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AO90: “Areia na engrenagem” [Marco Neves, entrevista, SAPO24, 02.02.19]

Marco Neves: “O problema não é a correcção dos erros, é a arrogância com que isso se faz”

SAPO24, 02.02.19

Entrevista de Tomás Albino Gomes

Não é uma lista de erros, não é um ultimato àqueles que conjugam o verbo haver no plural fora das raras excepções em que é permitido ou que teimam em colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado. O “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português”, da autoria de Marco Neves, publicado pela Guerra e Paz, é uma declaração de defesa.

“Não me chamem para lutas absurdas contra a boa língua portuguesa, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve”, avisa Marco Neves, tradutor, revisor, professor, leitor, conversador. A luta do autor é outra, é pelas palavras e expressões que nos fogem da boca com a descontracção do dia-a-dia, pelo “deslargar”, “estájaver”, pelo “queria um copo de água” e “não há nada”; e contra todos aqueles que querem despojar a língua da sua riqueza oral numa atitude constante de apontar o dedo a qualquer deslize no português – que, como explica este Dicionário, não é um deslize. “Acho, aliás, curioso como alguns dos inventores de erros andam constantemente a lamentar o empobrecimento da língua, quando são os primeiros a querer limitar o seu uso”, sublinha.

Em entrevista ao SAPO24, casa onde é cronista e que conhece bem, Marco Neves fala de erros falsos, do vício e arrogância daqueles que apontam constantemente erros aos outros antes de olharem para os seus, numa conversa embrulhada pela evolução e compreensão de uma língua em que um povo embateu, com o novo Acordo Ortográfico, e que para se manter rica não deve esquecer a herança oral e as suas geografias.

Os livros sobre a língua portuguesa, na sua maioria, são páginas e páginas de combate aos erros mais comuns de ortografia, sintaxe ou oralidade. Mas este “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português” é diferente, é uma arma de defesa para as pessoas a quem são apontados erros.

É um livro que contraria um pouco a tendência. É preciso corrigir os erros e todos nós, por vezes, temos dificuldade a escrever e a falar, mais a escrever do que a falar. No entanto, acho que uma certa obsessão por procurar o que é o erro nas outras pessoas. Nunca pensamos tanto naquilo que nós próprios fazemos e isso é mais importante do que andar a ver se os outros falam mal ou falam bem. Aqui tento, no fundo, mostrar o outro lado, defender algumas expressões que são consideradas erros e que eu digo que não o são, e tento explicar porquê. São expressões que fazem parte da nossa língua, fazem parte da riqueza dessa língua e por isso estão aí defendidas.

O Marco distingue no livro a diferença entre um erro, colocando-o, de maneira um pouco mais simples, sobre a forma de um erro ortográfico, por exemplo, e a riqueza da oralidade.

A ortografia é uma convenção, está definida até por lei cá em Portugal. Não acontece isso em todos os países, mas por cá temos essa discussão, se devemos usar ou não a ortografia anterior. Eu uso a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico, mas essa está definida, existe uma série de regras que estão no papel e por isso é relativamente fácil perceber quando estamos a errar ou não. No que toca à oralidade, e mesmo na escrita mais criativa, a língua já não é feita no papel. Começa na boca das pessoas, no cérebro dos falantes e só depois é que alguém vai registar quais é que são as regras. Há uma grande diferença entre um erro ortográfico e aquilo que nós podemos dizer que é um erro na oralidade – onde também existem, mas são muito mais difíceis de definir.

Aquelas pessoas que estão sempre a apontar erros no português dos outros irritam-no?

Se me irritam a mim? Eu tento ter uma visão da língua o menos irritada possível [risos]. O que me irrita não é tanto o apontar o erro, porque todos podemos estar enganados, dar erros de português, estar convencidos de que uma coisa é erro e afinal não ser. A questão é mais a arrogância que por vezes aparece neste tipo de discurso, em que quando se apanha alguma falta – que por vezes não é falta, como eu tento explicar aqui, é apenas a forma como a língua funciona – parece que há um certo prazer. E isso irrita-me, essa arrogância, não tanto o corrigir. Eu sou professor, tradutor e revisor, as minhas profissões implicam andar à procura de erros, o problema não é a correcção dos erros, que é necessária e que sempre houve e que sempre continuará a haver, o problema é por vezes a arrogância com que isso se faz.

Também é um livro contra a arrogância?

Aí passamos para o segundo nível, que é o grande combate deste livro, a arrogância com que por vezes algumas pessoas tentam encontrar erros onde eles não existem, quando são apenas uma forma normal da língua funcionar.

