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“Não é a mesma língua!” [Paulo Franchetti, “Facebook”, 10.06.20]

“Não é a mesma língua!”

 

Paulo Franchetti, “Facebook, 10.06.20

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Num 10 de junho da década de 1980, fui convidado para discursar junto à estátua de Camões que fica em frente à Biblioteca Mário de Andrade. O autor do convite foi Rodrigo Leal Rodrigues, então e sempre presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes – que parece ter morrido com ele.

Rodrigo era quase uma personagem de lenda. Poeta, pertenceu ao grupo da Távola Redonda, onde assinava como Marcos Leal. Depois de andar por África e boa parte do mundo, estabeleceu-se no Brasil. Aqui, foi um entusiasta da pintura naïf, que promoveu, idealizador de um Liceu Português, que nunca conseguiu erguer, alma da Academia, que funcionava na Casa de Portugal, e diretor de uma revista chamada Voz Lusíada, dedicada à promoção da cultura portuguesa e luso-brasileira. Era um homem de enorme energia e mais enorme interesse em promover a cultura. Graças a ele e à sua influência junto à comunidade portuguesa, fizeram-se no Brasil muitos eventos literários – e todos os que se dedicavam à cultura do seu país tinham nele amparo certo e providências rápidas. No fim da vida, escreveu uma autobiografia intitulada, já à brasileira, “Colcha de retalhos”, cuja leitura permite perceber por que era difícil não se deixar contaminar pelo seu entusiasmo e por era ainda mais difícil negar um pedido seu.

E sou prova (ainda viva) disso, pois não só escrevi vários artigos em cima da hora, só para que ele pudesse completar a revista, mas ainda aceitei integrar a sua Academia (depois de negar vários convites, disse-lhe que só iria no dia em que vagasse a cadeira de Oliveira Martins – o que, de alguma forma, aconteceu pouco depois, o que me deixou, entre o medo e o remorso, disposto a aceitar finalmente), e, por fim, concordei em fazer o tal discurso.

É fácil imaginar o que foi aquilo: num dia de semana, naquele lugar, o hino nacional brasileiro, o hino português, uma exibição de danças folclóricas em trajes típicos, discurso de um representante do governo do Estado, de um representante da Prefeitura, de alguém do consulado português e, por fim, um representante não da Academia ou da universidade, mas do próprio Rodrigo. Ou seja, eu.

Fiz o que pude, sob o olhar dos que moravam na praça, dos que trabalhavam nos prédios, dos passantes, dos motoristas irritados e da comitiva. Não me lembro do que disse, mas disse certamente que éramos unidos pela língua. Afinal, era o dia de Camões e o tema se impunha. E sei que disse isso porque depois do discurso, estava numa rodinha com o Rodrigo e os vários representantes oficiais, quando se aproximou um sujeito que, pelas roupas e pelo jeito, parecia um dos moradores da rua, que teria acordado com o barulho.

Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Paulo Franchetti, publicado na rede anti-social Fakebook em 10.06.20. Evidentemente, nesta transcrição foi conservada a ortografia brasileira do original. Imagem inserida na transcrição de: http://www.jornal3idade.com.br/?p=9877. Imagem de topo de autoria desconhecida, copiada do site “Comunidade Cultura e Arte”.]

Marcos Leal – Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem…)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência: LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação)
Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.

Transcrição/adaptação do autor do “blog” brasileiro “Blog do Castorp”

«A língua no meio do caminho» [Paulo Franchetti, Facebook, 13.11.18]

“A língua no meio do caminho”

Esse é o título de um colóquio que a Rede de Professores de Literatura Brasileira em Portugal realizará nesta semana, na Universidade do Porto.

No meio do caminho, digamos entre o Romantismo e o nosso Modernismo, a língua foi de fato um problema central. Qualquer pessoa familiarizada com a história da literatura brasileira por certo conhece a obra de Alencar e a crítica feroz que lhe foi feita justamente quanto ao aspecto linguístico. Da mesma forma, quem estudou o nosso Parnasianismo sabe que a norma portuguesa imperou, num esforço sintático e prosódico, como ideal de cultura e distinção. E todos por certo conhecem os ataques modernistas aos que, no dizer de Bandeira, macaqueavam a sintaxe lusíada, bem como as soluções ensaiadas por Mário de Andrade.

