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Sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia, “A Menina do Mar” e as partidas dos meninos da terra

Nuno Pacheco
publico.pt 05.12.19

 

 

Está a chegar ao fim o ano em que se têm vindo a celebrar os centenários do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978) e Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). E se em Setembro essa celebração os juntou em pelo menos dois momentos (um colóquio no Brasil, no Rio de Janeiro, e um ciclo na Cinemateca, dedicados a ambos), agora é a vez dos Encontros Imaginários criados no grupo de teatro A Barraca darem voz a um “diálogo” entre os dois, com Maria do Céu Guerra a encarnar Sophia e José Manuel Mendes na pele de Jorge de Sena. A moderação, como sempre, cabe ao criador destes encontros, o encenador Helder Costa. Dia 16 de Dezembro, às 21h30.

Falando apenas de Sophia, este último trimestre tem sido pródigo em apontamentos sobre a sua vida e obra. Matosinhos dedicou-lhe um dia, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca (onde agora, de 6 a 8, celebra Sophia e Sena na Festa da Poesia). E o Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães, recebeu a adaptação para teatro e música do conto A Menina do Mar, pelo Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e direcção musical de Martim Sousa Tavares (neto de Sophia). Anuncia-se ainda para 13 de Dezembro o espectáculo multimédia O Mundo de Sophia, pela Lisbon Poetry Orchestra, no Auditório Renato Araújo da Universidade de Aveiro. É o queimar dos últimos cartuchos. Oxalá não lhes suceda, depois, o silêncio.

Mas ainda falando de Sophia, foi recém-lançada uma “edição muito especial” do conto A Menina do Mar, pela Valentim de Carvalho. E o “muito especial” justifica-se por juntar àquele que foi o primeiro livro infantil de Sophia (de 1958) duas leituras dramatizadas distintas: a que dele fizeram, em 1961, os actores Eunice Muñoz, Francisca Maria, António David e Luís Horta, com direcção de Artur Ramos e música de Fernando Lopes-Graça (aqui incluída em CD); e o espectáculo estreado em Fevereiro no São Luiz, em Lisboa, interpretado por Carla Galvão e Filipe Raposo (ao piano) a partir de música de Bernardo Sassetti (1970-2012), com direcção de Paula Diogo e animações de Beatriz Bagulho, também chamada a ilustrar o livro (o espectáculo surge aqui em DVD). Para dar um ar ainda mais “especial” à edição, pensada e produzida por Rui Portulez, o texto introdutório é de Marcelo Rebelo de Sousa, que sublinha estarmos perante “diferentes leituras, diferentes gerações e diferentes métodos de revisitar um texto fundador.”

A única estranheza resulta desta pequena nota incluída na ficha técnica: “Considerando a sua possível leitura em contexto escolar, este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assumindo a Porto Editora a responsabilidade desta adaptação”. É curioso, porque nem a ficha nem o texto do Presidente da República têm essa preocupação, lendo-se, neles, palavras “proibidas” como “direcção” ou “espectáculo”. Será porque pensam que estes não serão lidos “em contexto escolar”? Vamos então conferir o trabalho de adaptação feito no texto original de Sophia. “Hei-de” passou a “hei de”; “Outono” a “outono” (3 vezes); “Verão” a “verão”; “Primavera” a “primavera” (2 vezes); “Inverno” a “inverno”; “projecto” a “projeto”; “vêem” a “veem”. E é só. Dez alterações, ao todo. Justificava o trabalho? Justificava a nota?

Aqui podem sempre brandir-se dois argumentos. Um, a favor do Acordo, que dirá: estão a ver, quase não se nota. Outro, contra, que oporá: se quase não se nota, para quê mexer? Sobretudo quando se sabe que Sophia foi declaradamente contra o Acordo Ortográfico? Teve até uma argumentação em dez pontos, em entrevista ao JL, em 1991. Recordemo-la, na íntegra:

