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Shit happens

Pouco depois da publicação do artigo de Nuno Pacheco, às 16:25 h, o site da fantochada voltou ao activo, mas não por muito tempo e foi só mesmo a página principal, nada de conteúdos; passaram apenas mais alguns minutos até que a CPLP entrasse de novo em blackout geral. Brincadeira.

Os tipos não têm dinheiro sequer para um server próprio ou, vá lá, solução menos “à teso”, um alojamento “dedicado”; não, afinal aquilo é um alojamento como outro qualquer, privado, e dos mais baratinhos. Seria engraçado ver as contas (reais, não aldrabadas) do IILP e do domain principal; calculo os balúrdios que aquela porcaria custa ao erário público.

Em suma: é um “serviço” que está sempre a “cair” porque o pacote de alojamento é básico. Não que semelhante imbecilidade sirva para alguma coisa ou que alguém o utilize (sem ser para se rir um bocado), mas fica explicado o “mistério” da sistemática indisponibilidade do “serviço”: o letreiro a dizer “congratulations”, durante as inúmeras ocorrências de indisponibilidade, é uma resposta automática do host e registrar (eNom.inc), não é de cplp.org ou do sub-domínio iilp.cplp.org; ou, se é destes, então devem andar por lá a fazer “obras” no visual.

Enfim. Pormenores técnicos, irrelevantes enquanto tal (shit happens) mas “interessantes” como demonstração daquilo que é a chulice do erário público, o sorvedouro de dinheiro e o coio de indigentes arrumados em prateleiras douradas que p’ráli estão.

A CPLP, o IILP, o VOC — tons of shit.

Congratulations!

Nota: às 21:22 h o domain da CPLP parece estar de volta e com umas “novidades” e tudo.
Mais um fartote de rir, até aposto.

O vocabulário oficial do Acordo Ortográfico está morto há dias e ninguém deu por nada!

Nuno Pacheco
Público”, 23.01.20

 

Sinto-me honrado. Nunca me deram os parabéns tantas vezes e em tão pouco tempo. Por algum texto? Por fazer anos? Nada disso. A história é mais bizarra. Começa numa mania que mantenho com regularidade: consultar o chamado Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (dito VOC) do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), de nome pomposo e misérrimas vestes, para ver se algo mudou ou para confirmar o monumental absurdo de tal “empresa”. Devo ser, aliás, um dos raríssimos visitantes daquela inutilidade, criada na sequência do enorme embuste que foi o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

Mas no dia 13, ao clicar no VOC, deram-me os parabéns. E em inglês: “Congratulations!” Como naquelas mensagens que nos dizem, matreiramente, que ganhámos qualquer coisa para depois nos levarem à certa. Pensei que era um erro e insisti: parabéns outra vez. Não podia ser. Tentei mais tarde e a coisa repetiu-se. Nesse dia e nos seguintes. Até ontem. Esteve assim durante semana e meia e ninguém deu por nada. Nenhuma explicação, nenhum pedido de desculpas (género “estamos a remodelar o VOC, voltaremos em breve”). Silêncio total.

Só a mensagem ali continuava a repetir-se, impassível. Soube, entretanto, que já no dia 9 alguém tentara entrar no VOC e tivera essa mesma resposta. Primeiro, um “Congratulations!” em letras grandes. Depois isto: “You’ve successfully started the Nginx Proxy Manager. If you’re seeing this site then you’re trying to access a host that isn’t set up yet. Log in to the Admin panel to get started.” Pois. Trocando em miúdos: isto não está configurado; ou o lugar onde esta coisa estava alojada fechou-lhe as portas. Pelos vistos, o cheque “extraordinário” de 200 mil euros enviado por Portugal chegou tarde… Adeus!

