De facto, genericamente falando, o #AO90 será talvez o facto político e a demonstração prática que melhor ilustra o conceito de estupidez pura e dura. Se bem que por detrás das tais figurinhas estejam outros seres ainda mais sinistros do que os “apenas” estúpidos, ou seja, aqueles cuja ganância cegou por completo — logo à nascença, como o estúpido comum, ou então assim que viram a mina que poderia ser a língua “universau” brasileira — e aqueles outros que se limitam a obedecer à voz do dono, alguns dos quais até com extrema competência, como os profissionais da desinformação, os infiltrados nas hostes ditas “anti-acordistas”, os bufos, os homens-de-mão, os mercenários, os indefectíveis da “brasileirofonia”, os infames lacaios da traição.
[“Manual de Estupidologia Aplicada”]
Um dos últimos “posts”, aqui no Apartado, parece ter suscitado alguma controvérsia entre algumas pessoas ligadas à Causa anti-acordista. Pelo menos num grupo do Facebook e num “blog”, o título “O que faz correr os acordistas?” dividiu de alguma forma as opiniões, variando estas das coisas mais evidentes, como a estupidez pura e dura, a ignorância, a irresponsabilidade, a mediocridade, até às explicações mais subtis ou complexas: “medo de ferir as susceptibilidades do governo brasileiro”, por exemplo, ou ainda a disseminação da iliteracia em Portugal.
Evidentemente, nenhum dos “diagnósticos” está sumamente ou sequer vagamente errado, bem pelo contrário; a “adoção” do #AO90, todo o processo, todo o plano arquitectado em 1986 e consolidado — até ao mais ínfimo pormenor — em 2008, não teria quaisquer hipóteses de medrar (ainda que sem vingar) se não contasse a priori com a mais do que provável mediocridade dos arrivistas e traidores, com a atávica ignorância de «um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo» e sem o consequente espírito de manada de uma maioria esmagadora à qual apenas interessa não se meter em aborrecimentos.
É de facto a este estado de coisas, um statu quo amorfo, dir-se-ia comatoso, que podemos assacar não a responsabilidade mas apenas a permissividade, a gélida indiferença com que não foi enfrentado o assalto à Cultura portuguesa, à nossa identidade colectiva e ao âmago do nosso património — a Língua Portuguesa.
Ora, mesmo aceitando ou sabendo perfeitamente que assim é e assim continua a ser, estas ilações óbvias não explicam tudo. Quando muito, passam uma tangente ao essencial.
Num dos comentários à partilha do “post” referido no Facebook, lê-se o seguinte:
«Mais do que o que possa fazer correr os acordistas, é compreender a rendição de empresas e pessoas ao AO90. Quais os motivos concretos e realistas que os leva a apoiar o infame sem o questionar ou regatear. Isso sim, é o maior mistério, para mim.» [Paulo Teixeira]
Cá está. Se a construção frásica da segunda parte do comentário tivesse sido em forma de pergunta, então a resposta estaria contida na frase inicial: os motivos concretos e realistas que fazem correr os acordistas, o que explica a “rendição de empresas e pessoas” e o que leva estas a “apoiar o infame sem o questionar ou regatear” é… o dinheiro. Chama-se-lhe o que se quiser, pilim, poder, tachos, cacau, ferros, guita, ou simplesmente “aparecer”, tudo vai dar sempre ao mesmo, o dinheiro, o vil metal (“viu metau”, em brasileiro).
Sobre “especialistas” (alguns dos quais se intitulam a si mesmos como “académicos” e “linguistas” e até “juristas” ou mesmo “constitucionalistas”), já muito foi dito, aqui no Apartado e em outros sítios, incluindo jornais. Quem são eles, bom, todos sabemos isso perfeitamente, e conhecemos até as conivências político-partidárias, logo, as coligações e alianças de interesses — económicos, bem entendido, que a isso se resume a porca da política. Este tipo de constatações, que nem os próprios envolvidos se atrevem a desmentir, poderá ainda assim, dada a enormidade da corrupção e o gigantismo da podridão, levantar algumas dúvidas ou perplexidades.
