Categoria: diversos

Um covil de meliantes

Nunca ou muito raramente alguém menciona sequer o mais do que evidente complexo de inferioridade da “gente das Letras”, ou das “Humanidades” em geral, face aos eclécticos e mui diversificados confrades académicos do outro lado da rua, isto é, do gigantesco bairro das Ciências.

Só esse complexo (ou pancada) explica, como sucede sempre nas supostas alegações a favor e contra o AO90, os constantes enxertos do radical “ciência” em tudo aquilo que refira as Artes — quaisquer que sejam — e, por extenso ou osmose, os gramáticos e linguistas, os escritores e os jornalistas, a Literatura, o simples e utilitário acto de escrever. Não, juntar letras não é escrever, há-de por força ser uma “Ciência” qualquer e se por acaso a Literatura ou a Gramática ainda não tiverem sido crismadas como “Ciências das Coisas Espertíssimas”, ou algo do género, pois então inventa-se mais uma “Ciência” para simular exactidão, imutabilidade conceptual, possibilidade de experimentalismo e, cúmulo da glória “científica”, matéria de trabalho em laboratório. Esta “estratégia de abordagem”, a armar ao “científico” tem duas óbvias e imediatas consequências: por um lado, as pessoas normais, que por algum motivo execram caganças em geral, fogem do assunto para bem longe e já não querem saber da questão para nada, os académicos que se entendam lá com a sua conversa, o seu arrogante hermetismo, a sua seita de “confrades”; por outro lado, quanto àquilo que realmente agora nos importa, ou seja, o carácter exclusivamente político da venda do Português-padrão ao Brasil, esse facto é arredado pela fábula da “ciência” de qualquer considerando, o que além de sumamente estúpido é algo suicidário.

Durante o recente evento parlamentar, desta vez promovido pelo PEV, tal espécie de demissão da essência da questão ficou mais uma vez patente: o “Centrão” (PS e PSD), que desde sempre foram aliados tácticos quanto à “adoção” da língua brasileira, debitou as suas comuns (e nojentas) patacoadas para justificar o injustificável; os partidos minoritários alegaram pela enésima vez os motivos políticos, técnicos e também “científicos” para contestar a govenamental política do facto consumado.

Não foram os do contra-AO90, como de costume, ao ponto de expor a asquerosa fraude e denunciar os governamentais meliantes mas esbarraram, igualmente como de costume, no sólido muro de indiferença que cerca a arrogante, violenta, ditatorial (e por isso mesmo anti-democrática) sede de lucros e de obscena corrupção dos tribunos envolvidos na rede de tráfico da nossa Língua.

A língua, as malhas da ortografia e o “bloco central” da ignorância

 

publico.pt, 16.01.21
Nuno Pacheco

 

A derrota no parlamento de um projecto do PEV para avaliar o Acordo Ortográfico veio trazer a nu uma estranha aliança PS-PSD, a que poderemos chamar “bloco central” da ignorância.

Nuno Pacheco
16 de Janeiro de 2021

Não há como uma pandemia para reflectir e decidir sobre qualquer tema. Caso exemplar é o do Projecto de Resolução 533/XIV, apresentado na Assembleia da República (AR) pelo Partido Os Verdes (PEV), em Junho do ano passado, e discutido e votado esta sexta-feira em plenário.

Não se pode dizer que, de início, não tenha sido rápido: deu entrada no dia 23 de Junho de 2020, foi admitido, anunciado e publicado em Diário da República (II série A N.º109/XIV/1) no dia 24, baixou à Comissão de Cultura e Comunicação nesse mesmo dia (tudo isto consta de relatório oficial disponível na AR) e logo no dia 25 foi produzido e enviado ao Presidente da AR o respectivo relatório/parecer. Tudo extraordinariamente rápido. Depois, entrou em oficial hibernação, meteu-se o Verão, o vírus, as máscaras, mais vírus, o entra-e-sai das medidas de emergência, o Natal, o Ano Novo, confina e desconfina, e foi logo no dia em que a severidade de novo confinamento se impôs, por via oficial, que o tal projecto do PEV foi a plenário.

O que pretendia o PEV? Apenas isto: recomendar ao Governo que “promova uma avaliação científica global dos efeitos da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 […] tornando essa avaliação pública”; e que “do resultado dessa avaliação sejam promovidas medidas com vista à correção [sic] dos efeitos nefastos e negativos que sejam identificados e, se as conclusões de tal avaliação assim apontarem, numa situação limite, à orientação para a suspensão do Acordo Ortográfico de 1990, acautelando as medidas necessárias de acompanhamento e transição, por forma a evitar uma maior desestabilização neste processo.” Sublinhe-se a “situação limite”.

Quantas vezes já foi proposta idêntica avaliação? Várias. Resultados? Nenhuns. Já comissões se debruçaram sobre o assunto, já relatórios foram escritos e do lado governamental, além das negações do costume, só um longo bocejo. Pois bem: esta era mais uma ocasião para que o assunto fosse levado a sério (ao menos uma vez, não custava nada, já que o bem fundamentado relatório elaborado pelo deputado social-democrata José Carlos Barros em 2019 teve por destino o esquecimento). Mas, mais uma vez, assistimos a um bloqueio alicerçado em doses equivalentes de propaganda e ignorância, não só da parte do PS como, pasme-se!, do PSD.

