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«Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”?» [Polígrafo, 09.01.20]

Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”? – Polígrafo

Espalhou-se pelas redes sociais a imagem de um suposto “tweet” de Abraham Weintraub, actual ministro da Educação do Brasil, no qual terá escrito a palavra “imprecionante”. Em várias publicações remete-se também para outros erros ortográficos do mesmo ministro num documento oficial: “suspenção” e “paralização”. Verdade ou mentira?

“O facto de o ministro da Educação do Brasil escrever ‘imprecionante‘ é, na minha opinião, motivo para que seja demitido imediatamente. É um erro crasso, inadmissível para quem ocupa um cargo tão importante. Eu, como académico e como brasileiro, sinceramente, sinto vergonha. E não é a primeira vez que isso acontece“, sublinha-se numa das publicações em causa, exibindo uma imagem do tweet publicado por Abraham Weintraub.

“Agradeço seu apoio. Mais imprecionante: Não havia área de pesquisa em Segurança Pública. Agora, pesquisadores em mestrados, doutorados e pós-doutorados poderão receber bolsas para pesquisar temas, como o mencionado por ti, que gerem redução da criminalidade”, terá escrito o ministro da Educação, em resposta a um tweet de Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo estado de São Paulo e filho do actual Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Ao longo do dia de ontem, 8 de Janeiro de 2020, propagaram-se nas redes sociais diversas publicações com a imagem do suposto tweet de Weintraub. Em algumas dessas publicações remete-se também para outros erros ortográficos do mesmo ministro num documento oficial: “suspenção” e “paralização”. Confirma-se?

Sim. A história foi confirmada por vários órgãos de comunicação social do Brasil (aqui, aqui e aqui, entre outros exemplos). A mensagem com o erro ortográfico – “imprecionante” – do ministro da Educação consistiu numa resposta a um tweet de Eduardo Bolsonaro, publicado durante a manhã de ontem.

Perante os comentários jocosos que se multiplicaram nas redes sociais, sublinhando o erro ortográfico, Weintraub apressou-se a apagar a mensagem em causa, mas há vários registos fidedignos da mesma.

O ministro apagou o tweet com o erro logo em seguida, mas não conseguiu evitar a repercussão negativa. Em menos de uma hora da publicação, os termos “Imprecionante” e “Ministro da Educação” foram parar nos Trending Topics do Brasil no Twitter”, informou o portal UOL.

Também é verdade que, em Agosto de 2019, Weintraub escreveu “suspenção” e “paralização” num documento que enviou ao ministro da Economia, Paulo Guedes.

“O ministro da Educação, Abraham Weintraub, enviou um documento com erros de português ao ministro da Economia, Paulo Guedes, pedindo mais recursos para sua pasta. No texto, Weintraub explica que as verbas previstas para a Educação em 2020 são insuficientes e alerta para o risco de ‘paralização’. O ministro também cita ‘suspenção’ de pagamentos. A grafia correta das palavras é paralisação e suspensão”, noticiou então “O Globo”.

Em artigo publicado hoje, o portal UOL recorda mais erros do ministro da Educação, nomeadamente quando se referiu ao escritor “Kafta”. “Em Junho do ano passado, Weintraub chamou o escritor Franz Kafka de ‘Kafta’ – prato de origem árabe, semelhante a um espetinho de carne. A confusão gramatical aconteceu quando Weintraub participava de uma audiência no Senado”.

Avaliação do Polígrafo:

Verdadeiro

[Transcrição integral (incluindo imagem, destaques e “links”) de: Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”? – Polígrafo. Autor: Gustavo Sampaio. O texto com a cacografia brasileira do original do “Polígrafo” foi automaticamente corrigido com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

O alçapão das Necessidades

«The Schengen Agreement (English: /ˈʃɛŋən/) is a treaty which led to the creation of Europe’s Schengen Area, in which internal border checks have largely been abolished.» [Wikipedia]

«The Schengen Area is an area comprising 26 European states that have officially abolished all passport and all other types of border control at their mutual borders. The area mostly functions as a single jurisdiction for international travel purposes, with a common visa policy.» [Wikipedia]

Nos dois artigos de jornal que a seguir se reproduzem vemos duas perspectivas sobre o mesmo facto: o Governo português prepara-se para outorgar aos brasileiros a livre circulação no espaço europeu, contornando ardilosamente as regras da própria União Europeia e abrindo assim um alçapão legal (?), uma via de escoamento, uma porta dos fundos para os “excedentes” provenientes daquele país sul-americano. Um privilégio único no mundo!

