Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

FAQ AO90 — 1

1. O que é o “acordo ortográfico” de 1990?

Segundo alegam os que o inventaram, seria uma forma de “unificar” a Língua Portuguesa fundindo as duas variantes numa só — uma espécie de “Português universal”. Redonda mentira. O AO90, que ninguém pediu e que não serve para nada, é uma manobra política, com intuitos não apenas políticos mas também economicistas, impingida sob aparente cobertura técnica de “linguistas”, que consiste basicamente em impor a ortografia brasileira a todos os países da CPLP (outra invenção neo-imperialista brasileira).

2. Como surgiu o “acordo ortográfico” de 1990?

Surgiu do nada, sem qualquer necessidade ou justificação: nunca alguém pôs em causa a coexistência — até então pacífica — das duas variantes do Português. O “acordo ortográfico” foi assinado em 1990 mas já tinha havido tentativas de aniquilação da norma-padrão em 1975 e, de forma especialmente descarada, em 1986. Esta segunda versão de ensaio funcionou como chantagem: fingindo os “arquitetos” da fraude ceder em alguma coisa, pela eliminação de uma ou outra imbecilidade mais evidente ou escandalosa desse texto de 1986, criaram as condições para que, quatro anos depois, o AO90 parecesse um “mal menor”.

3. Porque foi feito o “acordo ortográfico” de 1990?

Para impor a “norma ortográfica” brasileira a Portugal e a todos os demais países (ex-colónias portuguesas) de Língua oficial portuguesa que sempre seguiram a norma-padrão.  Esta imposição, de indisfarçável cariz neo-colonialista, foi inventada por motivos políticos com finalidades políticas e para facilitar as ambições brasileiras, servindo-se de uma “justificação” tão absurda quanto estúpida: o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e é um país-continente, uma  “potência” mundial (de segunda ordem mas isso não interessa), portanto há que “dar a primazia ao Brasil“.

4. Quem foram os autores morais do “acordo ortográfico” de 1990?

O AO90 é uma invenção cuja autoria moral é geralmente atribuída, entre outros, aos brasileiros Antônio Houaiss e Evanildo Bechara e aos portugueses Malaca Casteleiro e Luís Filipe Lindley Cintra. Estes foram assessorados na elaboração e difusão daquela aberração por mais uns quantos linguistas escolhidos a dedo pelos dois cabecilhas e pelo patronato político (e financeiro) destes. Concebido e posteriormente promovido por académicos (e técnicos) pagos pelo erário público, todo o processo deverá ter tido — embora disto não existam provas materiais, evidentemente, já que tal seria facilmente desmascarável — a inerente supervisão política por parte de agentes dos mandantes.

5. Como, quando, onde e por quem foi feito o “acordo ortográfico” de 1990?

A parte do “como” é um mistério insondável. Ninguém faz a mais pequena ideia de “como” foi esgalhada semelhante porcaria. O poviléu, por regra, não tem nada que meter o bedelho nestas coisas das “grandes esferas” em que gravitam, quais querubins luminosos, uns tipos com asinhas nas costas que sabem o que é que convém às massas ignaras.

Segundo a versão oficial, o AO90 foi elaborado em apenas 6 dias, entre 6 e 12 de Outubro de 1990, na Academia das Ciências de Lisboa, pelos representantes de

  • Angola: Filipe Silvino de Pina Zau
  • Brasil: Antônio Houaiss e Nélida Piñon
  • Cabo Verde: Gabriel Moacyr Rodrigues e Manuel Veiga
  • Guiné-Bissau: António Soares Lopes Júnior e João Wilson Barbosa
  • Moçambique: João Pontífice e Maria Eugénia Cruz
  • Portugal: Américo da Costa Ramalho, Aníbal Pinto de Castro, Fernando Cristóvão, Fernando Roldão Dias Agudo, João Malaca Casteleiro, José Tiago de Oliveira, Luís Filipe Lindley Cintra, Manuel Jacinto Nunes, Maria Helena da Rocha Pereira e Vasconcelos Marques
  • São Tomé e Príncipe: Albertino dos Santos Bragança e João Hermínio Pontífice

Todos os países enviaram dois representantes, Portugal avançou com dez. Esta ridícula e pacóvia discrepância explica-se pela ânsia de fingir que era Portugal quem liderava o processo. Quando, é claro, nada disso, o golpe era brasileiro com a cobertura de mercenários nascidos em Portugal.