Quem não chegou a conhecer o defunto, ainda pode espreitar uma “foto” esquecida algures no infinito espaço virtual. Basta carregar em iilp.cplp.org/voc/ e lá aparece a Página Inicial do dito VOC, mas sem nenhum préstimo, pois apesar de ainda ter algumas ligações activas, nenhuma delas vai dar ao vocabulário. Lá estão, à esquerda, as nove bandeirinhas, mas de nada vale tentar clicar nelas. Antigamente, lia-se: “Selecione [sic] a versão do VOC a usar”. Isto significava carregar numa das oito bandeirinhas correspondentes aos países da CPLP ou então numa outra, a nona, que era uma espécie de saco-de-gatos com todas as variantes lá dentro. Quando funcionava, clicava-se em três bandeiras e não dava nada: Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe (os dois primeiros países não ratificaram o AO90; e São Tomé ratificou-o, em condições mais que duvidosas, mas não tem vocabulário que se veja). As restantes conduziam a cinco vocabulários com nomes diferentes: Vocabulário Ortográfico Cabo-Verdiano da Língua Portuguesa, Vocabulário Ortográfico Moçambicano da Língua Portuguesa, Vocabulário Ortográfico de Timor-Leste, todos eles incorporando o nome dos respectivos países, e os dois restantes sem identificação nacional: Vocabulário Ortográfico do Português (o de Portugal) e Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (o do Brasil). Para quem prometia um Vocabulário Ortográfico Comum, esta multiplicação é patética.

Quanto ao defunto, e depois de várias buscas, eis que surge em linha uma luz: um “Concurso Internacional de Design de Projetos do IILP”, pretendendo dar “a oportunidade a um talento do design de criar duas marcas para dois projetos” [sic], sendo um deles o VOC. Ora aqui está: o vocabulário vai ser remodelado, e ainda que péssimo vai ter nova cara. Puro engano: o anúncio é de 2013 e diz isto [sic]: “O projeto VOC – Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, visa implementar em uma plataforma digital o vocabulário oficial da Língua Portuguesa, constituído de forma inovadora pela soma dos diversos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON), dos países da CPLP. A partir dos Vocabulários Nacionais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, o Vocabulário Comum da Língua Portuguesa, pela primeira vez, incluirá numa grande base de dados lexicais de gestão comum, o vocabulário de todos os países escrito na nova ortografia, com inúmeras utilidades, o que abrirá uma fase nova para a língua portuguesa.” Vírgulas fora do sítio e o “esquecimento” da Guiné-Bissau são mesmo do texto, aqui em transcrição literal.

É duvidoso que algum “talento do design” tenha arriscado nome e tempo em tal façanha, pois o resultado, tanto gráfico como utilitário, sempre foi miserável. A “fase nova” para a língua portuguesa também está à vista e não se recomenda. O que vão fazer, então, as baixíssimas “altas instâncias”? Passar mais cheques? Ou aceitar de vez o funeral, levando por arrasto no féretro o IILP (que sem VOC deixa de ter qualquer justificação) e o Acordo Ortográfico de má memória, que desuniu em vez de unir o amplo espaço da Língua Portuguesa? Decidam depressa, que o cadáver começa a entrar em decomposição e urge o respectivo enterro. E desactivem lá o “congratulations” – ao menos ali, dêem-nos os parabéns em português!

P.S.: ​– Anotem esta data: ao 14.º dia de silêncio, o VOC ressuscitou do seu estado publicamente cadavérico: precisamente às 12 horas e 4 minutos de 23 de Janeiro de 2020, quatro horas e 34 minutos após a publicação desta crónica. Percebe-se: no estado declarado de penúria em que se encontra, o IILP não devia ter dinheiro para o funeral. Só que o morto ressuscitou tal qual fenecera ​– ou seja, mau. Podiam ter aproveitado os 14 dias para melhorar alguma coisinha. Mas isso dá muito trabalho. Fácil é repor o que não presta. E de preferência sem comentários, porque não há nem haverá (escrevo isto para que haja, já que eles são muito mais rápidos a contrariar os outros), em todo o sítio do IILP, uma explicação, mais do que devida, para esta falha anormal e aberrante. Enquanto isso, entretêm-se a fingir que propagam a língua portuguesa aos quatro ventos no Universo. Pobres de nós…

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 23.01.20. O “link” a verde foi acrescentado por mim.]

IILP, a caixa ATM da CPLP

Neste “post” vemos dois conteúdos (reproduções de textos) completamente diferentes, se bem que umbilicalmente ligados por um factor comum: Portugal paga na íntegra as despesas da CPLP, as mordomias, as sinecuras, as brincadeiras e os simulacros de trabalho dos seus “membros” e respectivos protégés.

