Parecer DGEBS

Base V

  1. Aqui, apenas fica a interrogação de se as tais pronúncias “cultas” continuarão a permitir variações do género de cúmio (popular), de cume, réstia, do antigo reste, em 2.º d., ou a forma dialectal sã-braseiro (Base VI, 1.º)… e outras formas congéneres.

 

Base VII

  1. Afinal, não há só contração (XII, 1.º a) e contracção (IX, 10), mas também combinação (VII, 1.ª Obs.) da preposição a com as formas masculinas do artigo [definido] ou [o] pronome demostrativo o, ou seja, ao e aos! (Note-se que o informante metatextual inciso ou sejam de XX, 1.º é incorrecto.)
  2. E quanto às 3.ªs ou 2.ªs pessoas do plural, elas nunca existiram, ao contrário do que se faz crer em todo o texto do Acordo 90 (cf. IX, 5. c, VII, 2. a, 3. b ii …)
  3. Também é errado afirmar-se em 3.º b que o ditongo am é sempre átono e só se emprega em flexões verbais. Basta lembrarmo-nos de bamba e grampo, também…

 

Base IX

  1. Para um estudante (e muitos professores) saber que as paroxítonas hóquei, órgão, contraríeis, Vénus (2.º b), fórum, cânon, plâncton, bênção (5.º a e b) levam acento gráfico agudo ou grave não é matéria difícil: O problema surge quando creem (de crê), leem (de ), veem, (de ), no ponto 7.º, já o perderam, só pelo “hiato” em que o e se encontra com o ditongo! E em néon ou em Actéon não há hiato, embora com acento agudo na tónica.
  2. Entretanto, em 6.º b faculta-se o acento para dêmos e demos, fôrma e forma, e o ponto 9.º empurra para o contexto pela / pela / pela, para / para, polo / polo (”combinação antiga e popular.”) Que sistematização!

 

Base XII

  1. “Levar acento”, “assinalar-se com acento”, “receber acento”, “acentuar-se” – de tudo se lê no texto do Acordo 90.

Mas o ponto 1.º a refere que se emprega o acento grave “na contração (sic) da preposição a com as formas femininas do artigo [definido] ou o pronome demonstrativo [gralhado em IX, 10] o (sic): à (a + a), às (a + as).” Não é para entender, com certeza.

  1. Como não é para entender que continuem a não ser consideradas as contracções prò(s) e prà(s), de pra + o / a / os / as.

 

Base XIII

  1. A redacção do ponto 1.º ficaria correcta se se tivesse admitido que os advérbios em -mente também podem derivar de outros advérbios, e não apenas de adjectivos: “Ali, estava ela somente”.

Por conseguinte, é incorrecta a inclusão de somente na linha 4 desse ponto 1, cuja redacção, aliás devia iniciar-se por “Nos advérbios em -mente que derivam de formas adjectivas e de adjectivos de valor adverbial (…)”, para abranger ainda casos do tipo de latine loqui / lusitane l.

  1. Incorrecta se manifesta confundir os sufixos -inho / -ito com –zinho / -zito, pois estas formas sufixas incluem um Z eufónico que se designa de infixo: pessegozito / pessogozinho / pesseguinho / pesseguito, ilheuzito / ilheuito / ilheuinho

 

Base XV

  1. Aqui começa o calvário das três bases dedicadas a complexificar O uso do hífen, sobretudo para quem não traz biblioteca no lombo. No entanto, parece-me sensato O disposto em XV, 3.º e XVI, 1.º a e b e 2.º.
  2. Na inexactidão do que se entende por palavras compostas, o ponto 1.º identifica, desta vez, correctamente o conceito, embora O defina erradamente: a justaposição não é “uma unidade sintagmática e semântica”, porque qualquer palavra ou frase o são. Exige-se, de facto, o acento próprio para cada elemento vocabular, mas também importa a unidade morfossemântica ou lexicossemântica: ano-luz é diferente de Hoje choveu.
  3. Mas se a ligação dos elementos exige a natureza nomimal, adjectival, numeral e verbal do ponto 1.º, ela deve incluir também a pronominal, a adverbial e a preposicional: Todos-os-Santos, Trás-os-Montes, Todo-Poderoso não são palavras justapostas?
  4. A observação feita ao ponto 1.º baralha: então mandachuva e paraquedas não entram em casos como o de guarda-chuva e conta-gotas? E ter-se-á perdido de facto a noção de composição (mesmo ”em certa medida”, sic), como se pretende fazer crer?
  5. Espantoso: alcunhar Camões de Trinca-Fortes equivale a toponomizá-lo, na doutrina do ponto 2.º! E o mesmo se diga para algum Mata-Mouros ou algum mais antropófago Traga-Mouros…!
  6. Endereçar carta à Baía de Todos-os-Santos exige mais tinta e dispêndio de tempo: primeiro, porque se deve usar o bê maiúsculo (rua / Rua é grafia facultativa, em XIX, 2.º i); depois, porque a festividade de Todos os Santos rejeita o hífen (XIX, 2.º e).
  7. O ponto 4.º continua a enfermar de incoerência geral do emprego do hífen. Podia ter-se pensado com mais trabalho e sensatez, de modo a obter-se a desejada e pedagógica simplificação.
  8. Depois, para quê relembrar o cor-de-rosa, ante o cor de vinho e o cor de açafrão, “formas consagradas pelo uso”. (Mas de quem?)
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Updated: 28/03/2019 — 18:26