Categoria: Causa

Lápis azul nas redes anti-sociais [5]

«Porque nós temos a oposição, a nível global, de uma conspiração monolítica e impiedosa que se apoia em meios obscuros para expandir as suas esferas de influência, com infiltração em vez de invasão, com subversão em vez de eleições, com intimidação em vez de livre escolha, com guerrilha a coberto da noite em vez de exércitos à luz do dia. É um sistema que congrega vastos recursos humanos e materiais que resultam numa máquina eficiente e afinada, que combina operações militares, diplomáticas, de espionagem, económicas, científicas e políticas. As suas actuações são feitas em segredo, não reveladas ao público. Os seus erros são enterrados, não mencionados. Os que discordam são silenciados, não apreciados. Nenhuma despesa é questionada, nenhum rumor sai na imprensa, nenhum segredo é revelado.» [John Fitzgerald Kennedy, Presidente dos Estados Unidos da América, New York City, 27 April 1961]

Nesta altura, ainda o vídeo de JFK não tinha sido bloqueado por “copyright infringement” (queixa de 1 agente auto-alcunhado como “Zé Pawns“). O tema então mais activo na minha conta YT era o “processo Casa Pia”.

Não há coincidências

Para compreender a diferença entre o lápis azul virtual, geral e casuístico, e aquilo que é de facto censura por delito de opinião, cirúrgico e objectivo, com motivações políticas e ad hominem, não basta simplesmente enumerar uma cadeia de episódios, ainda que a anormal recorrência desses episódios indicie per se a existência — ou, no mínimo, a suspeita — de um padrão subjacente. Pode “não ser nada”, como se costuma dizer, mas nunca fiando.

Vinte anos “disto” é bem capaz de chegar e sobrar para algo bem mais “pesado” do que apenas desconfiar. Não é de ontem nem de anteontem, que as “coincidências” se vão acumulando. Ora, se ao menos assumirmos que na vida em geral muito raramente e na política em particular absolutamente nunca alguma coisa é mera coincidência…

A finalidade única desta série de conteúdos sobre “lápis azul”, contando também com todos os antecedentes (como por exemplo, os dois “posts” sobre A Internot), é alertar para os perigos que correm e a que tipo de retaliações podem sujeitar-se todos aqueles que julgam, por ingenuidade ou mera “distracção”, que o Artigo 37.º da Constituição vale mesmo o que lá está solenemente garantido. Trata-se, portanto e em suma, de deixar a quaisquer presentes ou futuras vítimas de censura ou represália por delito de opinião algumas pistas, caso ainda acreditem que também existe disso em Portugal, para que exerçam a sua prerrogativa mais básica e inalienável — o direito de legítima defesa.

Os sucessivos episódios de censura no Fakebook — alguns dos quais são de facto hilariantes mas outros nem por isso, ou rigorosamente nada — podem não ser ainda indícios suficientes. Com tudo isso, a que se juntam os sucessivos ataques técnicos — quanto aos pessoais, de “anónimos”, identificados e infiltrados, nem vale a pena bater mais no ceguinho –, bem, o mais natural é que por fim ainda ressurja a rapsódia da “vitimização”; até porque esta é uma palavrinha que está na moda, por um lado, e por outro há quem não reconheça a vitimização — uma táctica política, não um insulto canalha — nem que esbarre nela e parta o nariz.

A plataforma YouTube não é geralmente considerada como sendo uma “rede social”, mas na verdade funciona como tal: os utilizadores publicam “posts” com vídeos, estes são comentados e/ou partilhados, qualquer pessoa pode subscrever as contas que entender, existem “likes” e “unlikes” etc.

Ora, também no YouTube, e já desde antes do #AO90, quando ocorreram outros “fenómenos” (Maddie Mccann, diploma de Sócrates, processo Casa Pia) mas principalmente desde que o (meu) assunto principal passou a ser a aldrabice brasileirista, choveram os apagamentos, as limitações, as suspensões da (minha) conta de utilizador. Cá está de novo o padrão, tanto no Fakebook como no “TuEntubas”.

Uma das ocorrências de censura ali ocorridas está retratada, a traços largos, nas imagens que se seguem e nas respectivas legendas.

O “post” em que o vídeo aparecia ficou assim.

O “aviso” da plataforma You Tube sobre o vídeo refere “direitos de autor” (copyright infringement) como motivo para o apagamento.


