O “top” de coisa nenhuma

https://keywordtool.io/blog/most-spoken-languages-in-the-world/O quadro acima é (propositadamente) enorme, apesar de se referir a um assunto que parece interessar a umas quantas mentes pequeninas, na (vã) esperança de que assim, em grande, finalmente vejam os exíguos mentais, pela crueza dos números, o gigantismo da estupidez que nos tentam impingir.

Claro que também essa “lógica” algébrica, como se a Língua nacional pudesse ser escolhida consoante o número de votos (falantes), faz parte de todo um pacote de patacoadas a granel que os brasileiristas pensam ser suficiente para arrebanhar gado — porque julgam estar a lidar com uma récua de jumentos para os quais o II Império brasileiro é uma bela cenoura. Bom, o facto é que infelizmente até acertam em alguns casos: andam por aí umas bestas a zurrar loas à “língua univérsau”.

Como muito bem diz o autor do texto agora transcrito, «Alguém na Dinamarca, Polónia ou Itália está preocupado por ter um idioma que está longe dos mais falados no mundo?»

Pouco importa que a população dos 27 estados brasileiros seja atirada para o monte dos “falantes de Português”. Trata-se de mera estatística histórica, por assim dizer; assim que o Brasil acabar de uma vez por todas com as suas pretensões neo-imperialistas e, por conseguinte, reconhecer oficialmente que a sua língua nacional é o Brasileiro e não o Português — mera questão de tempo –, então os 257 milhões do total contabilizado administrativamente em 2023 passarão a ser cerca de 50 milhões. Óptimo. Desapareceremos daquele “top-20”, o da contagem de cabeças. E então? Além de dinamarqueses, polacos e italianos, quantos gregos, finlandeses, suecos, noruegueses, ucranianos, romenos, húngaros, turcos ou islandeses se ralam com tal coisa?

Vamos a isso!

Força, brasileiros! Viva a Língua Brasileira! Até pode ser já em 2024…

Ou, dito de outra maneira: força, portugueses! Viva a Língua Portuguesa! Há 800 anos e para sempre, viva!

Pobrezinhos, mas ‘influencers’? Não, senhor Presidente

Tiago Matos Gomes
“Diário de Notícias”, 14.06.23

“(…) Só somos verdadeiramente portugueses na medida em que sempre fomos, e somos, universais. (…) Partimos há mais de seis séculos e nunca deixámos de ir e de vir, de largar e de voltar. Por pobreza, por aventura, por desejo de horizontes mais largos, por sobrevivência, algumas vezes e tantas vezes convertida em realização. (…) Seremos mesmo assim, como vos garanto, influentes no mundo? É recordar a quinta língua mais falada no mundo, a segunda língua mais falada no hemisfério sul e também no hemisfério sul a mais usada no digital.”

Acima um excerto do discurso do nosso Presidente da República no 10 de Junho celebrado no Peso da Régua, fazendo-nos acreditar que os portugueses são universais, que têm esta particularidade intrínseca de estarmos em todo o mundo. Não, não temos essa particularidade intrínseca. Muitos portugueses saíram e saem de Portugal porque o país não lhes dá as condições que qualquer outro país da Europa ocidental lhes dá. Nenhum português, com algumas excepções que sempre existem, gosta de ir embora, de deixar a sua família, de deixar os seus amigos, de deixar os locais que frequenta.

A segunda falácia é acharmos que somos influentes no mundo, nomeadamente por causa da língua. Até porque o português europeu é bem distinto do português falado na América do Sul. E é este segundo que tem peso no digital. E não nos iludamos com o facto de estas duas formas de falar se designem por “português” quando os falantes brasileiros nem entendem o que os falantes portugueses dizem, sendo que o oposto, sendo mais raro, também acontece. Algo que nem o inútil e desastrado acordo ortográfico conseguiu unir, com a enorme desvantagem de estar a destruir a língua portuguesa falada e escrita em Portugal. Não se entende sequer esta obsessão que os políticos portugueses têm por uma hipotética grandeza da língua portuguesa que em tempo algum nos trouxe vantagens. Alguém na Dinamarca, Polónia ou Itália está preocupado por ter um idioma que está longe dos mais falados no mundo? Algum dinamarquês recebe um pior salário por causa de terem uma língua minoritária? E nem por isso a sua literatura é considerada menor. Todos os portugueses prefeririam que o português fosse uma língua minoritária como é o dinamarquês e recebesse um salário ao nível da Dinamarca.

