Categoria: Causa

Uiss Maiaiss nu Timô

E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional [parecer DGBES]


O Acordo Ortográfico poderá afectar negativamente a cooperação que hoje existe na área do livro escolar entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Dado que em tais países se segue a norma ortográfica portuguesa toda a produção do livro escolar – à excepção de uma escassa produção doméstica – é exclusivamente assegurada pelos editores portugueses.

O Acordo poderá não só deslocar esta produção para o Brasil, como determinar, por arrastamento, a prevalência de docentes brasileiros na cooperação com tais países, no âmbito do ensino. [parecer DGBES]

«Representantes do Ministério da Educação estarão no Timor Leste, de 9 a 13 de abril, para avaliar e monitorar programas de cooperação educacional, especialmente o Programa de Qualificação de Docentes e Ensino de Língua Portuguesa, implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) em 2005.»

«O coordenador-geral de Cooperação Internacional da Capes, Benício Schmidt, vai ao Timor Leste para tratar da implantação de um programa de formação de magistério para os professores em exercício nas escolas primárias do país.»

«O grupo de brasileiros que está no Timor Leste ministra aulas, em português, de disciplinas como matemática, química e biologia, com o objetivo de qualificar docentes dos diversos níveis de ensino. Um dos resultados alcançados pela missão foi a elaboração de livros didáticos de física, biologia, história, geografia e educação física, levando em conta a realidade local.»[Governo do Brasil, Ministério da Educação]

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Moinhos de vento

Don Quijote soy, y mi profesión la de andante caballería. Son mis leyes, el deshacer entuertos, prodigar el bien y evitar el mal. Huyo de la vida regalada, de la ambición y la hipocresía, y busco para mi propia gloria la senda más angosta y difícil. ¿Es eso, de tonto y mentecato?
Miguel de Cervantes, ‘Don Quijote de La Mancha’

 

Uma situação embaraçosa que se torna cada vez mais corriqueira nos desgraçados tempos que vão correndo: estão pessoas normais e educadas conversando com toda a pacatez, quando, inopinadamente, um idiota interrompe ou vários dos circunstantes resolvem esparramar em redor toda a sua boçalidade.

Foi o que sucedeu neste caso: durante uma “tertúlia” regular da RTP3, está a escritora Inês Pedrosa comentando a iminente entrega da ILC-AO no Parlamento quando, de repente, dois tipos sentados na mesma mesa desatam a largar umas “bocas”, na tentativa de abafar com ruído o que a escritora estava a dizer.

Não fora a epidérmica simpatia da senhora a salvar a situação, estivesse ali um homem e decerto outro galo cantaria, poderia ter acontecido algo muito mais aborrecido, como, por exemplo, o dito ter dado um murro na mesa e uma palmada num dos rufias ou, pior ainda, vice-versa, uma palmada na mesa e um murro no gajo.

“Não estamos na RTP Memória”, arrotou um qualquer garoto, por entre as gargalhadas postiças de outro cretino de serviço. Mas que idiotas, valha-nos Deus, mas que abjectos yuppies caseiros, rudes, ignorantes e mal-educados “fatinhos”, mas que desoladora imagem do subúrbio mental em que vegetam tecnocratas e onde apenas e sem nenhum préstimo sopra o vento.

Inês Pedrosa saiu-se muitíssimo bem, de facto, com a sua natural classe, poupando a todos os espectadores e ouvintes o enxovalho da vergonha alheia — esse sentimento já vulgarizado pela corrupção hedonista da juventude, pelo galopante enobrecimento da estupidez, pelo inexorável triunfo da mediocridade.

Honra lhe seja feita, a senhora tem o que é preciso. Conseguiu muito mais com um simples sorriso do que teria valido uma singela chapada.

Ou duas, vá.

[foto de topo: https://pixabay.com/en/portugal-sintra-mill-landscape-2943915/]

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Barreiras

Feliciano Barreiras Duarte, então deputado, foi o relator da “apreciação” que o Parlamento fez o favor de simular a propósito de uma petição apresentada por Vasco Graça Moura et al em 2009. Os resultados da petição e, por maioria de razões, do relatório que esgalhou Feliciano, foram, como é do conhecimento público, absolutamente nulos e de nenhum efeito, tendo toda aquela papelada sido prestes enviada para o arquivo “morto”, situado algures nas catacumbas do Palácio de S. Bento, em algum esconso escuro onde ainda hoje continua a ganhar pó e a dar guarida a aranhas, ratos, centopeias e outra bicharia.

