na verdade, o aparente fait divers também aqui relatado, envolvendo a agremiação profissional dos professores de brasileiro (vulgo, APP), surge neste texto com um tom algo… subsidiário. A começar logo pela forma verbal “livrem-se” e da formulação “nem para isto serve”, ambas utilizadas no título e desenvolvidas no texto propriamente dito. Na óbvia presunção de que se trata daquilo que à Língua nacional respeita e, concretamente, em que medida o AO90 a afectou, com que indesculpável gravidade os professores traíram a sua missão, então seria mais do que legítimo que ao menos os bois fossem chamados pelos nomes.

Ao não apenas acatar sem a menor hesitação como ao promover a ignorância, os sindicatos da classe professoral, com a bovina anuência de grande parte dos próprios “mestres”, traíram não “apenas” a Língua Portuguesa, a Cultura e a identidade nacionais, como também a própria dignidade (e a finalidade) da classe docente. Traíram a Língua dos seus alunos, dos pais destes e de todos os seus antepassados; portanto, traíram a História, o que equivale a dizer que traíram o seu país. Traíram ao trocar o Português por um linguajar alienígena e, num acrescido assomo de malvadez, colaborando activamente na sua difusão e propaganda — ou seja, deixaram de dar aulas e passaram a fazer lavagens a cérebros em formação. Traíram com a sua cobardia e a sua impassibilidade (não existem nem passividade nem neutralidade nisto) e, em suma, acabaram por trair a sua própria consciência — ou, em última análise, traíram a si mesmos.

Bechara mente? Sim, claro, mente; com quantos dentes tem na boca. Marcelo mente? Evidentemente, mente; e sempre sorrindo para a “sélfe”, achando imensa piada à sua piadética pessoa. Malaca mentiu? “Quer-se-dizer”, respeitemos os defuntos, que diabo, ainda que tenham sido eles mesmos coveiros. A xôdona Edviges mente? Uiuiui, não há quem lhe valha. Sócrates, Cavaco, a Edite, o Carlitos, o Tony, toda a trupe pouco mais ou nada mais faz além de inventar petas sobre a sua querida língua “universau”. Aquilo é uma seita de mitómanos empedernidos, viciados e militantes.

Ora…

O #AO90 “nem para isto serve“? Não, senhor, não serve; nem para aquilo nem para coisíssima nenhuma. A discriminação “positiva” é uma inerência das finalidades (exclusivamente) políticas que levaram traficantes tugas a propor aos brasileiros a venda da Língua a pataco.

E não serão com certeza eles a livrar-se do “acordo” porque isso seria equivalente a eles verem-se livres de suas próprias excelências.

Somos nós quem tem de se livrar dele. Mesmo se para isso nos tivermos de livrar… deles.


Se o “acordo” nem para isto serve, livrem-se dele de vez

Que tal aceitarem que o português tem variantes, também ortográficas, e que é conhecendo-as e sabendo conviver com elas que se fará o nosso futuro?

“Público”, 20 de Outubro de 2022

Pode parecer estranho, mas a Associação de Professores de Português resolveu acordar para um magno problema: o das variedades da língua e o seu impacto nas escolas. Seria mais adequado chamar-lhes variantes, embora neste caso a palavra variedades se ajuste melhor aos indecorosos espectáculos a que temos sido forçados a assistir, em nome do idioma. Uma notícia recente do PÚBLICO deu-nos conta de que a Associação de Professores de Português (APP) resolveu propor ao Instituto de Avaliação Educativa (Iave) a criação de “um grupo de trabalho no seu conselho científico para discutir a aceitação das variedades linguísticas codificadas do português nos exames nacionais”. Isto devido a relatos de professores e alunos, queixando-se de que o exame nacional de português “penalizava quem usasse a variedade brasileira”.

O Iave, claro, mostrou “disponibilidade para discutir o assunto” e lá teremos, neste país de comissões, mais uma. Veio à baila, como convém, o “carácter pluricêntrico da língua portuguesa”, que o ministro João Costa, à data ainda secretário de Estado, já brandira num artigo seu na revista Palavras, da APP (n.º 4, 2021). Alguns excertos: “A ideia de que alguma língua no mundo não apresenta variação não passa de um mito”; “Todos têm lugar na escola, os que cresceram a falar português europeu, os que não têm o português como língua materna ou os que falam outra variante”; “Isto significa, antes que seja mal interpretado, que – na competência que a escola tem de ensinar a norma portuguesa – não podemos fazer de conta que a diversidade não existe ou que não está lá, na aula concreta e no aluno concreto. Não defendo que os erros não se corrijam, como é óbvio. Mas isso não se faz sem o desenvolvimento de uma consciência de que nem sempre o erro é o que julgamos.” Como se vê, a APP e congéneres têm muito com que se entreter, no tal grupo de trabalho – onde hão-de esbarrar com o tal elefante.