E pasme-se porquê? Porque nas legislativas de 2019 o PSD foi dos poucos partidos que incluiu no seu programa eleitoral uma referência clara ao AO90, dizendo textualmente o seguinte (página 64): “Ao contrário do que se pode pensar, as diferenças no uso da língua portuguesa não a empobrecem. Antes revelam as diferentes dinâmicas culturais de cada país na sua apropriação. A ideia de que a uniformização ortográfica poderia constituir uma vantagem face ao mundo globalizado não teve acolhimento. Neste sentido, o PSD entende que importa avaliar o real impacto do novo Acordo Ortográfico – que se tornou obrigatório em 2015 [o que é contestável com argumentos legais, diga-se] – e ponderar a respectiva revisão face ao evidente insucesso da sua generalização entre os países de língua oficial portuguesa e mesmo entre os autores portugueses.” Coisa parecida defendeu, também no seu programa eleitoral, o CDS-PP (págs. 131-132): “Não podemos falar da Língua Portuguesa sem assumir que a ideia central do Acordo Ortográfico de 1990 – uma ortografia unificada – falhou. Pela nossa parte, pode e deve ser avaliado quanto aos seus efeitos e problemas, tanto no uso da Língua como a nível internacional.” Isto enquanto partidos como o PCP e o PAN apresentavam programas sem obedecer ao AO; e o PEV, sujeitando-se à dita “nova grafia” no seu programa eleitoral, manifestava dúvidas quanto ao Acordo Ortográfico.

Mariana Silva, que junto com José Luís Ferreira assinou o Projecto de Resolução do PEV, foi claríssima: o AO90 falhou nos seus principais pressupostos (“unificação da Língua; simplificação da Língua; e facilitação da aprendizagem da Língua para crianças em fase escolar e para estrangeiros”), não conseguiu a ratificação (e mesmo essa discutível) senão de metade dos países da CPLP, “além de não se ter conseguido, até ao dia de hoje, a sua aceitação plena por vários sectores da sociedade.” O presidente da AR teve de intervir para que o ruído na sala diminuísse, já que vários deputados conversavam animadamente durante a sua intervenção, como se virassem as costas ao tema.

E na prática viraram, com escassas excepções. Ana Rita Bessa, do CDS-PP, ainda veio dizer que “Portugal deveria ser capaz de avaliar o acordo, os seus efeitos, a sua adesão, e decidir”, recordando o relatório de José Carlos Barros e dizendo que “não há dupla grafia para a palavra avaliar” (ou seja: se é para avaliar, que se avalie mesmo, sem truques); Ana Mesquita, do PCP, recordando que o seu partido foi o único que em 4 de Junho de 1991 não votou favoravelmente o AO90, sublinhou que o assunto não está fechado: “Subsistem incongruências, deficiências, dificuldades práticas na aplicação do acordo que são visíveis todos os dias nas escolas, nos media, nos livros, nas páginas oficiais de entidades públicas, como é o caso desta em que nos encontramos”, não podendo ser o AO90, “nos termos em que está, inalterável e irrevogável”; e Beatriz Gomes Dias, do BE, recordando que as “discussões e as controvérsias” sobre o AO90 se mantêm 30 anos após ter sido aprovado, acabou por fazer um discurso maioritariamente crítico, admitindo que o acordo “não é perfeito ou consensual e são inequívocas as dificuldades várias na sua aplicação” e que “não é aceitável que, face a expressões aplicadas que manifestamente são erros grosseiros, não tenha havido a capacidade política para antecipar a necessidade de assumir politicamente uma revisão técnica do acordo ortográfico.” Defendeu, por isso, “um processo de revisão técnica” facilitado pelo Vocabulário Ortográfico Comum.

Pois bem: entre a exigência de uma avaliação e uma mais que prometida, mas nunca sequer encarada, “revisão técnica” (com tantos erros acumulados, corria o risco de ser o princípio do fim do acordo), eis que surgiram da Terra do Nunca as vozes do PS e do PSD. Da parte do PS, Pedro Cegonho (que havia sido o relator do parecer sobre a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, cujo destino continua a marinar no parlamento) mostrou-se um verdadeiro homem do aparelho: o que alegou foi um perfeito decalque da cartilha oficial dos defensores do acordo, cartilha que até hoje prima pela inércia e pela voluntária ignorância dos males que tal acordo não cessa de causar. Exaltou “a relevância do Acordo para a literacia: a facilitação da aprendizagem da escrita e da leitura no vasto quadro dos falantes de português da CPLP”, mas ignorou que “no vasto quadro de falantes” o acordo é grandemente ignorado. Basta dizer que, consultando as várias Constituições dos países da CPLP, só a de Portugal é que foi (abusivamente, diga-se) transcrita para a “nova grafia”, mantendo-se as restantes, nas suas mais recentes versões em linha, fiéis ao português de 1945 ou, no caso da do Brasil, que foi actualizada em 2019, seguindo a “nova norma” brasileira, que é diferente da portuguesa.

Depois, veio invocar o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, como “sede própria” para “dirimir divergências científicas” invocando o texto do acordo. Mas só quem desconhece em absoluto o que é o IILP (basta visitá-lo em linha) é que pode encarar tal hipótese sem soltar uma sonora gargalhada, pois o seu “rigor e critérios científicos” são uma verdadeira anedota, como já tive ocasião de demonstrar em mais do que um artigo (ver, por exemplo, “O instituto, a língua, os amantes dela e a penúria do costume”, 7/1/2020“O vocabulário oficial do Acordo Ortográfico está morto há dias e ninguém deu por nada!”, 26/1/2020“Ressuscitou como morreu: como fraude. E ainda há quem lhe chame vocabulário”, 30/1/2020; ou “Anatomia de uma fraude com duas palavras picantes como condimento”, 5/2/2020). Se o texto do projecto ignorou o IILP, como disse Cegonho, terá sido porque o IILP, na verdade, não conta nada. Um exemplo disso será o apagamento total do auto-intitulado Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa, anunciado com pompa em Outubro de 2019 como “órgão técnico do IILP”. Pois bem, após uma primeira reunião, finou-se. E nem na morada virtual do IILP se encontra rasto dele, a não ser na encomiástica notícia que, à data, deu conta do seu estranho nascimento.
(mais…)

Ao menos coerência!

Não há-de ser difícil e muito menos será de alguma forma arriscado, seja qual for a perspectiva: os escritores estão legalmente protegidos por Direitos de Autor, o que significa que a integridade das obras literárias está de facto preservada e consignada. A nenhuma editora assiste o poder de alterar*** — seja de que forma for, a começar pela ortografia utilizada pelo autor — qualquer obra, livro, artigo, notas, comentários ou quaisquer outra formas de expressão escrita.

