Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: Media

“O que há de melhor em Portugal?” Gente decente!


«Todas as reportagens têm de estar escritas em língua portuguesa. Podem ser escritas no antigo ou no novo acordo ortográfico, mas na data de publicação todas elas serão adaptadas à grafia do antigo acordo ortográfico

O que há de melhor em Portugal? Quem responder ganha o concurso Descla/Fnac Viseu

Por Mariana Rodrigues
Revista “Descla”, 11.09.18

 

Pelo segundo ano consecutivo, a Descla e a Fnac Viseu dinamizam o concurso que premeia as melhores reportagens escritas sobre “o que é bem português”.

Os participantes habilitam-se a ver o seu trabalho publicado no site da Descla e a ser prendados com uma estadia para dois numa Pousadas de Portugal, um jantar para duas pessoas na Pousada de Viseu ou um pack Fnac.

Regulamento:

  • Este concurso consiste na criação de uma reportagem nas temáticas de desporto, cultura, lazer, turismo e património. Podem ser de âmbito nacional ou internacional, mas todas as reportagens têm de focar algo que seja português.
  • Todas as reportagens têm de estar escritas em língua portuguesa.
  • Podem ser escritas no antigo ou no novo acordo ortográfico, mas na data de publicação todas elas serão adaptadas à grafia do antigo acordo ortográfico.
  • Todas as reportagens seleccionadas serão publicadas na revista Descla com o nome do seu autor e passam a ser propriedade da revista Descla e da Fnac Viseu.
  • Qualquer reportagem que já tenha sido publicada em qualquer outro local (órgão de comunicação, blog, site…) será automaticamente excluída do concurso.
  • Cada reportagem tem de ter no mínimo duas fotografias e no máximo seis.
  • O número mínimo de participantes é 10, sem o qual o concurso é cancelado.
  • Os menores de 18 anos precisam de autorização do encarregado de educação para participar no concurso.
  • Não podem participar no concurso familiares directos dos funcionários da revista Descla, da Fnac Viseu e da Pousada de Viseu.
  • As reportagens devem ser enviadas para cultura@descla.pt até dia 31 de Outubro pelas 23:59.
  • O 1º prémio é uma estadia de duas noites para duas pessoas numa das Pousadas de Portugal, o 2º prémio um jantar para duas pessoas na Pousada de Viseu e o 3º prémio um pack Fnac.
  • A data de entrega dos prémios será a 30 de Novembro, pelas 21:00 horas, na Fnac Viseu.

Source: O que há de melhor em Portugal? Quem responder ganha o concurso Descla/Fnac Viseu – Descla

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Angola encerra embaixada junto da CPLP

Embaixada na CPLP fecha em Novembro

Adelina Inácio
“Jornal de Angola”, 11.09.18

O ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, anunciou ontem o encerramento de quatro embaixadas e quatro consulados até Novembro. Dentre as embaixadas, o ministro indicou as do México, Canadá, Grécia e da CPLP, que passa a ser coberta pela embaixada em Lisboa.

Em relação aos consultados, Manuel Augusto apontou as de  Durban(África do Sul), Frankfurt(Alemanha) , Faro (Portugal) e Califórnia (Estados Unidos da América). “Até Outubro e final de Novembro, algumas embaixadas e consulados vão ser encerrados. Estamos no processo de encerramento, estamos já a movimentar as pessoas e vamos fechar todo processo até Novembro”, garantiu o ministro.

O chefe da diplomacia angolana, que discursava na abertura do VII Conselho Consultivo do seu Ministério,  anunciou o encerramento da maior parte das  representações comerciais e reforçar as embaixadas com diplomatas que terão a missão de acompanhar os assuntos económicos.

“Vamos encerrar a maior parte das representações comerciais e reforçar as embaixadas com diplomatas que vão ter, como principal actividade, o acompanhamento dos assuntos económicos para corporizar este papel que está a ser reservado às missões  diplomáticas e consulares no quadro da diplomacia económica”, garantiu.