No primeiro dos textos, o jornalista do “Público” Nuno Pacheco esmiúça o IILP — uma completa inutilidade que funciona como sorvedouro de dinheiro dos nossos impostos, sendo Portugal o único financiador da CPLP e seus anexos. Estranha premissa que o autor bem expressa no seu texto e que encerra assim: «A língua portuguesa está hoje mais “promovida” e “difundida” do que estava quanto esta farsa começou? Era bom sabermos, antes de passarem mais cheques em branco.»

Ora, já que falamos de cheques em branco passados pela CPLP, então ilustremos com um exemplo. Na segunda transcrição temos a notícia (com gravação áudio na fonte) de uma das distribuições de cheques — em sentido literal — endossados pelo IILP, essa espécie de caixa multibanco, a ATM da “Comunidade dos Países de Língua” brasileira.

Depois do AO90, a grande empreitada que consiste na imposição da cacografia brasileira e o extermínio da norma ortográfica do Português-padrão, tudo foi e continua a ser pago sob a solícita subserviência do Estado português aos interesses brasileiros. Seja para “investigação” de utilidade e resultados nulos ou seja para “eventos” de “turismo linguístico“, Portugal providencia e liquida as contas da diversão linguística dos outros membros da CPLP… incluindo as dos “especialistas” provindos do “gigante” brasileiro, que contribui para a dita “Comunidade” com raspas de cacete.

O instituto, a língua, os amantes dela e a penúria do costume

Nuno Pacheco
Público”, 09.01.20

A língua portuguesa está hoje mais “promovida” e “difundida” do que estava quanto esta farsa começou? Era bom sabermos, antes de passarem mais cheques em branco.

O título deste texto lembra o de um filme de Peter Greenaway, e não é simples coincidência. Porque o que o motiva é uma cansativa longa-metragem que não se sabe quando acabará.

No último dia de Dezembro, veio a público (no JN) uma notícia a dar conta do estado de penúria do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), com sede em Cabo Verde, na Cidade da Praia. “Oito dos nove países da CPLP estão em incumprimento com a instituição, mas há Estados que nunca pagaram. Dívida ascende aos 600 mil euros”, noticiava o jornal. Parece que Portugal paga sempre a horas (“nenhum país paga mais de 100 mil euros”, garante o actual director do IILP, o guineense Incanha Intumbo), o Brasil atrasa-se e o resto oscila entre quem paga pouco ou tarde e quem nunca pagou. Sabem o que é o IILP? Não sabem? Já lá vamos. Convém dizer, primeiro, que neste reduto de penúria institucional o IILP não está só. No dia seguinte, 1 de Janeiro, o secretário-geral da CPLP, Francisco Ribeiro Telles, também veio queixar-se de que a situação financeira da CPLP “é séria e preocupante.” A razão é a mesma: o dinheiro não chega a tempo ou não chega de todo. Querem mais? A ONU vive idêntico dilema: dos 2582 milhões de euros do seu orçamento, só recebeu 1803 milhões. “Existem 65 países que ainda não pagaram”, queixava-se em Outubro o subsecretário-geral de Finanças da ONU. António Guterres, perante tal situação, já mandou apertar o cinto: cancelar reuniões, reduzir viagens, adiar difusão de documentos, parar escadas rolantes, cortar no uso de ar condicionado ou no aquecimento, reduzir apoios e estancar o preenchimento de vagas.

Mas voltemos ao IILP. Para quem não sabe, a decisão de criar tal coisa foi tomada em São Luís do Maranhão, no Brasil, em 1 de Novembro de 1989, quando por iniciativa brasileira se lançou a “primeira pedra” da CPLP. Era preciso alguma coisa que cuidasse da “promoção e difusão do idioma comum” e achou-se por bem entregar tal tarefa a um instituto. Porém, como é hábito nestes casos, tudo se atrasou. A CPLP só nasceu oficialmente em 1996 e o IILP em 2002, mantendo-se em estado vegetativo até ver aprovados novos estatutos e o respectivo regimento interno oito anos mais tarde, em 2010. O governo português aprovou-os dois anos depois, por decreto (12/2012), com este palavroso intróito: “Dado que o IILP é a instituição da CPLP que visa a construção de políticas concretas de promoção e difusão da Língua Portuguesa conducentes à sua internacionalização efetiva e afirmação como Língua Global, pretende-se através dos novos estatutos dotá-lo de meios adequados para a prossecução desses objetivos.” Um texto já escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1990, de que o IILP viria a tornar-se guardião oficial. Com um pormenor divertido: a resolução anexa a tal decreto, aprovada em Luanda no âmbito da CPLP, é toda ela escrita no português de 1945.

