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Ao menos coerência!

Não há-de ser difícil e muito menos será de alguma forma arriscado, seja qual for a perspectiva: os escritores estão legalmente protegidos por Direitos de Autor, o que significa que a integridade das obras literárias está de facto preservada e consignada. A nenhuma editora assiste o poder de alterar*** — seja de que forma for, a começar pela ortografia utilizada pelo autor — qualquer obra, livro, artigo, notas, comentários ou quaisquer outra formas de expressão escrita.

Por algum motivo que escapa à compreensão dos simples mortais, isto é, do público ao qual a Literatura se dirige e da qual é consumidor, porque adquirente, ou de outra forma leitor, porque destinatário, alguns escritores portugueses (e jornalistas e tradutores) admitem que as suas obras sejam estropiadas pelas editoras; estas, por seu turno, não apenas destroem alegremente a ortografia dos originais como, por requinte de malvadez, obrigam os autores a permitir que os seus escritos sejam previamente triturados pelo AO90. São imensas (e muito mal esgalhadas, como não podia deixar de ser) as desculpas que tais autores balbuciam para justificar a sua cobardia (ou pura estupidez); mesmo dando de barato as tretas e mentiras do costume (ah, e tal, o AO90 agora é lei, as editoras são obrigadas a empregar o “acordo”, o que posso eu fazer, a vida está difícil, e tal e tal), para esses esponjosos autores não há qualquer desculpa e sequer podem alegar coisa alguma em sua defesa. Admitem a cacografia brasileira nas suas publicações porque são feitos de borracha — sejamos polidos na terminologia — e portanto fingem que o problema lhes é indiferente, mera “questão de hábito” e patacoadas assim.

Não é de todo este o caso da escritora Teolinda Gersão, que desde sempre recusa liminarmente, como é seu direito, quaisquer vigarices na ortografia. Militante desde a primeira hora da luta contra o AO90, Teolinda Gersão declara expressamente em todos os seus originais que a edição e impressão de qualquer original seu terá de respeitar a versão integral do original, o que inclui, natural e inerentemente, a respectiva ortografia.

Não há cá “funfum nem gaitinhas”: ou a editora segue as instruções da autora quanto à ortografia ou então a autora mudará de editora (que as há, e bastantes, a recusar também o AO90), e adeus, passem bem.

[Nota: por respeito para com Teolinda Gersão, que além do mais é uma pessoa simpaticíssima, e para o muito improvável caso de tão honorável senhora alguma vez ler isto, devo dizer que — de boa vontade — tentei quase desesperadamente não desatar a insultar os brasileirófilos em geral e os escritores portugueses desse género em particular.]

*** Entretanto, os vigaristas ao serviço do Centrão acordista já alteraram o CDADC

 

Escritora Teolinda Gersão celebra 40 anos de carreira literária com novo livro

“Diário de Notícias” (Madeira), 14.01.21

 

A escritora Teolinda Gersão, a celebrar 40 anos de actividade literária, publica hoje um novo título, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, e reedita “A Mulher que prendeu a Chuva”, de 2007, um dos mais premiados da autora.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” reúne três novelas que se entrecruzam, e a que a escritora admite chamar romance, como afirmou, em declarações à agência Lusa.

“Prefiro considerá-lo um conjunto de três novelas entrelaçadas, sobre personagens históricas, que na vida real coexistiram e tiveram algum tipo de relacionamento”, afirmou Teolinda Gersão, numa entrevista por escrito, à Lusa, na qual sublinha a sua determinação em não seguir o Acordo Ortográfico vigente.

“Poderia chamar romance a este livro”, assegurou. “Obviamente há aspectos ficcionados, imediatamente reconhecíveis, mas todos os factos que refiro no livro são rigorosamente verdadeiros e estão documentados”, sublinhou.

Segundo Teolinda Gersão, “os títulos fornecem as coordenadas ao leitor”, são eles: “Freud pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1938”, “Thomas Mann em Freud em Dezembro de 1930” e “O regresso de Júlia Mann a Paraty”, que dá titulo ao livro.

Quanto a “A Mulher que Prendeu a Chuva e outras histórias”, foi editado em 2007, venceu os prémios Máxima Literatura e Fundação Inês de Castro e vai na 7.ª edição.

A obra [de] 14 contos, que, partindo do quotidiano, se desenvolvem “insensivelmente, a outros mundos – oníricos, fantásticos, terríveis ou absurdos -, que nem por isso deixam de nos pertencer e de ser o lugar onde habitamos”, lê-se na apresentação da obra.

Sobre os 40 anos de vida literária, Teolinda Gersão faz um “balanço positivo e gratificante”.

“Sou agora muito mais lida do que há décadas atrás, os leitores estão familiarizados com a minha escrita. E os primeiros livros que publiquei tornaram-se ainda mais actuais do que na altura em que surgiram”, argumentou.