Do mencionado relatório, assinado de cruz pelos demais dorminhocos e absentistas, porém mui doutos e regiamente pagos “representantes do povo”, consta esta frasezinha lapidar: «Por tudo isto, muitas das preocupações e sugestões dos peticionários deverão ser tidas em conta, de forma a permitir uma operacionalização e implementação do acordo ortográfico que salvaguarde a melhor defesa da cultura e língua portuguesa.»

Tal asinina formulação, aprovada por unanimidade em sede de Comissão “especializada”, atestava plenamente a vacuidade que em geral assolava à época (esperemos que já nem tanto hoje em dia) a esmagadora maioria da nacional deputação. 

Traduzindo o que diz a lápide, em breve glossário, de politiquês acordista para Português corrente: “muitas das” significa (evidentemente) “nenhumas”, “preocupações” quer dizer “ah, e tal, aquilo não é nada, são manias lá do velho Vasquinho”, “deverão ser” é o mesmo que “igual ao litro, faz de conta, já toda a gente sabe que não vamos fazer porra nenhuma”, “tidas em conta” equivale a gargalhada geral, “eheheheheheh, mas que cromos, estes gajos, ai, tirem-me deste filme que ainda me dá uma coisinha má”.

E, como se ainda não bastasse o gozo dos preliminares, a retumbante “apreciação” parlamentar sintetizada na frasezinha de Barreiras encerra com chave de lata: «de forma a permitir uma operacionalização e implementação do acordo ortográfico». Ou seja, nunca, jamais, em tempo algum outra hipótese esteve sequer em cogitação. Era tudo a fingir, uma risota pegada.

Fantástico, ó Barreiras. Realmente, a lata destes tipos, destes parlamentares malabaristas, tal é o seu desplante, a arrogância, o desprezo que nutrem pelo “poviléu” que sucessiva, bovina e estupidamente os elege!

É este mesmo Barreiras quem, do alto da sua sapiência e das suas altas qualificações para o efeito, continua amiúde a abrir caminho à “língua universal”, a derrubar barreiras para que nada atrapalhe a “universalização” da sua querida língua, a brasileira.

Eis mais um artigalho do dito sobre o assunto.

I) Monolinguismo – o analfabetismo do Século XXI?

Das cerca de sete mil línguas e dialectos que o mundo tem, duas mil e quinhentas estão em risco de extinção. E, para além destas, existem muitas mais ameaçadas e outras em situação muito vulnerável.

Feliciano Barreiras Duarte
olharaocentro@sol.pt
“Sol”, ‘Olhar ao Centro’,

 

«Enquanto cidadão sou contra, mas enquanto Presidente tenho de o respeitar».
Marcelo Rebelo de Sousa 2016, sobre o Acordo ortográfico

 

A saída do Reino Unido da União Europeia veio levantar problemas de diversa ordem, um dos quais é a política das línguas à escala europeia e mundial.

Trata-se de uma matéria que, sendo demasiado séria, tem estado afastada da ribalta mediática e da prioridade de muitos países, a começar por Portugal. O multilinguismo – no contexto da globalização vigente e da diversidade cultural e linguística num mundo aberto e cosmopolita – deve implicar políticas públicas que valorizem não só as línguas maternas mas também duas línguas estrangeiras por cada cidadão, independentemente da sua origem territorial, idade ou condição social.

Das cerca de sete mil línguas e dialectos que o mundo tem, duas mil e quinhentas estão em risco de extinção. E, para além destas, existem muitas mais ameaçadas e outras em situação muito vulnerável.

Tal acontece em vários continentes, sobretudo em territórios onde a desflorestação, através da destruição da fauna e da flora, está a contribuir para a extinção de línguas, muitas delas ancestrais.

Neste quadro de línguas em extinção, por um lado, e de línguas hegemónicas, por outro lado, os linguistas interrogam-se sobre o que fazer para salvar as primeiras.

Ora, há muita coisa que pode ser feita. Desde logo, criar as melhores condições para a efectiva regulação linguística à escala europeia e mundial. As línguas (nacionais e afins) são património cultural, educacional e social dos seus falantes e dos territórios de pertença.

No ranking das línguas mais faladas do mundo, o português, o inglês e o espanhol, enquanto línguas europeias, estão entre as quatro línguas mais faladas do mundo.