Por algum motivo que escapa à compreensão dos simples mortais, isto é, do público ao qual a Literatura se dirige e da qual é consumidor, porque adquirente, ou de outra forma leitor, porque destinatário, alguns escritores portugueses (e jornalistas e tradutores) admitem que as suas obras sejam estropiadas pelas editoras; estas, por seu turno, não apenas destroem alegremente a ortografia dos originais como, por requinte de malvadez, obrigam os autores a permitir que os seus escritos sejam previamente triturados pelo AO90. São imensas (e muito mal esgalhadas, como não podia deixar de ser) as desculpas que tais autores balbuciam para justificar a sua cobardia (ou pura estupidez); mesmo dando de barato as tretas e mentiras do costume (ah, e tal, o AO90 agora é lei, as editoras são obrigadas a empregar o “acordo”, o que posso eu fazer, a vida está difícil, e tal e tal), para esses esponjosos autores não há qualquer desculpa e sequer podem alegar coisa alguma em sua defesa. Admitem a cacografia brasileira nas suas publicações porque são feitos de borracha — sejamos polidos na terminologia — e portanto fingem que o problema lhes é indiferente, mera “questão de hábito” e patacoadas assim.

Não é de todo este o caso da escritora Teolinda Gersão, que desde sempre recusa liminarmente, como é seu direito, quaisquer vigarices na ortografia. Militante desde a primeira hora da luta contra o AO90, Teolinda Gersão declara expressamente em todos os seus originais que a edição e impressão de qualquer original seu terá de respeitar a versão integral do original, o que inclui, natural e inerentemente, a respectiva ortografia.

Não há cá “funfum nem gaitinhas”: ou a editora segue as instruções da autora quanto à ortografia ou então a autora mudará de editora (que as há, e bastantes, a recusar também o AO90), e adeus, passem bem.

[Nota: por respeito para com Teolinda Gersão, que além do mais é uma pessoa simpaticíssima, e para o muito improvável caso de tão honorável senhora alguma vez ler isto, devo dizer que — de boa vontade — tentei quase desesperadamente não desatar a insultar os brasileirófilos em geral e os escritores portugueses desse género em particular.]

*** Entretanto, os vigaristas ao serviço do Centrão acordista já alteraram o CDADC

 

Escritora Teolinda Gersão celebra 40 anos de carreira literária com novo livro

“Diário de Notícias” (Madeira), 14.01.21

 

A escritora Teolinda Gersão, a celebrar 40 anos de actividade literária, publica hoje um novo título, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, e reedita “A Mulher que prendeu a Chuva”, de 2007, um dos mais premiados da autora.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” reúne três novelas que se entrecruzam, e a que a escritora admite chamar romance, como afirmou, em declarações à agência Lusa.

“Prefiro considerá-lo um conjunto de três novelas entrelaçadas, sobre personagens históricas, que na vida real coexistiram e tiveram algum tipo de relacionamento”, afirmou Teolinda Gersão, numa entrevista por escrito, à Lusa, na qual sublinha a sua determinação em não seguir o Acordo Ortográfico vigente.

“Poderia chamar romance a este livro”, assegurou. “Obviamente há aspectos ficcionados, imediatamente reconhecíveis, mas todos os factos que refiro no livro são rigorosamente verdadeiros e estão documentados”, sublinhou.

Segundo Teolinda Gersão, “os títulos fornecem as coordenadas ao leitor”, são eles: “Freud pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1938”, “Thomas Mann em Freud em Dezembro de 1930” e “O regresso de Júlia Mann a Paraty”, que dá titulo ao livro.

Quanto a “A Mulher que Prendeu a Chuva e outras histórias”, foi editado em 2007, venceu os prémios Máxima Literatura e Fundação Inês de Castro e vai na 7.ª edição.

A obra [de] 14 contos, que, partindo do quotidiano, se desenvolvem “insensivelmente, a outros mundos – oníricos, fantásticos, terríveis ou absurdos -, que nem por isso deixam de nos pertencer e de ser o lugar onde habitamos”, lê-se na apresentação da obra.

Sobre os 40 anos de vida literária, Teolinda Gersão faz um “balanço positivo e gratificante”.

“Sou agora muito mais lida do que há décadas atrás, os leitores estão familiarizados com a minha escrita. E os primeiros livros que publiquei tornaram-se ainda mais actuais do que na altura em que surgiram”, argumentou.

“Suponho que sou intuitiva, e me arrisco muitas vezes a ter razão antes do tempo”, acrescentou.

Sobre a actual situação pandémica, Teolinda Gersão afirmou que “é, certamente, inspiradora de novas histórias”.

“Todas as situações e épocas precisam de ser contadas, é o que distingue os humanos das outras espécies do planeta. Mas as narrativas necessitam em absoluto de ser verdadeiras. Para isso, a ficção pode ser, paradoxalmente, o melhor dos caminhos. Daí a responsabilidade enorme, e cada vez maior, dos escritores”.

“O mundo está cheio de narrativas falsas, e elas são uma das grandes perversões do mundo doente em que nos encontramos”, acrescentou.

O novo título de Teolinda Gersão, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, é apresentado em ‘live streaming’ no dia 09 de Fevereiro, às 21:30, nas páginas da Porto Editora nas redes sociais Facebook e Youtube, com a participação da autora e da psicanalista Deolinda Santos Costa, numa sessão moderada pelo editor Vasco David.

Teolinda Gersão completa 81 anos no próximo dia 30. Nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, na Alemanha.

Foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, tendo lecionado Literatura Alemã e Literatura Comparada.

Teolinda Gersão recebeu mais de uma dezena dos principais prémios literários, alguns dos quais bisou, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, que recebeu em 2002, com “Histórias de Ver e Andar” e, em 2017, com “Prantos, Amores e Outros Desvarios”.

Também por duas vezes foi distinguida com o Prémio Fernando Namora, atribuído pela Estoril-Sol, em 2001 pela obra “Os Teclados” e, em 2015, com “Passagens”.

