Categoria: diversos

O barulho dos culpados

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Sob diversos pontos de vista, o artigo transcrito em baixo tem muito interesse. Apesar de ter sido publicado previamente num jornal brasileiro, por alguma razão o “Público” ter-se-á dado ao incómodo de publicar matéria requentada; a qual, aliás, deverá ter sido tão ignorada na Folha-de-couve de S. Paulo como passou despercebida por cá. Talvez por distracção, suponho, à conta das exéquias de Sua Alteza a Rainha Isabel II; ou poderá ter sido por causa da guerra na Ucrânia; ou então devido à canseira que acarretou o “dossier” do tal bicentenário.

https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=256028919860527&id=100063602625538&__cft__[0]=AZX1IjV49bqTmJkcZnsCeF9kAxrj_d9UDSZ1Zwas_-tXzDBuPCeRMHflDB4hc9fJfkqi725XrCN50yNwqG4FQuUEAnOnZO6H6r1yws0lRm_W51CNCEXxD8W8WCDtCXEMjI7Z5JKcbuRUTs74GrRmjmFJxdqSOu9qP63mzyg6p_m33A&__tn__=%2CO*FSemelhante menosprezo por tão “rica” peça é um desperdício, porém. Não acontece muito — mesmo nos tempos mais recentes, em que os acordistas e brasileiristas já nem se ralam a disfarçar — tropeçar na imprensa tuga com tamanha carga de ingenuidade (chamemos-lhe assim), uma espécie de inocência quase pueril. A não ser, hipótese aliás mais provável, que a este autor também já não assista um módico de contenção; não está tudo, mas muito daquilo que realmente se passa está ali escarrapachado.

Os festejos antecipados pela vitória de um candidato a manda-chuva do Brasil e as “simpatias” desse pelos mamíferos que actualmente ocupam as baias de Belém e São Bento; a culpabilização sistemática de Portugal (é um hábito contagioso, a julgar pelo número crescente de infectados) não se sabe bem porquê, mas isso não interessa para nada (faz parte do vício, coisa de rotina); que o apreciador de banhos em água de esgoto é recordista mundial de visitas “de Estado” ao seu país irmão e que aquilo para ele é mais assunto doméstico e familiar e pouco ou nada de Estado e diplomacia. De tudo isto resultará, na opinião do autor do texto, uma putativa aliança entre a República Federativa do Brasil e o estado europeu que, segundo alguns tipos qualificadíssimos, já faz parte da dita federação. Anexação, portanto.

De facto, há por aí uns tipos que, exultantes e um pouco frenéticos, exultam com essa miserável, abominável, insuportável perspectiva — que para os mesmos deixou de ser mera expectativa — e assim julgam-se à vontade para servir em rodízio o escarmento aos apreciadores de miolos salteados.

Portugal precisa do Brasil para ser português?

Portugal, para ser português, precisa de acreditar que exerce algum tipo de influência sobre o Brasil, e que tem o seu respeito. Mas isso não acontece.O Brasil é um país superlativo que nunca reconheceu em Portugal uma prioridade longeva.

Rodrigo Tavares
“Público”, 13.09.22

 

No dia do bicentenário da independência do Brasil, António Costa publicou um artigo de opinião na Folha de S. Paulo para justificar porque é que Portugal se associou aos festejos. Se a presença de Marcelo Rebelo de Sousa era uma inevitabilidade histórica e se a relação entre Portugal e o Brasil “é umbilical”, porquê a necessidade de se explicar? Vários órgãos de imprensa portugueses republicaram acriticamente trechos do texto, mas, no Brasil, passou praticamente despercebido, apesar de ter sido impresso no principal jornal brasileiro.

Nos últimos 200 anos, a relação entre os dois países foi-se modelando, ao longo do tempo, de acordo com oscilantes interesses nacionais, circunstâncias inesperadas, visões ideológicas cíclicas e afeições pessoais entre alguns líderes. Nada que seja incomum nas relações internacionais entre Estados. Mas, no caso do Brasil e Portugal, há um elemento imaterial que torna a relação incomparável e complexa: a consciência auto-induzida, por parte de Portugal, do seu excepcionalismo.

Como ensinaram os republicanos, as identidades colectivas podem ser moldadas. E, ao longo de centenas de anos, a nossa identidade portuguesa foi forjada pela ideia de que a vulnerabilidade do país (pobreza, pequenez territorial e isolamento geográfico) pode ser superada pela heroicidade do seu povo. A função messiânica, o ímpeto pluricontinental, a nossa capacidade miscigenadora e constituição multirracial foram celebradas por Camões, António Vieira, Pessoa, Freyre sem meios-tons. O impulso português para o universalismo, assente em muitos elementos tangíveis e alguma selectividade memorial, está presente em discursos públicos, no baptismo de obras públicas com nomes de navegantes, nos livros escolares.