“1. A cultura é feita de exigência e este acordo é feito de transigência. 2. Vai alterar, em muitos casos, a dicção oral. 3. Vai desfigurar o carácter emblemático e a estética da escrita. 4. Vai-nos separar da tradição grega e latina e, assim, para os estrangeiros que falam línguas românicas, o Português vai-se tornando mais difícil. 5. Vai destruir a modulação das vogais, tornando algumas delas surdas. 6. O acordo nada unifica, pois constantemente recorre a alternativas. 7. A escrita nunca pode coincidir com a fala. 8. A ortografia pertence ao número de coisas que só raríssimas vezes devem ser modificadas, pois também na forma gráfica nos reconhecemos. 9. É verdade que as línguas evoluem, mas evoluem dentro das leis que lhes são próprias e segundo o espírito criador do tempo. O mesmo é verdade para a escrita que, por isso, não pode ser modificada por comissões nem por estratégias políticas. 10. A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança que se deve escrever com ‘s’ como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada.”

Tirando esta última sugestão poética, que os defensores do Acordo costumam usar como caricatura, a argumentação de Sophia é clara. Corrigi-la postumamente é indefensável, pelo que o livro, para honrar a sua memória, deveria ser mantido na grafia original da autora. Porque não são as dez palavrinhas que estão em causa, mas sim uma questão de princípio. Ou sugerem atirar à fogueira as edições anteriores, não vão as crianças ter um choque ao lê-las?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 05.12.19]

Hypocrisis

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

Mateus, 23:15

Liturgia: Conferência Episcopal Portuguesa aprova nova edição do Missal Romano, segundo novo acordo ortográfico

Textos vão ser utilizados em Portugal e noutros países lusófonos

Fátima, 14 Nov 2019 (Ecclesia) – A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) anunciou hoje a aprovação da nova edição portuguesa do Missal Romano, seguindo o novo acordo ortográfico.

Os bispos manifestaram “profundo agradecimento” à Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, ao Secretariado Nacional de Liturgia e a todos os colaboradores que levaram a cabo um “longo e minucioso trabalho, tão relevante para a celebração da liturgia em Portugal e nos países lusófonos”.

Em declarações aos jornalistas, no final do encontro, D. Manuel Clemente, presidente da CEP, indicou que o texto é proposto “no melhor português” que foi possível encontrar,para ser mais fiel à edição original, que é a edição latina.

O texto original do Missal Romano apresenta, na fórmula de consagração eucarística, o texto ‘qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum’; a expressão ‘pro multis’ tem sido traduzida como “por todos” em várias línguas, incluindo o português.

O cardeal-patriarca de Lisboa indicou que a nova tradução mantém a expressão “por todos”.

O Missal Romano é composto pelas seguintes partes: Documentos iniciais (Instrução Geral do Missal Romano e Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico); Próprio do Tempo (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa); Ordinário da Missa; Próprio dos Santos; Missas Comuns; Missas Rituais; Missas e orações para diversas necessidades; Missas Votivas; Missas dos defuntos; Apêndices.

A Assembleia Plenária da CEP assinalou ainda a celebração da Semana dos Seminários, sublinhando a necessidade de “formar discípulos missionários comprometidos com as comunidades concretas e reais do nosso tempo”.

“Os bispos aproveitam para enviar uma saudação fraterna a todos os seminaristas, suas famílias e comunidades, e agradecem o precioso trabalho dos formadores dos seminários”, pode ler-se no comunicado conclusivo.

OC

Source: Liturgia: Conferência Episcopal Portuguesa aprova nova edição do Missal Romano, segundo novo acordo ortográfico – Agência ECCLESIA


Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

António Vieira, “Sermão de Santo António aos Peixes”

 

 

Que se saiba, não existe uma posição oficial da Igreja Católica (portuguesa) sobre o AO90.

Conjecturas à parte, no entanto, torna-se fácil deduzir — a julgar pelos sinais exteriores de riqueza, por assim dizer, em termos jurídico-policiais — que tão vetusto quanto esporadicamente respeitável colectivo se abriu todo (salvo seja)  aos “encantos” da “língua unificada” (vulgo, brasileiro).

