Categoria: ILCAO

Com efeito, Camões

Os antecedentes são inúmeros, de tal forma que é praticamente impossível sequenciar, agrupar ou simplesmente apontar os mais significativos. A resistência ao “acordo” continua viva e recomenda-se, sendo hoje como desde sempre os mesmos os resistentes — todos os portugueses, incluindo os tecnicamente analfabetos –, apesar de uma desprezível minoria continuarem a tentar menorizar a questão, isolar a polémica e encapsular em bolhas estanques uns quantos “notáveis” mais ou menos ilustres.

Dessa mesma resistência disseminada e democrática (na acepção canónica do termo) são também exemplo os dois registos em vídeo contidos neste “post”.

No primeiro deles, José Pacheco Pereira prossegue, com a coerência discursiva que o caracteriza, o combate à imposição política da cacografia brasileira e às desastrosas consequências da “adoção” perpetrada por Cavaco, Sócrates e Lula da Silva, prosseguida por António Costa e violentamente imposta em todo o espaço dos PALOP… que recusam “adotar” um enteado alheio em detrimento da Língua-mãe. JPP alinhava desta vez, a propósito do último 10 de Junho e do abominável discurso de circunstância de um tal Jorge Miranda, algumas ideias certeiras e não menos nem menores considerações a respeito de semelhante desconchavo.

No outro vídeo, e igualmente a pretexto do Dia de Portugal, a escritora Inês Pedrosa — uma militante aguerrida desde a primeira hora — refere o mesmíssimo paleio (com o devido desrespeito) do “constitucionalista” dos interesses geopolíticos brasileiros. Este brasileiro “adotivo” foi nomeado pelo Governo português actualmente em funções — herdeiro do “legado” sócretino — como “presidente da comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho” e aproveitou o tempo de antena do discurso oficial para fingir sentir-se “invadido” pela Língua… Inglesa!

Medalha de lata, por conseguinte, título plenamente merecido. Já sobre a neo-colonização linguística brasileira, que ele mesmo, enquanto “constitucionalista”, tenta atabalhoadamente justificar (diz que é assim porque é assim e pronto), é claro, na cerimónia militar do Dia de Camões a questão varreu-se-lhe completamente. Nem uma palavrinha. Ah, mas que grande “surpresa”!

Inês Pedrosa e JPP são dois dos notáveis resistentes que não se “armam” em “notáveis”. Nem um nem outra pretendem “rever” ou “melhorar” ou “despiorar” coisíssima nenhuma. Ambos sabem — porque falam firme e coerentemente — que a alternativa teria por fatalidade um único efeito: a devastação.

Aproxima-se velozmente o dia em que por fim se revele a causa desse efeito. E então, após um êxodo de proporções bíblicas, segundo o princípio da incerteza restará apenas uma coisa para fazer à saída: o último apaga a luz.


“O Princípio da Incerteza” – CNN Portugal – 12 de Junho de 2022

Sobre o programa

Um programa de resumo semanal dos principais temas da actualidade, de natureza política, social e económica.

Carlos Andrade conduz o formato que tem Alexandra Leitão, José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier como comentadores. [CNN Portugal]

“Link” para o programa: https://cnnportugal.iol.pt/videos/o-principio-da-incerteza-12-de-junho-de-2022/62a67d220cf2f9a86ea8f750


“O Último Apaga a Luz” – RTP – 17 de Junho de 2022

Sobre o programa

O último apaga a luz lança um olhar sobre a nossa realidade. A iniciar o fim de semana, Raquel Varela (historiadora), Joaquim Vieira (jornalista), Rodrigo Moita de Deus (cronista), Inês Pedrosa (escritora) e Pedro Vieira (humorista e escritor) analisam, a partir das suas experiências profissionais, a forma como as noticias têm sido tratadas. [RTP]

“Link” para o programa: https://www.rtp.pt/play/p10000/o-ultimo-apaga-a-luz

Inês Pedrosa refere a crónica de Nuno Pacheco publicada no jornal “Público” de 16.06.22, cujo texto foi transcrito na íntegra no “site” da ILC-AO.

Notas:

1. Os textos transcritos (se na cacografia brasileira no original) foram corrigidos automaticamente.
2. Devido ao extraordinário número de denúncias por “copyright infringement” na conta YouTube do Apartado 53, os excertos de vídeos são alojados no domínio cedilha.net.
3. Se pretender reproduzir os “videoclips”, descarregue-os para o seu computador; por favor, não utilize os “links” directos para “embed” no seu “site” ou “blog”. Este “domain” (como aliás qualquer outro) tem limites de tráfego e de sobrecarga no “server” onde está alojado.

