‘Sem Papas na Língua’

Bula “Manifestis Probatum”, de 23 de Maio de 1179, do Papa Alexandre III. Declara a independência do Condado Portucalense e D. Afonso Henriques como seu soberano.

O Papa João Paulo II fez absoluta questão de discursar sempre utilizando a Língua Portuguesa nas três ocasiões (1982, 1991 e 2000) em que visitou o nosso país. O mesmo vale para a visita do Papa Paulo VI, em 1967. E outro tanto sucedeu aquando da visita de Bento XVI em 2010.

Algo de bizarro — ou, pelo menos, de intrigante — poderá ter sucedido para que, na mais recente visita papal, o actual líder da Igreja Católica, Francisco, tenha evitado — se não recusado — comunicar em Português; à excepção das duas vezes em que usou a expressão “bom dia” (pronunciando bom djia, o equivalente brasileiro) e das três ou quatro ocasiões em que se dignou usar o agradecimento português, este pontífice exprimiu-se sistematicamente em Italiano, a Língua do Vaticano, ou em Castelhano, que é a sua língua materna.

Sucede, portanto, que tivemos três Papas na Língua e um Papa fora dela… a não ser quando vai ao Brasil.

Francisco presidiu há 10 anos, no Rio de Janeiro, ao mesmo evento que agora se realizou em Lisboa; enquanto permaneceu no Brasil usou nos seus discursos o Português correcto, escrito para ser lido, o que nada tem a ver com “sotaques”; então será legítimo indagar qual o impedimento ou quais os motivos para tal. Porque falou este Papa em Português no Brasil e em Castelhano e em Italiano em Portugal?

Julgará porventura que no Brasil — o tau da língua universau — é que se usa o Português, até porque é esse o nome que ali deram à língua nacionau? Os assessores de Sua Eminência não tentaram sequer “googlar” qual é a Língua que se fala e escreve em Portugal, antes de meterem a dita eminência no avião com destino a Figo Maduro? Acharão eles — ou, mil vezes pior, pensará o próprio — que na Península Ibérica é tudo espanhol e, por conseguinte, em Espanhol?

O ridículo da situação ecoa em igual medida no ridículo de tão absurdas “questões”. Mas o assunto, até porque parece ter passado despercebido aos media (e às redes anti-sociais, sempre muitíssimo atentas e ainda mais indignadas), pouco ou nada tem de irrelevante.

E não será por a ninguém ter ocorrido a menor dúvida sobre o assunto, talvez devido à habitual e tão idiossincrática passividade tuga, que ficarão por formular algumas perguntas — já noutro tom, que o assunto é demasiadamente sério para brincadeiras ou trocadilhos –, as que se impõem pela própria natureza daquilo que está aqui e agora em causa: este Papa no Brasil falou em Português mas assim que aterrou em Portugal ter-se-á de repente esquecido de mais do que “bom djia” e “obrigado”. Ignorou — falta apenas determinar se ostensivamente — a Língua Portuguesa. Mais um vergonhoso enxovalho ao qual não serão certamente alheios os (ir)responsáveis que venderam a Língua nacional àqueles que hoje por hoje se julgam donos dela.

Então, assim sendo, tiremos as maiúsculas ao título e fiquemo-nos pela expressão idiomática: sem papas na língua…

  • O Governo e o Presidente sabiam de antemão que isto iria suceder, ou seja, que o Papa não falaria em Português enquanto estivesse em Portugal?
  • Terá o Papa Francisco premeditado em ambos os casos (falar em Português no Brasil mas Espanhol em Portugal) ou isso sucedeu por qualquer outro motivo? E se houve outro motivo, qual foi ele?
  • Se não foi premeditado, poderá vir a ser alegado pelo Vaticano que numa visita de Estado ocorrem factos por mera casualidade ou “consoante calha”?
  • Se houve outro motivo para o banimento da Língua Portuguesa (que o Papa conhece e fala), como poderá o mesmo ser explicado, em termos de relações diplomáticas e disposições protocolares?
  • As autoridades eclesiásticas portuguesas tiveram naturalmente conhecimento prévio, em sede de reunião preparatória (ou várias) da visita e de organização das Jornadas. Que posição tomou a hierarquia da IC portuguesa quanto a esta matéria em concreto? Existiram pressões? De quem ou de que empresas, organizações ou instituições?
  • Qual será a posição pessoal do cidadão argentino Jorge Mario Bergoglio quanto a questões político-linguísticas em geral e quanto à língua universau brasileira em particular?
chegada JMJ Rio 2013: em Português

chegada JMJ Lisboa 2023: em Italiano

discurso aos voluntários JMJ Rio 2013: em Português

discurso aos voluntários JMJ Lisboa 2023: em Castelhano

despedida JMJ Rio 2013: em Português

despedida JMJ Lisboa 2023: em Castelhano

 

Da página em “português” no site do Vaticano: discurso no encontro com Centros de Assistência e Caridade, 4 de Agosto. O Papa fala em Castelhano, à excepção da saudação incial (“bom djia”); o discurso é “dublado” em brasileiro.
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