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Lápis azul nas redes anti-sociais [4]

https://www.amnesty.org/en/Web Action WA 14/06; AI Index POL 30/010/2006
Start date: 20/07/06

An Amnesty International Campaign

Chat rooms monitored. Blogs deleted. Websites blocked. The Internet is a new frontier in the struggle for human rights.

Sign our pledge to keep the internet as a space for freedom of information and expression.

Irrepressible

adj. Impossible to repress or control

Chat rooms monitored. Blogs deleted. Websites blocked. Search engines restricted. People imprisoned for simply posting and sharing information.
The Internet is a new frontier in the struggle for human rights. Governments — with the help of some of the biggest IT companies in the world — are cracking down on freedom of expression.
Amnesty International, with the support of The Observer UK newspaper, is launching a campaign to show that online or offline the human voice and human rights are impossible to repress. [“Amnesty International” (pdf)]

Irrepreensível*

Adj., 2g. 1) Que não se pode reprimir.

“Chat rooms” vigiadas. Blogs apagados. Sites com acesso bloqueado. Restrições a motores de busca. Pessoas encarceradas apenas por escrever ou trocar informações.
A Internet é uma nova fronteira na luta pelos direitos humanos. Existem Governos que – com a ajuda de algumas das maiores empresas na área das novas tecnologias, a nível mundial – estão a “cair em cima” da liberdade de expressão.
A Amnistia Internacional, com o apoio do jornal The Observer UK, lançou uma campanha para demonstrar como é impossível reprimir a voz das pessoas e os direitos humanos, tanto online como offline.

Assine a nossa petição pela liberdade na Internet
Estou convicto de que a Internet deve ser uma força de liberdade política, não de repressão. As pessoas têm o direito de procurar e de receber informação, e de pacificamente expressar as suas convicções na Internet, sem receio e sem interferências.
Apelo aos governantes no sentido de que acabem com a restrição injustificada da liberdade de expressão na Internet, e às empresas para que deixem de ajudar os governos a fazê-lo.

Acerca desta petição
Em Novembro de 2006, reunir-se-ão governantes e representantes de empresas de todo o mundo, numa conferência em Nova Iorque, onde será discutido o futuro da Internet; ajude-nos a enviar-lhes uma mensagem clara, significando que existe gente por todo o lado que acredita ser a Internet um espaço de liberdade política e não de repressão.
Apresentaremos o número total (de adesões) naquela conferência. Quanto mais pessoas assinarem, mais alto se fará ouvir a nossa voz.
Por favor, leia e assine a nossa petição em http://irrepressible.info/**.

(Tradução de Apdeites, 11.11.2006)
(*) Sobre a tradução de “irrepressible” é favor ler os comentários ao post original.
(**) O webdomain http://irrepressible.info “desapareceu” em Julho de 2010.

As “amplas liberdades”

O documento acima serve para bastante mais do que apenas ilustrar a mais significativa das implicações da gigantesca máquina de censura que já foi posta em movimento por todo o mundo.

A primeira constatação é que não apenas o delito de opinião foi instituído a nível global, incluindo as ou principalmente nas próprias organizações supra-nacionais, como também não é de hoje ou sequer recente a internacionalização de todas as instituições repressivas que progressivamente vão cooperando entre si.

Os mecanismos de vigilância e de formatação das liberdades do indivíduo, outrora exclusivos dos regimes mais ditatoriais e sanguinários, espalharam rapidamente a peçonha estendendo-se — desde os primórdios da Internet — à esmagadora maioria dos governos de países que se intitulam a si mesmos como regimes democráticos.

É o caso — absolutamente flagrante — de Portugal. Em princípio, os direitos, liberdades e garantias individuais, que em teoria continuam a ser válidos e efectivos, nos termos constitucionalmente previstos, manter-se-ão pelo menos tecnicamente em vigor enquanto não for revogada a Constituição da República Portuguesa. Porém, como sabem por experiência própria alguns cidadãos, as liberdades de pensamento, opinião, expressão e informação não valem, hoje por hoje, o papel em que estão impressos — ou, em rigor, no caso, o espaço virtual onde se possa ler o texto.