Expliquemo-nos. Aqui há uns largos anos, vieram convencer-nos de que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 vinha criar uma norma única no espaço universal do idioma. Tal miragem teve paternidade dupla, e assumida, de dois académicos, o português João Malaca Casteleiro (1936-2020) e o brasileiro Evanildo Bechara (n. 1928, hoje com 94 anos). Ora este último, numa entrevista ao jornal Estadão, em 12/11/12, dizia coisas como estas, em favor da sua “dama”: “Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma”; ou: “Uma língua que tem uma só ortografia circula no mundo com mais facilidade.”

A entrevista estava pejada de declarações ligeiras e falsas, prontamente analisadas e denunciadas em Portugal por João Pedro Graça, tradutor, então no espaço da ILCAO (a 14/11) e por António Fernando Nabais, professor de Português e de Latim, no blogue Aventar (15/11). Este, no mesmo blogue, não resistiu agora a comentar a recente iniciativa da APP: “Convém lembrar que a APP esteve sempre do lado da defesa do chamado acordo ortográfico (AO90), essa oitava maravilha do mundo que, segundo os seus diversos apóstolos, iria contribuir para a tão desejada ‘unificação ortográfica’ […]”, concluindo: “Só falta a esta associação a honestidade de reconhecer que este problema constitui mais uma prova de que o AO90 é um falhanço vergonhoso.” Pois, a par das normas existentes, ainda inventou uma outra, desajeitada e inútil: o “acordês”. O elefante.

Se fosse num conto do Mário-Henrique Leiria, o elefante ia com ele “tomar uns gin-tonics” ao Bastilha, reaparecida a múmia (in “Desabamento”, Contos do Gin-Tonic, págs. 97-99). Mas como se trata da língua portuguesa, o elefante anda de braço dado com as múmias a fingir-se útil e a atormentar-nos a existência. Não, a APP não reconhecerá que errou, nem os ministros que engoliram as patranhas do dito “acordo” voltarão com a palavra atrás, como já se viu. Bem pode Marcelo Rebelo de Sousa garantir, como fez nas celebrações do 5 de Outubro, que “nada é eterno em democracia”, porque nos impuseram uma excepção (aliás, uma “exceção”) a essa verdade universal: o acordo ortográfico. Ora, citando João Costa, como “não podemos fazer de conta que a diversidade não existe”, que tal livrarem-se de vez desse empecilho que a ninguém beneficia (a não ser os poucos que dele já tiraram proveito) e aceitarem que o português tem variantes, também ortográficas? E que é conhecendo-as e sabendo conviver com elas que se fará o nosso futuro? O resto é poeira, que insistem em atirar-nos para os olhos.

[Transcrição integral (ipsis verbis, sem destaques e incluindo “links”) de artigo, da autoria de , publicado no jornal “Público” de 20 de Outubro de 2022. Imagem (acima da transcrição) de: “A Vida Portuguesa” (logótipo). Imagem/citação de Victor Hugo de: “Le Figaro Culture” (Facebook)]

Tarde piaste, iavezinha

Professores querem grupo para discutir aceitação de variedades de português em exames

 

A Associação de Professores de Português (APP) propôs ao Instituto de Avaliação Educativa (Iave) criar um grupo de trabalho no seu conselho científico*** para discutir a aceitação das variedades linguísticas codificadas do português nos exames nacionais. Segundo o Ministério da Educação, o presidente do Iave manifestou “disponibilidade para discutir o assunto com a referida associação, o que acontecerá brevemente” – mas não especificou quando.

[Extracto parcial (amostra disponibilizada “gratuitamente” pelo jornal online) de artigo da autoria de Joana Gorjão Henriques. “Público”, 14 de Outubro de 2022]

 

 

*** – a notícia referida no bocadinho de texto acima citado foi aqui transcrito na íntegra.

 


Deve ser realmente justo que o jornal “Público” se reserve uma caterva de direitos autorais, ainda que as matérias sejam de interesse igual ao do nome do jornal e que tais direitos se estendam até às cartas ao director ou ao “provedor do leitor“, assim como aos artigos de ambos esses titulares — a tudo menos aos anúncios a granel. Semelhante reserva deve ser absolutamente necessária, de facto; nem a publicidade comercial nem a “institucional”, paga pelo Estado, chegarão com certeza para mandar cantar um cego, quanto mais pô-lo a tocar rabecão.