Agora e desta vez como antes e desde sempre, diligentes funcionários do mistério dos Negócios Estrangeiros, entretêm-se na sua ociosa militância com o intuito único de promover os interesses geo-estratégicos, políticos e económicos brasileiros — ainda que para tal haja que fazer tabula rasa de quaisquer Tratados ou Acordos a que Portugal esteja vinculado enquanto Estado-membro da União Europeia. Sob a longa cauda da CPLP — uma efabulação totalmente inventada por alguns portugueses a soldo do Brasil — trabalha-se com entusiasmo nas Necessidades para resolver as necessidades do Brasil. De facto, caso vingasse a tese — por absurda hipótese académica — da livre circulação na CPLP (ou seja, de brasileiros em Portugal e daqui para toda a UE), então teríamos de sobrepor dois regimes de “livre circulação” que mutuamente se excluem: os negócios do Brasil (com a cidadania portuguesa automática?) e o Acordo de Schengen.   

Usando como capa de ilusionista o “acordo ortográfico de 1990”, o qual consiste basicamente em aniquilar a ortografia do Português e substituí-la pelo garatujar brasileiro, juntam esforços funcionários do MNE e seus apaniguados “teóricos”, teoricamente linguistas teorizando sobre a “legitimidade” dos números (e outras teóricas lindezas), estendendo já passadeiras vermelhas aos novíssimos “cidadãos” europeus, os abençoados pela sorte — tremenda sorte — de terem nascido à sombra de uma imitação do Cristo-Rei do Pragal. 

Mobilidade vai aprofundar sentimento de comunidade na CPLP

| Mundo
Porto Canal com Lusa

 

Luanda, 13 dez 2019 (Lusa) – O acordo de mobilidade na CPLP vai aprofundar o sentimento comunitário na lusofonia, tornando-se um elemento importante pela facilitação migratória e intercâmbio de pessoas, defendeu o chefe da diplomacia brasileira.

para que a CPLP deixe de ser uma sigla que não está presente na vida das pessoas,

Ernesto Araújo disse em entrevista à Lusa em Luanda que “a disposição política é muito favorável” à convenção-quadro sobre mobilidade na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que se prevê assinar em Julho de 2020, na cimeira de chefes de Estado e de Governo, que se realiza em Angola.

“É uma área complexa, a nossa perspectiva é que haja um acordo guarda-chuva e que haja entendimentos bilaterais entre os países para eventualmente ir além do que está no acordo. Iremos trabalhar nisso com os parceiros, Angola especialmente”, declarou.

“Cada país tem determinadas particularidades e é preciso ver quais as demandas que existem em cada fluxo para avaliar as medidas que facilitam esses fluxos” indicou, apontando por exemplo o caso dos estudantes, e acrescentando que o intercâmbio é decisivo para o projecto de envolvimento e desenvolvimento do Governo brasileiro.

O ministro assinalou que a facilitação migratória e o intercâmbio humano são fundamentais também para as práticas económicas, criando redes e laços que elevam os negócios para outro patamar e geram mais contactos.

Questionado sobre as resistências que o Acordo Ortográfico ainda gera nos dois lados do Atlântico mostrou-se inteiramente favorável à sua ratificação por todos os países, para que depois se possam trabalhar eventuais ajustes.

“Mudar é algo complicado”, reconheceu Ernesto Araújo, considerando natural que as pessoas tenham ligação com a maneira como aprenderam a escrever.

“Mas as vantagens ultrapassam eventuais dúvidas que as pessoas tenham”, contrapôs, dizendo que a ausência de uma ortografia comum é complicada para língua que se fala em quatro continentes, de formas diversas.

“A diversidade da língua dá-se pelo seu conteúdo e não pela ortografia”, sublinhou, afirmando que dentro do Brasil também existem diferenças regionais, que enriquecem a língua, mas “é importante que haja unidade ortográfica”.