Não está de forma alguma em causa o direito — e até a obrigação — de as mais diversas entidades e organizações nacionais e internacionais protegerem os cidadãos, até porque é essa a sua missão e a sua razão de existência, contra quaisquer actividades criminosas, sejam elas quais forem, desde que tal resulte ao menos da presunção da ocorrência de crimes previstos e puníveis nos termos da respectiva legislação nacional, internacional ou global, e da presunção de inocência inerente a um verdadeiro estado de direito.

Five ways technology will shape the future of politics, society and human rights

Precisamente, a questão reside na destrinça entre aquilo que é o cometimento de um crime e o que não passa de forma de expressão (mesmo que agressiva, porque as palavras não matam nem causam ferimentos) e de opinião (mesmo que a de “um contra todos” ou de péssimo gosto, porque também isso é mero enunciado). Ora, as liberdades de expressão e de opinião jamais poderão constituir um delito, dado resultarem em qualquer dos casos do pensamento — que poderá até ser extremamente mal expresso ou completamente estúpido, o que são opiniões de terceiros — e o pensamento não pode de forma alguma ser regulamentado, limitado, condicionado ou reprimido… a não ser pelo próprio indivíduo. Donde se conclui que a definição constitucional daquilo que é “opinião” e de que forma a mesma pode ser expressa (“liberdade de expressão”) constitui em essência a (de)limitação, o condicionamento, a restrição da liberdade de pensamento — que é a origem da opinião que gera a expressão.
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200 anos e 880 anos de independência

Declaração de (des)interesses: não tenho absolutamente nada a ver nem com a carga política do vídeo publicado no Twitter (à direita) nem com a carga política de sinal contrário do texto do “Público” (em baixo). De certa forma, não carecendo a questão de grande perspicácia para estabelecer o respectivo nexo de causalidade, uma coisa explica a outra.
voltar ao Apartado 53Nota: o diploma a que o autor do tweet se refere é o chamado “Acordo de Mo(r)bilidade“, que foi recentemente tramitado pelo Governo português e aprovado no sítio e pela forma do costume.

Seria talvez fastidioso e irrelevante esmiuçar o acesso agudo de brasileirismo que de repente afectou o jornal “Público” (cinco ou seis páginas inteiras por dia, a pretexto do “Bicentenário da Independência do Brasil“) e seria maçada ainda maior depositar aqui mais umas moedinhas para o mesmo peditório. O textículo ora transcrito ilustra o conceito.

Caprichosa selecção de patacoadas, umas mais triviais, outras apenas divertidas, enformam esta carga de paleio laudatório cada vez mais despudoradamente agressivo no seu peculiar nacionalismo hiper-narcisista.

Nacionalismo esse que, além de declarado, deve ter ido buscar inspiração à máxima “tudo pela pátria, nada contra a pátria” do antigamente. Aplicado o ditame (ultra-nacionalista, repita-se) ao caso do “país-continente”, à provavelmente ilustre citada no artigo saiu a seguinte citação histórica: «Tudo pelo Brasil e para o Brasil.» Se sobre a contracção não há grandes dúvidas, já quanto à preposição a coisa começa a plissar um pouco: como diz? “Tudo para o Brasil”? Ah, pois sim, fazia o favor, dirão alguns criados ao dispor de Sua Senhoria mai-las outras, é servir-se.

«Diversidade da língua portuguesa», escreve a autora do texto, a propósito do tal Museu da Língua Brasileira que o Estado português, extremamente solícito e sempre pronto a acudir a desastres no estrangeiro, ajudou a reconstruir com alguns dos seus parceiros preferenciais. Diversidade aquela que, segundo a versão oficial, decorrem das «diferenças regionais» e que o dito museu procura reflectir segundo uma espécie de axioma pelos vistos infalível: «as marcas da fala dessas populações estão no português brasileiro».

Enfim, um verdadeiro festival de brasileirofonia, com os insuspeitos patrocínios do costume, o apoio do Governo tuga e a aprovação por unanimidade, como sempre acontece quanto a estas coisas brasileiristas, dos não muito honoráveis, não muito sábios, não muito sérios deputados da “terrinha”.

E o Brasil criou uma língua. Também é português

Até que ponto soube o Brasil tornar sua uma língua imposta? A tentativa de resposta a tal pergunta começa no Museu da Língua Portuguesa e passa por uma história feita de zangas e contaminações: do tupi aos quilombos, passando por um tratado pombalino e pela literatura enquanto construção de identidade também linguística. Que língua é a língua brasileira? É o português brasileiro.