A saída do Reino Unido da União Europeia vai colocar um grande desafio à Europa, no que diz respeito à língua. De língua não oficial da União Europeia, o inglês transformou-se numa ‘língua dominante’ ou até ‘hegemónica’. De ‘língua franca’ (o latim dos nossos dias?), o inglês vai ou não perder poder e influência?

Note-se que o inglês é a língua materna de apenas 14% dos cidadãos da União Europeia. Dos outros 86%, só 8% são fluentes em inglês, e 17% dominam a língua bem ou razoavelmente. Feitas as contas, dois terços dos europeus não falam ou falam mal o inglês. Ora, para ser aprendida, a língua inglesa precisa de 15.000 horas de estudo e de prática

Com o Brexit, o inglês ficará circunscrito a Malta (meio milhão de pessoas) e à Irlanda (cerca de 5 milhões). Ou seja, o Brexit não poderá deixar de se aplicar ao ‘inglês’, com as consequências que daí advirão, política, económica e socialmente. Poderá ou não continuar a ser a língua dominante e/ou hegemónica?

Os cultores do multilinguismo europeu devem estar atentos e activos no reforço da democracia linguística europeia. Uma língua é também um instrumento de poder – e da sua manifestação externa resultarão impactos económicos, sociais e culturais positivos. Não é por acaso que, no seio da Academia europeia, existem cada vez mais movimentos a defender o reforço da latinidade e das línguas francófonas e latinas. Voltaremos a esta temática na próxima semana.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral de artigo publicado no semanário (acordista) Sol”, ‘Olhar ao Centro’,. As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”. Imagem de topo: recorte de notícia do jornal (acordista) online “Observador”.]

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Correntes na escrita

(aviso: o “pugrama” está, no original, perdoe-se-me a redundância, em nojento acordês)

Confesso que não entendi. Nem à primeira nem à segunda nem à terceira. Esta simpática missiva aterrou no meu “desktop” há já umas horas e ainda estou a tentar percebê-la.

Das duas, uma: ou sou (mesmo) de compreensão lenta ou então a coisa afinal pouco ou nada tem que se lhe diga, mistério nenhum.

Apenas estranhei que a introdução do texto fale de uma coisa quando o texto propriamente dito se limita a reproduzir, quase na íntegra, o programa do evento do qual na dita introdução o autor diz — muito justamente — cobras e lagartos.

É, mal comparando (e, repito, pior entendendo), como se um vegetariano apelasse a uma manifestação de protesto contra a matança do porco e nesse apelo incluísse todo o cardápio de certo repasto, a ocorrer num festim de degola do suíno, com requintes de malvadez para com os esfomeados em geral e os comedores de saladas em particular, há lombo assado de presigo, arrozinho de miúdos por conduto, pernil fumado, enchidos que ele só visto, pasta de fígado nas hors d’oeuvres, a sopinha é caldo verde com chouriça e nacos de toucinho, tudo regado com a bela pinga da região, uns verdinhos do melhorio, e por fim rola a sobremesa, disso é que não há nada que venha do reco, temos pena, mas há doces e gelados de toda a maneira e feitio, que até ferve, vinde, vinde, de pé, ó vítimas da fome, ou comei vossemecês sentados, isso é consoante prefira cada qual, já provou vocelência o nosso presunto, salvo seja?

São, neste caso, ignoremos similitudes quiçá foleiras, 191 palavras de entrada apelando à manifestação contra o evento de propaganda ao “acordo” e 550 palavras de propaganda ao mesmíssimo evento.

Talvez se trate de alguma nova técnica de mobilização (ou de “agitprop”, ou assim), que sinceramente desconheço. Ou seja, em resumo, continuo sem entender.

Mas das 191 contra e das 550 a favor aí ficam — para quem as quiser — todas as 741 palavras, não guardo nem uma só.

Caros amigos “desacordistas” (aqueles que são contra o acordo ortográfico de 1990):

Contamos com a vossa prestimosa participação, no protesto que se pensa efectuar contra o AO90, conhecido por Aborto Ortográfico, no dia 19 de Fevereiro de 2019, pelas 11H00, terça-feira, à entrada do casino da Póvoa de Varzim, aquando da cerimónia de abertura do Correntes d’Escritas pelo Senhor Presidente da República.