Os tais erros falsos do português.

Não é só do português, todas as línguas que tenham uma norma escrita têm este tipo de controvérsias, certas expressões que certas pessoas consideram um erro, mas que são usadas por quase todos nós, algumas delas em situações mais informais, outras em situações também formais. Aparecem por vezes devido a certas análises simplistas ou por certos mitos, e por isso este dicionário também é um dicionário de mitos. Por exemplo, pensar-se que uma expressão tem de fazer sentido se olharmos para o significado de cada uma das suas palavras. Um dos erros falsos é a expressão “já agora”, que algumas pessoas combatem dizendo que não faz sentido porque “já” quer dizer “agora”, e por isso seria uma redundância. Mas, neste caso, “já agora” é uma expressão idiomática, é uma expressão em que as duas palavras em conjunto querem dizer outra coisa, e não querem dizer aquilo que cada uma delas quer dizer. Isto é uma coisa bastante básica do funcionamento da língua, todas as línguas têm expressões idiomáticas. Quando aprendemos uma língua estrangeira aprendemos não sei quantas expressões idiomáticas e às vezes esquecemo-nos de que a nossa própria língua também as tem.

Pegando aqui em alguns exemplos do livro, há um que me salta logo à vista: “deslargar”.

Aí temos uma expressão que não é adequada em certos registos. Eu não defendo que alguém diga esta palavra no parlamento ou numa situação mais formal, mas é uma palavra do registo informal, popular. E não é errada por ser ilógica. É apenas inadequada em certas situações, como há tantas palavras que também são inadequadas em tantas situações. Podemos começar pelos palavrões. Os palavrões são palavras que só devemos usar em certas situações, embora às vezes nos saiam fora do momento. No entanto, não são erros gramaticais, são palavras que têm um uso restrito em termos sociais.

Sou um defensor de que os palavrões têm um espaço na língua portuguesa.

Muito espaço, aliás. E fazem bem! Quando nós damos um pontapé numa cadeira ou numa porta dizemos um palavrão e aquilo alivia a dor. Mas como acontece em muitos casos, as palavras não são adequadas a todas as situações, depende do sítio, dependendo da situação. Às vezes também digo isto ao contrário, imagina uma palavra muito formal. Por exemplo, sua excelência. Não vamos utilizar isto em casa com os nossos filhos ou com os nossos. Mesmo as palavras formais podem não estar adequadas à situação. Todas as palavras têm um lugar. A acusação que se faz muitas vezes ao “deslargar” é que…

(mais…)

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Cantar pelos dois

 

A nossa língua na televisão espanhola?

Marco Neves
Sapo24, 16.12.18

Todos sabemos que os espanhóis não são muito dados a ouvir línguas estrangeiras: não só dobram tudo o que lhes aparece à frente, como têm uma estranhíssima inclinação para ouvir muita música espanhola.

«Olhinhos azuis» na TVE?

Ora, um dos programas mais importantes da TVE é a Operação Triunfo. O programa também já passou por cá, mas não aqueceu nem arrefeceu. Em Espanha, a Operação Triunfo é um fenómeno tremendo — e, ainda por cima, serve para escolher o representante do país na Eurovisão. É fácil concluir que as músicas são, em geral, cantadas em espanhol ou, uma vez por outra, em inglês.

Pois bem — o que dirá o leitor se eu lhe disser que uma das músicas que será cantada na final da Operação Triunfo espanhola de 2018 inclui estes versos?

Meus olhos choram por ver-te meu coraçom por amar-te
meus pés por chegar a ti meus braços por abraçar-te.
Desejava de te ver, trinta dias cada mês
cada semana o seu dia e cada dia umha vez.
Tes os olhinhos azuis inda agora reparei
se reparara mais cedo nom amava a quem amei.

Isto não é uma tradução. São mesmo os versos que serão cantados por Sabela, uma das concorrentes finalistas. A canção chama-se «Tris-tras» e é do grupo Marful.

O que se passa aqui? Uma espanhola vai tentar chegar à Eurovisão a cantar em português?

As palavras «coraçom», «umha», «nom» são as pistas para deslindar o mistério. Sabela é uma concorrente galega e, numa decisão que não é nada simples em Espanha, decidiu cantar na sua língua: o galego.

A letra acima está escrita na ortografia reintegracionista, muito próxima da portuguesa. É verdade que o galego oficial usa uma ortografia mais distante da portuguesa — mas as palavras e as frases são muito nossas.

