AO90: «Uma nau sem rumo» [Nelson Valente, “O Paraná” (Brasil), 05.02.19]

(Des)Acordo Ortográfico

“O Paraná” (Brasil), 05/02/2019
– por Nelson Valente

Quantas vezes na vida você já perguntou: Como se escreve tal palavra mesmo? É com z ou com s? Tem acento? Tem hífen?

Essas dúvidas sempre existiram e vão continuar existindo, só que o novo acordo ortográfico, que de novo não tem nada pois começou a ser elaborado há 29 anos e só entrou completamente em vigor em 2016, em vez de ajudar, parece ter atrapalhado ainda mais a escrita.

Quer um bom exemplo? Quando uma criança está fazendo a lição de casa e tem uma dúvida, pergunta para quem? Os pais, é claro. Só que a maioria desses pais foi educada na transição do acordo ortográfico, portanto cresceram com as mesmas dúvidas.

Aí a solução é dar um “google” e eis que a quantidade de explicações é tão extensa, muitas citando outras regras gramaticais, que geralmente a dúvida não é esclarecida e ainda aumenta.

Claro que em educação nada acontece em curto espaço de tempo, mas a demora e o sentimento de que o Acordo Ortográfico dos países de Língua Portuguesa se tornou uma nau sem rumo, ou um barquinho de papel, está criando gerações com grave déficit de escrita. Outro fator relevante é a importância cultural que a língua de um país tem.

Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, infelizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB.

As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério. É fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. Já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil.

Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 218 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir.

O Brasil não tem tradicionalmente uma política linguística. A difusão do português brasileiro no exterior ocorre quase por inércia, mais pela importância que o Brasil vem assumindo geográfica, geopolítica e economicamente. Portugal, ao contrário, tem uma política linguística, tem o Instituto Camões, com mais de mil professores espalhados pelo mundo todo, enquanto o Brasil tem 40 leitorados. Cria-se aí, já, uma diferença.

Nós que tínhamos de ter uma política linguística mais agressiva, mas temos uma posição de colonizados, de que, se Portugal já está lá, não precisamos ir. Precisamos, sim. Nós somos 90% de quem fala português no mundo e somos a sétima economia mundial. Portugal, ao contrário, está no fundo do poço, com essa crise horrível que acontece por lá. Nós que temos de investir e brigar pelo nosso espaço, porque as pessoas de fato querem aproveitar as oportunidades que nós oferecemos.

Não dá para impor uma língua de uma hora para outra a um povo. O padrão da língua no Brasil deve ser a língua falada pela maioria da população brasileira contemporânea, que é o português brasileiro.

A língua geral brasileira foi proibida no Brasil no século 18 pelo Marquês de Pombal, dirigente de Portugal durante o reinado de José I, e ficamos com um saldo de 300 anos sem educação. Se não tivesse acontecido isso, talvez hoje seríamos como os paraguaios, que falam espanhol e guarani – este também uma invenção dos padres jesuítas como uma língua geral, muito parecida com a língua geral brasileira, com base no tupi. Por uma política autoritária, repressora, foi proibido ensinar e falar qualquer coisa no Brasil que não fosse o português.

O que ocorre com o dito Novo Acordo Ortográfico é que, na verdade, Portugal “colonizador” quer colonizar a língua portuguesa. Veja o exemplo: a antiga Iugoslávia se fragmentou em seis pequenos países e a língua que então era considerada uma só, o servo-croata, agora se chama bósnio, croata, sérvio, montenegrino… Mas, para esses nomes aparecerem, ocorreu uma guerra horrorosa, com muitas mortes, uma coisa terrível.

Nos Bálcãs, os sérvios e os croatas se entendem. No passado, os que se revoltavam mais ferozmente contra o colonizador haviam estudado na metrópole. Pode-se massacrar uma população conhecendo-se perfeitamente sua língua e sua cultura.

A miscigenação no Brasil foi muito mais intensa e, evidentemente, a miscigenação linguística também. O português foi língua minoritária no Brasil durante todo o período colonial. Falava-se como língua geral o tupi e nossa população, até a época da Independência, era 75% mestiça.

Atualmente, o que ocorre é um conflito entre português de Portugal e português brasileiro nas escolas. Pois quando um aluno diz que não sabe português, na verdade, está dizendo que não sabe as normas da gramática do português ensinado na escola.