Caso não queira ou não possa aderir, solicitamos os bons ofícios, no sentido de fazer circular este texto por todos os vossos contactos do FACEBOOK e assim sucessivamente até que a mensagem chegue ao maior número de pessoas possível, que são contra o AO90, que tem lesado permanentemente o ensino da Língua Portuguesa na matriz culta indo-europeia, um autêntico linguicídio, crime de LESA-PÁTRIA.

O que se pretende é que a mensagem chegue ao conhecimento dos professores e alunos das escolas e freguesias da Póvoa de Varzim, e cidades vizinhas da região, onde o evento se realizará, e que se sentem maltratados e coagidos na aprendizagem da língua, segundo a cartilha brasileira: o AO90.

Eis o que vai passar-se neste evento, onde o AO90 brilhará na escuridão que o envolve.

A 20ª edição do Correntes d’Escritas decorrerá na Póvoa de Varzim, de 16 a 27 de Fevereiro.

Além de Marcelo Rebelo de Sousa, o Correntes d’Escritas contará com mais de 140 escritores de 20 países (Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, Guatemala, Guiné Bissau, México, Moçambique, Nicarágua, Peru, Portugal, Republica Dominicana, S. Tomé, Timor e Uruguai).

Dos autores convidados, estão já confirmadas as seguintes presenças: um prémio Cervantes: Sérgio Ramírez (Nicarágua); três Prémios Camões: Arménio Vieira, Germano Almeida e Hélia Correia; cinco Prémios Literários Casino da Póvoa: Lídia Jorge, Ana Luísa Amaral, Hélia Correia, Manuel Jorge Marmelo, Juan Gabriel Vásquez (Colômbia); seis Prémios Saramago (e já todos os vencedores passaram por cá ao longo das várias edições): Paulo José Miranda, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e 8 ex-conferencistas de Abertura das Correntes: Nélida Piñon, Marcelo Rebelo de Sousa, José António Pinto Ribeiro, Álvaro Laborinho Lúcio, Adriano Moreira, Guilherme D’Oliveira Martins, Francisco Pinto Balsemão e Ignácio de Loyola Brandão.

A Conferência de Abertura desta edição, a 19 de Fevereiro, terça-feira, às 15h00, será proferida pelo Presidente da Conferência dos Chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Jorge Carlos Fonseca, que falará sobre “As Letras da Língua e a Mobilidade dos criadores na CPLP”. Um dos objectivos do actual presidente da CPLP é a mobilidade entre os países da Comunidade. Jorge Carlos Fonseca é também o Presidente da República de Cabo Verde.

(Logo Cabo Verde que passou a Língua Portuguesa para segunda língua, e adoptou o Crioulo Cabo-verdiano como língua oficial, em 2017).

Neste mesmo dia, às 11h30, vai realizar-se, no Casino da Póvoa, a Sessão de Abertura do Correntes, com o anúncio dos vencedores dos Prémios Literários 2019 e o lançamento da Revista Correntes d’Escritas nº 18, dedicada a Nélida Piñon. O Presidente da República presidirá a esta cerimónia.

Muitas outras iniciativas, além das Mesas (temas serão versos da Sophia de Mello Breyner, cujo centenário do nascimento se assinala este ano), vão coabitar neste 20º Correntes d’Escritas: a Feira do Livro (que promove edições acordizadas). As Galerias Euracini 2 vão acolher não apenas a Feira do Livro mas Exposições, Lançamentos de Livros, sessões com alunos do 1º ciclo e famílias, as Correntes DAR, pequenas conversas literárias e muitas outras conversas paralelas.

Serão lançados durante o Encontro meia centena de livros, destacando: “Correntes D’Escritas & Correntes Descritas” de Onésimo Teotónio Almeida, uma compilação das suas intervenções ao longo dos anos no Correntes D’Escritas.

A Arte terá um papel de destaque nesta edição e vai espalhar-se um pouco por toda a cidade com as mais variadas exposições. Palavras, Música e a musicalidade das palavras estão sempre presentes, desde a 1ª edição, no Correntes e este ano vários cantores, músicos e poetas darão voz às suas e às palavras dos outros em vários espectáculos.

Destaque ainda para a emissão em directo do Programa Governo Sombra, da TVI24, às 24h00 de 22 de Fevereiro, sexta-feira, com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, a partir do Cine-Teatro Garrett. Além deste, vários programas de Rádio e Televisão serão gravados durante o Correntes, como: Obra Aberta, da Rádio Renascença, Ensaio Geral, da Rádio Renascença e Todas as Palavras, da RTP.»