Pelo que vi do programa, esses pontos serão debatidos. E, pelo que imagino de alguns outros títulos de comunicações, também será objeto de debates a questão da língua hoje, que me parece mais difícil de abordar.

Quanto ao presente, creio que o título do colóquio é bem apropriado, do ponto de vista brasileiro. A língua para nós é um problema: é a pedra no meio do caminho. Em vários sentidos: do ponto de vista português, vivemos tropeçando nela. Já do ponto de vista da linguagem culta brasileira, o “meio do caminho” surge como uma espécie de ideal: nem tão brasileira (pois ao menos na escrita e nas falas muito formais temos até hoje o prurido dos pronomes, e o cuidado de rever regências e concordâncias), nem tão lusitana a ponto de parecer esnobe ou friamente artificial.

Mas se do lado brasileiro a questão da língua é uma pedra no caminho, do lado português o problema não se coloca da mesma maneira. Aqui, no confronto, a situação parece mais confortável. E talvez pudesse exigir referência a outros versos. No caso, dois versos especulares, de T. S. Eliot: “in my beginning is my end” / “in my end is my beginning”.

Quero dizer: num caso, trata-se de promover, conservar ou modular uma continuidade; no outro, de encarar (para enfatizar ou para evitar) uma ruptura. Para este segundo caso, o brasileiro, portanto, é que se aplica, em todos os sentidos, a metáfora do meio do caminho.

Fiquei agora, enquanto tomava um pouco de sol nesta manhã fria de Coimbra (este lugar tão simbólico para o assunto), divagando sobre esse tópico. E, num dado momento, lembrei-me de uma coleção que foi publicada pela Editora da Unicamp e que sempre me causou um certo mal-estar.

Uma coleção dirigida por competentes linguistas, sem dúvida. E por isso mesmo devia ser publicada por uma editora universitária, como o foi enquanto lá estive.

Trata-se da coleção “Gramática do português culto falado no Brasil”.

O mal-estar, no caso, não vinha apenas da definição do que era o falante culto. Nem das construções apontadas como cultas, que não me pareciam razoáveis – talvez porque as visse ali escritas, já que faladas não me eram estranhas, pelo contrário. Vinha principalmente do fato de que aqueles volumes sistematizavam a nossa fala – mesmo a fala dos professores de português ou de literatura, além da fala de tantas outras pessoas de nível superior que têm na linguagem falada um lugar de exercício profissional. E o que essa fala culta patenteava a todo momento era o abismo entre ela e a linguagem escrita praticada por essas mesmas pessoas.

Na época, fiquei imaginando o que seria o equivalente daquele livro, no que toca à escrita: uma Gramática do português do Brasil (sem a especificação “falado”, nem a determinação “escrito”). Porque esse é o nosso grande problema: o distanciamento cada vez maior entre as normas – e a consequente falta de uma norma geral, que recolha, ordene e sancione (sim, isso também é importante) a prática.

Sempre me lembrava, quando isso me ocorria, de um artigo em que Mário de Andrade tentava resolver o impasse, ao propor o português conservador como língua de comunicação acima do dialetal – e quase como língua morta (como o latim renascentista) ou língua franca (como o inglês atualmente). Sua solução deixava separados os domínios da criação artística e da linguagem formal, científica ou meramente informativa. O que hoje parece ser prática difundida, mas não convincente, se pensamos em uma norma efetiva e geral para o país.

A questão central, portanto, até onde vejo, permanece irresolvida: qual é a língua culta brasileira? Ou não há língua culta na modalidade brasileira? Ou há apenas a que ainda – para exagerar como Bandeira – macaqueia a norma portuguesa?

Foi o que pensei, enquanto escrevia e observava que na minha própria escrita não há muito da minha fala. E por fim me perguntei, sem ter resposta, se a “língua culta brasileira” seria apenas a que, com algum cuidado e variável dificuldade, busca de fato um delicado e incerto “meio do caminho”.

Paulo Franchetti

[“Links”, destaques e sublinhados meus.]

«Lamento muito que os portugueses…» [Paulo Franchetti, Facebook]


Este “post” foi publicado por Paulo Franchetti no Facebook há exactamente três anos, mas bem poderia ter sido escrito e publicado hoje; mantém absoluta actualidade.