6. Quando, onde e por quem foi assinado o “acordo ortográfico” de 1990?

  • Pela República Popular de Angola: José Mateus de Adelino Peixoto, Secretário de Estado da Cultura.
  • Pela República Federativa do Brasil: Carlos Alberto Gomes Chiarelli, Ministro da Educação.
  •  Pela República de Cabo Verde: David Hopffer Almada, Ministro da Informação, Cultura e Desportos.
  • Pela República da Guiné-Bissau: Alexandre Brito Ribeiro Furtado, Secretário de Estado da Cultura.
  • Pela República de Moçambique: Luís Bernardo Honwana, Ministro da Cultura.
  • Pela República Democrática de São Tomé e Príncipe: Lígia Silva Graça do Espírito Santo Costa, Ministra da Educação e Cultura.

Santana Lopes, o mandarete de Cavaco Silva, desdobrou-se na altura em contactos e em viagens ao Brasil para tornar mais “expedito” o processo de extermínio do Português-padrão. O facto de a assinatura do AO90 “em nome de Portugal” ter ocorrido em Lisboa foi uma simples formalidade aborrecida (presumo), dada a conhecida apetência daquele “dandy” e “sportsman” por ambientes e climas mais solarengos do que, como foi o infeliz caso, o de Lisboa a tiritar em Dezembro.

imagem: Free images by pngtree.com

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Inactivismo (2)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

Como já vimos, não custa nada pular de “causa” em “causa”, como um elefante saltitando elegantemente de nenúfar em nenúfar, e ainda menos custa fabricar desculpas em série, como se fossem pipocas a sair quentinhas daquelas máquinas dos arraiais, para fazer montes de absolutamente nada.

No entanto, a preguiça, o laxismo, o fascínio pela bandalheira, o culto da inactividade, tudo isso por junto não se aproxima sequer, em termos de inactivismo “gourmet”, do que, à míngua de melhor designação, poderíamos chamar “ó bálhamedeus, vossemecês não se ralem com isso, carago”. Refiro-me, com tão informal quanto pouco científica expressão, àquele extraordinário pessoal, tuga até à medula, que debita sistematicamente esta sentença lapidar: «façam como eu, não sigam o AO90 e pronto.»

Até se me eriçam os pêlos da língua, caramba! Por vezes, quando tal oiço ou leio, chego a puxar a culatra atrás, isto é, recua-se-me a mão como se de repente ganhasse vida própria, e, em suma, ficamos ambos, eu e a minha mão, prontíssimos para esbofetear alguém: trau!

Tirando os acordistas propriamente ditos, é esta gente do partido NSAP (Não Sigam o AO90 e Pronto) que mais me tira do sério.

Partido esse cujos militantes (e simpatizantes), extremamente imaginativos, possuem um imenso arsenal de três variantes da sua imbecil ideia programática única:

  • Ah, e tal, eu cá vou continuar a escrever como aprendi e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá levei muitas réguadas na escola para aprender a escrever, não é agora que vou mudar e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá não escrevo segundo as novas regras nem que me obriguem e pronto.

“E pronto”? Aiaiaiaiaiaiaiai. Caraças, só de enumerar estas enormidades já me está a apetecer trocar a chapada na cara pelo o pontapé no cu.