Uma pessoa que diz que não sabe português é porque acha que saber português é saber o que é uma oração subordinada substantiva objetiva direta completiva nominal reduzida. E isso, quase ninguém sabe. Nem mesmo os professores de português formados e na ativa já há bastante tempo. Então, temos aí um grande imbróglio para resolver, a formação docente.

Não adianta tentar resolver o que acontece na escola, sem resolver primeiro as questões que envolvem a formação dos professores, e claro, as condições de trabalho das pessoas, para que elas não sejam espancadas em praça pública.

Aí vêm uns idiotas que querem realmente reformular a língua, botar tudo com “x”, com dois “s”, com “z”, com uma série de questões que não têm nada a ver, sem nenhuma fundamentação teórica que as sustente. A implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! E a consequência é o caos linguístico que se está verificando nas escolas, na comunicação social, falada/escrita/ouvida e lida.

Para que não ocorra um desacordo na nossa língua, quem sabe daqui a alguns anos apaguemos o “português” e fique só o “brasileiro”.

Nelson Valente é professor universitário e jornalista

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nelson Valente, publicado no jornal brasileiro “O Paraná” em 05.02.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Evidentemente, na transcrição foi conservada a ortografia brasileira  do original.]

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Governo Sombra com Iniciativa

Os “ministros” Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, além do próprio “host” do programa, Carlos Vaz Marques, manifestam mais uma vez unanimidade no que ao “acordo ortográfico” diz respeito: todos contra.

Esta emissão do “Governo Sombra” passou na TVI na madrugada do dia 2 de Fevereiro de 2019 e em gravação áudio, na TSF, no dia seguinte.

A parte que mais interessa, aquela em que o “gabinete ministerial” fala (ou, melhor, diz cobras e lagartos) sobre o AO90, acontece a partir do minuto 45 e, durante os seis minutos e meio dedicados ao tema, aquilo a que assistimos é o habitual arraial de pancadaria, os quatro altos dignitários da Nação competindo entre si a ver quem dá mais porrada na malaquenha invenção. Apenas João Miguel Tavares coloca algumas reticências quanto à reversão do processo de demolição em curso (ah, e tal, as minhas filhinhas, coitadinhas, se isto volta atrás vão ter de aprender a escrever de novo, etc.) mas, evidentemente, aquilo é brincadeira, ninguém pode aventar semelhante objecção sem estar no gozo, este João Miguel adora a reinação.

Uma espécie de fenómeno curioso ocorrido durante esta ministerial conversação é o facto de Pedro Mexia ter declarado apoiar a ILC-AO (que subscreveu, como é público, à semelhança do que fez RAP) e de ter assinado «tudo o que me puseram à frente sobre o acordo ortográfico» mas com uma única excepção: «tirando uma coisa sobre um referendo; como ia ter 5% de participação, achei que era má ideia.»

Curioso, realmente, oh, sim, muito curioso. Mas então não é ele mesmo, Pedro Mexia, um dos “mandatários” do tal referendo-que-afinal-é-má-ideia?

Estarás pois tu, ó Pedro, a mentir? E, se não estás tu a mentir, ó Pedro, como a mim me parece, então quem será que anda por aí a aldrabar o pessoal? Quem será o aldrabão (ou aldrabões), hem, ó Pedro, que a mim, assim de repente, não me ocorre (digamos) nomezinho nenhum, hem, ó Pedro, o que dizes?

Bom, e daí, talvez seja melhor não dizer mais nada, pelo menos até ver.

O que por agora importa é ouvir. E ler. E pensar. E então agir: apoiar a luta contra o AO90  ajudando de todas as formas possíveis a única Iniciativa verdadeira, séria, credível e viável para acabar com ele.

 

Nota: o vídeo acima está em “iframe” (página externa embutida), daí a publicidade inserida pela TVI na “janela” de origem; é possível que o dito canal de TV tente impingir remotamente, além de anúncios a granel, uma qualquer inscrição num “portal” ou num serviço qualquer. Evidentemente, não tenho nada a ver com isso, manobras publicitárias ou truques de “marketing” não são a minha praia. Sugiro que a visualização seja feita no “site” onde está alojado (e aferrolhado) o vídeo.