O Prémio P.E.N. Clube de Narrativa foi-lhe igualmente atribuído pelas obras “O silêncio”, a sua estreia literária em 1981, e por “O Cavalo de Sol”, em 1990, ambos atribuídos ex-aequo, respectivamente com Eduarda Dionísio, “Histórias, Memórias, Imagens e Mitos duma Geração Curiosa” e Paulo Castilho, “Fora de Horas”.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” sucede ao livro de contos “Atrás da Porta”, publicado em 2019.

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

 

 

O macho-alfa


Ah, pois, isso das caixas de comentários é como os sacos para vomitar que se distribuem nos aviões. A gente precisa de um mas só se nunca tiver sido usado. Ou seja, assim com’assim o melhor é nem olhar para eles, a não ser em caso de extrema necessidade e na condição exclusiva de ainda estar virgem de todo, por assim dizer; quando não, pela certa levaremos com o pivete e se porventura não nos estiver a apetecer “restituir”, como dizia o Conselheiro Acácio, então com aquela abjecta visão  teremos de largar um vómito interminável, tão nojento como o que já lá está. Em suma, é fazer de conta que se trata de “ordens do médico”, o mais avisado para que se nos resguarde a saúde mental será conservar uma distância higiénica das caixas de comentários tanto quanto dos sacos aeronáuticos.

Neste caso, tratando-se do AO90, a “matéria orgânica” é a habitual: ou de brasileirófilos empedernidos, sapateiros que não cobram nada para engraxar brasileiros, ou então aqueles outros que, armando ao “tolerante”, concedem que o “acordo” não passa de “uma questão de hábito”. Ambos os tipos restituem os mesmos eflúvios, diferindo entre si apenas pelo grau de octanagem da lavadura regurgitada — porque o AO90 já se transformou numa bebedeira homérica, algo como uma pandemia mental, demencial alucinação colectiva. Exceptuando uma ou outra pessoa, um ou outro comentário, isto é, nos raros e honrosos casos em que não há insultos ou asneiras como ácidos gástricos e bolo alimentar mal digerido, então estamos perante alguém que não carece de Kompensan, logo, de pouco ou nada adianta alimentar uma hipotética discussão; discutir o indiscutível é, com gente normal, converter os convertidos ou sobrecarregar com proselitismo quem já sabe da missa a muito mais de metade.

Não são portanto de grande utilidade os comentários escritos em “caixas” várias, sejam eles latrinários ou redundantes; porém, com certeza algo de aproveitável sobrará da mais simples e amena cavaqueira — face a face, sem “nicknames”, sem “alias”, sem gorilas, sem machos-beta (ou delta ou zeta) que se julgam alfa por se esconderem atrás de um vidro, um teclado e imensa bazófia. 

 

O ocaso das consoantes e a felicidade dos jovens

Nuno Pacheco
“Público”, 14.01.21

…………….

Num tempo dominado por pês (Presidenciais & Pandemia) pode parecer excessivo reincidir no magno problema de escrever com os pés. Mas como a minha crónica anterior suscitou três comentários a merecer resposta, aqui vai. Um: “Na minha opinião o AO 90 tem defeitos, que podem ser analisados e corrigidos, havendo vontade para isso. Nuno Pacheco limita-se a repetir até à exaustão exemplos de erros e incorreções que pouco ou nada têm a ver com o AO 90, numa lógica do ‘quanto pior, melhor’. Analisar e debater seriamente os defeitos e propor correções/soluções não parece ser para ele importante”; outro: “Meta na sua cabeça que está a lutar contra moinhos de vento. Desaparecida a sua geração, estas confusões deixarão de existir porque teremos uma nova geração de gente que aprendeu a escrever a língua portuguesa segundo a nova norma”; Último, que uma criatura assinou como “Macho Alfa”: “Títulos à la André Ventura para continuar uma guerra perdida? É muito à la Trump. Há gente confusa? Há? Sempre houve gente confusa aquando dos acordos ortográficos, nomeadamente os velhotes. Os jovens estão na onda AO90 e felicíssimos. Estão sintonizados. Esta conversa já dá sono.”

O acordo ortográfico de 1990 tem defeitos, há que propor soluções e “correções” (sic). Pois. Isso até os seus autores diziam. Mas algum deles mexeu um só músculo para corrigir o que quer que fosse? Nem um. E já lá vai tempo suficiente para perceber que, tecnicamente, como já muita gente demonstrou (e felizmente por escrito), o problema não são os erros que ele terá, é o erro monumental que ele é: a dita “nova norma” é uma fraude, que não só não uniformizou a grafia nos países de língua portuguesa como fomentou um persistente caos ortográfico que, em lugar de diminuir, a cada dia vai dando novos ares da sua (des)graça.

Debater seriamente? Há décadas que muita gente o faz, apontando erros técnicos, disparates, noções erradas. A isso, os responsáveis pela coisa fazem “orelhas moucas”. Não admira, tal o autoconvencimento de que este acordo é uma coisa com futuro. Já em 1986, um dos grandes defensores, à época, do acordo, escrevia: “Umas semanas bastarão para que as pessoas fiquem acomodadas a ler o seu jornal com meia dúzia de letras e acentos a menos. Alguns dias bastarão para que uma pessoa que escreva frequentemente assimile as novas regras” (Expresso, 21/6).

Contudo, nestes muitos anos cavou-se um fosso abissal entre a prática e essa falsa e ilusória propaganda. A tal “assimilação” rápida das “novas regras” produz todos os dias pequenos monstros, obrigando-nos a ler coisas como “otogonal”, “inato” (por inapto, que inato é outra coisa!), “impato”, “etoplasma”, “adeto”, “ocipital”, “inteletual”, “ocional”, “eucalito”, “rétil”, “elítico” e até “arimética”. Esta colheita é recente e pode juntar-se à da minha crónica anterior. Mas é curioso que já em 2015, no PÚBLICO, o jornalista e escritor Octávio dos Santos (num artigo intitulado “Apocalise abruto”) mencionava dezenas de disparates deste calibre, coligidos em documentos oficiais, institucionais ou na imprensa, por especialistas atentos. Dir-me-ão que erros sempre houve. É verdade. Mas estes são novos, induzidos pela “guerra” às consoantes que o AO90 incentivou. “Arimética”, por exemplo, é dada como correcta no vocabulário oficial do IILP, como grafia facultativa de “aritmética”. Já no da Academia das Ciências não existe.

