Categoria: documentos

Uiss Maiaiss nu Timô

E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional [parecer DGBES]


O Acordo Ortográfico poderá afectar negativamente a cooperação que hoje existe na área do livro escolar entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Dado que em tais países se segue a norma ortográfica portuguesa toda a produção do livro escolar – à excepção de uma escassa produção doméstica – é exclusivamente assegurada pelos editores portugueses.

O Acordo poderá não só deslocar esta produção para o Brasil, como determinar, por arrastamento, a prevalência de docentes brasileiros na cooperação com tais países, no âmbito do ensino. [parecer DGBES]

«Representantes do Ministério da Educação estarão no Timor Leste, de 9 a 13 de abril, para avaliar e monitorar programas de cooperação educacional, especialmente o Programa de Qualificação de Docentes e Ensino de Língua Portuguesa, implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) em 2005.»

«O coordenador-geral de Cooperação Internacional da Capes, Benício Schmidt, vai ao Timor Leste para tratar da implantação de um programa de formação de magistério para os professores em exercício nas escolas primárias do país.»

«O grupo de brasileiros que está no Timor Leste ministra aulas, em português, de disciplinas como matemática, química e biologia, com o objetivo de qualificar docentes dos diversos níveis de ensino. Um dos resultados alcançados pela missão foi a elaboração de livros didáticos de física, biologia, história, geografia e educação física, levando em conta a realidade local.»[Governo do Brasil, Ministério da Educação]

Share

Barreiras

Feliciano Barreiras Duarte, então deputado, foi o relator da “apreciação” que o Parlamento fez o favor de simular a propósito de uma petição apresentada por Vasco Graça Moura et al em 2009. Os resultados da petição e, por maioria de razões, do relatório que esgalhou Feliciano, foram, como é do conhecimento público, absolutamente nulos e de nenhum efeito, tendo toda aquela papelada sido prestes enviada para o arquivo “morto”, situado algures nas catacumbas do Palácio de S. Bento, em algum esconso escuro onde ainda hoje continua a ganhar pó e a dar guarida a aranhas, ratos, centopeias e outra bicharia.

Do mencionado relatório, assinado de cruz pelos demais dorminhocos e absentistas, porém mui doutos e regiamente pagos “representantes do povo”, consta esta frasezinha lapidar: «Por tudo isto, muitas das preocupações e sugestões dos peticionários deverão ser tidas em conta, de forma a permitir uma operacionalização e implementação do acordo ortográfico que salvaguarde a melhor defesa da cultura e língua portuguesa.»

Tal asinina formulação, aprovada por unanimidade em sede de Comissão “especializada”, atestava plenamente a vacuidade que em geral assolava à época (esperemos que já nem tanto hoje em dia) a esmagadora maioria da nacional deputação. 

Traduzindo o que diz a lápide, em breve glossário, de politiquês acordista para Português corrente: “muitas das” significa (evidentemente) “nenhumas”, “preocupações” quer dizer “ah, e tal, aquilo não é nada, são manias lá do velho Vasquinho”, “deverão ser” é o mesmo que “igual ao litro, faz de conta, já toda a gente sabe que não vamos fazer porra nenhuma”, “tidas em conta” equivale a gargalhada geral, “eheheheheheh, mas que cromos, estes gajos, ai, tirem-me deste filme que ainda me dá uma coisinha má”.

E, como se ainda não bastasse o gozo dos preliminares, a retumbante “apreciação” parlamentar sintetizada na frasezinha de Barreiras encerra com chave de lata: «de forma a permitir uma operacionalização e implementação do acordo ortográfico». Ou seja, nunca, jamais, em tempo algum outra hipótese esteve sequer em cogitação. Era tudo a fingir, uma risota pegada.

Fantástico, ó Barreiras. Realmente, a lata destes tipos, destes parlamentares malabaristas, tal é o seu desplante, a arrogância, o desprezo que nutrem pelo “poviléu” que sucessiva, bovina e estupidamente os elege!

É este mesmo Barreiras quem, do alto da sua sapiência e das suas altas qualificações para o efeito, continua amiúde a abrir caminho à “língua universal”, a derrubar barreiras para que nada atrapalhe a “universalização” da sua querida língua, a brasileira.