Trata-se de um pequeno mas extraordinariamente incisivo texto que foi aliás citado por, pelo menos, três cronistas tão diversificados quanto Filipe Zau, em Angola, João Gonçalves, em Portugal, e o Padre Belmiro Narino, no Luxemburgo.

  1. «Os falsos pressupostos do Acordo Ortográfico» [“Jornal de Angola”, 31.05.16]
  2. «O Acordo e a linguiça» [João Gonçalves, JN]
  3. “O poder despreza a cultura” [Belmiro Narino, “Luxemburger Wort”]

 

Por alguma estranha razão, com três anos de atraso (algum acesso de tuguismo ao retardador, ou então é só da velhice mesmo), só agora me apercebi de que ainda não tinha aqui reproduzido o dito “post”.

Pronto, fica rectificado o lapso.

 

Tenho acompanhado um pouco a reação e os apoios ao Acordo Ortográfico em Portugal, onde estou no momento.

Lamento muito que os portugueses passem a ser obrigados a escrever da forma abstrusa que o acordo preconiza.

Para nós, brasileiros, é mais fácil: sumiu o trema, perderam-se uns acentos, trocou-se a confusão dos hífens por outra confusão dos hífens. Saiu barato.

Em Portugal se produzem aberrações.

Espanta-me ver que há professores da área de Letras a defenderem o acordo. Alguns com argumentos tão inconsistentes quanto o próprio “acordo” que defendem.

As perguntas essenciais nunca afloram: quem precisa de um acordo desses, quem tem dinheiro para implementá-lo, qual a sua prioridade no plano das carências culturais?

Cientificamente, o acordo não se sustenta. Culturalmente, além de perverso, é irresponsável. Mas há vontade política de implementá-lo a qualquer custo.

Pobre país este… E não porque tenha de se dobrar ao Brasil. Isso é balela. O acordo tampouco interessa à cultura brasileira. Exceto à indústria dos livros didáticos e de referência. Pobre país este no qual muitos políticos e alguns intelectuais acham que a ordem que vem de cima deve ser a ordem das coisas.

Para nós, brasileiros, o acordo é inócuo. E talvez não sobreviva muito tempo, como não sobreviveu a reforma de 45, quando deixamos Portugal a escrever sozinho no novo sistema.

Mas aqui o chamado acordo é simplesmente inútil, custoso e absurdo, do ponto de vista científico e, principalmente, cultural. E está sendo enfiado goela abaixo de um grande número de intelectuais de primeira linha, implantado por lei e mandado fazer cumprir…

Paulo Franchetti

[Evidentemente, na transcrição textual, os destaques, sublinhados e “links” foram adicionados por mim. Imagem de topo de: Antero (Facetoons). ]

Teoria do cAOs, efeito borboleta e efeito dominó

Chaos theory states that within the apparent randomness of chaotic complex systems, there are underlying patterns, interconnectedness, constant feedback loops, repetition, self-similarity, fractals, and self-organization.

In 1972, Philip Merilees concocted ‘Does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?’

A domino effect or chain reaction is the cumulative effect produced when one event sets off a chain of similar events. [Wikipedia]

Este artigo de Ana Cristina Leonardo sobre as eleições, contendo uma grande carga de bom-senso (e uma pequena de ingenuidade), é um exemplo quase perfeito do efeito dominó que finalmente começa a fazer cair, uma após outra, as peças do jogo acordista.

Vendo o fenómeno por um prisma equivalente mas ainda mais ilustrativo, de novo se constata sobre o AO90 (e suas adjacências esconsas, negócios escuros, brutais mentiras) pairam as asas da borboleta que agitando-se algures acabarão fatalmente por fazer desabar as lisboetas barracas de São Bento, Belém e Necessidades.

É de facto gratificante constatar que vão desaparecendo os pruridos na adjectivação e na compreensão dos pressupostos do processo. Os bois que tentaram vender a Língua Portuguesa a troco de um prato de lentilhas começam a ser chamados pelos nomes. Porque as pessoas já perceberam que afinal foram por canalhas tomadas por imbecis.

Ainda não chegámos a vias de facto, é certo, mas os factos são tantos — e qual deles o mais evidente — que em breve lá chegaremos.