Gente confusa? Sim, os “velhotes”, coitados. Como os Prémios Camões Vítor Aguiar e Silva e Manuel Alegre, o também premiado linguista Fernando Venâncio ou os recém-desaparecidos Eduardo Lourenço e Carlos do Carmo, aos quais o país teceu as louvaminhas do costume. Adversários, todos eles, do AO90. Deve ser por aquilo que Pedro Mexia disse ao recomendar em 2020 um livro de Vítor Aguiar e Silva no “Governo Sombra” da SIC: “Há esta curiosidade, de pessoas que conhecem bem a língua e a literatura serem contra o acordo ortográfico.”

E os jovens? Diz o tal “Macho” que estão “felicíssimos” e “sintonizados”. É. Basta passar junto das escolas para se ouvirem gritos de alegria onde antes só havia gemidos de dor a temer pelas aulas de português. Aliás, porque não abolir a ortografia? Era muito mais barato e os resultados não andariam longe destes. Tal conversa já dá sono? Deve ser por isso que os responsáveis ou cúmplices de tal trapalhada pedem logo umas almofadas quando se lhes fala no assunto. Azar: os disparates já são tantos e tão ruidosos que não hão-de ter um só minuto de sossego.

[Transcrição integral de artigo com o título “O ocaso das consoantes e a felicidade dos jovens”, da autoria de Nuno Pacheco. (publico.pt, 14.01.21.Destaques, sublinhados e “links” (a verde) meus. Foto de topo de: “¿Qué comen los gorilas?” (quecome.org)]

Rádio Comercial

Esta semana passaram a ser obrigatórias as regras do acordo ortográfico. Ricardo Araújo Pereira explica os problemas do acordo, com o auxílio de Samantha Fox.

Apocalise pético

O problema deste tipo de artigos, arrolando exemplos do cAOs vigente, torna-se na prática algo arriscado em termos de propaganda anti-AO90. Ainda que alguns persistam, desde os primórdios, na tese de que “o acordo não está em vigor”, a verdade é que está mesmo em vigor, na prática, com o imenso cortejo de “erros flagrantes” (estes sim) que já vamos vendo por todo o lado. Sei por experiência própria que não adianta absolutamente nada tentar demonstrar que a anormalidade se normalizou; a partir de certo ponto tornou-se contraproducente fingir que esse wishful thinking é real e não uma bizarra ficção; o AO90 está em vigor, sim, e há já uma década. Claro que nada obrigava os jornais e os jornalistas, os tradutores e os escritores, alguns deles ex-militantes fervorosos da Causa anti-acordista, a alinhar cega e bovinamente na cacografia brasileira, mas assim sucede, um rato é um rato e a realidade é a realidade. Mas este estranho mistério tipicamente tuga, o seguidismo militante, o mariavaicasoutrismo, é cousa diferente, se bem que obedeça à mesma matriz estupidológica. Foi precisamente por constatar, lentamente e com horror, que a época de caça à “consoante muda” (etimológica ou com valor diacrítico) já ia atingindo foros de trivialidade, que decidi parar de coleccionar este tipo de imbecilidades: a persistência pode fazer todo o sentido enquanto se justificar e for útil, mas pode também a repetição dessa táctica ser um tiro (ou uma rajada de metralhadora) pela culatra, porque vai conferindo “normalidade” a algo que é de todo aberrante.

O “fundamento” basilar do AO90 (“só se escreve o que se diz”) implica, pelo menos nos microcéfalos, bajuladores e indivíduos classificáveis em outras variantes da idiotia clínica, que são produzidos em Portugal estranhíssimos neologismos… em especial porque ninguém fala (ou escreve) assim. A intenção é, obviamente, além da tal caça às “duas consoantes seguidas” (sequência consonântica), também uma tentativa de imitação do “falar” brasileiro; “falar” esse que é reproduzido a 100% pelo “acordo”. “Escreve-se só o que se diz”… no Brasil, claro. Daí as demais tangas para enganar retardados. Os brasileiros acentuam todas as vogais, portanto o AO90 consagra a “ação” deles, a “afetação” deles, a “reação” deles e assim por diante. 

Este “apocalise”, em concreto (cimento, no Brasil), começou de facto em 2010 e foi paulatinamente insinuando-se nos hábitos de muitos nacional-porreiristas e outros brasileirófilos. Pouco ou nada adianta ilustrar o cAOs em detalhe, repetitiva e cansativamente, como os anúncios publicitários. Tal estratégia acaba por tornar-se numa espécie de analgésico mental.

Enfim. Já não se fazem “apocalises” como antigamente. Nem “helicóteros”. Nem “netarinas”.

Bolas. Só de falar nisto já se me começou a tilintar a maldita “úcera” “pética”. Com licença, eu vou só ali “delutir” e já volto.

2021: odisseia “abruta” no “apocalise”

Nuno Pacheco, “Público”, 07.01.21

 

Karl Kraus via os erros na escrita como os causadores dos grandes males do mundo. Pois calhou-lhe um “apocalise”.

Vinte anos passados sobre o 2001 que Clarke e Kubrick nos fixaram na memória, era quase inevitável deparar com novas adaptações do título do livro e do filme a variados contextos. E isso não é de agora, já temos vindo a lê-los desde há largos meses. Alguns exemplos: “2021: odisseia no PIB” (jornal i), “2021, Odisseia no Espaço da União” (O Jornal Económico), “2021, Avança a Odisséia no Espaço!” (Correio Braziliense), “2021 Odisseia em Marrocos” (de uma equipa de viajantes no Facebook), “2021: odisseia nas finanças pessoais” (Dinheiro Vivo), “2021: odisseia na Terra” (no blogue A 3.ª Face) e até “2021 Odisseia dos descontos” (este em letras gordas no folheto de uma conhecida marca de electrodomésticos). Mas há uma outra odisseia que se nos torna cada vez mais penosa: é a odisseia “abruta” no “apocalise”.

