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O barulho dos culpados

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Sob diversos pontos de vista, o artigo transcrito em baixo tem muito interesse. Apesar de ter sido publicado previamente num jornal brasileiro, por alguma razão o “Público” ter-se-á dado ao incómodo de publicar matéria requentada; a qual, aliás, deverá ter sido tão ignorada na Folha-de-couve de S. Paulo como passou despercebida por cá. Talvez por distracção, suponho, à conta das exéquias de Sua Alteza a Rainha Isabel II; ou poderá ter sido por causa da guerra na Ucrânia; ou então devido à canseira que acarretou o “dossier” do tal bicentenário.

https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=256028919860527&id=100063602625538&__cft__[0]=AZX1IjV49bqTmJkcZnsCeF9kAxrj_d9UDSZ1Zwas_-tXzDBuPCeRMHflDB4hc9fJfkqi725XrCN50yNwqG4FQuUEAnOnZO6H6r1yws0lRm_W51CNCEXxD8W8WCDtCXEMjI7Z5JKcbuRUTs74GrRmjmFJxdqSOu9qP63mzyg6p_m33A&__tn__=%2CO*FSemelhante menosprezo por tão “rica” peça é um desperdício, porém. Não acontece muito — mesmo nos tempos mais recentes, em que os acordistas e brasileiristas já nem se ralam a disfarçar — tropeçar na imprensa tuga com tamanha carga de ingenuidade (chamemos-lhe assim), uma espécie de inocência quase pueril. A não ser, hipótese aliás mais provável, que a este autor também já não assista um módico de contenção; não está tudo, mas muito daquilo que realmente se passa está ali escarrapachado.

Os festejos antecipados pela vitória de um candidato a manda-chuva do Brasil e as “simpatias” desse pelos mamíferos que actualmente ocupam as baias de Belém e São Bento; a culpabilização sistemática de Portugal (é um hábito contagioso, a julgar pelo número crescente de infectados) não se sabe bem porquê, mas isso não interessa para nada (faz parte do vício, coisa de rotina); que o apreciador de banhos em água de esgoto é recordista mundial de visitas “de Estado” ao seu país irmão e que aquilo para ele é mais assunto doméstico e familiar e pouco ou nada de Estado e diplomacia. De tudo isto resultará, na opinião do autor do texto, uma putativa aliança entre a República Federativa do Brasil e o estado europeu que, segundo alguns tipos qualificadíssimos, já faz parte da dita federação. Anexação, portanto.

De facto, há por aí uns tipos que, exultantes e um pouco frenéticos, exultam com essa miserável, abominável, insuportável perspectiva — que para os mesmos deixou de ser mera expectativa — e assim julgam-se à vontade para servir em rodízio o escarmento aos apreciadores de miolos salteados.

Portugal precisa do Brasil para ser português?

Portugal, para ser português, precisa de acreditar que exerce algum tipo de influência sobre o Brasil, e que tem o seu respeito. Mas isso não acontece.O Brasil é um país superlativo que nunca reconheceu em Portugal uma prioridade longeva.

Rodrigo Tavares
“Público”, 13.09.22

 

No dia do bicentenário da independência do Brasil, António Costa publicou um artigo de opinião na Folha de S. Paulo para justificar porque é que Portugal se associou aos festejos. Se a presença de Marcelo Rebelo de Sousa era uma inevitabilidade histórica e se a relação entre Portugal e o Brasil “é umbilical”, porquê a necessidade de se explicar? Vários órgãos de imprensa portugueses republicaram acriticamente trechos do texto, mas, no Brasil, passou praticamente despercebido, apesar de ter sido impresso no principal jornal brasileiro.

Nos últimos 200 anos, a relação entre os dois países foi-se modelando, ao longo do tempo, de acordo com oscilantes interesses nacionais, circunstâncias inesperadas, visões ideológicas cíclicas e afeições pessoais entre alguns líderes. Nada que seja incomum nas relações internacionais entre Estados. Mas, no caso do Brasil e Portugal, há um elemento imaterial que torna a relação incomparável e complexa: a consciência auto-induzida, por parte de Portugal, do seu excepcionalismo.

Como ensinaram os republicanos, as identidades colectivas podem ser moldadas. E, ao longo de centenas de anos, a nossa identidade portuguesa foi forjada pela ideia de que a vulnerabilidade do país (pobreza, pequenez territorial e isolamento geográfico) pode ser superada pela heroicidade do seu povo. A função messiânica, o ímpeto pluricontinental, a nossa capacidade miscigenadora e constituição multirracial foram celebradas por Camões, António Vieira, Pessoa, Freyre sem meios-tons. O impulso português para o universalismo, assente em muitos elementos tangíveis e alguma selectividade memorial, está presente em discursos públicos, no baptismo de obras públicas com nomes de navegantes, nos livros escolares.

