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“a brincar, a brincar…”

«A stora avisa logo que não quer o regresso das consoantes mudas porque, para os alunos, “é muito mais simples escrever conforme falamos do que estarem a perceber ou a decorar, principalmente depois de ter abolido e estar a escrever de uma determinada forma, estar a voltar atrás” (sic). Tentemos perceber esta ideia enrodilhada — a stora quer que os alunos espetem “espetadores” nas frases porque agora seria difícil a eles, que são novos, “voltar atrás”.

Logo a seguir, Edviges derrama: “o nível etário das pessoas é bastante elevado, em média, o que significa que há sempre aquelas vozes, que são os ‘Velhos do Restelo’, que tudo que seja mudança, não a vêem com bons olhos” (sic). Esta “sociologia” da stora tem também, infelizmente, problemas de gramática e de lógica. Tentemos desnevoar a coisa: a mulher acha que os velhadas são mais que muitos e uns imobilistas.»
[, “blog” Olho de Gato, 02.12.17]

Professora responsável pela fuga de conteúdos do exame de Português punida com demissão

Clara Viana
publico.pt, 20.03.19

 

 

A ex-presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, está impedida de voltar a dar aulas por ter sido comprovado que foi ela a autora da fuga de conteúdos do exame de Português do 12.º ano, realizado a 19 de Junho de 2017.

 

A informação foi revelada nesta quarta-feira pelo Ministério da Educação (ME). Numa nota à comunicação social, o ME informa que “foi determinada a sanção disciplinar de demissão” à referida docente, que era professora da Escola Secundária Rainha D. Leonor, em Lisboa.

Na mesma nota, o ME dá conta de que “todas as infracções constantes da acusação” contra Edviges Ferreira “foram consideradas provadas” no âmbito do inquérito disciplinar levado a cabo pela Inspecção-Geral de Educação e Ciência. E que, por isso, se concluiu que “a docente terá agido de forma consciente e intencional, desrespeitando gravemente os seus deveres funcionais e o interesse público”.

Devido ao mesmo caso, Edviges Ferreira foi constituída arguida pelo Ministério Público em Maio de 2018. Numa nota publicada então no seu site, a Procuradoria-Geral da República informou que estava em causa a “prática de um crime de violação de segredo por funcionário e de um crime de abuso de poder”.

Violação de segredo

Do inquérito que instaurou em Junho de 2017 e que foi dado como concluído em Maio do ano passado, o Ministério Público concluiu que a agora arguida “transmitiu a uma aluna, a quem dava aulas a título oneroso, os temas sobre os quais iam versar as provas” do exame de Português do 12.º ano.

Ministério Público quer levar ex-presidente da Associação de Professores de Português a julgamento

O MP frisava que tal aconteceu apesar de a docente saber que estava obrigada a segredo e também que as funções de auditoria que exercia no Iave “eram incompatíveis com a leccionação de aulas a título particular a alunos que iam submeter-se ao exame nacional de Português do 12.º ano”.  O crime de violação do segredo por funcionário pode ser punido com a expulsão da administração e por uma pena de prisão até três anos.

No dia em que o Expresso avançou com a notícia, dois dias após a realização da prova, dando conta da possibilidade de ter havida uma fuga de conteúdos do exame de Português, a então presidente da associação de professores da disciplina, quando questionada pelo PÚBLICO, declarou que esta era uma situação “bastante chocante”, mas que lhe levantava dúvidas quanto à sua veracidade. Edviges Ferreira disse acreditar que tudo iria “ser esclarecido”.

Numa gravação áudio, que circulou na rede WhatsApp, e que também foi enviada ao PÚBLICO, uma aluna avisava, dias antes da realização do exame, “que é preciso mesmo, mesmo, mesmo” estudar Alberto Caeiro. E treinar “uma composição sobre a importância da memória”.

“Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo e só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. E pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória…”. Os avisos acertaram em cheio. O autor escolhido para o exame realizado por cerca de 74 mil alunos foi Alberto Caeiro e o tema da composição era a importância da memória.

Não se pode impedir a “má-fé”

O que fazer com o exame?

Quando a gravação foi tornada pública, o Instituto de Avaliação Educativa (Iave), responsável pela elaboração dos exames, anunciou que iria abrir uma investigação ao caso, tendo depois feito uma participação ao Ministério Público e à Inspecção-Geral da Educação, apontando como pista a actuação da então presidente da APP.