O mais recente artigo de AC Leonardo sobre o assunto é outra pequena amostra da reacção em cadeia. Sobre a qual, aliás, haverá alguns considerandos a tecer e não menos imprecisões a esclarecer… provindo duas delas de citações contidas no texto.

Por exemplo, quando cita a expressão «legitimação do AO» poderia a autora talvez ter atalhado de imediato que jamais existiu qualquer de espécie de “legitimação” do AO90, até porque uma coisa e a outra são conceitos que mutuamente se excluem. O que sucedeu foi uma espécie de discussão beneditina (ou peregrina) em 1991, mera formalidade destinada a fazer passar uma ilegalidade absurda, e mais tarde, em 2008, foi montado na mesma tenda de circo um espectáculo com palhaços e malabaristas fazendo seus números.

O AO90 nunca foi “legitimado”. Uma votação parlamentar sujeita a disciplina partidária não legitima uma questão de interesse nacional, sem a menor ligação com sectarismos. Ora, os deputados aprovaram a RAR 35/2008 exactamente como se estivessem a decidir mandar construir (ou não) um bairro social na Quinta da Marinha. É para isso que lá estão, fazem aquilo que os patrões mandarem os “seus” deputados fazer: levantar-se ou ficar sentados.

Outra referência citada que bateu “ao lado”, e ainda que Franchetti, com louvável prudência, tenha acrescentado “creio que” à formulação: «No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didácticos.»

Olhe que não, olhe que não. Miudezas. Na impagável expressão norte-americana, isso é “peanuts”. Ou, no não menos pitoresco “futebolês”, o que as editoras ganham à conta da cacografia brasileira é “pinotes”. Trocos, portanto. Claro que nos casos — que até já sucederam — de fusões entre grandes editoras portuguesas e brasileiras (são grandes mas não são grande coisa), bem, aí até pode ser que alguns empochem umas lecas, mas isso não é nada se comparado com os negócios fabulosos — indústrias, movimentação de capitais, especulação, exploração de matérias-primas e de mão-de-obra — que na verdade e de facto estiveram desde sempre por detrás de toda a trama, a gigantesca e fraudulenta maquinação urdida a pretexto da “língua universáu” e sob o disfarce político-diplomático a que chamaram CPLP.

Por fim, ainda uma terceira referência ao arrazoado no artigo reproduzido, desta vez uma opinião da própria autora: «interpretar o sim ao Acordo como sinal de ignorância da larga maioria dos políticos em exercício».

Bom, além das razões já aduzidas será então de contrapor uma outra opinião.

Que os políticos em geral e os deputados em particular são de uma ignorância confrangedora, pois claro, ele há verdades como punhos, sendo a parlamentar bovinidade uma das mais evidentes, mas no caso vertente o que se passou foi — como se não bastassem as gerais dificuldades na leitura e as inerentes deficiências no raciocínio — que a esmagadora votação não passou de tremenda fantochada, a função circense já referida, com o acréscimo venenoso de um truque nojento: aos deputados foi transmitida a vaga ideia (um hábito da casa) de que iriam votar, segundo as ordens dos respectivos líderes, a adesão de Timor-Leste à CPLP. Se era a isto que se referia a filósofa, ah, pois então com certeza, está carregadinha de razão, o “sim ao acordo” sucedeu precisamente por causa da “confusão” («ouve lá, sabes em que é estamos a votar? Timor na CPLP? Ah, óptimo, então não fiz confusão, eu cá levantei-me porque me mandaram mas não sabia para que raio era aquilo»).

E pronto. Foram só umas notas soltas, nada de remoques. Como poderia, com que direito, de mais a mais perante mais esta demonstração de que a teoria do cAOs já não é uma mera teoria académica. É a realidade começando a ser bem entendida.

Mentes simplex

Ana Cristina Leonardo
“Público”, 28 de Janeiro de 2022

Num dos seus momentos menos enigmáticos, escreveu Maria Gabriela Llansol: “O começo de um livro é precioso”. Se pusermos de lado todo o resto do texto de Llansol que se inicia com a frase citada — à maneira do Rousseau do Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens: “Comecemos então por afastar todos os factos, porque eles nada interessam para a questão” —, o mesmo se poderá aplicar a uma crónica.

Não podendo a crónica fugir demasiado à realidade, melhor dizendo, à “espuma dos dias”, sente-se o cronista assoberbado, ou mesmo atarantado, quando a espuma se adensa e se agiganta, qual glaciar à deriva nos mares gelados dos desertos brancos.