RCR // VM

Lusa/Fim

Mobilidade na CPLP analisada em Luanda

Jornal de Angola”
Adelina Inácio

Os presidentes dos parlamentos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reúnem, a partir de hoje, em Luanda, para, entre outros assuntos, analisarem o projecto sobre a mobilidade no espaço lusófono.

A IX Assembleia Parlamentar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (AP-CPLP) é aberta pelo Chefe de Estado angolano, João Lourenço e, durante o acto, estão previstas intervenções do presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, do secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Teles, e do presidente da AP-CPLP e da Assembleia Nacional de Cabo Verde, Jorge Pedro dos Santos.

Os parlamentares da CPLP vão ainda analisar a proposta de criação da instância de concertação de jovens parlamentares da comunidade lusófona e alteração do Estatuto da AP-CPLP, no sentido da criação do secretariado permanente da organização, e os mecanismos de financiamentos do seu funcionamento.

A aprovação da proposta de orçamento de funcionamento do secretariado permanente da AP-CPLP e informações sobre os processos eleitorais nos Estados-membros da CPLP constam também da agenda dos parlamentos.

No encontro, que termina amanhã, os parlamentares vão debater vários temas, com destaque para o papel da administração parlamentar na implementação das resoluções do Parlamento do Mercosul, a ser proferido por um representante do Congresso Nacional do Brasil. Um representante da Assembleia Nacional de Cabo Verde vai apresentar o tema “O papel da administração parlamentar na implementação das resoluções do Parlamento da Comunidade dos Estados da África Ocidental”.
Moçambique vai abordar o tema “O papel parlamentar na implementação das resoluções do Parlamento Pan-Africano. A Portugal, cabe apresentar o tema “O papel da administração parlamentar na implementação das resoluções da União Interparlamentar”, enquanto Angola, país anfitrião, vai falar sobre “Reflexões sobre o papel das administrações parlamentares na implementação das resoluções da Assembleia Parlamentar da CPLP”.

Ontem, a Associação dos Secretários-gerais dos Parlamentos de Língua Portuguesa reuniu para analisar o papel das administrações parlamentares na implementação das resoluções de organizações interparlamentares.

O secretário-geral da Assembleia Nacional, Pedro Agostinho de Neri, afirmou que, ao longo da presidência de Angola, o Parlamento angolano fez o seu melhor, buscando experiências de outros parlamentos para que o plano de tarefas aprovado tivesse um índice de cumprimento considerável. “Foi possível realizarmos a maior parte das actividades que constavam do plano e consideramos que foi positivo”, afirmou.

A secretária-geral da Assembleia Nacional de Cabo Verde, Marlene Dias, disse que a associação tem dado um grande contributo para os parlamentos dos Estados-membros. Marlene Dias ressaltou a troca de experiências entre os parlamentos e disse que as mesmas têm servido para o estreitamento da cooperação e fortalecimento dos laços de amizade.

[Imagem de: Parlamento Europeu]

O complexo da metrópole

Eis (mais) um “estudo”, de (mais) uma “investigadora” descaradamente brasileirófila, cuja finalidade única é a promoção da versão propagandística da brasileirofonia. Torna-se então “natural” que a senhora Chatti, armada com tais e tão suspeitas motivações, se entretenha a discorrer inversamente, pondo ao contrário um fenómeno inerente, simples, natural e comum a qualquer ambiente académico, em Portugal, no Brasil ou em Mogadishu.

De facto, só padecendo de miopia mental aguda é possível trocar “brasileiros” — entidade concreta — por “lusófonos” — entidade abstracta — e, destes, com enfoque total nos estudantes brasileiros, servindo os demais estrangeiros como simples engodo político.

Mas não são estes os únicos truques mentalóides da senhora Chatti, evidentemente. Há mais cores no texto além de preto e branco, sobretudo o cinzento — a tonalidade com mais peso cromático na narrativa anti-portuguesa.

“Fala português!”, dizem professores para alunos brasileiros, africanos e timorenses

Há “choque de culturas” e discriminação nas universidades portuguesas relata um estudo sobre o acolhimento de estudantes estrangeiros.