O ministro Manuel Augusto afirmou que as representações a serem encerradas têm sido “fonte de despesas, nalguns casos, e, em outros, fontes de conflitos com resultados zero”. O ministro, que  falou aos diplomatas sobre a nova dinâmica de organização e funcionamento das diversas áreas do sector, anunciou, igualmente, o processo de substituição e rotação de vários quadros responsáveis, com destaque para cônsules.

Manuel Augusto apontou oito pontos para a implementação das medidas relacionadas com a diversificação da economia e diplomacia económica , tendo destacado o aumento do volume de negócios e as condições de financiamento das Instituições Financeiras Internacionais, para concluir os projectos estruturantes em curso e implementar outros projectos de investimento público prioritários.

Entre outras acções,  Manuel Augusto apontou também o reforço da estratégia económica subjacente ao Programa de Apoio à Produção Nacional, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), mobilizando a rede diplomática de Angola para promover os produtos e serviços nacionais, bem como as oportunidades de investimento no país.

Candidatura na UA
A promoção da candidatura de Angola para mais um mandato de dois ou três anos no Conselho de Paz e Segurança da União Africana, e considerar a possibilidade de uma das reuniões deste órgão realizar-se em Luanda, durante a presidência de Angola, tendo em conta os efeitos positivos para o prestígio do país e da política externa angolana, é igualmente outra medida apontada  pelo ministro para a implementação da diplomacia económica.

Diplomacia económica
O ministro lembrou aos embaixadores que é no Plano de Desenvolvimento Nacional onde estão definidas as linhas principais para a execução de uma diplomacia económica eficiente e proactiva, visando a atracção e captação do investimento privado estrangeiro, no âmbito da diversificação económica em curso no país.

Os diplomatas estão a analisar, até hoje, o alinhamento do Plano de Desenvolvimento Nacional  com a Política Externa, a Diplomacia Económica de Angola, a Geopolítica e Cobertura Regional, o Plano de Reforma e a nova visão para o Ministério das Relações Exteriores. Os participantes devem igualmente perspectivas novas acções para o próximo ano.

Manuel Augusto pediu a intensificação do diálogo político e diplomático global, equilibrado e regular e uma cooperação bilateral activa com a União Europeia, no âmbito do “Caminho Conjunto” sobre questões de interesse comum, nomeadamente paz e segurança, boa governação, direitos humanos, crescimento económico e desenvolvimento sustentável, entre outras.

A efectivação destas acções, disse,  requer maior atenção ao processo de conclusão e assinatura do Acordo de Promoção  e Protecção Recíproca de Investimento (APPRI) e do acordo para evitar a Dupla Tributação (ADT) com vários países interessados.

Segundo o ministro, isto permitirá criar um ambiente de negócios seguro e de confiança para a consolidação  das parcerias económicas e financeiras que garantam, de forma eficaz, a concretização dos programas e projectos do Executivo.

Manuel Augusto reconheceu que o sucesso da diplomacia económica depende, em grande medida, da criação, no plano interno, de condições concretas nos domínios da energia e águas, saneamento básico, desburocratização na administração pública, melhoria nos sectores da justiça, banca e finanças, bem como o repatriamento de capitais e dividendos.

O ministro adiantou também que a garantia dessas condições permitirá a captação de investimento estrangeiro, que deve contribuir para o processo de diversificação e desenvolvimento da economia, tendo como objectivo estratégico a industrialização de Angola.

Quanto à desburocratização, o ministro afirmou que  o processo de reformas internas deve prestar maior atenção à problemática da formação de quadros, a supressão e facilitação de vistos para homens de negócios, bem como a concessão de vistos de turismo para Angola.

Source: “Jornal de Angola”, 11.09.18
(Imagem de topo de: OPEC)

Angola vai encerrar embaixada junto da CPLP e consulado em Faro até Novembro

Observador/Agência Lusa, 10.09.18

Angola vai encerrar até Novembro a embaixada junto da sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, e o consulado em Faro, disse o chefe da diplomacia angolana.

Angola vai encerrar até Novembro a embaixada junto da sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa, e o consulado em Faro , disse esta segunda-feira, em Luanda, o chefe da diplomacia angolana. Segundo Manuel Augusto, que falava à margem do VII Conselho Consultivo do Ministério das Relações Exteriores de Angola, que decorre até terça-feira, sob o lema “As Oportunidades e Desafios no Futuro”, o encerramento faz parte de uma lista de quatro missões diplomáticas e outros tantos consulados que, até Novembro serão fechados.