Eis mais um artigalho do dito sobre o assunto.

I) Monolinguismo – o analfabetismo do Século XXI?

Das cerca de sete mil línguas e dialectos que o mundo tem, duas mil e quinhentas estão em risco de extinção. E, para além destas, existem muitas mais ameaçadas e outras em situação muito vulnerável.

Feliciano Barreiras Duarte
olharaocentro@sol.pt
“Sol”, ‘Olhar ao Centro’,

 

«Enquanto cidadão sou contra, mas enquanto Presidente tenho de o respeitar».
Marcelo Rebelo de Sousa 2016, sobre o Acordo ortográfico

 

A saída do Reino Unido da União Europeia veio levantar problemas de diversa ordem, um dos quais é a política das línguas à escala europeia e mundial.

Trata-se de uma matéria que, sendo demasiado séria, tem estado afastada da ribalta mediática e da prioridade de muitos países, a começar por Portugal. O multilinguismo – no contexto da globalização vigente e da diversidade cultural e linguística num mundo aberto e cosmopolita – deve implicar políticas públicas que valorizem não só as línguas maternas mas também duas línguas estrangeiras por cada cidadão, independentemente da sua origem territorial, idade ou condição social.

Das cerca de sete mil línguas e dialectos que o mundo tem, duas mil e quinhentas estão em risco de extinção. E, para além destas, existem muitas mais ameaçadas e outras em situação muito vulnerável.

Tal acontece em vários continentes, sobretudo em territórios onde a desflorestação, através da destruição da fauna e da flora, está a contribuir para a extinção de línguas, muitas delas ancestrais.

Neste quadro de línguas em extinção, por um lado, e de línguas hegemónicas, por outro lado, os linguistas interrogam-se sobre o que fazer para salvar as primeiras.

Ora, há muita coisa que pode ser feita. Desde logo, criar as melhores condições para a efectiva regulação linguística à escala europeia e mundial. As línguas (nacionais e afins) são património cultural, educacional e social dos seus falantes e dos territórios de pertença.

No ranking das línguas mais faladas do mundo, o português, o inglês e o espanhol, enquanto línguas europeias, estão entre as quatro línguas mais faladas do mundo.

A saída do Reino Unido da União Europeia vai colocar um grande desafio à Europa, no que diz respeito à língua. De língua não oficial da União Europeia, o inglês transformou-se numa ‘língua dominante’ ou até ‘hegemónica’. De ‘língua franca’ (o latim dos nossos dias?), o inglês vai ou não perder poder e influência?

Note-se que o inglês é a língua materna de apenas 14% dos cidadãos da União Europeia. Dos outros 86%, só 8% são fluentes em inglês, e 17% dominam a língua bem ou razoavelmente. Feitas as contas, dois terços dos europeus não falam ou falam mal o inglês. Ora, para ser aprendida, a língua inglesa precisa de 15.000 horas de estudo e de prática

Com o Brexit, o inglês ficará circunscrito a Malta (meio milhão de pessoas) e à Irlanda (cerca de 5 milhões). Ou seja, o Brexit não poderá deixar de se aplicar ao ‘inglês’, com as consequências que daí advirão, política, económica e socialmente. Poderá ou não continuar a ser a língua dominante e/ou hegemónica?

Os cultores do multilinguismo europeu devem estar atentos e activos no reforço da democracia linguística europeia. Uma língua é também um instrumento de poder – e da sua manifestação externa resultarão impactos económicos, sociais e culturais positivos. Não é por acaso que, no seio da Academia europeia, existem cada vez mais movimentos a defender o reforço da latinidade e das línguas francófonas e latinas. Voltaremos a esta temática na próxima semana.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral de artigo publicado no semanário (acordista) Sol”, ‘Olhar ao Centro’,. As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”. Imagem de topo: recorte de notícia do jornal (acordista) online “Observador”.]