A partir de 1974, com o fim do império colonial e o enxugamento territorial do país, Portugal apropriou-se da ideia de lusofonia para continuar a irradiar a sua influência pelo mundo. Criou a CPLP, actualmente com nove países-membros. Portugal também é um país europeu e europeísta, mas na Europa voa sem sair do lugar; a sua influência é directamente proporcional à sua vulnerabilidade. É apenas no campo da lusofonia que Portugal tem conseguido consumar a sua identidade universal. O que significa que Portugal, para ser português, precisa de acreditar que exerce algum tipo de influência sobre o Brasil, e que tem o seu respeito.

Mas isso não acontece. O Brasil é um país superlativo que nunca reconheceu em Portugal uma prioridade longeva. E sempre que o Brasil mostra alguma frieza, Portugal contorce-se, retorce-se, desconforta-se e azia-se, enquanto sob[e] o tom para falar “nos laços de amizade que unem dois povos irmãos”.

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Bolsonaro, Temer e Dilma mostraram muita indiferença por Portugal. As passagens pelo país foram poucas e fugidias. Como reagiu Marcelo Rebelo de Sousa? Fazendo seis visitas ao Brasil em seis anos, um recorde que viola códigos diplomáticos de reciprocidade. Marcelo nasceu no berço do universalismo português. Na década de 1960, o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi nomeado governador-geral de Moçambique. Após o 25 de Abril, refugiou-se no Brasil. O avô de Marcelo, António Joaquim, viveu em Angola, depois de também ter trabalhado no Rio de Janeiro. Para o Presidente, as capitais da lusofonia, de Díli a Luanda ou a Maputo, não são capítulos da história portuguesa, mas páginas no álbum de família. O Brasil é um assunto de Estado, mas também é uma memória pessoal.

Consensualizou-se em Portugal a ideia de que a presença do Presidente no bicentenário da independência do Brasil era uma inevitabilidade histórica. As relações são entre Estados e não governantes e o Brasil não se pode esgotar na pessoa de Bolsonaro, um líder consensualmente desdenhado pelos portugueses.

Mas era a presença de Marcelo inevitável? O Rei de Espanha participou nos 200 anos da independência da Colômbia (em 2010), do Chile (em 2010), da Argentina (em 2016) ou da Venezuela (em 2010-2011)? Não. São inúmeros os exemplos em que chefes de Estado de países com tradição colonial não participam neste tipo de cerimónias. A presença de Marcelo no Brasil foi um gesto retórico de um presidente que é particularmente sensível à importância de manter o Brasil dentro de uma certa esfera de influência. A sua 6.ª visita ao Brasil foi mais importante para os portugueses do que para os brasileiros.

Mas está a relação entre Brasil e Portugal condenada a ser um rendilhado de insígnias, um permanente pretérito perfeito, um discurso panegírico? À coluna, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil Celso Lafer (1992, 2001-2002) salienta que os dois países sempre conseguiram encontrar “convergências úteis” sobre temas pontuais, principalmente quando há afinidade pessoal entre líderes luso-brasileiros. F.H.C. nutria muito apreço por António Guterres e Jorge Sampaio, o que facilitou a intervenção de Portugal, na União Europeia, para que o Brasil não fosse prejudicado pelo surto da doença das “vacas loucas” em 2001-2002. A boa relação entre Lula e José Sócrates ou entre os ministros Celso Amorim e Luís Amado e Celso Lafer e Jaime Gama são outros exemplos. Mas o Brasil é pragmático e transnacional. É condescendente com a retórica universalista portuguesa apenas quando vê a possibilidade de extrair dividendos específicos.

E o futuro? Uma eventual vitória de Lula abrirá um campo de novas oportunidades. Se cumprido o programa eleitoral, a sua política externa será vigorosa. Enquanto o vice-presidente Alckmin arrumará a casa interna a partir do palácio do Jaburu, Lula tentará arrumar o mundo a partir do Planalto.

Em declarações à coluna, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado (2006-2011) reforçou que estamos a atravessar uma “reconfiguração geopolítica de larga escala”. Enquanto o Norte Global obedece a uma lógica binária que opõe países democráticos a Estados autocráticos, o Sul Global tem uma visão mais utilitarista e menos principiológica das relações internacionais. Quando a expulsão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi a votos, em Abril, 82 países do Sul puxaram o travão de mão, incluindo a Indonésia, índia, México e China. Estes países têm mostrado uma posição neutral no conflito Ucrânia-Rússia. Estimativas de bancos e consultoras europeias indicam que, em 2030, sete das dez maiores economias do mundo serão do Sul Global, incluindo as duas primeiras (China e índia). As declarações públicas de Lula, nunca criticando taxativamente a Rússia, estão alinhadas com este novo contexto, facilitando a sua ascensão como líder do Sul Global. Hoje o trono está vazio.

