Não será revirando fósseis ou autopsiando múmias que algo de útil ou sequer inteligível poderá ressumar quanto àquilo que realmente interessa… ao povão, digamos. Nem mesmo o espantosamente básico facto que Santayana formula será para aqui chamado, ainda que por excepção, dado que — precisamente — é o passado aquilo que o AO90 pretende reescrever como suporte “ideológico” para eliminar o futuro da Língua Portuguesa.
Além das sucessivas campanhas de intoxicação da opinião pública (ah, e tal, eles são 230 milhões), de estupidificação e de anestesia em massa (novelas, escolas de samba, futebol, canais de TV, “kárrnávau”, importação de “génios” sortidos), no que diz respeito à Literatura em concreto e à escrita em geral são metódicas e persistentes as criminosas acções de reescrita do passado. Ou seja, a política do facto consumado com efeitos retroactivos: enquanto vão apagando quaisquer vestígios da escrita “de antigamente”, a tal que estava “errada”, segundo eles, sucedem-se as reedições dos nossos clássicos (fora os manuais escolares), enormes colecções são “revisadas” e reeditadas com aniquilação selectiva de tudo aquilo que no Brasil não é pronunciado, articulado ou… dito. Portanto, respectivamente, destrói-se a ortografia (sequências consonânticas, marcas etimológicas), “adota-se” a ortoépia (pronúncia, estrutura frásica) e esmigalha-se o léxico. Vai tudo a eito.
O objectivo primário do “acordo” é, funcionando como disfarce para as negociatas (via CPLP, IILP, IC e AR) “justificar” a “adoção” da língua universau brasileira em Portugal e PALOP. Trata-se de uma complexa manobra de bastidores, insidiosa e mentirosa, levada a cabo por políticos, vendidos, traidores e idiotas úteis, no intuito de expurgar radicalmente a génese e a matriz da Língua Portuguesa para assim impor aos nacionais uma língua estrangeira e, sempre a pretexto da brasileirofonia, servir os interesses geo-político-económicos do Brasil e os interesses nada-mais-do-que-económicos dos vendilhões que por aí rastejam.
Que todas as línguas evoluíram, evoluem e continuarão a evoluir não é grande novidade e ainda menos será uma descoberta de fazer arregalar um olho, quanto mais os dois. Não será isto, aliás, com toda a certeza, nenhuma das “verdades” que toda a gente atribui a Jacques II de Chabanes; deixemos as “lapalissadas” para quem ainda acredita em historinhas; além do mais, em sinal de respeito, pois La Palisse está morto e bem morto, ou como diria o lacaio de Monsieur, se não estivesse morto com certeza estaria tão vivo como estava momentos antes de falecer. Evoluem as línguas, como tudo evolui, e esse “fenómeno” (muito anterior a Camões, note-se, aí uns 28500 anos anterior ao Grande Zarolho) é não apenas uma inevitabilidade como constitui a própria essência das coisas humanas.
O erro será, precisamente, pela sua própria natureza, arrogar-se alguém — bandoleiro solitário ou bandos deles — o direito de sequer tentar perverter, desviar, alterar o percurso inelutável da História.
Portanto, ainda que tal pareça, não pode pretender este (ou qualquer outro) autor “explicar” seja o que for de “natural” na “evolução” da Língua através da repescagem de fragmentos da escrita, do período arcaico ou até recuando à cuneiforme ou à hieroglífica; isso não apenas não explica coisíssima nenhuma — a não ser, evidentemente, o que antes porventura alguém desconhecia ter existido nesse particular — como ainda menos ou absolutamente nada explica, esclarece, justifica uma aberração (o #AO90 não contém aberrações, é todo ele uma aberração) ou serve para atenuar culpas e esbater responsabilidades dos envolvidos.
Exceptuando o facto incontornável de a língua brasileira ter tido origem na matriz da portuguesa, não existe a mais ínfima ou remota relação entre a ortografia de Eça (ou a de Camões ou a de Gil Vicente ou a de D. Afonso II) e aquela coisa que os brasileiristas pretendem impingir a Portugal e PALOP. Não existe relação alguma porque a Língua não é nem relativa nem relativizável — simplesmente é o que é: nós temos a nossa, o Brasil tem a sua.