“Suponho que sou intuitiva, e me arrisco muitas vezes a ter razão antes do tempo”, acrescentou.

Sobre a actual situação pandémica, Teolinda Gersão afirmou que “é, certamente, inspiradora de novas histórias”.

“Todas as situações e épocas precisam de ser contadas, é o que distingue os humanos das outras espécies do planeta. Mas as narrativas necessitam em absoluto de ser verdadeiras. Para isso, a ficção pode ser, paradoxalmente, o melhor dos caminhos. Daí a responsabilidade enorme, e cada vez maior, dos escritores”.

“O mundo está cheio de narrativas falsas, e elas são uma das grandes perversões do mundo doente em que nos encontramos”, acrescentou.

O novo título de Teolinda Gersão, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, é apresentado em ‘live streaming’ no dia 09 de Fevereiro, às 21:30, nas páginas da Porto Editora nas redes sociais Facebook e Youtube, com a participação da autora e da psicanalista Deolinda Santos Costa, numa sessão moderada pelo editor Vasco David.

Teolinda Gersão completa 81 anos no próximo dia 30. Nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, na Alemanha.

Foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, tendo lecionado Literatura Alemã e Literatura Comparada.

Teolinda Gersão recebeu mais de uma dezena dos principais prémios literários, alguns dos quais bisou, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, que recebeu em 2002, com “Histórias de Ver e Andar” e, em 2017, com “Prantos, Amores e Outros Desvarios”.

Também por duas vezes foi distinguida com o Prémio Fernando Namora, atribuído pela Estoril-Sol, em 2001 pela obra “Os Teclados” e, em 2015, com “Passagens”.

O Prémio P.E.N. Clube de Narrativa foi-lhe igualmente atribuído pelas obras “O silêncio”, a sua estreia literária em 1981, e por “O Cavalo de Sol”, em 1990, ambos atribuídos ex-aequo, respectivamente com Eduarda Dionísio, “Histórias, Memórias, Imagens e Mitos duma Geração Curiosa” e Paulo Castilho, “Fora de Horas”.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” sucede ao livro de contos “Atrás da Porta”, publicado em 2019.

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

 

 

Triste comédia

Os neuropsicólogos que estudam a linguagem tentam compreender como utilizamos e combinamos palavras (ou signos, no caso de uma linguagem gestual) para formar frases e transmitir os conceitos elaborados pelo cérebro. Investigam também como compreendemos palavras expressas por outros e de que forma o cérebro as transforma em conceitos. A linguagem surgiu e manteve-se ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação eficaz, sobretudo para conceitos abstractos; auxilia-nos a estruturar o mundo em conceitos e a reduzir a complexidade das estruturas abstractas a fim de apreendê-las: é a propriedade de “compreensão cognitiva”. O termo “chave-de-fendas”, por exemplo, evoca várias representações dessa ferramenta: as descrições visuais da sua aparência e utilização, as condições específicas do seu emprego, a sensação que provoca o seu manuseio ou o movimento da mão quando a utiliza. Da mesma forma, a palavra “democracia” é associada a diversas representações conceptuais. A “economia cognitiva” que a linguagem autoriza ao reagrupar numerosas noções sob um mesmo símbolo permite-nos elaborar conceitos complexos e alcançar níveis de abstracção elevados.

[António Damásio; Hanna Damásio. ‘O cérebro e a linguagem. Viver Mente & Cérebro’.
Scientific American, ano XIII, nº. 143, Dez. 2004]

Assunto recorrente, principalmente em Portugal, a chamada “revisão” do AO90 parece actualmente constituir o tema central no que diz respeito ao “acordo ortográfico” de 1990 (AO90). Puro engano, está bem de ver, se bem que tenhamos de reconhecer os méritos dos métodos de dissimulação que os acordistas conseguiram levar a cabo.

A golpada foi de facto brilhante: em 1986 cozinharam uma primeira versão do “acordo” introduzindo no articulado umas quantas aberrações (ainda mais horripilantes do que aquelas que lhes interessavam) para que a contestação fosse radical e absoluta, como veio evidentemente a suceder. Foi com base nessas hiper-aberrações que surgiram as bacoradas de alguns pretensos acordistas, como as brincadeiras do “cagado de fato na praia”. Toda a gente gozou imenso com o cagado e com o seu fato sem se aperceber de que os acordistas pretendiam na realidade ameaçar o povão com uma versão deliberadamente exagerada contendo o que nem a eles mesmos interessava; tal expediente serviu para que se tornasse mais fácil aparecer posteriormente com uma outra versão, já sem o recheio do “cagado” e do “fato”; assim, satisfeitos com a sua “vitória”, os “indignados” profissionais do costume (e agentes acordistas) regressaram a penates, olha que bom, ganhámos, assim ao menos temos um “acordo”, sim, mas sem “cagados” nem “fatos”. Está claro, tratou-se de uma velha e relha manobra de contra-informação, daquelas que se podem encontrar em qualquer manual de guerrilha propagandística: primeiro ameaça-se com alguma coisa que seja inadmissível e depois saca-se da manga, como se fosse uma concessão aos opositores, a versão final — que sempre foi a única em que os vigaristas estavam interessados. 