Mas, ó santinhas, ó santinhos, para que raio serve isso, hem? Porventura andará por aí o Malaca, omnipresente e munido de um taco de basebol para castigar os renitentes, pegando na mãozinha das pessoas, uma a uma, e obrigando-as a escrever em acordês? Quem, em seu perfeito juízo, desata de repente a escrever em acordês “só porque sim”?

Claro que todos esses tugas referem-se à sua escrita particular, no Fakebook, nas suas mensagens de email, em listas de compras e em recados para a mulher-a-dias, por exemplo. Experimentem lá “ignorar o AO90” se forem funcionários públicos, nas vossas papeladas, no vosso trabalho. A ver se vosso chefinho, qual bófia da escrita Malaquenha, não vos mete logo um processozinho disciplinar em cima…

E, de resto, nem a profunda estupidez dos NSAP explica o facto de não poderem — nem eles nem ninguém — “ignorar o AO90”, não na escrita mas na leitura; nas legendas dos filmes, nos letreiros e placas toponímicas ou de trânsito, nos livros (bem, essa gente não lê livros), nos jornais (bem, essa gente não lê jornais, o Correio da Manhã ou a A Bola não contam), nas “faturas”, na publicidade, em qualquer página da Internet, na Wikipédia brasileirófona ou seja onde for que tenha uma bandeira brasileira para identificar o interface “português”.

Ignoremos os traidores, os vendidos e os imbecis que fazem objectivamente o jogo do inimigo. Desses não rezará jamais a História e deles não restará qualquer memória.

Os desistentes, os conformados, os indiferentes e os apáticos não são piores do que os inactivistas. Cada qual a seu modo, os índios de todas essas tribos não passam de pequenas armas de destruição maciça com pernas. Em comum têm o facto de não fazerem nem deixarem fazer nada.

Lá dizia o General romano Galba (século III a. C.), horrorizado com o que viu na Lusitânia, cheio de vontade de regressar à sua abençoada Roma natal e ir de imediato a banhos: «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»

Não se governa nem se deixa governar assim como não faz nem deixa fazer, não luta nem deixa lutar, não quer saber nem deixa que alguém queira (ou que alguém saiba). Quem lhes tira o abençoado remanso da inactividade militante tira-lhes tudo.

É assim o inactivismo, como já vimos e como continuamos a ver, este tuguismo, este nacional porreirismo, a mediocridade. a apatia, a indiferença, o empurrar com a barriga qualquer problema. Ou, como há quase cinco séculos muito certeiramente agoirou  Camões, é esta “a austera, apagada e vil tristeza” (Os Lusíadas, X, 145) em que estamos atolados.

Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.

Porque, no fim de contas, é dos livros, e se não for no fim de contas há-de ser logo que possível, apenas uma de duas coisas pode acontecer.

Para os activistas a vitória, ainda que no fim percam a luta.

Para os inactivistas a derrota, seja qual for o resultado final.

Victory Has A Thousand Fathers But Defeat Is An Orpahn

Imagem de topo: recorte de foto publicada na página Portugato (Facebook)

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Inactivismo (1)

O inactivismo não é o inverso, oposto ou antónimo de “activismo” — tendo este, aliás, uma conotação política (geralmente de cariz esquerdista) que não é para aqui chamada.

O inactivismo engloba o próprio conceito de “activismo”, na acepção que nos interessa, enquanto inactividade militante ou, levando a ideia ao extremo, quando o activismo resulta em prejuízo grave, em desastre para a Causa — cívica, apartidária — que paradoxalmente deveria ser defendida e não atacada, como é evidente.

O inactivismo é bem mais fácil de entender do que de explicar — até porque os absurdos são por definição axiomas, ou seja, apenas constatáveis mas não comprováveis — e por conseguinte será talvez mais fácil ilustrar o conceito com um exemplo concreto.