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AO90: “Areia na engrenagem” [Marco Neves, entrevista, SAPO24, 02.02.19]

Marco Neves: “O problema não é a correcção dos erros, é a arrogância com que isso se faz”

SAPO24, 02.02.19

Entrevista de Tomás Albino Gomes

Não é uma lista de erros, não é um ultimato àqueles que conjugam o verbo haver no plural fora das raras excepções em que é permitido ou que teimam em colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado. O “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português”, da autoria de Marco Neves, publicado pela Guerra e Paz, é uma declaração de defesa.

“Não me chamem para lutas absurdas contra a boa língua portuguesa, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve”, avisa Marco Neves, tradutor, revisor, professor, leitor, conversador. A luta do autor é outra, é pelas palavras e expressões que nos fogem da boca com a descontracção do dia-a-dia, pelo “deslargar”, “estájaver”, pelo “queria um copo de água” e “não há nada”; e contra todos aqueles que querem despojar a língua da sua riqueza oral numa atitude constante de apontar o dedo a qualquer deslize no português – que, como explica este Dicionário, não é um deslize. “Acho, aliás, curioso como alguns dos inventores de erros andam constantemente a lamentar o empobrecimento da língua, quando são os primeiros a querer limitar o seu uso”, sublinha.

Em entrevista ao SAPO24, casa onde é cronista e que conhece bem, Marco Neves fala de erros falsos, do vício e arrogância daqueles que apontam constantemente erros aos outros antes de olharem para os seus, numa conversa embrulhada pela evolução e compreensão de uma língua em que um povo embateu, com o novo Acordo Ortográfico, e que para se manter rica não deve esquecer a herança oral e as suas geografias.

Os livros sobre a língua portuguesa, na sua maioria, são páginas e páginas de combate aos erros mais comuns de ortografia, sintaxe ou oralidade. Mas este “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português” é diferente, é uma arma de defesa para as pessoas a quem são apontados erros.

É um livro que contraria um pouco a tendência. É preciso corrigir os erros e todos nós, por vezes, temos dificuldade a escrever e a falar, mais a escrever do que a falar. No entanto, acho que uma certa obsessão por procurar o que é o erro nas outras pessoas. Nunca pensamos tanto naquilo que nós próprios fazemos e isso é mais importante do que andar a ver se os outros falam mal ou falam bem. Aqui tento, no fundo, mostrar o outro lado, defender algumas expressões que são consideradas erros e que eu digo que não o são, e tento explicar porquê. São expressões que fazem parte da nossa língua, fazem parte da riqueza dessa língua e por isso estão aí defendidas.

O Marco distingue no livro a diferença entre um erro, colocando-o, de maneira um pouco mais simples, sobre a forma de um erro ortográfico, por exemplo, e a riqueza da oralidade.

A ortografia é uma convenção, está definida até por lei cá em Portugal. Não acontece isso em todos os países, mas por cá temos essa discussão, se devemos usar ou não a ortografia anterior. Eu uso a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico, mas essa está definida, existe uma série de regras que estão no papel e por isso é relativamente fácil perceber quando estamos a errar ou não. No que toca à oralidade, e mesmo na escrita mais criativa, a língua já não é feita no papel. Começa na boca das pessoas, no cérebro dos falantes e só depois é que alguém vai registar quais é que são as regras. Há uma grande diferença entre um erro ortográfico e aquilo que nós podemos dizer que é um erro na oralidade – onde também existem, mas são muito mais difíceis de definir.

Aquelas pessoas que estão sempre a apontar erros no português dos outros irritam-no?

Se me irritam a mim? Eu tento ter uma visão da língua o menos irritada possível [risos]. O que me irrita não é tanto o apontar o erro, porque todos podemos estar enganados, dar erros de português, estar convencidos de que uma coisa é erro e afinal não ser. A questão é mais a arrogância que por vezes aparece neste tipo de discurso, em que quando se apanha alguma falta – que por vezes não é falta, como eu tento explicar aqui, é apenas a forma como a língua funciona – parece que há um certo prazer. E isso irrita-me, essa arrogância, não tanto o corrigir. Eu sou professor, tradutor e revisor, as minhas profissões implicam andar à procura de erros, o problema não é a correcção dos erros, que é necessária e que sempre houve e que sempre continuará a haver, o problema é por vezes a arrogância com que isso se faz.