Uma ressonância dessa táctica transparece de certa forma neste artigo de Gregório Duvivier, um comediante brasileiro: mesmo tratando-se apenas de alterações respeitantes ao acordo ortográfico de 1945, que o Brasil denunciou unilateralmente 10 anos depois, o comediante deixa de ter qualquer espécie de piada quando se “indigna” com questões de acentuação e de hifenização, os dois únicos itens em que “o Brasil cedeu”. Desses dois aspectos do AO45 que o Brasil não cumpriu então e que apresenta agora no AO90 como sendo “cedências”, aquilo que mais irrita o excelente piadético é a abolição do acento diferencial em pára/para. 

Aliás, o busílis, para os brasileiros que sabem escrever qualquer coisinha, resume-se àqueles dois pormenores (que ocorrem, desde 1945, exclusivamente na escrita brasileira) e à diferenciação entre a forma verbal “pára” e a preposição “para”.

Ora, aqui também vale a mesmíssima táctica (vigarice) utilizada na versão de 1986 do “acordo” e posteriormente na versão “mitigada” de 1990: quando o articulado “final” deste foi aprovado e, posteriormente, quando foi “ratificado” pelos deputados portugueses a soldo (RAR 35/2008), já toda a gente sabia perfeitamente que não iria ser aquela a versão final do estropício e que iria haver posteriormente uma “comissão técnica de revisão” para nela “corrigir os erros mais flagrantes”. De facto, como alegam alguns portugueses, não é só “despiorar” o AO90, é rever as “contradições flagrantes”, as “facultatividades” e, sobretudo, as “duplas grafias”.

Apenas então, quando entrar em funções tal “comissão”, serão “corrigidas” as “aberrações” todas, a do “pára/para” (fica “para/pra”), as tais “facultatividades” e as “duplas grafias” (se no Brasil a consoante é articulada, então em Portugal reentra na escrita). Teremos, por conseguinte, à conta do truque “ok, então nós cedemos”, a “adoção” definitiva — e na íntegra — do brasileiro como língua oficial de Portugal. 

Portanto, os que agora se atiram às “contradições” como gato a bofe terão não apenas de se calar como de, por desfastio, dar palmadinhas nas costas uns aos outros e uma bofetada enorme na coerência. E terão ainda de reconhecer que afinal contribuíram para dar uma enorme, tremenda, fatal machadada na nossa História.

Nossa ruína começou em 2009, quando aprovaram o novo acordo ortográfico

Gregório Duvivier, “Folha de S.Paulo” (Brasil), 12.01.21

País ficou ainda mais confuso a partir do momento em que a gente não sabia nem se era pra ou para onde ir

Historiadores do futuro divergirão sobre a hora em que tudo começou a dar errado aqui. Haverá quem culpe o golpeachment de 2016. Outros citarão o fatídico 7 a 1 na Copa de 2014. Arqueólogos atribuirão às manifestações de 2013 o papel de invasões bárbaras — a culpa, dirão, é do gigante que acordou, quebrou tudo e voltou a dormir.

Tenho uma hipótese que gostaria que paleontólogos do futuro aventassem ao se deparar com nossos fósseis. Nossa ruína começou antes, mais precisamente em 2009, quando aprovaram o novo acordo ortográfico —que, além de não ser novo, não gerou nenhum acordo.

Nesse mesmo ano Portugal entrou numa crise da qual nunca se recuperou. No Brasil, a crise chegou com alguns anos de atraso, como de hábito.

Não se derruba tantos acentos numa língua sem que se derrubem algumas instituições junto. O falante do português ficou na sua própria língua como num ônibus lotado: sem assento. Nem hífen, o cinto de segurança da língua.

A palavra “co-comandante” passou a ser grafada “cocomandante”. Percebam os impactos subliminares de se falar uma língua na qual o cocô é o mandante. Apenas isso explica o fato de termos eleito um tolete de bosta pra pilotar o país.

O Brasil nunca soube pra onde ir, mas ficou ainda mais confuso a partir do momento em que a gente não sabia nem se era “pra” ou “para” onde ir.

A reforma ortográfica derrubou o acento de pára, no sentido de parar, e agora no português “para” significa duas coisas opostas: para onde se vai, e o ato de deixar de ir. O lema “progresso para sempre” diz o contrário do que ele quer dizer.