Naturalmente, há dois temas eternos a que pode sempre recorrer-se: a essa desgraça maior chamada Acordo Ortográfico e à beleza das amendoeiras em flor.

Sobre amendoeiras, cujos lençóis de flores foram capazes de apaziguar as saudades da neve de Gilda, a princesa nórdica que viveu em tempos que já lá vão no Al Gharb andaluz (não confundir com o Allgarve de Manuel de Pinho, o ex-ministro que mandou demolir a última morada de Almeida Garrett…), pouco haverá a acrescentar a não ser talvez que as árvores de flores brancas dão amêndoas doces e as árvores de flores rosa são amêndoas amargas.

Já sobre o Acordo Ortográfico, será curioso registar a posição dos principais partidos concorrentes às eleições de Domingo. Lembrando que a legitimação do AO passou pelo assentimento de todas as bancadas da Assembleia da República, com excepção do PCP, do PEV e de três deputados do CDS que se abstiveram (apenas votaram contra Manuel Alegre (PS), Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e do ex-PCP, Luísa Mesquita), quase catorze anos passados sobre a aprovação da degola das consoantes mudas (e outras que foram, entretanto, emudecendo) e perante os resultados poucos famosos que tal revisão acabaria por trazer — tanto do ponto de vista da unificação, argumento maior dos acordistas, como no da ortografia tout court, com os erros a engrossarem à conta da “pronúncia culta” que passou, basicamente, a confundir-se com “a ortografia que soasse melhor”: veja-se o exemplo de espectador que passou a ‘espetador‘, novamente a espectador, havendo quem entretanto, e não são poucos, já escreva espétador… —, quem o votou acabou a lavar as mãos, como Pilatos.

Com o caos instalado, conclui-se que a maioria (PAN, IL, CDS, PSD…) diz querer avaliar o Acordo. Não deveria ser antes avaliarem-se?

À esquerda, António Costa, oracular, afirma que o AO “deve fazer o seu caminho”. Catarina Martins afirma que o “Acordo prevê, ele próprio, que haja estudos e revisões ao longo do tempo, e, portanto, se algum de nós estiver a dizer que não quer essa revisão, está a dizer que não quer o próprio Acordo”, raciocínio algo bizantino que, além de assentar numa falsidade (nada no Acordo prevê aquilo de que a deputada fala), denuncia alguma ignorância sobre o funcionamento da língua: afinal a ortografia não é como o PIB que, habitualmente, muda todos os anos. Rui Tavares afirma que o que importa é a coerência, sendo por isso muito importante o Acordo, melhorado ou não, enquanto contributo para a promoção da língua portuguesa lá fora (este desígnio promocional assente na uniformização, como toda a gente sabe, também tirou em tempos o sono aos ingleses e espanhóis: os primeiros conseguiram que shit se tornasse universal nos territórios de Sua Majestade; já os segundos tentaram, sem sucesso, impor a interjeição coño à totalidade do mundo hispânico).

Perante o estado do mundo em geral e a solenidade do nosso acto eleitoral em particular, a quem é que poderá interessar o assunto Acordo Ortográfico?
(mais…)

A Carta

«Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.» [Paulo Franchetti]

Aqui vai mais um texto de cariz independentista e, por conseguinte, identitário, na sequência da mais recente (e justa) ofensiva anti-acordista que tanto em Portugal como no Brasil vão definindo — sem tergiversações, sem  mentiras e sem sequer “considerandos”, por regra manhosos — a única saída possível para o AO90: essa manobra política não serve para nada, a “língua universal” é um absurdo impraticável, portanto anule-se o “acordo” e que a língua do Brasil siga por si mesma, separando-se finalmente da matriz portuguesa. Ou, para utilizar a expressão de Paulo Franchetti, mais um dos autores brasileiros*** a constatar a definição da expressão portuguesa “óbvio ululante”, “não é a mesma língua!”.