Pois que fique lá com ela.
Como era a ortografia de Camões?
Marco Neves
SAPO – 24.sapo.pt, 09.10.22
Como escrevia Eça?
Vamos chegar a Camões, nesta viagem no tempo, mas primeiro peço ao leitor que abra uma qualquer edição actual d’Os Maias. Estará na ortografia portuguesa — algumas edições usam o novo acordo ortográfico, outras aplicam a ortografia de 1945 com as alterações introduzidas nos anos 70.
O que nenhuma editora faz é apresentar-nos o texto tal e qual o próprio autor o escreveu.
Eça usava a ortografia da época, muito pouco estável, diga-se — é a ortografia que encontramos no texto transcrito nesta página, por exemplo. O início mostra-nos logo algumas das diferenças:
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar d’este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do reinado da sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas.
Perante isto, as editoras têm de decidir o que fazer com o texto ou arriscam-se a pôr nas mãos dos leitores textos com «á», com «visinhança», com «assimilhar-se-hia» e por aí fora.
Por mim, acho curioso encontrar os textos assim. Mas imagino as cartas furiosas que as editoras iriam receber se se atrevessem a tanto.
Tem de haver alguém que faça aquilo a que se chama «fixação do texto». Há uma edição famosa das obras do Eça da Livros do Brasil em que o nome de Helena Cidade Moura aparece com muito destaque como responsável por essa fixação. É a pessoa que decide o que fazer com as diferenças ortográficas, com a pontuação, com os itálicos, entre outras decisões nem sempre óbvias e muito menos fáceis.
Que tipo de alterações são estas? Dou um exemplo. Procuro ao calhar do dedo um extracto d’Os Maias:
- Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:—Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de inglez, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!—Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.—É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d’ella, quieto como se fosse de gesso:—Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Euzebio, filho, sê bonito…
Procuremos agora este texto numa edição actual d’Os Maias. Encontraremos algo parecido com isto:
- Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:— Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!— Mas é muito esperto, minha rica senhora! — acudiu Vilaça.— É possível — respondeu secamente a inteligente Silveira.E, voltando-se para Eusebiosinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:— Ó filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Eusébio, filho, sê bonito…
Passámos de «idéa» para «ideia», arrancámos algumas belas letras, mudámos o nome ao Eusébio — até corrigimos o verbo «dizer», na última frase! E os travessões também se multiplicaram…
Enfim, remexemos no texto muito para lá do que pensa quem lê Eça e julga estar perante o texto original — e isto é assim com tantos e tantos autores. Aliás, por vezes, a complicação é outra: qual será o texto original? Entre manuscritos, edições, correcções, nem sempre é fácil responder à pergunta.As armas, & os barões aßinalados
Pois é: a grafia dos nossos clássicos não é a grafia que os autores viram impressa nas primeiras edições.
Façamos agora uma viagem até ao século XVI. Olhemos para Os Lusíadas.
Aqui fica uma transcrição o mais fiel possível, que encontrei nesta edição em linha d’Os Lvsiadas (sic):
As armas, & os barões aßinalados,
Que da Occidental praya Luſitana,
Por mares nunca de antes nauegados,
Paſſaram, ainda alem da Taprobana,
Em perigos, & guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana.
E entre gente remota edificarão
Nouo Reino, que tanto ſublimarão.Aquele «ſ» e aquele «ß» assustam, não é? Curiosamente, quem souber alemão ficará um pouco mais à vontade para perceber que «ß» é um símbolo tipográfico que representa «ss». Já o «ſ» é o «s» simples em certas posições.
Fica aqui a imagem retirada da edição disponível na página da Biblioteca Nacional:
Mesmo sem alterar uma única palavra, é preciso mexer muito no texto para que este não afaste logo o leitor moderno. Depois, claro, temos as notas que enfeitam as edições actuais: as palavras estão lá, mas já é preciso explicá-las em muitos casos…
Nesta nossa viagem ao passado dos textos em português, haveremos de chegar ao ponto em que mudar a ortografia e pôr umas notas já não chega…
Traduzir Fernão Lopes?