Share

Escrita Escrivá

«Acreditando que esta luta contra a imposição do poder económico poderá redefinir-nos como povo digno desse nome e poderá ser, eventualmente, a pedra-de-toque que desencadeará uma nova consciência do nosso lugar do mundo e das nossas responsabilidades – porque um povo pode mais do que julgam vendilhões do que não lhes pertence -, deposito nas mãos, na consciência e nas palavras de Vossa Eminência Reverendíssima este resquício de Nação que se leva da palavra primeira até à hora da partida nas derradeiras palavras ditas: por amor da Palavra escrita, em nome de todos os que falaram em púlpitos, fale agora a Igreja e antes que seja tarde, em nome do Padre António Vieira, homem íntegro, que nunca desistiu, salve a nossa alma, a nossa única matriz, a nossa Lingua mater!»

«Considerando que este assunto fica em boas mãos, agradeço desde já toda a atenção dispensada.»

«Queira Vossa Eminência Reverendíssima aceitar os meus mais respeitosos cumprimentos.»

“Deus vos perdoe”, Fevereiro de 2011

 

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2019/1/24/apertura-gmg-panama.html

recorte de página do “site” do Vaticano em bras… “português”

Jornada Mundial da Juventude em Portugal: Marcelo celebra “vitória da língua portuguesa”

Igreja Católica escolheu Portugal para a realização da Jornada Mundial da Juventude de 2022. O Papa Francisco deverá deslocar-se a Lisboa para aquele que é o maior evento juvenil católico do mundo.

PÚBLICO, 27 de Janeiro de 2019

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este domingo que a decisão da Igreja Católica de escolher Lisboa como palco da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2022 é uma “vitória de Portugal”, da “língua portuguesa e da lusofonia”. As declarações foram prestadas na Cidade do Panamá à Agência Ecclesia e à Rádio Renascença, logo após o anúncio da decisão, feito no Panamá.

O Papa Francisco deverá deslocar-se a Portugal para aquele que é o maior evento juvenil católico do mundo. “Estou muito feliz, estamos muito felizes. Valeu a pena! Lá estaremos em 2022”, disse Marcelo. “Esperávamos, desejávamos, conseguimos”, acrescentou.

O chefe de Estado acrescentou que a realização do evento é uma “vitória de Portugal, do povo católico português, vitória da Igreja Católica, vitória também do episcopado”.

Marcelo disse ainda que a situação geográfica de Portugal como “melhor plataforma giratória para todos os continentes e sobretudo para a África”, possibilitando a participação de “muitos peregrinos, muitos jovens”, foi “um argumento decisivo” para o Vaticano.

O Presidente da República encontra-se desde sexta-feira no Panamá, onde terminou este domingo a edição de 2019 daquele que é o maior evento católico juvenil do mundo.

Concretização de um sonho de “há muito tempo”

Por seu turno, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, considerou que a realização da JMJ de 2022 em Lisboa é uma “excelente notícia” e a concretização de um sonho da Igreja Católica em Portugal de “há muito tempo”.

“As nossas 20 dioceses há muito tempo têm este sonho de ver uma Jornada Mundial da Juventude em Portugal”, disse à Agência Ecclesia e à Rádio Renascença.

O cardeal-patriarca convidou “jovens de todo o mundo” a participarem na JMJ de 2022, especialmente aqueles estão ligados a “Igrejas africanas de expressão portuguesa”.

Costa promete todo o apoio para garantir sucesso das JMJ

O primeiro-ministro português, António Costa, garantiu neste domingo que o Governo dará “todo o apoio” para garantir o sucesso da JMJ em Lisboa, que classificou como “evento extraordinário”.

“Conforme oportunamente transmitido ao Presidente da Câmara de Lisboa e ao Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente, o Governo assegura todo o apoio que seja necessário para garantir o sucesso deste evento extraordinário para crentes e não crentes”, sublinhou o chefe do executivo numa mensagem colocada na sua conta oficial no Twitter.

António Costa colocou outra mensagem no Twitter para felicitar o trabalho do Patriarcado de Lisboa em colaboração com a Câmara de Lisboa para trazer para a capital portuguesa as JMJ em 2022: “Felicito o Patriarcado de Lisboa pelo excelente trabalho desenvolvido em estreita colaboração com o Município de Lisboa para que Portugal acolha em 2022 as Jornadas Mundiais da Juventude, expressando ao Pontífice a nossa gratidão pela Sua escolha”, assinala ainda o primeiro-ministro.