À semelhança do anterior, este outro artigo de outro autor brasileiro, foi também ele publicado num jornal do lado de lá. Lado de lá esse que, no caso vertente, isto é, a luta pela independência da língua brasileira, em nada difere do lado de cá: quanto a isso, sim, as pessoas do lado de lá, do Brasil, estão em perfeita sintonia com as do lado de cá, de Portugal. Finalmente, em suma, estamos uns e outros de acordo quanto a todos os assuntos relacionados com a Língua de cada qual, afinal era (é) facílima — e mais do que evidente — a solução: agora que já não é criança nenhuma, cresceu, desenvolveu-se durante dois séculos, a natureza das coisas segue apenas as coisas da Natureza, a língua do Brasil seguirá o seu próprio caminho, basta que corte de uma vez por todas o cordão umbilical que à força alguns — de lá e de cá — tentaram remendar.

Remendar um cordão umbilical é tão absurdo como banir uma recordação, como rasgar uma carta, como emendar o passado. E emendar o passado é tão impossível como reescrever a História.

(Des)Acordo Ortográfico

Nelson Valente

www.diariodaregiao.com.br, 27.05.21

 

Quantas vezes na vida você já perguntou: Como se escreve tal palavra mesmo? É com z ou com s? Tem acento? (assim mesmo sem circunflexo, pois o chapeuzinho só vai na cabeça antes de plural), tem hífen? Essas dúvidas sempre existiram e vão continuar existindo, só que o novo acordo ortográfico, que de novo não tem nada, pois começou a ser elaborado há 29 anos, mas só entrou completamente em vigor em 2016, ao invés de ajudar, parece ter atrapalhado ainda mais a escrita.

Quer um bom exemplo? Quando uma criança está fazendo a lição de casa e tem uma dúvida, pergunta para quem? Os pais, é claro. Só que a grande maioria desses pais foi educada na transição do acordo ortográfico, portanto cresceram com as mesmas dúvidas. Aí a solução é dar um “google” e eis que a quantidade de explicações é tão extensa, muitas citando outras regras gramaticais, que geralmente a dúvida não é esclarecida e ainda aumenta.

Claro que em educação nada acontece em curto espaço de tempo, mas a demora e o sentimento de que o Acordo Ortográfico dos países de Língua Portuguesa se tornou uma nau sem rumo está criando gerações com grave déficit de escrita. Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, infelizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB. As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério. É fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. Já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil.

Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 218 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir. O Brasil não tem tradicionalmente uma política linguística. A difusão do português brasileiro no exterior ocorre quase por inércia, mais pela importância que o Brasil vem assumindo geograficamente, geopoliticamente e economicamente. Portugal, ao contrário, tem uma política linguística, tem o Instituto Camões, com mais de mil professores espalhados pelo mundo todo, enquanto o Brasil tem 40 leitorados. Cria-se aí, já, uma diferença.

Nós que tínhamos de ter uma política linguística mais agressiva, mas temos uma posição de colonizados, de que, se Portugal já está lá, não precisamos ir. Precisamos, sim. Nós somos 90% de quem fala português no mundo e somos a 7ª economia mundial. Portugal, ao contrário, está no fundo do poço, com essa crise horrível que acontece por lá. Nós que temos de investir e brigar pelo nosso espaço, porque as pessoas de fato querem aproveitar as oportunidades que nós oferecemos.

Não dá para impor uma língua de uma hora para outra a um povo. O padrão da língua no Brasil deve ser a língua falada pela maioria da população brasileira contemporânea, que é o português brasileiro. O que ocorre com o dito Novo Acordo Ortográfico é que na verdade Portugal “colonizador” quer colonizar a língua portuguesa. O que ocorre é um conflito entre português de Portugal e português brasileiro nas escolas. Pois quando um aluno diz que não sabe português, na verdade, está dizendo que não sabe as normas da gramática do português ensinado na escola.

A implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! E a consequência é o caos linguístico que se está verificando nas escolas, na comunicação social, falada/escrita/ouvida e lida. Para que não ocorra um desacordo na nossa língua, quem sabe daqui a alguns anos apaguemos o “português” e fique só o “brasileiro”.