Queria-se, com tais “instrumentos jurídicos”, tornar o IILP num “instrumento operacional e útil”, para citar a resolução. E foi? Ora façamos uma viagem pela “sede” virtual do dito. O aspecto gráfico e os mecanismos de consulta são indigentes. Mas isso podia ser colmatado por uma extensa lista de actividade “úteis”, se ali as houvesse. Tem um registo de “eventos” (21, entre colóquios, cursos, conferências e até, pasme-se!, a celebração dos 30 anos do IILP em 2019, quando só a sigla é que soma três décadas), outro de “publicações” (sete números da revista Platô, quase todos reproduzindo colóquios que constam da lista de “eventos”), outro de “comunicações” (cujo conteúdo se resume a 5 vídeos, 5 álbuns de fotos e duas notícias!), um “blogue” (“um repositório de informações sobre a língua portuguesa”, cujos “conteúdos não são todos da responsabilidade do IILP”; as fontes são muitas, na maioria externas), uma remissão para “O IILP” (diz sumariamente o que é e quem o compõe, mas não tem sequer os estatutos ou o regimento interno para consulta) e, por fim, o “endereço”. Dos “projetos” (sic) constam ainda o VOC, Vocabulário Ortográfico Comum, que na verdade são oito, o que diz bem da noção de “unidade ortográfica” destes senhores (“O VOC tem versões específicas para cada país”, escrevem com o maior descaramento, chamando-lhe “vocabulário” no singular” e “comum”; mas comum como, se cada país tem o seu?). E um “Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/Língua Não Materna” cuja utilidade real carece de prova.

Conclusão? Para penúria, penúria e meia. A vacuidade dos discursos dá nisto. Não admira que o dinheiro escasseie. Excepto o vindo de Portugal, que, segundo JN, já avançou com “uma contribuição extraordinária de 200 mil euros”; além de acoplar ao IILP mais um organismo inútil, o “Conselho de Ortografia”, enfeitado com os sujeitos do costume. Tudo isto para quê? Para “promoção e difusão da Língua Portuguesa”, claro! Viram-na? Sabem quem a faz? Com que resultados? A língua portuguesa está hoje mais “promovida” e “difundida” do que estava quanto esta farsa começou? Era bom sabermos, antes de passarem mais cheques em branco.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral (incluindo “links” a azul) de: O instituto, a língua, os amantes dela e a penúria do costume | Opinião | PÚBLICO. Autor: Nuno Pacheco. Acrescentei “links” a verde.]

O Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) lançou o “Programa de bolsas: Cientista convidado do IILP”, com o apoio da República Portuguesa, para dinamizar a língua portuguesa no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

A cerimónia de lançamento destas bolsas do IILP decorreu no dia 28 de Fevereiro de 2019, na sede da CPLP, contando com as presenças do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, do Secretário Executivo da CPLP, embaixador Francisco Ribeiro Telles, do Embaixador de Cabo Verde em Lisboa, Eurico Monteiro, da Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, Teresa Ribeiro, do Presidente do Camões, I.P., embaixador Luís Faro Ramos, e do Director Executivo do IILP, Incanha Intumbo.

O “Programa de Bolsas Cientista Convidado do IILP”, assinado pelo Director Executivo do IILP e pelo Presidente do Camões, I.P., é uma iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, consubstanciando um financiamento por contribuição voluntária no valor de 200.000€ deste Estado-membro da CPLP ao IILP.

O programa de bolsas de cientista convidado do IILP desenvolve-se por um período de três anos (2019-2021) e traduz a concessão anual de duas bolsas a investigadores de língua portuguesa para apoio a projectos do IILP.

Source: Soundcloud

“Governo Sombra” – AO90 – 27.12.19

Na última emissão de 2019 do programa “Governo Sombra” na TVI, os quatro “governantes” habituais e o convidado da semana demonstram, mais uma vez, a sua quase unânime aversão ao “acordo ortográfico”.

Exceptuando as objecções de João Miguel Tavares, também elas habituais (e, como sempre, parvas), até o convidado Adolfo Mesquita Nunes, deputado do CDS-PP, a opinião geral é de que o AO90 tem de ser revertido, parado, esmagado.