A partir de 1974, com o fim do império colonial e o enxugamento territorial do país, Portugal apropriou-se da ideia de lusofonia para continuar a irradiar a sua influência pelo mundo. Criou a CPLP, actualmente com nove países-membros. Portugal também é um país europeu e europeísta, mas na Europa voa sem sair do lugar; a sua influência é directamente proporcional à sua vulnerabilidade. É apenas no campo da lusofonia que Portugal tem conseguido consumar a sua identidade universal. O que significa que Portugal, para ser português, precisa de acreditar que exerce algum tipo de influência sobre o Brasil, e que tem o seu respeito.

Mas isso não acontece. O Brasil é um país superlativo que nunca reconheceu em Portugal uma prioridade longeva. E sempre que o Brasil mostra alguma frieza, Portugal contorce-se, retorce-se, desconforta-se e azia-se, enquanto sob[e] o tom para falar “nos laços de amizade que unem dois povos irmãos”.

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Lula (Honoris Causa pela Univ. Coimbra) e Sócrates (PM), Dilma e Cavaco

Bolsonaro, Temer e Dilma mostraram muita indiferença por Portugal. As passagens pelo país foram poucas e fugidias. Como reagiu Marcelo Rebelo de Sousa? Fazendo seis visitas ao Brasil em seis anos, um recorde que viola códigos diplomáticos de reciprocidade. Marcelo nasceu no berço do universalismo português. Na década de 1960, o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi nomeado governador-geral de Moçambique. Após o 25 de Abril, refugiou-se no Brasil. O avô de Marcelo, António Joaquim, viveu em Angola, depois de também ter trabalhado no Rio de Janeiro. Para o Presidente, as capitais da lusofonia, de Díli a Luanda ou a Maputo, não são capítulos da história portuguesa, mas páginas no álbum de família. O Brasil é um assunto de Estado, mas também é uma memória pessoal.

Consensualizou-se em Portugal a ideia de que a presença do Presidente no bicentenário da independência do Brasil era uma inevitabilidade histórica. As relações são entre Estados e não governantes e o Brasil não se pode esgotar na pessoa de Bolsonaro, um líder consensualmente desdenhado pelos portugueses.

Mas era a presença de Marcelo inevitável? O Rei de Espanha participou nos 200 anos da independência da Colômbia (em 2010), do Chile (em 2010), da Argentina (em 2016) ou da Venezuela (em 2010-2011)? Não. São inúmeros os exemplos em que chefes de Estado de países com tradição colonial não participam neste tipo de cerimónias. A presença de Marcelo no Brasil foi um gesto retórico de um presidente que é particularmente sensível à importância de manter o Brasil dentro de uma certa esfera de influência. A sua 6.ª visita ao Brasil foi mais importante para os portugueses do que para os brasileiros.

Mas está a relação entre Brasil e Portugal condenada a ser um rendilhado de insígnias, um permanente pretérito perfeito, um discurso panegírico? À coluna, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil Celso Lafer (1992, 2001-2002) salienta que os dois países sempre conseguiram encontrar “convergências úteis” sobre temas pontuais, principalmente quando há afinidade pessoal entre líderes luso-brasileiros. F.H.C. nutria muito apreço por António Guterres e Jorge Sampaio, o que facilitou a intervenção de Portugal, na União Europeia, para que o Brasil não fosse prejudicado pelo surto da doença das “vacas loucas” em 2001-2002. A boa relação entre Lula e José Sócrates ou entre os ministros Celso Amorim e Luís Amado e Celso Lafer e Jaime Gama são outros exemplos. Mas o Brasil é pragmático e transnacional. É condescendente com a retórica universalista portuguesa apenas quando vê a possibilidade de extrair dividendos específicos.

E o futuro? Uma eventual vitória de Lula abrirá um campo de novas oportunidades. Se cumprido o programa eleitoral, a sua política externa será vigorosa. Enquanto o vice-presidente Alckmin arrumará a casa interna a partir do palácio do Jaburu, Lula tentará arrumar o mundo a partir do Planalto.

Em declarações à coluna, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado (2006-2011) reforçou que estamos a atravessar uma “reconfiguração geopolítica de larga escala”. Enquanto o Norte Global obedece a uma lógica binária que opõe países democráticos a Estados autocráticos, o Sul Global tem uma visão mais utilitarista e menos principiológica das relações internacionais. Quando a expulsão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi a votos, em Abril, 82 países do Sul puxaram o travão de mão, incluindo a Indonésia, índia, México e China. Estes países têm mostrado uma posição neutral no conflito Ucrânia-Rússia. Estimativas de bancos e consultoras europeias indicam que, em 2030, sete das dez maiores economias do mundo serão do Sul Global, incluindo as duas primeiras (China e índia). As declarações públicas de Lula, nunca criticando taxativamente a Rússia, estão alinhadas com este novo contexto, facilitando a sua ascensão como líder do Sul Global. Hoje o trono está vazio.

Surge, assim, uma oportunidade para Portugal forjar com o Brasil de Lula uma aliança de futuro, ao servir como um dos países do Norte Global que é capaz de construir pontes com o Sul. Se actualmente os dois hemisférios são o contraponto um do outro e estão envoltos por um manto de animosidade, Portugal e o Brasil podem ser interlocutores estratégicos numa missão que extravasa a relação bilateral. Ao dar a Portugal acesso a novos espaços de influência a sul, o Brasil ajudaria, agora com outros contornos, os portugueses a envigorarem a sua idealização universalista e a perceberem que o ideário da lusofonia também tem limitações. A língua portuguesa é um poderoso instrumento de unificação entre países, mas também é uma divisa que aparta povos. Portugal e o Brasil podem ser maiores do que o seu idioma comum.