O programa completo pode ser consultado aqui:
https://www.cm-pvarzim.pt/areas-de-atividade/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2019/programa

[Inseri “links”.]

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AO90: «Uma nau sem rumo» [Nelson Valente, “O Paraná” (Brasil), 05.02.19]

(Des)Acordo Ortográfico

“O Paraná” (Brasil), 05/02/2019
– por Nelson Valente

Quantas vezes na vida você já perguntou: Como se escreve tal palavra mesmo? É com z ou com s? Tem acento? Tem hífen?

Essas dúvidas sempre existiram e vão continuar existindo, só que o novo acordo ortográfico, que de novo não tem nada pois começou a ser elaborado há 29 anos e só entrou completamente em vigor em 2016, em vez de ajudar, parece ter atrapalhado ainda mais a escrita.

Quer um bom exemplo? Quando uma criança está fazendo a lição de casa e tem uma dúvida, pergunta para quem? Os pais, é claro. Só que a maioria desses pais foi educada na transição do acordo ortográfico, portanto cresceram com as mesmas dúvidas.

Aí a solução é dar um “google” e eis que a quantidade de explicações é tão extensa, muitas citando outras regras gramaticais, que geralmente a dúvida não é esclarecida e ainda aumenta.

Claro que em educação nada acontece em curto espaço de tempo, mas a demora e o sentimento de que o Acordo Ortográfico dos países de Língua Portuguesa se tornou uma nau sem rumo, ou um barquinho de papel, está criando gerações com grave déficit de escrita. Outro fator relevante é a importância cultural que a língua de um país tem.

Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, infelizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB.

As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério. É fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. Já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil.

Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 218 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir.

O Brasil não tem tradicionalmente uma política linguística. A difusão do português brasileiro no exterior ocorre quase por inércia, mais pela importância que o Brasil vem assumindo geográfica, geopolítica e economicamente. Portugal, ao contrário, tem uma política linguística, tem o Instituto Camões, com mais de mil professores espalhados pelo mundo todo, enquanto o Brasil tem 40 leitorados. Cria-se aí, já, uma diferença.

Nós que tínhamos de ter uma política linguística mais agressiva, mas temos uma posição de colonizados, de que, se Portugal já está lá, não precisamos ir. Precisamos, sim. Nós somos 90% de quem fala português no mundo e somos a sétima economia mundial. Portugal, ao contrário, está no fundo do poço, com essa crise horrível que acontece por lá. Nós que temos de investir e brigar pelo nosso espaço, porque as pessoas de fato querem aproveitar as oportunidades que nós oferecemos.

Não dá para impor uma língua de uma hora para outra a um povo. O padrão da língua no Brasil deve ser a língua falada pela maioria da população brasileira contemporânea, que é o português brasileiro.

A língua geral brasileira foi proibida no Brasil no século 18 pelo Marquês de Pombal, dirigente de Portugal durante o reinado de José I, e ficamos com um saldo de 300 anos sem educação. Se não tivesse acontecido isso, talvez hoje seríamos como os paraguaios, que falam espanhol e guarani – este também uma invenção dos padres jesuítas como uma língua geral, muito parecida com a língua geral brasileira, com base no tupi. Por uma política autoritária, repressora, foi proibido ensinar e falar qualquer coisa no Brasil que não fosse o português.

O que ocorre com o dito Novo Acordo Ortográfico é que, na verdade, Portugal “colonizador” quer colonizar a língua portuguesa. Veja o exemplo: a antiga Iugoslávia se fragmentou em seis pequenos países e a língua que então era considerada uma só, o servo-croata, agora se chama bósnio, croata, sérvio, montenegrino… Mas, para esses nomes aparecerem, ocorreu uma guerra horrorosa, com muitas mortes, uma coisa terrível.

Nos Bálcãs, os sérvios e os croatas se entendem. No passado, os que se revoltavam mais ferozmente contra o colonizador haviam estudado na metrópole. Pode-se massacrar uma população conhecendo-se perfeitamente sua língua e sua cultura.

A miscigenação no Brasil foi muito mais intensa e, evidentemente, a miscigenação linguística também. O português foi língua minoritária no Brasil durante todo o período colonial. Falava-se como língua geral o tupi e nossa população, até a época da Independência, era 75% mestiça.