O Ministério Público concluiu o seu inquérito em Maio de 2018. A IGEC já tinha dado a sua investigação como terminada uns meses antes, em Dezembro de 2017, na sequência da qual foi determinado pelo ME a abertura de um processo disciplinar, um procedimento que só agora chegou ao fim.

Numa nota divulgada aquando a abertura do processo disciplinar, o ministério dava conta também que iria adiar eventuais acções quanto aos efeitos do exame até serem conhecidos os resultados do inquérito. “No caso dos alunos, não tendo sido possível apurar que o conhecimento da informação se tenha traduzido em benefício mensurável, a IGEC propôs, e foi aceite, que se aguarde a conclusão do processo disciplinar à docente para a aplicação de eventuais medidas.”

“Só agora é que tal aconteceu”, frisou o ME quando questionado, nesta quarta-feira, sobre quais as medidas que iriam ser equacionadas. Um dos cenários que foi então apontado passava pela anulação do exame, uma solução para o qual o ME afirmou à partida estar contra.

cviana@publico.pt

[Transcrição integral. Texto de Clara Viana, publico.pt, 20.03.19. Os “links” a verde são meus. Imagem de topo: screenshot de página do “CM”.]

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Casa-grande e CPLP

Só resta a última razão, ou sem-razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! E que mal considera a cegueira humana as voltas da tua roda? Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá, qual é melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos, ou a nobre e honrada dos senhores. [Padre António Vieira, “Vigésimo Sermão do Rosário”]

 

 

Concordando-se ou não, no todo ou em parte, com aquilo que diz o autor, nomeadamente quando ilustra a sua tese com um episódio recente ocorrido no Bairro da “Jamaica” (Vale de Chícharos, Fogueteiro, Seixal), a verdade é que  — na minha simples opinião, claro — neste texto está claramente exposto e muito bem denunciado o carácter intrinsecamente neo-colonialista da CPLP.

Pena é que, talvez devido ao enraizado hábito de atirar sempre ao mesmo “colonizador” (ou seja, Portugal), Sérgio Dundão tenha omitido o verdadeiro nome da potência colonizadora que, servindo-se da CPLP como pano de vela (e do AO90 como alvará), pretende tomar posse administrativa do antigo Império Português, a começar pela respectiva sede; sempre a pretexto da “língua comum”, como sabemos, e escorando-se em efabulações avulsas nas quais fingem acreditar alguns mercenários portugueses.

Aliás, é esse carácter neo-colonialista, mesmo não o tendo feito consciente e deliberadamente, que o próprio autor formula como desfecho: «Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.»

Exacto. “Casa-grande“. Faltou o hífen, se calhar por gralha ou abatido pelo AO90. O Brasil, portanto.

CPLP: Uma comunidade ilusória

A CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros.

Sérgio Dundão
publico.pt

 

Os acontecimentos do Bairro da Jamaica mostram como a comunidade supostamente lusófona está alicerçada no equívoco do colonialismo tardio da pós-colónia. Esse colonialismo manifesta-se através da constituição de instrumentos políticos para actuar nos espaços africanos, nomeadamente a CPLP, os institutos culturais e as agências de desenvolvimento, que são uma autêntica réplica do modelo francês de projecção mundial na era global. A forma como a França se projecta no mundo acaba por reflectir, segundo Mbembe (na obra Sair da Grande Noite), a sua resistência em analisar e pensar a pós-colónia. Ao fazer esta projecção sem uma reflexão profunda, e até crítica, do seu papel no mundo, observa-se uma situação de exclusão da mundicidade que se encontra nas suas periferias e de não-aceitação do francês sem a matriz europeia.

Essa situação coloca-se igualmente no projecto português. Por exemplo, a CPLP projectou-se como uma plataforma de Estados falantes de língua portuguesa, mas a unidade linguística guineense e cabo-verdiana é em torno do crioulo, que constitui também uma marca portuguesa na medida em que é uma língua que resulta do cruzamento das línguas africanas com uma língua europeia. Mas os portugueses dificilmente reconhecem este património cultural, desejando somente projectar o português como o único instrumento linguístico na sua acção externa nos países africanos da CPLP. Por isso, na obra A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita, Ruy Duarte de Carvalho considerou a CPLP como um mecanismo de demarcação de um território ao estilo dos machos no reino animal. O que constitui uma rejeição das línguas das comunidades africanas, fortemente enraizadas no espaço “lusófono”.