Expliquemo-nos: em 2020, como em anos anteriores, temos vindo a alertar (fazendo eco de muitos e fundamentados avisos, recentes e antigos) para o aparecimento de palavras surreais, que vão surgindo a coberto de uma qualquer “simplificação” da escrita. O acordo ortográfico abriu a torneira, esqueceu-se de a fechar, e o disparate jorra em quantidades industriais. O que tem isto a ver com 2021? O mesmo que tinha a ver com 2020, ou 2019, ou… 2010. Com a agravante de, ano após ano, não terem diminuído mas sim aumentado, e muito, tais erros.

Depois de alguns tristes exemplos já aqui citados numa crónica anterior (“Viagem alucinante pelo país das cinco ortografias”), tais como “impatos”, “patos”, “estupefatos”, “artefatos” “corrução”, “excepo”, “interrução” e “helicótero”, em lugar de impactos, pactos, estupefactos, artefactos, corrupção, interrupção e helicóptero, temos agora (além da repetição das pérolas anteriores), “tenológico”, “impate”, “putrefato”, “sução”, “réteis”, “onívoros”, “galáticos” (“preços galáticos”, anunciados no mesmo folheto da “Odisseia dos descontos”), “piroténico”, “excessão”, “espetativa”, “excessional”, “secionadas”, “abruta” e “apocalise”! Isto em vez de tecnológico, impacte, putrefacto, sucção, répteis, omnívoros, galácticos (de galáxia, não de galos), pirotécnico, excepção, expectativa, excepcional, seccionadas, abrupta e apocalipse. Ora o “apocalise” chegou a ser anunciado por um município como título de um espectáculo que na verdade se chama Os Quatro Clows do Apocalipse. Pior ainda, chegou a ser usado ao citar o título do filme de Francis Ford Coppola, Apocalypse Now a propósito de um livro que nem sequer era com ele relacionado. Assim: “Em Apocalise Now, o genial filme de guerra…”

Mas muito pior do que isso é o facto de um livro intitulado O Apocalipse Estável: Aforismos, surgir etiquetado numa biblioteca como… O apocalise estável (disparate corrigido pela capa do livro, reproduzida ao lado). Onde se deu tamanha bizarria? Numa biblioteca pobríssima de uma aldeia recôndita? Não, no site da Biblioteca Nacional de Portugal! E não se trata de mero lapso, pois a palavra (se assim lhe podemos chamar) “apocalise” surge grafada duas vezes, uma a negrito e outra a itálico, como se comprovará numa mera consulta. O que quer isto dizer? Que os funcionários da BNP são analfabetos? Não. Se assim fosse, seria corrigível. O pior é que quem escreveu semelhante enormidade deve ter-se regido pela ideia geral, comum a todas ou quase todas as aberrações acima descritas, de que duas consoantes seguidas são um crime de lesa-língua. O estúpido acordo induziu as gentes nessa sinistra façanha censória e não há modo de as parar, até porque o disparate se dissemina muito mais rapidamente do que o senso ou o nexo. Daí, toca a tirá-las, umas a eito e outras à sorte. “Abruta” e “apocalise” não existem em lado algum, nem em Portugal, nem no Brasil nem em qualquer canto do Globo.

O mais divertido é que tal erro, fixado nas páginas virtuais da Biblioteca Nacional (há-de ser emendado à pressa mal alguém leia isto, mas fica uma cópia registada na versão online desta crónica, para memória futura), foi logo calhar a Karl Kraus (1874-1936), um escritor vienense que olhava para os erros na escrita como os causadores dos grandes males do mundo. Sem ir tão longe, não faria mal aos nossos governantes e deputados lerem, já não digo Kraus, mas as misérias citadas nesta crónica. Talvez assim avaliassem melhor o indefensável “acordo” que assinaram e teimam em manter, virando costas à razoabilidade dos que se lhe opõem.

Nuno Pacheco

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos).]


https://ilcao.cedilha.net/wp-content/uploads/2015/01/helicotero.jpg

“Pandemia da ignorância” [Pedro Marta Santos, “Sábado”, 05.01.21]

A ciência e a matemática são muito importantes, mas a arte e as humanidades são imprescindíveis à imaginação e ao pensamento intuitivo que estão por trás do que é novo.
António Damásio

 

Não obstante existam inúmeras opiniões, fundamentadas em imenso suporte documental e trabalho de campo  experimental, sobre a questão do QI (Quociente de Inteligência), parece ser um facto indesmentível que existe uma co-relação*** e, de certa forma, um certo nexo de causalidade entre inteligência e escrita. Essa co-relação*** será até bi-unívoca, visto que não apenas é muito mais fácil para um aluno dotado aprender a escrever, por um lado, e por outro o acto de escrever é, sem dúvida, um factor de incremento intelectual (por assim dizer). Exemplos flagrantes de tal interacção vão dos exercícios mais simples (incluindo as palavras cruzadas, o Scrabble e outros jogos) até a expressões-chave (“leste-me os pensamentos”, “tu para mim és um livro aberto”) e abarcam mesmo rituais particulares; namoro (cartas, recados), “pichagens” nas paredes, leitura compulsiva, etc.

