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“Não é a mesma língua!” [Paulo Franchetti, “Facebook”, 10.06.20]

“Não é a mesma língua!”

 

Paulo Franchetti, “Facebook, 10.06.20

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Num 10 de junho da década de 1980, fui convidado para discursar junto à estátua de Camões que fica em frente à Biblioteca Mário de Andrade. O autor do convite foi Rodrigo Leal Rodrigues, então e sempre presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes – que parece ter morrido com ele.

Rodrigo era quase uma personagem de lenda. Poeta, pertenceu ao grupo da Távola Redonda, onde assinava como Marcos Leal. Depois de andar por África e boa parte do mundo, estabeleceu-se no Brasil. Aqui, foi um entusiasta da pintura naïf, que promoveu, idealizador de um Liceu Português, que nunca conseguiu erguer, alma da Academia, que funcionava na Casa de Portugal, e diretor de uma revista chamada Voz Lusíada, dedicada à promoção da cultura portuguesa e luso-brasileira. Era um homem de enorme energia e mais enorme interesse em promover a cultura. Graças a ele e à sua influência junto à comunidade portuguesa, fizeram-se no Brasil muitos eventos literários – e todos os que se dedicavam à cultura do seu país tinham nele amparo certo e providências rápidas. No fim da vida, escreveu uma autobiografia intitulada, já à brasileira, “Colcha de retalhos”, cuja leitura permite perceber por que era difícil não se deixar contaminar pelo seu entusiasmo e por era ainda mais difícil negar um pedido seu.

E sou prova (ainda viva) disso, pois não só escrevi vários artigos em cima da hora, só para que ele pudesse completar a revista, mas ainda aceitei integrar a sua Academia (depois de negar vários convites, disse-lhe que só iria no dia em que vagasse a cadeira de Oliveira Martins – o que, de alguma forma, aconteceu pouco depois, o que me deixou, entre o medo e o remorso, disposto a aceitar finalmente), e, por fim, concordei em fazer o tal discurso.

É fácil imaginar o que foi aquilo: num dia de semana, naquele lugar, o hino nacional brasileiro, o hino português, uma exibição de danças folclóricas em trajes típicos, discurso de um representante do governo do Estado, de um representante da Prefeitura, de alguém do consulado português e, por fim, um representante não da Academia ou da universidade, mas do próprio Rodrigo. Ou seja, eu.

Fiz o que pude, sob o olhar dos que moravam na praça, dos que trabalhavam nos prédios, dos passantes, dos motoristas irritados e da comitiva. Não me lembro do que disse, mas disse certamente que éramos unidos pela língua. Afinal, era o dia de Camões e o tema se impunha. E sei que disse isso porque depois do discurso, estava numa rodinha com o Rodrigo e os vários representantes oficiais, quando se aproximou um sujeito que, pelas roupas e pelo jeito, parecia um dos moradores da rua, que teria acordado com o barulho.

Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Paulo Franchetti, publicado na rede anti-social Fakebook em 10.06.20. Evidentemente, nesta transcrição foi conservada a ortografia brasileira do original. Imagem inserida na transcrição de: http://www.jornal3idade.com.br/?p=9877. Imagem de topo de autoria desconhecida, copiada do site “Comunidade Cultura e Arte”.]

Marcos Leal – Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem…)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência: LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação)
Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.

Transcrição/adaptação do autor do “blog” brasileiro “Blog do Castorp”

«A língua no meio do caminho» [Paulo Franchetti, Facebook, 13.11.18]

“A língua no meio do caminho”Esse é o título de um colóquio que a Rede de Professores de Literatura Brasileira em…

Publicado por Paulo Franchetti em Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

“A língua no meio do caminho”

Esse é o título de um colóquio que a Rede de Professores de Literatura Brasileira em Portugal realizará nesta semana, na Universidade do Porto.