Portugal pretende assegurar um espaço de influência nos países africanos de forma a permitir que as suas empresas e cidadãos possam retornar em condições extremamente favoráveis aos lugares coloniais, sem o rótulo de colonizadores. Por isso, os quadros portugueses em Angola e Moçambique são hoje vistos como expatriados, representando um status migratório distinto dos africanos em Portugal, enquanto que os moradores do Bairro da Jamaica são meros imigrantes que vivem nos subúrbios. Em alguns casos são os antigos moradores dos “musseques” africanos que agora vivem nos guetos da exclusão e de esquecimento social.

Assim, a CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros. Deixando que as comunidades africanas sejam vistas como incómodas, que nunca aceitaram submeter-se aos valores culturais europeus, tal como os indígenas africanos. O que reproduz uma velha modalidade colonial presente no discurso oficial e na imprensa: que existe uma falta de vontade por parte das comunidades africanas na inclusão e aceitação dos superiores valores europeus.

Essa perspectiva de superioridade cultural constitui uma negação da presença histórica dos portugueses no mundo, impedindo que a língua portuguesa seja assumida nas suas variações linguísticas e geográficas como um património comum. Por conseguinte, mesmo os membros das comunidades falantes de língua portuguesa com cidadania portuguesa são constantemente rejeitados por força da sua origem. Porque hoje já não basta ser cidadão português para se ser considerado um português (ou europeu) de plenos direitos, ideia já traçada por Mbembe a propósito da realidade francesa.

É sob esta perspectiva de rejeição de pertença que os acontecimentos do Bairro da Jamaica foram comentados, i.e., os polícias portugueses agrediram uma família angolana. Esta descrição mostra como a Europa tem vindo a cristalizar a distância entre negros e brancos (os de cá e os de lá). Este fenómeno pode ser explicado pelas vagas de africanos e asiáticos que chegaram ao continente europeu com o fim da colonização, cujos membros são igualmente rejeitados mesmo possuindo a cidadania europeia devido à sua origem não-europeia.

Tornando-se vital, sim, a protecção da população de origem europeia que ficou nos territórios colonizados, através da concessão de cidadania aos descendentes dos europeus. Prevalecendo, desta forma, o princípio de jus sanguinis. Por exemplo, os sujeitos africanos nascidos em Portugal, pelo facto de não pertença à origem europeia, não são tratados automaticamente como portugueses.

Observando essa realidade socio-histórica, torna-se “natural” acreditar que o tratamento dado aos moradores do Bairro da Jamaica faz parte dessa lógica de rejeição. Daí que a constituição de uma comunidade lusófona seja totalmente ilusória, porque está em vigor uma política identitária que visa preservar os europeus como sujeitos brancos e de uma só origem histórica e etno-social.

Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.

[Transcrição integral de: «CPLP: Uma comunidade ilusória», por Sérgio Dundão, “Público”, 12.03.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Imagem de topo de: Prefeitura do Rio de Janeiro, via “ecompras Rio” (Brasil).]

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No doubt about it

O que tem a ver com o AO90 um texto sobre a Língua Inglesa escrito por um russo em Inglês?

Bom, tem tudo a ver. Qualquer semelhança entre este argumentário sólido e as tretas acordistas é mera coincidência, bem entendido, seguindo o autor uma linha de raciocínio coerente (e inteligível) que radicalmente difere do discurso errático, polvilhado com “inverdades” escabrosas, que é típico do paleio de Malaca, Bechara, Reis, Canavilhas e outros portadores de mitomania.

E se quanto a semelhanças estamos conversados, já no que diz respeito a diferenças temos apenas esta: não existe a mais leve referência a ortografia. Nem explícita nem implicitamente. Nem claramente expressa nem vagamente aflorada.

O que faz todo o sentido, evidentemente. Tratando-se de anglofonia, falando-se de países anglófonos, analisando-se a (real, efectiva) difusão e expansão da Língua Inglesa, a “questão ortográfica” jamais ocorreria sequer a qualquer anglófono: a ortografia do Inglês permanece intocada há séculos. Aliás, por alguma razão é essa e não outra, hoje em dia e desde há séculos, a única língua-franca universal.

Afinal, vendo bem, este texto tem tudo a ver porque não tem nada a ver.

 

The English Language No Longer Belongs to Britain and America»

Brits and Americans No Longer Own English

By Leonid Bershidsky
“Bloomberg”, 02.03.19

 

The Brexit circus and the unpopularity of President Donald Trump are causing apprehension about the future of the Anglosphere, the cultural, intellectual and political influence of the core English-speaking nations: Britain and the U.S.

As a non-native English speaker who works in the Anglosphere, though, I’m not worried about that; Americans and Brits are merely facing increasing competition from within their accustomed domain rather than from without.

The English language, which has just 379 million native speakers, is spoken at a useful level by some 1.7 billion people, according to the British Council. That has long ensured that U.S. and U.K. voices are heard louder than any others.

There is no indication that the language’s popularity is declining despite the recent damage to the two countries’ soft power. Last year, the British Council forecast that the number of potential learners in Europe will decline by 8.8 percent, or some 15.3 million, between 2015 and 2025. Brexit has nothing to do with this: the expansion of English teaching at schools is expected to cut demand for the organization’s courses. Overall, the market for English in education is predicted to grow by 17 percent a year to reach $22 billion in 2024. That, in large part, is thanks to insatiable demand in Asia.

I learned it in the Soviet Union. I have to admit I did it because of British and U.S. soft power: I wanted to understand rock song lyrics, watch Hollywood movies in the original, and read books that weren’t available in translation. But that wasn’t the reason high-quality instruction was available to me in Moscow in the 1980s: English was the adversary’s mother tongue. Russian President Vladimir Putin is no fan of the U.S. or the U.K., but he has learned their language well enough to speak to other foreign leaders without a translator.

It’s impossible to avoid: 54 percent of all websites are in it. The next most widespread language is Russian, with 6 percent. The most popular translation requests on Google all involve English. The global academic community speaks it, and not just because U.S. and U.K. universities are important: If they all closed tomorrow, scholars would still need a common tongue, and they aren’t going to vote to adopt another one.

Nor will the global political community. The European Union is a case in point: After Brexit, English could lose the status as one of the bloc’s working languages because no remaining members use it officially. Yet the legal departments of all the EU governing bodies have agreed that it can retain its status on the rather thin argument that it’s used in Irish and Maltese law. It’s also the lingua franca for all the Eastern European officials who have never learned French or German. Even after Brexit, it will share with German the status of the most widely spoken language in the EU – that is, as long as one takes into account non-native speakers.

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Á tramoço e minuins

«Hoje temos “esta grande controvérsia do acordo ortográfico”, mas “os romanos já tinham resolvido isso”, ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta.»

Ou não disse exactamente isto ou, se, ainda que vaga e confusamente, proferiu tal bacorada, então  estamos perante um número circense — abrilhantado pelo inerente “palhaço rico” — que ficará decerto nos anais, salvo seja, do anedotário gramatical. 

Eu cá, notório ignorante (e insuportável fã de minhoquices), confesso que nunca ouvi alguém a pronunciar seja o que for de outra forma que não “na oralidade”. Como debitar asneiras, por exemplo, sem as deitar pela boca fora? Linguagem gestual, claro, pode ser, mas isso não é bem “na oralidade”. E então? Como pronunciar (ou omitir na pronúncia) “certas letras que aparecem na escrita culta” (ou na escrita inculta, “tipo” menus das tascas) sem ser pela “oralidade”? Fala-se pelas orelhinhas? Utiliza-se qualquer outro orifício corporal para “soprar” umas letrinhas (e omitir outras)?

Insondável mistério. Estou sem palavras. E nem sei por que buraco as faria sair, caso me ocorresse algo para dizer a respeito.

A tautologia, de um ponto de vista gramatical, possui — ao contrário da escatologia, na acepção biológica que remete para a coprofilia, longe vá o agoiro — uma piadética intrínseca de impagável hilariedade. Redundâncias tão comuns como subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora ou opinião pessoal, por exemplo, constituem uma espécie de 1.ª Classe do Ensino Primário, de tal forma são… primárias. Mas formulações pleonásticas como esta, “pronunciar na oralidade”, ah, bem, isto é realmente de outro nível, é pleonástico majestático, é abundantemente redundante, é coisa para sair no exame não da 1.ª mas da 4.ª Classe, ou então ainda mais arriba, upa, upa. 