Reparemos, por exemplo, nos primeiros versos de uma das músicas já cantadas por Sabela («Benditas Feridas»; note-se — «feridas» e não «heridas»), versos estes que estão na ortografia oficial, mais distante da portuguesa (e mesmo assim tão próxima):

Pouco a pouco
Vou deixando de esperar
E secando as miñas ganas de chorar
A luz tornouse a miña escuridade

De Salvador a Sabela

Ao ouvirmos Sabela, notamos como a fonética já se afastou bastante a norte e a sul do Minho. Mas, se repararmos, vemos que ela está a usar palavras tão nossas que arrepiam. Aliás, a proximidade entre português e galego anda a confundir alguns brasileiros no Twitter…

Um amigo confidenciava-me que, para muitos galegos, ter Sabela a cantar em galego na TVE sabe tão bem como aos portugueses soube ganhar a Eurovisão com uma música em português — com a diferença de que a nenhum português lhe passaria pela cabeça que fosse um problema cantar na sua língua para todos os europeus. Em Espanha, cantar em galego para todos os espanhóis ainda é uma novidade — e está longe de ser pacífico. Há quem não perceba que as línguas podem somar-se umas às outras — que haver galegos que insistam em falar e cantar em galego não põe nada nem ninguém em perigo. Aliás, esses mesmos galegos serão os primeiros a falar em espanhol quando é preciso (e, às vezes, quando não é preciso).

Bem, mas porque trago o assunto a esta crónica?

Na verdade, poucos de nós sabemos como a participação de Salvador Sobral na Eurovisão foi muito bem-recebida na Galiza.

Muitos galegos sentiram as palavras daquela canção como suas e comemoraram sem medo a vitória de Sobral.

Não digo que façamos a mesma coisa — mas, já agora, reparemos em Sabela, uma cantora que anda a usar a língua das Cantigas de Amigo para ganhar um concurso espanhol.

À distância segura da nossa fronteira antiga, não nos faz mal desejar sorte a quem leva uma língua tão nossa aos ouvidos dos espanhóis, que assim ficam a saber o que são «olhinhos azuis» — se isto não é a nossa língua, é o diabo por ela.

Que ganhe a melhor — e que a melhor seja Sabela.


Marco Neves | Tradutor, professor e autor. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. O seu livro mais recente é o Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Marco Neves, publicado na “plataforma” Sapo24 em 16.12.18.]

 

Celebrar a diversidade

Publicado em 28/05/2017
(53 vídeos)
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“Ou” o quê?!

Para variar, não concordo. Parece-me, aliás, de certa forma surpreendente este artigo de Nuno Pacheco.

Pelo tom conciliador e pela concomitante admissão tácita de que afinal é possível “aperfeiçoar” (ou “despiorar”, como diz Anselmo) aquilo a que o próprio, com imenso rigor terminológico, chama “o monstro”: «Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas.»

Uma inovação absoluta, vindo isto de uma pessoa que sempre se bateu contra, contra e nada mais do que contra o aleijão ortográfico, sem tergiversações (“conciliábulos mornos”, diz bem), sem hesitações ou tibiezas e, sobretudo, sem concessões de qualquer espécie.

“Ou”? “Ou” o quê?!

“Aperfeiçoar” o  monstro para ele ficar ligeiramente menos monstruoso? “Rever” o cAOs para o tornar um bocadinho menos caótico? “Remendar” o maltrapilho a ver se ele deixa de ser miserável?

Discussão? Ah, está bem, isso pode ser: discuta-se então qual a melhor forma de acabar com o miserável, maltrapilho, caótico, monstruoso AO90.

Acordemos, para desacordar de vez

Nuno Pacheco

19 de Janeiro de 2017, 7:30

Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa

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Neste Janeiro pleno de sol, eis que regressam as acaloradas discussões sobre a Língua Portuguesa. Voltou à RTP, na passada terça-feira, o magazine Cuidado com a Língua!; foi lançado um novo livro do tradutor, revisor e professor Marco Neves intitulado A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra & Paz); e o PEN Clube promoveu no Goethe Institut, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro, mais um debate sobre o acordo ortográfico (AO90). Aliás, é este último que mais promete dar que falar, com o anunciado “aperfeiçoamento” que a Academia de Ciências de Lisboa prepara e de que já foram surgindo alguns tópicos: regresso à diferenciação de “óptico-ótico” e de “pára-para”, clarificação do uso dos hífens, reposição de consoantes ditas mudas (pelo menos as que permanecem no Brasil, caso de recepção-receção); ou revisão do uso dos sufixos pan- e com-. Haverá conciliação? Arriscando uma metáfora marítima, esta tentativa de “aperfeiçoamento” arrisca-se a ser vista por uns como um inadmissível rombo no navio, e por outros como o lançamento de bóias de ferro aos náufragos.