Nelson Valente
Professor universitário; jornalista; escritor

[Transcrição integral de artigo, com o título “(Des)Acordo Ortográfico”, da autoria de Nelson Valente, publicado no jornal brasileirowww.diariodaregiao.com.br em 27.05.21. Destaques e sublinhados meus. Inseri “links” e imagens. Imagem de topo(no artigo): por Pedro Américo – Martins, Lincoln. Pedro Américo: pintor universal. Brasília, Federal District: Fundação Banco do Brasil, 1994 ISBN 85-900092-1-1, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20218656. Imagem de topo de: VortexMag (Brasil).]
[Nota: quando os autores são brasileiros é aqui conservada (evidentemente) a ortografia dos originais.]
[*** Outro nome incontornável, de entre os oposicionistas-independentistas brasileiros, é também o do professor, doutor em filologia, linguista e escritor Marcos Bagno.]

Fatal como o destino

  • «o idioma continua vivo e a evoluir»
  • «património intangível»
  • «ecologias endógenas e diaspóricas»
  • «registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua»
  • «“Através desta língua é possível descobrir aspectos inerentes à comunidade […] como, por exemplo, o seu próprio humor, a forma como se olha para as coisas da vida e o olhar crítico sobre as questões do seu dia a dia”»
  • «[…] muitas pessoas esquecem-se que […] evoluiu em muitos sentidos, por exemplo em termos lexicais. Não se pode pensar que o […] que se utiliza agora […] é a mesma língua que se falava há 200 anos. Há outros elementos lexicais que foram importados […]”»

Como? Se isto é sobre a língua brasileira? Bom, não exactamente mas na verdade estes tópicos e as respectivas formulações poderiam perfeitamente referir-se a essa outra língua de raiz portuguesa. Aquilo de que aqui se fala é do Patuá macaense; no entanto, os conceitos linguísticos, históricos, sociológicos e culturais, atendidas as inerentes idiossincrasias e as devidas distâncias, são rigorosamente os mesmos. Como aliás não poderia deixar de ser, até porque os processos e pressupostos atinentes à criação e desenvolvimento de uma Língua, qualquer que seja, são (na família linguística do tronco indo-europeu) regulares e genericamente uniformes.

Condicionantes de toda a ordem, com a natural primazia das geográficas e das — consequentemente — sociológicas (variantes de  isolamento e de coesão do grupo de indivíduos), determinam o maior ou menor  afastamento de uma nova Língua em relação à matriz que lhe deu origem.

Enfim, tudo princípios basilares, coisinhas facilmente acessíveis para o mais coriáceo dos sapateiros, pelo que (com a agravante de me irritar solenemente o polvilhado de referências biográficas, além de não ter aqui à mão quem trate de me semear a “bibliografia” nos rascunhos) parece dispensável, porque redundante, continuar a bater no ceguinho.

Percebe-se a ideia muito mais claramente do que os planos para fabricar um avião em papel A4. 

Além do Patuá (Papiamento), em Macau, existem inúmeros crioulos de base portuguesa, os nove de Cabo Verde (sendo um deles Língua nacional) e os da Guiné Bissau, de São Tomé (dois) e (do) Príncipe, de Casamansa (Senegal), de Ano-Bom (Guiné Equatorial), na ex-Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), e ainda um pouco por toda a Ásia.

Como sabe o sapateiro anteriormente mencionado, bem como grande parte dos demais mal-vestidos que a intelligentia tuga evita prudentemente, com mal disfarçado horror, o Crioulo é uma Língua de base (lexical) portuguesa; nos casos deste caso, passe a redundância, resultam da fusão do Português enquanto língua-franca com o falar autóctone local; de forma abrangente, os crioulos integram as diversas variantes da ou das línguas das colónias e países que resultaram da Conferência de Berlim (1885) e de convulsões históricas subsequentes; autonomizando-se progressivamente, os diversos crioulos acabam fatalmente por reivindicar — pela sua própria natureza de património nacional intangível – o estatuto de Língua independente. Ao fim e ao cabo, um processo em tudo paralelo, similar e concomitante da própria independência política.

Malaca – Malásia

Nesta acepção, que muito pouco ou nada tem de objectável, o processo de autonomização linguística do Brasil, com 200 anos de atraso em relação à sua independência política, está já para além da simples crioulização. De Português, ao brasileiro pouco mais resta do que as raízes. Já é uma língua independente.

Ainda que dando trinta de anos de avanço à premissa, a língua do “gigante” brasileiro — que bem poderá servir como língua-franca nos 26 Estados daquela espécie de sub-continente – existe já hoje e que lhes faça muito bom proveito. Pódji fala i isscrêvê como quisé, cara, viu? Viva a língua Brasileira, morô?