Escreviam como falavam“, afirma Lourenço. Vai daí, toca a “desempoeirar” a gramática latina que, segundo garante, “será para todos“. Argumentum ad baculum, bem entendido, que estendem acordistas por arrevesada analogia sobre o AO90: “escrever como se fala”, “o que não se pronuncia não se escreve“, “facilitar a aprendizagem“, é isso o que significa “desempoeirar” no hiper-acordista jargão TAP (Tretas para Aldrabar Pategos).

Bom, vejamos: se houver por aí quem passe bem sem semelhante coisa, quem aprecie “poeira” na sua gramática e estime “empoeirados” todos os seus livros, pois então que levante o braço.

o/ 

A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos

| Livros | PÚBLICO, 18.02.19

Nova Gramática do Latim irá para as livrarias a 15 de Março numa edição da Quetzal. Agora o sonho do Prémio Pessoa 2016 é… fazer uma gramática do grego.

A gramática latina mais usada em Portugal teve a sua primeira edição há mais de 50 anos e reflectia ainda os programas e as metodologias do ensino do latim nos liceus antes do 25 de Abril. Mas a partir de 15 de Março estará nas livrarias portuguesas a Nova Gramática do Latim, um volume de 500 páginas preparado por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa em 2016, docente de línguas clássicas desde que se licenciou, em 1988, tendo começado o seu percurso profissional como professor de Latim no ensino secundário. A novidade foi apresentada esta segunda-feira de manhã pelo director editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, e pelo próprio Frederico Lourenço, num encontro com os jornalistas na Cinemateca, em Lisboa.

“Não sou o primeiro tradutor português da Bíblia a publicar em simultâneo uma gramática de latim porque no século XVIII António Pereira de Figueiredo, o primeiro tradutor da Bíblia completa para português, também foi autor de uma gramática de latim muito utilizada ainda no século XIX”, contou Frederico Lourenço aos jornalistas.

Essa gramática “foi feita com aqueles parâmetros que eram habituais no século XVIII e XIX, em que o latim fazia parte da escolaridade”, lembrou. “Hoje uma gramática como a de António Pereira de Figueiredo não seria útil para ninguém. Era necessário pensar numa gramática do latim feita noutros termos e foi isso justamente que eu quis fazer”, acrescentou Lourenço.

O novo volume será uma gramática moderna e actualizada destinada aos professores e alunos do ensino secundário, aos universitários e também a quem não sabe nada daquela língua mas gostaria de poder olhar para um excerto em latim e perceber o que lá está escrito.

“Muitas pessoas gostariam de saber latim – até pessoas que não estão ligadas às Letras. Outras – historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos, filósofos e lusitanistas – têm consciência de que deveriam saber (bastante mais) latim. E outras, ainda, estão de facto a aprendê-lo em Portugal, na escola ou na universidade, mas sem se darem conta de que, muito provavelmente, usam recursos para o estudo do latim que ainda reflectem, em pleno século XXI, os programas e as metodologias dos liceus no tempo da ditadura de Salazar. Este livro pretende oferecer a todas estas pessoas uma gramática nova, cujo objectivo é sistematizar de forma desempoeirada os tópicos essenciais para a leitura de textos latinos em prosa e em verso”, escreve, no Preambulum deste livro, o seu autor, que está a fazer a tradução mais completa da Bíblia para português e é também tradutor da Odisseia e da Ilíada (e das respectivas versões para jovens).

“Escreviam como falavam”

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500 anos Barreiras (em pista coberta)


Já começamos a ficar um bocadinho fartos deste bacano (termo aqui aplicável com a devida carga de dignidade parlamentar) mas, dado voltar ele à carga com o seu querido “valor da língua” (este também só vê cifrões, como o Tio Patinhas) e com mais uma declaração de amor dedicada à sua verdadeira pátria, a terra do samba, bom, assim sendo, atão váláver o que lá vem desta.

Pois parece que, por entre dois ou três novíssimos “argumentos”, esgalha Barreiras, neste seu segundo textículo a seguinte verdadeira pérola de cultura: «No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo.»

Eisch! C’um caneco, bálhamedeus, etc.! Isto é mesmo fantástico. Uma descoberta sobre as Descobertas, mas que maravilha: no ano 1500, “por coincidência” aquele em que Cabral largou âncora em terras de Vera Cruz, éramos só um milhão, no total, mas agora — certamente, evidentemente, devendo-se tão extraordinário fenómeno (demográfico) ao Brasil — somos para cima de um ror de gente a “falar português no mundo”, eia, há quem aponte para 240 milhões, ou assim, números redondos.