[imagem de topo de: http://www.claudia-schoen.de ]

«Deite-se fora o Acordo Ortográfico» [Miguel Esteves Cardoso, 8 Abril 2022]

Voltar à frente

Miguel Esteves Cardoso
“Público”, 8 de Abril de 2022

Deite-se fora o AO e, em vez desse desmando, ensinemos às nossas crianças a riqueza, a graça e a personalidade das várias versões nacionais da língua portuguesa.

Emendar a mão é o único sinal de superioridade. Quem emenda a mão é porque sabe que errou. Mas, para saber que errou, tem de estar acordado, tem de estar aberto, tem de ouvir as vozes discordantes, tem de mostrar a coragem de ser constantemente avaliado.

A humildade não é um princípio nem um valor. Não é interior sequer. A humildade é uma prática. Só se afirma nas acções. Ser humilde é praticar a humildade: não é fazer-se de santo ou encher a boca de palavras aprovadas.

Para se ser humilde é preciso dar valor aos outros, estar atento aos outros, ter medo de nos enganarmos e confiar nos outros para nos corrigir.

É por isso que emendar a mão é tão bonito de se ver: é o contrario da arrogância, 0 contrário da prepotência, o contrário da rigidez, o contrário do fechamento.

É altura de dar uma alegria à língua portuguesa: é altura de a libertar do Acordo Ortográfico.

O Acordo Ortográfico foi feito numa altura em que a uniformização estava na moda, numa época em que se pedia às pessoas que esquecessem as diferenças.

Mas entretanto tudo mudou: agora são as diferenças que é preciso celebrar. Portugal já não é um pais pequenino diante o Brasil e os outros países que falam português. Agora, Portugal é Portugal e o Brasil é o Brasil e São Tomé e Príncipe é São Tomé e Príncipe.

O contrario da uniformização é a celebração das diferenças. A melhor maneira de as celebrar é através do estudo. Deite-se fora o Acordo Ortográfico e, em vez desse desmando, ensinemos às nossas crianças a riqueza, a graça e a personalidade das várias versões nacionais da língua portuguesa.

E nos também temos direito à nossa versão, à nossa ortografia, às nossas manias, às nossas particularidades.

A alegria da nossa língua é a liberdade.

Restituam-na e serão recompensados.

 

[Reprodução integral (por “text scan”) de crónica da autoria de
Miguel Esteves Cardoso (MEC)
publicada na edição em papel do jornal “Público”
de 8 de Abril de 2022
.
]

«(…) o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político.»
«O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.Por muito que acreditemos no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas – e as maneiras como as escrevemos graficamente – são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser.»
[«Calor e mar bravo» [MEC, Público], 12.08.11]

«(…) em que se noticiava e elogiava a decisão de Vasco Graça Moura, depois de ter consultado e obtido o apoio unânime do conselho de administração do Centro Cultural de Belém, de mandar à merda o Acordo Ortográfico.» [«Grande Vasco» [MEC, “Público”, 06.02.12]

«Os escritores e cronistas Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia vão continuar a usar o Acordo Ortográfico de 1945, questionando a utilidade do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, cujo período de transição da sua aplicação termina quarta-feira*.»
«Questionado pela Lusa, se a partir de 13 de Maio irá utilizar a nova grafia Miguel Esteves Cardoso foi peremptório: “Claro que não! Nunca. É uma posição de liberdade e patriótica”.» [LUSA – 105 FM – 09 Maio 2015, “post” com o título “Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia (e muitos outros) não aceitam AO90″, 11.05.15]

«Daqui a 50 anos, em 2065, quase todos os opositores do analfabeto Acordo Ortográfico estarão mortos. Em contrapartida, as crianças que este ano, em 2015, começaram a ser ensinadas a escrever tortograficamente, terão 55 anos ou menos. Ou seja: mandarão no país e na língua oficial portuguesa.»
«A jogada repugnante dos acordistas imperialistas — ignorantes e cada vez mais desacompanhados pelas ex-colónias que tentaram recolonizar ortograficamente — terá ganho tanto por manha como por estultícia.»
«As vítimas e os alvos dos conspiradores do AO90 não somos nós: são as criancinhas que não sabem defender-se.» [«O segundo acto» [Miguel Esteves Cardoso, “Público”, 20.05.15]