Não deve existir um único português com mais de 30 anos que não se recorde da campanha por Timor (“Ai, Timor”, ai, ai). Desses voluntariosos militantes da “causa timorense”, a maioria terá com certeza participado nas “manifs”, nas “marchas”, nas “cadeias humanas”, nos “velórios” de “solidariedade” que se realizaram — em massa e em catadupa — por todo o lado, ao longo da década de 90 e em especial logo a seguir ao referendo de Agosto de 1999.

Houve disso e houve também imenso inactivismo. Esta entrevista ilustra perfeitamente o neologismo que, não por acaso, é um velho preceito.

Francisco Godinho lamenta porém o facto dessa iniciativa ter “descambado logo ao fim de dois ou três meses”, degenerando na melhor das hipóteses na adopção de outras causas pelos subscritores que “não eram capazes de actualizar um website, enfim… de fazer um mínimo de trabalho”.

“Isto acontece no mundo real. E na Internet ainda é mais fácil ignorar os apelos porque as pessoas não se confrontam”, desabafa Francisco Godinho. Uma das mailing-lists de Timor (eram duas), recebeu 200 a 300 adesões no primeiro dia, atingindo 400 a 500 adesões num mês.

“Ao fim do segundo mês tornou a descer drasticamente para 200 subscritores”, conclui Godinho. “Quando verifiquei esses 200 subscritores (interrompi a mailing-lists para ver quantas reclamações me chegavam), das 200 pessoas inscritas restavam cerca de 80, os outros 120 eram contas de email já inactivas”.

Para Francisco Godinho o activismo online requer “pessoas com algum espírito de voluntariado”. Não basta encontrar pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” e “vão a todas”.

“Não é difícil construir um site e colocá-lo online. Difícil é a parte que diz respeito à actualização e à sua dinamização”, confirma Ricardo Silva que, pela diversidade das iniciativas apresentadas através do Guia serem muito diversas, considera que “o Guia do Activismo era tipo um SAPO para a área do activismo online”.

“Lançar uma iniciativa é como lançar um produto no mercado. É necessário vendê-lo, contactar a Comunicação Social e – ao contrário do que muitas pessoas pensam – dar a cara, mesmo na Internet. Face aos Hoaxes (logros), por exemplo, é cada vez mais necessário passar uma imagem de credibilidade da iniciativa e dos próprios organizadores, uma vez que as pessoas andam muito desconfiadas dos emails ‘apelativos’ que surgem nas suas caixas de correio electrónico”

[Publicado em tek.sapo.pt, no dia 28.01.01. Autoria “Casa dos Bits”. Cópia autorizada; ver correspondência de Fevereiro 2002.]
[Sítio de Timor]

Um verdadeiro manifesto do inactivismo, convenhamos. Não está lá tudo, mas está lá muita coisa: a imediata “adopção de outras causas” quando aos “activistas” a coisa começa a cheirar que vai dar trabalho (mesmo que seja mínimo), as “adesões virtuais” em catadupa no início e a conta-gotas daí em diante, pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” (génios com ideias geniais) e aquelas que “vão a todas” às 2.ªs, 4.ªs e 6.ªs mas não vão a nenhumas às 3.ªs, 5.ªs e sábados, nem nos dias de folga, de férias, de baixa, de “licença”, de “ponte” e de “assuntos inadiáveis”.

É claro que, pelo menos para os activistas em série e para os consumidores de causas em geral, nenhuma bela teoria poderá alguma vez ser demolida pela (porcaria da) realidade, essa enorme maçada por regra inconveniente à narrativa oficial. Se a dita realidade não agrada ou, de forma genérica, não encaixa na “narrativa” correspondente, então mude-se de imediato a realidade porque a narrativa é intocável, inamovível, inalterável, imutável!

Salvas as devidas distâncias, pode estabelecer-se um mais do que evidente paralelo, em termos de inactivismo, entre o que se passou de 1992 a 2002, no caso de Timor, e aquilo que tem sucedido desde 2008 no que à luta contra o AO90 diz respeito. De facto, nota-se perfeitamente, o chamado “português médio” tem imenso jeito para, numa palavra (ou duas, vá), não fazer nenhum.