Rodrigo Tavares
Prof. catedrático convidado na Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE)

«Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo e republicado,
com actualizações, ao abrigo de uma parceria com o PÚBLICO»

[Transcrição integral (da edição em papel) de artigo da autoria de Rodrigo Tavares no jornal “Público” de 13.09.22.
Destaques, sublinhados e “links” (e emendas) meus. Inseri imagens no bloco de citação.
Imagem de topo (do filme “Hannibal”, de Ridley Scott) de: YouTube. Imagem de topo de: PNGitem.]

«Não irmão mas sim filho» [por Octávio dos Santos, “DN”]

Não irmão mas sim filho

Octávio dos Santos

“Diário de Notícias”, 7 de Setembro de 2022

O Brasil celebra hoje, 7 de Setembro de 2022, 200 anos de independência. É uma data muito importante, realmente histórica, pela qual Portugal é o primeiro país a dar os parabéns e a desejar «feliz aniversário». Ao país irmão? Não, ao país filho. Sim, porque o Brasil é uma completa, total, criação de Portugal, que foi tanto «pai» como «mãe» entre 1500 e 1822…

… Período durante o qual sucessivas gerações de portugueses, cujo maior representante, símbolo, terá sido o Padre António Vieira, trabalharam para fazer da Terra de Vera Cruz a mais bela, a mais rica, quiçá perfeita, nação do planeta. Alargaram o território para além do Tratado de Tordesilhas e assim conquistaram praticamente todo o Amazonas, floresta e rio. Aos povos nativos juntaram europeus e africanos, criando condições para uma autêntica, e profícua, miscigenação. Deste lado do Atlântico levaram inclusivamente pedras com que se construíram fortalezas e igrejas. Providenciaram uma língua que constituiria o principal suporte da identidade e da unidade nacionais. E, algo de incrível nunca acontecido, visto, antes nem depois, fizeram da colónia o centro do império, Rio de Janeiro a substituir Lisboa como capital e metrópole, e a seguir permitiram que a família real portuguesa se tornasse também a brasileira, com o «Grito do Ipiranga» do herdeiro do trono a anunciar o «corte» do «cordão umbilical». Que se fez sem revolução, sem guerra, assim possibilitando à nova nação iniciar o seu próprio caminho sem drama, sem tragédia. Os brasileiros teriam preferido que tivesse acontecido o mesmo que nas independências dos Estados Unidos e da Argélia, marcadas por confrontos longos e sangrentos com, respectivamente, a Grã-Bretanha e a França? Sim, não se duvide: tudo o que de bom o Brasil teve e tem deve a Portugal. Pelo que não se compreende e não se aceita que, ainda hoje, tantos brasileiros, desde cidadãos mais ou menos anónimos a figuras públicas mais ou menos conceituadas, insistam no insulto de que os problemas que a sua pátria sofre(u) sejam culpa de Portugal. Tanta estupidez, tamanha falta de respeito, tal demonstração de ignorância, imaturidade e ingratidão, devem ser condenadas sem hesitação e sempre que se manifestem.

Nós deixámos de ser responsáveis por eles desde 1822, directamente, e desde 1889, indirectamente, quando D. Pedro II, após (e por causa de) abolir a escravatura, foi deposto enquanto chefe de Estado, e com ele a monarquia brasileira. Na verdade, os dois países foram, e são, prejudicados por repúblicas, ambas instauradas por golpistas fanáticos e minoritários, que não cumpriram plenamente o que prometeram, ou seja, ordem e progresso. Uma das áreas em que a desordem e o retrocesso mais se fizeram, e fazem, sentir é a da ortografia. As repúblicas de ambos os lados do Atlântico são reincidentes em obsessivas e absurdas «reformas» e (des)acordos quanto à forma de escrever, iniciativas que desvalorizam, enfraquecem, um vital instrumento de comunicação, com (más) consequências visíveis, inegáveis, nas culturas de ambas as nações. O maior extremismo, e até terrorismo, neste âmbito veio do Brasil em 1943, quando a ditadura de Getúlio Vargas consagrou um radical e generalizado corte de consoantes «mudas», ceifando as raízes latinas, que cobardemente as mais altas (ou baixas?) instâncias oficiais portuguesas viriam a «adotar» através do AO90. Os dois países são, neste aspecto, duas insólitas e ridículas, risíveis, excepções em todo o mundo civilizado, duas «repúblicas das bananas» típicas do Terceiro Mundo, terrenos férteis para o surgimento de «vanguardistas» patéticos que não hesitam em sacrificar os verdadeiros interesses, a estabilidade e o bem-estar da maioria dos seus compatriotas em favor de um falso progresso, de utopias que acabam por se revelar, inevitavelmente, como distopias. E tanto deste lado do Atlântico como do outro a «justificação» tem sido a mesma: simplificar e «facilitar» a aprendizagem; porém, tais objectivos não – nunca – foram atingidos, como o atestam os crónicos e elevados índices de analfabetismo e de iliteracia nas duas nações.
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200 anos e 880 anos de independência

