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AO90: «não há como uma grande burla!» [António Jacinto Pascoal, “Público”, 03.08.19]

Acordo Ortográfico: não há como uma grande burla!

António Jacinto Pascoal
3 de Agosto de 2019

Ainda faz sentido corrigir ortograficamente os textos dos alunos? Ou, de forma mais simples: o que fez com que se aceitasse tão pacificamente esta aberração nas escolas?

 

É, com alguma probabilidade, o episódio mais recente sobre o assunto: o jornalista Nuno Pacheco do jornal Público (e autor do também recentíssimo Acordo Ortográfico – Um Beco Com Saída, da Gradiva) editou um artigo intitulado “O Acordo Ortográfico ainda é uma caixinha de surpresas”, pelo qual denuncia o modo enviesado e trapaceiro como se pretende, pelas palavras do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, calar as vozes dissonantes brasileiras em relação ao Acordo Ortográfico (AO90), e se aponta ao Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, uma tentativa de obstrução à informação relativa ao AO90, decorrente do silêncio face ao requerimento do coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo (recordemos que o requerimento da cópia integral dos instrumentos de ratificação do AO90 deu entrada no MNE no dia 14 de Junho de 2019, a pedido do deputado José Carlos Barros). Ora, Santos Silva reservou-se o direito de resposta, publicado no dia 28 de Julho, no jornal Público, começando por referir que «em nenhum momento, o Senhor Deputado se identificou como “coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990”».

Tratando-se de um esclarecimento público e munido o ministro da informação para tratar o assunto como ele merece, afigura-se no mínimo de mau gosto que o MNE assim se refira a um deputado da AR, insinuando não ter o dever de obrigação de responder a figura não identificável. Mas, pior do que isso é o teor dessa resposta, no seu enunciado: “A resposta ao Requerimento foi enviada no dia 18 de julho de 2019. Nesta resposta, o MNE esclarece a razão por que aquelas cópias não poderiam ser facultadas”. E a partir daqui, vêm as razões, entre as quais a de tratar-se de matéria não pertencente ao Estado Português (ainda que seja estranho não ser possível aceder a matéria documental que, pertença de outros Estados, diga respeito ao Estado Português e ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa) e a de os documentos deterem “natureza de documento diplomático”. Ou seja, aquilo que é de natureza nacional e identitária (a língua com que comunicamos) subordina-se à natureza diplomática.

Em suma, o MNE esclareceu que não pode esclarecer. Está, portanto, tudo dito: o AO90 continuará a ser, para além de uma intrujice mal engendrada, um segredo bem escondido. Tão bem escondido que ainda hoje se discute se está verdadeiramente circunscrito à letra da Lei ou se, emergindo de uma Resolução de Ministros, é para se ir “aplicando” conforme calha. Na realidade, a questão foi de tal maneira politizada (e destituída da sua natureza científica) que, como se sabe, foi necessário o Segundo Protocolo Modificativo que desbloqueasse a implementação do Acordo Ortográfico com a ratificação de 3 países (Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008), uma vez que, inicialmente, se impunha que a sua entrada em vigor pressupusesse a ratificação por parte dos 7 países (o caso de Timor surgiu a posteriori).

Quanto àquilo que se passa por cá, mediante este enquadramento legal, é de concluir que não há ortografia em Portugal. Senão vejamos: em alturas de festivais de artes e de música, dei-me ao trabalho de apreciar três programas informativos. O primeiro, respeitante ao 6º Festival Internacional de Música de Marvão, que optou pelo Acordo Ortográfico de 1945, está impecavelmente vigiado por algum revisor atento, que apenas concedeu o direito de uso do AO90 à Presidente de Câmara de Portalegre (sobrevindo a excepção da Ministra da Cultura, Graça Fonseca, que, optando também pelo Acordo Ortográfico de 1945, cai no lapso do vocábulo respetiva – isto, se é que o seu texto não foi adulterado); o segundo, referente ao Festival dos Canais, de Aveiro, resulta numa algaraviada sem regra (nas pp. 19 e 20, a título exemplar, convivem termos como objetos, colectivo, actuação, exato); finalmente, o terceiro, a dizer respeito ao 11º Festival das Artes, Luz e Sombra, de Coimbra, começa por um intróito de Miguel Júdice, que escreve segundo o novo acordo mas se assina Director, e depois tudo se conjuga na mesmíssima miscelânea, que causaria dor de cabeça a qualquer professor de Português (na página 7, por exemplo, surge o gracioso par direção musical/direcção musical).