Daí, portanto, não havendo um exemplar em papel que se possa digitalizar (isso não deve o pessoal do “Público” perseguir, pois que diabo, Portugal não é um país de capitalismo selvagem nem está cheio de gananciosos patológicos), então “é assim”, como agora se diz, quem quiser ler as novas que se fique pelas “gordas”. “Gordas” essas que são servidas com uns appetizers textuais, dois parágrafozitos à laia de Martini com azeitonas verdes. E já gozas.

Tão frugal serviço noticioso foi-nos agora de novo servido (se bem que requentado) tratando da mais recente salgalhada que envolve professores e um departamento governamental cujas funções, como parece indicar a designação daquele “instituto”, consistem em avaliar não se sabe ao certo o quê mas que terá, presumivelmente, algo a ver com a função “educativa”. IAVE. É bem achado, convenhamos. “Instituto de Avaliação Educativa“, mas que lindo nome, ui, tão catita.

E de uma transparência absolutamente brutal, logo a começar pela apresentação que faz de si mesmo: «Regemos a nossa actuação por princípios de imparcialidade, de transparência e de rigor técnico e científico, respeitando a política educativa vigente.» Belíssimo oxímoro, para começar, logo nesta entrada a pés juntos: conseguir juntar na mesma frase dois conceitos que mutuamente se excluem, não é para qualquer. Nota-se que há ali tarimba. Encadear “rigor técnico e científico” e “política educativa vigente”, convenhamos, é de mestre; bem, pode ser que a “vigência” da “política educativa” seja milenar ou eterna e não esteja afinal limitada ao período de “vigência” da política imposta por determinado mandato governamental de quatro anos.

Quanto a “transparência”, caríssimo pessoal do IAVE, grandes bacanos, estamos de igual forma conversados. Parece que, por exemplo, a tal reunião “urgente” para aprovar automática e administrativamente os alunos brasileiros por serem brasileiros, afinal, era tão “urgente” em Julho passado como é “urgente” agora, em Outubro. As urgências lentas são um mimo, portanto entende-se perfeitamente a falta de “pressa” da “urgência”.

Esperam por que a simples passagem do tempo faça caducar o engulho. O método do facto consumado, que tão espectaculares resultados produziu na “adoção” do AO90, servirá de igual forma para que esta pequena lagartixa se transforme por metamorfose em mais um jacaré.

Metáforas à parte, por mais horripilante e abrangente que seja a analogia, o que importa realçar nestas nada subtis vigarices ministeriais e sindicais é a previsibilidade: fica absolutamente claro o que se pretende, na sequência “natural” da imposição feroz do #AO90 no sistema de ensino ex-português, assim como não subsistem — desde o início — quaisquer dúvidas sobre o papel da APP na “adoção” e, por conseguinte, o que é e para que serve essa tal Associação de Professores de Português brasileiro, quais dos/dasseus/suasassociados/as são os/as principais protagonistas da traição, em que ligações (olha, editoras, ah, que surpresa) está emaranhada.

Toda a gente sabe qual é a táctica, a rotina mecânica utilizada sempre pelos mesmos em processos parcelares ou pontuais, como é o caso deste, e qual é o desfecho mais comum dos seus métodos de demolição: ou passa tudo a brasileiro ou então vai ferrete de “xenofobia” na testa. A receita do costume, claro. Da qual, aliás, com ingredientes como o IAVE e a APP e tantos outros, se tem este Apartado ocupado amiúde, partilhando receitas, umas mais substanciais do que outras, algumas com sua graça mas quase sempre com o sabor amargo característico dos cozinhados acordistas, cujo veneno, mesmo em doses homeopáticas, pode tornar-se letal se consumido sem grandes cuidados.

É miserável mas não deixa de ser caricato o que vai sucedendo, por exemplo paradigmático, no assim dito “sistema de Ensino” indígena: evidentemente, visto que “eles são 230 milhões e nós somos só 10 milhões”, então há que — além de escrever como “eles” falam — “facilitar” e “agilizar” também o percurso académico “deles” (e só deles, para os alunos portugueses fica tudo na mesma), aceitando que escrevam como falam (ou como de resto lhes der na real gana). Este aparente conflito resultante da aculturação selvagem deixará de o ser de imediato, como que por milagre, com o estalar de dedos do costume — ou seja, via “orientações” internas da tutela, na secretaria da 24 de Julho, e de seguida com a consagração legal na respectiva linha de montagem, a São Bento. [A vitimização como arma política – 2 (Gerundiando o estando ensinando) 03.08.22]

Poetic Outlaws (facebook)

Deste enorme Pantacruel devem servir-se os comensais — que de “chefs” estamos mal — com estrema parcimónia e, sobretudo, com extremo cuidado. Cuidado, por exemplo, com os “ouvi dizer” e com os “achismos”. Ainda piores do que os tachistas são os achistas, como sabemos, especialmente quando acumulam funções.