Recordando os alertas dos saudosos José Pedro Machado e Vasco Graça Moura, entre tantos outros que se cansaram de argumentar contra os perigos do “monstro” que aí vinha, é possível olhar para a tentativa da ACL como a confirmação clara de um falhanço: se o AO precisa de emendas, e não serão poucas, nunca devia ter entrado em vigor no estado em que está. Os que lamentam a sorte das “pobres criancinhas” caso haja agora mudanças, deviam ter pensado na quantidade de disparates que as obrigaram a aprender para agora, aos poucos, terem de os desaprender. É por isso que os fautores do acordo não querem mudar uma só vírgula: para não ajudarem a sublinhar a sua incompetência.

É, pois, tempo de deixar a habitual lassidão portuguesa e enfrentar o problema. Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas. É curioso que um defensor do AO (considerando-o, ainda hoje, “obra meritória”, que “já não pode ser denunciado por Portugal, como país digno”), D’Silvas Filho, tenha publicado há dias no seu blogue e no Pórtico da Língua Portuguesa um texto onde condena, nos vocabulários ortográficos, “a sanha contra as consoantes não articuladas” por uma “obsessão no simplificacionismo. A língua é um complexo que traz consigo a herança de muitas gerações de falantes que a foram aperfeiçoando na comunicação. A língua é mais do que ortografia, mas esta tem interferência na linguagem, por exemplo, nos retornos sobre a fonia. Só se deve alterar a ortografia com pinças, com ciência, senão a fluidez da comunicação intergerações e o encanto das virtualidades da língua podem perder-se.” Foi isto que foi feito com o AO90? Só um lunático responderá pela afirmativa.

Apesar da vã retórica, nenhum benefício foi ainda mostrado como resultante da imposição das regras do AO90. O silêncio dá jeito, porque encobre todo o tipo de más opções e desvarios. Mas na língua não há silêncios. Ela rodeia-nos a toda a hora, falada, escrita, viva, múltipla. Um exemplo: numa extensa entrevista que o escritor brasileiro Pedro Maciel fez a Mário Soares e que permaneceu inédita até a Folha de S. Paulo a publicar postumamente, no dia 9, a última questão foi sobre a língua. Perguntou Pedro Maciel: “Não é uma bobagem a reforma ortográfica da língua portuguesa, já que a língua é um organismo vivo, dinâmico e muda-se conforme as novas gerações?” Respondeu Mário Soares: “O que é admirável na nossa comunidade é a variedade, a riqueza e as diferentes contradições. Os brasileiros têm locuções, maneiras de escrever e de falar diferente dos portugueses que enriquecem extraordinariamente a nossa língua, da mesma forma que os africanos e os portugueses. Cada um dá o seu tributo. Eu não sou um grande purista da língua e acho que as línguas são organismos vivos e são os povos que fazem as línguas. Não sou pela uniformização, mas pela variedade e pela diversidade dentro de uma unidade.”

Que siga a discussão.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 19.01.17. Destaques meus.]

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«São erros, senhores… Ou serão ideias supimpas?» [Nuno Pacheco, “Público”]

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logo_shareSão erros, senhores… Ou serão ideias supimpas?

Por Nuno Pacheco

12/08/2016 – 07:00

Eis meia dúzia de livros que, desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa.

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Supimpa, diz-lhe alguma coisa? Aos dicionários diz. Registada desde há muito, tem origem no Brasil (quem lia as aventuras da Turma da Mônica tropeçava nela com frequência), é um adjectivo de dois géneros e quer dizer “muito bom, excelente, óptimo”. Há dicionários que se ficam por aqui e outros que acrescentam esta informação: “De origem duvidosa”. Mau… Pensa-se logo em mãe perdida, pai incógnito, tragédias. Mas nada disso. É mesmo supimpa.

Ora esta conversa vem a propósito de uma meia dúzia de livros que, desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa, falada ou escrita. Os primeiros tratavam de erros. Mas sem nenhuma ligação com os ligeirinhos “em bom português” com que a televisão regularmente nos catequisa.