Para terminar, e porque tenho estranhado o silêncio de muitos professores e em especial o dos professores de Português (apesar de conhecer vários como enormes opositores ao AO90), questiono-me: ainda faz sentido corrigir ortograficamente os textos dos alunos? Ou, de forma mais simples: o que fez com que se aceitasse tão pacificamente esta aberração nas escolas? Bastaria ler as Bases do Acordo para descortinar as suas fragilidades: “força da etimologia” (que é invocada em certas situações, quando o AO90 faz tábua rasa dela), oscilação entre prolação e emudecimento a justificar facultatividades, excepções “consagradas pelo uso”, incongruência acentuada nas palavras cognatas, duplas grafias em multiplicação imparável, carácter facultativo do acento agudo, etc. e tal. Não imagino o que possa acontecer no dia 13 de Agosto, no Brasil, mas seria de uma ironia saborosa sermos salvos por um pequeno milagre vindo do outro lado do mar, já que aqui, agora por mão de um Governo socialista (não esqueçamos que a bancada socialista foi também a única a abster-se em relação ao projecto de resolução do PCP, a recomendar ao Governo a classificação da obra de José Afonso de interesse nacional), nos arriscamos a roçar o absurdo da língua.

António Jacinto Pascoal
Professor e escritor

[Transcrição integral de artigo, da autoria de António Jacinto Pascoal, publicado no jornal “Público” 3 de Agosto de 2019. Acrescentei “links” (a verde).]

«A força incómoda do passado» [António Jacinto Pascoal, “Público”, 25.07.19]

A força incómoda do passado

Em 1989 tinha-se uma noção muito clara da deriva a que este “acordo” nos poderia levar. Não teria sido muito mais sensata a coragem de evitar o pântano para o qual se encaminhou a língua portuguesa?

António Jacinto Pascoal
“Público”, 24.07.19

 

As pessoas convivem mal com o que não está na moda e insistem na busca de pequenos rituais e conquistas ilusórias, com que, pelo menos, tenham a vaga sensação de actualidade. O medo de ficar para trás e a atracção por uma falsa modernidade produzem verdadeiros tratados de oca intervenção estratégica (empresarial, desportiva, sociológica, cultural), tomados como imperativos à escala nacional e internacional, e tidos numa perspectiva de desígnio redentor titânico. O que se fez e continua a fazer à língua escrita é o exemplo de uma empresa que, embora assente em grupos de trabalho especializados, não se fez acompanhar do elementar princípio do contraditório, tendo sido criado um cenário de dominação e imposição quase absoluto, favorável à implementação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

O Euro 2004 (futebol), organizado em Portugal, legitimou a construção e renovação de dez estádios, alguns dos quais se tornaram uma fonte de prejuízos para as autarquias envolvidas, com encargos mensais astronómicos, tendo sido ponderada a demolição de um ou dois deles. Há facturas que ainda se pagam. No que toca à língua escrita, não se percebe o que fazer com ela. Foi isso mesmo que se passou nesta última sexta-feira: o Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico não reuniu consenso para a possibilidade de o alterar ou aperfeiçoar.

No parecer sobre o ‘Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa’ de 1989, elaborado pela Comissão Nacional da Língua Portuguesa (CNLP – com coordenação do Professor Vítor Manuel Aguiar e Silva), pode ler-se no ponto 1.4.3: “É duvidoso o efeito unificador de um acordo ortográfico, atendendo à maior relevância comparativa do léxico, da sintaxe e até da fonética; mais importante seria a integração desse acordo (mas não nos termos do Anteprojecto adiante criticados) numa política da língua, bem definida, institucionalizada e implementada em Portugal e em toda a comunidade dos países luso-falantes, e assente numa sua co-responsabilização em convénio ao mais alto nível.”

Em 1989 tinha-se uma noção muito clara da deriva a que este “acordo” nos poderia levar. Não teria sido muito mais sensata a coragem de evitar o pântano para o qual se encaminhou a língua portuguesa? Esse é o único consenso: a coisa está complicada e seja qual for a solução que surgir, ela será sempre a menos má e nunca uma boa solução. Seja como for, tratar-se-á de uma solução política, já que o afastamento da CNLP da esfera de decisão (recorde-se que Aguiar e Silva se demitiu do cargo daquele órgão de aconselhamento do governo) não deixa transparecer outro modo.