A nota dissonante (a tal parvoíce) de JMT resume-se às criancinhas, coitadinhas, que já estão a “aprender” a cacografia brasileira, aiaiai, e agora, o que fazemos com essas criancinhas, coitadinhas. Ou seja, acha bem, JMT, que se continue a ensinar os alunos a escrever à toa, desde que obedeçam ao “acordo” brasileiro. E acha também JMT, por igual parvamente, que não se pode ensinar Português às criancinhas, coitadinhas, porque elas já estão habituadas a escrever segundo os ditames brasileiros e teriam de fazer um enorme esforço (coitadinhas) para reaprender a escrever correctamente.

Portanto, JMT deve estar convencido de que ainda hoje os alunos alemães continuam a estudar as diferenças entre as raças humanas, a comparar com as dos “Untermenschen” os tamanhos da caixa craniana típica do “ideal ariano” e a treinar a escrita para insultar judeus em letras garrafais, nos muros das casas, nas lojas, nas janelas. De facto, segundo a “lógica do hábito” que JMT defende, os alunos portugueses (coitadinhos) deveriam continuar a escrever com erros porque “estão habituados a isso”, só conhecem o AO90, assim como os programas curriculares alemães de 1933 a 1945 deveriam continuar ainda hoje, imutáveis, impassíveis, indiferentes, impermeáveis à própria passagem do tempo e imunes a qualquer realidade histórica.

Uma teoria demasiadamente infantil, de facto, em especial quando alguém do género JMT (há vários espécimenes), que aparenta ser uma pessoa normal (e até inteligente, quando calha), veicula semelhantes enormidades como se fossem dogmas sagrados.

Felizmente rodeado por três pessoas, incluindo o moderador do programa, capazes de usar a boca e não a testa para comer um gelado, JMT acaba invariavelmente por ficar nesta matéria a falar sozinho, tristonho, desconsolado (coitadinho) por ninguém ligar patavina aos delírios “habituais” do brincalhão.

No meu tempo, a estalada era um método pedagógico; hoje é crime. E na verdade todos nós, na minha geração, estávamos habituados a levar porrada dos professores — rotina antiquíssima que para os alunos de então, que não conheciam outro regime “pedagógico”, era coisa normal. Se o “hábito” fosse alguma espécie de critério de validação, então hoje em dia continuaria a ser habitual o castigo físico, o tabefe e o puxão de orelhas, até mesmo a “menina de cinco olhos”.

Enfim. JMT poderia bem aprender alguma coisinha nos livros. A ver se deixava de cometer erros de palmatória.

Com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira.

[Imagem de: Pardieiros online]

Tapar o Sol com as peneiras

Periodicamente, com a regularidade de um pêndulo, salta a ingente questão das datas e dela invariavelmente resulta a seguinte conclusão (ou relação de causa e efeito): havendo discrepâncias na datação dos documentos legais que envolvem o AO90, então esses documentos são ilegais e, por conseguinte, o próprio AO90 “não está em vigor”. Fantástico raciocínio: o facto de o “acordo” estar em vigor não interessa para nada,  o que interessa é que as datas estão erradas, são discrepantes, irra, não valem um caracol — e por conseguinte o AO90 afinal não está em vigor.

Em suma, a colossal aldrabice do todo acordista é filosoficamente trocada pela muito mais maneirinha e parcelar objecção quanto aos carimbos nos respectivos “instrumentos” de adesão e de ratificação. Há até quem, decerto imbuído de um incrível espírito de minúcia — característica distintiva dos chamados “picuinhas” — , vá mesmo ao mirabolante ponto de mui doutamente escarrapachar em texto (e exarar através de paleio) que, nada mais, nada menos, na verdade “o acordo ortográfico não está em vigor”.

Não se restringindo à vigarice única das datas erradas (os “quandos”), a mesma lógica da troca do essencial pelo acessório inclui uma outra, que parece ser ainda mais importante: que países da CPLP, ao certo, subscreveram o AO90 e, destes, quais ratificaram (os “quais”) o 1.º e o 2.º protocolos. Amiúde, seguindo a mesma estratégia das miudezas em vez do frango (ou de “tudo ao molho e fé em Deus”), alguns estudiosos colocam sérias dúvidas sobre as assinaturas físicas dos “negociadores” (os “quens”) que efectivamente subscreveram aquela fraude abominável.