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A volta do y, do k e do w [Ruy Castro, “DN”, 02.09.18]

Este texto, se bem que primorosamente escrito, e com o devido respeito para com o autor, deve ser lido com pinças mentais, de tal forma é disparatado, superficial, frívolo ou, condensando tudo num único adjectivo, isto é, abreviando, parvo.

Contém, no entanto, algum substrato histórico, o qual sobrepuja em curiosidade as piadolas que elegantemente aloja. E vale por um parágrafo quase lapidar, eriçado pelo conformismo arrogante de quem está muito longe do assunto:
«Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.»

 

A volta do y, do k e do w

Ruy Castro

Durante quase três anos, no começo dos anos 1970, vivi numa espécie de semi-ilegalidade em Lisboa. Tinha morada e emprego fixos e trazia todos os documentos em ordem e os impostos em dia. Mas carregava um nome que, apesar de ser composto de apenas três letras, continha uma que estava fora da lei: o y. Naquela época, num país de quase dez milhões de habitantes como Portugal e com milhares de cidadãos chamados Rui, eu devia ser um dos poucos Ruy – ou único, já que não conheci outro. Não seria isto a me obrigar a andar de cabeça baixa pelas ruas do Bairro Alto, mas eu sempre percebia uma sensação de estranhamento ao passar a alguém um papel ou cheque assinado com aquele arcaico e defunto y, de que Portugal já se livrara havia décadas.

Sim, Portugal decretara o fim do y (e do k, do w, do ph, do th, dos mm, dos mn e dos nn) na sua grande reforma ortográfica de 1911 – que o Brasil, teimoso e desobediente, não seguira. Com isso, naqueles primórdios do século, o milenar Portugal já modernizara a sua língua enquanto o Brasil, que se julgava avançado e do Novo Mundo, continuara a escrever coisas como phonographo, Nictheroy e hypertrophia. Para piorar, condenara seus Ruys a um lado do Atlântico enquanto os Ruis ficavam do outro.

Bem, sendo brasileiro no Brasil ou fora dele, eu me sentia autorizado a levar o meu y para onde quer que fosse – afinal, estava escorado pelas leis de meu país. Mas, na verdade, não estava. Em 1943, o Brasil adotara um novo formulário ortográfico que finalmente incorporara muitas das determinações portuguesas de 1911, entre as quais o banimento do y, do k, do w, dos ph e th e das consoantes dobradas. Donde, de um instante para outro, haviam surgido no Brasil palavras como fonógrafo, Niterói e hipertrofia. E os Ruys, passado a nascer Ruis.

Pelo menos, era isso o que dizia a lei. Mas, como todos no Brasil sabemos, as leis são como vacina – umas pegam, outras não. Eu, por exemplo, que nasci em 1948, já sob a vigência do dito formulário ortográfico, ainda fui registado como Ruy. Como foi possível? Duas hipóteses: na ida ao cartório, meu pai – um legítimo Ruy de 1910 -, ao passar seu nome para mim, pode ter exigido que seu y fosse respeitado. Ou foi o próprio tabelião, talvez já idoso e cansado, que, habituado a registar Ruys, cravou-me displicentemente o y. E, sendo o Brasil como é, atravessei toda uma atribulada vida escolar, troquei várias vezes de documentos, comecei a assinar artigos em jornais ainda na adolescência e nunca fui solicitado a me tornar Rui.

E assim fomos levando, mas confesso que achava injusto viver com o meu nome na ilegalidade. Se o Brasil era um país cheio de gente legalmente registada como Kléber, Karen, Kátia, Wilson, Wallace e Washington, como o y, o k e o w podiam ser considerados ilegais?

Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.

Mas, numa coisa, tenho de ser grato à nefanda reforma. Ela trouxe de volta o y, o k e o w. Não sei o que motivou essa exumação, mas aí estão de novo, pimponas e lampeiras, as três letras que levaram quase um século excomungadas. Não acredito que, por causa disso, em Portugal, os novos Ruis nascerão Ruys. No Brasil, onde se encaixam yy em qualquer nome – o país abunda de Dayanes, Thyagos, Rycharlysons e outras cafonices -, tenho a certeza de que sim.