Dito isso, chego ao real motivo dessa crônica: precisamos parar de escrever “para” com o sentido de “pra”. Com a queda do acento no verbo parar, o acordo nos obriga a escrever “pra” quando usamos a preposição, pra diferenciá-la do verbo. A vogal da primeira sílaba da preposição não deixará saudades.

Ninguém a pronunciava, em nenhuma variante do português — não conheço ninguém que peça: “vamos pAra casa!”, a não ser numa dublagem da sessão da tarde.

Eu me lembro do amigo cronista Fabrício Corsaletti, ao fim de uma noitada sem fim, pedindo aos amigos: “se eu morrer, é pra! É pra!”.

“É pra que?”

“É pra! Não deixa nenhum editor trocar meus ‘pras’ por ‘paras’! Promete?”

Dito isso, peço encarecidamente aos revisores, e editores, e professores desse país: é pra! É pra! Deixem os “pras” em paz. O para precisa parar. Quem sabe assim o país volta a andar.

 

«As raízes passeiam na escuridão» [por Diogo Vaz Pinto, jornal “Sol”]

É raro poder ler alguma coisa de jeito. De mais a mais quando essa coisa e esse jeito denotam uma total ausência de caganças, ou seja, sendo um texto escorreito que não arma aos cucos, simplesmente, ou, mais complicadamente, se demostra à saciedade que certa sociedade (“tipo” académica) não passa de balofa, inconsequente passagem-de-modelos fatela.

Feira de vaidades, montra de vacuidades, parada de militantes sem causa — para além do chequezinho mensal e da parábola mal parida que apenas aos próprios interessa.

De todas estas incompreendidas belezas, enfim, está a presente diatribe cheia, apenas lhe faltando por remate, palpito eu, o inerente, sonoro, retumbante, terminante arroto.

O Cânone. Intrigas e travessuras conventuais

Diogo Vaz Pinto
“Sol”, 24.10.20

Num gesto enfático de quem puxa o pano de uma coluna que não estava propriamente oculta, gesto a que se chama descerrar o monumento, surgiu entre nós um livro de ensaios de crítica literária com a pretensão de firmar a lista das listas. Mas “O Cânone” não traz grande novidade no que toca à eleição dos grandes autores da literatura portuguesa, e esconde, na verdade, um cânone secundário, ao mobilizar um conjunto de leitores da academia, formando um batalhão arregimentado para realizar uma marcha intimidatória entre os tantos percursos possíveis na memória que esta língua alcança.

Hoje, nem os esforços mais inoportunos ou aberrantes dispensam uma certa pompa, particularmente no que toca à vida cultural, essa que, no mesmo compasso em que vai perdendo relevância, e capacidade até de reflectir ou representar as experiências que vamos vivendo, parece enaltecer-se com a sua incapacidade de reagir. Mas, ao invés de assumir esta desistência, assume orgulhosamente a sua incapacidade de colar os cacos do tempo, de retomar uma qualquer razão ordenada, agarrando-se à boneca de pano de um passado morto, e apertando-a contra o peito nos momentos em que uma crise de ansiedade toma conta dela. Vemos assim um certo discurso fluir desde as regiões que se tomam por elevadas e que pouco difere do discurso dominante, esse que exibe, como notava Derrida, frequentemente aquele tom algo maníaco, jubilatório e encantatório que Freud reconhecia na chamada fase triunfante do processo de luto. Esse regime cadenciado, quando não ritualizado de certos encantamentos, é sinal tantas vezes de uma desistência ou até de rejeição profunda do futuro, e produz uma cultura de ecos cada vez mais fracos, de bocados, restos de frases, linhas em que o sublinhado sinaliza o que foi apropriado como um mantra, para manter o mais longe possível o mau-olhado do futuro.

Apareceu por estes dias uma colecta de textos de crítica literária investida, na forma como foi apresentada, desse delírio triunfal das patéticas ficções cheias do convencimento da sua preponderância. Assim, foram os próprios envolvidos a assumir que “O Cânone”, obra editada pela Tinta-da-China e financiada pela Fundação Cupertino de Miranda, deveria provocar algum celeuma, gerar uma torrente de reacções indignadas, e os editores adoptaram aquela pose desafiadora, como quem passa a mão pelo coldre, dizendo-se ansiosos por eventuais polémicas ou convites para duelos.