Também é um livro contra a arrogância?

Aí passamos para o segundo nível, que é o grande combate deste livro, a arrogância com que por vezes algumas pessoas tentam encontrar erros onde eles não existem, quando são apenas uma forma normal da língua funcionar.

Os tais erros falsos do português.

Não é só do português, todas as línguas que tenham uma norma escrita têm este tipo de controvérsias, certas expressões que certas pessoas consideram um erro, mas que são usadas por quase todos nós, algumas delas em situações mais informais, outras em situações também formais. Aparecem por vezes devido a certas análises simplistas ou por certos mitos, e por isso este dicionário também é um dicionário de mitos. Por exemplo, pensar-se que uma expressão tem de fazer sentido se olharmos para o significado de cada uma das suas palavras. Um dos erros falsos é a expressão “já agora”, que algumas pessoas combatem dizendo que não faz sentido porque “já” quer dizer “agora”, e por isso seria uma redundância. Mas, neste caso, “já agora” é uma expressão idiomática, é uma expressão em que as duas palavras em conjunto querem dizer outra coisa, e não querem dizer aquilo que cada uma delas quer dizer. Isto é uma coisa bastante básica do funcionamento da língua, todas as línguas têm expressões idiomáticas. Quando aprendemos uma língua estrangeira aprendemos não sei quantas expressões idiomáticas e às vezes esquecemo-nos de que a nossa própria língua também as tem.

Pegando aqui em alguns exemplos do livro, há um que me salta logo à vista: “deslargar”.

Aí temos uma expressão que não é adequada em certos registos. Eu não defendo que alguém diga esta palavra no parlamento ou numa situação mais formal, mas é uma palavra do registo informal, popular. E não é errada por ser ilógica. É apenas inadequada em certas situações, como há tantas palavras que também são inadequadas em tantas situações. Podemos começar pelos palavrões. Os palavrões são palavras que só devemos usar em certas situações, embora às vezes nos saiam fora do momento. No entanto, não são erros gramaticais, são palavras que têm um uso restrito em termos sociais.

Sou um defensor de que os palavrões têm um espaço na língua portuguesa.

Muito espaço, aliás. E fazem bem! Quando nós damos um pontapé numa cadeira ou numa porta dizemos um palavrão e aquilo alivia a dor. Mas como acontece em muitos casos, as palavras não são adequadas a todas as situações, depende do sítio, dependendo da situação. Às vezes também digo isto ao contrário, imagina uma palavra muito formal. Por exemplo, sua excelência. Não vamos utilizar isto em casa com os nossos filhos ou com os nossos. Mesmo as palavras formais podem não estar adequadas à situação. Todas as palavras têm um lugar. A acusação que se faz muitas vezes ao “deslargar” é que…

(mais…)

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“Nenhuma desculpa” [Nuno Pacheco]

A Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 29 de Julho, estabelece um prazo de seis anos (cf. Art.º 2º, nº 2) para que «a ortografia constante de novos actos, normas, orientações, documentos ou de bens referidos no número anterior ou que venham a ser objecto de revisão, reedição, reimpressão ou de qualquer outra forma de modificação, independentemente do seu suporte, deve conformar-se às disposições do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa».

Na mesma Resolução se estabelece (cf. Art.º 5º, ponto 3) que «o presente Protocolo Modificativo entrará em vigor no 1.º dia do mês seguinte à data em que três Estados membros da CPLP tenham depositado, junto da República Portuguesa, os respectivos instrumentos de ratificação ou documentos equivalentes que os vinculem ao Protocolo.»

Do que resulta, portanto, que em Portugal, nação soberana, entrou em vigor no dia 1 de Janeiro de 2010 o Acordo Ortográfico de 1990, com um prazo de seis anos para a sua total implementação, sendo que essa entrada em vigor foi automaticamente determinada pelo depósito dos instrumentos de ratificação de três outros Estados, também eles soberanos, e não através de um qualquer acto de exercício de soberania pelo próprio Estado português.

Ou seja, e em suma, temos que vigora em Portugal uma lei imposta por Estados estrangeiros e que resulta em exclusivo de um expediente de formulação, já que esta foi alterada do primeiro para o segundo Protocolo Modificativo.