Ao fim e ao cabo, que diabo terá “forçado” a cúpula da Igreja tuga a engolir alegremente o AO90, esse imenso manual de patranhas? O que terão visto os Bispos e demais xerifes de saias em tal calhamaço de mentiras? Não terão eles mesmos lido nos livros sacros, entre outros ensinamentos que até às criancinhas (mesmo as ateias) se ensina desde o berço, que mentir é não apenas muito feio como é também um grave pecado?

Bom, pelos vistos, não, os mitras não leram, não sabem, nunca ouviram sequer falar de tal coisa, e portanto, por exclusão de partes, a verdade é algo que não lhes diz nada ou que, pelo menos e mais prosaicamente ainda, pouco lhes importa, são tradicionalmente avessos a minudências.

Não confundamos, porém, as cúpulas com as bases ou os poucos que fazem da Igreja carreira com os muitos que seguem o carreiro da Igreja. Esta questão não tem nada a ver com religião mas tem tudo a ver com política; a respeitabilidade da fé de cada qual é intocável mas os actos indignos dos falsos e dissimulados são apenas isso mesmo, falsidade e dissimulação, desonestidade e mentira.

A verdade está neste caso à vista de toda a gente: há sotainas doiradas que em nada se distinguem de aventais impecavelmente brancos. A ganância é a mesma, como a mesma é a ambição desmedida, a cobiça selvagem embrulhada em todos os seus rituais mecânicos e paramentos sumptuosos.

Mentiras atrás de mentiras. Não adianta perguntar, como Pilatos, diz a lenda, “o que é a verdade”?

Para o céptico, a verdade é simplesmente o contrário da mentira.

Para o cínico, é por definição algo desagradável.

Para o homem comum, é o que é.

Ou, como sabemos desde João (8:32),

E conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará“.

 

[Imagem: Coroa imperial de D. Pedro II do Brasil By Brazilian_Imperial_Crown.jpg: User:Limongiderivative work: CSvBibra (talk) – Brazilian_Imperial_Crown.jpg, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9555672]

Assistente do Google no smartphone

Já vários órgãos de comunicação social referiram a novidade, com o senão de todos eles fingirem que a versão escrita não é a contaminada pela  execrável cacografia brasileira (AO90). Mas, de qualquer forma, é possível continuar a ter, à falta de interface em PT-PT, configuradas em simultâneo uma Língua geral (e normal, como o Inglês ou o Francês) para todos os serviços e o Português-padrão apenas para o “Assistente Google”.

Esta “inovação” vale, portanto, para o Português-padrão falado. Por escrito,  “a” assistente pode devolver resultados contaminados pela cacografia malaquenha.

Com uma agradável voz de uma simpática senhora, se bem que electrónica (não se pode ter tudo), este dispositivo virtual cobre inúmeros serviços úteis (busca geral, mapas/percursos, notícias, meteorologia, etc.) sempre num Português inteligível — que não arranha o ouvido, como sucedia até agora com a algaraviada carnavalesca do Brasil — e versando assuntos portugueses de âmbito local, regional ou nacional e já não impingindo-nos tralhas do II Império brasileiro.

E isto vem com um nada desprezível bónus político: o accionamento do serviço “Assistente Google” (os brasileiros que fiquem lá com a sua “assisstêntchi”) implica o reconhecimento oficial de que existem mesmo  duas versões de PT. e não apenas uma (a brasileira), como pretendiam Malaca e seus capangas.

Afinal a tal “língua universal”… piu.

Google Assistant is rolling out in Portuguese (Portugal)

It’s been more than two years since Google Assistant became available in the Brazilian localization of Portuguese, but speakers of the Portugal version (pt-PT) were left waiting. Google has been working on that for over a year, and it began testing it in a closed beta a few months ago, but it appears ready to make it public now.

Head over to your Assistant’s settings and look for the português (Portual) option. Or, if your device is already set to that locale and you didn’t have Assistant yet, try tapping and holding on the home button to see if it pops up. When it’s enabled, you can ask Assistant questions in your language, play music, and control some smart home devices.