Governo considera “uma notícia extraordinária”

O Governo português considerou uma “notícia extraordinária” Lisboa receber a próxima edição das Jornadas Mundiais da Juventude, admitindo que o país nunca recebeu um evento desta dimensão.

“Estamos a falar do maior evento de juventude que há no mundo, eu não sei mesmo se alguma vez em Portugal recebemos algo parecido com isto e, portanto, é uma notícia extraordinária”, afirmou à agência Lusa o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, na Cidade do Panamá, onde se deslocou em representação do executivo.

“É de uma alegria absolutamente extraordinária para o nosso país, evidentemente para a Diocese de Lisboa, para a Câmara Municipal de Lisboa, mas claro também para o país, que vê assim reconhecida, mais uma vez, a grande capacidade organizativa que o país tem”, declarou o governante.

Questionado se o Governo está empenhado na concretização das Jornadas Mundiais da Juventude, o secretário de Estado respondeu: “Com certeza que sim. Não será este Governo, será o próximo governo que estiver em funções, mas é, desde já, obviamente, um compromisso de Portugal, mais do que qualquer governo”.

[PÚBLICO, 27 de Janeiro de 2019. Os “links” a verde são meus.]

Share

Passar roupa a ferro

Como diabo terei ido parar a esta lista de spamming? Não faço a menor ideia. Talvez tenha comentado alguma coisa, lá no covil do spammer, muito provavelmente denunciando (como é de bom tom fazer-se quando se topa com “lusofonistas” da treta, passe a redundância) as suas manigâncias enquanto agente de viagens não encartado encapotado sob a pomposa designação de “colóquio da lusofonia”. Isto, bem entendido, no pressuposto de que esteja correcta a minha opinião: quem promove esses tais “colóquios da lusofonia” É mesmo só ele e só ele mesmo É os ditos “colóquios da lusofonia”.

Não sei como terá o meu endereço de email ido parar a semelhante lista de spamming, repito, mas a verdade é que recebo — amiúde e há já longos anos — a publicidade não solicitada remetida pela pessoa em causa. Por regra, quando algum spam consegue furar o “software” de detecção automática, envio imediata e directamente esse tipo de detritos electrónicos para o virtual balde do lixo mas, desta vez, não sei bem porquê, num simples relance, em milésimos de segundo, algo fez retinir aquela espécie de campainha mental que me nasceu entre as orelhas há mais de vinte anos; soou o sinal de alarme anti-acordista, portanto, repentino e instintivo, que por experiência sei nunca ou raramente falhar: alguma coisa grave ou algo muito errado constava daquele texto. Portanto, abrindo para o efeito uma tão dolorosa quanto necessária excepção, fui ler aquela porcaria.

E… pim! Cá está. É ali aquele nomezinho. E, olha, outro ali, outro nomezinho. Macacos me mordam. O que diabo vai esta gente, boa gente, gente decente, lá fazer ou lá dizer?

Será que deixaram-se apenas tentar pelo carácter turístico do evento, o qual desta vez contemplará uma das 9 ilhas dos Açores, qual delas a mais bela, mais edílica, mais bucólica e quiçá poética, rendendo-se eles por conseguinte aos encantos do “colóquio” (e à música do respectivo “host” ou agente) a troco de umas quantas palavrinhas coloquialmente debitadas?

Será que não fazem a menor ideia daquilo em que se estão a meter, em que assados, salvo seja, em que verdadeiro caldeirão fervente (não, não me refiro às Furnas) irão seguramente mergulhar caso acedam de facto a participar num daqueles “colóquios da lusofonia”, dos quais ninguém ouviu jamais falar, que não são noticiados em lado algum e cujo pretexto programático é mais falso do que uma nota de 3 dólares?

Será que irão mesmo prestar-se, aquelas duas (ou três) figuras de prestígio das Letras pátrias, a fazer o papel de idiotas úteis numa festarola privada cuja única finalidade — para além dos proventos que tocarão a unidades hoteleiras, restaurantes, companhias aéreas, agências de viagens e demais negócios envolvidos — é a promoção (descarada) da chamada “lusofonia”, ou seja, a colonização linguística brasileira e o extermínio cultural do Português-padrão e de tudo aquilo que o representa e que ele significa?