Porém, contudo, no entanto, não obstante, cada um brinca c’a sua, salvo seja, valeu? Não tentem vossemecês passar o filme histórico de trás para a frente.

Portugal colonizou o Brasil e levou consigo o Português; não impôs a Língua, a Língua impôs-se por si mesma, naturalmente.

Não tentem agora vir pelo caminho das caravelas tentar colonizar Portugal ao contrário, trazendo sobranceria a tiracolo e fazendo estalar o chicote neo-colonialista, com a fraqueza do número que apenas impressiona distraídos, com a xenofobia que usam como arma de arremesso, com esse estranho ódio histórico de um passado mal resolvido, com a insuportável arrogância da soberba que vegeta na ignorância.

E não se esqueçam, se fizerem a fineza, de que mais tarde ou mais cedo a verdade faz como o azeite em água. É fatal como o destino.

Saúde.

Miguel de Senna Fernandes quer passar peças dos Dóci Papiaçam di Macau para livro

“Hoje Macau”, 29.04.21 – hojemacau.com.mo

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Miguel de Senna Fernandes quer editar em livro as quase 30 peças levadas à cena pelos Dóci Papiaçam di Macau. Por ocasião da palestra online “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”, o advogado afirmou que o idioma continua vivo e a evoluir, por exemplo, na forma de falar português dos macaenses. Os académicos Mário Pinharanda Nunes e Raúl Gaião apresentaram estudos sobre o crioulo e discorreram sobre a sua evolução

Miguel de Senna Fernandes, advogado e director do grupo teatral Dóci Papiaçam di Macau revelou ter planos para publicar em livro, pelo menos em patuá, português e chinês, os textos que estiveram na base das peças levadas à cena pelo grupo. O projecto, contou ao HM, está a ser delineado com a investigadora académica macaense, Elisabela Larrea.

“Ainda vou publicar as peças de teatro [em livro]. Já lá vão 28 ou 29 peças. Seriam vários volumes. Tenho um projecto pensado para isto com a Elisabela Larrea. É fundamental. O trabalho dos Dóci Papiaçám tem de ser convertido em obra escrita. Suspendemos este trabalho, mas temos mais ou menos uma ideia de como fazer a coisa. Não nos interessa ter um livro só em patuá, isso ninguém vai ler, mas, naturalmente, uma edição também em português e em chinês”, partilhou. O director dos Dóci Papiaçam vinca ainda que, por isso mesmo, “é muito importante definir bem uma estratégia”, considerando ser uma obra “sobre o património intangível de Macau”, que poderá ser apoiada pelo Instituto Cultural (IC)

As várias vidas do patuá

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) realizou ontem a sessão “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”. Contando com presença de vários linguistas e académicos especializados na área, a sessão abordou temáticas como as “ecologias endógenas e diaspóricas do patuá”, o português de Malaca e iniciativas de revitalização destes crioulos luso-asiáticos.

Miguel de Senna Fernandes, que também participou na sessão “Resgate do Patuá”, considera que, apesar de o idioma já não ter expressão prática, é necessário “olhar para o fenómeno linguístico do patuá de uma perspectiva actual e compreender o seu estado, onde é que se utiliza e porque é que se utiliza”. Isto porque continua a ser usado, de forma mais ou menos inconsciente, por muitos macaenses quando se exprimem em português.

“O patuá não morreu, há é várias formas de o falar. Muitos dos macaenses, quando se exprimem em português, falam a partir do patuá e, essa forma de falar e mesmo como constroem as frases, misturada com o português e o cantonês, por exemplo, tem muito de patuá. São registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua”, partilhou Miguel de Senna Fernandes, ainda antes do início da sessão de ontem.

Quando questionado sobre se é efectivamente possível resgatar o patuá, sublinha que um “resgate” não pode ser entendido com a finalidade de “pôr as pessoas a falar patuá outra vez”, pois é uma língua que já não tem razão prática para existir.

“As condições do aparecimento da língua já não existem. O patuá formou-se há mais de 200 anos, num contexto social muito próprio da altura. Hoje em dia, este contexto não existe e, se existisse, teria que ter características muito especial e uma função para que as pessoas voltassem a utilizar com frequência o patuá como veículo de comunicação”, acrescentou.
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