 

Choque de culturas”, “casos de discriminação”, “não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por estudantes lusófonos“, “falta de sensibilização dos professores” – são algumas das conclusões de um estudo da investigadora científica do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa.

Juliana Chatti Iorio, uma brasileira a viver em Portugal há 20 anos, admite que “muita coisa tem sido feita para atrair os estudantes internacionais”, mas alerta para a falta de preparação das universidades para o actual ‘boom’ de alunos estrangeiros que já são a maioria em alguns cursos.

Num artigo intitulado “O acolhimento de estudantes internacionais: brasileiros e timorenses em Portugal”, publicado na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), em co-autoria com Silvia Garcia Nogueira (Universidade Estadual da Paraíba, Brasil), Juliana Chantti disse, numa entrevista à agência Lusa, que não ficou “surpreendida” com os resultados dos estudos.

“Quando entrei para o mestrado, em 2003, havia cinco estrangeiros na minha sala. Era outra realidade. Hoje, há cursos em Portugal que têm mais estudantes estrangeiros do que portugueses, e eu penso que muitas faculdades ou institutos não estavam preparadas para isso”, afirmou. A investigadora considera que estas instituições “não estavam preparadas para receberem esse ‘boom’ de estudantes internacionais e, como tal, o acolhimento fica a desejar”.

Culturas inferiorizadas

“Não me refiro só a logística, mas sobretudo a compreensão das diferentes culturas que pretendem receber. Se estão abertas para receberem estudantes de diferentes culturas, os professores, funcionários, enfim, a comunidade docente e discente tem que estar aberta para conhecer e procurar entender estas diferentes culturas”, defendeu.

A investigadora mostra-se especialmente preocupada com as relações humanas entre os estudantes estrangeiros e os professores, destacando que o choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”.

No artigo lê-se que “a não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.

“Fala português” e o ‘complexo’ da Metrópole

A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.

Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’, ou quando um professor diz que as traduções feitas por editoras brasileiras não têm qualidade“.

“Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.

E, acrescentou, “ainda age como se fosse a ‘metrópole’ a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas ‘colónias’, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.
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Um fenómeno

O relato de uma permanente inquietação: assim nos é apresentado o livro Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio, sobre as origens do português. E essa inquietação levou-o a concluir, aos 74 anos, uma obra a que nenhum linguista ainda se abalançara, embora pudesse tê-lo feito. O que o moveu? “A curiosidade, sem dúvida. E a vontade de ir até onde ninguém tinha ido”, diz Fernando Venâncio ao Ípsilon.

Nascido em Mértola, Baixo Alentejo, a 13 de Novembro de 1944, foram os lugares por onde depois andou (Lisboa, logo aos 2 anos, Braga aos 10, Amesterdão aos 26, formando-se aí em Linguística Geral) que o incentivaram a olhar os fenómenos linguísticos com abertura e ousadia. Foi isso que fez com o português, indo até às suas origens mais remotas, para concluir que “português e galego procediam ambos duma língua única, que durara de 1100 até ao século XV.” (Pág. 93). A história do português, dirá mais adiante, é “em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego” (Pág. 114). Por isso, concluiu, “denominar português qualquer variedade linguística anterior a 1400 é resvalar num anacronismo, e pelo menos numa sofrível incongruência. Até essa data, Portugal utilizou a língua que herdara ao fazer-se independente: o galego.” (Pág. 83) .

Fernando Venâncio tem, em Mértola (onde vive), um vasto arquivo, mas muito do que cita e refere no seu livro é público. “Não andei por arquivos, não limpei o pó a nenhum manuscrito ou obra rara em sombrios mosteiros. Toda a informação aqui reunida estava disponível. Era, e é, pública.” (Pág. 43) “Tenho muita coisa e muita já está digitalizada”, diz agora. “Mas dá muito trabalho. E é preciso estar disponível, em todos os sentidos. E o nosso establishment linguístico não está disponível. Há pessoas disponíveis, sem dúvida nenhuma o Ivo Castro, que é o gigante em cima de cujos ombros eu me ponho, e também a Esperança Cardeira, com a sua pequena mas importantíssima afirmação de que muita coisa se passa antes de Portugal, antes do português. Se eu tivesse que lutar sozinho contra os mitos feitos, não sei se tinha coragem. Mas houve muita gente que fez trabalho antes de mim. E disso aproveitei-me bem.” Ou, como escreve: “Fiz aquilo que há muito pedia para ser feito: somar dois e dois.” (Pág. 43)