Se em vez de mim “à frente” da iniciativa estivesse alguém como Miguel Esteves Cardoso, “nosso” MEC, ou um outro nome ainda mais veterano (e venerável), Pedro Tamen, por exemplo, bem, pois com certeza, nesse caso outro galo cantaria, o pessoal mui naturalmente adora seguir um líder, mas que esse líder seja gente de algo, garantia à cabeça — literalmente — de que de sua ilustre cabeça jorrarão ideias em tropel e prestígio a rodos e brilho aspergido por todos em volta. [JPG, “Uma história (muito) mal contada [XXVII]”, 20.12.15]


[Nota: a versão online do artigo está disponível apenas para assinantes do “Público”. Imagem inserida na transcrição (foto-montagem de MEC) do jornal online “Observador”.]

Fatos à medida

«Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistosomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros – não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões – a tomar as terras e dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível a indústria das secas, tão rendosa; sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!» [Jorge Amado]

Esta é outra das consequências mais nefastas do AO9 — como se algum resultado de semelhante aberração pudesse ser positivo — que portugueses tentam omitir fingindo que não existe mas que encaixa perfeitamente na teoria vitimista dos brasileiros em geral. Anteriormente havia alguma espécie de harmonia entre os dois países e os povos de ambos, convivendo naturalmente os de cá e os de lá com todas as suas diferenças sociais, históricas, culturais e — natural ou principalmente — linguísticas.

Antes do AO90, a língua brasileira não passava, pelo menos oficial e politicamente, de uma variante do Português-padrão. Desde que a cacografia brasileira foi imposta a toda a “lusofonia”, em Julho de 2008, também em Portugal começaram a surgir alguns sinais da xenofobia e intolerância que sempre foram características intrínsecas da atitude dos brasileiros em geral quando se referem ao nosso país e principalmente aos nossos compatriotas emigrados naquele país; o preconceito anti-português radicará muito provavelmente na constatação (expressamente inventada para o efeito) de que o atraso sócio-económico brasileiro é integralmente “culpa” dos “exploradores” portugueses que sempre andaram por lá a “roubar” o ouro brasileiro e a explorar os escravos que naquela época, como é “um fato”, não era prática comum nem nada. Segundo a sua impecável “lógica”, os brasileiros foram “vítimas” dos malvados portugueses durante 388 anos, “pôrrtantu, viu”, “u siguintchi”, de igual modo a culpa de tudo o que de mau acontece no Brasil desde a independência, em 1822, continua a ser de Maria e de “seu Manuéu” — esse casal apalhaçado que retrata na diminuta cabecinha de milhões de brasileiros o estereotipo nojento por eles reconhecido como o verdadeiro tuga.

Há quem diga que o fenómeno não passa de um arquétipo, garantindo inocuidade e inocência às diatribes, mas, na verdade, como aliás todos sabemos perfeitamente, e alguns até por experiência própria, aos brasileiros em geral não agrada nada qualquer coisa que sequer lhes cheire a “tuga” ou, como dizem na sua língua, a “portuguesinho”. Ainda que tenhamos o discernimento suficiente para distinguir o “brasileiro médio”, por regra portador de uma carga imensa de confrangedora ignorância, do “brasileiro comum” (ou normal, dirão alguns mais irritadiços) e da sua petulância, a arrogância de que fazem gala quase todos eles, ainda assim teremos sempre de contar com a “sede” que o zuca tem ao tuga; é uma idiossincrasia peculiar sem a mínima sustentação.

A questão radica em razões históricas “mal resolvidas”, geralmente apoiadas numa narrativa sustentada pelos caciques locais (os “coroné” ou “coronéu”) e por uns quantos políticos um bocadinho mais trogloditas, representando Portugal para todos os efeitos o álibi perfeito que justifica o atávico atraso do seu “imenso” país terceiro-mundista: tudo o que no Brasil sucede de mau ou funciona mal ou não funciona de todo é automaticamente “culpa dos portugueses” (como se aquilo não fosse independente desde 1822, repita-se) e eles são inocentes de tudo, não passam de pobres vítimas — a não ser que a coisa interesse, porque nesse caso já é 100% brasileira (veja-se o caso de Bartolomeu de Gusmão) — e portanto há que “castigar” os amaldiçoados tugas.

Esse “castigo” histórico e existencial (fifty-fifty) em jeito de vingança tem de facto de ser implacável, a começar por arrancar-nos a língua (com minúscula) — é brasileiro o exclusivo da vitimização — e depois destruir-nos também a Língua (com maiúscula) impondo a língua (de novo, com minúscula) brasileira como sendo “universau”, e tudo isto incluindo não apenas a sua deles cacografia como também o léxico, a arbitrariedade de regras gramaticais (abolindo a Gramática, esse empecilho, por redundância) e até, como se tem visto, o “sutáki” deles.