O primeiro, Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro (Sóregra Editores, Junho de 2015), vem explicar-nos de forma clara, concisa e bem-humorada, por que devemos, por exemplo, escrever e dizer ribaldaria e não rebaldaria, encapuzado e não encapuçado, cartapácio e não catrapázio, salgalhada e não salganhada, mas também as diferenças entre iludir e eludir, ímpio (sem fé) e impio (sem piedade) ou a inutilidade de dizer “implementar”, anglicismo que “nada acrescenta a palavras como aplicar, desenvolver, executar, efectuar, fazer, realizar, concretizar.”

Em Setembro de 2015, surgiram em simultâneo dois títulos com propósito idêntico ao do anterior: 500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa, de Sandra Duarte Tavares (A Esfera dos Livros) e Em Português, Se Faz Favor, de Helder Guégués (Guerra & Paz). O primeiro (único deste lote a aplicar o acordo ortográfico de 1990, mas ainda assim com prefácio de Ricardo Araújo Pereira, um declarado anti-acordista) alinha de A a Z as 500 palavras ou frases incorrectas que contém, explicando depois as formas correctas (“corretas” no livro). Por exemplo: “continuam a haver”, corrigido para “continua a haver”; “resplandescente” para “resplandecente”; “Há dois anos atrás” para “Há dois anos” (o “atrás” é redundante”); “defenir” para “definir”, “mais valia” para “mais-valia”; e “contato” para “contacto”.

Já o livro de Helder Guégués, apresentado com “um guia fundamental para escrever bem”, não é propriamente um dicionário mas uma obra para se ler, como se diz na gíria, de fio a pavio. Baseando-se em múltiplos exemplos concretos (jornais, revistas, televisão, internet), o autor percorre palavras, verbos, expressões, modismos, ortografia ou pontuação, para, com conhecimento e ironia, revelar erros, confusões, maus usos e sugerir soluções. Como o uso de “por que” ou “porque”, “de encontro a” ou “ao encontro de”, “eminente” ou “iminente”. Ao lado dos anteriores, este é  complemento perfeito. E ajuda a repensar tudo.

Mesmo a fechar o ano, mais um: o Novo Dicionário da Comunicação, de vários autores e coordenado por Pedro Correia (Chiado Editora, Novembro de 2015). Este é mais destinado a descodificar os termos correntes relativos aos media, dos antigos (como Galáxia Gutenberg, rigor, jornalismo de investigação, até mesmo share) aos mais recentes (gmail, google, tweet, podcast, liveblog, flash mob, hacker, upload, etc). Maioritariamente anglo-saxónicos, claro.

Este ano, foi preciso chegar a Abril para encontrar novo título: Doze Segredos da Língua Portuguesa, de Marco Neves (Guerra & Paz, Abril de 2016). Não é um dicionário e será também para ler de uma ponta à outra, como um romance. Fala de erros, sim, mas também diz que alguns não são erros. De certo modo, insistindo no bem falar e bem escrever, é como um oásis no martírio dos que, lendo os anteriores, começam a julgar-se analfabetos. “Fazer a barba?” Porque não? Se, mesmo ao “fazê-la”, a cortamos, desfazendo-a? É a partir de alguns aparentes contra-sensos e alguns lugares-comuns que o autor vai desfazendo mitos sem perder de vista o essencial: a defesa da língua. O que implica ler muito. Ler mais. Errar e corrigir. Conversar. Brincar com as palavras. Falar com os filhos. Aprender outras línguas.

Por fim, para acabar onde começámos: o Dicionário de Palavras Supimpas, de José Alfredo Neto (também da Guerra & Paz, Junho de 2016), é um exercício bem-disposto sobre vocábulos que oscilam entre o erudito e o calão, mas sempre com uma explicação à medida. Começa em “abananado” e acaba em “zurzir”. É mesmo um dicionário, A a Z, mas pode ser lido como um tratado de curiosidades. Lembram-se da palavra “fanico”? Pois é “coisa má que dá a alguém, da ordem do desmaio.” E remete para “badagaio”, palavra que certamente muitos ouviram da boca das suas tias ou avós. Mas também descreve “morosidade”, e desta maneira: “Forma particularmente pouco expedita de dizer lentidão”. Leiam, divirtam-se e aprendam. Mas não “qualitativamente”: “Palavra que, quando surge num texto, praticamente assegura que o mesmo não presta para nada.” Não é o caso deste livro, como já se percebeu.

Com tanta palavra, só resta dizer: até Setembro! E no lugar do costume, que este tem dono e Francisco Teixeira da Mota há-de voltar a preenchê-lo como só ele sabe, no mês que vem.

Nuno Pacheco

[“Público”, 12.08.16. Acrescentei links. Imagem de: “blog” Planeta Ig (Brasil).]

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