Outra coisa o motivou: “O contacto com a Galiza foi muito importante, assim como o debate que mantive desde 2004 e fechei agora, com o Portal Galego da Língua. Nenhum português ficou lá mais do que uns meses. Eu mantive debates contínuos e muito sérios e aprendi é que o que pensamos ser óbvio não é óbvio. Sobretudo para interlocutores sem vontade de mudar.

Da Galécia aos lusitanos

Na apresentação do livro, Esperança Cardeira, professora e investigadora em Linguística Histórica, chamou a essa língua comum, de onde vieram o galego e o português, “romance [idioma românico] da Galécia Magna”. Venâncio concorda com a designação: “Seria mais exacto do que galego, mas eu uso o termo galego por uma espécie de justiça.” Um tributo de reconhecimento. “A Galécia chegou a Coimbra, mas a língua não; a língua formou-se até ao Douro com umas surtidas só até à Ria de Aveiro. Praticamente todos os autores das cantigas de amigo eram galegos. E os portugueses escreviam-nas como os galegos, ao estilo deles.

Nos debates que foi mantendo com a Galiza, apercebeu-se que os radicais galegos “têm um complexo de inferioridade tremendo. Durante séculos, mas sobretudo durante o franquismo, eles tiveram uma doutrinação (tão convincente, para eles) de que aquilo que falavam não valia nada, que acreditaram. É uma situação completamente diferente da dos bascos e da dos catalães.” Uma história, a propósito (ele queria contá-la no livro, mas acabou por não contar): “No final do século XIX, princípios do século XX, houve aquelas aparições de Maria em Lourdes e Fátima. Depois destas, houve na Galiza uma aparição. Uma menina de 12, 13 anos, disse à família que Nossa Senhora lhe tinha aparecido. E a família foi falar com o padre, que era espanhol, como praticamente todos os bispos e padres na Galiza até há pouco tempo, desde o século XIV. A menina lá contou a história ao padre e este perguntou-lhe: ‘O que é que a Virgem te disse?’ E ela respondeu: ‘Uma porção de coisas’, e explicou-as em galego. ‘Estás a mentir’, disse o padre. ‘Porque Nossa Senhora nunca iria falar em galego!’ Isto é absolutamente revoltante! Podia ser uma parábola, mas é real, passou-se em Vigo.

Apesar dos enfrentamentos bélicos com Castela, Portugal irá aproximar-se da cultura e da língua espanhola. “A batalha de Aljubarrota [1385] deu-nos uma abertura cultural, e depois também linguística, para nos irmos ‘vestir’ a Toledo. Lisboa ganha autoconfiança em relação ao Norte, há uma língua que se elabora e tudo o que cheirasse a erva, a antigo, era para abater. Há uma desruralização, como lhe chama o autor e também linguista galego-brasileiro Xoán Lagares. Quando se chega a 1700 já há outra norma, já se fala em Lisboa outra língua.”

Desenhou-se aí o afastamento do português face à Galiza. “Portugal vai muito mais longe e mais depressa na absorção do espanhol do que o galego. Porque a Galiza tem um povo aldeão que conserva até 1850 um galego muito puro, face a uma classe superior de advogados, padres e escrivães de língua espanhola. Duas camadas praticamente incomunicáveis. Por volta de 1850 começa o ensino escolar e esse é espanhol. Então, dá-se uma imensa aceleração da absorção do espanhol’. E quem é que agora escreve o galego puro? É uma elite.” Fernando Venâncio adianta ainda outra explicação para a aproximação portuguesa a Castela: “É preciso não esquecer que em Espanha, no século XV, houve uma porção de edições de poesia, que se liam aqui, enquanto o primeiro volume de poesia que se edita em Portugal é de 1516, o Cancioneiro de Resende. E o seguinte é Os Lusíadas, de 1562. Entre 1516 e 1562 não há um único volume de poesia editado em Portugal! Havia cancioneiros copiados à mão. É a partir dos Lusíadas que começa a haver ás edições de Sá de Miranda ou Bernardim Ribeiro.”