Cada qual responderá por si, evidentemente. No que diz respeito à minha já muito longa luta contra o AO90, jamais existiu qualquer espécie de preconceito (anti-brasileiro ou outro). Bem pelo contrário, aliás, até porque desde sempre atribuo — com bastas provas e nada de “bocas foleiras” — tanto a responsabilidade como a irresponsabilidade pelo e do estropício aos corruptos, vendidos e traidores envolvidos no golpe de Estado, aos políticos, empresários, académicos e outros tipos de canalhas (além dos inúmeros idiotas úteis que dantes rasgavam as vestes), todos eles portugueses e portuguesas ou, melhor dizendo, todos eles e elas sendo portadores de passaporte português — cortesia das entidades oficiais coniventes.
(mais…)

Timor Loro Sae, Timor Sol Nascente

Nota prévia
Após uma relativamente longa suspensão, em sinal de respeito para com as vítimas da tragédia que estalou na Ucrânia, mas atendendo a que apesar de tudo continua sem qualquer alteração em Portugal o processo de genocídio cultural em curso, decidi retomar a publicação de conteúdos neste “blog”, na expectativa e com a esperança de que esteja para breve a reconquista da independência, da auto-determinação e, numa palavra, da paz naquele país.


«Como foi possível?»
«Algumas pessoas nos perguntam e muitas outras se interrogam: como foi possível que a entrada em vigor do “acordo ortográfico” de 1990 tenha sido aprovada pelo Parlamento?»
Lusa
Na votação de hoje na Assembleia da República, estava em causa apenas a adesão de Timor-Leste ao Acordo Ortográfico e a possibilidade deste poder entrar em vigor após três ratificações, como estabelece o segundo protocolo modificativo. [“Despacho” da agência Lusa, 16 de Maio de 2008. Este “despacho” foi reproduzido na altura pela generalidade da imprensa portuguesa.]

Eu próprio, tal como muitos senhoras e senhores Deputados, assisti a um lancinante apelo de um português que está em Timor e que pedia que se ratificasse este Acordo Ortográfico para que possa ser uma realidade o ensino do Português em Timor-Leste, com professores portugueses mas também brasileiros, ou angolanos, ou moçambicanos. [Excerto de intervenção em plenário de Pedro Mota Soares (deputado), durante a discussão da RAR 35/2008, em 16 de Maio de 2008.]

O que está aqui hoje em discussão — no fundo, o conteúdo deste Segundo Protocolo Modificativo — é a entrada em vigor desse mesmo Acordo Ortográfico, a sua abertura à República Democrática de Timor-Leste e o prazo limite de seis anos para adaptação dos manuais. Isto, depois de um Primeiro Protocolo Modificativo que alterara o texto inicial, quando este previa, como prazo para ratificação por todas as partes signatárias, a entrada em vigor do próprio Acordo Ortográfico no ano de 1994. [Excerto de intervenção em plenário de Rui Gomes da Silva (deputado), durante a discussão da RAR 35/2008, em 16 de Maio de 2008.]

Fica a pergunta: quantos dos 204 deputados terão votado favoravelmente a RAR 35/2008 julgando estar a aprovar não a entrada em vigor do AO90 mas apenas a admissão de Timor-Leste como Estado subscritor? [“Post” da ILCAO em 25.09.12.]

Uso de português em debate de candidatos presidenciais timorenses causa polémica

www.dn.pt, 22.02.22

 

A decisão da Comissão Nacional de Eleições (CNE) timorense de incluir algumas perguntas em língua portuguesa no debate dos candidatos presidenciais às eleições de 19 de Março está a causar polémica em Timor-Leste.

Dez candidatos ouvidos pela Lusa (há 16 concorrentes) concordam com a decisão, recordando que o português é, a par do tétum, uma das línguas oficiais do país e que o Presidente deve dominar as duas línguas.

A maior oposição à ideia tem sido vincada por dirigentes do KmanekHaburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO), partido que apoia a candidatura da atual vice-primeira-ministra, Berta dos Santos, que evidencia algumas dificuldades a falar português.

“Não há regras, procedimentos legais que exijam que o candidato tem que falar português”, afirmou à Lusa AntonioTilman, dirigente e deputado do KHUNTO.

“O debate é um meio de os candidatos darem a conhecer as suas políticas à população em geral, que não compreende bem português”, afirmou.