“Bicentenário da Independência do Brasil
Isabel Lucas
“Público”, 27 de Agosto de 2022

É uma vertigem feita de sons. Um labirinto do qual não apetece sair. Cada som tem um sotaque diferente, o léxico é diverso. De vez em quando há uma palavra que ganha corpo, significado. No resto é música. Harmoniosa, outras vezes dissonante, contém todos os sons que uma língua pode ter. No caso, a portuguesa. Estão ali, concentrados numa instalação feita para mostrar a riqueza e a diversidade de um idioma, e perdidos nessa caixa de palavras ditas — percebe-se o quanto essa língua está por conhecer, por explorar, por cada um dos seus falantes. Aquilo a que essa língua soa quando não a entendemos, ou, pelo contrário, a alegria de encontrar um sentido ainda que ele se perca quase de imediato naquela Babel do mundo da lusofonia e de todos os contactos linguísticos que ajudaram a construir esse sistema de cultura.

A instalação, um conjunto de colunas em forma de troncos aludindo aos troncos que saíram do tronco central a partir do qual o português brasileiro nasceu — o indo-português –, fica numa nas entradas do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, na antiga Estação Luz, edifício de 1867. Reconstruída em 1901, época de ouro do café, num projecto do arquitecto Charles Henry Driver, e pensada para receber comboios, a estação carrega múltiplos simbolismos, sendo os mais marcantes o da viagem e o da tragédia.

Em 1946, foi destruída por um incêndio, numa altura em que o comboio perdia protagonismo enquanto principal meio de transporte no Brasil. Seria reconstruída e fechou em 1982 como estação ferroviária, e em 2002 arrancava a ideia de Paulo Mendes da Rocha de a transformar no Museu da Língua Portuguesa. Inaugurou-se em 2006 e em 2015 voltava a arder. Abriu renovada em Julho de 2021 e pode continuar com o acervo de antes que não se perdeu em 2015 por ser quase na totalidade digital. Estamos perante um património imaterial na cidade com o maior número de falantes de português.

Estamos num território de sons e imagens que pretende “valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo”, lê-se no ‘site’ do museu. Um ano depois da reabertura, essa intenção continua a ecoar enquanto caminhamos para a Estação Luz, um edifício em betão e ferro totalmente renovado a contrastar com a degradação do bairro da Luz, na junção da Avenida Tiradentes com a Rua João Teodoro, mesmo em frente à pinacoteca de São Paulo.
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«Portugal, um Estado brasileiro na Europa»

Este documento foi publicado no “Jornal de Notícias” há já mais dois meses mas, por algum estranho motivo, passou despercebido a todos os rastreadores automáticos e dele não existem sequer referências ou menções em blogs, no Fakebook, no Twitter ou noutras redes sociais. Não por mera coincidência, o texto aqui transcrito no último post é igualmente deste autor.

O qual assina ainda, num jornal brasileiro, uma coisinha espantosa com o seguinte título: “Portugal se apresenta cada vez mais como um Estado brasileiro na Europa“. Essa outra pérola está também transcrita mais abaixo.

Fica assim, portanto, escarrapachada — por uma “autoridade” na matéria — a verdade nua e crua sobre as reais finalidades políticas e empresariais do AO90. Já ninguém voltará a dizer “não percebi, faz-me um desenho”.

Aí está, enunciada com toda a clareza, a estratégia urdida ao longo das últimas três décadas: a “língua universau” brasileira, funcionando como pretexto “ideológico” para dar cobertura política à CPLB, resulta naquilo que o agora citado pau-mandado formula como sendo «a criação de uma primeira “cidadania da língua” na história universal.»

Tal cidadania (da língua brasileira, repita-se) acarretará as mais óbvias implicações, tanto as já aqui profusa e repetidamente documentadas como aquelas que, embora previsíveis, como foi agora exarado, pelo que podem os adeptos da brasileirofonia ficar descansados, «o ‘premiê’ português sabe disso e vai lutar em Bruxelas por um regime especial de cidadania para os cidadãos dos países de língua» brasileira.

O que implicará também, como inerência, outro “fato” à medida que — apesar de todo roto e coçado — envergará o noivo deste infeliz enlace entre um pato e um mastodonte.