“É recordar o secretário-geral das Nações Unidas eleito e reeleito por aclamação por quase 200 estados do universo. Ou as nossas forças nacionais destacadas a construírem a paz no nosso continente de origem e em muitos outros, sendo as mais pedidas e as mais louvadas de todas. (…)”

Continuou o Presidente no seu discurso. É verdade que vários portugueses têm estado em cargos internacionais de prestígio. E isso passa uma boa imagem de Portugal. Não só com António Guterres, mas também com Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, com Freitas do Amaral como presidente da Assembleia Geral das ONU… Que vantagem tiraram os portugueses destes cargos? Portugal não foi, nem podia ser, beneficiado por ter Durão Barroso à frente da governança europeia. E a verdade é que isso não aconteceu. Até foi muito penalizado no tempo da troika. Podemos (e devemos) ficar orgulhosos por portugueses chegarem a tão altos cargos mundiais. Mas não passa disso.

E Marcelo Rebelo de Sousa disse mais: “(…) Temos um peso no mundo, muito, muito maior, de longe, do que o nosso território terrestre. (…) Mas pergunto: De que nos serve termos essa influência mundial se entre portas temos tantos problemas por resolver? (…) Não podemos desistir nunca de criar mais riqueza, mais igualdade, mais coesão, distribuindo essa riqueza com mais justiça. Porque só isso nos permite e permitirá podermos ter e continuarmos a ter a projecção no mundo, que é o nosso desígnio nacional, é a nossa vocação de sempre. Fazermos pontes, sermos plataforma entre oceanos, continentes, culturas e povos.”

A pergunta do Presidente é certeira. E volta a acertar que é necessário fazer o nosso trabalho dentro de portas, nomeadamente na redução das desigualdades. Mas volta a errar quando afirma que o desígnio de Portugal e dos portugueses é termos projecção no mundo, que é essa a nossa vocação. Não é nem deve ser. Muito menos plataformas. É tempo de deixarmos para trás este complexo de grandiosidade por impérios que não voltarão. Olhar para Portugal como tendo um desígnio global, quiçá um quinto império, é adiar o trabalho que temos de fazer internamente. É adiar o trabalho de nos empenharmos na tarefa europeia. Essa sim deve ser encarada como um desígnio que nos pode tirar da estagnação estrutural em que estamos mergulhados.

“Outros há e haverá que são e serão mais ricos do que nós e mais coesos do que nós, mas com línguas que poucos conhecem, incapazes de compreenderem o mundo, de o tocarem e de o influenciarem, mesmo aquele mundo que está mesmo à beira da sua porta. Nós nascemos diferentes. Uma pátria improvável feita a pulso, contra o vento, muito cedo universal, muito cedo chamada e condenada a ser mais importante lá fora do que cá dentro. (…)”

E este último excerto é ainda mais preocupante. É o Presidente da República dizer-nos que temos de nos resignar à pobreza ou, na melhor das hipóteses, à mediania, quando o nosso objectivo e desígnio devia ser a equiparação aos mais ricos da nossa Europa. Não nascemos diferentes. Somos tão europeus como os restantes e temos de ter o mesmo nível de vida que têm os europeus mais ricos. Diz Marcelo Rebelo de Sousa que os outros até podem ser mais ricos, mas têm idiomas que não valem nada e que nem sequer entendem o mundo… E nós? Pobrezinhos mas influencers? Não, senhor Presidente, não estamos condenados a nada. Muitos menos a sermos mais importantes lá fora do que cá dentro. Portugal será aquilo que os portugueses quiserem e que as elites políticas deixarem. É necessária uma outra ambição. A começar pelo mais alto representante do Estado.

Tiago Matos Gomes
Presidente do movimento Partido Democrata Europeu

[Transcrição integral. Inseri “links”. Destaques meus.]

[Imagem de topo (gráfico) de: “Keyword Tool“.]

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