Se tivéssemos de baptizar (mas felizmente não temos) tal estratégia de abordagem pela via administrativa (e burocrática) em detrimento da luta aberta e frontal, então poderíamos inventar adaptando (a condizer), para designar o fenómeno, o apelido do Ministro Iraquiano da Informação: Sahhafismo.

Epítome da vacuidade (e, digamos, um bocadinho lírico), Mohammed Saeed Al-Sahhaf vai fazendo escola nos areópagos nacionais — geralmente apinhados com umas 6 ou 7 togas circunspectas — e fazendo o seu caminho de pesadíssima nota de rodapé num brutal calhamaço académico ou na ficha técnica de uma ou outra sebenta electrónica.

O Sahhafismo serve, no caso, como respaldo da dita estratégia , dando cobertura (digamos assim) não apenas à questão das datas e ao problema das firmas mas também às objecções sobre “incongruências e contradições” presentes no AO90.

Claro que não está em causa que — a talhe de foice ou só para variar — se puxe desse tipo de argumentário. Tais vigarices menores não são nada em relação à questão maior (enorme, gigantesca) mas é um bacadinho parvo, digamos, matraquear no acessório em detrimento do essencial, isto é, torna-se absurdo atirar a minudências em vez de apontar toda a artilharia (e a Marinha de guerra e a Força aérea) ao “acordo” como um todo: todo vigarista, todo aldrabão, todo mentira.

Fingir que “o acordo ortográfico não está em vigor”, alegando em suporte da tese umas assinaturas nuns papeis, é como Sahhaf garantir, com veemência e cagança, enquanto os tanques americanos ocupam Bagdad, que está tudo bem, nada de grave se passa no Iraque, a situação está perfeitamente controlada pelas gloriosas tropas de Saddam Hussein.

Um bom exemplo brasileiro e mais datas para duvidar da validade do Acordo Ortográfico

Nuno Pacheco, “Público” 12..12.19

 

Se há obras que transcendem o seu estatuto fundador e são já património universal, Grande Sertão Veredas é uma delas. O seu autor, João Guimarães Rosa (Brasil, 1908-1967), era obcecado “pela integridade textual dos seus livros”, como recorda a editora Companhia das Letras, que acaba de lançar em Portugal nova edição desta obra. Por isso, resolveu adoptar (e di-lo na nota introdutória) “como referência a segunda edição [Agosto de 1958] com a rubrica ‘texto definitivo’”, respeitando “o critério básico de diminuir ao máximo as diferenças com a segunda edição de 1958, quando se fixou a fisionomia textual do romance.”

Explicando melhor: “O texto foi estabelecido de modo a preservar a expressividade de sinais diacríticos, hifenização e outros pormenores morfológicos e ortográficos na aparência desimportantes, mas que se destacam no sistema polifónico do livro.” Daí que, embora “êle” tenha passado com os tempos (e também no livro) a “ele”, “vôo” a “voo” ou “idéia” a “ideia”, se tenham mantido grafias como “gemêsse”, “umbùzeiro”, “urubú” ou “buritís”. Registe-se que, sendo a edição feita em Portugal (da editora brasileira aqui sediada), tanto a nota introdutória como a longa cronologia que fecha o livro e a respectiva lista de fontes respeitam a ortografia portuguesa de 1945 (ainda em vigor por lei). Que diferença com a recente edição d’A Menina do Mar, “atualizando” à força o texto de Sophia!

Já que falamos no Brasil, e no Acordo Ortográfico (que tenham paciência, ou virem a página, os que já dão este assunto por encerrado), é bom recordar que no Brasil sempre houve, e há ainda, resistência ao dito “acordo”. Manifestaram-se contra ele, a seu tempo, figuras como André Nogueira, Caetano Veloso, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Gregório Duvivier, Hélio Schwartsman, Ivan Lins, João Paes Loureiro, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Maria Lúcia Lepecki, Millôr Fernandes, Nei Leandro de Castro, Paulo Franchetti, Pasquale Cipro Neto, Sérgio de Carvalho Pachá, Sidney Silveira ou Walnice Nogueira Galvão. Ainda há pouco, no Observador (de 22/9), o jornalista brasileiro José Augusto Filho escreveu: “O Acordo Ortográfico de 1990 [que ele atribui ao “lulopetismo” – de Lula e do PT] é um falhanço total. Ele em nada tem facilitado a integração política e económica entre os estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Bem ao contrário, tem antes servido a alimentar nacionalismos e ressentimentos. […] Da forma que foi conduzido, o Acordo serve antes para enfraquecer a língua de Camões do que para disseminá-la. Quanto aos ganhos políticos e económicos decorrentes, foram até agora praticamente nulos.”