Sobre esse “fato” à medida, diz Seu Manuéu, em jeito de rasgados elogios à pinta do animal, que «Portugal apresenta-se cada vez mais como um Estado brasileiro na Europa».

E não precisa de dizer mais nada, presumo. Não só deixa de ser necessário fazer um desenho, como sequer precisam tais evidências que se enumerem de novo umas quantas “coincidências”, que se responda à milésima pergunta das mais habituais e comezinhas, ou até que se enumerem e sequenciem outra vez os pontos para que as pessoas descubram, unindo-os, que imagem surgirá no final.

Estes dois textos mais os “perfis” citados após devem chegar e sobrar para que os portugueses — ao menos alguns deles — não descubram que essa imagem é aquela que fazem assistindo a tudo isto enquanto pastam placidamente, sacudindo as moscas com o rabo e baixando as orelhinhas como compete aos quadrúpedes.

A primeira cidadania da língua

José Manuel Diogo*

“Associação Portugal-Brasil 200 anos (APBRA200)”, 27.06.22

O Governo português tomou medidas inovadoras e disruptivas para facilitar a vinda de cidadãos brasileiros. E isso é muito bom porque Portugal precisa de imigrantes para inverter o envelhecimento do país.

A criação de um visto de maior duração (180 dias) que permite a entrada legal de imigrantes dos países de língua portuguesa em Portugal com o objetivo de apenas1 procurar trabalho é um verdadeiro convite para que os nossos irmãos brasileiros venham morar cá.

A medida vem em muito boa hora e é boa resposta a uma operação de propaganda2 negativa que se gerou numa manhã de filas – propositadas ou espontâneas – que os agentes intervenientes nos assuntos aeroportuários, públicos e privados, causaram recentemente.

Porque o que é relevante sublinhar sobre o futuro das relações entre Portugal e o Brasil não são as filas de aeroportos momentâneas, mas sim as políticas de fundo que os portugueses3 pretendem implementar.

O Governo de Lisboa, antecipando questões impostas: pela nova realidade política de uma guerra prolongada na Ucrânia, por um lado; e a necessidade urgente de combater o risco demográfico que a nação lusa vive, por outro; são os pontos fulcrais onde se joga o futuro da relação entre Portugal, o Brasil e os outros países da CPLP.

Portugal precisa de boa imigração e de investimento, do Brasil e dos países de língua portuguesa, da mesma forma que o Brasil e os outros países precisam de uma porta de entrada para um mercado europeu.

O primeiro-ministro português sabe isso e vai lutar na União Europeia por um regime especial para os cidadãos dos países de língua portuguesa, tentando aprovar – ou pelo menos permitir – a criação de uma primeira “cidadania da língua” na história universal.

*Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos

In JN


[Transcrição integral mantendo a cacografia brasileira do original.
Destaques, sublinhados e “links” meus.]

1 – aspas conforme original
2“Jornal do Incrível”?
3 – poucos; apenas os coniventes

Portugal se apresenta cada vez mais como um Estado brasileiro na Europa.

José Manuel Diogo*
“Folha de S. Paulo” (Brasil), 29.06.2022

Os dois países parecem interessados nesse movimento: a língua portuguesa sendo instrumento de cidadania. Será que a União Europeia vai permitir?

Hoje os sinais são fortes como os fatos. A história se desenha em frente de nossos olhos, e aquilo que era a intuição de poucos é hoje certeza e vontade de muitos. Viver em Portugal está no topo da lista dos desejos de cada vez mais brasileiros.

Faça a experiência. Perdendo-se pelas ruas de São Paulo, no Uber, em mercados, teatros, jardins, academias e restaurantes, não importa de que sofisticação ou preço, da Mooca à Faria Lima, popular ou elitizado, sinta a reação ao nome “Portugal”. Ela se alterou substantivamente nos últimos anos.

Onde antes existia desconhecimento (ou mesmo vazio), hoje existe um desejo afável de proximidade que se expressa, às vezes nervosa-miudinhamente, em manifestações de carinho que vão se organizando à volta de uma ideia que, cada vez mais, todos sentem como normal — ir morar em Portugal.
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Operação coração (1990-2022)

https://www.dn.pt/sociedade/coracao-de-d-pedro-no-brasil-causa-polemica-e-memes-oposicao-questiona-viagem-15113362.html

Retórica. Pura retórica. Fulanos como este “diretor” da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira limitam-se a tentar embelezar uma coisa muito feia — por definição, os negócios — com um palavreado que acham “muito lindinho”. Para o efeito, utilizam uma triste macaqueação daquilo que julgam ser o “estilo” das pessoas que sabem escrever. O resultado, como mais uma vez se verifica e comprova, é sumamente confrangedor.

