Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: documentos

Moção aprovada: «Língua Portuguesa, diversidade sim, uniformidade não!»

.

Juventude Popular

23.º Congresso Nacional

MOÇÃO DE ESTRATÉGIA SECTORIAL

H – Língua Portuguesa, diversidade sim, uniformidade não!
Subscritor: Rafael Dias

Língua Portuguesa, diversidade sim, uniformidade não!

A moção aqui vertida insta a que a Juventude Popular de forma activa e indubitável vise a reversão do Acordo Ortográfico de 1990. A língua portuguesa anda entregue à bicharada, não pode ser. O património derradeiro da nossa pátria não pode ser vexado desta forma. O AO90 apenas complica em vez de simplificar, confunde em vez de unir, uma união que não faz qualquer tipo de sentido, pois a língua portuguesa como idioma global, tal como o inglês, deve ver na diversidade a sua riqueza e não numa uniformização cega, que convém apenas a algumas editoras. Mais, o AO90 afasta o português, como língua proveniente do latim, de outros idiomas semelhantes, como é o caso do francês, do espanhol ou do italiano, o que torna a sua difusão e aprendizagem pela Europa mais difícil e mais incerta. Acima de tudo o AO90 é uma falácia política, técnica e cultural que tem como corolário factual o falhanço político, dada a sua rejeição pela maioria dos países da Portugalidade- só o Brasil, ainda que a espaços e de forma dúbia, e Portugal praticam o Acordo- e, sobretudo pela maioria da comunidade que mais utiliza a língua portuguesa no seu quotidiano, jornalistas, escritores, cronistas, professores.

A língua é um dos símbolos de uma nação é, pois, o seu maior património imaterial, derradeiro e perene. A Língua é um património valioso e um instrumento determinante para a afirmação dos povos e das suas culturas, porque é através dela que exprimem a sua identidade e as suas diferenças. Tal como a espontaneidade da vida e dos costumes de cada povo, a Língua é um elemento vivo, e não pode, por isso, ser prisioneira de imposições do poder político, que limitam a sua criatividade natural. Deve, naturalmente, evoluir com as vicissitudes dos séculos, não obstante, esta deve ser uma evolução natural e espontânea que tenha âmago na vontade popular e no uso que os constituintes da nação dela fazem no quotidiano ao longo de gerações, sendo por isso tutelada pelo costume. Não é, note-se, o caso deste Acordo Ortográfico, que procedeu de forma sumária à amputação de consoantes e acentos gráficos de forma bárbara, desconexa  e ilógica, promovendo um grotesco aborto ortográfico à língua portuguesa, sendo desde logo, por isso, uma fraude política e técnica.

Uma fraude política também porque substituindo a vontade popular, a classe dirigente do nosso país à época sentiu-se legitimada para liderar um hipotético processo de uniformização da língua portuguesa que encalhou no Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90), nascendo de uma ideia, no mínimo, ingénua do primeiro-ministro à época, Aníbal Cavaco Silva- depois merecendo a conivência dos executivos sucessivos- sob a bandeira de unificar as diversas variantes do idioma português, alegadamente, pasme-se, para evitar que o Português de Portugal não se transformasse numa língua banal , e de simplificar a escrita, o que fez foi abrir uma caixa de Pandora e criar um monstro, pois todos os objectivos desta aventura diplomática fracassaram redondamente. O processo de entrada em vigor do AO90 nos Estados lusófonos é também uma fraude política: o AO90 teria de ser ratificado por todos os Estados. Mas Angola e Moçambique, os dois maiores países de língua portuguesa a seguir ao Brasil, nunca o ratificaram. E, dos restantes países, só três o mandaram aplicar obrigatoriamente: Portugal, a partir de 2011-2012; Cabo Verde, a partir de 2014-2015; e o Brasil, a partir de 2016. Há, assim, repetidas incongruências no domínio jurídico que urgem ser denunciadas. O AO90 é também um lamentável exemplo da forma como o Estado abusou do seu poder. Visto que nunca foi fomentado algum debate público sobre o AO90. Um abuso do poder do Estado e uma fraude técnica também porque foram, em 2005, emitidos 25 pareceres negativos por parte de especialistas e de entidades consultadas. Todo o processo do AO90, culminando com a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, é um exemplo evidente e pérfido de falta de transparência, inadmissível num Estado de Direito democrático.

