Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: convidados

textos/conteúdos de convidados

Ciências da morte [por Olga Rodrigues]

«The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) (In French: Organisation des Nations unies pour l’éducation, la science et la culture) is a specialized agency of the United Nations (UN) based in Paris. Its declared purpose is to contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights along with fundamental freedom proclaimed in the United Nations Charter. It is the heir of the League of NationsInternational Committee on Intellectual Cooperation.»
[Wikipedia]

 

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Prémio Internacional UNESCO | Guiné Equatorial para a Investigação em Ciências da Vida (ou da Morte?)

Subsídios para a formação de uma distinta classe de inteletuais

A guiné equatorial (assim mesmo, com letra minúscula), estado soberano, patrocina um prémio para a Investigação em Ciências da Vida. A UNESCO empresta-lhe a credibilidade e o prestígio do seu nome para o tornar visível na esfera internacional.

A notícia, sintomaticamente, aparece no “site” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto englobada no item “Fontes de Financiamento / Bolsas / Oportunidades”.

Será uma boa oportunidade ganhar um prémio monetário no valor de US $300,000, além de um diploma e uma medalha? Com certeza. Tal distinção confere prestígio a quem a obtém? Dificilmente.

É simplesmente um expediente, uma fonte de financiamento que se pode obter de forma rápida, mas que, ao contrário do que os seus promotores pensam, não confere qualquer tipo de prestígio nem de distinção tanto a quem obtém o prémio, como a quem o confere.

É, para utilizar um anglicismo corrente, “business as usual”.

É a viciação e distorção da linguagem no seu máximo esplendor. É patrocinar um prémio de Ciências da Vida com dinheiro obtido da forma mais duvidosa possível e que foi criado apenas para reabilitar o nome mal-afamado de um ditador com demasiados crimes no seu já longo historial.

É aproveitar a situação de vulnerabilidade por que estão a passar as Universidades para as fazer aceitar o inaceitável, para reduzir os seus investigadores e professores a funcionários amestrados; atentos, veneradores e obrigados.

É dar um passo mais para a criação de uma novel classe de inteletuais que nada inteligem e que apenas papagueiam de cor e amoralmente a cartilha que os senhores do dinheiro lhes põem à frente.

E quem pensa que a língua não é para aqui chamada, engana-se, pois, uma língua, qualquer que ela seja, serve sobretudo para nos entendermos e fazermo-nos entender melhor, para interrogarmos o mundo à nossa volta e ir obtendo algumas respostas.

É com ela que se faz Ciência, qualquer ciência, que a comunicamos aos outros e vamos construindo com ela uma grande parte da nossa cultura.

Podemos por isso dizer sem medo de errar que quando uma instituição como a UNESCO promove um prémio que pressupõe de forma tácita a abdicação forçada da língua original de uma dada comunidade, no caso presente a nossa, que tem sido obrigada a estropiar a sua língua unicamente para fazer sobressair os projectos pessoais de alguns, está claramente a violar os princípios que a própria organização instituiu: “contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights”.

Na prática mata a Ciência, e logo na raiz, pois defendendo e promovendo activamente  o uso de uma língua artificialmente modificada unicamente para satisfazer fins políticos, estão na realidade a inutilizar o próprio substrato da sua concepção e feitura, logo, estão a inviabilizar o desenvolvimento da Ciência que tanto dizem defender.

É  por isso um evento que premeia as Ciências mortas e as Ciências da Morte.

É, em suma, a negação mais absoluta do trabalho, do estudo e da investigação que tão extremosamente enaltecem (da boca para fora), que querem substituir pelo nada, pelo vazio, pela negação de tudo o que vive e faz mexer qualquer investigador, em qualquer área.

É, no fundo, e ao arrepio de tudo o que afirmam, a mais perfeita negação de tudo o que seja a Vida, nas suas mais sofisticadas manifestações para a substituírem pelo Vazio e pelo Nada que caracterizam a Morte do indivíduo enquanto tal.