Atualmente, o que ocorre é um conflito entre português de Portugal e português brasileiro nas escolas. Pois quando um aluno diz que não sabe português, na verdade, está dizendo que não sabe as normas da gramática do português ensinado na escola.

Uma pessoa que diz que não sabe português é porque acha que saber português é saber o que é uma oração subordinada substantiva objetiva direta completiva nominal reduzida. E isso, quase ninguém sabe. Nem mesmo os professores de português formados e na ativa já há bastante tempo. Então, temos aí um grande imbróglio para resolver, a formação docente.

Não adianta tentar resolver o que acontece na escola, sem resolver primeiro as questões que envolvem a formação dos professores, e claro, as condições de trabalho das pessoas, para que elas não sejam espancadas em praça pública.

Aí vêm uns idiotas que querem realmente reformular a língua, botar tudo com “x”, com dois “s”, com “z”, com uma série de questões que não têm nada a ver, sem nenhuma fundamentação teórica que as sustente. A implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! E a consequência é o caos linguístico que se está verificando nas escolas, na comunicação social, falada/escrita/ouvida e lida.

Para que não ocorra um desacordo na nossa língua, quem sabe daqui a alguns anos apaguemos o “português” e fique só o “brasileiro”.

Nelson Valente é professor universitário e jornalista

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nelson Valente, publicado no jornal brasileiro “O Paraná” em 05.02.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Evidentemente, na transcrição foi conservada a ortografia brasileira  do original.]

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Governo Sombra com Iniciativa

Os “ministros” Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, além do próprio “host” do programa, Carlos Vaz Marques, manifestam mais uma vez unanimidade no que ao “acordo ortográfico” diz respeito: todos contra.

Esta emissão do “Governo Sombra” passou na TVI na madrugada do dia 2 de Fevereiro de 2019 e em gravação áudio, na TSF, no dia seguinte.

A parte que mais interessa, aquela em que o “gabinete ministerial” fala (ou, melhor, diz cobras e lagartos) sobre o AO90, acontece a partir do minuto 45 e, durante os seis minutos e meio dedicados ao tema, aquilo a que assistimos é o habitual arraial de pancadaria, os quatro altos dignitários da Nação competindo entre si a ver quem dá mais porrada na malaquenha invenção. Apenas João Miguel Tavares coloca algumas reticências quanto à reversão do processo de demolição em curso (ah, e tal, as minhas filhinhas, coitadinhas, se isto volta atrás vão ter de aprender a escrever de novo, etc.) mas, evidentemente, aquilo é brincadeira, ninguém pode aventar semelhante objecção sem estar no gozo, este João Miguel adora a reinação.

Uma espécie de fenómeno curioso ocorrido durante esta ministerial conversação é o facto de Pedro Mexia ter declarado apoiar a ILC-AO (que subscreveu, como é público, à semelhança do que fez RAP) e de ter assinado «tudo o que me puseram à frente sobre o acordo ortográfico» mas com uma única excepção: «tirando uma coisa sobre um referendo; como ia ter 5% de participação, achei que era má ideia.»

Curioso, realmente, oh, sim, muito curioso. Mas então não é ele mesmo, Pedro Mexia, um dos “mandatários” do tal referendo-que-afinal-é-má-ideia?

Estarás pois tu, ó Pedro, a mentir? E, se não estás tu a mentir, ó Pedro, como a mim me parece, então quem será que anda por aí a aldrabar o pessoal? Quem será o aldrabão (ou aldrabões), hem, ó Pedro, que a mim, assim de repente, não me ocorre (digamos) nomezinho nenhum, hem, ó Pedro, o que dizes?

Bom, e daí, talvez seja melhor não dizer mais nada, pelo menos até ver.

O que por agora importa é ouvir. E ler. E pensar. E então agir: apoiar a luta contra o AO90  ajudando de todas as formas possíveis a única Iniciativa verdadeira, séria, credível e viável para acabar com ele.

 

Nota: o vídeo acima está em “iframe” (página externa embutida), daí a publicidade inserida pela TVI na “janela” de origem; é possível que o dito canal de TV tente impingir remotamente, além de anúncios a granel, uma qualquer inscrição num “portal” ou num serviço qualquer. Evidentemente, não tenho nada a ver com isso, manobras publicitárias ou truques de “marketing” não são a minha praia. Sugiro que a visualização seja feita no “site” onde está alojado (e aferrolhado) o vídeo.

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