Por agora, depois de umas vagas notas na imprensa, instalou-se aquele concerto dos grilos, que apenas nos diz que a noite não tropeçou em nada. Não se ouviu gritos, e Vivien Leigh continuou com a cantoria no chuveiro. Houve duas sessões de apresentação, uma delas no Jardim Botânico de Lisboa, com Ricardo Araújo Pereira a assumir a moderação, e a cansar o velho número do pára-quedista que jura não entender porque raio insistem em chamá-lo para estas coisas. Essa sessão andou pela centena de pessoas seguindo a coisa em directo. Se alguém estava em pulgas para saber a lista dos escritores ou dos ensaístas o mais certo é que se tenha entretido a esmagar entre as unhas até à última das pulgas, pois a sessão foi tudo menos empolgante. A do dia seguinte, com apresentação a cargo de Pedro Sobrado, e as intervenções bem mais desenvoltas dos organizadores, especialmente de António M. Feijó e de Miguel Tamen, essa acabou por se mostrar bem mais compensadora para o pequeno auditório virtual que seguia a apresentação. Não estariam mais de 40 pessoas num mesmo momento a acompanhar esta segunda sessão. “O cânone é uma lista é uma lista é uma lista” começou por notar Sobrado, mas disse que sendo este um título anódino é, ao mesmo tempo, assombroso por tudo o que esta palavra consegue evocar – “desde o índice de textos sagrados até controvérsias sísmicas de especial magnitude”. Depois, e assumindo que existe hoje um meio literário, atendido e açulado por um público, deixando-se exaltar ainda por campanhas de promoção ou liquidação total, diz que este livro “possui um carácter incendiário”, isto por causa dos debates virulentos acerca do cânone, os quais por cá tão poucos acompanham como uma partida de futebol, e só por um rádio a pilhas, em diferido e com má recepção, tratando-se de pleitos travados noutras geografias. Sobrado punha essas querelas a par de outras motivadas pelas “sensibilidades pessoais e íntimas, confrarias académicas, tribos literárias. Mas é difícil perceber quem são esses a quem esta edição poderá causar mais do que um certo incómodo, algo mais que um beliscão ou um passageiro episódio de urticária. O mais natural é que, até por cálculo, diante de um esquadrão destes, os hipotéticos ofendidos deixem a coisa passar, e não se oiça ou leia mais que um resmoneio inconsequente à margem destas margens.

No entanto, é a presunção de que uma iniciativa editorial como esta possa assumir um carácter incendiário que chega a ser enternecedora, uma ficção ao mesmo tempo ingénua, como se, além da pauta fixada nos corredores, a tal listinha, fosse haver alguma revisão na bolsa dos valores literários, como se esta obra sinalizasse outra coisa que não um organigrama com a actual composição da comissão que dirige as festas e que tem o dedo na balança no que toca à promoção e despromoção dos autores a quem se vão dedicando teses, currículos e o raio. Sendo esta, em grande medida, uma recolha de actas, de circulares internas, de resumos de aulas, é disparatado quando Pedro Sobrado afirma que há o risco “de ninguém se rever n’O Cânone”. O verdadeiro risco que esta obra corre é de outra natureza: o de se estar tudo a marimbar e ser este gesto apenas mais outro exemplo da histeria algo nostálgica de uma “casta sacerdotal” que prega aos peixes e pouco mais. Um conciliábulo que, em face da ruína, não abre mão da postura teatral, com aquela atitude de soberba envolvida numa boa dose de anacronismo. Mas finjamos, por um momento que seja, aceitar o desafio, e discutamos essa ultrapassada questão. Não nos peçam é que levemos a coisa ao ponto de nos comovermos ou escandalizarmos com a intriga ou os personagens desta chatíssima peça de um só acto interminável, desfiando o delírio de um século ausente, a tossir o pó e as aranhas nos sótãos ou nas caves, entre a desilusão e o reacionarismo. Um século no qual um bando de académicos se convencem de que ainda são capazes de armar uma bulha dos diabos seja por, desta vez, Sophia não merecer senão uns piropos, seja por Eugénio ter sido deixado sozinho no Jardim de S. Lázaro a medir o tesão das flores ou Graça Moura em brasa e perdido no gozo com as suas musas em trajes menores, seja por terem recambiado Vergílio Ferreira para as évoras do Além ou Cardoso Pires para repórter de crime nalgum pasquim de pouco prestígio ainda que com mais proveito, até literário, do que o de tantas publicações académicas duplamente subsidiadas: quando são pagas e, depois, quando fazemos o favor de as ignorar.

O tom que caracteriza as intervenções mais contundentes neste volume é o da empáfia, o de uma injustificada sobranceria, um registo que se aproxima mais da crónica que do ensaio de crítica literária. E é Miguel Tamen quem se destaca nessa potestade que, nas voltas que dá, vai desenhando o seu próprio ralo, o vazio onde tudo acaba, entre banalidades denotativas, arremedos dando nó ao saco das obviedades ululantes, deduções vulgares, infusões e vapores achacantes, tudo como quem se baixa para acariciar um papagaio imaginário ou numa cadência de quem marcha e leva atrás de si uma pequena tropa. Sirva de exemplo a entrada que dedica a Portugal: “Quando se fala de Portugal, como aliás de literatura portuguesa, há uma grande diferença entre o que os portugueses fazem e o que os outros dizem. No caso da literatura portuguesa pode pensar-se que tal se deva a terem os portugueses lido mais livros de literatura portuguesa que os não-portugueses. Acontece que poucos portugueses leram literatura portuguesa, e a maior parte não se lembra de nada”. Aqui e ali, deparamo-nos mesmo com apatetadas tentativas de comédia: “Bem entendido, os portugueses não são uma pessoa ou sequer um animal. A palavra ‘portugueses’ designa uma soma de pessoas muito variadas, e não um ser vivo independente, por exemplo uma pessoa muito grande, ou muito gorda, ou com muitos braços.”

