No comment (em tuguês, xarepe)

Variando um pouco, em vez de notícias, conteúdos ou artigos sobre o #AO90, a matéria que hoje aqui reproduzo é uma selecção de comentários a um post sobre a Língua… inglesa. Esta excepção à regra justifica-se não apenas porque os textos do jornalista Pedro Correia, pelo menos aqueles que publica no blogDelito de Opinião“, costumam suscitar alguma febre comentadeira, mas também porque, ou principalmente porque, no caso deste post em concreto, o tema remete para algo que já aqui foi escalpelizado (e devidamente esfolado, espero) por diversas vezes: o purismo linguístico.

Ou seja, aquilo a que o blogger Pedro Correia se refere, aliás fazendo eco de uma corrente de “opinião” cada vez mais grossa — literalmente — e cada vez mais incompreensível, dado ser fundamentalista nos argumentos — basicamente –, é o dever patriótico de verter para Português os estrangeirismos “em geral” e, de entre estes, com particular vigor (ou sanha), os anglicismos.

Trocando em miúdos a provavelmente excessiva adjectivação, trata-se da aborrecidíssima premissa que postula (é favor não confundir, se bem que o tema se preste a inúmeros equívocos, a forma verbal “postula” com o substantivo “pústula”) — liquidar aquelas mais do que malévolas expressões idiomáticas inventadas pelo Mafarrico yankee, tais como “hardware” e “software” e “upload” e “download” e assim (não, “assim” não é um dos pecados cámones), trocando-as pelos respectivos “equivalentes” em Português. Alguns desses puristas diriam “destrocando-as” ou até, quem sabe, “destrocando-zi-as”, mas, faz de conta, ‘isso agora não interessa nada’.

Como também não interessa, pelos vistos[1], que não seja o Inglês, que se impõe naturalmente, porque é a língua franca da actualidade, mas sim o brasileiro, um crioulo de origem portuguesa que se afastou irremediavelmente da sua matriz, a língua que alguns brasileiros “adotivos” tentam impor violentamente a todos os portugueses.

Os “puristas” ralam-se imenso com estrangeirismos, mas pouco ou nada com “usuários” a “subir” e a “baixar”; adoram levar com “futchibóu em gérau” mas ficam furibundos até com sinais de trânsito (o sinal de “stop” deve passar a “párá” em brasileiro, “ô cara”?).

Não confundamos, não pelo menos assim tanto, à portuguesa, alhos com bugalhos: uma coisa é o exagero e o que isso comporta de absurdo (ou de risível), e outra coisa bem diferente, radicalmente diferente, é a eficácia na comunicação, a utilidade — caso a tenha, de facto — do termo ou da expressão original, quantas vezes intraduzível, quantas vezes insubstituível, ou na língua franca ou em qualquer outra; um idiota a armar aos cucos, tentando impressionar (ó patego, olh’ó balão) quem imagina que irá ficar tanto mais impressionado quanto mais ele usar bacoradas em “estrangeiro”, não tem nada a ver com a naturalidade no discurso, com a fluidez e até com o encadeamento de ideias e o rigor da argumentação que anglicismos (ou francesismos, ou espanholismos ou umbundismos ou quimbundismos) podem facultar, se utilizados com alguma parcimónia e um módico de sensatez.

É o que se passa, aliás, nos diversos níveis da linguagem. Da gíria ao calão, passando pelas linguagens técnicas (informática, médica, farmacêutica, arquitectónica, gráfica) ou artísticas (poética, literária, pictórica, musical), existe todo um universo de planetas linguísticos, cada um deles com sua atmosfera e seus relevos, suas matas e seus desertos, seus mares e continentes, até com o próprio Sol e satélites únicos…

O pretensiosismo de alguns cretinos merece, quando muito, se não algumas gargalhadas, a mais soturna indiferença. Confundir o que dizem uns tipos armados em carapaus de corrida com a Língua Portuguesa (ou a inglesa, ou a francesa, ou a servo-croata) é não apenas (igualmente) pretensioso, como não comporta qualquer tipo de mérito ou, de resto, seja o que for de válido — muito menos de um ponto de vista meramente linguístico.

