Dia: 30 de Novembro, 2022

Pontapés de ressalto

Do fingimento à mais profunda hipocrisia: três histórias recentes

Como se revela o fingimento, intimamente ligado à mais profunda hipocrisia e falta de respeito pelo Outro? São três as histórias que contarei a esse propósito.

Convencer, é estéril.[1]
Foi um grande avanço no meu conhecimento, quando, pela primeira vez, a pobreza se me revelou na ignomínia do trabalho mal pago.[2]
Não se liam os livros de uma ponta à outra; habitávamos entre
as suas linhas.[3]
Walter Benjamin (1892, Berlim – 1940, Portbou)

Como se revela o fingimento, intimamente ligado à mais profunda hipocrisia e falta de respeito pelo Outro, situação a que também não é alheia a Cultura e o Saber? São três as histórias que contarei a esse propósito. A primeira tem como figura principal o Ministro da Educação, João Costa; a segunda, a Associação de Professores de Português (APP); e a terceira, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Alertou-me um amigo para o recente discurso do Ministro da Educação, João Costa, aquando da entrega do Prémio Saramago, ao escritor brasileiro Rafael Gallo, sessão que se deveria ter realizado em 2021, mas que devido à Covid foi adiada para 14 de Novembro de 2022. A primeira reacção foi a de surpresa perante o fingimento de João Costa ao elogiar e defender a Literatura e as Humanidades – “As grandes conquistas da humanidade não se fizeram com cálculos financeiros”, […]. “Precisamos mesmo dos humanistas e de quem estude humanidades para não deixarmos o mundo nas mãos de quem para tudo faz contas e de quem para tudo desumaniza”. […] “Uma desumanização que acontece, desde logo quando a arte, a literatura e a poesia estão ausentes.” (Lusa, 14.11.2022). Na verdade, são palavras que só revelam o seu carácter manipulador, actuando no intuito de convencer quem o ouve e, dizem as notícias, ter sido muito aplaudido. Espectáculo de um lobito com pele de cordeiro…

Foi a Reforma de 2003, cujo espírito perdura, e na qual o professor João Costa (Associação Portuguesa de Linguística – APL) interveio arduamente, em parceria com a APP, e depois no Ministério da Educação, que ditou o descrédito relativamente às Humanidades, situação que se tem vindo a prolongar até aos nossos dias, tendo dado azo ao esvaziamento de programas e à quase destruição das disciplinas de Filosofia, de Geografia, de História e obviamente de Português. João Costa, a par de muitos outros ministros da educação, tem sido efectivamente um fervoroso adepto do colapso das referidas matérias, mas agora tenta dar uma imagem contrária. Imitando, sem brilho, António Damásio que afirmou “A matemática e as ciências não fazem cidadãos”, na Conferência da Unesco, em Lisboa, (Março 2006), João Costa referiu no seu discurso que “As grandes conquistas da humanidade não se fizeram com cálculos financeiros”, aconselhando ainda, e fingidamente condoído, a “não deixarmos o mundo nas mãos de quem para tudo faz contas e de quem para tudo desumaniza”. Ter-se-á esquecido da perseguição que instaurou aos professores alterando o Regime de Mobilidade por Doença e das consequências daí advenientes? Nesse sentido, leia-se o artigo do Professor Santana Castilho (Público, 12/10/2022) e compreender-se-á o grau de hipocrisia de políticos como João Costa, numa actuação que apregoa invariavelmente os “direitos humanos” e o “bem público”.