Mas o que mais denuncia esta atitude de quem, a coberto da liberdade da crítica para expor opiniões, usa de um tom jocoso, e faz desse exercício uma forma de tagarelice, em que as provocações degradantes assumem um tom de snobeira insuportável, lê-se numa passagem como esta: “Os portugueses, tantas vezes impiedosos com os erros de ortografia e as imprecisões em guias turísticos compostos no estrangeiro, tendem a encarar com mais benevolência o Holocausto só porque muitos refugiados, e mesmo alguns refugiados ilustres, passaram brevemente por Lisboa, como num grande congresso internacional. Tudo no mundo, acreditam, existe essencialmente para chegar a Portugal.

Vítor Aguiar e Silva, prémio Camões 2020

«Vítor Aguiar e Silva é o Prémio Camões 2020, um crítico do novo Acordo Ortográfico»

«Depois de Chico Buarque ter recebido o Prémio Camões na edição do ano passado, Vítor Manuel de Aguiar e Silva foi o nome escolhido pelo júri que esteve reunido esta terça-feira. A ministra da Cultura, Graça Fonseca, anunciou o vencedor.» [DN]

«A acta da reunião do júri da 32ª edição do Prémio Camões, que decorreu em Lisboa, explica a escolha de Vítor Manuel de Aguiar e Silva para a edição do Prémio Camões 2020: “A atribuição do Prémio Camões a Vítor Aguiar e Silva reconhece a importância transversal da sua obra ensaística, e o seu papel activo relativamente às questões da política da língua portuguesa e ao cânone das literaturas de língua portuguesa.» [DN]


«O professor e ensaísta Vítor Manuel de Aguiar e Silva é o vencedor do Prémio Camões 2020, anunciado hoje pela ministra da Cultura, após reunião do júri.» [Lusa]

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Vítor Aguiar e Silva nasceu em 1939.

Tendo obtido todos os seus graus e títulos académicos na Universidade de Coimbra, foi professor catedrático da Faculdade de Letras da mesma Universidade até 1989, ano em que solicitou a sua transferência para a Universidade do Minho.

Nesta Universidade, foi professor catedrático do Instituto de Letras e Ciências Humanas, fundou e dirigiu o Centro de Estudos Humanísticos e a revista “Diacrítica” e desempenhou as funções de vice-reitor de Junho de 1990 a Julho de 2002, data em que passou à situação de professor aposentado.

Tem-se dedicado especialmente ao estudo da Teoria da Literatura, domínio em que a relevância do seu ensino e da sua investigação é nacional e internacionalmente reconhecida, e da Literatura Portuguesa do Maneirismo, do Barroco e do Modernismo. Os estudos camonianos têm constituído objecto constante da sua actividade de investigador.

Tem desempenhado funções docentes, como professor visitante, em diversas Universidades estrangeiras. Orientou numerosas dissertações de mestrado e doutoramento, na sua maioria publicadas. Ocupou, por escolha governamental, diversos cargos nas áreas da Educação e da Cultura.

Autor, entre outros, dos seguintes trabalhos: Para uma interpretação do Classicismo, Maneirismo e Barroco na poesia lírica portuguesa, Teoria da Literatura, Competência Linguística e competência literária: Sobre a possibilidade de uma poética gerativa, Análise e metodologia literárias e Camões: Labirintos e fascínios (obra galardoada com o prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários e da Associação Portuguesa de Escritores).

A Universidade de Évora atribuiu-lhe o Prémio Vergílio Ferreira de 2002.

Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Caixa Geral de Depósitos, o mais alto galardão literário existente em Portugal. Em 2018, recebeu o prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural.

Wook

 

«Presidente da República felicita Vítor Aguiar e Silva pela atribuição do Prémio Camões»

«Felicito vivamente Vítor Manuel Aguiar e Silva pela atribuição, hoje, do Prémio Camões 2020, a mais importante distinção literária de língua portuguesa.»

«Ao escolher o Professor Aguiar e Silva, o júri reforça a ideia de que não há géneros maiores ou secundários e de que uma cultura vive de obras de invenção (ficção, teatro, poesia) e de trabalhos de ensaísmo e crítica, quer no âmbito académico quer fora dele.»

«Autor da mais importante obra de Teoria da Literatura publicada em Portugal, professor da Universidades de Coimbra e da Universidade do Minho, Aguiar e Silva tem sido um exímio estudioso da cultura e literatura quinhentista e seiscentista, destacando-se a sua obra de camonista, atenta aos “fascínios” e aos “labirintos” do poeta, como uma vez mais pudemos comprovar no seu último livro, “Colheita de Inverno”.»

«Ligado à fundação do Instituto Camões, uma das entidades que atribui este Prémio, e a outras organizações culturais e pela defesa da cultura, o Professor Aguiar e Silva é um justíssimo vencedor, e uma escolha inspirada do júri deste ano.»
27.10.2020 [“site” da Presidência da República]

 

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

Não invocarás o nome de Deus em vão de escada

Muito bomEkbom, 1981 texto, este de Nuno PachecoNuno Pacheco, jornal “Público”, 2019. Com muita pena minhaO Peninha [n. Fethry Duck], Walt Disney, 1964, nunca viStevie Wonder, “I Just Called To Say I Love You“, mil novecentos e oitenta e picos um único cagãoAntónio Lobo Antunes, O Próprio, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2119 que não enchesse qualquer das suas grandessíssimas merdas(como diria Miguel Esteves Cardoso, um bacano à séria) com um monte de citações ou de referências a uns gajos de quem nunca ninguém ouviu sequer falarDomingos Monteiro, 1903 e que os próprios cagões(“tipo” João Baião mas em versão por escrito, iach, que horror) jamais leram, aquilo é tudo a fingir, a ver se cola, uns nomezinhos catitasEça de Queirós, “Cartas de Inglaterra”, ed. Ferro&Filhos, Rua de S. Paulo, 14, Lisboa, 1888 para tentar impressionar o pagodeMao Tse-tung, 1949.

Uma finalidade subsidiária da referencite aguda (ou bibliografite mórbida) é esconder a ignorância dos próprios, daqueles cromos que se dizem “autores” mas que nem ler sabem, quanto mais escrever; destarte (adoro escrever “destarte”, é muntafixe e dá imensa pinta de jurista), sepultando a sua triste prosa, o seu exíguo domínio da Língua e, sobretudo, a sua assustadora pobreza de espírito, sob diversas camadas de nomes sonantes e polvilhando toda a superfície da sua poia em prosa com umas citações avulsas e desconexas, o vigarista da escrita julga ter ascendido — como se tivesse apanhado um elevador — às alturas estratosféricas onde imagina irá confraternizar com os verdadeiros deuses da Literatura, cavaquear com Eça, estender o bacalhau a Camilo, jogar à bisca lambida com toda a Geração de 70 e até conversar em “estrangeiro” com um Zola, com um Murakami, com dois (ou três) Cervantes.

Não adianta sequer — mais resultará espetar um prego na parede e dar-lhe cabeçadas — tentar fazer ver a tal raça de cretinos que as citações e notas bibliográficas, quando inseridas no corpo do texto, funcionam na leitura como travões a fundo num carro, na compreensão como cubos de gelo atirados às pázadas, na fluidez narrativa como a entrada súbita de um marido ciumento quando estávamos muito entretidos a “conhecer” sua digníssima esposa.

É o mesmo que ouvir música enquanto alguém vai papagueando o nome dos instrumentos (e o respectivo fabricante), como se chama cada um dos executantes (com indicação do respectivo número de contribuinte), qual é o tempo e o tom de cada acorde, que horas são e quando é que se come. Corta o ritmo, raios, estraga tudo, nem assim  entendem?! 

Pobres diabos, tão tristes citadores, sobre os quais é vão e inútil e redundante e, sobretudo, imensamente estúpido perorar. Nem de insultos são merecedores. Ou de que a seu propósito se gaste nosso Latim.

Enfim, vale pelo divertimento. Acho-lhes imensa piada, valha-me Deus.

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações

Nuno Pacheco
publico.pt, 14.02.19
Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento.

Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar.

Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por BBB (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto.

Sobre a Bíblia, há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.”

O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos.

Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado, “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259):

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade?

Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente…” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (…) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.”

É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim…” Infelizmente não é.

ετυμολογία: προέλευση, τρόπος σχηματισμού και η εξέλιξη μιας λέξης

De onde vêm as palavras dos dicionários? Trá-las a cegonha, como aos bebés

Nuno Pacheco
publico.pt, 17.01.19

 

Não tencionava voltar esta semana ao tema, mas três razões vieram impor-se: os argumentos invocados por alguns comentários à minha crónica anterior; uma notícia da Rádio Agência, de Brasília, sobre o acordo ortográfico; e a edição, recente, de mais um dicionário da Texto.

Comecemos pelos comentários. Num, diz-se que “o AO não é um instrumento perfeito. (…) Que tem bastantes incongruências, é verdade. Que muitas delas podem ser corrigidas, também o é.” Mas alguém as corrigirá? Outro: “Graças a si e aos demais como o sr. pensam e (pior) agem, a língua portuguesa daqui a menos de duas décadas estará num museu.” Engana-se, já está. Em São Paulo. E ainda ninguém se queixou.

Outro ainda: “É pena não ver algo muito mais importante (e preocupante!), que é a (cada vez menos) subreptícia [sic] instalação de anglo-americanismos no discurso diário [PÚBLICO incluído].” Uma coisa não exclui a outra: as aberrações da “nova ortografia” são, aliás, mais recentes do que as modas dos anglicismos (antes foram os galicismos), porque o papaguear “estrangeiro” sempre foi, desde há décadas ou até séculos, forma ridícula de nos imaginarmos “maiores”; enchemos a boca dos valores do Português, mas à mínima oportunidade ignoramo-lo. Isso enquanto permitimos que o Português se deforme até ficar irreconhecível à vista e à fala.

Por fim: “Qualquer entidade pública e até as empresas devia [sic] estar obrigadas por lei a aplicar somente o AO que esteja em vigor!” Pois se assim fosse, aplicariam o AO de 1945, único ainda em vigor por lei. O AO90 foi imposto por resoluções, do governo e da assembleia, e essas, como devia ser claro para todos, não têm valor para revogar tal lei. Fica claro?

Há, no meio de tudo isto, um justo alerta: o “quase desaparecimento do ensino do Latim e do Grego do ensino secundário português, e das consequências desta situação na qualidade do ensino do Português.” É verdade, mas até isso anda associado aos efeitos nefastos do dito acordo de 1990, com a deslegitimação da etimologia em prol da fonética.

Basta ver a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto (já com o AO), das mesmas autoras do Dicionário Verbo de 2006 (ainda sem AO). Num e noutro, não há indicações etimológicas (ao contrário do que sucedia no Universal da Texto de 1995, ou no da Porto Editora de 2009). De onde vêm as palavras? Não dizem. Nem grego, nem latim, nem árabe, nem qualquer língua que haja influenciado a nossa. Podemos talvez arriscar esta explicação patética: Palavras? Trá-las a cegonha, como aos bebés. Tentem agora dizer isso às crianças.

Mas já que falamos deste dicionário, que só por si há-de merecer um texto (não por ele, em particular, mas pelas aberrações que o acordês lhe impõe), registe-se a reabilitação de óptico (relativo à luz, aos olhos, à visão), deixando o ótico aos ouvidos. E sem dupla grafia! Isto contradiz o AO, claro, mas alguém se importa?

Já a secção das “espetadas” ganhou curioso alinhamento. Assim: espetacular, espetáculo, espetada, espetador, espetar, espeto. No Brasil escreve-se espectador, cá não, e o Dicionário deixa isso claro, com um pêzinho ao lado de espetador, indicando que tem “uso privilegiado” [sic] em Portugal. Para quê isto, no entanto, se, como se afirma na Introdução, o AO “prevê o uso facultativo das variantes lexicais europeia e brasileira em todo o espaço lusófono”? Prevê mesmo? Olhe que não.

No site brasileiro Português à Letra (que aplica e pretende “explicar” o AO) diz-se claramente: “Quando duas formas são indicadas como válidas, embora sejam ambas corretas [sic], não são necessariamente recomendadas em todos os países.” E mais adiante: “Por seguirem até agora a mesma norma que Portugal, considera-se que os PALOP e Timor apresentarão formas idênticas [no pós-acordo]. ”

E aqui vem, em todo o esplendor, a monumental farsa que é o AO90. Continuamos a ter duas normas, a portuguesa e a brasileira, e jamais uma ortografia “unificada”. Se tivéssemos mantido as normas portuguesa de 1945 e a brasileira de 1943 podíamos fazer o mesmo exercício, com a vantagem de não termos de ler notícias como a que publicou no dia 10 de Janeiro a Rádio Agência, de Brasília (que transmite as sessões da Câmara dos Deputados): “Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.”

Na reportagem radiofónica (e também escrita), diz-se que o AO “só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.” Mais: “Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o AO, nem mesmo no Brasil.” Uma professora de Letras afirma que, “na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita”; um professor universitário diz, a favor do AO, que este quis “eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português” [só que não as eliminou, pelo contrário, mudou-as para pior]; e a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Raquel Muniz (do PSD) afirma que é este o “momento para revisão da norma.”

Querem parar de brincar com a nossa paciência, de uma vez por todas?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica do jornal “Público”, da autoria de Nuno Pacheco, publicada em 17.01.19. Os “links” a verde são meus. Título do “post” em Grego moderno) composto em: Greek Language Portal. ]