Declaração de (des)interesses: não tenho absolutamente nada a ver nem com a carga política do vídeo publicado no Twitter (à direita) nem com a carga política de sinal contrário do texto do “Público” (em baixo). De certa forma, não carecendo a questão de grande perspicácia para estabelecer o respectivo nexo de causalidade, uma coisa explica a outra.
voltar ao Apartado 53Nota: o diploma a que o autor do tweet se refere é o chamado “Acordo de Mo(r)bilidade“, que foi recentemente tramitado pelo Governo português e aprovado no sítio e pela forma do costume.

Seria talvez fastidioso e irrelevante esmiuçar o acesso agudo de brasileirismo que de repente afectou o jornal “Público” (cinco ou seis páginas inteiras por dia, a pretexto do “Bicentenário da Independência do Brasil“) e seria maçada ainda maior depositar aqui mais umas moedinhas para o mesmo peditório. O textículo ora transcrito ilustra o conceito.

Caprichosa selecção de patacoadas, umas mais triviais, outras apenas divertidas, enformam esta carga de paleio laudatório cada vez mais despudoradamente agressivo no seu peculiar nacionalismo hiper-narcisista.

Nacionalismo esse que, além de declarado, deve ter ido buscar inspiração à máxima “tudo pela pátria, nada contra a pátria” do antigamente. Aplicado o ditame (ultra-nacionalista, repita-se) ao caso do “país-continente”, à provavelmente ilustre citada no artigo saiu a seguinte citação histórica: «Tudo pelo Brasil e para o Brasil.» Se sobre a contracção não há grandes dúvidas, já quanto à preposição a coisa começa a plissar um pouco: como diz? “Tudo para o Brasil”? Ah, pois sim, fazia o favor, dirão alguns criados ao dispor de Sua Senhoria mai-las outras, é servir-se.

«Diversidade da língua portuguesa», escreve a autora do texto, a propósito do tal Museu da Língua Brasileira que o Estado português, extremamente solícito e sempre pronto a acudir a desastres no estrangeiro, ajudou a reconstruir com alguns dos seus parceiros preferenciais. Diversidade aquela que, segundo a versão oficial, decorrem das «diferenças regionais» e que o dito museu procura reflectir segundo uma espécie de axioma pelos vistos infalível: «as marcas da fala dessas populações estão no português brasileiro».

Enfim, um verdadeiro festival de brasileirofonia, com os insuspeitos patrocínios do costume, o apoio do Governo tuga e a aprovação por unanimidade, como sempre acontece quanto a estas coisas brasileiristas, dos não muito honoráveis, não muito sábios, não muito sérios deputados da “terrinha”.

E o Brasil criou uma língua. Também é português

Até que ponto soube o Brasil tornar sua uma língua imposta? A tentativa de resposta a tal pergunta começa no Museu da Língua Portuguesa e passa por uma história feita de zangas e contaminações: do tupi aos quilombos, passando por um tratado pombalino e pela literatura enquanto construção de identidade também linguística. Que língua é a língua brasileira? É o português brasileiro.

“Bicentenário da Independência do Brasil
Isabel Lucas
“Público”, 27 de Agosto de 2022

É uma vertigem feita de sons. Um labirinto do qual não apetece sair. Cada som tem um sotaque diferente, o léxico é diverso. De vez em quando há uma palavra que ganha corpo, significado. No resto é música. Harmoniosa, outras vezes dissonante, contém todos os sons que uma língua pode ter. No caso, a portuguesa. Estão ali, concentrados numa instalação feita para mostrar a riqueza e a diversidade de um idioma, e perdidos nessa caixa de palavras ditas — percebe-se o quanto essa língua está por conhecer, por explorar, por cada um dos seus falantes. Aquilo a que essa língua soa quando não a entendemos, ou, pelo contrário, a alegria de encontrar um sentido ainda que ele se perca quase de imediato naquela Babel do mundo da lusofonia e de todos os contactos linguísticos que ajudaram a construir esse sistema de cultura.

A instalação, um conjunto de colunas em forma de troncos aludindo aos troncos que saíram do tronco central a partir do qual o português brasileiro nasceu — o indo-português –, fica numa nas entradas do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, na antiga Estação Luz, edifício de 1867. Reconstruída em 1901, época de ouro do café, num projecto do arquitecto Charles Henry Driver, e pensada para receber comboios, a estação carrega múltiplos simbolismos, sendo os mais marcantes o da viagem e o da tragédia.

Em 1946, foi destruída por um incêndio, numa altura em que o comboio perdia protagonismo enquanto principal meio de transporte no Brasil. Seria reconstruída e fechou em 1982 como estação ferroviária, e em 2002 arrancava a ideia de Paulo Mendes da Rocha de a transformar no Museu da Língua Portuguesa. Inaugurou-se em 2006 e em 2015 voltava a arder. Abriu renovada em Julho de 2021 e pode continuar com o acervo de antes que não se perdeu em 2015 por ser quase na totalidade digital. Estamos perante um património imaterial na cidade com o maior número de falantes de português.