A volta do y poderá significar até um renascimento do nome Ruy entre os brasileiros. Porque, enquanto Portugal nunca deixou de produzir uma legião de Ruis, o nome Ruy no Brasil parecia estar se tornando um daqueles que em breve só seriam encontrados em cemitérios.

 

Escritor e jornalista brasileiro, é autor de, entre outros livros, Carnaval no Fogo – Crônica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio (Tinta-da-China).

[Transcrição integral de “A volta do y, do k e do w” , da autoria de Ruy Castro, publicado no A ortografia do original, sendo o autor brasileiro, não foi, para variar, automaticamente corrigida. Imagem de topo de: “na mira” (Brasil). ]

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«Crazy poor portuguese» [Clara Ferreira Alves, “Expresso”, 01.09.18]

«De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.»
Clara Ferreira Alves

CRAZY POOR PORTUGUESE

Clara Ferreira Alves

Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar

Quando saiu do elevador deixou um perfume que entonteceu os sitiados. Orquídeas? Jasmim? Flores brancas das que crescem na Ásia por todo o lado. Os sitiados, que iam para andares diferentes do hotel, ficaram em silêncio a aspirar o cheiro do dinheiro. Tudo, naquela mulher, cheirava a dinheiro. A roupa de marca, a jóia discreta, o cabelo negro lacado, os sapatos de verniz e salto alto, mil euros desenhados por aquele senhor com nome francês que tem casa na costa alentejana. E isto sabendo-se que ao anoitecer a chuva cairia com violência, inundando as ruas e escorrendo nos declives e goteiras com o barulho de uma catarata. Aqueles sapatos nunca saíam à rua, eram sapatos de motorista e carro de luxo, de portas abertas à passagem por gente fardada. Por servos. Aqueles sapatos pertenciam a uma mulher chinesa rica. Podia ser de Xangai, Pequim, Singapura ou Hong Kong, podia ser de Banguecoque, era sem dúvida de ascendência chinesa. Conforme as sábias palavras do grande viajante árabe Ibn Batuta, o marroquino nascido em Tânger em 1304, em nenhuma parte do mundo se encontra gente mais rica do que os chineses.

A frase serve de epígrafe à novela de Kevin Kwan que deu origem ao filme “Crazy Rich Asians”, que bate recordes de bilheteira e que a Netflix tentou comprar sem conseguir. O filme parece que não será visto nas salas portuguesas. A distribuidora assim decidiu, por ser um filme habitado por actores asiáticos e que se passa no universo exclusivo dos multimilionários de Singapura. O filme, como o livro, não passa de um best-seller de aeroporto que vale pelo que mostra desta Ásia com dinheiro, muito dinheiro. Mostra uma parte de um mundo que, para os portugueses que deixaram de ser comerciantes, aventureiros e diplomatas, deveria ser mais bem conhecida e deveria despertar mais curiosidade. Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar. Ali estão os países que determinarão a prosperidade mundial, e os Estados Unidos perceberam isso. Portugal permanece um dos países mais ignorantes e avessos a um continente onde fomos importantes, onde desembarcámos e comerciámos e missionámos, onde construímos e onde deixámos uma elite, pequena, é certo, que foi a única elite do império português. De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.