Surge, assim, uma oportunidade para Portugal forjar com o Brasil de Lula uma aliança de futuro, ao servir como um dos países do Norte Global que é capaz de construir pontes com o Sul. Se actualmente os dois hemisférios são o contraponto um do outro e estão envoltos por um manto de animosidade, Portugal e o Brasil podem ser interlocutores estratégicos numa missão que extravasa a relação bilateral. Ao dar a Portugal acesso a novos espaços de influência a sul, o Brasil ajudaria, agora com outros contornos, os portugueses a envigorarem a sua idealização universalista e a perceberem que o ideário da lusofonia também tem limitações. A língua portuguesa é um poderoso instrumento de unificação entre países, mas também é uma divisa que aparta povos. Portugal e o Brasil podem ser maiores do que o seu idioma comum.

Rodrigo Tavares
Prof. catedrático convidado na Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE)

«Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo e republicado,
com actualizações, ao abrigo de uma parceria com o PÚBLICO»

[Transcrição integral (da edição em papel) de artigo da autoria de Rodrigo Tavares no jornal “Público” de 13.09.22.
Destaques, sublinhados e “links” (e emendas) meus. Inseri imagens no bloco de citação.
Imagem de topo (do filme “Hannibal”, de Ridley Scott) de: YouTube. Imagem de topo de: PNGitem.]

«Não irmão mas sim filho» [por Octávio dos Santos, “DN”]

Não irmão mas sim filho

Octávio dos Santos

“Diário de Notícias”, 7 de Setembro de 2022

O Brasil celebra hoje, 7 de Setembro de 2022, 200 anos de independência. É uma data muito importante, realmente histórica, pela qual Portugal é o primeiro país a dar os parabéns e a desejar «feliz aniversário». Ao país irmão? Não, ao país filho. Sim, porque o Brasil é uma completa, total, criação de Portugal, que foi tanto «pai» como «mãe» entre 1500 e 1822…

… Período durante o qual sucessivas gerações de portugueses, cujo maior representante, símbolo, terá sido o Padre António Vieira, trabalharam para fazer da Terra de Vera Cruz a mais bela, a mais rica, quiçá perfeita, nação do planeta. Alargaram o território para além do Tratado de Tordesilhas e assim conquistaram praticamente todo o Amazonas, floresta e rio. Aos povos nativos juntaram europeus e africanos, criando condições para uma autêntica, e profícua, miscigenação. Deste lado do Atlântico levaram inclusivamente pedras com que se construíram fortalezas e igrejas. Providenciaram uma língua que constituiria o principal suporte da identidade e da unidade nacionais. E, algo de incrível nunca acontecido, visto, antes nem depois, fizeram da colónia o centro do império, Rio de Janeiro a substituir Lisboa como capital e metrópole, e a seguir permitiram que a família real portuguesa se tornasse também a brasileira, com o «Grito do Ipiranga» do herdeiro do trono a anunciar o «corte» do «cordão umbilical». Que se fez sem revolução, sem guerra, assim possibilitando à nova nação iniciar o seu próprio caminho sem drama, sem tragédia. Os brasileiros teriam preferido que tivesse acontecido o mesmo que nas independências dos Estados Unidos e da Argélia, marcadas por confrontos longos e sangrentos com, respectivamente, a Grã-Bretanha e a França? Sim, não se duvide: tudo o que de bom o Brasil teve e tem deve a Portugal. Pelo que não se compreende e não se aceita que, ainda hoje, tantos brasileiros, desde cidadãos mais ou menos anónimos a figuras públicas mais ou menos conceituadas, insistam no insulto de que os problemas que a sua pátria sofre(u) sejam culpa de Portugal. Tanta estupidez, tamanha falta de respeito, tal demonstração de ignorância, imaturidade e ingratidão, devem ser condenadas sem hesitação e sempre que se manifestem.