No meio do caminho, digamos entre o Romantismo e o nosso Modernismo, a língua foi de fato um problema central. Qualquer pessoa familiarizada com a história da literatura brasileira por certo conhece a obra de Alencar e a crítica feroz que lhe foi feita justamente quanto ao aspecto linguístico. Da mesma forma, quem estudou o nosso Parnasianismo sabe que a norma portuguesa imperou, num esforço sintático e prosódico, como ideal de cultura e distinção. E todos por certo conhecem os ataques modernistas aos que, no dizer de Bandeira, macaqueavam a sintaxe lusíada, bem como as soluções ensaiadas por Mário de Andrade.

Pelo que vi do programa, esses pontos serão debatidos. E, pelo que imagino de alguns outros títulos de comunicações, também será objeto de debates a questão da língua hoje, que me parece mais difícil de abordar.

Quanto ao presente, creio que o título do colóquio é bem apropriado, do ponto de vista brasileiro. A língua para nós é um problema: é a pedra no meio do caminho. Em vários sentidos: do ponto de vista português, vivemos tropeçando nela. Já do ponto de vista da linguagem culta brasileira, o “meio do caminho” surge como uma espécie de ideal: nem tão brasileira (pois ao menos na escrita e nas falas muito formais temos até hoje o prurido dos pronomes, e o cuidado de rever regências e concordâncias), nem tão lusitana a ponto de parecer esnobe ou friamente artificial.

Mas se do lado brasileiro a questão da língua é uma pedra no caminho, do lado português o problema não se coloca da mesma maneira. Aqui, no confronto, a situação parece mais confortável. E talvez pudesse exigir referência a outros versos. No caso, dois versos especulares, de T. S. Eliot: “in my beginning is my end” / “in my end is my beginning”.

Quero dizer: num caso, trata-se de promover, conservar ou modular uma continuidade; no outro, de encarar (para enfatizar ou para evitar) uma ruptura. Para este segundo caso, o brasileiro, portanto, é que se aplica, em todos os sentidos, a metáfora do meio do caminho.

Fiquei agora, enquanto tomava um pouco de sol nesta manhã fria de Coimbra (este lugar tão simbólico para o assunto), divagando sobre esse tópico. E, num dado momento, lembrei-me de uma coleção que foi publicada pela Editora da Unicamp e que sempre me causou um certo mal-estar.

Uma coleção dirigida por competentes linguistas, sem dúvida. E por isso mesmo devia ser publicada por uma editora universitária, como o foi enquanto lá estive.

Trata-se da coleção “Gramática do português culto falado no Brasil”.

O mal-estar, no caso, não vinha apenas da definição do que era o falante culto. Nem das construções apontadas como cultas, que não me pareciam razoáveis – talvez porque as visse ali escritas, já que faladas não me eram estranhas, pelo contrário. Vinha principalmente do fato de que aqueles volumes sistematizavam a nossa fala – mesmo a fala dos professores de português ou de literatura, além da fala de tantas outras pessoas de nível superior que têm na linguagem falada um lugar de exercício profissional. E o que essa fala culta patenteava a todo momento era o abismo entre ela e a linguagem escrita praticada por essas mesmas pessoas.

Na época, fiquei imaginando o que seria o equivalente daquele livro, no que toca à escrita: uma Gramática do português do Brasil (sem a especificação “falado”, nem a determinação “escrito”). Porque esse é o nosso grande problema: o distanciamento cada vez maior entre as normas – e a consequente falta de uma norma geral, que recolha, ordene e sancione (sim, isso também é importante) a prática.

Sempre me lembrava, quando isso me ocorria, de um artigo em que Mário de Andrade tentava resolver o impasse, ao propor o português conservador como língua de comunicação acima do dialetal – e quase como língua morta (como o latim renascentista) ou língua franca (como o inglês atualmente). Sua solução deixava separados os domínios da criação artística e da linguagem formal, científica ou meramente informativa. O que hoje parece ser prática difundida, mas não convincente, se pensamos em uma norma efetiva e geral para o país.

A questão central, portanto, até onde vejo, permanece irresolvida: qual é a língua culta brasileira? Ou não há língua culta na modalidade brasileira? Ou há apenas a que ainda – para exagerar como Bandeira – macaqueia a norma portuguesa?