(mais…)

Sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia, “A Menina do Mar” e as partidas dos meninos da terra

Nuno Pacheco
publico.pt 05.12.19

 

 

Está a chegar ao fim o ano em que se têm vindo a celebrar os centenários do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978) e Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). E se em Setembro essa celebração os juntou em pelo menos dois momentos (um colóquio no Brasil, no Rio de Janeiro, e um ciclo na Cinemateca, dedicados a ambos), agora é a vez dos Encontros Imaginários criados no grupo de teatro A Barraca darem voz a um “diálogo” entre os dois, com Maria do Céu Guerra a encarnar Sophia e José Manuel Mendes na pele de Jorge de Sena. A moderação, como sempre, cabe ao criador destes encontros, o encenador Helder Costa. Dia 16 de Dezembro, às 21h30.

Falando apenas de Sophia, este último trimestre tem sido pródigo em apontamentos sobre a sua vida e obra. Matosinhos dedicou-lhe um dia, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca (onde agora, de 6 a 8, celebra Sophia e Sena na Festa da Poesia). E o Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães, recebeu a adaptação para teatro e música do conto A Menina do Mar, pelo Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e direcção musical de Martim Sousa Tavares (neto de Sophia). Anuncia-se ainda para 13 de Dezembro o espectáculo multimédia O Mundo de Sophia, pela Lisbon Poetry Orchestra, no Auditório Renato Araújo da Universidade de Aveiro. É o queimar dos últimos cartuchos. Oxalá não lhes suceda, depois, o silêncio.

Mas ainda falando de Sophia, foi recém-lançada uma “edição muito especial” do conto A Menina do Mar, pela Valentim de Carvalho. E o “muito especial” justifica-se por juntar àquele que foi o primeiro livro infantil de Sophia (de 1958) duas leituras dramatizadas distintas: a que dele fizeram, em 1961, os actores Eunice Muñoz, Francisca Maria, António David e Luís Horta, com direcção de Artur Ramos e música de Fernando Lopes-Graça (aqui incluída em CD); e o espectáculo estreado em Fevereiro no São Luiz, em Lisboa, interpretado por Carla Galvão e Filipe Raposo (ao piano) a partir de música de Bernardo Sassetti (1970-2012), com direcção de Paula Diogo e animações de Beatriz Bagulho, também chamada a ilustrar o livro (o espectáculo surge aqui em DVD). Para dar um ar ainda mais “especial” à edição, pensada e produzida por Rui Portulez, o texto introdutório é de Marcelo Rebelo de Sousa, que sublinha estarmos perante “diferentes leituras, diferentes gerações e diferentes métodos de revisitar um texto fundador.”

A única estranheza resulta desta pequena nota incluída na ficha técnica: “Considerando a sua possível leitura em contexto escolar, este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assumindo a Porto Editora a responsabilidade desta adaptação”. É curioso, porque nem a ficha nem o texto do Presidente da República têm essa preocupação, lendo-se, neles, palavras “proibidas” como “direcção” ou “espectáculo”. Será porque pensam que estes não serão lidos “em contexto escolar”? Vamos então conferir o trabalho de adaptação feito no texto original de Sophia. “Hei-de” passou a “hei de”; “Outono” a “outono” (3 vezes); “Verão” a “verão”; “Primavera” a “primavera” (2 vezes); “Inverno” a “inverno”; “projecto” a “projeto”; “vêem” a “veem”. E é só. Dez alterações, ao todo. Justificava o trabalho? Justificava a nota?