No seu surpreendente discurso de dia 14 de Novembro p.p., repleto de frases vazias ou absurdas como a que transcrevemos – “A escolha das humanidades não precisa de justificação, da mesma maneira que a escolha pela poesia, pela literatura e pela arte não precisa de justificação” – lamentamos veementemente a triste sorte do Ensino entregue a gente deste calibre. Gente que pactuou com a sugestão de se retirar a Literatura dos programas de Português, tentando elevar a Linguística a matéria única e fazendo reinar o texto funcional; que pôs de parte, como sendo desmotivantes, os autores clássicos; que feriu o estudo dos que por conveniência tiveram de permanecer, somando-se decisões desastrosas como retirar da leitura de Os Lusíadas a “Dedicatória” porque, segundo colegas do Ministério, apoiando-se em argumentação APP, “os alunos faziam imensa confusão com o facto de Luís de Camões dedicar o poema ao rei D. Sebastião, narrando o poeta um evento acontecido no reinado de D. Manuel. Obrigá-los a decorar datas era desmotivante…” ou o episódio de “O Velho do Restelo” que, felizmente, grande número de professores continua a ler e a interpretar porque imprescindível para compreender o Humanismo, o mesmo Humanismo a que se refere o Ministro da Educação. Sem dúvida que é o Senhor Ministro “quem tem medo da democracia e da liberdade” e por isso também “dos escritores, dos poetas, da palavra e da arte”, palavras que igualmente proferiu no seu discurso. Explicar-lhe-ei mais em pormenor o porquê da minha afirmação.

Conhece certamente o teor dos exames ou das provas de aferição de Português, para adolescentes e crianças. Todos, sem excepção, superlativamente longos, repletos de páginas, a que se juntam diferentes textos para analisar, todos igualmente extensos, alguns dos quais com recurso a cruzinhas em que, por vezes, as várias hipóteses são puras ciladas. Junte-se-lhes uma avalancha estonteante de TLEBS e ainda a produção de textos. O senhor Ministro é contra os exames e eu sou a favor, mas eu sou totalmente crítica destas aberrações que impedem os alunos de tempo para pensar, de tempo para planear e organizar um texto escrito. A literatura e qualquer outra arte exige um diálogo com o que se lê, ouve ou olha e esse diálogo não pode ser impedido sob pena de se perder o contacto com o autor. Não será assim que se entusiasmará os alunos para a leitura e para a arte em geral. Na verdade, temos de “habitar” entre as linhas de um livro ou de uma pauta ou das cores. Porque adepto da rapidez, o senhor defende desde 2003 o funcional, se bem que inesperadamente na entrega deste prémio surja com um discurso enganador, mas tão facilmente desmontável. Dou-lhe conta de que não é com o funcional que “se formam cidadãos”, nem é com o funcional que se estimula a imaginação e a criatividade, sem as quais “não haveria evolução científica e tecnológica porque não haveria curiosidade”. (ainda António Damásio).

É por demais evidente que vivemos em democracia, e por alguma razão estou a escrever este artigo, mas sinto que, por influência de um passado opressivo, com estratégias várias de censura, se cai muitas vezes na tentação de impedir o outro de se exprimir livremente ou, ouvindo-o, pouco interesse se manifeste pelo que diz. Em 2003, e anos seguintes, senti intensamente que se estava apostado em criar cidadãos que não tivessem tempo para pensar e que só trabalhassem arduamente, obedecendo ao que se lhes exigia, acabando por se perder, no caso dos professores, o sentido de ensinar. O senhor ministro exemplifica bem esta perversidade: trabalhou com os seus alunos na TLEBS e impingiu-a aos professores e aos alunos, não admitindo críticas (tendo sido depois forçado a aceitá-las e a rever tanto “disparate” que, por infelicidade, permanece); elogia agora inesperadamente a Literatura, tendo sempre pugnado pelo funcional e os programas aí estão a testemunhá-lo; acusa a desumanidade, mas alterou o regime de mobilidade dos professores, tendo ainda lamentado em público o grande número de baixas entre os mesmos, pensando assim “ganhar a opinião pública” contra os professores, à semelhança de Maria de Lurdes Rodrigues. Senhor Ministro, não tente infantilmente convencer-nos das suas boas intenções. Será “estéril!”
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