Questionado sobre se a postura do partido tem a ver com o facto de a sua candidata ter dificuldades em português), Tilman insiste que o debate não é sobre a “capacidade de falar ou não” português.

Contra a decisão manifestou-se igualmente o secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri.

“Sou defensor da língua portuguesa. Mas neste caso a mensagem deve ser entendida pelos eleitores. 90% dos eleitores não vão absorver nada das mensagens”, disse à Lusa.

Além da oposição pública da candidatura de Berta dos Santos, para já nenhum outro candidato criticou publicamente a decisão, anunciada pelo presidente da CNE, José Belo.

José Ramos-Horta, candidato presidencial, disse à Lusa que concorda totalmente com o uso das duas línguas oficiais durante o debate.

“Como é possível imaginar-se um chefe de Estado timorense que não domine as duas línguas oficiais de Timor-Leste, sendo Timor-Leste membro da CPLP?” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), disse Ramos-Horta, que ocupou a presidência entre 2007 e 2012.

Outro candidato, Constâncio Pinto, disse à Lusa concordar “perfeitamente com o uso da língua portuguesa no debate da CNE porque a língua portuguesa é uma das línguas oficiais de Timor-Leste”.

“Porque é que temos medo no uso da capacidade de falar em português?”, questionou Martinho Gusmão, padre e candidato presidencial.

LereAnanTimur, general e candidato à presidência, recorda que foi decisão dos timorenses na sua constituição “optar pelo português com o tétum como línguas oficiais” e que por isso o Presidente do país deve defender as duas línguas.

Opinião idêntica tem a candidata Milena Pires, que disse à Lusa que “sendo o tétum e o português línguas oficiais de Timor-Leste, consagradas na Constituição da República, é natural que ambas sejam usadas no debate presidencial promovido pela CNE”.

Opinião idêntica têm Isabel Ferreira, Milena Pires e Virgilio Guterres, candidatos que disseram à Lusa que as línguas estão constitucionalmente consagradas e que por isso devem ser usadas no debate.

Ainda assim, Virgilio Guterres reconheceu que “uma percentagem significativa dos eleitores ainda não domina a língua portuguesa”.

O candidato Mariano Assanami Sabino vinca mesmo que “o Presidente tem papel guardião da constituição e é necessário também usar o português”.

Outro candidato, Felizberto Duarte lembrou que as leis “a serem promulgadas pelo presidente são escritas em português. Domínio de português dos candidatos para o cargo de presidente é um requisito essencial de competência”, disse à Lusa.

A utilização da língua portuguesa no debate já devia ter acontecido em eleições anteriores, defendeu o candidato Anacleto Ferreira. “Só espero não esteja a ser usada esta obrigação como uma arma política”, disse à Lusa.

O debate da CNE está marcado para 08 de Março e a primeira volta das eleições ocorre a 19 de Março.

[Corrigi a cacografia brasileira do original. Destaques e “links” a verde meus. Imagem minha (distribuição de manuais de Língua Portuguesa pelas escolas das montanhas de Timor).]

Cabo Verde tem a sua própria língua nacional, o Crioulo, e utiliza o Português-padrão como segunda língua. Do mesmo modo, em Timor-Leste a língua nacional é o Tétum, sendo a Língua Portuguesa canónica utilizada unicamente em meios oficiais e académicos para efeitos governamentais ou diplomáticos.

Em Timor, aliás à semelhança do que sucedeu e continua a suceder em todas as demais ex-colónias portuguesas, o Português de lei funciona como língua franca, ou seja, como sistema de comunicação comum entre grupos de indivíduos de língua materna e de uso diferentes.
(mais…)

Língua universau, língua globau etc. e tau

Coexistirão várias sintaxes“, dizem eles. Ah, pois, pois, disso ninguém duvida, a língua brasileira é infinitamente flexível, aquilo dá para tudo, literalmente, basta escrever como eles falam e pronto, está feito, toma lá a língua universáu, ô cara.

Pérolas deste calibre são a granel no texto, mas no vídeo ainda há mais e melhores: sempre sem se rir, um tipo qualquer “ispilica” — a propósito do “quadro a óleo” supra, essa fantástica obra de renomado “pintor” brasileiro — qual a categoria, de entre cinco possíveis, mais adequada para “enquádrá” os dizeres do garoto e as suas dúvidas pungentes sobre o “new portuguêis”.