(mais…)

Share

As variações da mentira – I

 

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
Joseph Goebbels Ministro da Propaganda de Adolf Hitler

 

«All this was inspired by the principle—which is quite true within itself—that in the big lie there is always a certain force of credibility; because the broad masses of a nation are always more easily corrupted in the deeper strata of their emotional nature than consciously or voluntarily; and thus in the primitive simplicity of their minds they more readily fall victims to the big lie than the small lie, since they themselves often tell small lies in little matters but would be ashamed to resort to large-scale falsehoods. It would never come into their heads to fabricate colossal untruths, and they would not believe that others could have the impudence to distort the truth so infamously. Even though the facts which prove this to be so may be brought clearly to their minds, they will still doubt and waver and will continue to think that there may be some other explanation. For the grossly impudent lie always leaves traces behind it, even after it has been nailed down, a fact which is known to all expert liars in this world and to all who conspire together in the art of lying
— Adolf Hitler, “Mein Kampf”, vol. I, ch. X [“Big Lie”, Wikipedia]

——————

Na perspectiva dos acordistas, tudo se resume a seguir a táctica preconizada por Goebbels, a qual consubstancia na prática o “pensamento” teórico do seu alucinado chefe: uns quantos agentes  papagueiam, sistematicamente e à vez, como servindo-se num rodízio com patranhas em vez de acepipes, sempre as mesmas aldrabices básicas.

A táctica é de facto viável: basta repetir infinita e invariavelmente as mesmas tretas. E a técnica parece ser mesmo infalível: quanto maior e mais simples é a mentira, mais gente acredita nela — até porque ninguém concebe que “outros possam distorcer a verdade tão abominavelmente“.

Neste caso concreto, quanto ao AO90, prato principal do alucinado repasto, com CPLP e “lusofonia” por acompanhamento e decoração, sequer existe “distorção da verdade” — isto ele é só mentiras mesmo.

Das quais aqui temos as primeiras 5, algumas das principais, mais requentadas, mais repetidas e mais conhecidas — cuja colecção ficará, qual expositor de vitualhas podres, na nova página “Pseudologia Fantastica“.

 

1. O AO90 facilita ensino/aprendizagem, é mais fácil para as crianças. Mentira.
«Não fazia sentido, e essa foi a principal razão para adoptarmos o princípio da pronunciação. Se não houvesse essa diferença, com certeza que as consoantes teriam ficado. Além disso, do ponto de vista pedagógico-didáctico, para as crianças que começam a aprender a ler e a escrever, era mais fácil.» [Malaca Casteleiro, Observador, 02.2017] Mentira.

a) «Então, por causa dos tais dois mil para quem o conhecimento desta língua é útil, noventa e oito mil foram torturados e em vão sacrificaram um tempo precioso. (…) Daí que seria essencialmente mais útil se ao jovem estudante fossem transmitidos apenas os contornos gerais da língua (…) Evitar-se-ia também o perigo de, de toda a sobrecarga de matéria, apenas ficarem uns fragmentos na memória, uma vez que o jovem só teria de aprender o essencial, sendo assim feita antecipadamente a selecção do que é útil e inútil. (…) Ganhar-se-ia assim no currículo o tempo necessário para a educação física, bem como para as crescentes exigências nas áreas já atrás referidas.» [“Mein Kampf”, Adolf Hitler]
b) «Uma avaliação internacional apurou que os alunos portugueses do 4.º ano [i.é, 4.ª classe] pioraram na leitura. Em cinco anos a média desceu onze pontos, colocando Portugal em 30.° lugar entre 50 países […] O problema está nos resultados aos testes sobre literacia e a leitura. E aqui as crianças portuguesas entre os 9 e 10 anos descem 11 pontos em relação ao estudo anterior realizado em 2011. Na prática estão pior na leitura. («Má nota na leitura», Jornal da Noite, S.I.C., 5/XII/17.) Ora bem, em 2011, começaram a ensinar aos meninos o acordo ortográfico para a aprendizagem do português ser mais fácil. E foi.”» [Blog “Bic Laranja”, 12.2017]
c) «Porque chumbam os alunos logo no 2.º ano de escolaridade? A principal razão apontada é esta: “por não lerem bem e não terem atingido os objectivos estabelecidos no programa no que respeita à leitura e escrita”. » [“Público”, 05.2017]

2. O AO90 permite “expansão da Língua Portuguesa no mundo”. Treta.
«Fundamentalmente porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa, a brasileira e a portuguesa. Do ponto de vista da promoção internacional da língua, era prejudicial. Numa universidade ou instituição estrangeira onde se ensine o português, qual era a ortografia que se ia ensinar? A de Portugal? A do Brasil?» [Malaca Casteleiro, Observador, 02.2017]. Treta.