Descobriu Cabral o Brasil há 500 anos e descobre agora Barreiras que a História deu um salto de cinco séculos, em 1500 a população total do planeta não era afinal de 500 milhões. Deixemos os pormenores insondáveis (a Revolução Industrial, a máquina a vapor, a “pílula”, a mecanização maciça, a vacinação, )  para quem sabe umas coisas, como é o notório caso de Barreiras, ele há-de ter informações fidedignas sobre o senhor Taylor, o senhor Ford, o senhor Von Braun e outras personagens inventadas pelos suspeitos do costume.

Há 500 anos nós éramos “só” um milhão e agora somos mais de 260 milhões de “lusófonos”, eis a tese de Barreiras, de 1 vamos num pulinho a 240+IVA, e que se não fosse o Brasil mai-lo milagroso “acordo ortográfico” continuávamos a ser aquele triste milhãozito, e pronto, não se fala mais nisso, adiante.

Nota, porém, Barreiras, neste seu artigalho, com tremendo susto, que a coisa  terá emperrado algures. Chega mesmo ao inusitado ponto, Barreiras, de se queixar com excruciante amargura que é preciso  «resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto?»

Pois, Barreiras, ainda bem que pergunta.

É, Barreiras. É um nado-morto.

II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?

Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol.

«Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios».

Nicolau Maquiavel

No que respeita à aprendizagem de línguas estrangeiras, os dados disponíveis atestam que, ao contrário do percepcionado, não são muitas as pessoas na Europa que aprendem (aprenderam) e falam línguas estrangeiras (inglês e outras). Em 1970, 25% dos portugueses não sabiam ler e escrever. Essa percentagem é actualmente de 4% (ou seja, ainda meio milhão de pessoas com idade entre os 18 e os 65 anos).

No ranking EPI (English Proficiency Index) de 60 países, Portugal é o 14º (igual à Alemanha e Suíça) entre os melhores, apesar de tudo, a falar inglês. Os melhores são a Suécia, a Noruega, a Holanda, a Estónia, a Dinamarca, a Áustria e a Finlândia; os piores são o Chile, Marrocos, Colômbia, Equador, Venezuela, Jordânia, Tailândia, Arábia Saudita e Iraque.

Da Europa, os piores a falar inglês são os franceses e os italianos. No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo. Em 2019, em todos os continentes, são mais de 260 milhões os que hoje falam português. Mais do que nós, nas línguas europeias, só o espanhol e o inglês. Em 2100 serão 400 milhões os falantes de português em todo o mundo. No Facebook e no Twitter, o português é a 3ª língua mais utilizada, e na Internet é a quarta. Países como o Senegal (que as estimativas assumem ir ter um grande aumento da população) já tem quase 50 mil alunos a aprender o português.

Em setenta dos quase duzentos países que o mundo tem, existem actualmente mais de duzentos mil estudantes de português. Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol. Na China, a aprendizagem e o domínio da língua portuguesa estão em grande expansão e não só através de Macau. O português, língua com mais de oitocentos anos (desde o século XII), tem sido ao longo dos séculos um instrumento de identidade de vários estados e comunidades politicamente organizadas.

O monolinguismo, enquanto uma espécie de analfabetismo do século XXI, não pode servir para acabar e secundarizar (e/ou matar) línguas e dialectos. Antes pelo contrário. No caso do português, temos de ser mais inteligentes e corajosos na sua afirmação enquanto língua de poder. Língua falada e oficial nos principais fóruns internacionais (Nações Unidas, FMI, OCDE, Organização Mundial de Turismo, Organização Mundial do Comércio, Vaticano, etc.). O poder regulatório das políticas linguísticas à escala mundial tem um caminho a fazer e muitos objectivos a atingir.

Fora de Portugal, a língua portuguesa não pode ser apenas uma língua de ‘rua’, do ‘café’, do ‘centro comercial’, etc. Tem de ser também e acima de tudo uma língua da diplomacia, da economia, das cimeiras internacionais.