Estamos num território de sons e imagens que pretende “valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo”, lê-se no ‘site’ do museu. Um ano depois da reabertura, essa intenção continua a ecoar enquanto caminhamos para a Estação Luz, um edifício em betão e ferro totalmente renovado a contrastar com a degradação do bairro da Luz, na junção da Avenida Tiradentes com a Rua João Teodoro, mesmo em frente à pinacoteca de São Paulo.
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“Pauta/e/o/x”? O/e/a/x que é isso/e/a/x?


pôr-da-Sola em Timor-Leste

De vez em quando tropeçamos numa qualquer excrescência que, não sendo concretamente sobre o AO90, dele depende como se fosse um sub-produto. Destes ressalta a celebérrima TLEBS, essa procissão de inventiva estupidez, e também, mais recentemente, a não menor indigência designada como “linguagem inclusiva”.

É sobre esta última imbecilidade o texto seguidamente transcrito, da autoria de Madeleine Lacsko, escritora, jornalista e “youtuber” brasileira.

Existem de facto relações, salvo seja, entre, o “acordo cacográfico” e a tal “linguagem inclusiva”. Aliás, pensando melhor, se contarmos também com a TLEBS, então teremos um threesome linguístico, salvo seja de novo, tudo a ter relações entre si, trocas e baldrocas em simultâneo, num imenso inferninho. O que resume perfeitamente as taras dos intervenientes, destes três e de quem os pariu, consubstanciada na ideia única de “fecundar” a Língua com requintes de malvadez, entre acessos de paranóica lascívia.

Note-se a similitude da “argumentação” que, segundo os próprios, “explica” a necessidade tanto da “inclusão” como da… acordização: «a linguagem evolui», «reforma imediata e abrangente da grafia», «desenvolvimento da linguagem».

Do mesmo modo, note-se também como são exactamente iguais alguns dos argumentos que as pessoas normais costumam utilizar — por regra e em ambos os casos, sem grande sucesso, dada a solidez do muro de boçalidade em que esbarramos — para refutar a “argumentação” dos inclusivos e dos acordistas: «uma injunção brutal, arbitrária e descoordenada, que ignora a ecologia do verbo», «forçar quem não quer a usar a tal linguagem ou oficializar um idioma por vias tortas», «violam os ritmos do desenvolvimento da linguagem». Como se vê, as razões que Lacsko aponta para pegar fogo à palha que é a “linguagem inclusiva” aplicam-se, ipsis verbis, à golpada (igualmente) política que é a “língua universau“.

Todas as citações foram copiadas do texto abaixo transcrito, escusado será dizer. A respeito do qual, devo confessar, apenas não entendi o título — porque desconheço o que significa a palavra “pauta”, em língua brasileira — e também, de forma abrangente, não percebo a que propósito (ou com que propósito) surge esta enigmática formulação: «Assim como os países de língua portuguesa, os países de língua espanhola têm um acordo ortográfico em comum.»

Assim, com tão estranha observação, a fluidez da redacção é abalada e a lógica intrínseca (e extremamente simples) do texto fica bastante comprometida. Aparentemente, terá sido um simples lapso da autora, um despropósito totalmente desgarrado da lógica discursiva, do contexto e, em sentido lato, do conteúdo, mas, a julgar pelo que diz no parágrafo imediato, haveria alguma relação de causa e efeito ou outra coisa qualquer, vá-se lá adivinhar o quê: «Esse movimento de “inclusão” decidiu tirar todos os demais países da discussão e também o próprio povo argentino. Pode funcionar para mobilizar a opinião pública até que a economia tenha alguma luz.»

Bem, cá está de novo, tais palavras assentam como uma luva ao acordo cacográfico mas pouco ou nada terão a ver com a tal “linguagem de género”.

As palavras não têm sexo. O género não passa de uma flexão verbal (ou tipo nominal), como o tempo e o modo ou o número e a pessoa. Categorias ou classes gramaticais não são subordináveis, ao invés das sociais, a ditames ou imposições ideológicas.

Por mais racionais que sejam as ideias que delas se servem para fazer vingar um conceito ou para aniquilar outro, as palavras são e estão por definição imunes aos tropeções inconsequentes da História. Tão imunes como a própria História, que não existe sem elas e que em tempo algum e de modo nenhum se muda por decreto.

Linguagem de gênero neutro não é inclusiva nem pauta séria

 

noticias.uol.com.br, 04/08/2022
MadeleineLacsko

 

Não bastou a Alberto Fernández a tradicional solução argentina de escolher um superministro para salvar o país do caos econômico. Ele inovou oficializando, ao mesmo tempo, a linguagem de gênero neutro no governo nacional.

Jair Bolsonaro até tentou surfar na onda, criticando o presidente argentino pela medida. A diferença seria que o povo ganha “pobreze”, “desabastecimente” e “desempregue”.