Alertava-se, em 1989, para os custos da implementação do AO90: “A entrada em vigor do Acordo provocaria uma recessão na compra de dicionários, enciclopédias e prontuários; a rectificação deste tipo de livros acarretaria um gasto de mais de cinco milhões de contos, só em custo de composição e fotolitos; milhões de livros ficariam desactualizados (…).” Os custos, hoje, são outros. A revogação do “acordo” traria custos estrondosos, como se sabe. No entanto, muito recentemente, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil aprovou um requerimento para discutir a revogação do Acordo Ortográfico. Ao que parece, os erros do passado somam-se às trapalhadas do presente. Quem sabe alguma lucidez possa restituir à grafia aquilo de que ela foi privada, para que a factura da inconsistência não seja o preço eterno a pagar.

A dicotomia passado/presente deu sempre azo a combates sustentados em chavões, na arena imprecisa da semântica. Para o comum opinante, quem se posiciona em função de fórmulas passadas ou habituais não se exime a ser tomado como um Tomás de Alencar (se presumirmos a sua colagem a certo romantismo serôdio, em contraposição com o diletante Carlos da Maia, símbolo do falhanço Regenerador) ou como um Velho do Restelo (se excluirmos tudo o que nele possa ser considerado razão, contenção, sensatez e, de algum modo, a tensão dilemática de Camões). É nesta relação dicotómica que, em parte, os defensores do “acordo” se amparam, procurando colar aos seus críticos a reacção passadista e saudosista: a bacoca “Querela dos Antigos e dos Modernos”, como lhe chamou um dia António Guerreiro. Com alguma insídia e longe de uma discussão séria (e minimamente apropriada), procuraram ultimamente insinuar que os anti-acordistas são, também, os novos analfabetos do século XXI. De alguma forma, esse é o argumento com que se imputa alguém de não estar dotado de ferramentas técnicas (o que, no campo laboral, é um pernicioso factor de desqualificação do trabalhador) e de não se encontrar apetrechado da última aplicação para telemóvel. Não é senão o raciocínio indigente de quem se deslumbra acriticamente com a novidade e parte de um pressuposto de argumentação estrepitosa, tendente à criação de ondas de choque de efeito provisório. Para usar dialecto ao mesmo nível, ao menos Alencar não foi para a cama com a irmã.

Na Prova Final de Português (9.º ano, 2.ª fase), optou-se pela forma “espectadores”, com c (página 4). O nosso analfabetismo é a percepção destas incongruências. E somos, dizem, uma minoria.

[Transcrição integral de: “A força incómoda do passado“, da autoria de António Jacinto Pascoal. Jornal “Público”, 25.07.19. Destaques, sublinhados e “links” (a verde) meus. Ver artigo anterior desta série. Imagem de topo: Orium [Public domain], via Wikimedia Commons]

«Acordo ortográfico? Revogar, claro!» [António Jacinto Pascoal, “Público”, 16.07.19]

Acordo ortográfico? Revogar, claro!

Em vez de homogeneizar, o actual acordo ortográfico estabeleceu uma série incontável de divergências lexicais. Ou seja, falhou. Falhou em toda a linha.

“Público”, 16 de Julho de 2019

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Muito recentemente, em defesa do actual acordo ortográfico (AO90), Lúcia Vaz Pedro (LVP) deu uma pálida ideia da sustentação às alterações gráficas para a língua portuguesa. Para que conste, emaranhou-se numa teia de contradições, optando por um efeito de vitimização que não evitou o espectáculo menor de quem defende a todo o custo e sem qualquer brilho uma das piores opções tomadas ao nível da cultura portuguesa, na última década. O debate ocorreu na Feira do Livro de Lisboa, no decorrer da apresentação da obra Por Amor à Língua (editora Objectiva), de Manuel Matos Monteiro (autor de um notável trabalho de vigilância da Portuguesa língua), contando ainda com a participação do jornalista Nuno Pacheco, do PÚBLICO – a moderação ficou a cargo de Ana Daniela Soares.

A vulnerabilidade deste acordo – que, na verdade, não o é ainda, uma vez que a sociedade científica brasileira não o ratificou até hoje – decorre da ideia simplista de que um sistema gráfico é a tradução de um sistema linguístico oral, conducente a um esquema de reprodução económica e simplificada da verbalização oral. Ora, basta pensar em como os ingleses convivem com dois sistemas que, como se sabe, muito pouco têm de comum, considerando a transcrição fonética.