Nesta acepção, a imergência de todo o tecido social nas chamadas “redes sociais”, independentemente da faixa etária ou do estatuto pessoal e profissional de cada qual, representou e representa, quanto à Língua, uma verdadeira tragédia; nas ditas “redes” há de tudo, boa gente e escroques, tarados e pseudo-intelectuais mas também gente que sabe escrever e não engoliu uma vassoura, uma miríade de conteúdos aproveitáveis em contraste com lixo do mais abjecto, cobarde, insultuoso, aviltante; o maior problema desses tugúrios virtuais, porém, quanto à escrita, é a aceleração vertiginosa do processo de degradação que o sistema de Ensino convencional veicula e até promove. A mediocridade que desde há décadas (ou séculos) se instalou no nosso sistema “educativo” e a novel promoção acelerada da Escola enquanto “espaço lúdico”, mimetizando um parque infantil monstruoso ou um circo de 700×200 km, conduziram a uma sistemática fabricação de seres avessos ao conhecimento, renitentes quanto ao estudo e absolutamente alérgicos a um mínimo de rigor; consequentemente, tornou-se vulgar — e até motivo de gala — escrever “com os pés”, ou seja, de qualquer maneira, não importa como, “desde que se perceba”…

E, é claro, a partir de 2010 caiu em cima do sistema, já de si laxista e incompetente, uma epidemia (“pandemia”, para ser exacto) que veio desferir o golpe de misericórdia no Português-padrão; o AO90 destruiu o que de sério ainda restava no Ensino e, para acabar com uma única e geral espadeirada, fez com que imensos portugueses — sem qualquer obrigação ou necessidade disso — “adotassem” a cacografia brasileira no  quotidiano.

Por isso, digo eu, este extracto de um artigo de Pedro Marta Santos tem todo o interesse, Termina, porém, numa pergunta que jamais obteve resposta dos autores do estropício. Os quais, aliás, acoitados na impunidade, sob a mão oculta dos Donos Disto Tudo, nunca responderam a coisa nenhuma nem responderam por coisa alguma.

Quando a resposta ao articulista, senhores acordistas, teria sido muito simples: por nada.

Da estupidez em 2021

 

O maior desafio de 2021 é o da pandemia da ignorância.

O efeito Flynn é a asserção, polémica mas maioritária, de que o valor do Q.I. das populações mundiais tem subido de forma consistente desde o pós-guerra. Nas últimas duas décadas, os especialistas em ciências cognitivas constataram uma inversão do efeito Flynn, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Para Christophe Clavé, um guru da estratégia empresarial e professor na INSEEC Business School of Economics, grupo francês especializado no ensino de gestão com filiais em Londres e São Francisco, uma das chaves do problema é a linguagem.

Com o empobrecimento do vocabulário dos millennials (nascidos entre os anos 80 e o final do século XX) e a redução do léxico da geração Z (nascidos entre a segunda metade dos 90 e 2010), não são apenas as palavras que perdem o valor comunicativo. É o próprio pensamento. Falar e, sobretudo, escrever no presente, sem projecção no tempo ou recurso ao condicional, o desaparecimento da pontuação, o abandono das maiúsculas e a longa quarentena de verbos sofisticados, antes em liberdade criativa, são causas e sintomas de um problema maior: a redução na capacidade de desenvolver e reproduzir ideias complexas.

Como António Damásio e outros há muito demonstraram, a atrofia do intelecto pressupõe a asfixia das emoções. Escrever de forma cada vez mais simples e em tempo linear mutila a diversidade emocional. Sem ela, tornamo-nos agressivos. Como frisa Clavé, “parte da violência nas esferas pública e privada provém directamente da incapacidade de descrever as emoções por palavras, como quando abolimos géneros, tempos e nuances”.

A essa escravatura da linguagem podem acrescentar-se os estrangeirismos tecnocráticos (aquele vazio supremo do soft power, do branding ou dos segmentos premium), o novo dadaísmo do Tik-Tok (onde a mensagem é o virtuosismo com que alguém se espeta contra uma parede) e a infantilização do diálogo (likes, tags, emojis). Quando tirarmos as máscaras, o maior desafio de 2021 será dinamitar o monólito das explicações simples para responder à complexidade do mundo. A vida é complicada. Porque não haveriam de o ser a linguagem e o pensamento?

[…]

[Transcrição parcial. Destaques e “links” meus.]

*** Como já disse várias vezes, pelo facto de o AO90 prever não uma mas diversas grafias, eu cá reivindico o direito de escrever conforme me dá na real gana, ou seja, em Português-padrão mas omitindo (de caminho) uma ou outra das regras do acordo de 1945 e mesmo da convenção de 1911.

 

Um murro na chipala

45

[veja aqui um “filme” falado em “Portuguese” (“língua universal” brasileira)]
[imagem Facebook de uma empresa qualquer de “ensino” de “Portuguese” (brasileiro) online]
O AO90 não tem nem “erros” nem “deficiências”. O AO90 é um erro, todo ele, e é uma deficiência total, de cabo a rabo. Para que algo contenha “erros” e “deficiências” necessariamente deverá conter alguma coisa acertada, algo que faça pelo menos algum sentido ou, no mínimo, que tenha uma ponta por onde se lhe pegar; ora, é mais do que evidente que o “acordo ortográfico”, não sendo sequer um acordo e não contendo absolutamente nada de ortográfico, não apenas não tem ponta por onde se lhe pegue como também nem mesmo tenta disfarçar o seu carácter exclusivamente político e, por inerência, as suas finalidades: o aniquilamento do Português-padrão substituindo-o por uma versão exclusivamente brasileira visando a “adoção” dessa versão, sob a capa ficcionada de “língua universal”, para que seja “adotada” em alguns organismos supra-nacionais e assim “facilitar” os interesses geo-económicos do Brasil; esta dupla manobra de neo-colonização ao contrário utiliza na integra os ditames brasileiros com a colaboração de uma ridícula cáfila de traidores portugueses vendidos a sinecuras várias na CPLP (uma organização fantoche) no IILP e em outras instituições outrora portuguesas (Instituto Camões, LUSA, etc.).

Por conseguinte, sendo exclusivamente político, tentar “despiorar” o AO90 equivale a transformar um insulto à inteligência num simpático remoque. Ou tornar um monstro numa coisinha um bocadinho menos monstruosa. Ou ainda transformar, por artes nada mágicas, uma aberração informe numa elegante flor de papel.