Nunca há tempo para nada. A não ser para dar palpites, bem entendido, travestindo estes, por regra, em ideias “geniais” que nunca tinham ocorrido a mais ninguém (como “lançar uma petição ou, espera, um referendo, eia, um referendo é que era, hem, sou ou não sou um craque das causas, hem”). Ah, sim, claro, para palpites e “ideias geniais” há todo o tempo do mundo. Para fazer alguma coisinha é que não, raios, tenho ali uma panela ao lume e depois vou levar a sogra à calista, num pode ser, que tenho um bídeo p’ra ber, não me dá jeito, que tenho uma dor no peito, isso não posso, que tenho reumático neste osso, agora não, que tenho de ir dar banho ao cão.

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Língua Portuguesa: 11% dos moçambicanos

O português continua uma língua alheia para 89% de moçambicanos, particularmente crianças que estudam pela primeira vez

 

Escrito por Emildo Sambo  em 12 Abril 2018
“A Verdade” (Moçambique), 12.04.18

 

Pelo menos 89,2% de moçambicanos, mormente as crianças que frequentam a 1a. classe, não usam a língua portuguesa, o que faz com que aprender a ler, a escrever e a fazer cálculos nesta língua seja penoso. Diante deste facto, a ministra da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH), Conceita Sortane, alertou, na quarta-feira (11), em Maputo, que “se continuarmos a excluir a língua materna” deste grupo da sala de aulas o seu insucesso estará pré-determinado. Não poderá, igualmente, ter acesso a vários serviços tais como de saúde e justiça.

Dos 15.670.424 moçambicanos de 5 ou mais anos de idade, recenseados em 2007, a língua portuguesa é falada por 50,4%. Mas destes, “apenas 10.8% tem a língua portuguesa como língua materna”.

Aliás, o português, que nos termos da Constituição da República “é a língua oficial”, é um idioma de mobilidade social, de prestígio e predominantemente urbano num país onde a maioria da população vive na zona rural, disse Conceita Sortane, na abertura do Fórum Nacional sobre Educação Bilingue.

O evento, que decorre sob o lema “Por uma Educação Inclusiva, Competitiva e de Qualidade”, tem como objectivo partilhar a experiência do MINEDH na implementação do ensino bilingue, reflectir sobre a importância do reconhecimento do multilinguismo e o uso de vários recursos linguísticos de que o país dispõe, na construção de uma sociedade inclusiva e de oportunidades iguais para todos.

Segundo a governante, um olhar atento às estatísticas por ela apresentadas “permite perceber claramente o quanto os nossos concidadãos não podem usufruir dos serviços de saúde, de justiça, de oportunidades de emprego, de acesso à informação”.

As limitações não esgotam aí. Os compatriotas que não sabem se expressar e/ou comunicar em “língua de Camões” não podem beneficiar de ascensão social e até da participação política, porque não conseguem permanecer no sistema educativo.Tudo isso “por causa de não saberem a língua portuguesa”, uma situação que chama atenção para o quão a questão da educação bilingue é importante e actual na construção da identidade moçambicana e na modernização do sistema educativo de modo a torná-lo relevante e alinhado com a nossa realidade moçambicana, disse a ministra, sublinhando que é uma realidade que não pode e nem deve ser continuamente ignorada sob o risco de se hipotecar o futuro do país.

“A nossa condição de país multilingue e multicultural desafia-nos a sermos criativos e proactivos na gestão do nosso sistema educativo que queremos inclusivo, equitativo e de qualidade para todos sem discriminação”.

Neste contexto, a educação bilingue em Moçambique tem vindo a progredir desde 2003, pese embora as dificuldades enfrentadas, algumas das quais relacionadas com a falta de material didáctico.