Foi o que pensei, enquanto escrevia e observava que na minha própria escrita não há muito da minha fala. E por fim me perguntei, sem ter resposta, se a “língua culta brasileira” seria apenas a que, com algum cuidado e variável dificuldade, busca de fato um delicado e incerto “meio do caminho”.

Paulo Franchetti

[“Links”, destaques e sublinhados meus.]

A Língua no Meio do Caminho | Teaser

Na próxima semana, todos os caminhos vão dar à FLUP. A 12 e 13 de Novembro há Homenagem a Maria Velho da Costa. https://www.facebook.com/events/593097891109081/ Logo a seguir, a 15 e 16 de Novembro, a Rede de Professores de Literatura Brasileira em Portugal junta-se para debater alguns dos pontos mais nucleares de abordagem do campo literário brasileiro. https://www.facebook.com/events/461101394296372/A não perder!

Publicado por Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa em Sexta-feira, 9 de Novembro de 2018

«Lamento muito que os portugueses…» [Paulo Franchetti, Facebook]


Este “post” foi publicado por Paulo Franchetti no Facebook há exactamente três anos, mas bem poderia ter sido escrito e publicado hoje; mantém absoluta actualidade.

Trata-se de um pequeno mas extraordinariamente incisivo texto que foi aliás citado por, pelo menos, três cronistas tão diversificados quanto Filipe Zau, em Angola, João Gonçalves, em Portugal, e o Padre Belmiro Narino, no Luxemburgo.

  1. «Os falsos pressupostos do Acordo Ortográfico» [“Jornal de Angola”, 31.05.16]
  2. «O Acordo e a linguiça» [João Gonçalves, JN]
  3. “O poder despreza a cultura” [Belmiro Narino, “Luxemburger Wort”]

 

Por alguma estranha razão, com três anos de atraso (algum acesso de tuguismo ao retardador, ou então é só da velhice mesmo), só agora me apercebi de que ainda não tinha aqui reproduzido o dito “post”.

Pronto, fica rectificado o lapso.

Tenho acompanhado um pouco a reação e os apoios ao Acordo Ortográfico em Portugal, onde estou no momento. Lamento muito…

Publicado por Paulo Franchetti em Sexta-feira, 15 de Maio de 2015

 

Tenho acompanhado um pouco a reação e os apoios ao Acordo Ortográfico em Portugal, onde estou no momento.

Lamento muito que os portugueses passem a ser obrigados a escrever da forma abstrusa que o acordo preconiza.

Para nós, brasileiros, é mais fácil: sumiu o trema, perderam-se uns acentos, trocou-se a confusão dos hífens por outra confusão dos hífens. Saiu barato.

Em Portugal se produzem aberrações.

Espanta-me ver que há professores da área de Letras a defenderem o acordo. Alguns com argumentos tão inconsistentes quanto o próprio “acordo” que defendem.

As perguntas essenciais nunca afloram: quem precisa de um acordo desses, quem tem dinheiro para implementá-lo, qual a sua prioridade no plano das carências culturais?

Cientificamente, o acordo não se sustenta. Culturalmente, além de perverso, é irresponsável. Mas há vontade política de implementá-lo a qualquer custo.

Pobre país este… E não porque tenha de se dobrar ao Brasil. Isso é balela. O acordo tampouco interessa à cultura brasileira. Exceto à indústria dos livros didáticos e de referência. Pobre país este no qual muitos políticos e alguns intelectuais acham que a ordem que vem de cima deve ser a ordem das coisas.

Para nós, brasileiros, o acordo é inócuo. E talvez não sobreviva muito tempo, como não sobreviveu a reforma de 45, quando deixamos Portugal a escrever sozinho no novo sistema.