a) «Fecharam muitos dos leitorados nas universidades e esse espaço foi ocupado pelos Brasileiros”. No entender de Filipa Melo, “hoje o ensino de português no estrangeiro é feito por brasileiros”.» [Rádio Renascença, 04.2018]
b) «O que se passa em alguns sectores importantes da Cúria Romana revela precisamente a perda da importância de Portugal e da língua portuguesa. Em Março, por exemplo, a Congregação para a Causa dos Santos anunciou que deixaria de ter o português como língua oficial.» [DN, 09.2016]
c) «De acordo com a governante, a promoção do ensino e uso das línguas nacionais e a elaboração de estudos sobre a variante da Língua Portuguesa em Angola constam das acções prioritárias do sector a par de criação de infraestruturas, com vista ao desenvolvimento de uma indústria cultural forte e eficiente.» [DN/Lusa, 06.2017]

(mais…)

Share

Cruzadex (2)

«O grupo editorial Leya estima que a adaptação de cada manual escolar ao novo acordo ortográfico poderá custar entre quatro e cinco mil euros, pelo que admite o aumento dos preços de venda às famílias.

“Todo este processo de mudança da ortografia, revisão exaustiva do texto e substituição total das chapas de impressão tem custos muito elevados. Dependendo de cada manual, este valor rondará os quatro a cinco mil euros”, afirma a coordenadora de edições escolares do grupo, que detém entre 30 a 40% da quota de mercado dos manuais.» [“Expresso”, 27.02.09]

Ajuste “direto” (Governo de Portugal)


«Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.» Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), 2 de Setembro de 2009, “Diário Digital” [“post” ILCAO, 29.11.14] Ajuste “direto” (Governo de Portugal)

AP Portugal

(mais…)

Share

O homem do pântano (3.ª parte)

Note-se o endereço de email @gmail (grátis). Numa organização da ONU é um bocadinho esquisito, não?

O ponto é este, reitere-se e reforce-se: Guterres não devia ter feito aquilo. Não existe qualquer justificação, motivo ou sustentação legal para a sua presença, na qualidade de Secretário-Geral da ONU, num evento privado, particular e pago. Por todas as razões, não apenas de ordem política mas também ética e moral (se é que tal coisa existe nos meandros políticos) e ainda por uma questão de legitimidade.

Afinal, em quantos ou em quais “dias da língua” (além daqueles que a ONU de facto reconhece) esteve Guterres ou qualquer dos seus antecessores no cargo? Em quantos ou em quais eventos similares ao promovido pela CPLP esteve presente (e discursou) Guterres ou qualquer dos seus antecessores no cargo?

Afinal, sendo a CPLP uma efabulação — sem paralelo no mundo — inventada a pretexto de uma pretensa “unificação da língua” (AO90), coisas em relação às quais a maioria da população portuguesa demonstra total indiferença para com a efabulação e absoluta rejeição da invenção, então o cidadão António Guterres, que por acaso é português e que ainda mais por acaso é Secretário-Geral da ONU, patrocinou com a sua presença uma organização particular e apoiou uma determinada tendência de opinião… minoritária, ainda por cima.

Afinal, para que serve o Dia Internacional da Língua Materna? Ou tal efeméride, essa sim, oficialmente reconhecida pela ONU, não inclui a Língua Portuguesa e, por conseguinte, o Secretário Guterres tem de ir “comemorar” para “os jardins” (porquê “nos jardins”?) uma novilíngua inventada ad-hoc para dar cabo da original?

Afinal, se o dia 5 de “maio” foi inventado em 2005, segundo a Wikipédjia lusôfuna, ou foi reinventado em 2009, segundo os jornais, então quantas vezes foi anteriormente “comemorada” essa “efeméride” na ONU? E em quantas dessas “vezes” esteve presente o antecessor de Guterres, Ban Ki-moon, que foi Secretário-Geral de 2007 a 2016?

Afinal, qual o motivo para que nem à Commonwealth nem à Organisation internationale de la Francophonie (OIF) tenha ocorrido a mesma peregrina ideia de ir “comemorar” para “os jardins” (ou nos interiores) da ONU, em eventos abrilhantados por Sua Excelência? Terá sido por não haver em Nova Iorque empresas de catering especializadas em, respectivamente, corned beef e champignons?

O ridículo tem de facto limites… afinal! Para toda a gente menos para os iluminados que pariram a CPLP mai-la sua aldrabice-mor, o AO90.