Já que não declinaram o convite, ao menos que dispensassem a “honra”. A simples presença  em semelhante fantochada já seria vergonha bastante, dispensava-se a humilhação — não a própria mas a alheia.

Em suma: será que nem desconfiam, aqueles “convidados de honra”, de que vão cair numa cilada?

Ou desconfiarão, afinal? Bem, tivemos pelo menos dois precedentes (1, 2) e num deles a coisa acabou por correr bem

Estou em crer, quero crer que sim, os convidados sabem perfeitamente ao que vão e não apenas desconfiam como até já terão delineado um plano de acção adequado, catita, jeitoso: dinamitar o “colóquio” por dentro, fazê-lo implodir denunciando claramente o seu carácter propagandístico e a sua real finalidade — proselitismo acordista.

Ir aos “congressos da lusofonia” ou, de resto, a qualquer outra patuscada com o “alto” patrocínio do Bechara e do Malaca? Cruzes, canhoto! T’arrenego, Satanás! Deusmalibre, carago!

Ou, como dizia “a” Manuela (nascida Manuel mas achando isso aborrecido), com seus maneirismos caricaturais, ai, filhinhas, mais valia passar roupa a ferro.

—– Original Message —–

From: info
To: undisclosed-recipients
Sent: Wednesday, January 16, 2019 1:50 PM
Subject: : 32º COLÓQUIO DA LUSOFONIA NA GRACIOSA: convite formal

 

CONVITE FORMAL A PARTICIPAR

A AICL [ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA], tem o grato prazer de o/a convidar a estar presente (como ORADOR ou PRESENCIAL) no 32º Colóquio da Lusofonia cujas sessões terão lugar, de 2 a 7 de outubro na Sala de Conferências do Hotel Graciosa Resort em Santa Cruz da Graciosa, Açores.

Todos os detalhes em / http://coloquios.lusofonias.net/XXXII/

  • Teremos a presença do Prémio Nobel da Paz 1996, Dom Ximenes Belo e de José Ramos-Horta entre muitas outras personalidades de vulto.
  • Escritores de honra convidados TEOLINDA GERSÃO, JOSÉ LUÍS PEIXOTO e JOEL NETO
Share

Os Lusitansos

Palavras que se mantêm diferentes com o AO90

Não sei bem porquê, só me ocorria a lapidar expressão de Scolar “E o burro sou eu?!”

Fiquei mesmo remoendo a coisa, confesso, como aliás é próprio dos asnos, compenetrado e meditabundo, dando voltas e mais voltas à questão foram-se-me as horas, os dias e toda a pachorra a ver se dava com o busílis: se a senhora diz que «havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, ‘facto’ – ‘fato’)», então, com mil demónios, como posso eu ter topado com apenas 21?

“Facto/fato”, pois com certeza, essa é velha, minha senhora, toda a gente vai logo buscar tal  parelha, e algumas outras coisinhas também lembram assim de repente, lindezas como húmido/úmido, subtil/sutil, secção/seção, connosco/conosco e mais umas poucas. Ocorreu-me até, apesar de entender piorzito o brasileiro do que o Castelhano ou o Italiano, que talvez umas quantas palavrinhas catitas fizessem parte da subseção “Na prática, a situação anterior não muda”(1) da seçãoPalavras afetadas” do “Vocabulário de Mudança“; por isso fui ver se constava uma coisinha, por acaso muito gira, que li algures e que presumo seja do mais “puro” brasileiro: “brocoli” (plural de brócolos, eu vi, juro que vi, eles usam a palavra no original amaricano). Mas não, oh, que galo, “brocoli” não consta. Pois, está bem, claro que não consta, o tal Vocabulário do ILTEC não trata do léxico especificamente (e unicamente) brasileiro, versa apenas, porque é “de mudança” sobre as palavrinhas que o brasileiro (ainda) tem em comum com a Língua Portuguesa; e mesmo destas, nem todas, bem pelo contrário, muitas não constam.

