Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: Causa

«Adeus, África» [Eduardo Oliveira E Silva, jornal “i”, 12.09.18]

Este artigo acaba por ter bastante interesse — numa segunda leitura, numa terceira, ou aí por volta da 5.ª vez, vá — se atendermos ao facto de o autor (apesar de provavelmente acordista e dos mais ferozes, a julgar pela voracidade com que estraçalha “consoantes mudas”, qual Lince bípede, mas sendo ainda capaz de enumerar todos os efeitos nefastos (laterais, bilaterais, multilaterais e colaterais) que a peregrina “ideia” de uma putativa “língua comum” (a brasileira, evidentemente) vai já, paulatina mas progressivamente alastrando em Portugal e nos PALOP.

O que significa, portanto, que AO90 ou CPLP são na prática uma e a mesma coisa: o processo de demolição em curso do património identitário basilar de 7 dos 8 países cuja alegre agremiação, sob o alto patrocínio do Brasil e à custa, à conta, à pala do erário público de Portugal, persegue o objectivo único de erigir um II Império brasileiro de cariz alucinogénico.

Com alguma timidez, certamente de mãos trémulas, ele escreve este pequeno manifesto não tentando sequer disfarçar que algures no passado também acreditou nas patranhas da seita mas é crível que de repente ter-lhe-á caído um pedregulho em cima. Este homem diz da CPLP o que certo profeta não diria da entremeada assada mas bem poderia trocar os nomes aos bois, chamar AO90 à Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira (CPLB), que ainda assim os ditos quadrúpedes ruminantes seriam os mesmos: em manada, cabeças para abate.

 

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Adeus, África

Aos poucos mas inexoravelmente, os países africanos de língua portuguesa afastam-se de nós

Eduardo Oliveira E Silva
Jornal “i”, 12.09.18

1. À medida que o tempo passa, verifica-se um inexorável afastamento entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. O fenómeno pode escapar a alguns, mas é real e não se limita a temas como o acordo ortográfico. O problema não tem só a ver com os africanos dos PALOP que vivem em Portugal ou com os portugueses que por lá andam e trabalham. É mais fundo e, portanto, mais preocupante. Há um distanciamento político, económico e cultural que não cessa de crescer. A circunstância de haver emigrantes e imigrantes de um lado e de outro não impede um esfriamento das relações e um distanciamento. Há não muito tempo havia mais atenção e preocupação com o que se passava em cada um dos países. Agora não. Há indiferença e não propriamente afecto, para usar uma palavra da moda. Os Estados passaram a intitular-se parceiros estratégicos. Os donos das empresas têm-nas para fazer dinheiro e não por gosto, orgulho e função social. Esse desapego instalou-se também nos cidadãos, que já pouco se interessam por saber as circunstâncias próprias e os problemas por que passam ou deixam de passar as pessoas em concreto. É uma situação triste porque contraria a proximidade que, apesar da História e do colonialismo, conseguiu manter-se entre muita gente. Hoje, tanto faz para um português que um africano seja daqui ou dali, desde que ele consiga comunicar na mesma língua. Inversamente, o problema deve existir. Há xenofobia anti-portuguesa nos PALOP e anti-angolana por cá. Podem dizer que há a CPLP, que há cooperação e que há um conjunto de acordos, além de haver milhares de estudantes dos PALOP (e do Brasil) em Portugal. Há isso tudo, mas não há compreensão, sentimento e uma partilha de coisas e causas comuns. Aos poucos, ficamos alheios, o que não significa hostis. No mundo do trabalho, estão a reformar-se cá e em África os homens e as mulheres que tinham mais ou menos 20 anos no 25 de Abril. Por muitas diferenças ideológicas que tenham tido, são eles o cimento de relações que se foram mantendo exactamente por causa de laços identitários que agora se vão dissolvendo. Apesar do mérito que têm instituições como a RTP e a sua notável RDP/África, os países lusófonos africanos e Portugal estão a caminhar de costas voltadas. As viagens de Estado e as convenções nada resolverão se as sociedades civis luso-africanas não reverterem a situação. E pode–se apostar que isso se confirmará, passada a espuma das viagens oficiais de António Costa a Angola e de João Lourenço a Portugal. Se não houver um movimento de aproximação genuíno e civil, teremos com os PALOP um panorama semelhante ao que se passa com o Brasil, cujos imigrantes não querem saber nada do que aqui acontece, enquanto as sociedades portuguesa e brasileira só param pontualmente uns minutos para ver nas televisões escândalos, casos pitorescos ou de violência que tenham ocorrido num dos países. Além de turistas que descobriram que Portugal é das nações mais importantes da história dos últimos 500 anos, chegam do Brasil pobres e ricos. Paradoxalmente, vêm pelos mesmos motivos: fugir da pobreza e da violência. Uns vêm para ganhar a vida, outros para gastar o que têm num país onde há calma e onde os entendem. Pode ser importante, mas é pouco. Amanhã, não pode acontecer o mesmo com os PALOP.