Aliás, esta espécie de militância desviante (e enviesada) pelo purismo fanático acaba por ser contraproducente: enquanto alguns se entretêm com suas divagações algo onanistas, retiram enfoque àquilo que verdadeira e exclusivamente está em causa. Desviam as atenções, desmobilizam vontades, inutilizam trabalho, diminuem, reduzem e amesquinham — a troco de nada — a luta contra o único (e real) estrangeirismo que merece combate: o extermínio da Língua Portuguesa pela imposição de uma língua alienígena.

Comentários

Em Portugal dever-se-ia falar português, pelo menos nas nossa instituições. Esta senhora está há tanto tempo em Portugal a ser paga principescamente, deveria ter aulas para falar português e não francês, inglês ou outra língua.
A língua portuguesa é uma das línguas oficiais da UE, e é a mais falada, ou uma das mais faladas no mundo, no continente europeu, americano e africano. [Maria Teresa – ]

Estivesse a senhora em Madrid e ao fim do primeiro mês já “hablava” castelhano. Nós, por cá, somos assim.
Se valorizamos tão pouco a nossa língua e dobramos a cerviz a qualquer estrangeiro, como havemos de exigir que a administradora da “empresa aérea de bandeira” portuguesa fale… português? [Pedro Correia]

Concordo. Mas eu passo-me com os estrangeirismos ( digo) palavras inglesas que se lêem e são usados na linguagem verbal, quando temos um vocabulário riquíssimo e que devia ser usado. [Maria Araújo]

A última moda (já com uns bons anitos) na empresa onde trabalho é recebermos correspondência em inglês de escritórios brasileiros. E, pior ainda, respondemos-lhes também em inglês. Há uns anos, a administração ainda se ralava vagamente com isso, e havia indicação para se responder em português (tal como para os nossos vizinhos espanhóis que nos escreviam em castelhano). Hoje em dia já não ligam, e segue tudo em inglês. É o cúmulo do deixa andar. Em contrapartida, para certos clientes franceses que nos escrevem em inglês, respondemos em francês. Não tenho nada contra, mas a falta de coerência é gritante.
E sim, a hegemonia do inglês americano é geral e irreversível. Infelizmente, o que ajuda à comunicação por um lado, prejudica na aprendizagem e no uso das línguas nacionais pelo outro. Não sou purista, mas esta falta de amor pela língua-mãe (que se nota e agrava cada vez mais, e não só em Portugal, como é óbvio) é triste. No mínimo. [Ana CBlink]

Nem fazia ideia disso, Ana. Brasileiros e portugueses a comunicarem em… “amaricano”.
Mas já quase nada me surpreende. [Pedro Correia]

Nem o Pedro calcula a quantidade de brasileiros que nos perguntam ” Fala portugueis?”. Apetece dar uma resposta torta do género ” Eu falo, mas você não.” [Maria Dulce Fernandes]
O declínio das outras línguas preocupa-me pouco ou nada, já o declínio da nossa língua (escrita e falada) é gritante. A maior pérola que “apanhei” foi ter enviado um contrato para o Brasil escrito na nossa língua de Camões e para o mesmo ser aceite lá, teve que ser traduzido com certificação, de Português para Português?!! Tudo isto após acordo ortográfico! [Anónimo – ]
Isso não me espanta. Afinal o “acordo ortográfico” não é Português…! [Zé Nabo – link]