Bom, não nos desviemos do essencial: mas para onde raio se me terão fugido aquelas duas mil, seiscentas e tal palavras? Caramba! Tanta fórmula de busca, tanto cruzamento de dados e cálculos de probabilidades e contas de conferência, irra, mas que chatice, na volta é o costume, tenho a solução debaixo do nariz e não estou a vê-la, maldita penca, não podias ter nascido com umas ventas um bocadinho “menos”, hem, ó pencudo…

Displiquit nasus tuus, lá diziam os romanos, esses tontinhos (toc toc toc), ignoremos o apêndice nasal porque pode dar-se o caso de… isto é, a não ser que… e se afinal a coisa for muito mais simples do que parece? Não estará a resposta — como aliás é costume das sacanas das respostas — ali a rir-se p’ra mim?

Estava. Claro. É evidente que estava. Não são 2691 mas também não são 21. No total, fora as que “misteriosamente”  não constam dos dados de origem, encontramos 284 «palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes»(2) segundo o AO90.

A resposta estava mesmo ali a rir-se para mim e agora o resultado aqui fica… a rir-se de todos nós.

acantodáctilo, acantodátilo
aceptilação, acetilação
adactilia, adatilia
adáctilo, adátilo
amígdala, amídala
amigdalácea, amidalácea
amigdalar, amidalar
amigdalectomia, amidalectomia
amigdaliano, amidaliano
amigdálico, amidálico
amigdalífero, amidalífero
amigdaliforme, amidaliforme
amigdalina, amidalina
amigdalino, amidalino
amigdalite, amidalite
amigdalotomia, amidalotomia
amigdalótomo, amidalótomo
amnistia, anistia
amnistiado, anistiado
amnistiar, anistiar
amnistiável, anistiável
anabenodáctilo, anabenodátilo
anisodactilia, anisodatilia
anisodáctilo, anisodátilo
anticorrupção, anticorrução
antidáctilo, antidátilo
antigalático, antigaláctico
artiodáctilo, artiodátilo
aspectável, aspetável
assumptível, assuntível
assumptivo, assuntivo
assumpto, assunto
bissecção, bisseção
bissetar, bissectar
camptodáctilo, camptodátilo
catapléctico, cataplético
coacto, coato
complectivo, completivo
connosco, conosco
contactar, contatar
contactável, contatável
contacto, contato
contactual, contatual
corrupção, corrução
corrupta, corruta
corruptela, corrutela
corruptibilidade, corrutibilidade
corruptível, corrutível
corruptivo, corrutivo
corrupto, corruto
corruptor, corrutor
corruptora, corrutora
cunctatório, cuntatório
dactilado, datilado
dactílico, datílico
dactilífero, datilífero
dactilino, datilino
dactiliografia, datiliografia
dactiliomancia, datiliomancia
dactiliomante, datiliomante
dactilioteca, datilioteca
dáctilo, dátilo
dactilomancia, datilomancia
decadáctilo, decadátilo
derrelicção, derrelição
derrelicto, derrelito
despectivo, despetivo
dicção, dição
dictafone, ditafone
dictamno, ditamno
didáctilo, didátilo
dissecção, disseção
dissectivo, dissetivo
dissetor, dissector
ducto, duto
ectrodactilia, ectrodatilia
electuário, eletuário
eleuterodáctilo, eleuterodátilo
elíptico, elítico
entóptico, entótico
epacta, epata
epidíctico, epidítico
eritrodáctilo, eritrodátilo
espectável, espetável
estenodactilógrafo, estenodatilógrafo
estíptico, estítico
estricção, estrição
estupefacto, estupefato
eutéctico, eutético
exsucção, exsução
extragalático, extragaláctico
faccionar, facionar
faccionária, facionária
faccionário, facionário
facciosa, faciosa
facciosidade, faciosidade
facciosismo, faciosismo
faccioso, facioso
factício, fatício
factitivo, fatitivo
factível, fatível
facto, fato
factual, fatual
fluctícola, flutícola
flucticolor, fluticolor
fluctígeno, flutígeno
fluctígero, flutígero
fluctissonante, flutissonante
fluctíssono, flutíssono
fluctívago, flutívago
functor, funtor
héctica, hética
hecticidade, heticidade
héctico, hético
heterodáctilo, heterodátilo
hexadáctilo, hexadátilo
hipodáctilo, hipodátilo
húmido, úmido
inceptivo, incetivo
incontactável, incontatável