Nós deixámos de ser responsáveis por eles desde 1822, directamente, e desde 1889, indirectamente, quando D. Pedro II, após (e por causa de) abolir a escravatura, foi deposto enquanto chefe de Estado, e com ele a monarquia brasileira. Na verdade, os dois países foram, e são, prejudicados por repúblicas, ambas instauradas por golpistas fanáticos e minoritários, que não cumpriram plenamente o que prometeram, ou seja, ordem e progresso. Uma das áreas em que a desordem e o retrocesso mais se fizeram, e fazem, sentir é a da ortografia. As repúblicas de ambos os lados do Atlântico são reincidentes em obsessivas e absurdas «reformas» e (des)acordos quanto à forma de escrever, iniciativas que desvalorizam, enfraquecem, um vital instrumento de comunicação, com (más) consequências visíveis, inegáveis, nas culturas de ambas as nações. O maior extremismo, e até terrorismo, neste âmbito veio do Brasil em 1943, quando a ditadura de Getúlio Vargas consagrou um radical e generalizado corte de consoantes «mudas», ceifando as raízes latinas, que cobardemente as mais altas (ou baixas?) instâncias oficiais portuguesas viriam a «adotar» através do AO90. Os dois países são, neste aspecto, duas insólitas e ridículas, risíveis, excepções em todo o mundo civilizado, duas «repúblicas das bananas» típicas do Terceiro Mundo, terrenos férteis para o surgimento de «vanguardistas» patéticos que não hesitam em sacrificar os verdadeiros interesses, a estabilidade e o bem-estar da maioria dos seus compatriotas em favor de um falso progresso, de utopias que acabam por se revelar, inevitavelmente, como distopias. E tanto deste lado do Atlântico como do outro a «justificação» tem sido a mesma: simplificar e «facilitar» a aprendizagem; porém, tais objectivos não – nunca – foram atingidos, como o atestam os crónicos e elevados índices de analfabetismo e de iliteracia nas duas nações.
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Operação coração (1990-2022)

https://www.dn.pt/sociedade/coracao-de-d-pedro-no-brasil-causa-polemica-e-memes-oposicao-questiona-viagem-15113362.html

Retórica. Pura retórica. Fulanos como este “diretor” da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira limitam-se a tentar embelezar uma coisa muito feia — por definição, os negócios — com um palavreado que acham “muito lindinho”. Para o efeito, utilizam uma triste macaqueação daquilo que julgam ser o “estilo” das pessoas que sabem escrever. O resultado, como mais uma vez se verifica e comprova, é sumamente confrangedor.

O indivíduo, por inerência de funções enterrado até ao garruço nas negociatas da brasileirofonia (“lusofonia”, para os crentes), papagueia um estendal de loas e encómios à “terrinha” — enquanto diminui e amesquinha Portugal o mais que pode: destila mimos como «país pequeno e demasiado envelhecido» e reduz “isto” a «quadras de vôlei de praia» onde «só falam de Jorge Amado» e a «praias e ruas de Cascais» que «só declamam Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes».

Christiaan Neethling Barnard was a South African cardiac surgeon who performed the world’s first human-to-human heart transplant operation. Wikipedia

A pretexto da recente viagem do miocárdio e adjacências de D. Pedro IV, este jogral pós-modernista escreve um textículo sobre o pretenso “amor” que tugas dedicam a zucas e, “portanto”, usando para o efeito a velha escola romântico-viscosa, conclui que esse “amor” está depositado ou aloja-se algures na abstracção de um coração concreto (além de ligeiramente morto). Mas que belas imagens, realmente, olha que isto sim, senhor, é d’homem: ai, o amor, o amor, ai o coração, aiai. O “amor” que, note-se, “apenas” refere por quatro vezes enquanto que o substantivo “coração” merece nada menos do que 22 (vinte e duas) menções expressas — bem, é de mestre. Realmente, num texto sobre o coração do Rei português que anda em bolandas pelos brasis, nada mais cirúrgico, verbal e estilisticamente falando, do que — por entre golpes de inatacável lógica da batata e de avassaladora paixão pela palavra — associar amor a coração à razão de 4 para 22… mais ou menos. Será essa, portanto, talvez factorial de 88, a relação algébrica formulada para demonstrar o resultado do inamovível afecto do lado de cá pelo lado de lá e da esmolinha que de lá para cá nos chegará (segundo o autor) sob a forma de algum “afeto” em troca.

Tal litania de insuportável condescendência ameaça seriamente transformar-se no paradigma daquilo a que em Português se chama vulgarmente “graxa”, quiçá merecendo inclusão nos programas curriculares das nossas prestigiadíssimas Faculdades de Letras.

Dali virão decerto a sair os encanudados que doravante se encarregarão de fazer rebrilhar as botas dos “coroné”. Porque, na verdade, graxistas brasileiros há poucos, a coisa costuma ocorrer em sentido inverso, se bem que muito raramente atingindo tal vigor na bolinação, ou seja, são tugas os maiores engraxadores dos brasileiros mas nem esses vão tão longe no descaramento.