Este fenómeno é universal, ao que pareçe. Existe imensa gente no Brasil, onde vivo por temporadas, que defende a inevitável absorção de expressões estrangeiradas, sobretudo os novos anglicismos da moda, porque os idiomas, segundo alguns conceituados lingüistas, são vivos, plásticos, permeáveis, em suma, sujeitos a influências, transformações, etc e tal, argumentando ainda que, numa relação coloquial, o que realmente importa é que a gente se entenda, sem preconceitos.
Até há bem pouco tempo, pensei que talvez tivessem razão. Não quero ser considerado um velho intolerante bota de elástico, e decidi deixar-me ir com a corrente, escrevendo num português de cá e de lá, que depois do “acordo ortográfico” já não sei qual devo considerar correto. Até ao dia em que o meu telemóvel pifou definitivamente.
Como não é possível imaginar a vida sem este artefato, do qual nos tornamos completamente dependentes, corri até ao XÓPI (1) para comprar um novo. No ESTANDJI (2) duma marca conhecida, escolhi um modelo bonitinho, capaz de fazer uma lista de coisas que a gente nunca usa, mas, que afinal também dava para telefonar. A moça que me atendeu, apontou-me a particularidade de ser do tipo ESLÁIDJI (3). Desculpe. Não entendi… ESLÁIDJI !!! Repetiu ela com alguma soberba, olhando de lado para o pobre imbecil, seguramente ignorante do fino idioma inglês, mas, complacente, ainda se dignou explicar que a tampinha deslizava, tapando, ou mostrando o marcador… Ah, entendi… qual é o preço? Momentinho, é só consultar aqui o LÉPI TÓPI , (ou NÓTJI BUQUI)(4) . Custava 800 reais, o que não era caro, mas só não o era, porque se vendia maciçamente, certamente graças a uma boa campanha de MARQUITJI (5).
Negócio fechado. Hora do almoço e com fome, decidi comer alguma coisa. As opções gastronômicas numa coisa como um XÓPI, não são muitas, e o remédio foi abancar num FÉSTJI FUDJI (6) ( juro que não estou escrevendo malcriadices), e pedi um BIGI MÉQUI (7), do que me arrependi assim que esta substância me caiu no estomago, porque o meu sistema digestivo a rejeitou como alimento não grato. Um suposto VIPI (8) como eu nunca deveria ter cometido este tipo de sacrilégio. FÉSTJI FUDJI, definitivamente não é FÉCHON (9) e pode literalmente empurrar o nível de qualquer um pelo escoadouro. Vagamente atordoado e tentando reter a ingrata refeição no bucho, sai dali correndo. Fui buscar o carro no Parki (10) e rumei á saída.
Á laia de despedida, uma voz metálica ainda me atormentou na cancela automática, com um “ Insira aqui seu TIQUITJI (11) obrigado e volte sempre”. Decididamente, voltar não era o que tinha em mente. Na verdade, com a raiva acometida por estas modernices, o que me apetecia era regredir no tempo, enfiar-me numa caverna e voltar aos grunhidos ancestrais e puros da nossa origem simiesca.
(…) [Marcel João Marcelino – ]

Eheheh. Fabuloso.
Provavelmente o melhor comentário aqui recebido este ano.
Dá-me até vontade de recomeçar a série “comentário da semana”, que existiu durante anos aqui no DELITO.
P. S. – FÉSTJI FUDJI soa-me bem… [Pedro Correia]
Ahahahah!
Tenho dois sobrinhos netos, 10 e 8 anos, nasceram no Rio de Janeiro, sempre que vinham a Portugal faziam questão de falar português.
Por vezes, pedíamos para falar brasileiro, mas só o mais novo, malandro que é, fazia-nos rir com as expressões que usava.
E os pais, tugas, nunca impuseram nada. [Maria Araújolink]

Os comentários transcritos[2] foram peneirados através de um único filtro e, Q.E.D., por mais que se tente desviar as atenções, a questão acaba sempre por resvalar para o que de facto importa: o #AO90, a invasão cultural, a subserviência de uma minoria tuga (mas também a rebeldia da maioria), ou seja, em suma, a neo-colonização brasileira.

 

[1] Estou-me altamente borrif… enfim, nas tintas para a “tremenda” questão em que se engalfinham alguns, os partidários de “pelo visto” que são ferozmente contra “pelos vistos”. Ou isso é mais uma brasileirada ou então, pelos vistos, os engalfinhados não têm nada mais com que se entreter.
[2] Acrescentei destaques e “links” (a verde) nas citações.

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