Um dos momentos protagonizados por LVP (para além do neologismo “analfabetização” e de uma farta dose de auto-elogio) foi o de convocar uma menina da plateia e pedir-lhe que escrevesse uma palavra: tratava-se do vocábulo “óptimo”, que a menina grafou como entretanto lhe ensinaram – “ótimo”; de seguida, encaminhou a menina, fazendo-a ler aquela palavra, com articulação do “p”. E conseguiu. Isto significa apenas que a geração mais recente de alunos não foi treinada para uma leitura pela qual se tomasse consciência da não articulação de certas consoantes.

Lembremos que o AO90 entrou em vigor no sistema de ensino Português no ano lectivo de 2011/12. Nada de estranhar, portanto. Impor-se-ia, num cúmulo de perversão, pedir-se a um aluno mais velho que escrevesse a mesma palavra, de acordo com aquilo que lhe foi ensinado e que estava em vigor antes de 2011. Provavelmente, entraria em cena a consoante “p”.

Baseada na falsa ideia de que uma escrita “fonológica” é mais natural, LVP quis criar o maior obstáculo a que uma reversão do AO90 pudesse (e possa) ter lugar, liquidando-a de vez. E como? Partindo do pressuposto de que uma reversão seria um atentado e uma irresponsabilidade perante uma quantidade inaudita de alunos que fazem parte do sistema vigente, de pais a quem não seria fácil justificar alterações e de professores acostumados a ameaçar novidades. E, por isso, num processo argumentativo falacioso (ad misericordiam), usou (o exemplo d)a menina, que melhor desencoraja a transgressão e reversão, e de forma mais célere impõe a cultura da acomodação: a sociedade precisa (de) que os seus filhos se sintam seguros no mundo do pragmatismo, mesmo quando esquecem as origens. Mas “a menina de LVP”, longe de qualquer disputa linguística, e caso fosse acordado, escreveria “conosco” se assim lho doutrinassem, ou “oje” e “umanidade”, fosse a regra da não articulação oral levada ao seu limite e ensinada nas escolas. Os alunos aprendem o que lhes ensinam – nada de novo, mais uma vez.

(mais…)

Ensaio sobre a Pepineira

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.» [Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares]

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«Decorre daqui uma outra questão, bem mais controversa e potenciadora de conflitualidade: a que consiste em postular a existência de um idioma brasileiro, também ele autonomizado em relação à matriz linguística que é o português, enquanto língua de difusão e implantação colonial.»
«Não posso aqui entrar na problematização desta tese. O que digo é que esta é uma questão com gente implicada, a gente que vive a língua como eixo de afirmação identitária, às vezes com forte orientação nacionalista. Nos últimos tempos – e curiosamente sobretudo do lado de cá do Atlântico – acentuaram-se as manifestações desta deriva que traz consigo uma perturbadora controvérsia. O Acordo Ortográfico é o cavalo de Troia[sic] que no seu bojo transporta tão melindrosa confrontação, mal disfarçada nos debates inflamados que ele[sic] tem suscitado. Porque é disso mesmo que se trata, de uma confrontação intercultural que, com base num bem conhecido texto que adiante reencontraremos, bem pode adotar[sic] o seguinte lema e motivo de análise: a ortografia também é gente.» [Carlos Reis, “A ortografia também é gente.Falar como os brasileiros ou com os brasileiros?”, ‘Letras de Hoje’, Porto Alegre, v. 46, n. 4, p. 89-96, Out./Dez. 2011]

Relembrado o dito lapidar de Pessoa, revista a triste cena do Presidente da República a falar em “brasileiro” numa praia portuguesa, e lido, à laia de uns quantos canapés de pão com tostas, aquele naco de prosa de Carlos Reis, deixemos os preâmbulos e passemos então ao alheio artigo de hoje (espero que não me acusem, à conta deste maldito vício, de ser amigo do alheio).

A coisa vai agreste, abreviando razões. Já estivemos mais longe, ao que parece, de à conta ou a pretexto da inacreditável pepineira a que alguns chamam “acordo ortográfico” pegar-se tudo (sem grandes floreados) à porrada. Pancadaria, sim, um verdadeiro arraial, mas na modalidade mais tolhida, o bofetão académico, a canelada intelectual e um ou outro murro em ilustres ventas, vá; pelo menos até ver em sentido figurado será, bem entendido, ainda que aos acordistas — como sucede com os entupidos em geral — não desagradem bufos, rufias e bófias como “facilitadores” de serviço.