[Excerto da “Exposição de Motivos”, texto da ILC-AO]

A responsabilidade de 20 mil assinaturas pela Língua Portuguesa

Neste ano de eleições, os políticos terão de olhar de frente para o monstro “ortográfico” que insistem em não ver.

Nuno Pacheco

“Público”, 31.01.19

Janeiro chega ao fim com uma boa notícia: a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILC-AO) já tem as 20 mil assinaturas necessárias para ser apresentada e discutida na Assembleia da República, à qual se dirige. Chega isto para satisfazer quem, há muito, acredita no dever e no poder das acções de cidadania? Não, por vários motivos. Por isso, quem há muito lançou tal campanha apela a que a recolha de assinaturas continue.

Convém explicar, antes do mais, do que trata tal iniciativa. O chamado “acordo ortográfico”, aprovado em 1990 num processo muito criticado e contra a maioria dos pareceres técnicos que o desaconselhavam, envolvia, de início, sete países: Portugal, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. E tinha, como pressuposto, que só seria válido quando todos estes países o ratificassem internamente (nos seus parlamentos) e depositassem os instrumentos de ratificação junto do Estado português, incumbido de oficialmente os receber. Sucedeu que tal processo tardou. E em Portugal e noutros países o dito “acordo” foi esquecido, declarado moribundo ou morto, e toda a gente foi à sua vida sem pensar mais no assunto. Até que alguém, julgando-se iluminado por incumbência “histórica”, resolveu ressuscitá-lo, tirando-o do limbo e devolvendo-o à ribalta.

Havia, no entanto, um problema: os países tardavam a engolir tal pílula. Não havia ratificações que chegassem para cantar vitória. Então, num golpe de mágica, com mais golpe que mágica, alguém se lembrou de “emendar” o que fora aprovado pelos sete países. Assim, dando uma “nova redacção ao artigo 3.º do Acordo Ortográfico”, determinou-se que este “entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa.” A este golpe chamou-se “Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado na V Conferência de governantes da CPLP, em São Tomé, em 2004, e aprovado quatro anos mais tarde na Assembleia da República pela Resolução n.º 35/2008. Timor-Leste, recorde-se, chegara recentemente à CPLP e esperava-se deste novo país uma futura adesão ao “acordo”. Pois bem: até hoje, só foram entregues quatro ratificações: as de Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Quanto a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste, não ratificaram o malfadado “acordo”. E estamos em 2019.

Este desaforo, numa matéria que obrigaria unanimidade (não a dos negociadores, que se consegue facilmente ao fim de alguns jantares e muitas promessas, mas a das instituições legais de cada país), levou um grupo de cidadãos, de entre os muitos que se haviam mobilizado contra o acordo, a dar início a uma iniciativa legislativa que visava, tão-só, parar o “acordo” enquanto essa unanimidade não existisse. Ou seja, revogar o golpe dado pela Resolução n.º 35/2008, e manter o texto inicial do dito “acordo ortográfico”: “O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrará em vigor (…), após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa.” Todos os Estados e não só os três a que o Segundo Protocolo reduziu, impunemente, toda a CPLP.

O problema é que, ao longo dos anos, não só o “acordo” foi sendo imposto como se fosse lei e não é (a lei em vigor em Portugal reconhece apenas o acordo de 1945, não revogado) como as dificuldades colocadas às iniciativas de cidadãos obrigaram a sucessivas adaptações. “Por alguma razão”, escrevem os promotores da ILC-AO, “as ILC continuam a ser uma raridade — uma benesse teórica que existe ‘para inglês ver’ mas de difícil aplicação prática e de exequibilidade quase impossível, tal é a carga de formalidades e exigências que sobre as mesmas impende.” E esta, em particular, “atravessou três conjuntos de regras diferentes para a recolha de assinaturas”, pelo que teve de se ir adaptando a todas elas. Primeiro em papel, em listas, depois em formato digital, os requisitos foram mudando ao longo dos anos: nome completo, número de cartão de identificação, data de nascimento, número de eleitor, etc. Mesmo assim, com todas as adversidades, diz agora a ILC-AO que já processou 20.768 assinaturas, das quais, após triagem, foram validadas 20.027. Isto até ontem. Mas pode haver contratempos, alertam: “Pessoas que estiveram ligadas a outras ILC contaram-nos histórias que raiam o absurdo, como, por exemplo, folhas de subscrição múltipla (10 ou 15 assinaturas por página) invalidadas na íntegra só porque uma das assinaturas não estava conforme, continha ou faltava-lhe alguma coisa que os serviços acharam ‘desconforme’ ou coisa que o valha.” Daí que a recolha de assinaturas continue, incansável, no endereço electrónico da ILC-AO e também nas ruas, na chamada Operação Pelourinho: “Onde quer que se montem as nossas bancas as pessoas acorrem, sem ser preciso convidá-las.”