Mas aqui o chamado acordo é simplesmente inútil, custoso e absurdo, do ponto de vista científico e, principalmente, cultural. E está sendo enfiado goela abaixo de um grande número de intelectuais de primeira linha, implantado por lei e mandado fazer cumprir…

Paulo Franchetti

[Evidentemente, na transcrição textual, os destaques, sublinhados e “links” foram adicionados por mim. Imagem de topo de: Antero (Facetoons). ]

Tapar o Sol com as peneiras

Periodicamente, com a regularidade de um pêndulo, salta a ingente questão das datas e dela invariavelmente resulta a seguinte conclusão (ou relação de causa e efeito): havendo discrepâncias na datação dos documentos legais que envolvem o AO90, então esses documentos são ilegais e, por conseguinte, o próprio AO90 “não está em vigor”. Fantástico raciocínio: o facto de o “acordo” estar em vigor não interessa para nada,  o que interessa é que as datas estão erradas, são discrepantes, irra, não valem um caracol — e por conseguinte o AO90 afinal não está em vigor.

Em suma, a colossal aldrabice do todo acordista é filosoficamente trocada pela muito mais maneirinha e parcelar objecção quanto aos carimbos nos respectivos “instrumentos” de adesão e de ratificação. Há até quem, decerto imbuído de um incrível espírito de minúcia — característica distintiva dos chamados “picuinhas” — , vá mesmo ao mirabolante ponto de mui doutamente escarrapachar em texto (e exarar através de paleio) que, nada mais, nada menos, na verdade “o acordo ortográfico não está em vigor”.

Não se restringindo à vigarice única das datas erradas (os “quandos”), a mesma lógica da troca do essencial pelo acessório inclui uma outra, que parece ser ainda mais importante: que países da CPLP, ao certo, subscreveram o AO90 e, destes, quais ratificaram (os “quais”) o 1.º e o 2.º protocolos. Amiúde, seguindo a mesma estratégia das miudezas em vez do frango (ou de “tudo ao molho e fé em Deus”), alguns estudiosos colocam sérias dúvidas sobre as assinaturas físicas dos “negociadores” (os “quens”) que efectivamente subscreveram aquela fraude abominável.

Se tivéssemos de baptizar (mas felizmente não temos) tal estratégia de abordagem pela via administrativa (e burocrática) em detrimento da luta aberta e frontal, então poderíamos inventar adaptando (a condizer), para designar o fenómeno, o apelido do Ministro Iraquiano da Informação: Sahhafismo.

Epítome da vacuidade (e, digamos, um bocadinho lírico), Mohammed Saeed Al-Sahhaf vai fazendo escola nos areópagos nacionais — geralmente apinhados com umas 6 ou 7 togas circunspectas — e fazendo o seu caminho de pesadíssima nota de rodapé num brutal calhamaço académico ou na ficha técnica de uma ou outra sebenta electrónica.

O Sahhafismo serve, no caso, como respaldo da dita estratégia , dando cobertura (digamos assim) não apenas à questão das datas e ao problema das firmas mas também às objecções sobre “incongruências e contradições” presentes no AO90.

Claro que não está em causa que — a talhe de foice ou só para variar — se puxe desse tipo de argumentário. Tais vigarices menores não são nada em relação à questão maior (enorme, gigantesca) mas é um bacadinho parvo, digamos, matraquear no acessório em detrimento do essencial, isto é, torna-se absurdo atirar a minudências em vez de apontar toda a artilharia (e a Marinha de guerra e a Força aérea) ao “acordo” como um todo: todo vigarista, todo aldrabão, todo mentira.

Fingir que “o acordo ortográfico não está em vigor”, alegando em suporte da tese umas assinaturas nuns papeis, é como Sahhaf garantir, com veemência e cagança, enquanto os tanques americanos ocupam Bagdad, que está tudo bem, nada de grave se passa no Iraque, a situação está perfeitamente controlada pelas gloriosas tropas de Saddam Hussein.

Um bom exemplo brasileiro e mais datas para duvidar da validade do Acordo Ortográfico

Nuno Pacheco, “Público” 12..12.19

 

Se há obras que transcendem o seu estatuto fundador e são já património universal, Grande Sertão Veredas é uma delas. O seu autor, João Guimarães Rosa (Brasil, 1908-1967), era obcecado “pela integridade textual dos seus livros”, como recorda a editora Companhia das Letras, que acaba de lançar em Portugal nova edição desta obra. Por isso, resolveu adoptar (e di-lo na nota introdutória) “como referência a segunda edição [Agosto de 1958] com a rubrica ‘texto definitivo’”, respeitando “o critério básico de diminuir ao máximo as diferenças com a segunda edição de 1958, quando se fixou a fisionomia textual do romance.”