A fixação na denominação lusitana (ainda hoje a vemos no conceito lusofonia) surgiu depois do afastamento das culturas nortenhas: “Quando a Galiza deixou de ser referência, Portugal procurou uma referência mais a sul, no povo lusitano. E Camões consagrou isso.

Uma castelhanização

Há um dado relevante na evolução linguística que levará ao português actual: a eliminação dos n e I intervocálicos, que, diz Venâncio, “começam a cair ainda não havia Portugal.” No livro, há exemplos como voar e soar. “Se o espanhol faz volar e sonar, o italiano fará volare e suonare, e o francês voler e sonner. Em todos eles estão, pois, presentes um I e um n. O que não admira, visto as formas latinas de que eles derivam serem volare e sonare.” (Pág. 49)

Só que não é directamente do latim, mas sim através do castelhano e depois do francês que Portugal irá repor muitos n e I intervocálicos banidos da fala uns séculos antes. “Qualquer que seja a ortografia, é pela eliminação de I e n intervocálicos que aquela a que chamamos a nossa língua mais fundamentalmente se distingue de idiomas vizinhos”, escreve Venâncio (Pág. 59). E assim, a par de voar temos hoje volante e a par de soar temos também sonante. “Se há alguma tese muito original minha”, diz agora, “é mostrar que a chamada latinização de 1400 a 1700, três séculos, foi na realidade uma castelhanização. Vivíamos embebidos em espanhol. ”

Porque depois, antes das invasões napoleónicas (1807-1810), veio a “invasão” francesa: “Eu dato o francês a partir de 1730, porque é quando acaba a edição do Dicionário de Bluteau [Raphael Bluteau, padre nascido em Londres de pais franceses]. Ele ainda é muito apegado ao espanhol, mas já há ali incorporações francesas muito importantes. No Dicionário de Morais [1789] já estamos em pleno francesismo. Se incorporámos milhares de castelhanismos, no século XVIII incorporámos milhares de galicismos – ainda ninguém escreveu essa história, mas eu hei-de escrevê-la. Mas enquanto que o espanhol não levantou ondas, porque teve uma absorção muito pacífica, o francês provocou uma grande resistência, mas que não conseguiu nada. Muitos dos francesismos então criticados são hoje norma, não os quereríamos perder.” E já no século XX veio o inglês.Com uma curiosidade: “Há dezenas de milhares de palavras correntes, em inglês, que vieram através do francês. Como resources [recursos], que vem do francês ressources.” Assim, com o inglês voltámos ao francês e, por via de ambos, ao latim.
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«Jesus e a raiz portuguesa do Brasil» [Carlos Fino, “Público”]

Jesus e a raiz portuguesa do Brasil

Carlos Fino
publico.pt , 05.12.19

O súbito e inesperado triunfo de Jorge Jesus no Brasil à frente do Flamengo trouxe de novo para a actualidade – com o imenso impacto mediático de que só o chamado desporto-rei desfruta no “país do futebol” –​ a sempre polémica e ambígua questão do relacionamento bilateral.

Afinal, num país em que ainda persiste difusa a ideia do “português burro” – cultivada no anedotário desde finais do século XIX como forma de combater a concorrência dos imigrantes lusos no mercado de trabalho –, aí está o brilhante sucesso de um “portuga” para a desmentir em toda a linha: ainda por cima num domínio para o qual o Brasil se considera particularmente vocacionado e vive com paixão inaudita.

Um técnico português dirigindo com êxito excepcional um dos maiores clubes brasileiros – com uma “torcida” que ultrapassa os 40 milhões de adeptos, um quinto da população do país! – dá que pensar a muita gente, dentro e fora do futebol. Um colunista da Folha de São Paulo acusou mesmo o toque, escrevendo com acinte que “Jesus nunca superará complexo do padeiro”Caso para perguntar se os brasileiros conseguirão um dia superar o complexo de colonizados.