Mas sobre as empresas, que diabo, então não se está mesmo a ver como funciona o carneirismo acordista? É que não é carneirismo coisa nenhuma, é a obediência à voz do dono!
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- Jornais e revistas: basta abrir um jornal qualquer. A chamada “publicidade institucional” (concursos. éditos, avisos etc.) constitui grande parte da receita líquida da maioria dos jornais portugueses. Ora, ou a “respetiva direção” passa a publicar tudo em brasileirês ou o corte radical desse “cliente”, que vale entre os 33% e os 100% da receita publicitária, pode levar a publicação à falência. Portanto, a resposta à pergunta é: dinheiro.
- Estações de rádio e de televisão privadas: além de também para estes canais valer o princípio ditatorial dos OCS em papel e/ou “online”, acrescem os “patrocínios” e as “subvenções” por parte de diversas entidades estatais. E ainda falta referir a componente fundamental: servindo todos os OCS por conta do Estado (de novo, jornais e revistas também) como órgãos de propaganda às políticas governamentais, sendo o #AO90 uma dessas políticas, então qualquer “direção” tem de escolher entre amochar ou… ser despedida em bloco e substituída por uma “seleção” de acordistas (ou não, mas que se vendem na mesma a quem der mais). Igualmente, a resposta à pergunta é: dinheiro.
- Fundações, Grupos de Teatro, Associações dos mais diversos tipos: bem, no caso destas coisas, sendo o financiamento e as “facilidades” (fiscais, de investimento inicial, de gestão corrente) suportadas na íntegra pelo Estado (ou seja, pelos impostos de todos os portugueses), a nenhuma delas sequer poderá ocorrer a mais leve ideia de autonomia. Até mudam logo as placas, as comunicações internas, os cartazes e tudo, que o dono manda! De novo, a resposta à pergunta é: dinheiro.
- Entidades locais, associações (“tipo” desportivas, recreativas e “culturais”) e outras: multiplicam-se como cogumelos (ou como coelhos, à escolha), são aparentemente autónomas, mas obedecem igualmente à voz do dono. Já não propriamente ao dono máximo de toda a canzoada, mas antes ao capataz local (vulgo, autarquia), o qual, por sua vez, apenas recebe ordens dos patrões, consoante quem estiver a ocupar os dois palácios senhoriais da Capital. Outra vez, a resposta à pergunta é: dinheiro.
- Empresas privadas: quanto a isto, seria necessário começar por entender a forma como se articulam os mercados, como interagem e como funcionam as suas relações de interdependência. Resumindo brutalmente o que não pode nem deve ser resumido, porque é extremamente complexo, atenhamo-nos apenas aos elementos envolvidos; e façamos este exercício de raciocínio atendendo apenas a algumas palavras-chave: financiamento, programas de apoio, fornecimentos, prazos de pagamento, subsidiárias (empresas, despesas, representações). E destas palavras-chave extraiamos uma pergunta simples: qual ou quais empresas, de que tipo de capital, de que área de actividade, não estão de alguma forma dependentes — parcialmente ou na íntegra — do Estado, das “entidades reguladoras”, dos “observatórios” ou das “autoridades” em geral (as quais dependem inteiramente do mesmo Estado)? Logo, a resposta à pergunta é: dinheiro.
Poderíamos ir ainda mais além, no detalhe, na particularização, na análise casuística. E para quê, afinal?
Para constatar o óbvio? Para chegar outra vez à (triste) conclusão inicial, aquela a que um módico de senso comum responde de imediato à pergunta: porque é que pessoas e empresas se rendem e algumas até dizem apoiar o infame e infamante #AO90?
Bom, a resposta à pergunta é: dinheiro. Aquilo que, parece, faz o mundo girar.
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