(…)

[Transcrição parcial de “Adeus, África”, da autoria de Eduardo Oliveira E Silva, publicado no jornal “i” de 12.09.18. Destaques meus. A desortografia  abrasileirada do original  foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”. Imagem de topo de: VOA (Angola)]

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“O que há de melhor em Portugal?” Gente decente!


«Todas as reportagens têm de estar escritas em língua portuguesa. Podem ser escritas no antigo ou no novo acordo ortográfico, mas na data de publicação todas elas serão adaptadas à grafia do antigo acordo ortográfico

O que há de melhor em Portugal? Quem responder ganha o concurso Descla/Fnac Viseu

Por Mariana Rodrigues
Revista “Descla”, 11.09.18

 

Pelo segundo ano consecutivo, a Descla e a Fnac Viseu dinamizam o concurso que premeia as melhores reportagens escritas sobre “o que é bem português”.

Os participantes habilitam-se a ver o seu trabalho publicado no site da Descla e a ser prendados com uma estadia para dois numa Pousadas de Portugal, um jantar para duas pessoas na Pousada de Viseu ou um pack Fnac.

Regulamento:

  • Este concurso consiste na criação de uma reportagem nas temáticas de desporto, cultura, lazer, turismo e património. Podem ser de âmbito nacional ou internacional, mas todas as reportagens têm de focar algo que seja português.
  • Todas as reportagens têm de estar escritas em língua portuguesa.
  • Podem ser escritas no antigo ou no novo acordo ortográfico, mas na data de publicação todas elas serão adaptadas à grafia do antigo acordo ortográfico.
  • Todas as reportagens seleccionadas serão publicadas na revista Descla com o nome do seu autor e passam a ser propriedade da revista Descla e da Fnac Viseu.
  • Qualquer reportagem que já tenha sido publicada em qualquer outro local (órgão de comunicação, blog, site…) será automaticamente excluída do concurso.
  • Cada reportagem tem de ter no mínimo duas fotografias e no máximo seis.
  • O número mínimo de participantes é 10, sem o qual o concurso é cancelado.
  • Os menores de 18 anos precisam de autorização do encarregado de educação para participar no concurso.
  • Não podem participar no concurso familiares directos dos funcionários da revista Descla, da Fnac Viseu e da Pousada de Viseu.
  • As reportagens devem ser enviadas para cultura@descla.pt até dia 31 de Outubro pelas 23:59.
  • O 1º prémio é uma estadia de duas noites para duas pessoas numa das Pousadas de Portugal, o 2º prémio um jantar para duas pessoas na Pousada de Viseu e o 3º prémio um pack Fnac.
  • A data de entrega dos prémios será a 30 de Novembro, pelas 21:00 horas, na Fnac Viseu.

Source: O que há de melhor em Portugal? Quem responder ganha o concurso Descla/Fnac Viseu – Descla

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A volta do y, do k e do w [Ruy Castro, “DN”, 02.09.18]

Este texto, se bem que primorosamente escrito, e com o devido respeito para com o autor, deve ser lido com pinças mentais, de tal forma é disparatado, superficial, frívolo ou, condensando tudo num único adjectivo, isto é, abreviando, parvo.