E neste domínio há muito a fazer. Desde logo, resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto? E já agora, quem cuida da ortofonia? E quem explica a alguns dos nossos ricos e profissionais das bolsas de estudo que não devem esquecer a sua língua materna? Isabelle Oliveira, vice-reitora da Sorbonne, diz que «um cientista que abandone a língua que lhe é mais familiar para realizar o seu trabalho nunca poderá alcançar o seu pleno ‘potencial’». Porque o valor das línguas maternas no mundo científico é muito relevante.

O dia 5 de Maio é o dia internacional da língua portuguesa. O dia 8 de Setembro é o dia internacional da literacia. Saibamos estar à altura não só da importância de ambas as datas mas também de projectar a importância do seu significado. Num tempo desafiante, em que o monolinguismo não pode significar o analfabetismo do nosso tempo – e o esmagamento da generalidade das línguas por uma língua dominante. Em particular, pelo inglês.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral. Semanário “Sol”, Feliciano Barreiras Duarte, 18.02.19, II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?. Destaques e sublinhados meus.As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

Gráfico de Keith Montgomery, Department of Geography and GeologyUniversity of Wisconsin USA

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Não invocarás o nome de Deus em vão de escada

Muito bomEkbom, 1981 texto, este de Nuno PachecoNuno Pacheco, jornal “Público”, 2019. Com muita pena minhaO Peninha [n. Fethry Duck], Walt Disney, 1964, nunca viStevie Wonder, “I Just Called To Say I Love You“, mil novecentos e oitenta e picos um único cagãoAntónio Lobo Antunes, O Próprio, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2119 que não enchesse qualquer das suas grandessíssimas merdas(como diria Miguel Esteves Cardoso, um bacano à séria) com um monte de citações ou de referências a uns gajos de quem nunca ninguém ouviu sequer falarDomingos Monteiro, 1903 e que os próprios cagões(“tipo” João Baião mas em versão por escrito, iach, que horror) jamais leram, aquilo é tudo a fingir, a ver se cola, uns nomezinhos catitasEça de Queirós, “Cartas de Inglaterra”, ed. Ferro&Filhos, Rua de S. Paulo, 14, Lisboa, 1888 para tentar impressionar o pagodeMao Tse-tung, 1949.

Uma finalidade subsidiária da referencite aguda (ou bibliografite mórbida) é esconder a ignorância dos próprios, daqueles cromos que se dizem “autores” mas que nem ler sabem, quanto mais escrever; destarte (adoro escrever “destarte”, é muntafixe e dá imensa pinta de jurista), sepultando a sua triste prosa, o seu exíguo domínio da Língua e, sobretudo, a sua assustadora pobreza de espírito, sob diversas camadas de nomes sonantes e polvilhando toda a superfície da sua poia em prosa com umas citações avulsas e desconexas, o vigarista da escrita julga ter ascendido — como se tivesse apanhado um elevador — às alturas estratosféricas onde imagina irá confraternizar com os verdadeiros deuses da Literatura, cavaquear com Eça, estender o bacalhau a Camilo, jogar à bisca lambida com toda a Geração de 70 e até conversar em “estrangeiro” com um Zola, com um Murakami, com dois (ou três) Cervantes.

Não adianta sequer — mais resultará espetar um prego na parede e dar-lhe cabeçadas — tentar fazer ver a tal raça de cretinos que as citações e notas bibliográficas, quando inseridas no corpo do texto, funcionam na leitura como travões a fundo num carro, na compreensão como cubos de gelo atirados às pázadas, na fluidez narrativa como a entrada súbita de um marido ciumento quando estávamos muito entretidos a “conhecer” sua digníssima esposa.

É o mesmo que ouvir música enquanto alguém vai papagueando o nome dos instrumentos (e o respectivo fabricante), como se chama cada um dos executantes (com indicação do respectivo número de contribuinte), qual é o tempo e o tom de cada acorde, que horas são e quando é que se come. Corta o ritmo, raios, estraga tudo, nem assim  entendem?! 

Pobres diabos, tão tristes citadores, sobre os quais é vão e inútil e redundante e, sobretudo, imensamente estúpido perorar. Nem de insultos são merecedores. Ou de que a seu propósito se gaste nosso Latim.

Enfim, vale pelo divertimento. Acho-lhes imensa piada, valha-me Deus.

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações

Nuno Pacheco
publico.pt, 14.02.19
Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento.

Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar.

Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por BBB (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto.

Sobre a Bíblia, há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.”

O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos.

Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado, “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259):

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade?

Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente…” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (…) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.”

É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim…” Infelizmente não é.

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