O indivíduo, por inerência de funções enterrado até ao garruço nas negociatas da brasileirofonia (“lusofonia”, para os crentes), papagueia um estendal de loas e encómios à “terrinha” — enquanto diminui e amesquinha Portugal o mais que pode: destila mimos como «país pequeno e demasiado envelhecido» e reduz “isto” a «quadras de vôlei de praia» onde «só falam de Jorge Amado» e a «praias e ruas de Cascais» que «só declamam Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes».

Christiaan Neethling Barnard was a South African cardiac surgeon who performed the world’s first human-to-human heart transplant operation. Wikipedia

A pretexto da recente viagem do miocárdio e adjacências de D. Pedro IV, este jogral pós-modernista escreve um textículo sobre o pretenso “amor” que tugas dedicam a zucas e, “portanto”, usando para o efeito a velha escola romântico-viscosa, conclui que esse “amor” está depositado ou aloja-se algures na abstracção de um coração concreto (além de ligeiramente morto). Mas que belas imagens, realmente, olha que isto sim, senhor, é d’homem: ai, o amor, o amor, ai o coração, aiai. O “amor” que, note-se, “apenas” refere por quatro vezes enquanto que o substantivo “coração” merece nada menos do que 22 (vinte e duas) menções expressas — bem, é de mestre. Realmente, num texto sobre o coração do Rei português que anda em bolandas pelos brasis, nada mais cirúrgico, verbal e estilisticamente falando, do que — por entre golpes de inatacável lógica da batata e de avassaladora paixão pela palavra — associar amor a coração à razão de 4 para 22… mais ou menos. Será essa, portanto, talvez factorial de 88, a relação algébrica formulada para demonstrar o resultado do inamovível afecto do lado de cá pelo lado de lá e da esmolinha que de lá para cá nos chegará (segundo o autor) sob a forma de algum “afeto” em troca.

Tal litania de insuportável condescendência ameaça seriamente transformar-se no paradigma daquilo a que em Português se chama vulgarmente “graxa”, quiçá merecendo inclusão nos programas curriculares das nossas prestigiadíssimas Faculdades de Letras.

Dali virão decerto a sair os encanudados que doravante se encarregarão de fazer rebrilhar as botas dos “coroné”. Porque, na verdade, graxistas brasileiros há poucos, a coisa costuma ocorrer em sentido inverso, se bem que muito raramente atingindo tal vigor na bolinação, ou seja, são tugas os maiores engraxadores dos brasileiros mas nem esses vão tão longe no descaramento.

O AO90 foi e é o exemplo mais flagrante desse primordial esfregar de calçado a fregueses brasileiros e assim ressurgiu em Portugal a profissão de lambe-botas. Há mestres desse ofício por todo o lado, em especial nas redondezas das academias, nos milieux político em geral e parlamentar em particular, nas direcções de jornais subsidiados e OCS avençados em geral.

Jamais poderia El-Rei D. Pedro IV sequer imaginar que o acto de doar em testamento o seu coração à cidade do Porto, em sinal de agradecimento pela coragem e pelo apoio que a cidade deu a ele mesmo e à causa liberal, seria usada 198 anos depois como arma de arremesso e propaganda política, primeiro, e como manobra de intoxicação da opinião pública, depois.

Viagem do coração de d. Pedro 1º é metáfora doce em momento histórico

José Manuel Diogo
Folha de S. Paulo” (Brasil), 25 Agosto 2022

 

Setembro de 2022. Estamos com o coração nas mãos. Não há mais coração que aguente. Bate, coração. Aguenta, coração! O que os olhos não veem, tu não sentes. E, mesmo estando de coração partido, sempre podemos fazer das tripas coração. Vamos abri-lo, tê-lo ao pé da boca ou apenas segurá-lo em nossas mãos?