Pois bem: 2019, ano de eleições, será também o ano em que os políticos terão de olhar de frente para o monstro “ortográfico” que insistem em não ver. E decidir, de vez, o seu destino. Nenhuma desculpa servirá para prolongar a ilegalidade que despudoradamente travestiram de “lei”.

nuno.pacheco@publico.pt

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco. “Público”, 31.01.19. Os “links” a verde, bem como as respectivas citações, são de minha autoria e responsabilidade. Imagens compostas em OnlineBadgeMaker e em Credly.]

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Tripas à moda do Rio

Algumas pessoas, especialmente entre o Porto e Valongo (mais umas quantas simpáticas localidades ali à volta), conhecem este indivíduo da pantalha televisiva, em especial por ter figurado num defunto programa especializado em maledicência (‘A Noite da Má-Língua’) e numa outra tertúlia mais virada para o pontapé na chincha. Tem ainda no curriculum, abrilhantando a sua condição de figura pública, o facto de pertencer à Confraria das Tripas, essa prestigiosa e vetusta instituição da Cultura pátria cuja matéria (as tripas propriamente ditas) é um elemento essencial da História de Portugal, d’aquém e d’além-mar, em especial da parte do além, está visto, pois que foi à custa das tripas que Portugal deu novos mundos ao mundo e espalhou a Língua portuguesa por tudo quanto é canto, etc.

Não se trata contudo agora da parte curricular ou das viscerais confrarias do senhor, nada de actividades empresariais na florescente área da organização de eventos, ou assim. Outrossim, porém, detenhamo-nos em pormenores a seu (dele) ver irrelevantes como sejam as desprezíveis normas que regulam (ou não, para o mesmo senhor é igual) a chamada “ortografia”. Não é de todo caso único, ainda  que a bizarria no caso vertente escape a qualquer tentativa de entendimento, e se calhar até há quem conheça outros exemplos quejandos de tanto-se-lhe-dá-como-se-lhe-deu no que à escrita diz respeito. Segundo preceitua este, e há-de haver mais com certeza, é facílimo, tudo se resume a carregar pela boca e puxar o gatilho, cá vai disto, pum, sai pela mesma boca por onde entraram bolinhas de chumbo e  areia uma descarga textual catita, explosiva; ou seja, se bem entendi, isto depois da descoberta da pólvora é uma brincadeira de meninos, carrega-se o arcabuz (ora renomeado “conversor ortográfico”) com chumbadas em Português, este é detonado pela pólvora (o “acordo ortográfico”) quando se prime o gatilho (tecla “enter”) e sai pelo outro lado um tirinho em acordês.

Foi o que “aprendi” no textículo do senhor, salvo seja. Mas devo ter percebido mal, só pode.

Não poderia, no entanto, privar os dois ou três leitores deste incógnito — porém, jeitoso, porque todo virado para a inovação — repositório virtual de tão suculento pitéu. E não, não me refiro às tripas.

Uma conversa acordada

Manuel Serrão
“Jornal de Notícias”, 30.01.19

Esta semana, em conversa acordada com um amigo escritor, que por acaso também tem presença frequente na Imprensa nacional, demos por nós a discutir a diferença que tem existido entre quem se deixa regular pelas novas regras do Acordo Ortográfico e quem insiste em continuar a mover-se no universo da agora chamada antiga ortografia.