Seja como for, a verdade é que, desafiando o antigo preconceito num terreno de comprovada excelência brasileira, a consagração de Jesus fez mais, em poucos meses, pela diluição da imagem negativa dos portugueses do que anos e anos de porfiados esforços diplomáticos e outros traduzidos em múltiplas iniciativas que, por mais meritórias que sejam, nunca obtêm a mesma repercussão.

Mas não haja ilusões: por mais que o triunfo de alguns portugueses notáveis – hoje Jesus no desporto, ontem autores de renome na literatura, com destaque para Pessoa e Saramago – contenha e atenue o preconceito antilusitano, este não desaparecerá facilmente. Os brasileiros podem até apreciar o Portugal contemporâneo, para onde muitos vêm emigrando em busca de trabalho, segurança e tolerância, mas isso não elimina um sentimento de rejeição do passado colonial português, que está na própria origem da nacionalidade e foi persistentemente cultivado desde a independência, prolongando-se, com maior ou menor intensidade, até aos nossos dias.

Durante e depois do corte com Portugal, colocados perante a necessidade imperiosa de construírem uma nação até aí inexistente, os portugueses do Brasil, com o príncipe herdeiro D. Pedro e o “patriarca da independência” José Bonifácio à cabeça, alimentaram a narrativa do colonizado vítima do colonizador que se libertava, enfim, das correntes da opressão lusa. Logo eles, um nascido em Lisboa em berço de ouro e outro que estudara e passara a maior parte da vida em Portugal, lutara por Portugal contra os franceses e a si mesmo se considerava “bom vassalo e bom português” (Varela, 2006)!

A identificação com Portugal e com a nação portuguesa era tão grande que – dada a ausência de tradição cultural própria – “a única forma de definir o brasileiro era pelo que o termo excluía”. E naquela conjuntura (…) nenhuma ideia se oferecia com maior facilidade para exercer esse papel do que a do português, assim transformado no outro, no estrangeiro do qual a nova nação se queria distinguir (Ferreira & Neves, 2000, p. 228).

Nesse momento, os portugueses da América, em vias de se transformarem em brasileiros, cindiram-se em duas correntes – uma lusófoba, outra lusófila – que irão permanecer activas de então para cá, tornando assim profundamente ambivalente a atitude do Brasil em relação a Portugal. Por um lado, hostilidade; por outro, portas abertas à imigração portuguesa – considerada a mais adequada – e concessão aos portugueses de alguns privilégios, a começar pela atribuição da cidadania originária aos já residentes no momento da Independência – num reconhecimento implícito de que a nação fora até aí a mesma.

Tudo se agravou, entretanto, com a instauração da República, em 1889, quando a lusofobia, alimentada pela corrente jacobina, virou hegemónica e a herança lusa – que a Monarquia de alguma forma preservava e estimava – se tornou, aos olhos de muitos, num “pesado fardo” do qual o Brasil teria de se desfazer para poder progredir.

Em finais do século XIX, atiçado pelo desagrado com a vinda em massa de imigrantes lusos, o confronto com os portugueses acentua-se e o antilusitanismo atinge o auge, num movimento que chegaria ao ódio e se consolidou, no plano simbólico, já no começo do século XX, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), em que pela primeira vez o Brasil mental se propôs construir a imagem de si próprio sem referência a Portugal. No processo de elaboração da identidade nacional brasileira passam então a ser valorizadas todas as outras raízes que não a portuguesa: a indígena, a africana, a europeia de diferentes proveniências, a sírio-libanesa, a japonesa… Quanto ao português, passou a ser sistematicamente desvalorizado e até esquecido, a ponto de hoje muitos brasileiros não associarem sequer a língua que falam com o país que somos.

Contra Gilberto Freyre, que nos anos 30 ainda exaltou O Mundo que o Português criou, toda uma tradição académica de inspiração weberiana e marxista, consolidada nos anos 50 a partir da Universidade de São Paulo, com destaque para Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, acabou por consolidar a imagem negativa da herança lusa, responsabilizada por tudo o que há de mau no país – da destruição da mata atlântica à burocracia e à corrupção, passando pelo genocídio dos índios e pela escravidão.