A ignorância da Ásia prejudica-nos. O nosso conhecimento do continente não pode resumir-se à diáspora emigrante de Macau ou a um pacote de turismo de massas numa praia da Tailândia. Ao contrário dos franceses, que mantiveram os laços com a Indochina, Portugal não estudou nem investiu. Nos mercados asiáticos, não se vê uma marca portuguesa, uma só, esqueçam o pastel de nata, que foi culturalmente apropriado, o que demonstra que perdemos a nossa vocação de comerciantes para nos tornarmos o que somos, um país a vender as pratas da família para poder comer. Portugal está a ser comprado pela China, em largas quantidades, e não nos importamos de vender sectores essenciais que determinarão a soberania e nos reduzirão a uma plataforma logística. A actual ministra do Mar anda por aí num enlevo a ver se vende por grosso os portos portugueses aos chineses, contrato que nenhum outro país da Europa, com excepção da Grécia, assinaria. Pelas implicações futuras e pela demonstração da incapacidade para administrar bem o que nos pertence. O que não for vendido à China será vendido a Singapura ou à Tailândia, como aconteceu com as sobras hoteleiras do império Espírito Santo, que se desmoronou em corrupções e humilhações. Será vendido a gente como a do mundo mostrado em “Crazy Rich Asians”, gente que tem uma visão do mundo determinada pelo privilégio e o poder do dinheiro. Conviria percebê-los melhor, visto que não existem filmes, nem existirão, sobre os interiores e corredores da nomenclatura comunista, constituída também por crazy rich asians.

Não existe gente mais rica do que os chineses, ou não existe gente mais ostensivamente rica do que os chineses. A nossa relação com a Ásia devia ser aprendida e cultivada, ou não passaremos, no tempo que aí vem, de novos funcionários. De servos de gente e de culturas que não conhecemos nem estudámos. E abriremos as portas à sua passagem. Portugal tem especialistas da Ásia, excelentes, que nenhum ignorante político português se lembraria de consultar, tão entretidos que andam com a intriga palaciana e a discussão do Orçamento, único tema de um país na indigência. Crazy poor portuguese.

Expresso, Revista E, 01SET,2018

[Transcrição integral de transcrição integral publicada no “blog ” Cadernos da Libânia de artigo, da autoria de Clara Ferreira Alves, publicado no semanário “Expresso” de 01.0918. A desortografia  abrasileirada do original foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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A tribo Matatuga

Como de costume, quando algo arde no Brasil (em sentidos figurado ou literal, como neste caso) ressurge, com redobrada fúria, essa estranha rotina a que se dedicam alguns brasileiros — não poucos e nem todos eles completamente maluquinhos —  cujo modo de vida consiste em, 200 anos depois da independência do seu país, invectivar o “colonizador”, enxovalhar Portugal, culpar os portugueses pelo caos em que aquele “país-continente” está cíclica e sistematicamente mergulhado.

O mais recente surto desta espécie de alergia histórica ocorreu a propósito do incêndio que arrasou por completo o Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Como muito bem assinala o jornalista Carlos Fino, em artigo publicado no jornal online “Tornado”, existe no Brasil um “velho estigma anti-lusitano”. E exemplifica o dito citando (in)certo indivíduo que, na rede anti-social Fakebook, publicou um chorrilho de disparates congratulando-se não apenas por ter ardido o museu nacional do seu país como, ou principalmente, porque o incêndio foi uma boa limpeza da memória brasileira: “Tudo o que apague do cenário brasileiro a lembrança daquele período nefasto (assim como de outros) é um alívio para mim e certamente para todos cujo sofrimento atual é uma herança daquela época.”  

Justiça histórica sendo feita pelas mãos do acaso. Acaba de ser consumida em chamas a antiga Casa Grande da família que…

Publicado por Robson Lucas de Oliveira em Domingo, 2 de Setembro de 2018

Extraordinário. E foi nisto o indivíduo de imediato secundado por milhares de outros “índios” da mesma tribo, os Matatuga, a qual se distingue por uma terrível sanha persecutória com efeitos retroactivos (abarcando dois séculos) em relação a tudo aquilo que sequer cheire a português. Porque, forçosamente, segundo a respectiva “lógica” tribal, tudo o que vai bem no Brasil é brasileiro, mas se algo corre mal no Brasil então a culpa é dos tugas.

Na verdade, Carlos Fino não refere no seu texto um caso isolado. Não, de todo. Aquele é apenas mais um, se bem que ilustrativo do fenómeno, por assim dizer, e nem mesmo é dos piores, não é dos mais violentamente anti-lusitanos.

Por uma questão de pudor mental, devo confessar, tento esquecer imediatamente quejandos pedaços de esterco em que vou tropeçando; limito-me a seguir adiante raspando as solas dos sapatos, como toda a gente faz quando calha pisar “presentes” malcheirosos. 

