As mães dos Bragança e as mães de Bragança

Escudo da Casa Imperial de Orléans e Bragança

Escudo/Brazão da Casa Imperial de Órleans e Bragança


«Marcelo Rebelo de Sousa diz que tudo entre Portugal e o Brasilé um problema de família» (BrasilLusa, 03.07.22) [Lusofobia: causa(s) e efeito(s) – 4

A vitimização brasileiresca, cada vez mais intensa e persistente, sempre contando com bajuladores, mercenários e vendidos tugas, ameaça já tornar-se na única face visível — ou seja, na máscara preferencial — do plano de linguicídio e extermínio cultural. [A vitimização como arma política – 3]

Estribado na pretensa língua “universau” brasileira (via AO90), o plano de erradicação da Língua e da Cultura portuguesas compreende a táctica de vitimização sistemática como forma de pressão acrescida para “agilizar” e “simplificar” — ou seja, abreviar — o esmagamento da soberania nacional. Esta táctica vai apresentando torções e contorções cada mais imaginativas e chocantemente óbvias, incluindo a vitimização por proxy e sempre contando com o precioso auxílio do chamado coitadismo militante: brasileiros queixam-se imenso de “racismo e xenofobia” e alguns portugueses correm a “solidarizar-se” com eles, coitadinhos, que são tão perseguidos, coitadinhos, e que até não são eles mesmos racistas e xenófobos nem nada, que ideia. [A vitimização como arma política – 2]

Como é o notório caso do”Observador” (acima citado), que titula isto: «Universidade do Porto regista quatro processos relacionados com assédio sexual no último ano lectivo». (..)
O jornalismo, quando a serviço da política e a mando de políticos, serve na perfeição como arma de destruição maciça da verdade. Não informa, desinforma. Não esclarece, confunde. Não relata factos, inventa-os. Não atende a outros interesses que não os de quem dá mais.
Este é mais um caso flagrante. Mistura-se “assédio sexual” — um crime previsto e punido por lei (Artigo 170.º Importunação sexual) — com “denúncias” fora de contexto e com opiniões, dúvidas espúrias ou simples atoardas sobre alegações de “actos de xenofobia e de racismo”.
[‘Preconceito linguístico’, racismo e xenofobia – 5]

O vestido branco que Eva não voltou a usar em Portugal | Crónica

Continua a ser lamentável observar que as mulheres, já cansadas e para terem paz, sejam elas brasileiras ou de outra nacionalidade, desistam de ser quem são.

 

Liliana Carona
www.publico.pt, 08.03.23

Eu sou outra mulher, já não sou a mesma, conclui Eva, olhando-se ao espelho, enquanto se prepara para ir dar aulas.

Foi há dez anos que chegou a Portugal e, de lá para cá, ainda que admita ter sido de forma inconsciente, foi mudando quem era.

Já não me lembro de usar este short, aponta para uma das primeiras fotos partilhadas no Instagram. Em Portugal, Eva desistiu de usar os calções curtinhos. Tem na memória três situações que lhe causam angústia ao recordar. Quando pediu um café e o empregado demorou mais do que o habitual, quando ao lado do namorado, ouviu o sussurro de uma senhora: esta deve ser mais uma piriguete. E quando, já ao cair da noite, se fez de maluca, para não ser agredida na rua, por um homem que a perseguiu durante o caminho para casa.

Eva mudou totalmente e de forma inconsciente. Os brincos e pulseiras étnicas estão na gaveta, na perspetiva de ser aceite. Os tops e as blusas decotadas ficaram no fundo do armário.

Tenho roupas, que trouxe do Brasil, que não uso mais. Se estivesse no Rio de Janeiro usaria de certeza, mas aqui, em Coimbra, não posso usar. É horrível dizer isso, mas uma mulher brasileira com decote não pode. Sempre o olhar demorado, uma piada…

Como é que os(as) portugueses(as) veem as mulheres brasileiras? Independentemente da nacionalidade, nunca se é só mulher, é-se sempre mulher e mais alguma coisa. Parece que está sempre no local errado. Mulher velha, mulher nova, mulher brasileira, mulher portuguesa, mulher pobre, mulher rica, mulher com homem velho, mulher com homem novo, mulher preta, mulher branca, mulher safada, mulher sonsa.

As microviolências contra as mulheres são naturalizadas e o corpo objetificado, condenado. Não mostres, não te exponhas. Ele tocou-me? Ele está a aproximar-se demasiado? Será que é da minha cabeça? Será que não me devia ter vestido assim?

Vamos perdoando, não temos tempo para problematizar tudo o que nos acontece na rotina dos dias e vamos normalizando para sobreviver. Resistir cansa. Pode haver empatia e partilha de sentimentos, mas a luta pertence de forma individual a cada uma das mulheres.

Tenho um vestido branco que eu adoro e que foi a minha mãe que mo deu, antes de vir para Portugal. Quando o vesti cá, houve uma mulher que olhou para mim com um ar de ódio. Nem olhou para o meu namorado, cobrou-me a mim, a minha forma de vestir. E eu mudei. De novas, somos ensinadas a calar para não sofrer violência. Mas às vezes dá vontade de encarar. Acha que o meu corpo está à sua mercê? Eva sorri, na tentativa de suavizar a mágoa.

São cada vez mais os brasileiros e brasileiras a procurar o nosso país, representando 31% da população estrangeira em Portugal. A investigadora Fernanda Pinto, na tese de mestrado Estereótipo da mulher brasileira no imaginário português (2020), verificou que “as relações mútuas que existem entre os brasileiros e portugueses são marcadas por uma grande proximidade e, ao mesmo tempo, por tensões, principalmente relacionados ao preconceito ligado à ideia de que as mulheres brasileiras são prostitutas e fáceis”.

Temos ainda reflexos de preconceitos, herdados de casos como o das Mães de Bragança, quando em 2003, um grupo de “mães” pôs a correr um abaixo-assinado pedindo às autoridades ajuda para “salvar” a cidade de “uma onda de loucura” provocada por imigrantes brasileiras alegadamente ligadas à prostituição, como se os homens, cachorros indefesos, estivessem a ser roubados às mulheres da moral e bons costumes.

Brasileiras Não se Calam é uma página no Instagram que dá voz a milhares de mulheres, cuja nacionalidade ainda é alvo de preconceito. A ideia surgiu em 2020, após ter sido escutada, no BigBrother Portugal, a frase “brasileira já tem a perna aberta”, dita por uma concorrente do programa. A leitura que fazemos da mulher que está à nossa frente nunca deverá ser concluída com base em sinais exteriores, corporais ou com base em sotaques e cores

Continua a ser lamentável observar que as mulheres, já cansadas e para terem paz, sejam elas brasileiras ou de outra nacionalidade, desistam de ser quem são.

Eva não voltou a usar o vestido branco.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

[Transcrição integral de artigo do jornal “Público” de 08.03.23. Destaques e “links” meus. ]

Nota: as citações de outros “posts” colocadas no início deste servem para o efeito, à laia de comentários; mesmo que alterasse as formulações, em essência seriam meras repetições do que já aqui foi dito sobre este fenómeno da vitimização.

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