O AO90 foi e é o exemplo mais flagrante desse primordial esfregar de calçado a fregueses brasileiros e assim ressurgiu em Portugal a profissão de lambe-botas. Há mestres desse ofício por todo o lado, em especial nas redondezas das academias, nos milieux político em geral e parlamentar em particular, nas direcções de jornais subsidiados e OCS avençados em geral.

Jamais poderia El-Rei D. Pedro IV sequer imaginar que o acto de doar em testamento o seu coração à cidade do Porto, em sinal de agradecimento pela coragem e pelo apoio que a cidade deu a ele mesmo e à causa liberal, seria usada 198 anos depois como arma de arremesso e propaganda política, primeiro, e como manobra de intoxicação da opinião pública, depois.

Viagem do coração de d. Pedro 1º é metáfora doce em momento histórico

José Manuel Diogo
Folha de S. Paulo” (Brasil), 25 Agosto 2022

 

Setembro de 2022. Estamos com o coração nas mãos. Não há mais coração que aguente. Bate, coração. Aguenta, coração! O que os olhos não veem, tu não sentes. E, mesmo estando de coração partido, sempre podemos fazer das tripas coração. Vamos abri-lo, tê-lo ao pé da boca ou apenas segurá-lo em nossas mãos?

Se o amor é uma questão de coração, não há dúvida que o Brasil ama Portugal e Portugal ama de volta. Fazer viajar um coração com 224 anos de idade, sobrevoando um oceano, dentro de um frasco de vidro, para ser recebido com honras de Estado, só se justifica por amor.

É claro que vão existir clamores, maus humores e aproveitamentos políticos, mas a verdade única e indesmentível é que os dois países não estão unidos apenas pela história, eles se gostam e se amam —e comprovadamente têm o mesmo coração.

Algum outro país da América (quiçá do mundo) pediu emprestado o seu coração? Nunca. Muitas cabeças foram perdidas, em bandejas de prata, na ponta de sabres, na fúria das guerras. Mas um coração, não. Isso é amor.
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“Pauta/e/o/x”? O/e/a/x que é isso/e/a/x?


pôr-da-Sola em Timor-Leste

De vez em quando tropeçamos numa qualquer excrescência que, não sendo concretamente sobre o AO90, dele depende como se fosse um sub-produto. Destes ressalta a celebérrima TLEBS, essa procissão de inventiva estupidez, e também, mais recentemente, a não menor indigência designada como “linguagem inclusiva”.

É sobre esta última imbecilidade o texto seguidamente transcrito, da autoria de Madeleine Lacsko, escritora, jornalista e “youtuber” brasileira.

Existem de facto relações, salvo seja, entre, o “acordo cacográfico” e a tal “linguagem inclusiva”. Aliás, pensando melhor, se contarmos também com a TLEBS, então teremos um threesome linguístico, salvo seja de novo, tudo a ter relações entre si, trocas e baldrocas em simultâneo, num imenso inferninho. O que resume perfeitamente as taras dos intervenientes, destes três e de quem os pariu, consubstanciada na ideia única de “fecundar” a Língua com requintes de malvadez, entre acessos de paranóica lascívia.

Note-se a similitude da “argumentação” que, segundo os próprios, “explica” a necessidade tanto da “inclusão” como da… acordização: «a linguagem evolui», «reforma imediata e abrangente da grafia», «desenvolvimento da linguagem».

Do mesmo modo, note-se também como são exactamente iguais alguns dos argumentos que as pessoas normais costumam utilizar — por regra e em ambos os casos, sem grande sucesso, dada a solidez do muro de boçalidade em que esbarramos — para refutar a “argumentação” dos inclusivos e dos acordistas: «uma injunção brutal, arbitrária e descoordenada, que ignora a ecologia do verbo», «forçar quem não quer a usar a tal linguagem ou oficializar um idioma por vias tortas», «violam os ritmos do desenvolvimento da linguagem». Como se vê, as razões que Lacsko aponta para pegar fogo à palha que é a “linguagem inclusiva” aplicam-se, ipsis verbis, à golpada (igualmente) política que é a “língua universau“.

Todas as citações foram copiadas do texto abaixo transcrito, escusado será dizer. A respeito do qual, devo confessar, apenas não entendi o título — porque desconheço o que significa a palavra “pauta”, em língua brasileira — e também, de forma abrangente, não percebo a que propósito (ou com que propósito) surge esta enigmática formulação: «Assim como os países de língua portuguesa, os países de língua espanhola têm um acordo ortográfico em comum.»