Contém, no entanto, algum substrato histórico, o qual sobrepuja em curiosidade as piadolas que elegantemente aloja. E vale por um parágrafo quase lapidar, eriçado pelo conformismo arrogante de quem está muito longe do assunto:
«Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.»

 

A volta do y, do k e do w

Ruy Castro

Durante quase três anos, no começo dos anos 1970, vivi numa espécie de semi-ilegalidade em Lisboa. Tinha morada e emprego fixos e trazia todos os documentos em ordem e os impostos em dia. Mas carregava um nome que, apesar de ser composto de apenas três letras, continha uma que estava fora da lei: o y. Naquela época, num país de quase dez milhões de habitantes como Portugal e com milhares de cidadãos chamados Rui, eu devia ser um dos poucos Ruy – ou único, já que não conheci outro. Não seria isto a me obrigar a andar de cabeça baixa pelas ruas do Bairro Alto, mas eu sempre percebia uma sensação de estranhamento ao passar a alguém um papel ou cheque assinado com aquele arcaico e defunto y, de que Portugal já se livrara havia décadas.

Sim, Portugal decretara o fim do y (e do k, do w, do ph, do th, dos mm, dos mn e dos nn) na sua grande reforma ortográfica de 1911 – que o Brasil, teimoso e desobediente, não seguira. Com isso, naqueles primórdios do século, o milenar Portugal já modernizara a sua língua enquanto o Brasil, que se julgava avançado e do Novo Mundo, continuara a escrever coisas como phonographo, Nictheroy e hypertrophia. Para piorar, condenara seus Ruys a um lado do Atlântico enquanto os Ruis ficavam do outro.

Bem, sendo brasileiro no Brasil ou fora dele, eu me sentia autorizado a levar o meu y para onde quer que fosse – afinal, estava escorado pelas leis de meu país. Mas, na verdade, não estava. Em 1943, o Brasil adotara um novo formulário ortográfico que finalmente incorporara muitas das determinações portuguesas de 1911, entre as quais o banimento do y, do k, do w, dos ph e th e das consoantes dobradas. Donde, de um instante para outro, haviam surgido no Brasil palavras como fonógrafo, Niterói e hipertrofia. E os Ruys, passado a nascer Ruis.

Pelo menos, era isso o que dizia a lei. Mas, como todos no Brasil sabemos, as leis são como vacina – umas pegam, outras não. Eu, por exemplo, que nasci em 1948, já sob a vigência do dito formulário ortográfico, ainda fui registado como Ruy. Como foi possível? Duas hipóteses: na ida ao cartório, meu pai – um legítimo Ruy de 1910 -, ao passar seu nome para mim, pode ter exigido que seu y fosse respeitado. Ou foi o próprio tabelião, talvez já idoso e cansado, que, habituado a registar Ruys, cravou-me displicentemente o y. E, sendo o Brasil como é, atravessei toda uma atribulada vida escolar, troquei várias vezes de documentos, comecei a assinar artigos em jornais ainda na adolescência e nunca fui solicitado a me tornar Rui.

E assim fomos levando, mas confesso que achava injusto viver com o meu nome na ilegalidade. Se o Brasil era um país cheio de gente legalmente registada como Kléber, Karen, Kátia, Wilson, Wallace e Washington, como o y, o k e o w podiam ser considerados ilegais?

Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.

Mas, numa coisa, tenho de ser grato à nefanda reforma. Ela trouxe de volta o y, o k e o w. Não sei o que motivou essa exumação, mas aí estão de novo, pimponas e lampeiras, as três letras que levaram quase um século excomungadas. Não acredito que, por causa disso, em Portugal, os novos Ruis nascerão Ruys. No Brasil, onde se encaixam yy em qualquer nome – o país abunda de Dayanes, Thyagos, Rycharlysons e outras cafonices -, tenho a certeza de que sim.

A volta do y poderá significar até um renascimento do nome Ruy entre os brasileiros. Porque, enquanto Portugal nunca deixou de produzir uma legião de Ruis, o nome Ruy no Brasil parecia estar se tornando um daqueles que em breve só seriam encontrados em cemitérios.