 

Também aqui no JN existem alguns textos e crónicas que no seu final advertem os seus leitores de que o autor escreveu segundo essa dita antiga ortografia.Lembro-me que na altura em que o Acordo Ortográfico entrou em vigor também alguém do JN me ligou, muito simpático, a perguntar qual seria a minha opção a partir de então, entre escrever respeitando o novo acordo ou usar da prerrogativa de continuar a escrever como sempre tinha escrito. Recordo-me que na altura a minha posição foi muito simples e por isso a minha decisão muito rápida, mesmo imediata. Perguntei ao meu interlocutor do JN o que é que o jornal, a sua Administração ou os seus directores tinham decidido fazer e tendo-me sido respondido que o jornal iria naturalmente seguir o acordo aprovado, eu limitei-me a dizer que então a minha crónica deveria alinhar, também naturalmente, com esta decisão. Nessa altura não me senti minimamente “violentado” com a questão, como não me senti de forma alguma pressionado para alinhar com a decisão geral editorial. Mas também não me senti impelido a deixar de fazer, pensar ou escrever diferente do que sempre tinha feito e aprendido ao longo da minha formação escolar.

Nesta conversa que referi acima com o tal escritor meu amigo (por sinal lisboeta) chegamos a uma conclusão que nos parece que ainda torna este caso mais límpido, a questão da advertência da conformidade ou não com o Acordo Ortográfico menos relevante e a prática que tem sido seguida até um bocadinho ridícula. Ora vamos lá ver. Uma coisa é escrever e outra, diferente, é publicar. Na minha relação com o JN, eu limito-me a escrever como acontecerá nas relações similares entre os outros cronistas e os órgãos de Comunicação Social para onde escrevem. Há uma divisão clara de tarefas: esta crónica, como as anteriores e as próximas, sou eu que as escrevo e o JN que as publica. Nunca se deu o caso, e tenho a certeza que nunca se dará no futuro, de que seja o jornal a escrever e eu a publicar. Assim sendo, aquilo que eu sempre fiz e continuo a fazer é escrever segundo a agora antiga ortografia, mas que para mim é a minha ortografia de sempre. O que o jornal faz é, recebido o meu artigo, a conversão para a nova ortografia de acordo com a decisão que tomou de respeitar o Acordo Ortográfico, publicando-a depois nesses termos. Isto quer dizer que faz pouco sentido para mim esta frase que vejo algures dizendo que o cronista escreve segundo a antiga ortografia, que é o que eu também sempre faço. Eventualmente, embora isso me pareça de certa forma desnecessário, haveria que acautelar os leitores, lembrando que o referido texto não é publicado de acordo com as novas regras porque o autor assim prefere.

Resta-me acrescentar que percebendo eu perfeitamente que os autores, como eu, gostem de escrever segundo a ortografia que aprenderam, já me custa muito mais perceber que insistam em que a publicação seja feita nesses mesmos termos, sendo que até podem estar a cometer um erro na comunicação com leitores mais jovens, para quem a nova ortografia é também para eles a ortografia de sempre.*Empresário

[Transcrição integral de “Uma conversa acordada”, “JN”, 30.01.19. Na transcrição da prosa foi feita, nos exactos termos indicados pelo autor, a conversão para a ortografia portuguesa de acordo com a decisão que o autor da transcrição tomou de não respeitar o Acordo Ortográfico, publicando-a depois nesses termos.]

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Escrita Escrivá

«Acreditando que esta luta contra a imposição do poder económico poderá redefinir-nos como povo digno desse nome e poderá ser, eventualmente, a pedra-de-toque que desencadeará uma nova consciência do nosso lugar do mundo e das nossas responsabilidades – porque um povo pode mais do que julgam vendilhões do que não lhes pertence -, deposito nas mãos, na consciência e nas palavras de Vossa Eminência Reverendíssima este resquício de Nação que se leva da palavra primeira até à hora da partida nas derradeiras palavras ditas: por amor da Palavra escrita, em nome de todos os que falaram em púlpitos, fale agora a Igreja e antes que seja tarde, em nome do Padre António Vieira, homem íntegro, que nunca desistiu, salve a nossa alma, a nossa única matriz, a nossa Lingua mater!»

«Considerando que este assunto fica em boas mãos, agradeço desde já toda a atenção dispensada.»

«Queira Vossa Eminência Reverendíssima aceitar os meus mais respeitosos cumprimentos.»

“Deus vos perdoe”, Fevereiro de 2011

 

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2019/1/24/apertura-gmg-panama.html

recorte de página do “site” do Vaticano em bras… “português”

Jornada Mundial da Juventude em Portugal: Marcelo celebra “vitória da língua portuguesa”

Igreja Católica escolheu Portugal para a realização da Jornada Mundial da Juventude de 2022. O Papa Francisco deverá deslocar-se a Lisboa para aquele que é o maior evento juvenil católico do mundo.