Ao invés do que dizem alguns idiotas úteis (ou do que “acham” outros idiotas e inúteis), não existe nisto — pelo menos, não existem precedentes que estabeleçam algum tipo de jurisprudência na matéria — o direito de “objecção de consciência”. A RCM 8/2011 equivale, para todos os efeitos, a uma ordem por escrito: pode a posteriori ser contestada, mas primeiro terá de ser acatada; a sua recusa liminar e sumária, alegando uma putativa objecção de consciência quanto a escrever em língua brasileira, poderá resultar em igualmente sumário processo disciplinar tendo em vista… o despedimento.

Posso afiançar, para o duvidoso caso de isso servir para alguma coisa, que obviamente não sou eu próprio o autor desta ou de qualquer outra das inúmeras abjecções legislativas de que o sistema jurídico português está servido. Quem, por mania ou desfastio, persistir em desencantar culpados e destapar alçapões pode, por exemplo, tentar descobrir para que serve ou o que é ao certo a nacional Provedoria de Justiça, esse misterioso serviço que trata da defesa do cidadão comum em qualquer situação de injustiça, à excepção de possíveis engulhos com a… Justiça. (mais…)

Arqueologia linguística

Curioso, este artigo de Marco Neves. Quem o ler assim de repente pode até pensar algo como “olha, mais um que já pendurou as chuteiras“. Longe vá o agoiro, é claro, de mais a mais porque “isto”, a Língua Portuguesa, que tanto aborrece a alguns, não é exactamente o pontapé na chincha. Não deixa de causar alguma estranheza, porém, futebóis à parte, que tão denodado quanto profuso escriba — tantas vezes aqui citado e transcrito — tenha agora virado a agulha para as coisas da arqueologia linguística, escavando túneis profundos, tão profundos que os não iniciados arriscam-se a sair do outro lado da Terra.

Não será revirando fósseis ou autopsiando múmias que algo de útil ou sequer inteligível poderá ressumar quanto àquilo que realmente interessa… ao povão, digamos. Nem mesmo o espantosamente básico facto que Santayana formula será para aqui chamado, ainda que por excepção, dado que — precisamente — é o passado aquilo que o AO90 pretende reescrever como suporte “ideológico” para eliminar o futuro da Língua Portuguesa.

Além das sucessivas campanhas de intoxicação da opinião pública (ah, e tal, eles são 230 milhões), de estupidificação e de anestesia em massa (novelas, escolas de samba, futebol, canais de TV, “kárrnávau”, importação de “génios” sortidos), no que diz respeito à Literatura em concreto e à escrita em geral são metódicas e persistentes as criminosas acções de reescrita do passado. Ou seja, a política do facto consumado com efeitos retroactivos: enquanto vão apagando quaisquer vestígios da escrita “de antigamente”, a tal que estava “errada”, segundo eles, sucedem-se as reedições dos nossos clássicos (fora os manuais escolares), enormes colecções são “revisadas” e reeditadas com aniquilação selectiva de tudo aquilo que no Brasil não é pronunciado, articulado ou… dito. Portanto, respectivamente, destrói-se a ortografia (sequências consonânticas, marcas etimológicas), “adota-se” a ortoépia (pronúncia, estrutura frásica) e esmigalha-se o léxico. Vai tudo a eito.

O objectivo primário do “acordo” é, funcionando como disfarce para as negociatas (via CPLP, IILP, IC e AR) “justificar” a “adoção” da língua universau brasileira em Portugal e PALOP. Trata-se de uma complexa manobra de bastidores, insidiosa e mentirosa, levada a cabo por políticos, vendidos, traidores e idiotas úteis, no intuito de expurgar radicalmente a génese e a matriz da Língua Portuguesa para assim impor aos nacionais uma língua estrangeira e, sempre a pretexto da brasileirofonia, servir os interesses geo-político-económicos do Brasil e os interesses nada-mais-do-que-económicos dos vendilhões que por aí rastejam.