Olga Rodrigues

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Uma ilha à deriva [por Diana Guerreiro]

dgr_swO acordo ortográfico é uma aberração que transforma o português numa ilha linguística à deriva. Temos que aprender com os montanheses helvéticos que a língua é para se preservar como ela é. Assim num jeito de labregada à taxista, a língua portuguesa é como uma mulher a quem um grunho quer obrigar a gostar dele, de repente já está a tratá-la como esposa sem a ter pedido em casamento.

Temos as crianças da diáspora portuguesa a aprender em francês durante o dia, para depois irem desaprender em português ao final do dia. Com a brincadeira do acordo, com a disrupção total da etimologia da língua portuguesa, cada vez se torna mais difícil fazer o paralelo e aprender a ortografia das duas línguas percebendo o porquê de se escrever assim. E se não há uma lógica, um fio condutor, o caminho é feito às apalpadelas e demora muito mais, além de que nem sempre se chega lá.

Pharmacie, photographie, farmácia, fotografia, etc e tal.

Para uma criança que aprenda a ler antes de ter entrado na escola é a coerência da fonética e o respeito pelas raízes das palavras que lhes traça o caminho. É assim como se fosse automático… Aquele “c” ou “p” têm um propósito, não é apenas um vestígio de tempos idos da dominação romana. É uma ponte que nos liga aos outros povos sul-europeus. É o que nos faz ir para fora e tão depressa aprender a falar e escrever as línguas latinas, assim como o inglês com a sua grande influência do francês e por isso tão próximo do português, tão fácil para nós, às vezes é só mudar *acção para *action.

Obscurantismo, o oximoro “cultura da ignorância”.

Sempre houve os engraçadinhos da turma, os espertinhos, inseguros porque sabiam que o saber não era o seu forte, que tentavam sempre parecer mais e melhor perante alguém que sabia a resposta. “ena, és buéda inteligente!” É isto que queremos cultivar? Naquela máxima que a narrativa tenta contar de que é bom manter o povo ignorante? É daquelas coisas, quando não se consegue fazer igual ou melhor tenta-se mudar as regras. Quando não se consegue produzir nada de construtivo, tenta-se destruir o que está feito. O que interessa é ir para a tumba com o nome conhecido, a bem ou a mal.

A Alemanha também tentou um acordo ortográfico e obviamente falhou. Os Suíços mandaram-nos passear. Na terra deles mandam eles, ora essa, e se querem dizer e escrever Chäs chüechli e não Käsekuchen, fazem-no mesmo. Estão-se bem a borrifar se mais não sei quantos milhões escrevem de outra maneira. A língua portuguesa é rica como outras não são devido ao esforço neoclassicista dos linguistas, dos cientistas e restantes eruditos. Por isso temos o vulgar rotura e o mais erudito ruptura. Mas NUNCA, NUNCA “rutura”. Aquela ortografia que nem é carne nem é peixe, é mesmo diarreia.

O francês, oralmente, é uma língua de mono e dissílabos, mas o escrito nem tanto. É isso que lhe dá algum encanto e ao mesmo tempo desencanto, para pessoas como eu, nativas de um português em que dizer “u” ou “ü” é uma questão de sotaque; são surdas às subtilezas da língua dos Gauleses. O latim de pronúncia celta, dizem alguns. E quer uma academia de meia dúzia de tachistas tornar-nos ainda mais surdos. Talvez assim não ousemos tanto fugir do cantinho atlântico tão mal frequentado e gerido desde quando ainda nem um cheirinho de latim por lá se tinha dado. Esta eterna inferioridade, regada a chico-espertismo, que eu cada vez mais temo que não seja apenas cultural e que já nos esteja a começar a ser impressa nos genes. Naturalmente ou à força, através de fantasias masturbatórias de iletrados, como o AO90 e outras coisas que tais.

Temos muito a aprender com os helvéticos. É com os casos de sucesso que se aprende, digo eu.