Explicando melhor: “O texto foi estabelecido de modo a preservar a expressividade de sinais diacríticos, hifenização e outros pormenores morfológicos e ortográficos na aparência desimportantes, mas que se destacam no sistema polifónico do livro.” Daí que, embora “êle” tenha passado com os tempos (e também no livro) a “ele”, “vôo” a “voo” ou “idéia” a “ideia”, se tenham mantido grafias como “gemêsse”, “umbùzeiro”, “urubú” ou “buritís”. Registe-se que, sendo a edição feita em Portugal (da editora brasileira aqui sediada), tanto a nota introdutória como a longa cronologia que fecha o livro e a respectiva lista de fontes respeitam a ortografia portuguesa de 1945 (ainda em vigor por lei). Que diferença com a recente edição d’A Menina do Mar, “atualizando” à força o texto de Sophia!

Já que falamos no Brasil, e no Acordo Ortográfico (que tenham paciência, ou virem a página, os que já dão este assunto por encerrado), é bom recordar que no Brasil sempre houve, e há ainda, resistência ao dito “acordo”. Manifestaram-se contra ele, a seu tempo, figuras como André Nogueira, Caetano Veloso, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Gregório Duvivier, Hélio Schwartsman, Ivan Lins, João Paes Loureiro, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Maria Lúcia Lepecki, Millôr Fernandes, Nei Leandro de Castro, Paulo Franchetti, Pasquale Cipro Neto, Sérgio de Carvalho Pachá, Sidney Silveira ou Walnice Nogueira Galvão. Ainda há pouco, no Observador (de 22/9), o jornalista brasileiro José Augusto Filho escreveu: “O Acordo Ortográfico de 1990 [que ele atribui ao “lulopetismo” – de Lula e do PT] é um falhanço total. Ele em nada tem facilitado a integração política e económica entre os estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Bem ao contrário, tem antes servido a alimentar nacionalismos e ressentimentos. […] Da forma que foi conduzido, o Acordo serve antes para enfraquecer a língua de Camões do que para disseminá-la. Quanto aos ganhos políticos e económicos decorrentes, foram até agora praticamente nulos.”

(mais…)

«Os falsos pressupostos do Acordo Ortográfico» [“Jornal de Angola”, 31.05.16]

jornal-de-angola

Os falsos pressupostos do Acordo Ortográfico

Filipe Zau |*
31 de Maio, 2016

Aparentemente, a questão do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), parecia depender apenas da ratificação dos Governos de Angola e Moçambique. Contudo, pouco se fala das resistências ao mesmo por parte das sociedades civis (mormente da brasileira e da portuguesa) que não deixam de ser significativas, como procurarei ilustrar de seguida. Ora vejamos:

–“A reforma ortográfica não enriquece em nada o idioma, mas alguém enriquecerá com ela” (João Ubaldo Ribeiro, Prémio Camões 2008);

“Os populistas que querem acabar com o analfabetismo simplificando a forma de escrever (como se isso tivesse que ver com aprender a ler e compreender o que foi lido) são de facto elitistas fascistóides que promovem a interdição da norma culta, ou seja, dos tesouros literários, a quem tem dificuldade para aprender a ler e entender.” (José Nêumanne Pinto, jornalista e escritor brasileiro);

– “Lamento muito que os portugueses passem a ser obrigados a escrever de forma abstrusa que o acordo [ortográfico] preconiza. Cientificamente, o acordo não se sustenta. Culturalmente, além de perverso, é irresponsável. Mas há vontade política de implementá-lo a qualquer custo. O acordo tampouco interessa à cultura brasileira. Excepto à indústria dos livros didácticos e de referência. Pobre país este no qual muitos políticos e alguns intelectuais acham que a ordem que vem de cima deve ser a ordem das coisas.” (Paulo Franchetti, escritor e crítico literário brasileiro);