Desiluda-se, no entanto, quem achar que as brincadeiras dos brasileiros com a sua língua (ou, melhor dizendo, com a língua deles) contém algo de inconsequente ou inócuo, que não irá para além do corso carnavalesco habitual e que, portanto, isto não passará das marcas. Já as passou todas. Já estamos do lado de lá. O crioulo de origem portuguesa de que o Brasil se apossou com a designação original, chamando sua a Língua, cumpre hoje — perante a indiferença geral e com a conivência activa de alguns lacaios políticos portugueses — uma função meramente instrumental como “facilitadora” de negócios (como está profusamente expresso), enquanto pretexto para dar vazão ao expansionismo da mediocridade (e da estupidez e da ignorância) e ainda como veículo de propaganda dos putativos méritos do neo-colonialismo invertido, de um neo-imperialismo absolutamente insuportável.

Ultrapassada por brasileiristas deslumbrados a fronteira da decência, desbaratados os últimos resquícios de dignidade que ainda restavam a esta campa rasa à beira-mar escavada, pouco ou nada mais nos resta do que prosseguir na senda da resistência. Contra todas as probabilidades, sim. Custe o que custar, sim.

Como no primeiro dia.

Portuguêsbrasileiro afirma-se, cada vez mais, como língua global de futuro

“Comunidades”, 31.01.22

O portuguêsbrasileiro afirma-se, cada vez mais, como uma das línguas globais de futuro. Estima-se que em 2050 o número de falantes de portuguêsbrasileiro ultrapasse os 400 milhões e que, até ao final do século, chegue aos 600 ou 700 milhões.

Os cálculos foram apresentados, no final de 2021, pelo director executivo do Instituto Nacional de Língua Portuguesabrasileira (IILPB), Incanha Intumbo, no âmbito de um webminar[sic] internacional promovido pela Lusa LanguageSchool (escola de portuguêsbrasileiro para estrangeiros sediada em Lisboa).

Ainda que ligeiramente diferentes, também a[sic] projecções das Nações Unidas apontam para um “avanço robusto” da língua portuguesabrasileira, concretamente para uma duplicação dos seus actuais 260 milhões de falantes, até ao final do século.

Tanto para o responsável do IILP, como para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesabrasileira (CPLPB) “a aprendizagem da língua portuguesabrasileira está em alta”, sendo actualmente a quinta língua mais falada no mundo, a primeira no Hemisfério Sul e uma das línguas mais usadas na internet e nas redes sociais. Apresenta um forte crescimento, sobretudo em África.

“Só no Senegal (país de língua oficial francesa) estão inscritos mais de 40.000 novos alunos de portuguêsbrasileiro no âmbito do Instituto Camões”, ilustrou o cabo-verdiano Incanha Intumbo.

“Não quer dizer que o portuguêsbrasileiro do futuro seja totalmente homogéneo, coexistirão várias sintaxes, mas isso é a riqueza da língua. Desde que todos nos entendamos isso é que interessa”, sublinhou o responsável.

Intumbo lembrou que países tão poderosos economicamente como a Índia ou os EUA são membros observadores associados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesabrasileira (CPLPB ), “o que revela o interesse global do Portuguêsbrasileiro como língua cultural, técnica, científica e de negócios”.

Nélia Alexandra, directora do Centro de Avaliação de Língua para Estrangeiros da Universidade de Lisboa (CAPLE) confirmou este interesse crescente do portuguêsbrasileiro no Centro de Avaliação de Língua para Estrangeiros (que examina e confere os títulos académicos para novos falantes de portuguêsbrasileiro) no âmbito da Universidade de Lisboa.

“Há um novo paradigma, mais novos falantes de portuguêsbrasileiro que procuram a língua por motivos académicos, científicos e profissionais e menos por razões de cidadania ou residência, como acontecia até recentemente”, defendeu a directora do CAPLE, para quem o ensino do portuguêsbrasileiro “está cada vez melhor, reflectindo-se tal nos exames”.

Por seu turno, Susana Moura, professora na Lusa LanguageSchool, sugeriu que “o ensino do Portuguêsbrasileiro mudou muito nos últimos anos”.

Houve uma explosão a partir de 2015 e, hoje em dia, há uma grande variedade etária, coisa que não acontecia há 10, 15 anos. Hoje em dia coexistem alunos de português seniores com jovens de 9 anos. É muito diferente, há mais procura, mais variedade, mais exigência e qualidade”, frisou.

Um dos problemas que se identificam, na opinião desta docente, é a “falta de manuais escolares e textos de apoio, mesmo a nível online”, referiu.

