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Independência ou morte 2.0

Independência ou morte, de facto. Versão 2.0, como se impõe, porque 200 anos depois o sistema operativo é completamente diferente; invertido, por assim dizer, ou, na acepção clássica da expressão, o mundo ao contrário.

Ou talvez nem tanto. A natureza humana, persistindo em contrariar com factos horripilantes as belas teorias harpejadas por anjinhos celestiais com suas asinhas a dar a dar, encarrega-se desde sempre de ir demolindo com método e paciência qualquer realidade que não encaixe na narrativa do momento; mentindo por sistema, evidentemente, inventando e tergiversando a trouxe-mouxe, distorcendo e renegando qualquer verdade inconveniente.

Com imenso desplante e não menor descaramento. Por exemplo: «É frequente também ouvir comentários dirigidos a brasileiros como “Fala tão bem, nem quase tem sotaque”.»

Esta citação, retirada do texto abaixo transcrito, é uma das mais do que flagrantes mentiras contidas não apenas naquele textículo — e de tantos outros já aqui “servidos” de bandeja — como também na série de vídeos (“playlist”) acima.

Apenas por desfastio, evidentemente, no impossível caso de alguém ter alguma vez ouvido algo de semelhante à tal patranha de “fala tão bem”, então faria o favor de indicar — por exemplo, na caixa de comentários a este “post” — onde, quando e de quem ouviu ou se porventura é o próprio o autor de tão extraordinária coisinha. Um brasileiro em Portugal a fingir que imita o “sôtáki pórrtugueiss”? Não duvido, tenho a certeza: é mentira.

Da imensa colecção de galgas à brasileira (ou de brasileiristas), merecem também destaque os filmezinhos curtos na “playlist”, produzidos pela TV Senado — o equivalente ao nosso Canal Parlamento — contendo uma espectacular sequência de revisionismo histórico; sempre numa perspectiva hiper-nacionalista, como já vai sendo hábito dos governantes brasileiros, e da mesma forma mantendo o viés lusófobo, logo, preconceituoso e com evidentes traços de racismo, todas aquelas doses de intoxicação das massas — como se as ditas massas carecessem de ainda mais incentivos para detestar o tuga, o colonizador “ladrão” e “imbéciu” — servem apenas como ilustração, como uma galeria inteira de ilustrações, da forma “carinhosa” como alguns daqueles “irmãozinhos” de certos tugas “adoram eles”, como “adoram” Portugal e principalmente como não andam há 200 anos a culpar os portugueses por tudo aquilo que no Brasil correu e continua a correr mal. Pois não, que ideia, andam lá agora.

Aos permanentes insultos com que alguns (muitos) brasileiros mimoseiam todo o povo português respondem alguns políticos tugas com a mais abjecta bajulação, contorcendo-se e rastejando como verdadeiros artistas de circo, deliciados por vergar a cerviz perante o “gigante”.

Igual tara afecta não-políticos, isto é, pessoas que ao menos a julgar pelas aparências seriam normais. Porém, a pancada de teor sado-masoquista — inteiramente “passiva”, logo, exclusivamente masoquista — leva essa gente a atingir paroxismos de gozo, algo que remete para o (triste) axioma “quanto mais me bates, mais gosto de ti”. Deve ser isso, realmente. Se calhar, nem vale a pena escavar a fundo nos labirintos das perturbações mentais. A verdade é que há por aí uma data de indivíduos com semelhante pancada brasileirista, pessoal que “adora eles” à séria — e quanto mais pancada levam mais gostam, ui, adoram, levar porrada “é um barato, viu” –, daí a sua peculiar embirração para com quem sequer se atrever a insinuar que aquilo não é um comportamento normal.

Bem, mas há ainda quem se esteja completamente nas tintas para esse tipo de destrambelhados pruridos. Cá p’ra mim, em suma, abreviando longas considerações a respeito de tão pouco higiénico assunto, quem adora levar nas trombas é marado dos cornos.

O grito do Ipiranga

Ana Paula Laborinho

 

Tem sido muito destacado, por pouco habitual, também ser celebrado em Portugal o Bicentenário da Independência do Brasil. A data simbólica de 7 de Setembro em que D. Pedro rompe as relações de subordinação com Portugal e grita nas margens do Ipiranga “Independência ou Morte!“, permitiu, ao longo destes dois séculos, a visão romantizada do país colonizador que liberta a sua colónia. Decerto um dos melhores resultados destas comemorações tem sido a profusão de encontros científicos e publicações (livros, artigos, nomeadamente dirigidos ao grande público) que mostram a complexidade desse processo.

Ao longo destes 200 anos, vários movimentos migratórios têm levado e trazido comunidades que serviram para aproximar os dois países que (não será exagerado dizer) ainda se conhecem mal. De um lado e doutro, sobrevivem muitos estereótipos com a sua melhor expressão no anedotário vulgarizado. A língua portuguesa continua a ser considerada o traço de união mais permanente, embora com as diferenças que umas vezes são empoladas e outras ignoradas.

A chegada das telenovelas brasileiras a Portugal trouxe consigo um contacto com vocabulário e sotaques que, na altura, foram rapidamente assimilados. Muito desse vocabulário era, afinal, o regresso de palavras do português antigo que outras influências ou o caminho das palavras fizeram desaparecer ou substituir por distintos termos. Esquecemos que as línguas são corpos vivos que se transformam, embora seja necessário ter uma perspectiva longa para dar conta dessas mudanças. Se o português evoluiu do latim, começando por ser uma língua oral e absorvendo influências como o árabe, o português do Brasil cruzou-se com outras línguas como o tupinambá, o iorubá, mas também o espanhol, o francês e outros idiomas ao sabor da história.

Reconheço que o grande objectivo do Acordo Ortográfico de 1990 não foi alcançado: criar uma base ortográfica comum a todos os países de língua oficial portuguesa que permitisse, por exemplo, maior circulação do livro e de todos os produtos escritos, mas também contribuísse para a criação de um espaço de conhecimento comum, facilitando a mobilidade de estudantes e professores.
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Pedro Tamen [1934 – 2021]


Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

in “Tábua das Matérias” – Poesia 1956-1991

 

«Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.»

«Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.»

«Foi também dirigente cine-clubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades.»

«Fez crítica literária no semanário Expresso.»

«Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90).»

«Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.»

«Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.»

«Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução.»

«Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.»

«A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente,publicou os livros Analogia e Dedos (2006) O Livro do Sapateiro (2010) e Um Teatro às Escuras (2011). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa).»

«À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).»