«A ignorância não mata mas induz em erro»

«Eça gostava do Brasil mas non troppo. Não tenhamos muitas ilusões quanto a isso. Eça escrevia para o Brasil porque precisava de arredondar o salário.»
[Carlos Reis, “Público”, 11.04.15]

A citação acima foi proferida pelo oficioso grão-mestre da grande loja brasileirista em Portugal, e o texto transcrito em baixo é de um se calhar ilustre mas totalmente desconhecido nacionalista nascido no Brasil.

Entre um e o outro “irmãos” — um laço com algo de redundantemente familiar, convenhamos –, a única diferença perceptível é a nível de estilo: o primeiro tem algum, se espiolharmos com boa vontade o que diz e escreve, enquanto que o segundo deles, coitado, não tem estilo algum — é assim uma coisa que coiso, de economista.

Porém, exceptuando o estilo e a sua ausência, qualquer deles poderia ter escrito a “peça” agora publicada no DN.

Note-se, um pouco ao acaso, tal é a profusão de textos (e livros e “tudo e mais não sei quê”) com que o tal Reis nos tem brindado idolatrando o Brasil, o naco de prosa que deu à estampa nos idos de 2011:

«Decorre daqui uma outra questão, bem mais controversa e potenciadora de conflitualidade: a que consiste em postular a existência de um idioma brasileiro, também ele autonomizado em relação à matriz linguística que é o português, enquanto língua de difusão e implantação colonial.»
«Não posso aqui entrar na problematização desta tese. O que digo é que esta é uma questão com gente implicada, a gente que vive a língua como eixo de afirmação identitária, às vezes com forte orientação nacionalista. Nos últimos tempos – e curiosamente sobretudo do lado de cá do Atlântico – acentuaram-se as manifestações desta deriva que traz consigo uma perturbadora controvérsia. O Acordo Ortográfico é o cavalo de Troia[sic] que no seu bojo transporta tão melindrosa confrontação, mal disfarçada nos debates inflamados que ele[sic] tem suscitado. Porque é disso mesmo que se trata, de uma confrontação intercultural que, com base num bem conhecido texto que adiante reencontraremos, bem pode adotar[sic] o seguinte lema e motivo de análise: a ortografia também é gente.»
[Carlos Reis, “A ortografia também é gente. Falar como os brasileiros ou com os brasileiros?”, ‘Letras de Hoje’, Porto Alegre, v. 46, n. 4, p. 89-96, Out./Dez. 2011]
[post
Ensaio sobre a Pepineira”, 26.05.21]

A julgar pelo tipo de paleio um pouco hesitante, ressalta que naquela época ainda estava em fase de lançamento o plano de terraplanagem cultural — linguística, histórica, identitária — que hoje em dia alguns fazem questão de impingir como “fato” consumado.

Apartes à parte, abreviemos, é do andamento actual do dito plano que vem este tal Jonuel, de sua graça, dar conta, escarrapachando convictamente as “ideias” e utilizando profusamente os mesmíssimos chavões modernaços da confraria.

Quais gémeos paridos por mães diferentes, Carlos e Jonuel comungam da sua fé inabalável nos milhões do Brasil e, por conseguinte, na língua universau brasileira, visto ambos crerem piamente – o “especialista em estudos queirosianos” e o economista — num fundamento muito pouco vagamente nazi: os mais fortes têm o direito “natural” de exterminar os mais fracos, porque aqueles estão em esmagadora maioria e estes não passam de uma desprezível, logo, descartável minoria.

A forma brasileira da língua

Jonuel Gonçalves
www.dn.pt, 18.12.23

No Brasil, o português fala-se com açúcar, disse Eça de Queiroz, que viveu uns tempos no Rio de Janeiro. Eu acrescentaria “com café, cachaça, água de côco, sol e chuvas torrenciais”. O torrencial tem alto valor simbólico das torrentes e correntes libertadoras, opressoras ou os choques formatadores entre ambas.

Passou fronteiras e hoje dos 240 milhões de pessoas que têm o português como língua materna, 210 milhões são brasileiras.