Diana Guerreiro (Suíça)

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Pequeno Tratado da anulação das almas [por Olga Rodrigues]

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Os textos que seguem poderão ser lidos e interconectados entre si. Permitem múltiplas leituras e exprimem diferentes dimensões de uma mesma questão.

Apesar da organização funcional do conjunto textual assumir uma forma gradativa, cada um dos seus elementos poderá possuir uma existência separada pois trata-se de diferentes facetas que correspondem a diferentes abordagens do mesmo problema. Apresentá-los juntos serve apenas para reforçar e conferir maior visibilidade àquilo que queremos transmitir.

Assim, o primeiro texto serve essencialmente para desmontar a falsa ideia da falta de alternativas que, supostamente, nos conduz ao único e inevitável caminho da unificação (?) ortográfica. Pretende também demonstrar os critérios meramente economicistas que estão por trás do AO90.

O segundo texto pretende demonstrar que os fundamentos do AO, longe de estarem assentes em razões científicas, como querem fazer crer os seus promotores, assentam em pressupostos da mais pura mitologia, visando criar os fundamentos de uma crença baseada unicamente em pressupostos artificiais e propositadamente erróneos.

O terceiro texto, corolário lógico dos dois textos anteriores, visa demonstrar como se estão a pôr em marcha diversos mecanismos que pretendem tornar os indivíduos capazes de se tornarem instruíveis e por isso, incapazes de verdadeira autonomia, não só intelectual e cognitiva como também da autonomia da vontade, cortando assim a ligação que todos os indivíduos possuem com algo que não é puramente físico nem puramente intelectual mas algo transcendente que, à falta de melhor nome, será designado por alma.

É a anulação dessa porção de transcendente que há em nós que permite a despersonalização e descaracterização dos indivíduos e sua consequente apropriação por parte de um pequeno grupo dominante.

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O AO 90 e a TINA (1)

Qual é a relação que este acrónimo (que significa “there is no alternative”) tem com o AO90?

É que também este nos foi impingido como uma inevitabilidade, algo a que não se pode escapar, por mais que se queira.

A questão é-nos apresentada de uma forma aparentemente simples mas que não admite réplicas: o Brasil tem o maior número de falantes de língua português no mundo, logo pode ditar regras aos demais países que também falam e escrevem em português.

Se a esta ideia-chave juntarmos a cultura do empreendedorismo que assenta na venda /delapidação do que é de todos para maior lucro de alguns, temos o caldo de cultura perfeito para que uma iniciativa desta natureza vingue e prospere.

Os criadores e propagadores do AO, como qualquer bom vendedor de banha da cobra, juram e trejuram que o dito cujo é bom para tudo; vai ser decisivo para a maior divulgação dos autores portugueses no mundo; vai facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita; vai projectar a língua portuguesa no plano internacional.

A quem, mesmo depois de apresentadas todas estas “vantagens”, ainda continuar a duvidar de tão belos intentos, será considerado, sem apelo nem agravo, “retrógrado”, “atrasado” ou “resistente à mudança”.

Se mesmo depois de, directa ou indirectamente, ter sido mimoseado com tão belos epítetos, ainda persistir na “heresia”, então passará a ter advertências mais sérias, como a indicação expressa de obrigatoriedade de utilização do AO nos diversos organismos do Estado e em cada vez mais empresas privadas ou a ameaça directa de penalização em testes e exames se for estudante.

E assim se vai cimentando a famosa TINA ou “there is no alternative” sempre por via da prepotência e da utilização abusiva do poder e da coerção por parte do Estado e não de uma verdadeira alternativa ao AO.

Na verdade, as alternativas existem, sendo a melhor e mais eficaz a REVOGAÇÃO pura e simples do AO pois um erro crasso como este de vimos falando, devido à sua extensão e gravidade das suas consequências, não é passível de correcção ou revisão e muito menos objecto de um referendo, seja ele qual for, pois não se referendam soluções que à partida quase toda a gente sabe ou pelo menos pressente que são erros, mas sim opções que poderão ser válidas, ainda que discutíveis, o que não é o caso deste AO.

Pequena lição de mitologia contemporânea (2)

Podem-se atribuir falsas reivindicações de estatuto científico não apenas por pura sede de prestígio ou visão errónea do conhecimento mas como uma tentativa deliberada de impor uma construção mental que visa fins única e exclusivamente políticos de dominação e controlo.

Tais falácias não são só erradas do ponto de vista filosófico, são também socialmente destrutivas.

Conferindo um manto de (falsa) cientificidade ao AO pretendem arredá-lo do escrutínio público, não admitindo que seja objecto de opinião, ainda que mediada por argumentos de razoabilidade. Qualquer opinião manifestada sobre este assunto, sobretudo quando exprime uma posição contrária ao AO, é qualificada de mera “resistência”.

O cínico cientismo, traduzido por uma falaciosa extensão dos pressupostos científicos a tópicos sociais, não passa de uma máscara que cobre a despótica imposição de algo inaceitável, tentando fazer passar por ignorantes todos aqueles que refutam este miserável AO.

Questões humanas, ou de condicionamento político, como é o caso que nos ocupa, devem ser colocadas em termos puramente humanos e qualquer tentativa, por mais sofisticada que seja de relegar a questão para um plano meramente científico, nada mais exprime do que uma confusão conceptual.

O que acontece quando tentamos exprimir ideias que pertencem exclusivamente ao campo da moral, da ética e da política através de termos puramente científicos é que além de os desprovermos do seu significado intrínseco não estamos a construir nenhum tipo de conhecimento científico mas apenas forjar uma (neste caso fraca) peça de mitologia contemporânea.

Da anulação das almas

E assim se vai cumprindo, paulatina, lenta e inexoravelmente a despersonalização dos indivíduos. E a despersonalização conduz à alienação, etapa indispensável para que se efectue o corte entre o indivíduo e o transcendente, algo que está acima dele e lhe confere uma dimensão transcendente.

Nunca como agora o ressurgimento de velhos fantasmas constituiu uma tão grande ameaça. Nunca como agora o Santo Ofício esteve tão perto de regressar ao nosso convívio social em toda a sua pujança. Chame-se ele Santo Ofício, Sagrada Ciência, Impenetrável Autoridade, Bom Gosto ou até… Unificação… ou até… Acordo. Ah! Acordo o teu nome é Santo Ofício! O teu nome é despersonalização, anulação, esterilização do que melhor podemos oferecer a toda a gente! O teu nome é perseguição, é tornar réus os inocentes; pessoas honestas em heresiarcas, quais novos judeus cujo o único crime foi escolher o Livro (ou Regra) que queriam seguir e não aquele que lhe queriam enfiar goela abaixo!

Tudo isto perpetrado por candidatos a Alquimistas que, por terem sucumbido de forma vil à cegueira do ouro, nunca serão mais do que reles aprendizes de feiticeiro que decompõem sem criar. Um dia, mais tarde ou mais cedo, descobrirão que o cintilante ouro que lhe entregaram a troco das suas “feitiçarias”, nada mais é do que matéria putrefacta.

A Flor está-lhes obviamente interdita e esse será o seu maior castigo.

Mas entretanto estragarão o que puderem e submeterão toda a gente aos seus nefandos desígnios.

E isso também lhes estará obviamente interdito enquanto houver quem lhes queira fazer frente!

Olga Rodrigues


(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/TINA_(slogan)
(2) Com a colaboração involuntária de Gary Saul Morson sobre a filosofia de Stephen Toulmin, aqui:
http://www.newcriterion.com/articles.cfm/The-tyranny-of-theory-8076

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Os canibais [por Olga Rodrigues]

Zepovinho

Muito se tem dito acerca do interesse do Brasil na implementação do famigerado AO90 e da forma como este tem vindo a ser tratado pelas autoridades brasileiras como um desígnio nacional a ser perseguido a todo o transe.

É necessário porém entender que a construção deste quadro mental “anti – Portugal” não começou agora, sendo algo que tem vindo a ser paulatinamente firmado desde, pelo menos, o início do século XX. É pois nesta altura que alguns intelectuais brasileiros começam a reivindicar a existência de uma cultura brasileira própria, diferente daquela levada pelos colonizadores europeus, sobretudo pelos portugueses.

A génese desta atitude reivindicativa, conjuntamente com influências culturais provenientes de correntes literárias e culturais recém-criadas na Europa (de que o Surrealismo é um exemplo significativo) que preconizam e até incentivam uma maior liberdade e afastamento do cânone cultural clássico. Esta atitude conduzirá à criação de correntes literárias e culturais diversas do modelo cultural clássico originalmente criado na Europa.

Neste contexto, autores brasileiros como Oswald de Andrade(1) desenvolvem toda uma obra que pretende demonstrar essa demarcação da cultura tradicional europeia e sobretudo portuguesa que se expressa em obras como o “Manifesto Antropófago”(2). Este textinho expõe na perfeição o que muitos brasileiros ainda hoje pensam da cultura portuguesa. Encaram-na não só como algo de que precisam de se libertar, mas também algo que precisam de “comer”, de “deglutir”, de eliminar para criarem a sua cultura própria, para conseguirem assim obter a sua autonomia cultural.

A “eliminação” da língua portuguesa e a sua substituição pela “língua brasileira” seria (é) uma peça-chave nesse processo de aquisição de autonomia cultural e política.(3)

A “língua brasileira” seria constituída não só por elementos de diversos falares indígenas brasileiros a que se juntariam expressões idiomáticas utilizadas pelos escravos negros de origem africana mas sobretudo por vocábulos da língua portuguesa escritos com erros que seriam perfeitamente assumidos e fariam parte da futura “língua brasileira” a construir a partir, sobretudo, da “deglutição” da língua portuguesa.

Este foi o caldo de cultura em que se começou a criar e em que posteriormente vingou o AO 90.

O que causa espanto não é o canibalismo da banda de lá do Atlântico mas sim a colaboração e a cumplicidade activas dos canibais da banda de cá.

Olga Rodrigues


 

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade

(2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Manifesto_Antrop%C3%B3fago
e http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf

(3)Por outro lado, a técnica de escrita explorada no Manifesto, bem como em todos os poemas mais significativos do autor antes e após este, aproximam-se mais das chamadas vanguardas positivas, mais construtivas que o Surrealismo de Breton e continuam propondo uma língua nacional diferente do português. O desejo de criar uma língua brasileira se manifestaria em sua obra, principalmente, por um vocabulário popular, explorando certos “desvios” do falante brasileiro (como sordado, mio, mió), intentando o “erro criativo”.[nota 1] Este sonho somente se pareceria concretizar posteriormente, no entanto, na prosa de Guimarães Rosa e na poesia de Manoel de Barros.”  Ver  https://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade.

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Casa da(s) Moeda(s) de prata [por Octávio dos Santos]

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Casa da(s) Moeda(s) de prata

Há bastantes anos que concorro, com maior ou menor regularidade, a prémios de jornalismo e de literatura – e até já ganhei alguns. Costumo, por isso, estar atento à divulgação e à realização de iniciativas deste tipo, em especial através da leitura dos respectivos regulamentos. Um dos mais recentes foi o do Prémio INCM-Vasco Graça Moura 2016, promovido pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, instituição onde, aliás, o saudoso escritor trabalhou como administrador (entre 1979 e 1989)…

… E o que desde logo se destaca, e muito desagradavelmente, naquele documento é o facto de estar «escrito» segundo o «Acordo Ortográfico de 1990» — encontramos «selecionar», «eletrónico», «direção», «respetivo», «efetivamente»… Seria de esperar que tal não acontecesse quando se sabe que o homenageado lutou aguerrida e incansavelmente contra o ilegítimo, ilegal, infame e inútil «(des)acordo» que não fez (e faz) mais do que degradar, deturpar, destruir a língua portuguesa. É, pois, uma tremenda ofensa póstuma ao homem que foi presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, embora seja expectável, e até «compreensível», por as entidades públicas e/ou sob tutela estatal, como é o caso da INCM, estarem «obrigadas» a utilizar esta «ortografia» pervertida criada por pervertidos. Na verdade, mesmo grave, e pior do que o regulamento, seria que a obra vencedora do Prémio Vasco Graça Moura fosse escrita e/ou publicada obedecendo ao ascoroso «acordês» que o deputado europeu (entre 1999 e 2009) abominava. Seria inimaginável! Aliás, no ano passado, e na conferência de imprensa de apresentação do Prémio e da sua primeira edição, Rui Carp, presidente do Conselho de Administração da Imprensa Nacional, afirmou, em resposta à pergunta do jornalista d’A Bola António Santos sobre se o júri excluiria autores que não escreve(sse)m de acordo com o AO90, que «é possível conciliar a legalidade com a liberdade» e «aqui não fazemos censura, isso terminou em 1974.»

Porém, e pelo contrário, ali faz-se censura. A 21 de Abril de 2013 referi, no meu artigo (também no Público) «Penalidade de expressão», o caso do escritor Abel Neves, que revelara, em Janeiro daquele ano, que a Imprensa Nacional Casa da Moeda se recusara a editar três das suas peças de teatro por o autor «não querer a(dul)terar aquelas segundo o infame (des)acordo. Será possível que na INCM não exista quem conheça e tenha lido o “Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos” nacional, que também reflecte e replica legislação e jurisprudência internacionais, e que dá inequivocamente a todos os artistas a prerrogativa de utilizarem e de verem respeitada a linguagem que eles quiserem?» Aparentemente, ainda não, porque no regulamento do Prémio INCM-Vasco Graça Moura 2016 se estipula, pelo artigo 10º, o seguinte: «1. O autor premiado aceita que a INCM execute uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorre(c)ções ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo ado(p)tadas para a publicação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura. 2. O autor premiado disponibiliza-se a examinar eventuais sugestões, que contribuam para a melhoria e clarificação do texto, que lhe sejam submetidas para apreciação e aprovação.» A 2 de Agosto último contactei, por correio electrónico (e através do «e-ndereço» indicado no regulamento), a Imprensa Nacional e perguntei: «pode-se depreender do artigo 10º, e em especial do seu ponto 1, que a obra vencedora terá de ser impressa e publicada obedecendo ao denominado “acordo ortográfico de 1990”?» A resposta chegou no dia seguinte, enviada pela secretária de dire(c)ção: «o texto vencedor será publicado de acordo com a ortografia do Acordo Ortográfico de 1990.» Afinal, não era assim tão inimaginável… Os membros do conselho de administração da Imprensa Nacional Casa da Moeda, e os que participam na organização deste «galardão», parecem não ter as mais básicas noções de decência, honra e vergonha: é um insulto quase indescritível à memória de Vasco Graça Moura, uma afronta particularmente atroz ao seu legado, dar o nome dele a um prémio cujo(a) vencedor(a) terá, se quiser ser editado, de se submeter ao AO90 — algo que ele sempre combateu tenazmente até morrer.

Não me surpreende, no entanto, que políticos, e que burocratas mais ou menos «de carreira» que aqueles nomeiam para diversos cargos na administração pública, se comportem sem um mínimo de respeito para com outros, vivos ou mortos (eu próprio, este ano, senti isso ao não ser reconhecida, pelo actual governo, a minha autoria da ideia de dar o nome de Humberto Delgado ao aeroporto de Lisboa). Todavia, já me espanta que Pedro Mexia – que integra o júri do prémio com Jorge Reis-Sá e José Tolentino de Mendonça – se preste a colaborar com o que é, na prática, uma autêntica traição. Enquanto subscritor – tal como Vasco Graça Moura! – da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico e deste opositor constante nos últimos anos, dele há a esperar duas atitudes possíveis: exigir aos (ir)responsáveis da INCM que eliminem o artigo 10º do regulamento; ou, recusada essa exigência, sair do júri. E, desse modo, deixar de ser «habitante» de uma Casa da Moeda que dir-se-ia ter na prata o seu metal preferido.