Mas é fácil, havendo alguma espécie de interesse escatológico pela matéria, salvo seja, encontrar semelhantes poias, não apenas sobre Portugal e os portugueses em geral mas também sobre o AO90 em particular, já que este é uma das formas de revanche histórica a que se dedicam brasileiros e meia dúzia de vendidos.

Aí ficam duas amostras, ambas de comentários a vídeos do YouTube em que o tema é o “acordo ortográfico”. São apenas duas mas há lá muitas, de igual aspecto, consistência e cheiro; basta procurar, o que não é nada difícil se para tal houver estômago.   

gilberto apollinare 4 years ago
O mundo ira seguir o BRASIL pelo seu tamanho populacional, territorial, economico , e importancia no cenario internacional. Se portugal nao se aderir ao acordo imposto pelo BRASIL, ficara esquecido ainda mais. Portanto eu digo que; portugal depende do BRASIL e assim tem que continuar.

Mauro David 2 years ago
Não adianta alguns portugueses serem contra o acordo o fato é que já aconteceu. Quem mais usa essa linguá no mundo são os brasileiros, principalmente para os negócios no mundo a fora, um brasileiro compreende melhor, mas rápido e com clareza a sonoridade de um falante do idioma português africano. já um cidadão de Portugal falando português, é entendido porem com muita dificuldade, a sonoridade de um português falando é horrível, quase trágica. A cultura de Portugal não é um coisa que as pessoas falante de português pelo mundo gostaria de ter ou de saber, Portugal é desinteressante, sem cor, pobre de dinheiro de de espirito é um país preso, sem visão. Já o Brasil, eu nem preciso comentar.

Incêndio do Museu Nacional – Há brasileiros que aplaudem

O velho estigma antilusitano, que continua em boa parte a ser alimentado na escola, na historiografia, na literatura, no cinema e nos media do Brasil, deixa naturalmente marcas profundas.

“Jornal Tornado”, 03.09.18
Carlos Fino, em Brasília

Veja-se, por exemplo, esta reacção ao incêndio que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, retirada do FaceBook
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Museu Nacional do Brasil: 1818 – 2018

Em Dezembro de 2015 ardeu o Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo, agora arde o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Parece que o Brasil anda em maré de azar aos museus. Evitemos, porém, quaisquer aleivosias de trocadilhismo militante, como diria o célebre Odorico Paraguaçu, e limitemo-nos, para já, a dar conta da onda de emoção que o mais recente arraso provocou em ambos os lados do Atlântico.

Do lado de cá, o hype surpreendeu pela quantidade de manifestações de comoção e em especial pela qualidade, pelo tremendismo das mesmas.

Sem grande (ou nenhuma) surpresa, do lado de lá houve até manifestações de regozijo pela ocorrência. Fenómeno que será talvez de esmiuçar — porque tem sua piada — em  próximo “post”.

Muita gente anda me dizendo que, por mais cruel que fosse o Império Brasileiro, isso não justifica que se destrua a sua…

Publicado por Robson Lucas de Oliveira em Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

«Muita gente anda me dizendo que, por mais cruel que fosse o Império Brasileiro, isso não justifica que se destrua a sua memória. Concordo. Porém o que se perdeu não foi a verdadeira memória daquela época. Uma coisa é um museu que lembra e mostra os horrores de determinado período, como o holocausto, a segunda guerra mundial, etc. Desses museus saímos enojados com a crueldade humana. Outra coisa é um museu que CELEBRA uma época de horrores, como era o caso do Museu Nacional. Quem visitasse aquele palácio, agora em ruínas, como vocês acham que saía de lá, senão falsamente maravilhado com o período imperial?

O fogo não veio para devastar, mas para acender em nós a verdadeira visão da história. Veio como punição aos que a deixavam falsificar pela suntuosidade, pela beleza enganosa daquele antigo covil de tiranos.» [Robson Lucas de Oliveira, Facebook, 03.09.18]

Entrevista
Eduardo Viveiros de Castro: “Gostaria que o Museu Nacional permanecesse como ruína, memória das coisas mortas”

A tragédia do incêndio do Museu Nacional não deverá ser suficiente para abrir um debate sério no Brasil sobre o “descaso” a que tem sido votada a cultura, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Este é “um país onde governar é criar desertos”.