“O número de escolas e de alunos tem evoluído de 23 escolas e 700 alunos, em 2003, para 1.620 alunos, em 2004 e 69.863, em 2011. Em 2016, o Programa de Educação Bilingue já contava com 700 escolas e cerca de 100.000 alunos”, explicou a ministra e actualizou o número de instruendos e estabelecimentos de ensino, tendo em 2017 atingido 3.550 escolas primárias e um universo de quase dois milhões de alunos.

[Transcrição integral de: O português continua uma língua alheia para 89% de moçambicanos, particularmente crianças que estudam pela primeira vez. Jornal “A Verdade” (Moçambique), 12.04.18 Imagem de topo de: DW (© Jessica Scheweleit).]

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Data venia

Eis um artigo de opinião que, com a devida vénia, me atrevo a comentar, com o devido respeito, na minha simples, modesta e conhecida qualidade de leigo na matéria (jurídica), isto é, enquanto simples sapateiro, sem o devido chinelo.

Há ali várias questões (digamos assim) que me encanitam, salvo seja, mas por economia de esforço puxarei de minhas modestas ferramentas mentais (goiva, furador, sovela e martelo, como compete) para ao menos tentar atamancar apenas duas das encanitantes questões.

  1. A RCM 8/2011: afinal o AO90 está ou não está em vigor?

Diz o autor do artigo: «(…) há, de facto, um sem número de estudos válidos, em artigos de jornais e revistas, conversas televisadas, e até livros de Direito, incluindo um meu, intitulado O Acordo Ortográfico de 1990 não Está em Vigor, (…), todos provando a inconstitucionalidade da RCM 8/2011 e, como consequência, a sua ineficácia jurídica.»

E mais adiante: «Na verdade, será que o senhor ministro tem mesmo a certeza de que o AO/90 está em vigor?!. De facto, a não ser o seu fabricante ? o doutor Malaca Casteleiro ?, ninguém ainda se atreveu a declarar, peremptoriamente, tal vigência legal, antes o contrário (…).»

Ora então vejamos o que diz sobre isto mesmo a tal RCM 8/2011: «O Acordo do Segundo Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008 (…), determinou uma nova forma de entrada em vigor do Acordo Ortográfico com o depósito do terceiro instrumento de ratificação. Assim, (…), o Acordo Ortográfico já se encontra em vigor na ordem jurídica interna desde 13 de Maio de 2009.»

A palavra a vermelho (“assim”) é a chave ou, melhor dizendo, é a palavra-chave para abrir o ficheiro do entendimento.

Todos sabemos que aquela RCM 8/2011 não passa de uma aldrabice pegada, pois com certeza, mas essa aldrabice jamais teria sido possível caso os deputados da Nação não estivessem a dormir (ferrados) quando aprovaram a RAR 35/2008 — a mãe de todas as aldrabices.

Portanto, sem RAR 35/2008 não poderia haver RCM 8/2011. Logo, revogar a RCM 8/2011 (como alguns andam por aí a badalar, todos contentes com suas finíssimas espertezas) seria rigorosamente igual ao litro porque, por via da RAR 35/2008, “o Acordo Ortográfico já se encontra em vigor na ordem jurídica interna desde 13 de Maio de 2009“.

O que significa que se, por mera hipótese académica, os que andam por aí a badalar finos e espertíssimos contentamentos conseguissem a anulação da Resolução do Parlamento… o AO90 continuaria em vigor à mesma!

Caso tal académica hipótese vingasse, por alguma absurda conjugação astral, isso teria um inegável significado político, de facto, mas não resolveria de forma alguma o problema. Apenas o adiaria. Por mais 10 anos? 20? 50? Ou para todo o sempre?

Pior ainda: esta propalada “solução” que afinal não resolve coisa alguma iria criar (como aliás tem criado) na opinião pública um efeito de desmobilização total. Pois claro, se “como eles dizem” (e até são autoridades na matéria, ui, verdadeiras sumidades), basta liquidar a RCM 8/2011 para acabar com o AO90, então para que raio há-de a gente continuar a ralar-se com o assunto?