Ele está certo, mas a reação nas redes sociais foi a de que o assunto não tem importância e o presidente deveria trabalhar pelo Brasil.

Conheço gente que fica bastante irritada com o uso da linguagem neutra. E também quem realmente tem orgulho de usar e defende a adoção por instituições públicas. São pessoas adultas, o que é estarrecedor.

Os defensores do gênero neutro ou não-binário dizem que ele torna a comunicação mais inclusiva e menos sexista porque não divide tudo o tempo todo nos gêneros aceitos pela sociedade.

Não há nenhuma experiência de sucesso no mundo que mostre isso. O idioma chinês, aliás, é não-binário. Não consta que seja uma sociedade inclusiva.

Gênero neutro é um sucesso estrondoso entre a elite progressista e alguns meios específicos, como o da publicidade. Entre as minorias que supostamente seriam protegidas mas não foram sequer ouvidas está mais para piada.
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A pátria (ou mátria) da língua matriz

Este texto de Renato Epifânio deve ser lido na íntegra, evidentemente, sem prejuízo de que dele destacando apenas algumas frases marcantes possamos compreender melhor a essência do que é dito.

  • «o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado»
    Exacto. É uma constatação demasiadamente óbvia para que dela tentem escapar — utilizando uma “lógica” extremamente inventiva, à falta de melhor –, como vamos cada vez mais lendo e ouvindo por aí, alguns brasileiros ressabiados e também uns quantos portugueses com “síndrome do colonizador”, essa terrível (e contagiosa) mania da auto-flagelação que afecta as parcas circunvoluções cerebrais dos infelizes portadores da maleita.
  • «Portugal criou o Brasil — no plano linguístico, cultural e civilizacional»
    O país não existiria e o “gigante” não teria sequer tamanho para montar um sambódromo ou, sejamos mais optimistas, um simples campo de futebol (50 por 110 metros, mais ou menos). Sem os “bandeirantes”, portugueses que desde o século XVI estenderam o domínio da colónia muito para além do que “permitia” o Tratado de Tordesilhas, aquelas terras de Vera Cruz seriam hoje, com imensa sorte, um “gigante” do tamanho do Principado da Pontinha, por exemplo. Mas nem foi “só” isso o mais importante resultado da expansão empreendida pelos nossos antepassados. A frase citada diz realmente tudo. Até porque os adjectivos são concomitantes e consequentes: Portugal criou o Brasil no plano linguístico, logo, cultural, logo, civilizacional. Aquilo que alguns brasileiros designam agora como “genocídio”.
  • «duzentos anos após a independência do Brasil, ouvir ainda algumas vozes a não reconhecerem a matriz lusófona»
    São muito imaginativos, uns e outros, brasileiros que já cá estão e outros que ainda não. Fora os tugas (os tais portadores da síndrome, os tais complexados, os tais mais brasileiristas do que o Tiririca Pióquitánumfica) mai-las suas alucinações e traumas que foram catar às telenovelas e à bola. Porém, há que destrinçar os conceitos — o de “matriz” não implica necessariamente “amarração” — porque é essa a natureza das coisas: o vivente nasce de uma mãe (a origem etimológica, do latim mater, depois registo de nascimento) mas não fica para toda a vida amarrado à sua origem uterina, o conjunto de amarras e a âncora são recolhidos e o navio parte mar afora. Ou, dito de uma forma menos elíptica e figurativa, concretamente, o Brasil largou a amarração que o prendia a Portugal. Depois de recolher a âncora a bordo, o Brasil tornou-se independente, política e culturalmente. Portanto, a língua que nasceu da portuguesa está desde 1822 a navegar nos seus próprios mares, com marés e marinheiros e adamastores e sereias que são só deles, brasileiros, e dela, a língua brasileira.
  • «duzentos anos após a sua independência, a responsabilidade pelo estado do Brasil é, toda ela, dos brasileiros.»
    É todo o povo brasileiro o único responsável pelo rumo que todos tomaram e por todas as viragens — fortuitas ou simplesmente estúpidas — para estibordo ou bombordo, por todas as manobras e decisões que no seu entender a cada momento se imponham. Não podem culpar outros quando porventura se enganam na rota, se andam à bolina mas para a ré, se pela proa não se vislumbra nunca a terra prometida. Não podem gabar-se de grandes ou pequenos avanços e culpar quem largaram em terra (e bem, adeus, boa viagem) pelo mau tempo, as tempestades, a falta ou o excesso de vento, a falta de mantimentos, o excesso de ratazanas, o escorbuto, a disenteria e o mais que lhes apetecer de repente evacuar. Os portugueses, a 7.500 km de distância, têm os seus próprios problemas, como sucede em qualquer outro país, e a nenhum deles ocorre “resolvê-los” culpando colectivamente um outro povo, os celtas, godos, romanos, espanhóis ou marroquinos pelos fracassos que são integral e unicamente seus. Ao que parece, até porque do lado de cá também moram uns quantos portugueses que adoram “projecções”, explicar tão simples coisas a um brasileiro é missão impossível, mais receptividade teria uma galinha (ou um galo de Barcelos) a que se demonstrasse com provas qual é, como é e porquê a sua oval origem.
  • «desfasamento qualitativo no plano linguístico, cultural e civilizacional»
    “Qualitativo”, note-se. Muito bem. Aplausos. A língua brasileira seguiu o seu próprio caminho, o que é problema deles, repita-se, no improvável caso de que vejam nisso o mais ínfimo problema, optou pelo facilitismo a qualquer preço e portanto aquilo que existe hoje em dia é uma espécie de Novilíngua extremamente “simplificada”; simplificação essa que ocorreu e ocorre ainda, cada vez mais radicalmente, em todos os aspectos estruturais, essencialmente na sintaxe, mas também na morfologia, além da mais básica, a fonética, e, para cúmulo da “simplificação”, na ortografia — cujo conceito foi pura e simplesmente abolido; “escrever como se fala” é a negação absoluta do dito conceito. E é, como sabemos, com base precisamente nesta patranha abominável que acordistas em geral e brasileiristas em particular tentam impingir às pessoas aquilo a que chamam “acordo” — que não passa afinal de uma imposição ditatorial — e dizem que é “ortográfico” — ou seja, o pretexto político para a central de negócios CPLB.