– “Línguas são organismos vivos: nascem, crescem e morrem. Fazem-no independentemente de leis e decretos. E, até onde me lembro, jamais deleguei a nenhum parlamentar ou governante poderes para regular o meu quinhão do contrato social linguístico que vigora entre falantes de um idioma. Se dependesse de mim, o acordo [ortográfico] seria denunciado e todos poderíamos continuar a escrever sem a interferência de burocratas de pouco tino.” (Hélio Schwartsman, filósofo e colunista brasileiro);

–“Eu sou totalmente contra [o Acordo Ortográfico]. Radicamente contra. É a mesma coisa de matar a árvore: cortando a sua raiz, a árvore não existe mais.” (Ivan Lins, músico brasileiro);

“As nossas regras ortográficas iam bem, obrigado, cumprindo o seu papel sem ofender ninguém. De repente, sem aviso prévio, o GÁGÁ – Grupo Anónimo de Gramatiqueiros Anónimos – resolveu meter, com licença da palavra, o bedelho. E foi criada a reforma ortográfica. Continuarei a escrever segundo as normas anteriores a este golpe gramatiqueiro.” (Nei Leandro Castro, escritor brasileiro);

– “Quando sai uma reforma dessas, atiram-se para o lixo todos os livros didácticos, para fabricar e vender tudo de novo. É uma reforma supérflua e inútil, provavelmente interesseira. Nunca vi ninguém fazer isso com o inglês, por exemplo, que é cheio de consoantes e vogais que ninguém pronuncia e nem por isso é preciso fazer reformas ortográficas periódicas” (Walnice Nogueira Galvão, escritora e crítica literária brasileira);

– “Acho [o Acordo Ortográfico] absolutamente inútil e improdutivo. A língua é feita pelo povo. Não adianta o Governo querer discipliná-la.” (Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor brasileiro);

–“Havia pequenas diferenças que não atrapalhavam a mínima, a mútua, interacção e comunicação de quem falava e escrevia português. Tentaram, uma vez mais, promover esta quase utopia da unificação gráfica de realidades fónicas distintas e deram com os burros n’água. Não só deram com os burros n’água, como pioraram uma coisa que tinha defeitos, mas que não era tão má assim. Isto foi mau para nós, brasileiros, e foi muito mau para os nossos irmãos portugueses.” (Sérgio de Carvalho Pachá, filólogo brasileiro);

– “A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. Por que estamos sempre a fazer tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma.” (Reinaldo Azevedo, jornalista brasileiro).

Contrariamente ao que, em alguns fóruns comunitários, nos procuram fazer crer, estas posições não são de pouca monta, nem são isentas de relevância nas sociedades brasileira e portuguesa. Para além dos já conhecidos intelectuais que se opõem ao Acordo e da rejeição da própria Sociedade Portuguesa de Autores, surge, ultimamente, da parte de Portugal, a posição da escritora e professora universitária Teolinda Gersão, que afirma ser um absurdo “defender o indefensável”. Segundo a mesma, um acordo “feito nas nossas costas, e com pareceres negativos de todos os linguistas excepto o do seu ‘pai’, Malaca Casteleiro”.

Através de um texto bastante crítico, Teolinda Gersão refere-se sobretudo aos pressupostos que estão na origem do Acordo e que, segundo ela, não se verificaram. Previa-se que o AO90: simplificasse a ortografia, o que o tornaria bem aceite; uniformizasse a língua portuguesa, em todos as suas variantes e em todos os continentes; tornasse a língua portuguesa mais acessível a estrangeiros, atraindo cada vez mais locutores; aproximasse os países, sobretudo Portugal e o Brasil, em que as variantes da língua portuguesa divergem mais; facilitasse os negócios.

Todavia, quase 30 anos se passaram e o Acordo “levantou e continua a levantar ondas de rejeição de protesto, a maioria da população recusa-o e continua ilegalmente imposto”, afirmou Teolinda Gersão, que concluiu da seguinte forma: “Então este ‘acordo’ falhado serve para quê? Já se discutiu tudo, só falta rasgá-lo.