2. Será José Sócrates o único culpado no “caso AO90”?

Quanto a este particular, despacha o autor do artigo o seguinte: «(…) saber se deve escrever-se em português ou nessa mixórdia linguística a que já se está dando a designação de acordês ou socratês, imposta, violenta e inconstitucionalmente, por José Sócrates, a todos os Portugueses, como ortografia obrigatória, por mera resolução do seu Conselho de Ministros (a RCM 8/2011, de 25 de Janeiro); (…).»

Também isto faz parte da narrativa habitual dos que se atiram ao acessório desprezando o essencial.

A verdade, como aliás toda a gente sabe perfeitamente, é que José Sócrates não foi o único político responsável pela entrada em vigor do AO90 em Portugal e, de resto, não teve absolutamente nada a ver com a feitura do “acordo” propriamente dito. Simplesmente, neste caso, convém — porque encaixa perfeitamente na tal narrativa — isolar um único culpado para estabelecer uma relação de causa e efeito aparentemente óbvia: se “basta acabar com a RCM 8/2011 para liquidar o AO90”, então “cacemos” o tipo que em 2011 mandava cá na chafarica. E pronto, é ele o culpado, o único culpado, mate-se, esfole-se e depois interrogue-se o tipo.

Ora, Sócrates é um dos culpados pelo “Estado a que isto chegou”, em termos de património linguístico, mas tem tantas culpas no cartório (neste particular, bem entendido) como Cavaco Silva e Santana Lopes. Sócrates esgalhou a RCM 8/2011, é verdade, e foi sob a sua alçada que o AO90 entrou em vigor, também é verdade, mas Cavaco é que foi o “pai da criança”, digamos assim: foi ele, na época em que foi Primeiro-Ministro, quem literalmente inventou o AO90. E depois despachou o seu mandarete favorito, Santana, para o Brasil, com a incumbência única de assinar aquela porcaria abjecta “em nome de Portugal”. Mais tarde, quando se alçou à Presidência (2006-2016), o mesmo Cavaco conviveu alegremente — apenas no que ao camartelo diz respeito — com o seu Primeiro Ministro Sócrates (2005-2011) durante cinco anos; inimigos de estimação, ao que consta, mas em perfeita, evidente sintonia acordista.

Se Cavaco (O Esfíngico), Santana (O Bacano) e Sócrates (O José) foram indubitavelmente os principais verdugos da Língua Portuguesa, o primeiro como mandante, o segundo como mandado, o terceiro como executor, há ainda outros políticos aos quais podem e devem ser assacadas responsabilidades históricas pesadíssimas.

E essas responsabilidades assacáveis a outros nada têm a ver com a RCM 8/2011, que foi uma consequência e não a causa, resultam do facto de os tais outros políticos terem dado seguimento (e aprovação), sem pestanejar, à inacreditável vigarice perpetrada entre 2004 e 2006: em 2004 foi assinado o II Protocolo Modificativo, que o Brasil assinou de imediato, em 2005 Cabo Verde subscreveu-o também e em 2006 S. Tomé e Príncipe fez o mesmo. Pronto, ficou assim, já com O José como Primeiro-Ministro e O Esfíngico na Presidência, consumada a mentira de Estado: com a aprovação do Protocolo por três membros, o AO90 entrava automaticamente em vigor em todos os Estados da CPLP.

O José (com o Esfíngico em Belém)  ressuscitou o AO90 das catacumbas onde estava mumificado desde 1992 e depois engendrou, com, entre outros, Lula da Silva (O Doutor), a mais nojenta fraude política alguma vez criada para viabilizar a delapidação sistemática do património cultural, histórico e identitário português. Isto sim, isto é que foi a coisa “imposta, violenta e inconstitucionalmente, por José Sócrates, a todos os Portugueses, como ortografia obrigatória”. Comparar sequer isto com a aprovação da RCM 8/2011 é, no mínimo, ridículo; o II Protocolo é um monstruoso elefante, a RCM é aquilo que apreciam paquidermes: “amendoins”.