Que todas as línguas evoluíram, evoluem e continuarão a evoluir não é grande novidade e ainda menos será uma descoberta de fazer arregalar um olho, quanto mais os dois. Não será isto, aliás, com toda a certeza, nenhuma das “verdades” que toda a gente atribui a Jacques II de Chabanes; deixemos as “lapalissadas” para quem ainda acredita em historinhas; além do mais, em sinal de respeito, pois La Palisse está morto e bem morto, ou como diria o lacaio de Monsieur, se não estivesse morto com certeza estaria tão vivo como estava momentos antes de falecer. Evoluem as línguas, como tudo evolui, e esse “fenómeno” (muito anterior a Camões, note-se, aí uns 28500 anos anterior ao Grande Zarolho) é não apenas uma inevitabilidade como constitui a própria essência das coisas humanas.

O erro será, precisamente, pela sua própria natureza, arrogar-se alguém — bandoleiro solitário ou bandos deles — o direito de sequer tentar perverter, desviar, alterar o percurso inelutável da História.

Portanto, ainda que tal pareça, não pode pretender este (ou qualquer outro) autor “explicar” seja o que for de “natural” na “evolução” da Língua através da repescagem de fragmentos da escrita, do período arcaico ou até recuando à cuneiforme ou à hieroglífica; isso não apenas não explica coisíssima nenhuma — a não ser, evidentemente, o que antes porventura alguém desconhecia ter existido nesse particular — como ainda menos ou absolutamente nada explica, esclarece, justifica uma aberração (o #AO90 não contém aberrações, é todo ele uma aberração) ou serve para atenuar culpas e esbater responsabilidades dos envolvidos.

Exceptuando o facto incontornável de a língua brasileira ter tido origem na matriz da portuguesa, não existe a mais ínfima ou remota relação entre a ortografia de Eça (ou a de Camões ou a de Gil Vicente ou a de D. Afonso II) e aquela coisa que os brasileiristas pretendem impingir a Portugal e PALOP. Não existe relação alguma porque a Língua não é nem relativa nem relativizável — simplesmente é o que é: nós temos a nossa, o Brasil tem a sua.

Pois que fique lá com ela.

Como era a ortografia de Camões?

Marco Neves
SAPO – 24.sapo.pt, 09.10.22


Como escrevia Eça?

 

Vamos chegar a Camões, nesta viagem no tempo, mas primeiro peço ao leitor que abra uma qualquer edição actual d’Os Maias. Estará na ortografia portuguesa — algumas edições usam o novo acordo ortográfico, outras aplicam a ortografia de 1945 com as alterações introduzidas nos anos 70.

O que nenhuma editora faz é apresentar-nos o texto tal e qual o próprio autor o escreveu.

Eça usava a ortografia da época, muito pouco estável, diga-se — é a ortografia que encontramos no texto transcrito nesta página, por exemplo. O início mostra-nos logo algumas das diferenças:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar d’este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do reinado da sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas.

Perante isto, as editoras têm de decidir o que fazer com o texto ou arriscam-se a pôr nas mãos dos leitores textos com «á», com «visinhança», com «assimilhar-se-hia» e por aí fora.

Por mim, acho curioso encontrar os textos assim. Mas imagino as cartas furiosas que as editoras iriam receber se se atrevessem a tanto.

Tem de haver alguém que faça aquilo a que se chama «fixação do texto». Há uma edição famosa das obras do Eça da Livros do Brasil em que o nome de Helena Cidade Moura aparece com muito destaque como responsável por essa fixação. É a pessoa que decide o que fazer com as diferenças ortográficas, com a pontuação, com os itálicos, entre outras decisões nem sempre óbvias e muito menos fáceis.

Que tipo de alterações são estas? Dou um exemplo. Procuro ao calhar do dedo um extracto d’Os Maias:

  1. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:—Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de inglez, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!—Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.—É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d’ella, quieto como se fosse de gesso:—Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Euzebio, filho, sê bonito…

Procuremos agora este texto numa edição actual d’Os Maias. Encontraremos algo parecido com isto:

  1. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:— Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!— Mas é muito esperto, minha rica senhora! — acudiu Vilaça.— É possível — respondeu secamente a inteligente Silveira.E, voltando-se para Eusebiosinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:— Ó filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Eusébio, filho, sê bonito…

Passámos de «idéa» para «ideia», arrancámos algumas belas letras, mudámos o nome ao Eusébio — até corrigimos o verbo «dizer», na última frase! E os travessões também se multiplicaram…
(mais…)