Se o amor é uma questão de coração, não há dúvida que o Brasil ama Portugal e Portugal ama de volta. Fazer viajar um coração com 224 anos de idade, sobrevoando um oceano, dentro de um frasco de vidro, para ser recebido com honras de Estado, só se justifica por amor.

É claro que vão existir clamores, maus humores e aproveitamentos políticos, mas a verdade única e indesmentível é que os dois países não estão unidos apenas pela história, eles se gostam e se amam —e comprovadamente têm o mesmo coração.

Algum outro país da América (quiçá do mundo) pediu emprestado o seu coração? Nunca. Muitas cabeças foram perdidas, em bandejas de prata, na ponta de sabres, na fúria das guerras. Mas um coração, não. Isso é amor.
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Lápis azul nas redes anti-sociais [3]

Isto é o resultado de um bufo ter informado a polícia política portuguesa, via Fakebook, de que era necessário bloquear o meu domínio. A lista de crimes que a ciberpide imputa a cedilha[ponto][extensão n, e, t] é enorme. Quem quiser ver o “perigo” que aquilo é (dizem eles) só precisa de consultar qualquer dos serviços de “web reputation“. [post no Facebook (URL empastelado]


‘O estado a que isto chegou’

A questão é só uma e essa implica outra: a censura na plataforma criada por Mark Zukerberg é um exclusivo ou também existe nas outras redes anti-sociais? Esta censura é sistemática, uniforme e generalizada ou é casuística, discricionária e selectiva?

Das duas respostas uma terceira emerge: não, não é um exclusivo, cada rede segue o seu próprio guião político e exerce a sua própria metodologia censória, a qual depende dos objectivos e dos efeitos pretendidos pelas respectivas castas de financiadores (sempre os mesmos, os muito poucos que estão em todas), sendo a repressão em qualquer dos casos discriminatória, visto depender de critérios subjectivos (interpretação de cada censor, momentum, similitude) e sendo também, por conseguinte, episódica. Do que resulta: os “serviços” de “mesa censória” são únicos, os do próprio Fakebook, na sua sede americana, prestando essa “mesa” serviços aos DDT (Donos Disto Tudo – mundo), ou existem “delegações” da dita espalhadas pelo mundo que obedecem apenas aos ditames particulares dos DDT (Donos Daquilo Tudo – país)?

As orientações gerais, lançadas e centralizadas nos States, são conhecidas: terminologia “jurídica” (rotulagens) das “violações”, parametrização de confomidade/desconformidade, lista de penalizações (uma espécie de Código Penal particular/pessoal) etc. São também conhecidas as diversas listas negras de organizações terroristas banidas e de indivíduos comprovadamente criminosos ou pertencentes a tais organizações, bem como de toda e qualquer terminologia que possa estar (ou ser) associada a actividades criminosas; está também tipificada, até porque isso é do mais elementar senso comum, a gama de crimes que implicam banimento a priori e existe até a discriminação por país de todas as organizações políticas, todos os grupos ou bandos (três em Portugal) ou indivíduos que tenham sido considerados como criminosos pelas mais diversas entidades policiais, nacionais ou internacionais.

“L’Origine du monde”, de Gustave Courbet. Este quadro “custou-me” outra suspensão de 3 dias. Acusação: “pornografia”.

De toda a documentação atinente, que é imensa e tende a crescer exponencialmente, nada consta sobre as atribuições e prerrogativas — grau ou nível de autonomia — de qualquer das delegações que a multinacional Meta, a designação genérica e domicílio fiscal/empresarial do Fakebook, possui em todo o mundo. Por exemplo, nos escritórios de República da Irlanda (3), Israel, Austrália, Reino Unido (2), Holanda, Alemanha (2), Bélgica, Dinamarca (2), Dubai (EAU), Suíça (2), Nigéria, Suécia, Espanha, Itália (2), Noruega, França, República Checa e Polónia, por exemplo, as orientações políticas e comerciais (1.ª “coincidência”) serão exactamente as mesmas das determinadas pela sede em Menlo Park, California (USA)?

Curiosamente, ou talvez não, do mapa-mundi fakebookiano não consta o “jardim à beira-mar plantado”. Deve ser mais uma “coincidência”, claro.

Sucede que, apesar de constar amiúde que eles têm cá uma sede, muito pouco ou rigorosamente nada se sabe sobre quem e o que são os agentes-delegados na Tugalândia, ao certo, em que estaleiro se acoitam e quem terá dado posse (e poderes ilimitados) a semelhante pandilha.