 

Assistente do Google agora disponível no seu smartphone

quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

Quem não gosta de ter uma ajuda extra para executar as tarefas do dia a dia? Pode ser para descobrir o melhor caminho para um compromisso, traduzir uma expressão noutro idioma, saber a previsão do tempo numa determinada cidade ou até mesmo para tirar uma selfie. Hoje, chega a Portugal o Assistente do Google, uma funcionalidade que permite ao utilizador ter uma conversa natural com o Google em português de Portugal.

O Assistente do Google é compatível com todos dispositivos Android com a versão Marshmallow ou superior e também com equipamentos iOS (basta descarregar a aplicação na App Store).

Com o Assistente do Google, o utilizador passa a ter um verdadeiro assistente pessoal à distância de um toque. Precisa de saber como se diz “Bom dia” em alemão ou encontrar uma pizzaria perto do local onde se encontra? Basta pedir ajuda ao Assistente do Google e terá todas as suas questões esclarecidas.

Portugal Blog

“We shall meet in the place where there is no darkness.”

A língua portuguesa tem um problema nas articulações. É melhor chamar o médico

A língua portuguesa tem mesmo um problema nas articulações. É melhor chamar o médico, que estes “peritos” (os do “acordo” de 1990) ainda a matam.

Nuno Pacheco
“Público”, 14.11.19

Há dias, a RTP exibiu um programa com este título: “Desacordo ortográfico”. Um debate? Um inquérito? Uma entrevista? Um prós e contras? Nada disso. Era um dos muitos episódios da série de ficção portuguesa Bem-vindos a Beirais (o 192, da 4.ª temporada, por sinal estreado em 2 de Novembro de 2015 e agora em reposição). E era mesmo de ortografia, entre outras coisas, que tratava o tal episódio. Resume-se assim: o senhor Agostinho, fervoroso adepto da independência de Beirais, resolve lançar um movimento para criar uma ortografia própria, o MOL (Movimento Ortografia Livre), com este princípio básico: já que as regras ortográficas são “uma manifestação do imperialismo português”, defenda-se uma “democratização da escrita”. E ele di-lo, em voz alta: “Sou um espírito livre, escrevo como quero e ninguém tem nada a ver com isso. Quando Beirais for independente, vai haver liberdade ortográfica. Cada um escreve como quer, basta que se perceba.” E há logo quem o defenda: “Isto é um movimento de modernidade, nós somos vanguardistas!” E a modernidade vinha logo no manifesto: “Precezamos de nus desvinculare da ditadura de um rejime opreçor.” Nas lojas começam a aparecer letreiros com nomes esquisitos (a “novidade” é acolhida fervorosamente por quem já dava erros e assim se livra da “vergonha”) e na escola a professora começa a alarmar-se, ao ler os trabalhos dos alunos: “Que erros são estes? Marina, tu não costumas dar erros. Nem tu, João. O que é que se está a passar?” A coisa depois não dá em nada. Há uma assembleia e a “modernidade” perde nas votações. Adeus, “liberdade” ortográfica, adeus “democratização da escrita”, adeus “cada um escreve como quer”. Ou não?

Esta história, que originalmente já tem uns quatro anos de existência, não anda longe de uma realidade que todos conhecemos. Basta ouvir com atenção o que disse, também na RTP, no episódio 33 do Voz do Cidadão, “programa do provedor do telespetador [sic]”, a professora universitária e consultora linguística Sandra Duarte Tavares, ao tentar explicar como funciona o Acordo Ortográfico de 1990. “A regra é muito simples”, disse ela. “Sempre que nós não pronunciamos as consoantes C e P, elas deixam de ser escritas.” Ora Sandra Duarte Tavares, que é também autora de livros como Falar Bem, Escrever Melhor e 500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa, arranjou uma maneira bem original de explicar essa “regra muito simples”. Ouçamo-la: “Se há falantes que articulam as consoantes, então é possível escrever com as consoantes. Se há falantes que não articulam as consoantes, então é possível escrever sem as consoantes. É o caso, por exemplo, de telespetador. Por acaso, eu pronuncio o C, então eu devo escrever telespectador. Mas há falantes que não articulam essa consoante. Então, o novo acordo ortográfico permite que esses falantes escrevam sem a consoante.”

Este brilhante raciocínio, que torna a regra ainda mais “simples”, aplica-o ela, por exemplo a um país que se viu amputado de uma consoante, passando de Egipto a Egito: “Em relação ao nome do país Egito [na fala, ela omite o P], o novo acordo ortográfico previa a queda da consoante P. Mas uma vez que há falantes que articulam essa consoante, em princípio o nome desse país será incluído na lista da dupla grafia. Egito sem P e Egipto com P.” Afinal, o problema está nas articulações. Fulano articula, escreve; sicrano não articula, não escreve. Pois. Se ouvirmos todos os dias o que se diz na televisão, em palestras, discursos, intervenções avulsas, ouviremos “runiões” por reuniões (assim falou por estes dias, na TV, um porta-voz do PS), “tamos” por estamos, “óvio” por óbvio, “pogresso” por progresso, “competividade” por competitividade (e o programa eleitoral – ou será “pograma”? – da Aliança de Santana Lopes lá tinha, bem claro, no seu ponto 5: “Crescimento e Competividade” [sic]). Segundo a brilhante explicação de Sandra, podemos concluir que é um problema de articulações. Se alguém não articula o primeiro “r” de programa dirá “pograma”; e se assim o diz, porque não há-de escrever? Não é verdade que, se “há falantes que não articulam as consoantes, então é possível escrever sem as consoantes”?

Coragem, portugueses, avancem para a escrita a la carte, que ninguém vos apontará o dedo! Acabou-se a vergonha inerente à má escrita, porque agora é tudo boa escrita, não é verdade? Basta dizer: Ah, mas eu não articulo! Logo, não escrevo! E está perdoado. Pelo menos por Sandra. Não é verdade que ela escreve “telespectador” e não “telespetador”, como consta do programa onde a ouvimos? Claro como água. Mas atentem bem na explicação: “Por acaso, eu pronuncio o C, então eu devo escrever telespectador.” Ora se “por acaso” o vizinho, ou o primo ou o colega de Sandra não tiverem o hábito de articular o tal C lá estarão, todos eles, no célebre clube das espetadas. Na verdade, tudo isto é obra do “acaso”. É que, “por acaso”, a língua portuguesa tem mesmo um problema nas articulações. É melhor chamar o médico, senão estes “peritos” (os que inventaram o “acordo” de 1990, os que assim o “explicam” e os que lhe dão insana cobertura) ainda a matam.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco. “Público”, 14.11.19.]

Nota: a reprodução deste texto, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessa ou diz respeito ao chamado “acordo ortográfico”.

Teolinda Gersão: “por alma de quem?!” [entrevista]

Excerto da entrevista de Teolinda Gersão no programa “Entre Tantos” da TVI24 em 03.11.19. Este excerto abarca apenas a parte da entrevista em que o assunto é o AO90.

 

Obra

Sus novelas tratan de la sociedad contemporánea, aunque transcurren en diferentes períodos. Algunos de los temas principales de sus novelas incluyen las complejidades de las relaciones humanas, la dificultad de la comunicación, el amor y muerte, la opresión, la libertad, la identidad, la resistencia y el proceso de creación. Otro tema central de su obra es el concepto de tiempo, sea el tratamiento del tiempo en la estructura narrativa o el tiempo histórico en el cual tienen lugar sus novelas. la dictadura de Salazar (Paisaje con mujer y mar al fondo); los años 1920 (O Cavalo de Sol), el siglo XIX (A Casa da Cabeça de Cavalo) y los años 1950 y 1960 en la Mozambique colonial (El árbol de las palabras).

Caracteriza a la mujer como instrumento de ruptura de los modelos tradicionales que presenta el feminismo. En su obra, existe un tiempo circular infinito, de retorno y comienzo que reproduce los ciclos de la naturaleza.

Premios literarios

Recibió el Grande Prémio de Romance e Novela de la Asociación Portuguesa de Escritores por su novela A Casa da Cabeça de Cavalo (1995) y los Premios de Ficción del PEN Club por sus libros El silencio (1981) y O Cavalo de Sol (1989). Asimismo, recibió el premio de la crítica de la Asociación Internacional de Críticos Literarios y el Premio Fernando Namora por su novela Los teclados (1999). En 2002, se le otorgó el Gran Premio Camilo Castelo Branco para cuentos por su colección de relatos, Historias de ver y andar.

[Wkipedia]
[Nota: recuso-me a utilizar a wikipédjia brasileirófona]

‘Com fúria e raiva’

Atentados e absurdos no ensino do Português: tudo em família

 

As sucessivas e absurdas alterações no ensino do Português, todas elas marcadas pelo oportunismo, pela ausência de debate, pela ignorância e pela arrogância intelectual, têm-no lesado profundamente.

Maria do Carmo Vieira
Público”, 27 de Outubro de 2019

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada (…)//
(…) // Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in “O Nome das Coisas”

 

De 2000 a 2019, as histórias absurdas, a propósito do ensino do Português, vão-se repetindo em moldes semelhantes porque a esperteza, bem como a mentira e o medo do debate público dominam nestas situações. E a nossa falha está em não termos ainda aprendido com os erros. Histórias que em segredo se organizam, no isolamento de gabinetes, e que não têm que ver propriamente com os partidos políticos, mas com a falta de Cultura e de Conhecimento, e de Ideal democrático, que grassam no seu interior e se têm vindo a ampliar, o que se reflecte nos Governos e na Assembleia da República. Foquemo-nos em três dessas histórias:

1. Na década de 90, eram muitos os indícios de que algo se prepararia na 5 de Outubro, através de encontros de formação que decorriam em escolas e a que assistiam todos os professores, independentemente da sua área de ensino, incluindo os do Conselho Directivo. Tudo em nome de uma “pedagogia nova”, invocando “o direito dos alunos à felicidade”, uma espécie de “baba pedagógica”, nas palavras de Fernando Pessoa, sobre a estupidificação a que, por vezes, sujeitamos os nossos alunos. Num desses encontros de “reeducação”, alertava-se o professor para a possibilidade de um aluno sugerir que fossem jogar futebol, o que deveria ser satisfeito interrompendo-se a aula. “Quando regressassem viriam mais estimulados!”, concluía-se, o que valeu umas gargalhadas e intervenções críticas de alguns professores que assistiam e que desde esse momento foram apontados como “resistentes à mudança”.

Ninguém acreditou que o absurdo e a estupidez se viessem a impor, mas poucos anos depois receberam os professores novos programas de Português (Reforma de 2003) para uma análise crítica, em cuja Nota Explicativa se explicitava que “as críticas dos professores não poderiam colidir com as metodologias apresentadas”. Programas cozinhados com a colaboração de 2 interlocutores exclusivos do ME, sem intrusos e sem discussão, numa apologia, sem precedentes, da facilidade e do funcional, a par de um profundo desprezo pela Literatura.

No entanto, sabe-se, por experiência, que a facilidade não é estimulante, antes entedia, que os textos funcionais não determinam um bom domínio da língua, essencial no acto de pensar, nem, e cito o neurocientista António Damásio (Março de 2006), despertam “a criatividade e a imaginação”, sem as quais “não haveria evolução científica e tecnológica porque não haveria curiosidade ou capacidade de imaginar alternativas.”, concluindo criticamente com o facto de o sistema educativo “deixar de lado as artes e as humanidades”. É ainda Damásio, em 2017, numa entrevista concedida ao Público, que acentua de novo a importância da Literatura enquanto representação da vida. Muito aplaudido, mas pouco seguido, no eterno jogo do ser e do parecer bem explícito na conduta hipócrita de muitos decisores políticos.

O absurdo e a estupidez impuseram-se em 2003, apesar de intensa polémica. Com o esvaziamento dos programas, não só na disciplina de Português, mas em todas, com especial relevo para as de Humanidades, desenhava-se já o modelo, que actualmente se pretende e que o meu colega Paulo Guinote sintetizou bem na expressão “descaracterização de saberes fundamentais”, sendo de realçar que, na preparação da Reforma de 2003, se preconizara retirar toda a Literatura dos programas de Português, o que não aconteceu por receio de forte oposição.

O espírito funcional continua a ser elogiado e imposto, em 2019, a literatura desprezada, com destaque para a poesia, e o descalabro das humanidades prossegue.

2. Ao longo da década de noventa, foram muitos os professores que se queixaram da falta de uniformidade na nomenclatura gramatical, uma situação resultante da dita “Gramática das Árvores” que o próprio criador, Noam Chomsky, advertira não ser apropriada à Escola. Contrariando Chomsky, entrou nos ensinos Básico e Secundário, convivendo, na sintaxe, por exemplo, sujeito e predicado com sintagma nominal e sintagma verbal, respectivamente. David Justino, ministro da Educação (2002-2004), num encontro com professores de Português, de diferentes níveis de Ensino, anunciaria para breve a uniformidade desejada, notícia bem recebida por quem há muito a exigia. E aconteceu o habitual: crédulos em promessas, e deixando que outros o fizessem por nós, esperámos confiantes.

O resultado foi a desconcertante Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), actualmente disfarçada num Dicionário Linguístico, cujo mentor foi o agora reconduzido Secretário de Estado da Educação, João Costa, aliás, um dos interlocutores do ME, na Reforma de 2003, e adepto convicto do funcional. A TLEBS, que se pautava por uma descrição estéril e confusa, foi enviada aos professores, num CD, de que escolhi um exemplo, que evidencia a linguagem usada, a propósito do adjectivo “assinalável” e da sua nova designação: “Chamam-se adjectivos de possibilidade os adjectivos derivados de uma base verbal, e que podem ser parafraseados pela expressão “que pode ser Vpp”, sendo Vpp a forma do particípio passado da base verbal derivante.” Assim mesmo!…

Face à polémica, o linguista Jorge Morais Barbosa, em Novembro de 2006, com outros abaixo-assinados, de que recordo os nomes de Vasco Graça Moura, Manuel Gusmão, Maria Alzira Seixo e José Saramago, expressava à Ministra da Educação a sua “preocupação com as consequências negativas […] da colocação em funcionamento da TLEBS, […] terminologia proposta em termos de parcialidade científica e disciplinar […] à margem dos especialistas […] e sem discussão pública […]”, solicitando a “suspensão imediata da sua aplicação […] por se tratar de uma “terminologia incorrecta e abstrusa, inadaptável a certos níveis etários e ocasionadora de graves dificuldades de aprendizagem […]”.

O ME acabaria por decidir a sua revisão (18 de Abril de 2007), salientando simplesmente a necessidade de identificar “alguns termos inadequados”, como se a isso se resumisse a imensa polémica suscitada. O linguista João Andrade Peres lamentava igualmente “que o ME não [reconhecesse] denúncias públicas de erros e inconsistências científicas de documentos produzidos sob a sua tutela”. Foi então que num programa televisivo sobre a polémica suscitada, com a presença da Professora Maria Alzira Seixo e o mentor da TLEBS, Professor João Costa, se soube que do grupo revisor da TLEBS faria parte a esposa do Professor João Costa, o que ele próprio atarantadamente confirmou quando questionado a esse propósito por Maria Alzira Seixo. Tudo em família, portanto.

Na avalancha indescritível de descrições exaustivas, algumas acabaram por ser poupadas a professores e alunos, por intervenção de académicos críticos cujas fontes foram inexplicavelmente omitidas pelos revisores, numa atitude de visível desonestidade intelectual, mas a TLEBS permanece e lembremo-nos, entre muitos exemplos, da designação errónea de “Nome”, usada em vez de “Substantivo”, do “complemento oblíquo” ou do cansativo item “funcionamento da língua” analisado pelos alunos através de um estonteante método descritivo e de opções.

3. Em 1986, pretendeu-se impor aquilo que ninguém pedira: um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que, entre outras barbaridades, preconizava a abolição dos acentos nas palavras esdrúxulas, o que foi anedoticamente aproveitado por Miguel Esteves Cardoso, no seu exemplo do “cágado” que evoluiria para “cagado”. A muita polémica suscitada e os inúmeros pareceres técnicos contrários determinaram uma acalmia nesta aventura e a todos pareceu que o assunto ficara encerrado. Foi o nosso mal. Como habitualmente, guardaram segredo dos seus encontros e viagens de “estudo”, esperaram com paciência o momento oportuno, e, em 1990, deram à luz um novo acordo ortográfico que, segundo as suas palavras, decorria da “correcção de aspectos criticados em 1986”, o que na realidade não correspondia à verdade.

Com efeito, mantiveram-se intactos aspectos da acentuação gráfica (lembre-se o equívoco que gera a falta de acento em “pára”), a supressão das consoantes ditas mudas, a alteração desastrosa das regras de hifenização e a capitalização de alguns nomes próprios, com a agravante de lhe terem acrescentado, entre outras aberrações, “grafias duplas”, pondo em causa a função normativa da ortografia. E, como não podia deixar de ser, a facilidade para as crianças foi invocada, arrastando a aberração do “critério da pronúncia” na ortografia e o consequente menosprezo pela etimologia, “coisa de elites”!

Na pegada de outras histórias, redactores do AO e decisores políticos ignoraram pareceres críticos emitidos fosse para a versão de 1986 fosse para a de 1990, realçando-se neste último caso o parecer do linguista António Emiliano, em 2008, bem como a petição “Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico”, com 113.206 assinaturas “oficialmente registadas em 10.05.2009”. Ao contrário do que redactores e decisores políticos continuam a afirmar, os debates públicos nunca aconteceram e o certo é que são incapazes de indicar quando e onde tiveram lugar.

A polémica dura há anos, mantêm-se as inúmeras dúvidas suscitadas pelo Tratado Internacional que deu origem ao acordo, e que Augusto Santos Silva (ASS), na sua arrogância habitual e deficitário comportamento democrático, recusa esclarecer; o debate continua por fazer-se, e, pior, trabalha-se exclusivamente em família e à porta fechada, sendo disso exemplo, mais um, a recente reunião do Conselho de Ortografia Portuguesa (COLP), na Universidade do Porto, a que presidiu ASS que prometeu todo o dinheiro necessário. Decorreu este encontro sob o signo do Absurdo em que se realçou de novo a mentira e se deixou a descoberto a ignorância. Na verdade, não se compreende que alguém que reagiu ao AO 90 com um “Deus nos livre daquela bomba!”, tenha posteriormente aceitado promover o dito, no Brasil. Referimo-nos a Evanildo Bechara, um dos homenageados, no Porto, que, em 2008, afirmou que o AO continha “imprecisões, erros e ambiguidades” e, em 2011, “Mergulhamos no texto do acordo e muitas vezes demos com a cabeça na pedra. O texto é muito lacunoso e, o que não sabíamos, interpretamos, imbuídos do espírito do acordo”. Agora, contrariando o seu pensamento, realça que “Será difícil encontrar quem faça melhor do que foi feito, seja no Brasil seja em Portugal”. E é para isto que ASS garantiu já todo o dinheiro necessário!

Em suma, estas sucessivas e absurdas alterações no ensino do Português, todas elas marcadas pelo oportunismo, pela polémica, pela ausência de debate, pela ignorância e pela arrogância intelectual, têm-no lesado profundamente. Não se questionará Tiago Brandão, na sua qualidade de investigador, sobre a violência que representa para um professor ser forçado a obedecer a alterações aberrantes que contrariam estudo e inteligência? Podem os professores estar motivados para ensinar, mantendo-se esta contínua pressão exterior?

Na verdade, não podemos, por uma questão de dignidade profissional, tolerar a demagogia, nem esperar que “outros remedeiem o mal e ponham fim aos [nossos] lamentos” (Henry Thoreau, in Desobediência Civil). Tudo dependerá da nossa resistência à estupidez!

Maria do Carmo Vieira
Professora

[Acrescentei “link” (a verde) e 2 destaques a “bold”. Créditos: autora, Maria do Carmo Vieira; publicação, jornal “Público” de 27.10.19.]

Nota: a reprodução deste artigo, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico”. Neste caso, salvas as devidas distâncias, também por causa da TLEBS, esse outro detrito.