A ortografia é uma convenção — a língua já é outra coisa, um sistema complexo que vai mudando sem plano ao longo dos séculos (as razões biológicas e culturais dessa mudança ficam para outro dia). Ora, se muda, mais tarde ou mais cedo as obras mais antigas começam a precisar de mudanças tão profundas que podemos, então, falar de tradução.
Quando tinha os meus 14 anos, decidi pôr-me a ler a Crónica de D. João I numa edição de bolso da Europa-América.
Ora, li com alguma dificuldade, mas também algum prazer. Aquilo que passou pelos meus olhos já não foi uma mera actualização ortográfica. Não consigo encontrar a edição que li, mas consigo encontrar a versão original, cujo início está transcrito aqui (e mesmo assim já tem algumas adaptações):
Grande lyçença deu aafeyção amuytos que teueeram carguo dordenar eſtorias moormente dos señores em cuja merçe & teerr a viuyam ehomde forã o naados seus antigos avoos semdolhe muyto fauorauees no recontamento de seus feytos.
A Crónica está disponível em linha, na página da Torre do Tombo. Reparem no original digitalizado do extracto em itálico acima:
A versão que li não se limitava a adaptar a ortografia. Também alterava o vocabulário, alguma sintaxe… Enfim, aproximava-se já duma tradução — o sabor ainda era de um texto muito antigo, mas esse tipo de decisões são decisões próprias de quem traduz: quanta estranheza manter no texto traduzido? (Quem se interessar por este assunto fará bem em ler um pouco mais sobre os Estudos de Tradução.)
Mais tarde ou mais cedo, os autores do passado têm de ser adaptados e, com os séculos a passar, a adaptação aproxima-se dos processos usados pelos tradutores.
Ou seja, a tradução não nos aproxima apenas dos autores de outras línguas: aproxima-nos também dos textos escritos em fases anteriores da nossa própria língua.
E, sim: disse mesmo aproxima-nos. Ao contrário do que se diz por aí, a tradução aproxima-nos do original, não nos afasta. Sim, se eu falar russo perfeitamente, consigo ler Tolstói no original. Mas se não for o caso, a tradução aproxima-me do texto (o texto russo é um muro intransponível). Outro caso: se eu falar inglês quinhentista na perfeição, uma tradução de Shakespeare para português afasta-me do original. Mas se não for o caso, a tradução aproxima-me do texto original.
No caso de Eça, não preciso de tradução. Uma arrumação ortográfica ajuda-me a ler o texto com menos ruído, mas é só.
No caso d’Os Lusíadas, também não preciso de tradução — mas já tem de haver algum treino e muitos de nós não passamos sem as notas de rodapé das várias edições.
No caso de Fernão Lopes, já não há volta, a não ser que passemos algum tempo a estudar o português da época.
No caso dos textos latinos, já precisamos de aprender a língua para lê-los no original.
Aquilo que nós podemos ler sem tradução ocupa um espaço limitado no presente, mas também no passado.
Felizmente, há quem escave mais fundo e estude textos longínquos no espaço e no tempo. Alguns até fazem o favor de os trazer para o nosso português de agora. São os tradutores, claro está, que merecem — sei que não sou muito imparcial nisto… — algum reconhecimento pelo seu labor.
Agora, claro, uma vez por outra, é bom ser atrevido. Podemos usar traduções, mas também podemos, um ou outro dia, sair do conforto da língua exacta que falamos hoje, aqui e agora. Podemos abrir uma primeira edição d’Os Maias ou d’Os Lusíadas e aventurar-nos pelas delícias das pequenas (ou grandes) diferenças.
(Este texto foi desenvolvido num capítulo do livro História do Português desde o Big Bang.)
Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na páginaCertas Palavras. O seu livro mais recente é Assim ou Assado: 100 perguntas sobre a língua portuguesa.
[Transcrição integral e ipsis verbis (incluindo formatações, destaques e “links”. As duas imagens no bloco de citação são também as do original, excepcionalmente em “hardlink”.]