Não terá sido por falta de “novidades” sobre o assunto, porém. É irrelevante que sejamos poucos, em Portugal, a denunciar os esbirros (e os bufos), assim como não tem qualquer importância a imensa colecção de rótulos, epítetos, insultos, insinuações e ataques ad hominem, tentativas persistentes de demolição de carácter, um verdadeiro estendal de “brincadeiras” que serve de entretém àquela gentalha. Pois aqui vai-se fazendo o que se pode — e principalmente o que não se pode, segundo eles — para expor a manigância, a arbitrariedade, o embrionário estado de sítio dentro do Estado que vai já mexendo.

O banimento do meu webdomain, os sucessivos e constantes casos de “suspensão” da conta de utilizador no Fakebook por motivos galopantemente absurdos e exponencialmente imbecis, o apagamento radical de conteúdos (incluindo partilhas cujos originais permanecem intocados) e de comentários em “murais” alheios (ou no próprio), a espionagem (e censura) até de correspondência privada, tudo tenho tentado divulgar publicamente — não há deste lado seja o que for a esconder.

O que significa, na prática, a inviabilização imediata e a extinção a curto prazo de quaisquer “sites” ou “blogs” que se dediquem primordialmente — como é o caso do Apartado 53 — a constituição de acervo monotemático e, fundamentalmente, tendo este por tema monográfico o AO90, um assunto que em nada agrada à oligarquia vigente? Não haverá nada de muito “estranho” em tudo o que tem sucedido com este blog naquela “rede social” (e fora dela, como veremos ainda)? Não serão “coincidências”, “mal-entendidos” ou “lapsos” a mais?

De que nacionalidade pode ser um censor de serviço que entenda expressões idiomáticas do Português (mas em Língua Portuguesa mesmo, Português de Portugal) que são absolutamente intraduzíveis e não têm a mais remota equivalência em qualquer outra Língua? Poderá ser americano (ou inglês ou canadiano ou sul-africano ou nigeriano) um censor que entenda o calão típica e exclusivamente não apenas português como até lisboeta ou tripeiro ou alentejano ou madeirense ou “duus açuores” ou “algarvie” ou à “xoque frrite”? E a gíria de Alcântara (a dos “vacanos espacialistas em meter os garfes“), também entendem, lá os “cámones”? Então e a linguagem “codificada”, à base de iniciais, corruptelas indecifráveis para “gente de fora”, os nomes dos bois todos trocados, empastelamento e código verdadeiro (sim, também uso disso, é só para quem interessa), enfim, de todos esses e de muitos outros “truques”, como pode algum estrangeiro entender seja o que for? “Estes polacos são tontinhos toc toc toc” (Obélix dizia o mesmo dos romanos) significa o quê, ao certo, para os pides tugas? “Hate speech”? WTF?!

Ora, evidentemente, quem “entendeu” que Obélix faz “apelo ao ódio” (ou que o termo em calão para “florzinhas” significa “rosinhas”, referindo-se aos do largo do Rato), abreviando, só pode ser tuga. Está absolutamente fora de causa qualquer outra hipótese.

E nem vale a pena falar de rastreamento/varrimento automático por “bot”, por algoritmo ou pelo diabo que os carregue. O do toc-toc-toc foi um fulaninho baixinho e de bigodinho, o das flores foi de outro fulaninho, este sem bigodinho mas igualmente raquítico (um requisito essencial na carreira pidesca), e os de todas as outras aberrações foram sempre a mesma chusma de fulaninhos e fulaninhas, a nova geração de pides que por aí impera, a beber imperiais na tasca da esquina e a cavaquear amenamente sobre quantos “perigosíssimos inimigos” chatearam hoje, sobre “ténicas” de contra-informação e desinformação, sobre o Estado maravilhoso a que isto chegou.

[Imagem de Obélix (toc toc toc) copiada de: “Pinterest“; autor: Albert Uderzo.][continua]


  1. Lápis azul nas redes anti-sociais [3] – ‘O estado a que isto chegou’
  2. Lápis azul nas redes anti-sociais [2] – O “Código Penal” do Fakebook
  3. Lápis azul nas redes anti-sociais [1] – Delito de opinião e pensamento