Alexandra Prado Coelho
“Público”, 04.09.18

Eduardo Viveiros de Castro, 67 anos, é um dos mais conhecidos antropólogos brasileiros, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição que na noite de domingo para segunda-feira foi destruída pelo fogo, que arrasou quase totalmente uma colecção de mais de 20 milhões de peças, com um valor incalculável. Falou ao PÚBLICO por telefone a partir do Rio.

Qual é a dimensão da perda do Museu Nacional do Rio de Janeiro para o Brasil e para o mundo?
O Museu Nacional talvez fosse o lugar mais importante do Brasil em termos do seu valor como património cultural e histórico, não só brasileiro como mundial. Trata-se da destruição do ground zero, o lugar central que era o símbolo da génese do país como nação independente e continha um acervo inestimável, não só do ponto de vista da história da cultura e da natureza brasileiras mas com peças de significado mundial. Foi destruída toda a colecção de etnologia indígena, inclusive de vários povos desaparecidos, foi destruída toda a biblioteca do sector de Antropologia, e foi destruído o Luzia, o fóssil humano mais importante e antigo das Américas. É uma perda que não tem como reverter, não há nada que se possa fazer que mitigue, que amenize essa situação. Só se pode chorar em cima do leite derramado, que não adianta nada.

As causas últimas desse incêndio, todo o mundo sabe quais são. É o descaso absoluto desse Governo, e dos anteriores, para com a cultura. O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazónia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo, porque se trata de testemunhos com significado para toda a civilização.

É portanto uma perda com impacto a nível mundial.
Com certeza, tem impacto brasileiro, português, porque boa parte da história de Portugal estava nesse museu também, visto que foi a residência de D. João VI, e também da história mundial – a colecção de etnologia não tinha significado apenas para o Brasil pelo facto de os povos aqui representados habitarem essa parte do planeta, esses povos têm significado para a história da humanidade. Além disso, havia peças muito valiosas que não eram apenas de povos indígenas no território brasileiro, peças africanas, egípcias, etruscas.

É uma perda incalculável que se explica – não se justifica, mas explica-se – pelo descaso absoluto que todos os Governos, e esse Governo ilegítimo em particular, votam à cultura, com cortes dramáticos nos orçamentos da cultura e da educação, ameaças grave de desmontagem das universidades públicas [o Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro]. É um projecto de devastação, de criação de desertos, desertos no espaço e no tempo. A destruição do museu é um deserto no tempo, é destruir a memória, destruir a História.

E para si, em particular, o que é representa?
O Museu Nacional abrigava vários departamentos da Universidade. Era um museu de exposição, mas também de pesquisa, eu fazia parte do sector de pesquisa, de um programa de doutoramento em Antropologia. A minha relação com a parte física do museu, com os objectos, era bem menor do que a de vários colegas meus. A perda pessoal, imediata, para mim é a da Biblioteca de Antropologia, que devia ter uns 200 mil títulos e que era um instrumento de trabalho fundamental para a minha actividade como docente.

Essa perda atingiu-me de maneira directa, perdemos toda uma biblioteca construída ao longo de 50 anos. Como etnólogo, relativamente à colecção do Museu Nacional, significou para mim a perda de toda a memória material desses povos que foram destroçados pelo colonialismo europeu e que estavam ali como testemunhas mudas da história sinistra que foi a invasão da América pelas potências europeias.

A biblioteca de Antropologia tinha manuscritos, volumes insubstituíveis
Manuscritos, menos, porque a biblioteca central do Museu Nacional já não estava no edifício que foi destruído, estava num anexo, e é essa que contém as obras raras. A do programa de doutoramento era muito moderna, tinha toda a produção antropológica, sociológica, histórica, dos últimos 50 anos. Embora teoricamente possa ser refeita, não há dinheiro para o fazer. De resto, os fósseis, as borboletas, os insectos, as colecções de estudo, isso é insubstituível.

O que é que se deve fazer agora, perante este edifício queimado?
A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio.

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