O artigo que se segue, de uma publicação angolana (em Português correcto, visto que dos oito países da CPLP apenas Portugal “adotou” a aberrante cacografia) tenta inicialmente traçar uma espécie de “background” da questão e depois desenvolve a coisa num estilo bem mais solto, digamos, atirando-se vorazmente às canelas dos tugas que inventaram — para bajular ainda mais o Brasil, é claro — a CPLP e a sua excrescência a armar ao “ténico” (tem duas consoantes seguidas, não pode), aquela bambochata a que chamaram IILP.

Que não doam a mão e a escrita aos angolanos, é o que se espera e deseja. Cada cachaporra no toutiço daqueles anormais é mais uma pazada de terra (ou esterco) atirada para cima do cadáver adiado, o zombie ressuscitado por Cavaco, Lula e Sócrates.

Vasco Graça Moura, a CPLP e o… português

jornalf8.net. 03.01.21

 

Como o Folha 8 escreveu hoje, o Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural distinguiu o gestor e jurista Emílio Rui Vilar, cujo percurso profissional “constituiu um expressivo exemplo de cidadania cultural”. Vasco Graça Moura nasceu no dia 3 de Janeiro de 1942 e morreu em 2014.

Vasco Graça Moura considerava que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) era uma espécie de organização fantasma, “que não serve para rigorosamente nada”, a não ser “ocupar gente desocupada”.

“O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer”, disse em Julho de 2010 o escritor e também poeta, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP.

“Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada”, acrescentou na altura em declarações à Lusa. Para o escritor, o IILP “é uma entidade fantasma criada dentro de outra entidade fantasma.”

“Não se nota que exista qualquer espécie de política da língua da parte do Governo português e nota-se, da parte da mesma entidade, uma enorme estupidez na forma de tratar a língua, no que diz respeito ao Acordo Ortográfico”, disse o escritor.

Vasco Graça Moura, que foi uma das vozes contrárias ao Acordo Ortográfico por considerar que este tem deficiências e erros que lesam o Português, considerava que o Governo estava a cometer um crime contra a língua portuguesa.

Os crimes que este Governo está a cometer e está em vias de cometer em relação à língua diz respeito ao Acordo Ortográfico. Portanto, não há política de língua digna deste nome. Há uma série de equívocos em que este Governo está a persistir”, sublinhou.

Segundo o escritor, “o acordo ortográfico é um atentado criminoso contra a língua portuguesa tal como se fala em Portugal, Angola, Moçambique, na Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.”

“É um atentado que tenta desfigurar completamente a língua e é absolutamente irresponsável da parte de quem negociou e da parte de quem o aprovou”, disse.

“As pessoas falam português em qualquer parte do mundo e se entendem, seja no aspecto familiar, cultural, negocial, diplomático, isso nunca prejudicou ninguém (o facto de não haver um acordo ortográfico)”, referiu.

Graça Moura sublinhou também a importância dos países africanos lusófonos na projecção do português no âmbito internacional, além de Portugal e Brasil.

“Basta considerar o número de habitantes de todos os países que falam a língua portuguesa, não apenas o Brasil, não apenas Portugal. Se considerarmos os países africanos de língua portuguesa, temos mais 50 milhões de pessoas, pelo menos, a falar português”, indicou na altura.

Para Graça Moura, nunca foi preciso um Acordo Ortográfico para a projecção internacional do português.

“A projecção do português pode passar pelas organizações internacionais, pode passar pela promoção da cultura da língua, pela promoção da aprendizagem. Neste momento, a melhor maneira de projectar a língua é acabar, pura e simplesmente, com o Acordo Ortográfico”, concluiu.

Recordemos Amélia Mingas

No dia 21 de Julho de 2009, a directora executiva do Instituto Internacional de Língua Português (IILP), Amélia Mingas, disse que não iria recandidatar-se ao cargo em 2010, alegando que estava “cansada de ser sacrificada”.

Bater com a porta é, nestes casos, uma boa solução. Na altura esperava-se que o barulho fizesse algo pela comunidade lusófona (algo mais do que a mera CPLP), acordando-a da longa, mas bem nutrida, letargia em que ainda hoje se encontra.

“Tudo o que poderia ter dado já dei, com muito sofrimento e com muitas noites sem dormir para tentar ver o que poderia ser feito para dar visibilidade ao IILP. A única coisa que se comenta é que o IILP não fez nada e que é inoperante. Mas nunca deram meios”, afirmou a linguista angolana, nomeada em 2006 e reconduzida em 2008.

Também nós somos dos que dizem que o IILP é, tal como a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, um elefante branco anestesiado pelas sucessivas tentativas de o tornar ora cor-de-rosa, ora laranja, ora outra coisa qualquer.

Isso não significa, nem significou como o Folha 8 escreveu em 24de Maio de 2016, uma crítica a Amélia Mingas, a não ser que deveria (exactamente porque nunca lhe deram meios) ter há muito dado um valente murro na mesa ou, talvez, até na chipala dos que se julgam donos da CPLP.

Amélia Mingas comentava nessa data os resultados da 14ª Reunião do Conselho de Ministros da CPLP, que decorreu na Cidade da Praia, em Cabo Verde, em que foi decidido criar um grupo de trabalho para pensar a refundação do Instituto, criado em 1989.

Questionada sobre se a perspectiva de Angola assumir a presidência da CPLP em Julho de 2010 poderia trazer benefícios para a direcção do IILP, Amélia Mingas foi clara na resposta: “Quando tudo isso for aprovado e capaz de ser posto em acção, já não estarei cá. Termino a minha comissão em Julho do próximo ano. E não me recandidato.”

Amélia Mingas sabia, melhor do que todos nós, que a refundação nada mais significaria do que a constatação do óbito do Instituto Internacional de Língua Português. Isto porque, ao esperarem que ele sobreviva sem “comer”, vão verificar que quando estava já a saber viver sem “comer”… morreu.

“Tem sido uma travessia difícil. A verdade é que, quer se queira ou não, o IILP tem uma directora executiva, que o representa e que dá a cara sempre que necessário, mas nunca se fala dos meios que lhe puseram à disposição. Foi uma missão muito ingrata”, sustentou.

(mais…)