incorruptibilidade, incorrutibilidade
incorruptível, incorrutível
incorruptivo, incorrutivo
incorrupto, incorruto
indemne, indene
indemnidade, indenidade
indemnização, indenização
indemnizador, indenizador
indemnizar, indenizar
indemnizável, indenizável
infactível, infatível
infectuoso, infetuoso
infracto, infrato
insectário, insetário
insectífugo, insetífugo
inséctil, insétil
intacto, intato
isodactilia, isodatilia
isodáctilo, isodátilo
jactância, jatância
jactanciar, jatanciar
jactanciosidade, jatanciosidade
jactancioso, jatancioso
jactante, jatante
jactar, jatar
jactura, jatura
lábdano, ládano
láctea, látea
lácteo, láteo
lactescente, latescente
laticínio, lacticínio
laticinoso, lacticinoso
lambugem, lambujem
lictor, litor
lictório, litório
lipossucção, lipossução
luctífero, lutífero
luctífico, lutífico
luctíssono, lutíssono
macrodactilia, macrodatilia
macrodáctilo, macrodátilo
madefacto, madefato
manifacto, manifato
manufacto, manufato
megalodactilia, megalodatilia
megalodáctilo, megalodátilo
microdáctilo, microdátilo
monodáctilo, monodátilo
Neptunais, Netunais
neptuniano, netuniano
neptunino, netunino
neptúnio, netúnio
neptunismo, netunismo
neptunista, netunista
obstupefacto, obstupefato
occisão, ocisão
occisivo, ocisivo
octaviano, otaviano
omnicolor, onicolor
omniforme, oniforme
omnifulgente, onifulgente
omnímodo, onímodo
omniparente, oniparente
omníparo, oníparo
omnipatente, onipatente
omnipessoal, onipessoal
omnipotente, onipotente
omnipresença, onipresença
omnipresente, onipresente
omnisciente, onisciente
omnividente, onividente
omnívomo, onívomo
omnívoro, onívoro
optimacia, otimacia
optimate, otimate
ortodáctilo, ortodátilo
paquidactilia, paquidatilia
pentadáctilo, pentadátilo
perfunctoriamente, perfuntoriamente
perfunctório, perfuntório
perissodáctilo, perissodátilo
polidactilia, polidatilia
polidáctilo, polidátilo
poligalático, poligaláctico
polissindáctilo, polissindátilo
profectício, profetício
prossector, prossetor
pterodáctilo, pterodátilo
putrefacto, putrefato
rarefacto, rarefato
reactância, reatância
ressecção, resseção
revindicta, revindita
secção, seção
seccional, secional
seccionamento, secionamento
seccionar, secionar
seccionável, secionável
septempedano, setempedano
septena, setena
septenal, setenal
septenário, setenário
septenato, setenato
septenial, setenial
septenvirado, setenvirado
septenviral, setenviral
septenvirato, setenvirato
septicole, seticole
septicolor, seticolor
septicorde, seticorde
septiforme, setiforme
septilião, setilião
septimano, setimano
septimestre, setimestre
septingentésimo, setingentésimo
septissilábico, setissilábico
septissílabo, setissílabo
septíssono, setíssono
septívoco, setívoco
septuagenária, setuagenária
septuagenário, setuagenário
septuagésima, setuagésima
septuagésimo, setuagésimo
septupleta, setupleta
sindactilia, sindatilia
sindáctilo, sindátilo
sinopticamente, sinoticamente
sinóptico, sinótico
súbdito, súdito
subsecção, subseção
subtil, sutil
subtileza, sutileza
subtilidade, sutilidade
subtilização, sutilização
subtilizador, sutilizador
subtilizar, sutilizar
sucção, sução
sumptuário, suntuário
sumptuosamente, suntuosamente
sumptuosidade, suntuosidade
sumptuoso, suntuoso
tactura, tatura
talictro, talitro
tectiforme, tetiforme
tectriz, tetriz
tetradactilia, tetradatilia
tetradáctilo, tetradátilo
torrefacto, torrefato
transfunctório, transfuntório
tridáctilo, tridátilo
trissecção, trisseção
trissector, trissetor
tumefacto, tumefato
unidáctilo, unidátilo
ventifacto, ventifato
vindicta, vindita
vivissecção, vivisseção
vivisseccionista, vivissecionista
vivissector, vivissetor
vivissectora, vivissetora
voluptuar, volutuar
voluptuário, volutuário
voluptuosa, volutuosa
voluptuosamente, volutuosamente
voluptuosidade, volutuosidade
voluptuoso, volutuoso
zigodáctilo, zigodátilo

(1)Voltaremos, havendo vagar, a esta engraçadíssima inovação: no “Vocabulário de Mudança” quase metade das “entradas” são palavras que… não mudam!

(2)Excluindo os casos de diferenciação na acentuação e na hifenização, que respeitam a outras “bases” e obedecem apenas à regra habitual: a forma como se escreve no Brasil mantém-se e em Portugal e nos PALOP mantêm-se somente os casos que os brasileiros adotivos “consentirem” (até ver).

[Imagem de topo de: René Goscinny e Albert Uderzo, ‘O Pesadelo de Obélix’. As outras duas imagens são dos mesmos autores.]

Share

Vende-se História

Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, colaço de Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavaleiro, velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique, onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado numa cruz de dez côvados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire de Santiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos, e surde na quadrela da torre albarrã, com os dois pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente ao Mestre: — «D. Paio Peres, Tavira é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça erguida, as barbacãs eriçadas de frecheiros, nega acolhida a El -Rei D. Fernando e Leonor Teles que corriam o Norte em folgares e caçadas — para que a presença da adúltera não macule a pureza estreme do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um troço de besteiros, mata o adiantado-mor de Galiza, e por ele, não por outro, cai derribado o pendão real de Castela, em que ao fim da lide seu irmão de armas, D. Antão de Almada, se embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre de Avis. Sob os muros de Arzila combatem magnificamente dois Ramires, o idoso Soeiro e seu neto Fernão, e diante do cadáver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pátio da Alcáçova ao lado do corpo do Conde de Marialva — Afonso V arma juntamente cavaleiros o Príncipe seu filho e Fernão Ramires, murmurando entre lágrimas: «Deus vos queira tão bons como esses que aí jazem!…»

Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas e os combates do Oriente em que se não esforce um Ramires — ficando na lenda trágico-marítima aquele nobre capitão do Golfo Pérsico, Baltasar Ramires, que, no naufrágio da Santa Bárbara, reveste a sua pesada armadura, e no castelo de proa, hirto, se afunda em silêncio com a nau que se afunda, encostado à sua grande espada. Em Alcácer Quibir, onde dois Ramires sempre ao lado de El-Rei encontram morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pajem do Guião, nem leso nem ferido, mas não querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto, apanha uma acha -de-armas, e gritando: — «Vai -te, alma, que já tardas, servir a de teu senhor!» entra na chusma mourisca e para sempre desaparece. Sob os Filipes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas suas terras. Reaparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente, Governador das Armas de Entre Douro e Minho por D. João IV, mete a Castela, destroça os Espanhóis do Conde de Venavente, e toma Fuente Guinal, a cujo furioso saque preside da varanda dum Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça…

‘A Ilustre Casa de Ramires’, Eça de Queirós


Publicado por Eça de Queirós em Domingo, 13 de janeiro de 2019


Designação
Torre da Lagariça

Outras Designações / Pesquisas
Torre da Lagariça (Ver Ficha em www.monumentos.gov.pt)

Categoria / Tipologia
Arquitectura Civil / Torre

Divisão Administrativa
Viseu / Resende / São Cipriano

Endereço / Local
EN 222 (ao km 95,5, e a 100 m, por
caminho rural) – Lagariça

Protecção

Situação Actual
Classificado

Categoria de Protecção
Classificado como IIP – Imóvel de Interesse Público

Cronologia
Decreto n.º 129/77, DR, I Série, n.º 226, de 29-09-1977 (ver Decreto)




[Imagem de topo de: O Buquineiro – livros raros (Brasil) ‘A Ilustre Casa de Ramires’ – 1ª Edição, Eça de Queiroz, R$ 750,00]

Share