Muito mais haveria a dizer sobre este artigo, que, de facto, condensa em poucas palavras muito ou quase tudo daquilo que é essencial para o entendimento da questão-ortográfica-que-não-é-ortográfica-coisíssima-nenhuma.

Uma abordagem pela afirmativa é de facto bem achado: “sim, é verdade”. Não é difícil imaginar os acordistas aos pulinhos, todos contentes: “Boa! Este também engoliu a patranha. “É verdade”, diz ele. “Portugal não descobriu o Brasil”. Eish. Bestial. Olha lá. Já condecorámos este? Tratas tu disso ou trato eu?

Sim, é verdade: Portugal não descobriu o Brasil

Portugal não descobriu o Brasil pela simples mas suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado.

Renato Epifânio
“Público”, Sábado, 13 de Agosto de 2022

 

Como seria de esperar, os duzentos anos da independência do Brasil têm propiciado uma série de reflexões sobre o passado, o presente e o futuro desse imenso pais, em muitos casos na sua relação com Portugal.

Sem surpresa, verificamos que há algumas vozes no Brasil que ainda não superaram à tentação freudiana de “matar o pai” — neste caso, Portugal. Como se o Brasil se tivesse criado “apesar de Portugal”. Podemos até compreender essa tentação freudiana — comparativamente, o Brasil é ainda um pais adolescente. Mas já vai sendo tempo de o Brasil superar essa tentação e de assumir, sem complexos, toda a sua história.

De facto, Portugal não descobriu o Brasil. Qualquer país — para mais, um pais imenso como o Brasil — é muito mais do que um território. É um território habitado por um povo que reflecte, na sua vivência desse território, uma língua, uma cultura, uma civilização. O que só de forma muito incipiente acontecia quando Pedro Álvares Cabral fez a sua viagem.

Podemos pois assim dizer que Portugal não descobriu o Brasil — pela simples mas suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado. Muito mais do que isso, o que devemos dizer é que Portugal criou o Brasil — no plano linguístico, cultural e civilizacional —, naturalmente que com o contributo das comunidades indígenas (que, por si só, não formavam um povo, tal a sua dispersão geográfica e dialectal) e de todas as outras comunidades que, século após século, fizeram do Brasil o seu pais.

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Da ilusão, dos coelhos e das cartolas

De vez em quando, lá salta mais um coelho da cartola acordista. A este tipo de lagomorfo, porém, já que é uma achega por escrito ao organismo geneticamente modificado em 1990, deveria ser atribuída uma nova classificação taxonómica: talvez Leporidae Brasiliensis, ou algo assim.

O truque é simples, pelo menos para quem não se distrair durante o número. Não seria curial, porém, desfazer o “mistério”. Pelo menos no imaginário das criancinhas a coisa talvez pegue como sendo verdadeira “magia”, portanto não as desiludamos, deixemo-las ficar em sossego com as suas crenças, o coelhinho branco, o Pai Natal, o João Ratão, as histórias da Carochinha.

Admitir que um artigo em que se contesta o AO90 seja publicado com a cacografia do AO90 não é apenas um paradoxo, é inerentemente uma manifestação de apoio àquilo que pretensamente se contesta. Quem assina um texto não tem de obedecer a qualquer espécie de ditame ou sequer de “orientação” sobre o conteúdo que expressa e sobre a forma que usa para se expressar; chama-se a isso “direitos de autor” — que nem o “acordo” cacográfico pode revogar nem o Estado pode sequer tentar limitar ou condicionar seja de que forma for.

O título é um anzol. Ou seja, na maior parte das vezes serve para pouco mais do que dar banho à minhoca; principalmente para quem não pesca nada de pesca (ou de ortografia ou de Gramática).