Curiosamente, a posição angolana face ao AO90, que apresenta como lema: “Rectificar para ratificar”, não se encontra muito afastada do que aqui é apresentado: constatámos que uma maior promoção e difusão da língua portuguesa, nas agências da Nações Unidas, não depende do Acordo mas sim dos recursos a serem disponibilizados para as traduções;independentemente da língua ser a mesma, de país para país (e, num mesmo país, de região para região) as palavras são pronunciadas de forma diversa. Logo, é impossível unificar ortograficamente um idioma a partir das suas variantes linguísticas e ignorar por completo a origem comum das palavras; consequentemente, as muitas excepções à regra, por falta de referências estandardizadas, em vez de facilitarem a ortografia, acabam por dificultá-la ainda mais. Isto, para já não falar na falta de cooperação ortográfica entre a língua portuguesa, enquanto língua neo-latina, com as línguas bantu, crioulísticas e malaio-polinésias.

Apenas para dar resposta a alterações tão pouco significativas e a pressupostos teóricos que se revelaram inconsistentes, há um outro aspecto que se levanta: o custo de importação dessa mudança ortográfica em meios didácticos (e outros), para países que não possuem capacidade editorial suficiente para darem resposta ao volume de manuais indispensáveis a cada aluno e onde a educação primária de seis (ou mais classes do ensino secundário) é gratuita.

(*)Ph. D. em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

[Transcrição de «Os falsos pressupostos do Acordo Ortográfico», “Jornal de Angola”, 31.05.16. Adicionei “links”.]

«O Acordo e a linguiça» [João Gonçalves, JN]

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jn_default_imgO Acordo e a linguiça

JOÃO GONÇALVES

09 Maio 2016 às 00:04

No início de 2012, quando chegou à presidência do Centro Cultural de Belém, Vasco Graça Moura mandou retirar de todos os computadores o software que “corrigia” os textos em consonância com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o AO90. Entretanto já todos os departamentos da Administração Pública, praticamente todos os órgãos de Comunicação Social e os principais empórios editoriais tinham adoptado o AO90. Sobretudo aqueles que comercializam literatura escolar. Paulo Franchetti, no outro lado do Atlântico, refere o AO90 como “aleijão” e já o vi denotado aqui e acolá em “aborto”. O “Jornal de Angola” é mais sóbrio: “se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada”. O subscritor político em nome do Governo português de então, Santana Lopes, afirmou na semana passada que a língua não é uma “relíquia” pelo que a “abrasileirização” seria quase uma fatalidade. Para mais, acrescentou, há crianças que não conhecem outra ortografia a não ser a imposta pelo AO90 pelo que seria um disparate ir agora privá-las desta “ferramenta”. O comentário veio a propósito de o presidente da República ter relançado o debate público em torno de um acordo internacional ilegal, circunstância pelos vistos desprezada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros: o AO90 não vigora nas diversas ordens jurídico-políticas da chamada “lusofonia” pela prosaica razão de que nem todas o ratificaram. Em Portugal, talvez pela incorrigível mania da “originalidade” – e, como Miguel Sousa Tavares não se cansa de recordar, para justificar tanta académica ida e volta ao Brasil – o AO90 oficializou-se sem ser aplicado genericamente pela população escrevente, seja em privado seja por dever de ofício. Introduzimos um “terceiro género ortográfico único” que o endémico analfabetismo funcional reproduz erradamente em rodapés e títulos de jornais. Até mesmo no Brasil apenas este ano se conclui o período transitório e depois logo se vê. É que o Brasil deve ter mais para se coçar do que com coisas como “facultatividades”, “cláusulas de exceção” ou duplas e triplas grafias. João Ubaldo Ribeiro, aliás, não poupou o “acordês” e o negócio subjacente: “a reforma ortográfica não enriquece em nada o idioma, mas alguém enriquecerá com ela”. A ilógica soviética de tentar legislar o português deve ser contrariada para evitar, escreve Ubaldo, “começar a falar linguiça com o i mais forte que o u”.

[Source: O Acordo e a linguiça, JN, 09.05.16. Acrescentei “links”. Imagem: Olé Idiomas]