Guterres não devia e também não podia ter feito aquilo. Para entender algo assim tão “complicado” basta ler as atribuições do cargo: no “profissiograma” do Secretário-Geral da ONU não consta absolutamente nada que sequer remotamente se assemelhe a comparecer e, muito menos, a discursar em eventos privados “nos jardins” da sede da Organização.

Mesmo na informal qualidade de simples convidado, o que não foi o caso; ao titular daquele cargo em concreto estão liminarmente vedadas, pela própria natureza das suas altas funções políticas,  de âmbito transnacional, quaisquer associações de causa e efeito: o facto de um político aparecer em determinado sítio a determinada hora é algo que apenas a ele mesmo e aos ocasionais circunstantes interessa. Quando Guterres vai a um casamento ou a um funeral, por exemplo, isso não confere o direito aos noivos de anunciar nos convites que a boda tem o alto patrocínio das Nações Unidas, assim como não confere ao defunto poderes para mandar gravar na sua lápide tumular os seguintes dizeres: “Aqui jaz Fulano de Tal. Morreu feliz porque o seu discurso fúnebre foi proferido pelo Secretário-Geral da ONU, em nome de todos os Estados-membros. Paz à sua alma (e obrigadinho aos Estados-membros e ao Sr. Guterres)”.

Pouco ou nada importa a contra-informação difundida pelas estruturas ligadas ao Governo brasileiro e ainda menos importa a propaganda brasileirófona da agência “Lusa”. Toda essa intoxicação que profissionais regiamente pagos impingem por sistema à opinião pública tuga (só a esta, porque no Brasil ninguém está “nem aí”) vale rigorosamente zero; apenas uns quantos portugueses, os mais “distraídos” e os mais comprometidos, engolem as patranhas da propaganda neo-imperialista. O Brasil quer tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entre outros objectivos estratégicos expansionistas. O resto é puro paleio.

I Encontro de Academias de Letras da CPLP

As Missões dos países da #CPLP junto à ONU, Nova Iorque, organizaram o I Encontro de Academias de Letras da CPLP, assinalando também o “5 de Maio – Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. Confira a reportagem da Globo!

Publicado por CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

(mais…)

Share

O homem do pântano (2.ª parte)


«The United Nations also joined the celebrations with an event for more than 200 hundred participants, including the president of the General Assembly, the General Secretary of UN, and the former president of Timor-Leste, Nobel Peace Prize winner Jose Ramos-Horta. The event had a Brazilian band playing songs from all Portuguese-speaking countries, food prepared by a Portuguese chef and décor inspired on Timorese art.»

[Brazilian Cultural Network]

Isto significa, to make a long story short, que o evento do 5 de “maio” foi promovido, organizado e — muito provavelmente — pago pelo Brasil.

“Muito provavelmente”? Sim, muito provavelmente.

Já vimos que há eventos pagos na nova-iorquina sede das Nações Unidas. O cartaz da CPLP a publicitar o evento até indica o preço do “snack de almoço”: 10 dólares americanos (“reserva prévia“).

Mas a pagantimus não são apenas as patuscadas (com ou sem “snack”) deste género, “nos jardins” ou no interior do edifício-sede da ONU; há outros tipos de eventos (claro, os americanos são tramados para o negócio) e não custa nada (pois sim, para variar, isto ainda é grátis) procurá-los no “site” das Nações Unidas. Por exemplo, os briefings também estão devidamente tabelados pela mundial Organização e palpita-me que os respectivos preços até são bastante em conta.

Uma outra secção (com alguma piada, parece-me) onde aparecem uns preços jeitosos é a dos “tickets”. Confesso que desconhecia ser necessário pagar bilhete de entrada no quartel-general da ONU para ver uns senhores muito circunspectos a governar o mundo, assim como quem vai a Sete Rios para ver o elefante a tocar o badalo, mas é bem verdade que andamos cá para aprender mais um bocadinho todos os dias.

Curiosidade acessória, ainda nesta visita virtual (é o que se arranja, o orçamento não estica, de momento não me dá muito jeito ir à América conferir pessoalmente estas “info”), é o nível de detalhe a que chegam os trâmites de pagamento para as “visitas em grupo” (grandes grupos, salvo seja):

«Large groups payments

We accept payment via credit card through our on-line vendor. If we assist you over the telephone with a credit card payment, a $5.00 agent’s fee per reservation will be added.

Otherwise, payment can be made with a company, organization, or school cheque (no personal cheques), or (international) money order. We do not accept purchase orders. Once we identify an available date/time slot and you accept, we will email you an invoice within two business days in order to make payment arrangements. Your payment must be received within 15 days of the confirmed reservation or your reservation will be cancelled.