Deste agrestemente perorar está o novo artigo de AJ Pascoal cheio, o que é uma sorte, haja alguém, que lhe não doam as mãos, isto é, as meninges, e que sobretudo não lhe tremelique a escrita.

Dar troco a um fulano como o tal Rui Tavares (fundador, Secretário-Geral, telefonista, único militante e singelo votante do PRT – Partido do Rui Tavares), ah, não, isso é que me parece ter sido uma ideia pessimamente esgalhada. Lamento. Isto é só a minha opinião, claro, a qual, além de singela (‘e tão modesta quanto eu’),é absolutamente inocente.

Como, de resto, tudo aquilo que digo sobre o AO90 e os gajos que evacuaram semelhante excrescência. Os três leitores deste modestíssimo “blog”não têm dúvidas de que me não movem quaisquer intenções malévolas e que não pretendo de forma alguma incorrer nos pecadilhos “fascistas” que irritam a Direcção Nacional do PRT e o tipo da Universidade Aberta (ou de Coimbra, ou lá o que é).

Mas “prontos”, como diz nosso povo, siga, as citações que AJ Pascoal pesca no charco do Tavares valem ao menos pela piada. Tavares esse que, ao contrário do restaurante homónimo, é realmente um cómico (em flagrante contraste com a referida casa-de-repasto, onde os preços não têm piada nenhuma) e demonstra também ser portador de uma síndrome confusionista (ou confucionista, tanto faz) um bocadinho violenta. Mas só um bocadinho, hem, que aquilo é tudo a fingir.

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia” – Eça de Queirós

Em suma, para variar, pouco (ou nada) há a dizer de negativo sobre este texto. É de facto um ensaio sobre a pepineira, para variar, claro e incisivo.

Deixemos aos acordistas o encargo de tentar ao menos disfarçar um pouco sua atávica brutalidade mental fingindo não entender nem as mais comezinhas evidências. Se acham que, por exemplo, um simples acento diferencial é indiferente ou que, pior ainda, é um pretexto “reaccionário” ou “passadista” ou até “de orientação nacionalista”, pois bem, então essa atitude de altamente suspeito “negacionismo” sendo questão de cacete, então vamos a isso; mental ou cavernícola, melífluo ou com pregos na ponta, vem a dar no mesmo.

Enfim. Dando de barato, por irrelevância do adversário, o duelo verbal com o tipo dos óculinhos à  intelectualóide e suas bojardas brasileirófilas, este texto de Pascoal vale pela objectividade, pela consistência e pela coerência.

Só qualidades, portanto, até pela raridade de qualquer delas nestes tempos de mentiras oficiais e de geral tibieza na denúncia do logro, da trapaça, da colossal mentira de Estado.

O AO90 é o exemplo mais flagrante de como os tempos são outros e inverteu-se a ordem dos factores: sobre o manto obscuro da fantasia, a nudez forte da verdade.

Micropsiquia

Para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua.

António Jacinto Pascoal
publico.pt, 23.05.21

Deixei de acreditar no ensino sério do Português, desde a implementação do acordo ortográfico (AO90) nas escolas. Tenho algum respeito pela habilidade de espírito, argúcia e credulidade de quem ajudou a conceber esse acordo, mas uma admiração incondicional pela inteligência e sensatez de quem persiste em querer livrar-nos dele.

Há poucos dias, recebi provas de avaliação de alunos do 12.º ano, contendo expressões como “que lhe causou decessão” e “todos sem excessão”. Uma das piores chagas da língua escrita, sabemo-lo, é a incorrecção ortográfica: ora, há coisa mais insensata do que abrir caminho a nova vaga de erros ortográficos? A memória visual das palavras, provou-se já, determina a qualidade da ortografia e, até nisso, as consoantes mudas são auxiliares preciosos: seria, há bem poucos anos, raríssimo deparar com qualquer tipo de hesitação gráfica na transcrição sibilante de vocábulos como “concepção” ou “recepção” (sendo esta última palavra geradora da célebre ambiguidade receção/recessão) – o grupo consonântico não deixava margem para dúvidas. Líamos e escrevíamos com os olhos.

O que aqui me traz são os dois mais recentes artigos de Rui Tavares, no PÚBLICO: a propósito da lusofonia, numa das vezes, e da pretensa micrologia da língua (que o cronista imputa aos críticos do acordo), na segunda. Bom, deixo cair o primeiro dos artigos, aliás de uma singeleza só explicável pela candura de alma do autor ou por inflexível convicção das ideias de que se vangloria.