Assim, com tão estranha observação, a fluidez da redacção é abalada e a lógica intrínseca (e extremamente simples) do texto fica bastante comprometida. Aparentemente, terá sido um simples lapso da autora, um despropósito totalmente desgarrado da lógica discursiva, do contexto e, em sentido lato, do conteúdo, mas, a julgar pelo que diz no parágrafo imediato, haveria alguma relação de causa e efeito ou outra coisa qualquer, vá-se lá adivinhar o quê: «Esse movimento de “inclusão” decidiu tirar todos os demais países da discussão e também o próprio povo argentino. Pode funcionar para mobilizar a opinião pública até que a economia tenha alguma luz.»

Bem, cá está de novo, tais palavras assentam como uma luva ao acordo cacográfico mas pouco ou nada terão a ver com a tal “linguagem de género”.

As palavras não têm sexo. O género não passa de uma flexão verbal (ou tipo nominal), como o tempo e o modo ou o número e a pessoa. Categorias ou classes gramaticais não são subordináveis, ao invés das sociais, a ditames ou imposições ideológicas.

Por mais racionais que sejam as ideias que delas se servem para fazer vingar um conceito ou para aniquilar outro, as palavras são e estão por definição imunes aos tropeções inconsequentes da História. Tão imunes como a própria História, que não existe sem elas e que em tempo algum e de modo nenhum se muda por decreto.

Linguagem de gênero neutro não é inclusiva nem pauta séria

 

noticias.uol.com.br, 04/08/2022
MadeleineLacsko

 

Não bastou a Alberto Fernández a tradicional solução argentina de escolher um superministro para salvar o país do caos econômico. Ele inovou oficializando, ao mesmo tempo, a linguagem de gênero neutro no governo nacional.

Jair Bolsonaro até tentou surfar na onda, criticando o presidente argentino pela medida. A diferença seria que o povo ganha “pobreze”, “desabastecimente” e “desempregue”.

Ele está certo, mas a reação nas redes sociais foi a de que o assunto não tem importância e o presidente deveria trabalhar pelo Brasil.

Conheço gente que fica bastante irritada com o uso da linguagem neutra. E também quem realmente tem orgulho de usar e defende a adoção por instituições públicas. São pessoas adultas, o que é estarrecedor.

Os defensores do gênero neutro ou não-binário dizem que ele torna a comunicação mais inclusiva e menos sexista porque não divide tudo o tempo todo nos gêneros aceitos pela sociedade.

Não há nenhuma experiência de sucesso no mundo que mostre isso. O idioma chinês, aliás, é não-binário. Não consta que seja uma sociedade inclusiva.

Gênero neutro é um sucesso estrondoso entre a elite progressista e alguns meios específicos, como o da publicidade. Entre as minorias que supostamente seriam protegidas mas não foram sequer ouvidas está mais para piada.
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Feira do Livro de Lisboa – 2022

A Feira do Livro de Lisboa 2022 realiza-se no Parque Eduardo VII, entre 25 de Agosto e 11 de Setembro, com 140 participantes representando centenas de marcas editoriais, num total de 340 pavilhões. As editoras e entidades assinaladas no mapa são as que editam, promovem e distribuem publicações em Língua Portuguesa.

https://www.google.com/maps/d/edit?mid=17_fEQLMlmVBJhJcTjbh5hjqMZuHSYOI&usp=sharing

Pavilhões de editoras em Português

Alêtheia Editores

D82

R. de São Julião, 140, R/c
1100-527 LISBOA
210 939 748|9
aletheia@aletheia.pt

Âncora Editora

B17

Av. Infante Santo, 52 – 3.º E
1350-179 LISBOA
213 951 221
catarina.ferreira@ancora-editora.pt

Antígona

A42, A44

R. Silva Carvalho, 152 – 2.º
1250-257 LISBOA
: 213 244 170
info@antigona.pt

Edições Avante

A14

Campo Grande, 220 A
1700-094 LISBOA
218 161 760|8
isimoes@paginaapagina.pt

Companhia das Letras

C23, C25, C27, C29, C31, C33, C35, C37, D50, D52, D54, D56, D58, D60, D62, D64

Av. Duque de Loulé, 123 – Sala 3.6
1069-152 LISBOA
911749878
jose.carvalheira@penguinrandomhouse.com

Edições Colibri

A32

Faculdade de Letras de Lisboa
Alameda da Universidade
1600-214 LISBOA
217 964 038
21 931 7499
colibri@edi-colibri.pt
http://www.edi-colibri.pt/

Edições do Saguão

C63

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1150-337 LISBOA
Tmv.: 934 005 585
E-mail: saguao.edicoes@yahoo.com
URL: www.edicoesdosaguao.pt

Editorial Bizâncio

D29, D31

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1600-487 LISBOA
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Fax: 217 520 072
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URL: www.editorial-bizancio.pt

E-Primatur

D76, D78, D80

R. Oceano Atlântico, 5
2560-510 SILVEIRA
912 192 454
pbernardo@e-primatur.com

Fundação Francisco Manuel dos Santos

Praça da Fundação
Auditório Sul
C03, C05, C07

Lg. Monterroio Mascarenhas, 1 – 7.º piso
1099-081 LISBOA
938 045 034
snorton@ffms.pt

Gradiva

B68, B70, B72

R. Almeida e Sousa, 21 R/c E
1399-041 LISBOA
vpatinha@gradiva.mail.pt

Guerra e Paz Editores

A46, A48, A50

Rua Conde Redondo, 8 – 5.º Esq.
1150-105 LISBOA
213 144 488
guerraepaz@guerraepaz.net

Livros de Bordo

D33

Rua Frei Luís Chagas, 14 – 2.º Esq.
8500-679 PORTIMÃO
Tmv.: 936 166 181
E-mail: livrosdebordo@gmail.com
URL: www.livrosdebordo.pt
«Nota – Não seguimos o Acordo Ortográfico de 1990.»

Sabooks Editora – Lusodidacta

B29

Sabooks Editora – Lusodidacta – Livros técnicos de saúde
R. Dário Cannas, 5 A
2670-427 LOURES
926 803 798
http://www.lusodidacta.pt/

Maldoror

D22

Rua Heliodoro Salgado , 61 – 2.º
1170-175 LISBOA
Tel.: 914 282 659
E-mail: maldoror.livros@gmail.com
URL: www.livrosmaldoror.com

Nova Vega

A20; A22

Rua do Poder Local, 2 – Sobreloja A
1675-156 PONTINHA
217 781 028|217 786 295
info@novavega.pt

Orfeu Negro

A38, A40
Rua Silva Carvalho, 152 – 2.º
1250-257 LISBOA
Tel.: 213 244 170
Fax: 213 244 171
E-mail: geral@orfeunegro.org
URL: www.orfeunegro.org

Sistema Solar

A16: A18

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Lápis azul nas redes anti-sociais [2]

Facebook Standards

O “Código Penal” do Fakebook

Esta é a reprodução do dicionário terminológico do Facebookês, a língua em uso naquela rede anti-social, tipificando onomasticamente tudo o que a casa gasta e também — principalmente — aquilo que à casa rende. “Fala” por si mesma a rigidez terminológica assim determinada, não prevendo qualquer espécie de concessão ou elasticidade, sinónimos ou alternativas.

O que se segue, em bloco de citação, contém o que a “legislação” interna estipula como sendo “Hate Speech” (“discurso de ódio”, na tradução vulgarizada). Escusado será dizer que absolutamente ninguém lê uma só linha de qualquer dos enormes manuais de “Direito” facebookiano, as suas diversas Policies, o “código de conduta” — interna, mas que é aplicada externamente –, os volumes dispersos e os escondidos, os inúmeros documentos de “orientação” e as orientações propriamente ditas, as de pé-de-orelha, tudo muito bem protegido, que de calhamaços também se fazem muros e com sussurros se rosnam ameaças.

Facebook Community Standards

Hate Speech

Do not post:

Content targeting a person or group of people (including all groups except those who are considered non-protected groups described as having carried out violent crimes or sexual offenses or representing less than half of a group) on the basis of their aforementioned protected characteristic(s) or immigration status with:

  • Violent speech or support in written or visual form
  • Dehumanizing speech or imagery in the form of comparisons, generalizations, or unqualified behavioral statements (in written or visual form) to or about:
    • Insects.
    • Animals that are culturally perceived as intellectually or physically inferior.
    • Filth, bacteria, disease and feces.
    • Sexual predator.
    • Subhumanity.
    • Violent and sexual criminals
    • Other criminals (including but not limited to “thieves,” “bank robbers,” or saying “All [protected characteristic or quasi-protected characteristic] are ‘criminals’”).
    • Statements denying existence.
  • Mocking the concept, events or victims of hate crimes even if no real person is depicted in an image.
  • Designated dehumanizing comparisons, generalizations, or behavioral statements (in written or visual form) that include:
    • Black people and apes or ape-like creatures.
    • Black people and farm equipment.
    • Caricatures of Black people in the form of blackface.
    • Jewish people and rats.
    • Jewish people running the world or controlling major institutions such as media networks, the economy or the government.
    • Denying or distorting information about the Holocaust.
    • Muslim people and pigs.
    • Muslim person and sexual relations with goats or pigs.
    • Mexican people and worm-like creatures.
    • Women as household objects or referring to women as property or “objects”.
    • Transgender or non-binary people referred to as “it”.
    • Dalits, scheduled caste or ‘lower caste’ people as menial laborers.