PÚBLICO, 27 de Janeiro de 2019

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este domingo que a decisão da Igreja Católica de escolher Lisboa como palco da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2022 é uma “vitória de Portugal”, da “língua portuguesa e da lusofonia”. As declarações foram prestadas na Cidade do Panamá à Agência Ecclesia e à Rádio Renascença, logo após o anúncio da decisão, feito no Panamá.

O Papa Francisco deverá deslocar-se a Portugal para aquele que é o maior evento juvenil católico do mundo. “Estou muito feliz, estamos muito felizes. Valeu a pena! Lá estaremos em 2022”, disse Marcelo. “Esperávamos, desejávamos, conseguimos”, acrescentou.

O chefe de Estado acrescentou que a realização do evento é uma “vitória de Portugal, do povo católico português, vitória da Igreja Católica, vitória também do episcopado”.

Marcelo disse ainda que a situação geográfica de Portugal como “melhor plataforma giratória para todos os continentes e sobretudo para a África”, possibilitando a participação de “muitos peregrinos, muitos jovens”, foi “um argumento decisivo” para o Vaticano.

O Presidente da República encontra-se desde sexta-feira no Panamá, onde terminou este domingo a edição de 2019 daquele que é o maior evento católico juvenil do mundo.

Concretização de um sonho de “há muito tempo”

Por seu turno, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, considerou que a realização da JMJ de 2022 em Lisboa é uma “excelente notícia” e a concretização de um sonho da Igreja Católica em Portugal de “há muito tempo”.

“As nossas 20 dioceses há muito tempo têm este sonho de ver uma Jornada Mundial da Juventude em Portugal”, disse à Agência Ecclesia e à Rádio Renascença.

O cardeal-patriarca convidou “jovens de todo o mundo” a participarem na JMJ de 2022, especialmente aqueles estão ligados a “Igrejas africanas de expressão portuguesa”.

Costa promete todo o apoio para garantir sucesso das JMJ

O primeiro-ministro português, António Costa, garantiu neste domingo que o Governo dará “todo o apoio” para garantir o sucesso da JMJ em Lisboa, que classificou como “evento extraordinário”.

“Conforme oportunamente transmitido ao Presidente da Câmara de Lisboa e ao Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente, o Governo assegura todo o apoio que seja necessário para garantir o sucesso deste evento extraordinário para crentes e não crentes”, sublinhou o chefe do executivo numa mensagem colocada na sua conta oficial no Twitter.

António Costa colocou outra mensagem no Twitter para felicitar o trabalho do Patriarcado de Lisboa em colaboração com a Câmara de Lisboa para trazer para a capital portuguesa as JMJ em 2022: “Felicito o Patriarcado de Lisboa pelo excelente trabalho desenvolvido em estreita colaboração com o Município de Lisboa para que Portugal acolha em 2022 as Jornadas Mundiais da Juventude, expressando ao Pontífice a nossa gratidão pela Sua escolha”, assinala ainda o primeiro-ministro.

Governo considera “uma notícia extraordinária”

O Governo português considerou uma “notícia extraordinária” Lisboa receber a próxima edição das Jornadas Mundiais da Juventude, admitindo que o país nunca recebeu um evento desta dimensão.

“Estamos a falar do maior evento de juventude que há no mundo, eu não sei mesmo se alguma vez em Portugal recebemos algo parecido com isto e, portanto, é uma notícia extraordinária”, afirmou à agência Lusa o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, na Cidade do Panamá, onde se deslocou em representação do executivo.

“É de uma alegria absolutamente extraordinária para o nosso país, evidentemente para a Diocese de Lisboa, para a Câmara Municipal de Lisboa, mas claro também para o país, que vê assim reconhecida, mais uma vez, a grande capacidade organizativa que o país tem”, declarou o governante.

Questionado se o Governo está empenhado na concretização das Jornadas Mundiais da Juventude, o secretário de Estado respondeu: “Com certeza que sim. Não será este Governo, será o próximo governo que estiver em funções, mas é, desde já, obviamente, um compromisso de Portugal, mais do que qualquer governo”.

[PÚBLICO, 27 de Janeiro de 2019. Os “links” a verde são meus.]

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