O Brasil neste campo é bastante mais dinâmico. A nível de apps, por exemplo, ou outras formas de apoio, o que alunos encontram online é quase tudo brasileiro, os apoios para português de Portugal são muito escassos”, sustentou.

“Livros e textos de apoio fazem muita falta. Já começam a aparecer as edições e apoios online, mas nunca é demais, é muito importante”, vincou.

Próximas gerações

“Se hoje a nossa língua tem um considerável valor estratégico, geopolítico, económico e cultural, essas projecções permitem prever um futuro auspicioso para o nosso idioma comum nas próximas gerações”, destacou Francisco Ribeiro Telles, ex-secretário executivo da CPLPB, por ocasião do Dia Mundial da Língua Portuguesa brasileira, celebrado a 5 de Maio.

A língua portuguesabrasileira esteve na génese e é a matriz identitária da Comunidade dos Países da Língua Portuguesabrasileira, a Colo[sic], permanecendo até hoje como o pilar fundamental e um elemento congregador de todos os países e povos que a partilham.

É, acima de tudo, um património comum de todos os que a usam e que a foram alimentando e valorizando ao longo dos séculos apropriando-se dela, recriando-a e vivendo hoje como um elemento central da sua própria identidade.

[Transcrição integral (emendado e com a cacografia brasileira convertida em ortografia portuguesa) de versão publicada em 31.01.22 num “site” que se auto-intitula como “Comunidades”. Destaques, sublinhados e “links” meus.]

10 de Junho, Dia da Língua Portuguesa

Comemora-se hoje, 10 de Junho, o Dia de Portugal, da Língua Portuguesa, de Camões e da diáspora.

Esta é uma data a celebrar, efectivamente, e que nada tem a ver, pelo que em caso algum deve dar azo a quaisquer confusões, por lapso ou contaminação propagandística, com o dia da língua brasileira, a 5 de Maio; esta outra data, totalmente alheia a Portugal, aos portugueses e à sua Língua, consiste numa série de eventos artificiais patrocinados por brasileiros, pelo político profissional António Guterres, por uma organização brasileira (paga pelo erário público português) a que resolveram os implicados chamar “CPLP” e por uma pequena seita de fanáticos brasileirófilos misturados com alguns sôfregos capitalistas e um grupinho de rapazolas para ir apanhar as canas e servir umas caipirinhas.

Por exemplo (se bem que nestes casos exista um dever de observar alguma espécie de gravitas e de dignitas,  dado o estatuto de algumas das pessoas em causa), Cavaco, Malaca, Sócrates, Bechara, Lula, Reis, Santana e Canavilhas contribuiram — cada qual a seu modo e na medida das suas possibilidades políticas e das respectivas “influências” — não apenas para esgalhar o AO90, essa arma de destruição maciça da Língua Portuguesa, como também para inventar a festarola sambística do “5 de Maio“. Esta invenção ocorreu primeiramente em 2018 (caramba!, há três anos, mas que coisa antiga, vetusta, cheia de tradição e verdete) e no ano seguinte, 2019, a UNESCO, sabe-se lá por que bulas e a troco de quê, resolveu puxar o lustro àquela bota “proclamando” essa mesma data como “Dia Mundial” da língua brasileira.

Coisa estranha, esta suspeitíssima manobra diplomática junto da UNESCO, visto que parece ser esse “Dia Mundial” da língua brasileira, precisamente, um caso muito raro ou único. Existe naquele organismo supranacional o “Dia Internacional da Língua Materna”, o que consubstancia um conceito radicalmente diferente, por genérico e abrangente, mas qualquer pesquisa (interna ou via Google) por “Dia da Língua” (ou por “language day”) devolve apenas um resultado, no que respeita a línguas de países historicamente colonizadores: além do tal “5 de Maio”, o “Day” da “bambochata” do “pôrrtugueiss universáu”, não existe qualquer “Day” para qualquer outra Língua nacional. À excepção, evidentemente, dos dias dedicados às línguas de trabalho oficiais admitidas na ONU: Arabic (18 December), Chinese (20 April)English (23 April), French (20 March), Russian (6 June) e Spanish (23 April). Estes seis casos justificam-se por aquilo que representam (línguas de trabalho da ONU), mas o dia da língua brasileira é o único a fintar essa lógica formal.

Dever-se-á talvez rever a definição do verbo “tresandar”. Isto já não é uma história (muito) mal contada. Se a UNESCO e o próprio secretário-geral da ONU estão atolados em tão viscoso entroncamento de lamaçais, então estaremos não apenas perante uma das maiores burlas diplomáticas de sempre como vamos assistindo — muitos, com passividade ou indiferença — a um filme de encenação deprimente, péssimo guião, actores horríveis. Demasiado mau para ser verdade, de facto.

É hoje o único, o verdadeiro Dia da Língua Portuguesa. Eis uma certeza absoluta, séria e fiável.

Deixemos as alucinações para os imperialistas e os xenófobos, as mentiras para os desequilibrados e mitómanos, a verborreia para aqueles “intelectuais” em cuja cabeça apenas existe um preço escrito na testa.

JPG


A arte de transformar uma ILC-AO numa ILCalem-se

Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse uma resolução da própria AR!

Nuno Pacheco
“Público”, 10 de Junho de 2021

Não há inspiração camoniana (“Cale-se de Alexandre e de Trajano…”) no título deste texto, apesar de hoje, 10 de Junho, se celebrar Camões, a par de Portugal e das Comunidades. Não, o motivo é outro e nada tem de metafórico; pelo contrário, é literal. Expliquemo-nos: há um “cantinho” reservado aos cidadãos na Assembleia da República (AR); não para se sentarem, para isso há as galerias, mas para intervirem na actividade parlamentar. É um espaço virtual onde podem ser apresentadas três tipos de iniciativas: legislativas, petições e referendos. E ali se acolhe o que a lei e as regras (há um manual do utilizador, com 23 páginas) permitem. Dia 7, por exemplo, estavam lá três iniciativas legislativas de cidadãos (ILC, com 3393, 3101 e 543 assinaturas, respectivamente) e 36 petições. A mais “pesada”, de Abril, tinha 192.129 assinaturas (para afastar o juiz Ivo Rosa), a segunda 10.625 e a última apenas 3.

Mas, antes delas, uma outra ILC foi fazendo um longo e duro caminho até estar composta, aceite e pronta à votação. Se não tivesse esbarrado, antes, num muro. Falamos da ILC-AO, respeitante ao Acordo Ortográfico (AO90) e de que já aqui se falou mais do que uma vez (declaração de interesses: sou um dos subscritores). As raízes de tal iniciativa remontam a 2008 e centram-se no segundo protocolo modificativo do dito: “[o AO90] entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa.” Isto, que muitos políticos acharam natural, foi um golpe inadmissível. Um acordo que envolve oito países (depois de se lhes juntar Timor-Leste) não podia entrar em vigor só com o “sim” de três; ou melhor, só poderia se todos os oito tivessem ratificado essa alteração de fundo. Só que, de facto, quatro nem sequer ratificaram o acordo, quanto mais os dois protocolos modificativos; e os restantes fizeram-no com métodos e em datas bastante duvidosas, como também oportunamente aqui se demonstrou em Agosto e em Dezembro de 2019. Mas a verdade é que a Assembleia da República aprovou, pela Resolução n.º 35/2008, de 29 de Julho, esse inominável segundo protocolo. Objectivo da ILC-AO? Que a AR o revogasse.

Nestes muitos anos, e enfrentando mudanças de leis e regras, a ILC fez o seu caminho. Foi recolhendo assinaturas, entregou-as em Abril de 2019 (21.206 validadas, feitos os acertos) e foi transformada oficialmente em projecto de lei, com o número 1195/XIII. Datada de 30 de Outubro de 2019, a Nota de Admissibilidade concluía: “A apresentação desta iniciativa cumpre os requisitos formais de admissibilidade previstos na Constituição, no Regimento da Assembleia da República e na Lei sobre a Iniciativa Legislativa dos Cidadãos.” Tudo certo?

Sim e não. Porque depois o assunto emperrou. Em 6 de Novembro, baixou à Comissão de Cultura e foi como se tivesse baixado à terra, na acepção funerária do termo. Debateu-se, contrariou-se, pediram-se pareceres e… ignorou-se a Lei das ILC, a n.º 17/2003, que diz expressamente que o respectivo relatório e parecer devem ser elaborados no prazo de 30 dias e, esgotado tal prazo, a ILC deve ser agendada “para uma das 10 reuniões plenárias seguintes”. Ora o relatório/parecer só foi enviado ao Presidente da AR em 29 de Junho de 2020, com muitos 30 dias já gastos e só em 16 de Setembro de 2020 é que foi discutida em Conferência de Líderes, órgão ao qual cabe decidir a agenda do Plenário. E o que sugeriram os líderes em conferência? Que a ILC fosse transformada em petição. Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse a resolução da própria AR!
(mais…)