No caso, é todo um programa. Que denota óbvias intenções subjacentes. “Em bom português”? O que significa “bom”? Ou é Português ou não é Português. “Bom” (ou mau ou assim-assim) é um juízo valorativo que poderá, quando muito, ser aplicável a formas criativas ou artísticas de escrita. E se o leitor “tem a certeza” de que sabe escrever, ainda por cima?! Bem, não deve ser preciso fazer um desenho, teme-se o pior, venha de lá o miolo.

São apontados alguns factos que ilustram a vigarice e dois autores que a contestam — cada qual a seu modo, um deles benzito, o outro malmalmal –, além de alguns exemplos de “erros flagrantes” e de “contradições” no articulado da dita vigarice. Pois sim. Mas não.

Não é decisivo que Angola e Moçambique não tenham ratificado o AO90. Se o tivessem feito ou se o fizerem — longe vá o agoiro –, então a vigarice deixaria de o ser?

Não é significativo sequer, porque apenas circula em alguns círculos restritos e para os mesmos — isto é, para consumo interno — e porque enquanto um dos ditos autores ainda tenta discutir com alguma carga de bom senso (como se os acordistas admitissem discutir a língua brasileira), o outro atira-se freneticamente a uma pretensa questão jurídica tão absurda quanto inexistente.

Não tiveram qualquer seguimento as intenções manifestadas por responsáveis do Governo brasileiro. Realmente, a desvinculação unilateral chegou a ser “garantida” por um colaborador próximo da Presidência daquele país mas, ao que parece, bem depressa o Governo local se terá apercebido de que estariam nesse caso a atirar largos milhares de milhões borda fora. Bom, pode ter sido por isso (um telefonemazinho de Portugal deverá ter bastado) mas também pode ter sido por causa de alguma substância ilícita consumida a desoras, por exemplo, ou sabe-se lá bem o que mais se poderia especular a respeito de semelhantes entradas de leão e saídas de sendeiro.

Não será certamente por via de “correcções” ou “melhorias” (“despiorar”, como há quem diga) que o AO90 passará a ser minimamente aceitável. Como é possível aceitar ou conceber sequer uma “revisão” de questões atinentes à ortografia da Língua Portuguesa num documento de cariz estritamente político? Quanto a ortografia propriamente dita, o AO90 apenas tem o seguinte

Artigo único

Em Portugal e PALOP passa a vigorar a forma de escrever em uso no Brasil, consistindo esta na transcrição fonética (utilizando o alfabeto latino, não os símbolos respectivos) do falar “culto” brasileiro.

Mas alguém ainda acredita noutra coisa? Achará este autor que feitas essas tais “melhorias” e “correcções” — o que na prática equivaleria a “recuperar” as “consoantes mudas” que os brasileiros articulam — o AO90 passaria a estar nos conformes? Que aquilo passaria, como que por artes mágicas, a ser de repente “ortográfico”, já não político, e portanto já não repugnante? Ou ficaria só “um bocadinho” repugnante?

Voltamos ao início, portanto. Truques de magia, coelhos da cartola, histórias da Carochinha.

Mas nem sempre em espectáculos de ilusionismo a assistência é constituída exclusivamente por crianças. Será esse o problema?

Tem a certeza que sabe escrever em bom português?

 

Há uma regra infalível para escrever e falar bem em Português? A Língua Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se? Usamos cada vez menos palavras? Consegue evitar todas as armadilhas da nossa rica língua? Num momento em que há uma procura crescente de livros sobre a história da nossa língua e as suas regras, ensaiamos, com a ajuda de especialistas, respostas a estas e a outras perguntas sobre o Português que falamos e escrevemos

Desde o momento em que, ainda bebés, passamos a relacionar-nos com o mundo à nossa volta através de palavras, vivemos na nossa língua (ou em várias) como na atmosfera ou como os peixes vivem no oceano. É algo sempre presente, mesmo se estivermos calados, mesmo se não quisermos, por um minuto que seja, pensar no assunto… mas a verdade é que queremos, muitas vezes. A língua – sotaques, escolhas de palavras, correcções e incorrecções, respeitos e desrespeitos… – pode ser tema de longas conversas e de acaloradas discussões em que ninguém detém toda a razão. Há perguntas para as quais nunca se encontra a resposta exacta.

Comecemos por esta: o que é escrever bem? Logo a abrir o seu livro Por Amor à Língua, Manuel Monteiro, que, depois de se formar em Economia e Jornalismo, se foi especializando nas questões da Língua Portuguesa e de revisão de textos, põe as coisas desta forma: “Ao fim de muitas páginas lidas acerca da arte de escrever, concluir-se-á que é muito mais fácil definir os critérios que permitem identificar a má escrita do que aqueles que permitem identificar a boa escrita.” Como tudo o que é humano, demasiado humano, essa definição depende de vários factores e percepções. Se “escrever bem” fosse, apenas, uma questão técnica, a Inteligência Artificial e a ciência avançada dos algoritmos já teriam atingido o pináculo, inquestionável, da boa escrita.

Passaram já quase 32 anos desde o dia em que, em Lisboa, se assinou o AO90, então também chamado “ortografia unificada da língua portuguesa”.

O tempo suficiente para percebermos que algo correu mal no caminho…

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