If you would like to book your tour directly with us, please read the Group Reservations Policy and afterwards complete the Group Reservations Form for 40 persons or more.»

Ora, assim sendo, não se passará nada de estranho no facto de o evento comemorativo do dia da língua de vaca (e da cultura do feijão) ter custado umas lecas valentes a alguém, subentendendo-se neste pronome indefinido (e vago) que não terá evidentemente sido uma só pessoa, mas sim uma organização ou entidade concreta (e definida) a abrir os cordões à bolsa para o efeito. Aposto, como já disse, em que terá sido a Embaixada do Brasil a pagar a conta, ou então, quem sabe, a guita poderá ter saído dos “cofres” da CPLP (igualmente paga pelo Brasil, vem a dar no mesmo), mas não me parece — a julgar pela propaganda oficial evidenciada — que os demais países da “comunidade” tenham também inchado com alguma coisinha em metal sonante. A CPLP, propriamente dita, como aliás faz parte do seu código genético, teve uns figurantes a circular por entre os convidados (e os penetras), tentando conferir algum lustro formal ao ridículo evento brasileirófono.

Veja-se, na mesma linha do anterior, este outro vídeo — de igual amadorismo e também recheado de mentirolas avulsas —  obscenamente publicitado como sendo “das Nações Unidas”.

Impressionante. No exacto momento em que escrevo isto, a gravação “das Nações Unidas” regista 113 visualizações. Caramba! 113 seres humanos, dos quais pelo menos 113 são  cidadãos “lusófonos”, viram aquela “peça”! Como dizem os brasileiros, “uau”! Isto as “Nações Unidas”, ou ele há poucas nações ou ele são pouco unidas. O “apresentador”, com seu quê de cómico (bem, deve ser só impressão minha mas acho que o bacano viu-se aflito para não desatar a rir com aquela palhaçada toda), chega ao ponto de dizer que [quote] esta é já considerada a maior celebração que alguma vez já houve aqui na Organização [unquote]. Fantástico. Os meus agradecimentos ao canal brasileiro “ONU News” pelo seu extraordinário sentido de humor, eheheheheheh, fartei-me de rir.

Enfim, anedotas à parte, esforcemo-nos por não brincar com coisas sérias, (“a maior celebração que…” AHAHAHAHAHAHAHAH, ahrhum, peço desculpa), aqui o caso é — sumariando o já exposto — que tudo estaria nos conformes caso a patuscada paga pelo Itamaraty:

a) Não tivesse sido falsamente divulgada como sendo a comemoração de um (inexistente) “Dia da Língua Portuguesa na ONU”.
b) Não tivesse sido falsamente publicitada como sendo uma cerimónia oficial “das Nações Unidas”, patrocinada e organizada pela própria ONU.
c) Não tivesse sido falsamente anunciada a presença do Secretário-Geral das Nações Unidas, enquanto tal, isto é, no exercício das suas funções institucionais, naquele evento particular estranho à ONU.
d) Não tivesse sido falsamente difundida como de carácter oficial a intervenção oral do Sr. Eng. António Guterres naquele evento particular.

Poderão quiçá interrogar-se alguns, se calhar com surpresa: mas porque não? Não pode o Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas participar num evento privado?

Ah, mas por quem sois, é claro que pode! O senhor até pode comparecer numa sardinhada e enfrascar-se em carrascão, se lhe apetecer e lhe der na ocasião a fome ou a sede. Quem sou eu, valha-me Deus, para estar aqui a debitar palpites de moral e bons costumes. Não é disso que se trata, claro. De todo.

Do que se trata aqui, e nesta matéria limito-me, como qualquer outro cidadão, a formular uma opinião, é que a questão extravasa largamente a esfera pessoal, logo, privada — trata-se nitidamente de um caso que remete para o âmbito institucional, logo, político.

António Guterres pode fazer tudo aquilo que lhe der na real gana enquanto cidadão. O Secretário-Geral das Nações Unidas não pode fazer nada do que lhe der na real gana.

Portanto, o cidadão Guterres pode ir a um evento particular e ali dizer o que entender.

Mas o Secretário-Geral da ONU, cargo que transitoriamente o cidadão Guterres ocupa, não pode emprestar o peso institucional e político do seu cargo para apoiar determinada tendência de opinião, patrocinar uma organização (em) particular ou de alguma forma privilegiar um qualquer evento em detrimento de outros similares ou congéneres.

[continua…]

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme