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Gente que não tem noção [por Rui Valente]

 

Gente que não tem noção

 

No já longo percurso da ILC-AO [Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico] temos falado do AO90 como um “corpo estranho” no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Se o objectivo da CPLP é aproximar os diversos povos que, de algum modo, foram tocados pela Língua portuguesa, faz todo o sentido que cada povo preserve, nesse encontro, a variante da Língua com que se identifica e que sente como sua.

Acontece que, em rigor, o “Português universal” do Acordo Ortográfico não só não é universal como não é mesmo de ninguém. Como é possível promover-se a troca de experiências ou o verdadeiro conhecimento do “outro” se a própria Língua utilizada, pretexto e mote desta ligação, é adulterada pelos participantes? Imagine-se um encontro internacional de gastronomia em que todos os intervenientes, independentemente da sua origem, apresentam aos congéneres a “sua” receita de pizza.

A frase lapidar de Sérgio Rodrigues — “o Acordo Ortográfico é gasolina no fogo do anti-brasileirismo em Portugal” — é apenas mais um reflexo deste trágico equívoco em que chafurda o Acordo Ortográfico.

Através das lentes embaciadas do AO90 não é possível conhecermos este “outro” que temos diante de nós — torna-se difícil, desde logo, percebermos o que representa para esse “outro” o próprio Acordo Ortográfico.

Neste campeonato da “falta de noção”, os brasileiros dão cartas. É lendária a intervenção de Amini Hauy, doutora em Filologia e Língua Portuguesa no debate sobre o Acordo Ortográfico promovido pela Câmara dos Deputados do Brasil: a propósito das “cedências” do Brasil no Acordo Ortográfico a emérita professora da Universidade de São Paulo ia enumerando(minuto 53): perda do acento nos ditongos (como “européia”), 1-0 para Portugal; perda do acento em “pára”, 2-0 para Portugal…

É claro que nada disto faz sentido. As “cedências” do Brasil no Acordo Ortográfico são acentos de que o país já tinha abdicado em 1945 e correspondem, na prática, a uma acentuação “que já ninguém usa”, para citar outro linguista brasileiro. Aliás, apresentar a perda do acento em “pára” como uma cedência do Brasil é particularmente caricato, tendo em conta que é em Portugal que a falta desta diferenciação se faz sentir.

Mas o que importa destacar no discurso de Amini Hauy é a retórica de confronto. É certo que a professora abomina o Acordo Ortográfico. Mas consegue, no meio de muitas críticas certeiras, introduzir a espantosa pirueta de apresentar o AO90 como prova do neo-colonialismo português.

De facto, é possível que alguém, no lado português, tenha cometido o absurdo de pensar o AO90 como forma de mantermos “algum controlo” da Língua. Mas é preciso muita falta de noção, no lado brasileiro, para percepcionar a aplicação do Acordo Ortográfico como uma imposição portuguesa e, como tal, neo-colonialista.

De forma mais moderada, o próprio Sérgio Rodrigues incorre nesta falta de noção, quando diz que, resistindo ao AO90, os portugueses recusaram a ideia de um “Português sem centro”. Só um brasileiro muito centrado em si próprio poderia acreditar que o AO90 iria ser visto como “coisa neutra” em Portugal. Além do Brasil, Portugal é o único país onde a Língua portuguesa é Língua materna. Qualquer português minimamente ciente das suas raízes sabe que o AO90 implicaria sempre um rude golpe na nossa identidade. Mas, na prática, a sua aplicação está a resultar num cenário ainda mais desastroso: à boleia da ortografia, intensificou-se a pressão sobre outras características identitárias do Português Europeu, como o nosso vocabulário e a nossa sintaxe. Na prática, a aplicação do AO90 em Portugal tem resultado na terraplanagem pura e simples, do Português Europeu, seguido da sua substituição pelo Português do Brasil.

Do ponto de vista da ortografia e do vocabulário, a meia dúzia de “peculiaridades” que se quis preservar (“facto” em vez de “fato” ou “aplicação” em vez de “aplicativo”) é de tal modo irrisória que não resiste à enxurrada.

Na reportagem que motiva o texto original de Sérgio Rodrigues dá-se conta de uma realidade em que brasileiros altamente qualificados vêem o seu trabalho reconhecido noutros países europeus, mas descartado em Portugal. “Para que serviu o Acordo Ortográfico, afinal”? Boa pergunta.

O facto é que nenhum brasileiro pensaria chegar a França ou à Alemanha, por exemplo, e singrar no mercado de trabalho escrevendo e falando em Português do Brasil.

Mas, em Portugal, graças à ilusão de unidade promovida pelo Acordo Ortográfico, esse desiderato parece ser possível. E as tais “peculiaridades”? Valerá a pena a diáspora brasileira em Portugal aprender, pelo menos, essa meia dúzia de excepções? Bem… para quê? Quando nós próprios enchemos o Diário da República de “fatos”, quando permitimos que empresas de “streaming” legendem o seu catálogo num “Português” que é afinal Português do Brasil, porque há-de um brasileiro preocupar-se com essas miudezas? Foi assim que, quando há dias consultei uma empresa que promove visitas guiadas ao Pico, nos Açores, tive de preencher um formulário de “registro”.

Estarei a ser picuinhas? Para o colunista Rui Tavares, sem dúvida. Não foi por ler “registro”, “usuário” ou “setembro” que deixei de perceber o que me foi pedido. O que importa é que a gente se entenda, não é verdade?

Mas… quem é o colunista Rui Tavares para decidir o que é e não é importante?

ILC-AO

Diz-nos a experiência que, hoje em dia, sempre que há contacto entre Portugal e o Brasil, o esforço de comunicação e de inteligibilidade é quase todo nosso — porque vemos novelas, porque os nossos filmes não são dobrados, porque a nossa escolaridade não será assim tão má, os portugueses têm geralmente mais “ouvido” e estão quase sempre mais capacitados para fazer as despesas do entendimento.

Do nosso ponto de vista, o Acordo Ortográfico não tem outra utilidade que não seja facilitar ainda mais a vida dos brasileiros em Portugal. Não admira, portanto, que, volta e meia, alguém diga “assim, não”. E daí a “acusação” de anti-brasileirismo ou xenofobia.

Mas não tenhamos ilusões. Num mundo feito de acções e reacções, este recém-descoberto anti-brasileirismo não é mais do que a resposta possível ao gigantesco acto de anti-portuguesismo que constituiu o Acordo Ortográfico. E, disso, os brasileiros não têm culpa.

Pela parte que me toca, sempre me senti próximo da cultura brasileira. Na infância, lia “O pato Donald” da Editora Abril. Em adulto li todo o teatro de Nelson Rodrigues, todas as biografias de Ruy Castro. De Manoel de Barros a Ruben Fonseca, de Caetano Veloso a Chico Science, do MASP à terça-feira aos teatros da Praça Roosevelt, a cultura do Brasil resiste a tudo e é incontornável. Sempre gostei da ideia de falarmos duas variantes da mesma Língua, bebendo do “outro” aquilo que mais nos encanta. Mas há uma diferença abissal entre uma proximidade que é querida pelas duas partes e a situação actual, em que o “outro” nos é imposto em doses cavalares, sem hipótese de escolha e em detrimento da nossa própria identidade.

Se a única hipótese de retomarmos o controlo da nossa variante da Língua — e o nosso amor-próprio enquanto portugueses — for a separação oficial das duas variantes, então, obviamente, prefiro a separação. Eis aqui, finalmente, um resultado concreto do Acordo Ortográfico!

Chegados a este ponto, para os movimentos independentistas brasileiros a minha mensagem só pode ser esta: andem lá com isso! E se os rótulos de “neo-colonialistas” ou de geradores de “preconceito linguístico” ajudarem, venham eles.

Mas depressa! — não vá algum iluminado do Acordo Ortográfico lembrar-se de manter em Portugal a ortografia do AO90, mesmo quando já não houver (oficialmente) acordo algum.

Rui Valente

Fatal como o destino

  • «o idioma continua vivo e a evoluir»
  • «património intangível»
  • «ecologias endógenas e diaspóricas»
  • «registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua»
  • «“Através desta língua é possível descobrir aspectos inerentes à comunidade […] como, por exemplo, o seu próprio humor, a forma como se olha para as coisas da vida e o olhar crítico sobre as questões do seu dia a dia”»
  • «[…] muitas pessoas esquecem-se que […] evoluiu em muitos sentidos, por exemplo em termos lexicais. Não se pode pensar que o […] que se utiliza agora […] é a mesma língua que se falava há 200 anos. Há outros elementos lexicais que foram importados […]”»

Como? Se isto é sobre a língua brasileira? Bom, não exactamente mas na verdade estes tópicos e as respectivas formulações poderiam perfeitamente referir-se a essa outra língua de raiz portuguesa. Aquilo de que aqui se fala é do Patuá macaense; no entanto, os conceitos linguísticos, históricos, sociológicos e culturais, atendidas as inerentes idiossincrasias e as devidas distâncias, são rigorosamente os mesmos. Como aliás não poderia deixar de ser, até porque os processos e pressupostos atinentes à criação e desenvolvimento de uma Língua, qualquer que seja, são (na família linguística do tronco indo-europeu) regulares e genericamente uniformes.

Condicionantes de toda a ordem, com a natural primazia das geográficas e das — consequentemente — sociológicas (variantes de  isolamento e de coesão do grupo de indivíduos), determinam o maior ou menor  afastamento de uma nova Língua em relação à matriz que lhe deu origem.

Enfim, tudo princípios basilares, coisinhas facilmente acessíveis para o mais coriáceo dos sapateiros, pelo que (com a agravante de me irritar solenemente o polvilhado de referências biográficas, além de não ter aqui à mão quem trate de me semear a “bibliografia” nos rascunhos) parece dispensável, porque redundante, continuar a bater no ceguinho.

Percebe-se a ideia muito mais claramente do que os planos para fabricar um avião em papel A4. 

Além do Patuá (Papiamento), em Macau, existem inúmeros crioulos de base portuguesa, os nove de Cabo Verde (sendo um deles Língua nacional) e os da Guiné Bissau, de São Tomé (dois) e (do) Príncipe, de Casamansa (Senegal), de Ano-Bom (Guiné Equatorial), na ex-Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), e ainda um pouco por toda a Ásia.

Como sabe o sapateiro anteriormente mencionado, bem como grande parte dos demais mal-vestidos que a intelligentia tuga evita prudentemente, com mal disfarçado horror, o Crioulo é uma Língua de base (lexical) portuguesa; nos casos deste caso, passe a redundância, resultam da fusão do Português enquanto língua-franca com o falar autóctone local; de forma abrangente, os crioulos integram as diversas variantes da ou das línguas das colónias e países que resultaram da Conferência de Berlim (1885) e de convulsões históricas subsequentes; autonomizando-se progressivamente, os diversos crioulos acabam fatalmente por reivindicar — pela sua própria natureza de património nacional intangível – o estatuto de Língua independente. Ao fim e ao cabo, um processo em tudo paralelo, similar e concomitante da própria independência política.

Malaca – Malásia

Nesta acepção, que muito pouco ou nada tem de objectável, o processo de autonomização linguística do Brasil, com 200 anos de atraso em relação à sua independência política, está já para além da simples crioulização. De Português, ao brasileiro pouco mais resta do que as raízes. Já é uma língua independente.

Ainda que dando trinta de anos de avanço à premissa, a língua do “gigante” brasileiro — que bem poderá servir como língua-franca nos 26 Estados daquela espécie de sub-continente – existe já hoje e que lhes faça muito bom proveito. Pódji fala i isscrêvê como quisé, cara, viu? Viva a língua Brasileira, morô?

Porém, contudo, no entanto, não obstante, cada um brinca c’a sua, salvo seja, valeu? Não tentem vossemecês passar o filme histórico de trás para a frente.

Portugal colonizou o Brasil e levou consigo o Português; não impôs a Língua, a Língua impôs-se por si mesma, naturalmente.

Não tentem agora vir pelo caminho das caravelas tentar colonizar Portugal ao contrário, trazendo sobranceria a tiracolo e fazendo estalar o chicote neo-colonialista, com a fraqueza do número que apenas impressiona distraídos, com a xenofobia que usam como arma de arremesso, com esse estranho ódio histórico de um passado mal resolvido, com a insuportável arrogância da soberba que vegeta na ignorância.

E não se esqueçam, se fizerem a fineza, de que mais tarde ou mais cedo a verdade faz como o azeite em água. É fatal como o destino.

Saúde.

Miguel de Senna Fernandes quer passar peças dos Dóci Papiaçam di Macau para livro

“Hoje Macau”, 29.04.21 – hojemacau.com.mo

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Miguel de Senna Fernandes quer editar em livro as quase 30 peças levadas à cena pelos Dóci Papiaçam di Macau. Por ocasião da palestra online “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”, o advogado afirmou que o idioma continua vivo e a evoluir, por exemplo, na forma de falar português dos macaenses. Os académicos Mário Pinharanda Nunes e Raúl Gaião apresentaram estudos sobre o crioulo e discorreram sobre a sua evolução

Miguel de Senna Fernandes, advogado e director do grupo teatral Dóci Papiaçam di Macau revelou ter planos para publicar em livro, pelo menos em patuá, português e chinês, os textos que estiveram na base das peças levadas à cena pelo grupo. O projecto, contou ao HM, está a ser delineado com a investigadora académica macaense, Elisabela Larrea.

“Ainda vou publicar as peças de teatro [em livro]. Já lá vão 28 ou 29 peças. Seriam vários volumes. Tenho um projecto pensado para isto com a Elisabela Larrea. É fundamental. O trabalho dos Dóci Papiaçám tem de ser convertido em obra escrita. Suspendemos este trabalho, mas temos mais ou menos uma ideia de como fazer a coisa. Não nos interessa ter um livro só em patuá, isso ninguém vai ler, mas, naturalmente, uma edição também em português e em chinês”, partilhou. O director dos Dóci Papiaçam vinca ainda que, por isso mesmo, “é muito importante definir bem uma estratégia”, considerando ser uma obra “sobre o património intangível de Macau”, que poderá ser apoiada pelo Instituto Cultural (IC)

As várias vidas do patuá

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) realizou ontem a sessão “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”. Contando com presença de vários linguistas e académicos especializados na área, a sessão abordou temáticas como as “ecologias endógenas e diaspóricas do patuá”, o português de Malaca e iniciativas de revitalização destes crioulos luso-asiáticos.

Miguel de Senna Fernandes, que também participou na sessão “Resgate do Patuá”, considera que, apesar de o idioma já não ter expressão prática, é necessário “olhar para o fenómeno linguístico do patuá de uma perspectiva actual e compreender o seu estado, onde é que se utiliza e porque é que se utiliza”. Isto porque continua a ser usado, de forma mais ou menos inconsciente, por muitos macaenses quando se exprimem em português.

“O patuá não morreu, há é várias formas de o falar. Muitos dos macaenses, quando se exprimem em português, falam a partir do patuá e, essa forma de falar e mesmo como constroem as frases, misturada com o português e o cantonês, por exemplo, tem muito de patuá. São registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua”, partilhou Miguel de Senna Fernandes, ainda antes do início da sessão de ontem.

Quando questionado sobre se é efectivamente possível resgatar o patuá, sublinha que um “resgate” não pode ser entendido com a finalidade de “pôr as pessoas a falar patuá outra vez”, pois é uma língua que já não tem razão prática para existir.

“As condições do aparecimento da língua já não existem. O patuá formou-se há mais de 200 anos, num contexto social muito próprio da altura. Hoje em dia, este contexto não existe e, se existisse, teria que ter características muito especial e uma função para que as pessoas voltassem a utilizar com frequência o patuá como veículo de comunicação”, acrescentou.
(mais…)

Ciências da morte [por Olga Rodrigues]

«The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) (In French: Organisation des Nations unies pour l’éducation, la science et la culture) is a specialized agency of the United Nations (UN) based in Paris. Its declared purpose is to contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights along with fundamental freedom proclaimed in the United Nations Charter. It is the heir of the League of NationsInternational Committee on Intellectual Cooperation.»
[Wikipedia]

 

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Prémio Internacional UNESCO | Guiné Equatorial para a Investigação em Ciências da Vida (ou da Morte?)

Subsídios para a formação de uma distinta classe de inteletuais

A guiné equatorial (assim mesmo, com letra minúscula), estado soberano, patrocina um prémio para a Investigação em Ciências da Vida. A UNESCO empresta-lhe a credibilidade e o prestígio do seu nome para o tornar visível na esfera internacional.

A notícia, sintomaticamente, aparece no “site” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto englobada no item “Fontes de Financiamento / Bolsas / Oportunidades”.

Será uma boa oportunidade ganhar um prémio monetário no valor de US $300,000, além de um diploma e uma medalha? Com certeza. Tal distinção confere prestígio a quem a obtém? Dificilmente.

É simplesmente um expediente, uma fonte de financiamento que se pode obter de forma rápida, mas que, ao contrário do que os seus promotores pensam, não confere qualquer tipo de prestígio nem de distinção tanto a quem obtém o prémio, como a quem o confere.

É, para utilizar um anglicismo corrente, “business as usual”.

É a viciação e distorção da linguagem no seu máximo esplendor. É patrocinar um prémio de Ciências da Vida com dinheiro obtido da forma mais duvidosa possível e que foi criado apenas para reabilitar o nome mal-afamado de um ditador com demasiados crimes no seu já longo historial.

É aproveitar a situação de vulnerabilidade por que estão a passar as Universidades para as fazer aceitar o inaceitável, para reduzir os seus investigadores e professores a funcionários amestrados; atentos, veneradores e obrigados.

É dar um passo mais para a criação de uma novel classe de inteletuais que nada inteligem e que apenas papagueiam de cor e amoralmente a cartilha que os senhores do dinheiro lhes põem à frente.

E quem pensa que a língua não é para aqui chamada, engana-se, pois, uma língua, qualquer que ela seja, serve sobretudo para nos entendermos e fazermo-nos entender melhor, para interrogarmos o mundo à nossa volta e ir obtendo algumas respostas.

É com ela que se faz Ciência, qualquer ciência, que a comunicamos aos outros e vamos construindo com ela uma grande parte da nossa cultura.

Podemos por isso dizer sem medo de errar que quando uma instituição como a UNESCO promove um prémio que pressupõe de forma tácita a abdicação forçada da língua original de uma dada comunidade, no caso presente a nossa, que tem sido obrigada a estropiar a sua língua unicamente para fazer sobressair os projectos pessoais de alguns, está claramente a violar os princípios que a própria organização instituiu: “contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights”.

Na prática mata a Ciência, e logo na raiz, pois defendendo e promovendo activamente  o uso de uma língua artificialmente modificada unicamente para satisfazer fins políticos, estão na realidade a inutilizar o próprio substrato da sua concepção e feitura, logo, estão a inviabilizar o desenvolvimento da Ciência que tanto dizem defender.

É  por isso um evento que premeia as Ciências mortas e as Ciências da Morte.

É, em suma, a negação mais absoluta do trabalho, do estudo e da investigação que tão extremosamente enaltecem (da boca para fora), que querem substituir pelo nada, pelo vazio, pela negação de tudo o que vive e faz mexer qualquer investigador, em qualquer área.

É, no fundo, e ao arrepio de tudo o que afirmam, a mais perfeita negação de tudo o que seja a Vida, nas suas mais sofisticadas manifestações para a substituírem pelo Vazio e pelo Nada que caracterizam a Morte do indivíduo enquanto tal.

Olga Rodrigues

Uma ilha à deriva [por Diana Guerreiro]

dgr_swO acordo ortográfico é uma aberração que transforma o português numa ilha linguística à deriva. Temos que aprender com os montanheses helvéticos que a língua é para se preservar como ela é. Assim num jeito de labregada à taxista, a língua portuguesa é como uma mulher a quem um grunho quer obrigar a gostar dele, de repente já está a tratá-la como esposa sem a ter pedido em casamento.

Temos as crianças da diáspora portuguesa a aprender em francês durante o dia, para depois irem desaprender em português ao final do dia. Com a brincadeira do acordo, com a disrupção total da etimologia da língua portuguesa, cada vez se torna mais difícil fazer o paralelo e aprender a ortografia das duas línguas percebendo o porquê de se escrever assim. E se não há uma lógica, um fio condutor, o caminho é feito às apalpadelas e demora muito mais, além de que nem sempre se chega lá.

Pharmacie, photographie, farmácia, fotografia, etc e tal.

Para uma criança que aprenda a ler antes de ter entrado na escola é a coerência da fonética e o respeito pelas raízes das palavras que lhes traça o caminho. É assim como se fosse automático… Aquele “c” ou “p” têm um propósito, não é apenas um vestígio de tempos idos da dominação romana. É uma ponte que nos liga aos outros povos sul-europeus. É o que nos faz ir para fora e tão depressa aprender a falar e escrever as línguas latinas, assim como o inglês com a sua grande influência do francês e por isso tão próximo do português, tão fácil para nós, às vezes é só mudar *acção para *action.

Obscurantismo, o oximoro “cultura da ignorância”.

Sempre houve os engraçadinhos da turma, os espertinhos, inseguros porque sabiam que o saber não era o seu forte, que tentavam sempre parecer mais e melhor perante alguém que sabia a resposta. “ena, és buéda inteligente!” É isto que queremos cultivar? Naquela máxima que a narrativa tenta contar de que é bom manter o povo ignorante? É daquelas coisas, quando não se consegue fazer igual ou melhor tenta-se mudar as regras. Quando não se consegue produzir nada de construtivo, tenta-se destruir o que está feito. O que interessa é ir para a tumba com o nome conhecido, a bem ou a mal.

A Alemanha também tentou um acordo ortográfico e obviamente falhou. Os Suíços mandaram-nos passear. Na terra deles mandam eles, ora essa, e se querem dizer e escrever Chäs chüechli e não Käsekuchen, fazem-no mesmo. Estão-se bem a borrifar se mais não sei quantos milhões escrevem de outra maneira. A língua portuguesa é rica como outras não são devido ao esforço neoclassicista dos linguistas, dos cientistas e restantes eruditos. Por isso temos o vulgar rotura e o mais erudito ruptura. Mas NUNCA, NUNCA “rutura”. Aquela ortografia que nem é carne nem é peixe, é mesmo diarreia.

O francês, oralmente, é uma língua de mono e dissílabos, mas o escrito nem tanto. É isso que lhe dá algum encanto e ao mesmo tempo desencanto, para pessoas como eu, nativas de um português em que dizer “u” ou “ü” é uma questão de sotaque; são surdas às subtilezas da língua dos Gauleses. O latim de pronúncia celta, dizem alguns. E quer uma academia de meia dúzia de tachistas tornar-nos ainda mais surdos. Talvez assim não ousemos tanto fugir do cantinho atlântico tão mal frequentado e gerido desde quando ainda nem um cheirinho de latim por lá se tinha dado. Esta eterna inferioridade, regada a chico-espertismo, que eu cada vez mais temo que não seja apenas cultural e que já nos esteja a começar a ser impressa nos genes. Naturalmente ou à força, através de fantasias masturbatórias de iletrados, como o AO90 e outras coisas que tais.

Temos muito a aprender com os helvéticos. É com os casos de sucesso que se aprende, digo eu.

Diana Guerreiro (Suíça)

Pequeno Tratado da anulação das almas [por Olga Rodrigues]

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Os textos que seguem poderão ser lidos e interconectados entre si. Permitem múltiplas leituras e exprimem diferentes dimensões de uma mesma questão.

Apesar da organização funcional do conjunto textual assumir uma forma gradativa, cada um dos seus elementos poderá possuir uma existência separada pois trata-se de diferentes facetas que correspondem a diferentes abordagens do mesmo problema. Apresentá-los juntos serve apenas para reforçar e conferir maior visibilidade àquilo que queremos transmitir.

Assim, o primeiro texto serve essencialmente para desmontar a falsa ideia da falta de alternativas que, supostamente, nos conduz ao único e inevitável caminho da unificação (?) ortográfica. Pretende também demonstrar os critérios meramente economicistas que estão por trás do AO90.

O segundo texto pretende demonstrar que os fundamentos do AO, longe de estarem assentes em razões científicas, como querem fazer crer os seus promotores, assentam em pressupostos da mais pura mitologia, visando criar os fundamentos de uma crença baseada unicamente em pressupostos artificiais e propositadamente erróneos.

O terceiro texto, corolário lógico dos dois textos anteriores, visa demonstrar como se estão a pôr em marcha diversos mecanismos que pretendem tornar os indivíduos capazes de se tornarem instruíveis e por isso, incapazes de verdadeira autonomia, não só intelectual e cognitiva como também da autonomia da vontade, cortando assim a ligação que todos os indivíduos possuem com algo que não é puramente físico nem puramente intelectual mas algo transcendente que, à falta de melhor nome, será designado por alma.

É a anulação dessa porção de transcendente que há em nós que permite a despersonalização e descaracterização dos indivíduos e sua consequente apropriação por parte de um pequeno grupo dominante.

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O AO 90 e a TINA (1)

Qual é a relação que este acrónimo (que significa “there is no alternative”) tem com o AO90?

É que também este nos foi impingido como uma inevitabilidade, algo a que não se pode escapar, por mais que se queira.

A questão é-nos apresentada de uma forma aparentemente simples mas que não admite réplicas: o Brasil tem o maior número de falantes de língua português no mundo, logo pode ditar regras aos demais países que também falam e escrevem em português.

Se a esta ideia-chave juntarmos a cultura do empreendedorismo que assenta na venda /delapidação do que é de todos para maior lucro de alguns, temos o caldo de cultura perfeito para que uma iniciativa desta natureza vingue e prospere.

Os criadores e propagadores do AO, como qualquer bom vendedor de banha da cobra, juram e trejuram que o dito cujo é bom para tudo; vai ser decisivo para a maior divulgação dos autores portugueses no mundo; vai facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita; vai projectar a língua portuguesa no plano internacional.

A quem, mesmo depois de apresentadas todas estas “vantagens”, ainda continuar a duvidar de tão belos intentos, será considerado, sem apelo nem agravo, “retrógrado”, “atrasado” ou “resistente à mudança”.

Se mesmo depois de, directa ou indirectamente, ter sido mimoseado com tão belos epítetos, ainda persistir na “heresia”, então passará a ter advertências mais sérias, como a indicação expressa de obrigatoriedade de utilização do AO nos diversos organismos do Estado e em cada vez mais empresas privadas ou a ameaça directa de penalização em testes e exames se for estudante.

E assim se vai cimentando a famosa TINA ou “there is no alternative” sempre por via da prepotência e da utilização abusiva do poder e da coerção por parte do Estado e não de uma verdadeira alternativa ao AO.

Na verdade, as alternativas existem, sendo a melhor e mais eficaz a REVOGAÇÃO pura e simples do AO pois um erro crasso como este de vimos falando, devido à sua extensão e gravidade das suas consequências, não é passível de correcção ou revisão e muito menos objecto de um referendo, seja ele qual for, pois não se referendam soluções que à partida quase toda a gente sabe ou pelo menos pressente que são erros, mas sim opções que poderão ser válidas, ainda que discutíveis, o que não é o caso deste AO.

Pequena lição de mitologia contemporânea (2)

Podem-se atribuir falsas reivindicações de estatuto científico não apenas por pura sede de prestígio ou visão errónea do conhecimento mas como uma tentativa deliberada de impor uma construção mental que visa fins única e exclusivamente políticos de dominação e controlo.

Tais falácias não são só erradas do ponto de vista filosófico, são também socialmente destrutivas.

Conferindo um manto de (falsa) cientificidade ao AO pretendem arredá-lo do escrutínio público, não admitindo que seja objecto de opinião, ainda que mediada por argumentos de razoabilidade. Qualquer opinião manifestada sobre este assunto, sobretudo quando exprime uma posição contrária ao AO, é qualificada de mera “resistência”.

O cínico cientismo, traduzido por uma falaciosa extensão dos pressupostos científicos a tópicos sociais, não passa de uma máscara que cobre a despótica imposição de algo inaceitável, tentando fazer passar por ignorantes todos aqueles que refutam este miserável AO.

Questões humanas, ou de condicionamento político, como é o caso que nos ocupa, devem ser colocadas em termos puramente humanos e qualquer tentativa, por mais sofisticada que seja de relegar a questão para um plano meramente científico, nada mais exprime do que uma confusão conceptual.

O que acontece quando tentamos exprimir ideias que pertencem exclusivamente ao campo da moral, da ética e da política através de termos puramente científicos é que além de os desprovermos do seu significado intrínseco não estamos a construir nenhum tipo de conhecimento científico mas apenas forjar uma (neste caso fraca) peça de mitologia contemporânea.

Da anulação das almas

E assim se vai cumprindo, paulatina, lenta e inexoravelmente a despersonalização dos indivíduos. E a despersonalização conduz à alienação, etapa indispensável para que se efectue o corte entre o indivíduo e o transcendente, algo que está acima dele e lhe confere uma dimensão transcendente.

Nunca como agora o ressurgimento de velhos fantasmas constituiu uma tão grande ameaça. Nunca como agora o Santo Ofício esteve tão perto de regressar ao nosso convívio social em toda a sua pujança. Chame-se ele Santo Ofício, Sagrada Ciência, Impenetrável Autoridade, Bom Gosto ou até… Unificação… ou até… Acordo. Ah! Acordo o teu nome é Santo Ofício! O teu nome é despersonalização, anulação, esterilização do que melhor podemos oferecer a toda a gente! O teu nome é perseguição, é tornar réus os inocentes; pessoas honestas em heresiarcas, quais novos judeus cujo o único crime foi escolher o Livro (ou Regra) que queriam seguir e não aquele que lhe queriam enfiar goela abaixo!

Tudo isto perpetrado por candidatos a Alquimistas que, por terem sucumbido de forma vil à cegueira do ouro, nunca serão mais do que reles aprendizes de feiticeiro que decompõem sem criar. Um dia, mais tarde ou mais cedo, descobrirão que o cintilante ouro que lhe entregaram a troco das suas “feitiçarias”, nada mais é do que matéria putrefacta.

A Flor está-lhes obviamente interdita e esse será o seu maior castigo.

Mas entretanto estragarão o que puderem e submeterão toda a gente aos seus nefandos desígnios.

E isso também lhes estará obviamente interdito enquanto houver quem lhes queira fazer frente!

Olga Rodrigues


(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/TINA_(slogan)
(2) Com a colaboração involuntária de Gary Saul Morson sobre a filosofia de Stephen Toulmin, aqui:
http://www.newcriterion.com/articles.cfm/The-tyranny-of-theory-8076

Os canibais [por Olga Rodrigues]

Zepovinho

Muito se tem dito acerca do interesse do Brasil na implementação do famigerado AO90 e da forma como este tem vindo a ser tratado pelas autoridades brasileiras como um desígnio nacional a ser perseguido a todo o transe.

É necessário porém entender que a construção deste quadro mental “anti – Portugal” não começou agora, sendo algo que tem vindo a ser paulatinamente firmado desde, pelo menos, o início do século XX. É pois nesta altura que alguns intelectuais brasileiros começam a reivindicar a existência de uma cultura brasileira própria, diferente daquela levada pelos colonizadores europeus, sobretudo pelos portugueses.

A génese desta atitude reivindicativa, conjuntamente com influências culturais provenientes de correntes literárias e culturais recém-criadas na Europa (de que o Surrealismo é um exemplo significativo) que preconizam e até incentivam uma maior liberdade e afastamento do cânone cultural clássico. Esta atitude conduzirá à criação de correntes literárias e culturais diversas do modelo cultural clássico originalmente criado na Europa.

Neste contexto, autores brasileiros como Oswald de Andrade(1) desenvolvem toda uma obra que pretende demonstrar essa demarcação da cultura tradicional europeia e sobretudo portuguesa que se expressa em obras como o “Manifesto Antropófago”(2). Este textinho expõe na perfeição o que muitos brasileiros ainda hoje pensam da cultura portuguesa. Encaram-na não só como algo de que precisam de se libertar, mas também algo que precisam de “comer”, de “deglutir”, de eliminar para criarem a sua cultura própria, para conseguirem assim obter a sua autonomia cultural.

A “eliminação” da língua portuguesa e a sua substituição pela “língua brasileira” seria (é) uma peça-chave nesse processo de aquisição de autonomia cultural e política.(3)

A “língua brasileira” seria constituída não só por elementos de diversos falares indígenas brasileiros a que se juntariam expressões idiomáticas utilizadas pelos escravos negros de origem africana mas sobretudo por vocábulos da língua portuguesa escritos com erros que seriam perfeitamente assumidos e fariam parte da futura “língua brasileira” a construir a partir, sobretudo, da “deglutição” da língua portuguesa.

Este foi o caldo de cultura em que se começou a criar e em que posteriormente vingou o AO 90.

O que causa espanto não é o canibalismo da banda de lá do Atlântico mas sim a colaboração e a cumplicidade activas dos canibais da banda de cá.

Olga Rodrigues


 

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade

(2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Manifesto_Antrop%C3%B3fago
e http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf

(3)Por outro lado, a técnica de escrita explorada no Manifesto, bem como em todos os poemas mais significativos do autor antes e após este, aproximam-se mais das chamadas vanguardas positivas, mais construtivas que o Surrealismo de Breton e continuam propondo uma língua nacional diferente do português. O desejo de criar uma língua brasileira se manifestaria em sua obra, principalmente, por um vocabulário popular, explorando certos “desvios” do falante brasileiro (como sordado, mio, mió), intentando o “erro criativo”.[nota 1] Este sonho somente se pareceria concretizar posteriormente, no entanto, na prosa de Guimarães Rosa e na poesia de Manoel de Barros.”  Ver  https://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade.