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A violência da “influência”

“Negócios”, 16 de Junho de 2016

O abjecto naco de prosa abaixo “fotografado” e cujo texto se reproduz é mais uma das peças paridas pela agremiação comercial cuja seita dirigente foi aqui referida em ocasiões diversas.

O título desta publicação numa “rede social” diz quase tudo sobre ao que vêm estes vendilhões e, caso ainda subsistam dúvidas, basta atender à repetição obsessiva de um — já não assim tanto — estranho substantivo feminino: influência.

A óbvia “mensagem” — ou ideia peregrina — que se pretende passar com esta radical menorização do papel de Portugal, da Língua Portuguesa e da nossa Cultura, é algo deste anedótico tipo: o Brasil sempre existiu, o Brasil é brasileiro desde muito antes das invasões bárbaras que houve na “terrinha”, já havia Brasil quando um tal Pedro Álvares Cabral, no ano 1500 da nossa era, resolveu ir a banhos para uma das edílicas praias do “gigante” sul-americano. Terá sido, portanto, devido àquele turista e a outros como ele (por exemplo, um tal Pero Vaz de Caminha, que tomou umas notas sobre as férias em Vera Cruz), que a “influência” portuguesa começou a “interagir” com a milenar cultura local, e daí o cavaquinho e o batuque e o “chorinho” (e porque não o samba e o pagode?) que os tugas copiaram indecentemente “compartilhando” a excelente barulheira sob a forma de fado, uma coisinha menor e sem História alguma.

A isso se resume a “influência” portuguesa na cultura brasileira, dizem estes novos “coroné”. É no cavaquinho e é no pão, vá. Daí o “seu Manoéu” padeiro e a sua Maria “dji bigodji”, os arquétipos com que os brasileiros, na sua imensa “cultura”, fazem o favor de carinhosamente carimbar na testa os portugueses.

A “influência” de Portugal no Brasil é assim uma coisa ao nível do Líbano (Houaïss era filho de emigrantes libaneses) ou da Alemanha ou da Itália. E não passa disso. Portugal é um penduricalho, um apêndice, uma excrescência.

Portanto, tugazinhos, reduzam-se lá à vossa insignificância e rendam-se, de uma vez por todas, à “inevitável” lei do mais forte: ah, e tal, eles são 220 milhões e nós somos só 10…

Não é o que dizem? Então… pronto. Tá légau?

Câmara Portuguesa de Comércio em São Paulo

December 28, 2023 at 12:01 PM

Portugal exerceu uma enorme influência cultural no Brasil, deixando marcas em diversos aspectos da nossa nação. Algumas áreas em que podemos ver a influência de forma mais clara são a arquitectura, a música e a gastronomia.

Na arquitectura, a influência do estilo barroco português é evidente, especialmente em cidades como Olinda, Salvador e Ouro Preto. Suas igrejas e casas coloniais encantam com seus detalhes ornamentados e cores vibrantes, semelhantes à diversas edificações no Porto e em cidades do interior português.

Na gastronomia, os países compartilham gostos em comum, como o alto consumo de frutos do mar e pães. Por conta do grande consumo de pães por parte dos portugueses, a tapioca passou a ser utilizada como substituta na dieta da comunidade portuguesa na capitania hereditária de Pernambuco.

Na música também há muitas semelhanças. Um exemplo é o chorinho, que compartilha muitas características com o fado português, trocando a guitarra portuguesa por instrumentos semelhantes como o bandolim e o cavaquinho. Há artistas multiculturais que podem representar a cultura de ambos os países, como Fafá de Belém e Roberto Leal.

A influência de Portugal na cultura brasileira é uma prova viva da força dos laços históricos entre os países.

#culturaportuguesa #culturaportugal #culturabrasileira #culturabrasil #comunidadeportuguesanobrasil #portuguesesnobrasil #portugalbrasil #brasilportugal #camaraportuguesasp

[Transcrição integral de “post” (público) no Facebook.
Cacografia brasileira corrigida automaticamente. Destaques meus.
A construção frásica em língua brasileira está conforme o original.]

Parecer – Ivo Castro – 2005

Lisboa, 1.º de Novembro de 2005

Faculdade de Letras

Departamento Linguística
Geral e Românica

 

Exma. Senhora
Dra. Simonetta Luz Afonso.

Presidente do Instituto Camões
Lisboa

 

Exma. Presidente,

É benvinda[sic] a consulta que V. Exa. acaba de dirigir a diversas entidades e indivíduos a propósito dos efeitos de uma eventual entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. Se esta consulta significa que o Instituto Camões e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, bem como outros ministérios interessados, têm dúvidas acerca do equilíbrio entre benefícios e desvantagens da entrada em vigor de um instrumento que esteve esquecido durante quinze anos, faz todo o sentido ouvirem os responsáveis, os especialistas e os afectados por essa iminente medida. Do mesmo modo que faz sentido suspender qualquer passo que a torne irreversível, designadamente os processos de ratificação dos dois Protocolos Modificativos (1998, 2004).

Esta suspensão não deve esperar pelas conclusões da consulta em curso. Se as conclusões forem negativas — como me parece provável — a suspensão terá criado espaço para uma revisão da posição oficial portuguesa, que nelas se inspire.

Alguns dados e interrogações podem ser reconhecidos de imediato como justificativos da suspensão e posterior revisão. Enuncio-os muito sucintamente, confiante na sua eloquência própria e reservando para outro momento uma reflexão mais documentada ou sobre as razões para Portugal mudar de política ou sobre as medidas de alívio dos inconvenientes da sua actual política, conforme o curso que as coisas levarem.

1. A situação dentro dos países de língua oficial portuguesa, e entre eles, não é hoje a mesma que se verificava em 1990. Veja-se, por exemplo, o crescimento rápido do número de falantes de português como língua materna em Angola e Moçambique, fenómeno recente e sustentado que influenciará decisivamente o futuro da língua nesses países. A defesa que então se podia fazer do Acordo não pode ser hoje repetida com a mesma convicção, após quinze anos em que ele não mostrou ser imprescindível.

2. O Acordo de 1990 (terceira versão de processo muito controverso) nunca chegou a ser submetido a um escrutínio técnico e cientifico tão rigoroso como as versões que o precederam em 1986 e 1988. Será prudente pô-lo em vigor sem essa validação? Será ele, com o principio de facultatividade em que assenta, um verdadeiro instrumento de uniformização, como qualquer ortografia pretende ser?

3. Às Academias portuguesa e brasileira foram as autoras intelectuais do Acordo de 1990, Tendo-se interessado, depois disso, na publicação de importantes dicionários que usam a actual ortografia (Houaiss, Casteleiro), manterão a sua antiga disposição para defender perante uma opinião pública contrária uma medida que tornará obsoletos esses dicionários? Dispõe o Governo -português de outros agentes que assumam essa necessária defesa e justificação?

4. Finalmente, um ponto que não tem merecido suficiente atenção. No espaço da língua portuguesa, tem existido, e contínua a existir, uma efectiva e uniforme união em torno do Acordo Ortográfico de 1945, a que aderem Portugal e todos os restantes países, com excepção do Brasil.

Quer isto dizer que nada, no plano ortográfico, separa Portugal de Angola e de Moçambique. Mas a adesão portuguesa ao Acordo de 1990, feita nos termos do Segundo Protocolo Modificativo, isto é não acompanhada por todos os países, introduzirá uma divisão onde existe união e alienará sectores dá opinião em países com os quais parece prioritário manter as grandes afinidades existentes actualmente.

Isto traz à memória o mau passo dado por Portugal nos planos diplomático e político em 1991, quando promulgou unilateralmente, sem ter em conta a opinião e os sentimentos do Brasil, uma reforma ortográfica tecnicamente excelente, mas que criou uma clivagem que tem resistido a todas as tentativas de acordo feitas pelos dois países — durante o século seguinte, Valerá a pena repetir o gesto, agora em direcção a Angola e Moçambique?

Em conclusão, recomendaria:

— no imediato, a suspensão do processo em curso;

— em seguida, a não ratificação por Portugal do Segundo Protocolo Modificativo, salvaguardando de outra forma a adesão de Timor-Leste à CPLP,

Apresento a V. Exa. os meus cumprimentos, com elevada consideração e estima pessoal.

 

Ivo Castro

 

ALAMEDA DA UNIVERSIDADE — 1600-214 LISBOA – PORTUGAL | TELEF. 21 7920000 & TELEFAX:21 156 09 63 – pg 1


[transcrito de documento em formato PDF originalmente alojado no endereço
http://www2.fcsh.unl.pt/docentes/aemiliano/AOLP90/CD-PR/DOCUMENTOS/08-CASTRO2005.pdf ]

«Atrás dos tempos vêm tempos» [Ana Cristina Leonardo, “Público” 31.03.23]

Atrás dos tempos vêm tempos

Ana Cristina Leonardo

“Público”, 31.03.23

Se o mais provável; à medida que envelhecemos, é vermos aumentar o desajuste entre nós e mundo — escrevo provável, não inevitável — existem acontecimentos ou factos ou realidades que nos ilibam da acusação de “velhos do Restelo”, essa figura camoniana de um pessimismo “só de experiência feito”, talvez injustamente desamada.

Relembremos Billy Wilder, o homem que ao realizar Some Like it Hot (Quanto Mais Quente Melhor, 1959) ou Avanti (Amor à Italiana, 1972) terá feito mais pela liberalização dos costumes do que os três longos dias de pândega em Woodstock.

Apesar disso, diria ele, cumpridos os seus setenta anos: “They say Wilder is out of touch with his times. Frankly, | regard it as a compliment. Who the hell wants to be in touch with these times?”

Mais perto de nós, infelizmente também morto, Leonard Cohen, embora sem se congratular por ter estado alguma vez em dessintonia com os tempos, nem por isso deixaria de cascar no movimento hippie seu contemporâneo, numa entrevista que deu ao crítico João Lisboa corria o ano de 1994: “Depois apareceram os hippies que não me interessaram, sobretudo quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza, Eram péssimos campistas. Eu fui escuteiro, logo, posso dizê-lo”.

É da circunstância de serem invariavelmente verberadores que se extrai a comicidade dos velhos Marretas, mas The Muppets show vivia precisamente do exagero, do burlesco e do humor. Na vida real, os críticos arraigados e avançados na idade não costumam ter graça nenhuma. Dito isto, por seu turno, os bajuladores de toda e qualquer novidade avançados na idade são muitas vezes patéticos. Quando não danosos.

Veja-se o caso do argumento muito em voga na época — e usado por gente com mais do que idade para ter juízo — que insistiu em casar à contestação ao Acordo Ortográfico de 1990 da Língua Portuguesa com uma posição geracional. Jovens pelo sim. Velhos pelo não. Viu-se.

Os seus maiores promotores e defensores, já na altura somando décadas consideráveis, João Malaca Casteleiro, por Portugal, e Antônio Houaiss, pelo Brasil, foram, entretanto, fazer companhia a Billy Wilder e Leonard Cohen, o primeiro em 2020 com 83 primaveras, o segundo em 1999 com idade idêntica. E mesmo descontando o tempo decorrido entre a aprovação do AO pelos deputados da República e a morte dos dois linguistas, mostra-se difícil imaginá-los em 1999 a hastear o texto do Acordo com o mesmo sorriso largo com que o então jovem Daniel Cohn-Bendit encarou a cova dos leões em Maio de 68.

Escusado será dizer que jovens e velhos podem ser igualmente irritantes. Sobre o assunto, nada como ler Diário da Guerra aos Porcos do argentino Adolfo Bioy Casares (Cavalo de Ferro, 22 edição, 2015). E que me perdoem se por acaso repito a recomendação: é assacá-la à idade.

Por falar em Argentina e em Adolfo Bioy Casares, leio que quem morreu foi Maria Kodama, mulher e herdeira de Jorge Luis Borges (grande amigo de Casares), cujos traços asiáticos eram menos acentuados dos que os de Yoko Ono — o que é natural, dado que ambos, mãe e pai de Yoko eram japoneses, enquanto Kodama nasceu de pai alemão e mãe natural de Tóquio imigrada para Buenos Aires. Foi ao ler a notícia da sua morte que me lembrei de um apaixonado espanhol coleccionista de Borges que há muitos, muitos anos — ainda existia a Livraria Castil de Alvalade em Lisboa e o livreiro Miguel Bastos não se tinha apagado para sempre numa malfadada estrada a caminho de Coruche –, após comprar todas as traduções em português do autor de O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, ficou por ali, indiferente ao pó dos livros e ao meu horário de saída, queixando-se de Kodama com uma veemência que Maomé não pôs na condenação do toucinho, nem os fãs dos Beatles nas críticas a Yoko Ono ou outros descerebrados a Salinger.

Todo este intróito, que vai longo e saiu particularmente enlutado, serve, claro, para me antecipar às acusações de catastrofista.

Porque o caso é este: ao mesmo tempo que em Portugal — em Vizela, mais precisamente — se inaugura uma mais do que ridícula estátua a António Guterres — ficamos sem palavras para descrever aquele susto de quatrocentos quilos e dois metros de altura encomendado pela Câmara Municipal a uma empresa amiga, um Guterres com papeira, calças a fugir à polícia e raquitismo nas extremidades –, do outro lado do mundo, o extraordinário David de Miguel Ângelo causa polémica numa escola cristã da Florida, levando à demissão da directora.
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Paranóia e pérolas a porcos

Já nos vamos habituando, é verdade, mas não deixa de ser surpreendente que tanta gente decente ainda dê alguma espécie de crédito ao analfabetismo, à grosseria, à mitomania, ou seja, em suma, aos números circenses de muitos brasileiros em Portugal e de alguns portugueses apátridas que por aqui vegetam, uns e outros, todos trémulos e frementes, chorosos, largando baba e ranho por tudo quanto é pasquim, coitadinhos, a estalar de saudades da sua deles pátria. Aqueles porque foram violentamente forçados a imigrar, é claro, e como desde sempre terão sido os “colonos” portugueses a corrê-los do Brasil a pontapé, pelo que não tiveram alternativa a fazer o favor de vir para cá honrar-nos com a sua excelsa presença. E os tugazitos porque, apesar de serem brasileiros “adotivos” — aborrecidíssimos com a vidinha paupérrima que levam na “terrinha” onde por acaso nasceram –, fartam-se de trabalhar para a “causa” brasileirista, facilitando ao máximo a instauração do Estado europeu da sua querida República Federativa.

É de facto espantoso que alguém — e, ainda por cima, sabendo escrever e tudo — conceda o exorbitante crédito de rebater com argumentos técnicos, epistemológicos e históricos as asneiras monumentais de neo-imperialistas-lusófobos-acordistas. Mas enfim, parece que existem mesmo portugueses assim, de infinita pachorra, vá-se lá entender porquê e para quê.

Este artigo de opinião é o episódio mais recente de tão bizarra (e persistente) condescendência para com… errrr… enfim… não exageremos na adjectivação… idiotas chapados, vá.

Tudo o que diz Luís Reis Torgal aplica-se perfeitamente às bacoradas de um brasileiro qualquer (em artigo também aqui reproduzido), mas assim, ora bolas, respondendo com razões a perturbações como a paranóia ou a mania da perseguição, ou a ambas, já que uma integra a outra, bom, nesse caso lá se vão os argumentos racionais, então vale o bíblico aforismo atirar pérolas a porcos.

Que História? O colonialismo português ainda “persegue” as religiões afro-asiáticas?

Luís Reis Torgal
“Público”, 02.03.23

1. Sabemos que hoje a História faz parte também, no contexto de uma visão vaga e apressada do mundo e de um conhecimento que não tem por base o documento e a consciência do pretérito, de um grande chapéu-de-chuva que alberga todas as opiniões sobre o passado, o presente e até o futuro. Já lá vai o tempo, no nosso caso desde Herculano, em que se lutava por uma História objectiva, narrada e interpretada com base em fontes de toda a espécie, o que implica muito tempo de trabalho.

Todavia, há responsabilidades que não podem deixar de ser assumidas. Por isso este meu texto não visa tanto a jornalista do PÚBLICO, Ana Marques Maia, a quem parece dirigir-se, como o próprio jornal de que sou leitor de sempre e, por vezes (raras vezes), seu articulista, na qualidade de simples cidadão interventivo.

2. Na terça-feira de Carnaval, ao comprar o PÚBLICO, deparei-me logo, em chamada de primeira página no cabeçalho, com o seguinte texto: História. O colonialismo português ainda persegue as religiões afro-brasileiras. Logo fui ler o artigo. Em duas longas páginas ilustradas aí vem o texto da jornalista, encimado por pequenas letras a vermelho que podem passar despercebidas, com um texto mais esclarecedor: “Cultura: Intolerância religiosa no Brasil”.

A História é um processo científico que não pode jogar com a simples opinião, sobretudo quando ela é coada por um fotógrafo da National Geographic (instituição que me merece todo o respeito, mas que deve ser encarada como um magazine), Gui Christ, que vem reclamar — por certo com alguma razão — que no Brasil ainda se perseguem as religiões afro-brasileiras, citando concretamente o bolsonarismo e as crenças radicais contra essas religiões, mas também contra a religião católica apostólica romana.

Muito bem, mas atribuir isso à herança colonial, como também faz, é ultrapassar as raias da análise histórica tanto quanto possível rigorosa, pela falta de consciência do tempo. Não só porque na era da colonização e do “colonialismo” se tinha — apesar das alterações da Inquisição depois da reforma de Marquês de Pombal (1774) e da sua extinção em 1821 — uma visão bem distinta das religiões e das práticas de feitiçaria (não me refiro às religiões, mas, sobretudo, às simples práticas de bruxaria), que eram consideradas como falsas e punidas de forma exemplar, mas porque, formalmente, o colonialismo português terminou com a independência do Brasil em 7 de Setembro de 1822, ou seja, há mais de dois séculos.

Brasil 1822-1853

Brasil 1822-1853

Isto é, o que, aparentemente mas espectacularmente, parece, neste caso, ser imputado a Portugal deve ser afinal considerado em relação ao Brasil, que não conseguiu superar em séculos a tal “herança colonial”.
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tic tac… negue… tic tac… negue… tic tac tic tac tic

Pela milionésima vez: o “acordo ortográfico” de 1990 não é um acordo, é uma imposição, e de ortográfico absolutamente nada tem, não passa de um acto político… na pior acepção do termo.

O que ainda resta de indefinido — se algo há ainda por definir — é a extensão, a abrangência da sinistra manobra a que alguns políticos dedicados à “causa” dos seus próprios interesses envidam todos os esforços. Permanecendo os mandantes — uns cinco ou seis — na sombra, evidentemente, até porque seria “ligeiramente” escandaloso que os fabulosos negócios (dos) envolvidos se tornassem do conhecimento público, o quase nada que ainda vai transparecendo surge apenas por mero acaso, quando um qualquer indivíduo, de entre as largas dezenas de mandados, se descai, quando há um lapsus linguae aqui ou ali, quando alguém desbronca-se sem querer (ou por influência de qualquer substância química).

Daí, aliás, por inerência e para limitar os estragos ab ovo, o investimento da diminuta mas poderosa oligarquia na compra de órgãos de comunicação social para a propaganda, por um lado, e, por outro, no recrutamento de mercenários em geral como mão-de-obra, provindos de seitas tão heterogéneas como a dos intelectuais de pacotilha, solícitos demagogos profissionais para abastecer as “notícias” (ou certos artigos “de opinião”) e, por fim, agentes das diversas polícias políticas com a dupla finalidade de criar o conveniente clima de intimidação e esmagar subtilmente qualquer esgar de dúvida ou tiques altamente suspeitos, como soerguer uma sobrancelha, torcer o nariz ou projectar as beiças.

O processo de demolição derivado à obsolescência da verdade começou com a gigantesca patranha da língua universáu (a brasileira, evidentemente), tudo embrulhado numa retórica impenetrável — espécie de rede de chavões absurdos — visando explicar o inexplicável ou justificar o injustificável, e portanto é de certa forma natural que pouca gente (ou nenhuma, vendo bem) tenha sequer dado conta das verdadeiras dimensões da coisa, a sua latitude e demais coordenadas, a longitude, o paralelo, o fuso horário, a distância relativa a Greenwich no tempo e no espaço. Ou seja, traduzindo em miúdos, o ponto a que “isto” chegou.

Será de todo previsível uma imensa dificuldade em processar ao que isto chegou, realmente. A agenda política atrelada ao “acordo” ultrapassa largamente qualquer âmbito — já de há muito se sabe que a ortografia foi em tempos um pretexto mais do que pífio, ridículo — e por fim chegou tal agenda, veja-se a “figura” junta, a uma espécie de questão que não dirá certamente coisa alguma a quem jamais engoliu as patranhas “unificadoras” — linguisticamente falando — e também pouco ou nada dirá à esmagadora maioria que verga a cerviz porque “isto agora é assim”.

A referida “figura junta”, triste figura, por sinal, está já pipocando no Brasil, como se confere e demonstra no artigo abaixo transcrito, publicado no “portal do Governo do Brasil” a pretexto e à boleia do Dia Mundial da Língua brasileira.

Ultrapassadas as tretas folclóricas habituais, loas à tal língua universau com citações de uns quantos brasileiros mais ou menos ilustres, a linha discursiva trepa para cima do ensino e daí o que se deve dar por lá nas aulas, a saber, que existe uma coisa chamada “o carácter fluido da língua” (sobre o AO90 era parecido, “a língua evolui”, já não falamos como o Camões, patacoadas assim) e que há um demónio a extirpar (ou estripar) dos anais, salvo seja, o “preconceito linguístico” — t’arrenego, Satanás, cospe, cospe — e “portanto” saltar do “preconceito” para o “racismo”, para a “xenofobia” e para outras “fobias” é um pulinho.

E… pim. Das “fobias” em geral e das “regras” de “fluidez” (linguística, recorde-se, não é de outros fluidos que se trata agora), o libelo panfletário aterra na ingente questão que aflige uma data de adultos riquinhos e alegretes. U siguintchi, viu?

«Essa polêmica com o pronome neutro disfarça um preconceito anterior, que está na recusa da percepção das identidades de gênero e sexualidade que não se reduzem aos binômios masculino e feminino.»

E pronto, já está: outra vertente, a mesma onda. A tal agenda política (bem, sim, não será só política, mas, como dizia a outra, isso agora não interessa nada).

Conviria ligar as pontas. Não as soltas, que disso não existe neste caso, tão clarinho ele é, mas ligar uma ponta do iceberg à outra ponta, a dos dicionários, nas páginas “P” de “pronome”, “M” de masculino, “F” de feminino, “G” de género, “S” de sexualidade e por fim a “E” de evidência, evidente e “espetáculo” se for um Houaïss ou da Porto (Alegre) Editora.

Sabendo, como hoje por hoje ninguém pode ter dúvidas, que as incidências políticas no império brasileiro afectarão mais tarde ou mais cedo todas as suas colónias (a CPLB). O que for determinado no Brasil passa, nos termos do “acordo ortográfico de 1990”, a valer em todos os demais oito Estados vagamente autónomos. Aliás, nem é preciso que oito funcionários administrativos, cada qual em representação do respectivo Governo autónomo, assine a ordem exarada pela “metrópole”; bastam três deles, digo, delos/as, para que o/a/os/as/x frasxs/as/os valham por todes/os/as outrxs/as/os.

Dia Mundial da Língua Portuguesa celebra diversidade e cultura

Portal do Governo do Brasil – UFJF – 05.05.22

Guitarras e sanfonas / Jasmins, coqueiros, fontes / Sardinhas, mandioca / Num suave azulejo / E o rio Amazonas / Que corre Trás-Os-Montes / E numa pororoca / Deságua no Tejo

Da América, falam brasileiros. Da África, angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e as populações da Guiné-Bissau, da Guiné-Equatorial e de São Tomé e Príncipe. Da Ásia, falam os habitantes do Timor-Leste. E do continente europeu, os portugueses, responsáveis pela colonização de todos esses países, processo que, para além da instituição do Português como língua oficial nesses territórios, acabou forçando o cruzamento da cultura dos povos originários com os colonizadores europeus.

As palavras do cantor e compositor Chico Buarque, de 1973, que abrem essa reportagem em alusão à colonização portuguesa no Brasil, refletem sobre a constituição de um idioma falado por mais de 265 milhões de pessoas ao redor do mundo, instituído como língua pátria em nove países distribuídos por quatro continentes do planeta.

Neste 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa, é preciso celebrar a língua e as culturas lusófonas. A data, oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização intergovernamental e parceira oficial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), foi criada para promover o multilinguismo e a diversidade cultural, para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e a utilização da língua, em toda a sua extensão geográfica.

O mais importante, portanto, é celebrar a diversidade desses recursos que temos disponíveis sob esse rótulo do que estamos chamando de Língua Portuguesa

Segundo a professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Denise Weiss, o Português foi se formando a partir de uma mistura de povos em uma pequena parte da península ibérica, na região norte do que hoje é Portugal. “Há mil anos ele já era reconhecido como uma língua diferente das demais da região. Língua imperial e de viajantes, chegou a muitas partes do mundo em navios de comércio e de colonização. Hoje é uma língua pluricêntrica.” Além dos países que possuem o Português como língua pátria, ele está presente por todo mundo pelas comunidades que migram. “Em cada lugar, é fator de distinção de grupos, língua dos afetos ou dos negócios”, conclui ela exaltando a diversidade cultural celebrada pela data.

Para o docente da Faculdade de Educação (Faced) Alexandre Cadilhe, é fundamental enxergar as línguas como produções coletivas, atravessadas pela história, cultura, geografia, tempo e espaço e que, independentemente de suas origens, são objetos mutáveis. “A Língua Portuguesa, assim como qualquer outra, não se constitui como algo puro. Ela é resultado do latino, do europeu, da contribuição de povos indígenas e africanos. É isso que a torna um conjunto híbrido. O mais importante, portanto, é celebrar a diversidade desses recursos que temos disponíveis sob esse rótulo do que estamos chamando de Língua Portuguesa”, exalta Cadilhe.

O ensino em debate

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