Apesar das contradições assinaladas, a visão negativa do passado colonial, cultivada ad nauseam no ensino – de onde os jovens saem com uma péssima imagem de Portugal – e nos media, acabou por se impor, penetrando o senso comum; a ponto de se ter tornado inconsciente e não ser sequer problematizada, ainda que os seus efeitos negativos na própria identidade sejam manifestos. É o contraponto brasileiro do desinteresse português pela sua própria história no Brasil, o que leva a um virar de costas mútuo que o natural desenvolvimento das relações bilaterais não chega a pôr em causa.

É neste pano de fundo que se insere o triunfo de Jesus no Brasil. Devemos naturalmente saudá-lo; mas sem ilusões de que tais êxitos isolados e esporádicos – por mais impacto que tenham – consigam fazer o que as pacientes diligências diplomáticas também não alcançam: vencer o estranhamento que se instalou entre os dois países ao longo dos últimos dois séculos. Para isso, outras condições seriam necessárias – um interesse que não se vê, um debate que não se trava, uma estratégia que não há, uma persistência que falta e – the last but not the least – uma presença mediática lusa no Brasil, hoje praticamente inexistente. Mudará tudo isto um dia?

Carlos Fino
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Assistente do Google no smartphone

Já vários órgãos de comunicação social referiram a novidade, com o senão de todos eles fingirem que a versão escrita não é a contaminada pela  execrável cacografia brasileira (AO90). Mas, de qualquer forma, é possível continuar a ter, à falta de interface em PT-PT, configuradas em simultâneo uma Língua geral (e normal, como o Inglês ou o Francês) para todos os serviços e o Português-padrão apenas para o “Assistente Google”.

Esta “inovação” vale, portanto, para o Português-padrão falado. Por escrito,  “a” assistente pode devolver resultados contaminados pela cacografia malaquenha.

Com uma agradável voz de uma simpática senhora, se bem que electrónica (não se pode ter tudo), este dispositivo virtual cobre inúmeros serviços úteis (busca geral, mapas/percursos, notícias, meteorologia, etc.) sempre num Português inteligível — que não arranha o ouvido, como sucedia até agora com a algaraviada carnavalesca do Brasil — e versando assuntos portugueses de âmbito local, regional ou nacional e já não impingindo-nos tralhas do II Império brasileiro.

E isto vem com um nada desprezível bónus político: o accionamento do serviço “Assistente Google” (os brasileiros que fiquem lá com a sua “assisstêntchi”) implica o reconhecimento oficial de que existem mesmo  duas versões de PT. e não apenas uma (a brasileira), como pretendiam Malaca e seus capangas.

Afinal a tal “língua universal”… piu.

Google Assistant is rolling out in Portuguese (Portugal)

It’s been more than two years since Google Assistant became available in the Brazilian localization of Portuguese, but speakers of the Portugal version (pt-PT) were left waiting. Google has been working on that for over a year, and it began testing it in a closed beta a few months ago, but it appears ready to make it public now.

Head over to your Assistant’s settings and look for the português (Portual) option. Or, if your device is already set to that locale and you didn’t have Assistant yet, try tapping and holding on the home button to see if it pops up. When it’s enabled, you can ask Assistant questions in your language, play music, and control some smart home devices.

 

Assistente do Google agora disponível no seu smartphone

quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

Quem não gosta de ter uma ajuda extra para executar as tarefas do dia a dia? Pode ser para descobrir o melhor caminho para um compromisso, traduzir uma expressão noutro idioma, saber a previsão do tempo numa determinada cidade ou até mesmo para tirar uma selfie. Hoje, chega a Portugal o Assistente do Google, uma funcionalidade que permite ao utilizador ter uma conversa natural com o Google em português de Portugal.

O Assistente do Google é compatível com todos dispositivos Android com a versão Marshmallow ou superior e também com equipamentos iOS (basta descarregar a aplicação na App Store).

Com o Assistente do Google, o utilizador passa a ter um verdadeiro assistente pessoal à distância de um toque. Precisa de saber como se diz “Bom dia” em alemão ou encontrar uma pizzaria perto do local onde se encontra? Basta pedir ajuda ao Assistente do Google e terá todas as suas questões esclarecidas.

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