 

Escritor e jornalista brasileiro, é autor de, entre outros livros, Carnaval no Fogo – Crônica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio (Tinta-da-China).

[Transcrição integral de “A volta do y, do k e do w” , da autoria de Ruy Castro, publicado no A ortografia do original, sendo o autor brasileiro, não foi, para variar, automaticamente corrigida. Imagem de topo de: “na mira” (Brasil). ]

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Feira do Livro do Porto 2018

Jornal da Feira do Livro do Porto 2018

Published on Aug 30, 2018

A inquietação é o tema dominante do grande festival literário deste ano, que homenageia o cantautor José Mário Branco nos 50 anos de carreira. Os assuntos ligados à sua obra – liberdade, amor e sublevação – são percorridos pelos debates, sessões de spoken word e lições comissariados por José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Entre 7 e 23 de Setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, há também um ciclo de cinema, três exposições, várias sessões especiais e ainda numerosas oficinas, acções de programa educativo e de animação.

[Imagem de topo de: CMP]

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O AO90 na encruzilhada das escolhas

Carlos Reis, o mais seráfico dos sinistros acordistas, ou vice-versa, revela neste seu textículo — que o jornal “Público” por algum estranho motivo aceitou publicar em acordês  — até que inimaginável ponto pode chegar a desonestidade intelectual de um vendido aos interesses (dos) neo-imperialistas brasileiros. A verborreia que agora debita é não apenas uma espectacular demonstração de como pode ser despudorada e completamente desprovida de sentido a propaganda malaquenha, como também demonstra, em regra e formato, a sistemática, obsessiva, estuporada contradição em que chafurdam estes tipos.

Exercício elementar: contrastar, simplesmente eliminando ou trocando o tema em referência, o que ele debita (e bem) sobre “Os Maias” com o que ele não credita (e mal) sobre o AO90.

«Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária

«Uma pergunta que alguns modulam assim: o que fazer com esse incómodo elefante sentado na sala, para maçada de quantos preferem modos de vida amenos?»

«O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.»

«Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária ortográfica, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura ortografia, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico.»

Os Maias na encruzilhada das escolhas

Muitos alunos, por causa do “negócio” das Aprendizagens Essenciais, não terão a oportunidade de estudar o mais admirável romance da nossa literatura.

Carlos Reis
24 de Julho de 2018, 6:19

1. Quando entraram em vigor os actuais programas de Português do Ensino Secundário (ES), apoiei o que neles havia de reabilitação de um domínio curricular fundamental: o da Educação Literária. Havia razão para reparos, no tocante a escolhas de obras em alternativa, escolhas que, nalguns casos, me pareciam injustificadas; mas preferi (e sempre prefiro) valorizar o que se ganhava, em vez de criticar aquilo que me parecia discutível.

Com as Aprendizagens Essenciais postas à discussão pública pelo Ministério da Educação (ME), o caso muda de figura. Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária.

Veja-se o que está nas Aprendizagens Essenciais: “Estas aprendizagens repercutir-se-ão no projecto individual de leitura de cada aluno que desenvolverá o seu perfil de leitor a partir de uma selecção de leituras que negociará com o professor, tendo por referência não só o conjunto das obras que constitui referência para as actividades de educação literária (…) em aula mas também o Plano Nacional de Leitura.” Deixo de lado a duplicação da referência e observo isto: nos casos de Garrett, Herculano, Camilo, Eça, Antero e Cesário, o “negócio” faz-se com três autores, uma obra narrativa, um romance, seis poemas – e chega.

2. O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.

Mas não é disso que trato agora. Prefiro centrar-me em dois temas decisivos, para pôr a nu aquilo que considero crucial: a lógica das escolhas “negociadas” é perversa, estimula a facilidade e gera efeitos antidemocráticos.

3. Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico; numa literatura que infelizmente não tem a amplidão de outras, um cânone mínimo e consensual talvez não vá além de uma vintena de títulos e de autores. Esse cânone não consente negócios, exige reflexão e aquele “honesto estudo” que contraponho à simplificação do ensino.

(mais…)

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