Como acontece com outras línguas, o produto local não ficou pela imitação ou aceitação de normas e estilos vindos da origem ou do passado. Criou nova música na fala e novos roteiros na escrita, sabendo que exagero em falar com eloquência vira ridículo e é pelas ruas, estradas, rios, festas, etc. que se fixam sons e sinais de comunicação geral.

É aqui que entra o sol, açúcar, café, água de côco e cachaça: cria palavras, muda palavras, determina gestos corporais, promove ritmos e segredos no ouvido. A mudança de palavras não é só comportamento brasileiro, é universal, inclusive na língua portuguesa brasileira. Brasil se pronuncia Brasiu, como em regiões de Portugal, vaca se pronuncia baca.

Mesmo assim, é comum na sociedade portuguesa considerarem que “os brasileiros falam errado”, consideração também feita em pequenas camadas sociais de topo nos PALOPs, enquanto ocorre exatamente o oposto na população suburbana, sobretudo de Angola. Os mais radicais daqueles comentários chegam a dizer que “aquilo não é português“. Se tiverem razão, o Brasil terá de designar sua língua nacional como Brasileira, ficando, então a Portuguesa com 30 milhões de falantes.

Há dias vi um blog brasileiro intitulado lusobrasilfonia.

O português falado no Brasil deu lugar a uma formidável base cultural, talvez a maior realização do país, responsável por representar mais de 40% da superfície sul-americana e ferramentas culturais mundialmente procuradas, como literatura, música, cinema e outras artes ou técnicas visuais. Basicamente nos 200 anos de Estado independente (na realidade um pouco menos).

Tem gente que não gosta dessas ferramentas e dessa continuidade, gerando sentimentos bipolares nas relações entre componentes da CPLP, enfraquecendo o alcance desta. A presença de 400 ou 500 mil brasileiros em Portugal dá lugar a um dos polos – rejeição. A Europa entrou em perigo de encolhimento demográfico, precisa de migrantes para manter equilíbrio de contas, mas é agressiva com os migrantes. Houve algo semelhante nos Estados Unidos em finais do século XIX e começo do XX com migrantes europeus (o trumpismo do “America first” tem longa história), não na América Latina, onde aconteceu até os imigrantes terem mais oportunidades que largas faixas da população local.

A ignorância e a discriminação nos critérios, conduz a começos de xenofobia. Assim, a queda de um governo na Europa é crise, se for no Brasil é mais uma bagunça ou, como bagunça é expressão brasileira, prova de “inferioridade”. Há pouco tempo ouvi de um intelectual português – com apoio no seu círculo de amizades – em tom de ofensa, que o Brasil “é um pantanal”, pensando que o Pantanal do centro-oeste brasileiro e dois países vizinhos é uma sequência de pântanos e não Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera, pela UNESCO, cerca de 200 mil quilômetros quadrados de superfície, com três milhões de habitantes e um agro-alimentar decisivo nas trocas internacionais.

A ignorância não mata mas induz em erro. É o que se passa em algumas áreas falantes de português sobre a forma da língua no Brasil e a irradiação de vários componentes dessa forma que, no entanto, assim continuará criativamente.

Jonuel Gonçalves – Economista

[Transcrição integral, na cacografia original do autor brasileiro.
Destaques e “links” meus. Corrigi num caso a palavra
“portuguesa” pela designação correcta.]

A atávica fixação de alguns tugas pelo “gigante” brasileiro, por um lado, aliada à profunda arrogância — com laivos de pura brutalidade, de que resulta a não menos aberrante lusofobia — de alguns brasileiros para com a “terrinha”, ambos os fenómenos contribuíram para que a oligarquia brasileirista tenha não apenas “adotado” oficialmente a língua brasileira como também estabelecido as bases políticas para transformar Portugal no 28.º Estado da República Federativa do Brasil.
[post Línguas e Alfabetos: 5. Impérios e imperialismos“]

 

Print Friendly, PDF & Email

Deixe um comentário