Evidentemente, além destes, que são os principais responsáveis — O Esfíngico com O Bacano (ambos PSD) e O José (PS) com O Doutor (PT, que é como se diz “PS” em “brasileiro”) –, poderíamos apontar muitos outros nomes de políticos envolvidos, sempre em maior, nunca em menor grau, na tramóia a que se convencionou chamar “acordo ortográfico”.

Exercício fastidioso em demasia, porém. Bastará referir, por junto, os deputados que aprovaram a RAR 35/2008 — o real fulcro do problema, como não me canso de repetir. Foi esta parlamentar Resolução o corolário de toda a tramóia, a cereja no topo da vigarice, o truque de saída para a mentira de Estado.

Tentar partidarizar a questão, tapando um olho para só ver culpas nos adversários políticos, é não apenas intelectualmente desonesto como sumamente venenoso para esta Causa, que é nacional e não tribal, que é de todos contra alguns e não de alguns contra este ou aquele.

Atirar sistemática e exclusivamente ao alvo errado, não apenas falhando como até ignorando o verdadeiro cerne do imbróglio, confundir o binómio causa e efeito com o efeito que causa um binómio, é — com a devida vénia — apenas mais do mesmo, ou seja, nada.

 

Opinião

O ministro da Cultura e o AO/90

E eu pergunto: o ministro da Cultura é ministro de quê, se o não for da língua?

Carlos Fernandes
“Público”, 08.04.18

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Sempre houve, e continuará a haver, ministros louvados por competentes e, bem ou mal, ministros criticados por incompetentes. Não obstante estas frases vulgares, eu não pretendo nem me atrevo a classificar, ou adjectivar, o actual ministro da Cultura, até porque o conheço mal e não é meu costume fazer juízos à ligeira.

Sempre houve, e continuará a haver, ministros louvados por competentes e, bem ou mal, ministros criticados por incompetentes. Não obstante estas frases vulgares, eu não pretendo nem me atrevo a classificar, ou adjectivar, o actual ministro da Cultura, até porque o conheço mal e não é meu costume fazer juízos à ligeira.

Dito isto, apenas vou comentar as declarações do ministro ao DN, em 10 de Março, e ainda bem que, por estas declarações, me deu a oportunidade de interpelar um membro do Governo quanto à aplicação do AO/90, ou melhor, do que se diz ser o AO/90.

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Activismo

 

 

Podemos e devemos reagir!Em momento algum da minha carreira artística, ou actividade enquanto produtor cultural ao…

Publicado por Luis de Matos em Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

 

Luis de Matos

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Podemos e devemos reagir!
Em momento algum da minha carreira artística, ou actividade enquanto produtor cultural ao longo de 23 anos, tive a alegria e o incentivo de ser financiado pelo Estado Português. Com a minha equipa construímos um teatro e com ela continuamos a levar o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. Na próxima segunda-feira partimos, uma vez mais, para fazer espectáculos em Monte-Carlo, Monaco, Lyon, France, Geneva, Switzerland, Bordeaux, France, Toulouse, France e Budapest, Hungary.
Por estes motivos, não estou sob suspeita quando digo ser absolutamente vergonhoso que continuemos a afastar-nos do famoso 1% do Orçamento para a cultura, de que Portugal se aproximou na passagem do século. É verdade que já vi muito lixo ser financiado. Mas a situação actual é inaceitável.
A destruição da nossa identidade começa com o patético Acordo Ortográfico e atinge hoje limites inacreditáveis com os cortes recentemente anunciados no sector da Cultura.
Não é tarde para tentar reverter o mal fadado Acordo, basta começar por seguir este link: https://ilcao.com
Não é tarde para tentar reverter a tragédia actual, basta começar por seguir este link: http://emdefesadacultura.blogspot.pt

 

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