Content targeting a person or group of people on the basis of their protected characteristic(s) with:

  • Generalizations that state inferiority (in written or visual form) in the following ways:
    • Physical deficiencies are defined as those about:
      • Hygiene, including but not limited to: filthy, dirty, smelly.
      • Physical appearance, including but not limited to: ugly, hideous.
    • Mental deficiencies are defined as those about:
      • Intellectual capacity, including but not limited to: dumb, stupid, idiots.
      • Education, including but not limited to: illiterate, uneducated.
      • Mental health, including but not limited to: mentally ill, retarded, crazy, insane.
    • Moral deficiencies are defined as those about:
      • Character traits culturally perceived as negative, including but not limited to: coward, liar, arrogant, ignorant.
      • Derogatory terms related to sexual activity, including but not limited to: whore, slut, perverts.
  • Other statements of inferiority, which we define as:
    • Expressions about being less than adequate, including but not limited to: worthless, useless.
    • Expressions about being better/worse than another protected characteristic, including but not limited to: “I believe that males are superior to females.”
    • Expressions about deviating from the norm, including but not limited to: freaks, abnormal.
  • Expressions of contempt (in written or visual form), which we define as:
    • Self-admission to intolerance on the basis of a protected characteristics, including but not limited to: homophobic, islamophobic, racist.
    • Expressions that a protected characteristic shouldn’t exist.
    • Expressions of hate, including but not limited to: despise, hate.
  • Expressions of dismissal, including but not limited to: don´t respect, don’t like, don´t care for
  • Expressions of disgust (in written or visual form), which we define as:
    • Expressions that suggest the target causes sickness, including but not limited to: vomit, throw up.
    • Expressions of repulsion or distaste, including but not limited to: vile, disgusting, yuck.
  • Cursing, except certain gender-based cursing in a romantic break-up context, defined as:
    • Referring to the target as genitalia or anus, including but not limited to: cunt, dick, asshole.
    • Profane terms or phrases with the intent to insult, including but not limited to: fuck, bitch, motherfucker.
    • Terms or phrases calling for engagement in sexual activity, or contact with genitalia, anus, feces or urine, including but not limited to: suck my dick, kiss my ass, eat shit.

Content targeting a person or group of people on the basis of their protected characteristic(s) with any of the following:

  • Segregation in the form of calls for action, statements of intent, aspirational or conditional statements, or statements advocating or supporting segregation.
  • Exclusion in the form of calls for action, statements of intent, aspirational or conditional statements, or statements advocating or supporting, defined as
    • Explicit exclusion, which means things like expelling certain groups or saying they are not allowed.
    • Political exclusion, which means denying the right to right to political participation.
    • Economic exclusion, which means denying access to economic entitlements and limiting participation in the labour market.
    • Social exclusion, which means things like denying access to spaces (physical and online)and social services, except for gender-based exclusion in health and positive support Groups.

Content that describes or negatively targets people with slurs, where slurs are defined as words that are inherently offensive and used as insulting labels for the above characteristics.

Para que se não misturem conceitos, contaminando uns com os outros, é melhor evitar — pelo menos, para já — quaisquer analogias entre o Fakebook e aquilo que se passa no Twitter. Os princípios basilares são os mesmos, a repressão pura e simples do livre pensamento, a liquidação sumária da liberdade de opinião e expressão, mas os métodos pidescos diferem em diversos aspectos, numa rede e na outra. Atenhamo-nos, por conseguinte, àquilo que é cada vez mais (descaradamente) notório no recreio do puto Mark, esse insuportável fanfarrão, e dedicando particular atenção ao que estão por cá a fazer agentes portugueses com a sua particular maestria na arte da estupidificação em massa. Portanto, de momento, “basta-nos” o Fakebook (incluindo as demais “redes” que o dito puto já devorou, como o Instagram) e quais os métodos pidescos mais utilizados na delegação tuga da chafarica markiana.

Não misturemos também aquilo que vamos vendo e lendo, as figuras públicas (talvez) banidas pela sede de Menlo Park, California — são principalmente americanos, mas há também canadianos, franceses e ingleses, entre outros — e as controvérsias que esses episódios mediáticos geram, com o que se vai passando entre as imensas manadas de gado que pastam na paisagem, as reses pastoreadas pelos portadores da flauta ideológica.
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