No artigo “Amar a língua até a asfixiar”, adoptando outro tom, Rui Tavares aparenta ter como objectivo único o de desvalorizar quem refuta o AO90, apondo-lhe o rótulo de inferioridade, picuinhice e narcisismo. Há um provérbio notabilíssimo, para recorrer a Erasmo, admitido por muitos: “É óptimo simular ter aquilo que se não tem.” Digamos as coisas como são: para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua. Numa palavra: as suas “sugestões”, que incluem sapientes deambulações pela antiga Grécia, resumem-se a considerarmos o sentimento de amor à diversidade da língua, desde que não nos apliquemos às palavras mas ao conteúdo. Brilhante.

Que vale mais a pena esconder? As coisas ditas ou as não ditas? Quando se garante ser indiferente ao detalhe – o que, por si só, favorece a pobreza da língua –, há sempre razões ponderáveis para ver nisso um sinal de indisfarçável arrogância. A indiferença de Rui Tavares (parecendo assumir a blindagem do inefável ministro Augusto Santos Silva), na sua subtileza, é a que se preocupa em reforçar a muralha dos silenciosos (mudos?) defensores deste “acordo”. É ainda a indiferença, travestida de modernidade e desburocratização, que tem como estreito limite da própria casa e coluna de opinião o nome, note-se, de “Consoante muda”. A outros imputa o autor “negar a realidade e ficar encafuados na micrologia”. A sua indiferença – como a dizer que não tem vagar para bagatelas – esquece que o que o idioma tem de bom foi ter sido parido num lugar, para poder respirar livremente noutros e que isso não nos rouba a alma, antes acrescenta o sentido vital e autónomo que anima os falantes e cultores da língua portuguesa, sem lugar a exibicionismos e produtos da imaginação imperial e tributária.

Se de minudências se tratasse, editoras como a Gradiva, Objectiva, Antígona, Guerra e Paz ou Cotovia não estariam à margem do AO90. Se não houvesse obsessão pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, e achando-nos bem conosco, poderíamos, de oje em diante, enveredar por escrever em armonia com a voz umana. Não fôssemos nós picuinhas, e guardaríamos, sem os inevitáveis pruridos, “O prêmio lá no fim, bem merecido, (…)”, tal como nos não chocaria misturar cor-de-rosa e cor de laranja na mesma paleta. Se não assumíssemos a nossa “micrologia”, obedeceríamos ao destino cego e desapegado de quem empalidece a língua, a trai e reduz à indigência, esquecendo como “a ortografia também é gente”.

Posto isto, espreito Séneca, citando Antípatro: “Quando falamos em pobreza não temos em vista a posse, mas sim a privação” (ou orbatio, como se dizia antigamente; στέρηση, como se diz em grego). (…) A pobreza não consiste em possuir poucas coisas, mas em haver muitas coisas que se não possuem.” Precisamente aquilo a que condenamos a língua: malbaratar os recursos que detém. Há quem lhe chame desperdício. Eu diria estupidez. Um erro equivalente ao dos pais que gostam tão pouco dos filhos que querem que eles sejam adultos desde sempre.

António Jacinto Pascoal

[Transcrição integral de artigo, da autoria de António Jacinto Pascoal, publicado no jornal “Público” (em publico.pt) no dia 23.05.21. Sublinhados, destaques a “bold” e “links” (a verde) meus. Imagem do violino de: página Facebook de Ludwig Van Beethoven. Imagem da estátua de Eça: WikimediaManuelvbotelho, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons]

O Apocalipse de agora


É uma excelente imagem.

Não propriamente enquanto metáfora (e trocadilho e jogo de palavras), ainda que essa seja igualmente evidente, mas antes como imagem mesmo, terrível, literalmente ilustrativa: salvas as devidas e respeitosas distâncias, atendendo às vítimas envolvidas, o AO90 fez com o Português o mesmo que as bombas de napalm no Vietnam: arraso total. Dos escombros sobraram apenas alguns detritos indistintos, uma massa negra malcheirosa soltando ainda umas fumarolas, ou sem cor de todo ou empestando a madrugada com o halo infernal em  todos os tons de  cinza e o azul-espectro dos pesadelos.

Neste artigo, o autor adopta na perfeição — e quase sem utilizar muito o zig-zag, se exceptuarmos a putativa “justeza do AO90” e mais um ou outro deslize, por regra imediatamente revertido — a flagrante analogia entre o filme de Francis Ford Coppola e o apocalipse que se abateu sobre a Língua Portuguesa; indo ainda mais longe na analogia, A.J. Pascoal desenha um arco de similitude entre a célebre frase proferida pela personagem interpretada por Robert Duval e aquilo que não é mais do que o nosso dever, ou seja, combater os “impostores da linguagem”, o seu “triunfalismo bacoco” e sem fazer caso da “edificação da sua mitomania”.

Remédio santo, digamos assim, para acabar de uma vez por todas com as mentiras debitadas, em sua solene e circunspecta basófia, por qualquer um dos mais proeminentes acordistas. Por assim dizer, o napalm (ou coisa que o valha) acaba com a tosse e cura instantaneamente todas as maleitas.

De facto, sempre embarretando o seu característico chapéu de Cavalaria e aferrolhando o seu ar impassível debaixo de fogo, o Coronel Kilgore deixa para a história uma frase lapidar, ou, melhor dizendo, duas: que adora o cheiro a napalm pela manhã e que isso “cheira a vitória”.

Felizmente, convenhamos, no caso vertente, Portugal não é os States. Infelizmente, porém, poucos portugueses apreciam odores exóticos ou maçadas, aborrecimentos, chatices. Muito poucos, pouquíssimos, e nem se sabe ao certo se ainda há disso. Dir-se-ia que não, já não há, isto aqui foi chão que deu uvas, agora é mais samba e futchibóu. Quando muito, no que concerne a labaredas, vai uma ou outra churrascada, toda a gente é veterana mas é sempre de “muitos anos a virar frangos”.

Bom, seja por mor e em memória dos heróis do mar, do nobre povo e da nação valente, ou que ao menos sirva de palíndromo histórico, resistir é um dever e o dever é aquilo que nos resta. O “cheiro a vitória”, portanto, ainda assim.

E o som triunfante de uma cavalgada imparável, transparente, majestosa, tão antiga como o anel dos Nibelungos.


[Uma das peças que compõem a “banda sonora” do filme “Apocalypse Now”]
[The “Ride of the Valkyries” (German: Walkürenritt or Ritt der Walküren) refers to the beginning of act 3 of Die Walküre, the second of the four operas constituting Richard Wagner‘s Der Ring des Nibelungen. (Wikipedia)]

O cheiro a consoantes mudas assassinadas pela manhã

António Jacinto Pascoal
publico.pt, 12.05.21

Nada tenho contra a escritora Isabela Figueiredo, a quem desejo êxito literário no exercício do seu labor criativo. Contudo, nem os maiores arautos do Acordo Ortográfico de 1990 terão ficado indiferentes à ligeireza e leviandade com que as suas palavras foram proferidas.

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É tentador assimilar o destino de um povo à convenção hegemónica de uma língua, na afirmação de si mesmo perante a saudade do Império e o sintoma de uma existência e identidade precárias, na constante urgência de reavivar o centro mítico abatido em que aquele vive. Queremos sempre mais do que somos e travestimo-nos, invariavelmente, daquilo que não somos. Ao contrário do que se possa crer, a supressão de grafemas e a purga de acentos que o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) providenciou não se traduz na promessa de um gesto de humildade e de solidariedade para com os países de Língua Portuguesa, mas a mais recente, esfacelada, incompreensível e incoerente tentativa de assegurar a Portugal a sua sobrevivência cultural e, anacronicamente, a expressão épica e controladora que o seu instinto anima.

Abdicámos da natureza ontológica da grafia – e nisso tivemos, com efeito de ceder, “convidando” outras nações a cedências – a fim de manter a intenção de prolongar o estranhíssimo fenómeno do destino imperial e, finalmente, nos convertermos nos sonhadores de nós mesmos e nos idólatras do poder e das honrarias de um ideal fáustico inexistente, análogo ao proposto por Pessoa na Mensagem. O nosso provincianismo é de facto megalómano.

Alfredo Margarido (A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, 2000) – sem esquecer o luso-angolano Leonel Cosme em Os Portugueses. Portugal a Descoberto, 2007) – não foi o primeiro ensaísta a alertar para o terreno movediço da lusofonia, essa pretensão encapotada de neocolonizar territórios onde se fala português, por intermédio da própria língua, nas suas dimensões gráfica, semântica e ideológica, em que “os missionários da lusofonia agem como se não tivéssemos atrás de nós uma longa história de relações polémicas com aqueles que escolheram falar português”. Muito antes, em 1997, já Eduardo Lourenço publicara Imagem e Miragem da Lusofonia, mas também Portugal Como Destino e Mitologia da Saudade, dando-nos conta deste novo mito, sustentado no “sentimento profundo da fragilidade nacional” e na perda identitária do esplendor imperial, enquanto sistema de compensação gerado desde a sacralização das origens, ao sebastianismo de Os Lusíadas (referência icónica da cultura portuguesa, como Lourenço se lhe referiu), à lógica profética de António Vieira, e à utopia Pessoana do Quinto Império, lida, o mais das vezes, sem escrúpulo de vaidades. Lembremos como nem Camões se deixou deslumbrar por acessos narcísicos e megalómanos de larga escala, convencido dos embustes dos egoísmos nacionais e imbuído do discernimento e pudor de não faltarem atrevimentos “Nesta pequena casa Lusitana”.

Em parte, o recente discurso poliédrico do Presidente da República tocou escombros, ruínas, demónios, fantasmas e feridas que não foram de todo resolvidas. Alfredo Margarido dizia noutro lugar que a “descolonização” não simplificou sequer a validade das literaturas africanas e que “a própria existência da ‘descolonização’ prova que ainda não conseguimos libertar-nos da ganga colonialista, já que os portugueses surgiram como únicos actores do processo político: colonizadores graças às malhas que o Império tece, mas também descolonizadores, quando se trata de destecer as mesmas malhas”.
(mais…)

«O Politicamente Correcto» [Manuel Matos Monteiro, Editora Objectiva]

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Entrevista de Manuel Monteiro a propósito do seu mais recente livro Sobre o Politicamente Correcto, na Sábado que hoje…

Publicado por Editora Objectiva em Quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

«Pessoa de cor… Não conheço nenhum que goste, apesar de ser esta a nomenclatura politicamente correcta actual nos EUA. O meu problema com o politicamente correcto é a excessiva concentração no exterior do copo e não no seu interior, isto é, nas raízes do pensamento. Concentremo-nos no essencial.»

 

Lançamento Sobre o Politicamente Correcto

Lançamento do livro de Manuel Monteiro, SOBRE O POLITICAMENTE CORRECTO.

Publicado por Editora Objectiva em Segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

 

Sinopse

Manuel Monteiro, autor do aclamado Por Amor à Língua, vira a sua atenção para um tema que muita tinta tem feito correr nos media e nas redes sociais: o Politicamente Correcto e a linguagem a ele associada.

O cuidado e o respeito na forma como nos dirigimos ao outro e descrevemos o que nos rodeia são considerados, pela maioria, formas básicas de educação essenciais à boa convivência. A língua evolui com os tempos e ajusta-se a novas realidades, diferentes formas de olhar o mundo, algo natural no processo de transformação civilizacional

e social. Mas deverá este processo ser forçado? Serão todas as suas propostas positivas e igualmente defensáveis?

Estará o Politicamente Correcto a impor uma visão do mundo, ao invés de nela participar? Será possível – ou desejável – mudar mentalidades por decreto?

Argumentos de ambos os lados são pesados com a ponderação

e o humor característicos do autor acerca de um assunto mais

complexo do que aparenta e que mexe com o mais profundo da identidade de cada um: o modo como nos expressamos.

Em Sobre o Politicamente Correcto, após um aturado trabalho de pesquisa, Manuel Monteiro debruça-se sobre a vertente linguística (e não só) de um dos temas que mais têm apaixonado a opinião pública nos últimos anos: o Politicamente Correcto.

Os elogios da crítica sobre Por amor à língua:

«Este livro diverte, ensina, corrige, chama a atenção, ilustra, melhora-nos, dá vontade de ler – é um achado. É um elogio da nossa língua. Ninguém se sinta atacado. Estamos sempre a aprender. Bravo Manuel Monteiro(que não conheço) que o escreveu.»

Francisco José Viegas

«Por Amor à Língua é um livro chocante e salvífico. [#] Manuel Monteiro não está

a debater questiúnculas estilísticas – está a lutar contra a maneira como a grande maioria dos portugueses usa a língua.»

Miguel Esteves Cardoso, Público

«Uma obra em defesa da complexidade e beleza do Português que escrevemos. Missão mais

nobre não há.»

Expresso

«Manuel Matos Monteiro é autor de um notável trabalho de vigilância da Portuguesa língua.»
António Jacinto Pascoal, Público