Octávio dos Santos


Texto enviado pelo autor por e-mail. Saiu hoje, 13.08.16, na edição em papel do jornal “Público”. Destaques e “links” meus.

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Tradução Português-Brasileiro (2) [por Isabel Coutinho Monteiro]

Durban(South Africa)Torcedores de diversas nacionalidades e sotaques assistiram ao empate entre Brasil e Portugal, em Durban, África do Sul

Continuando na senda da misteriosa (e impossível) “unificação da Língua Portuguesa” — e com a Final do EURO 2016 à porta — impõe-se agora uma incursão ao mundo do Futebol, onde a disparidade lexical remete para as muitas dificuldades que deverão enfrentar os brasileiros contratados por clubes de futebol portugueses. Não há unificação ortográfica que lhes valha no processo de se adaptarem a termos que nunca terão ouvido.

Futebol

Portugal Brasil
Baliza Meta/Gol
Desporto Esporte
Equipa Time/Equipe
Fintar Driblar
Fiscal de linha/Árbitro auxiliar Bandeirinha
Fora-de-jogo  Impedimento
Golo Gol
Guarda-redes Goleiro
Pontapé de baliza Tiro de meta
Pontapé de canto Escanteio
Defesa central Zagueiro
Claque Torcida
Chuto/pontapé Chute
Tempo (1.º, 2.º) Etapa (1.ª, 2.ª)
Ponta-de-lança Centroavante
Taça Copa

Mas as divergências vão muito além disto, como já foi salientado no início desta série.

Uma leitura superficial pela imprensa brasileira expõe diferenças noutras áreas de regência da língua, como é o caso deste curto excerto retirado da publicação “Veja” on-line:

«Cristiano Ronaldo já vive a expectativa de conquistar seu primeiro título com a seleção portuguesa. O craque, no entanto, sabe que a missão será complicada: neste domingo, Portugal enfrenta a anfitriã França, na decisão da Eurocopa, à partir das 16h (de Brasília), no Stade de France, na grande Paris.»

Logo na primeira linha, encontra-se o termo “expectativa”, testemunho da (falsa) unificação da Ortografia com as suas facultatividades. O Possessivo “seu”, como também já foi referido, aparece sem o Artigo Definido “o”, quase sempre companheiro inseparável em Portugal e, por fim, a referência ao início da partida inclui a contracção da preposição “a” com o Artigo Definido “a” — o que no Brasil se chama crase –, configurando estas duas uma diferença significativa na Morfologia usada cá e lá.

É de salientar que a crase atrás mencionada constitui um erro no Brasil, que ocorre com bastante frequência por lapsus linguae, fruto da Fonética brasileira de vogais sempre abertas, salvo acento gráfico em contrário. E é precisamente nesta forte divergência fonética entre os vários países lusófonos que radica o tremendo fracasso dos defensores da (falsa) “unificação da Língua Portuguesa”.

E traçada que está mais uma caricatura desta unificação caricata, por agora, resta-nos desejar que a Selecção Portuguesa de futebol dê a todos os portugueses uma grande alegria neste domingo, 10 de Julho de 2016.

 

Isabel Coutinho Monteiro
(tradutora)

[Imagem de topo de Agência Brasil.]


Este vídeo, publicado por um “site” de língua inglesa que terá presumido ser isto um relato português, contém afinal a gravação de uma emissão brasileira. Deveria ter legendas, digo eu, como se faz no Brasil com os filmes portugueses.
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