Aqui podem sempre brandir-se dois argumentos. Um, a favor do Acordo, que dirá: estão a ver, quase não se nota. Outro, contra, que oporá: se quase não se nota, para quê mexer? Sobretudo quando se sabe que Sophia foi declaradamente contra o Acordo Ortográfico? Teve até uma argumentação em dez pontos, em entrevista ao JL, em 1991. Recordemo-la, na íntegra:

“1. A cultura é feita de exigência e este acordo é feito de transigência. 2. Vai alterar, em muitos casos, a dicção oral. 3. Vai desfigurar o carácter emblemático e a estética da escrita. 4. Vai-nos separar da tradição grega e latina e, assim, para os estrangeiros que falam línguas românicas, o Português vai-se tornando mais difícil. 5. Vai destruir a modulação das vogais, tornando algumas delas surdas. 6. O acordo nada unifica, pois constantemente recorre a alternativas. 7. A escrita nunca pode coincidir com a fala. 8. A ortografia pertence ao número de coisas que só raríssimas vezes devem ser modificadas, pois também na forma gráfica nos reconhecemos. 9. É verdade que as línguas evoluem, mas evoluem dentro das leis que lhes são próprias e segundo o espírito criador do tempo. O mesmo é verdade para a escrita que, por isso, não pode ser modificada por comissões nem por estratégias políticas. 10. A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança que se deve escrever com ‘s’ como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada.”

Tirando esta última sugestão poética, que os defensores do Acordo costumam usar como caricatura, a argumentação de Sophia é clara. Corrigi-la postumamente é indefensável, pelo que o livro, para honrar a sua memória, deveria ser mantido na grafia original da autora. Porque não são as dez palavrinhas que estão em causa, mas sim uma questão de princípio. Ou sugerem atirar à fogueira as edições anteriores, não vão as crianças ter um choque ao lê-las?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 05.12.19]

 

Hypocrisis

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

Mateus, 23:15

Liturgia: Conferência Episcopal Portuguesa aprova nova edição do Missal Romano, segundo novo acordo ortográfico

Textos vão ser utilizados em Portugal e noutros países lusófonos

Fátima, 14 Nov 2019 (Ecclesia) – A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) anunciou hoje a aprovação da nova edição portuguesa do Missal Romano, seguindo o novo acordo ortográfico.

Os bispos manifestaram “profundo agradecimento” à Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, ao Secretariado Nacional de Liturgia e a todos os colaboradores que levaram a cabo um “longo e minucioso trabalho, tão relevante para a celebração da liturgia em Portugal e nos países lusófonos”.

Em declarações aos jornalistas, no final do encontro, D. Manuel Clemente, presidente da CEP, indicou que o texto é proposto “no melhor português” que foi possível encontrar,para ser mais fiel à edição original, que é a edição latina.

O texto original do Missal Romano apresenta, na fórmula de consagração eucarística, o texto ‘qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum’; a expressão ‘pro multis’ tem sido traduzida como “por todos” em várias línguas, incluindo o português.

O cardeal-patriarca de Lisboa indicou que a nova tradução mantém a expressão “por todos”.

O Missal Romano é composto pelas seguintes partes: Documentos iniciais (Instrução Geral do Missal Romano e Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico); Próprio do Tempo (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa); Ordinário da Missa; Próprio dos Santos; Missas Comuns; Missas Rituais; Missas e orações para diversas necessidades; Missas Votivas; Missas dos defuntos; Apêndices.

A Assembleia Plenária da CEP assinalou ainda a celebração da Semana dos Seminários, sublinhando a necessidade de “formar discípulos missionários comprometidos com as comunidades concretas e reais do nosso tempo”.

“Os bispos aproveitam para enviar uma saudação fraterna a todos os seminaristas, suas famílias e comunidades, e agradecem o precioso trabalho dos formadores dos seminários”, pode ler-se no comunicado conclusivo.

OC

Source: Liturgia: Conferência Episcopal Portuguesa aprova nova edição do Missal Romano, segundo novo acordo ortográfico – Agência ECCLESIA


Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

António Vieira, “Sermão de Santo António aos Peixes”

 

 

Que se saiba, não existe uma posição oficial da Igreja Católica (portuguesa) sobre o AO90.

Conjecturas à parte, no entanto, torna-se fácil deduzir — a julgar pelos sinais exteriores de riqueza, por assim dizer, em termos jurídico-policiais — que tão vetusto quanto esporadicamente respeitável colectivo se abriu todo (salvo seja)  aos “encantos” da “língua unificada” (vulgo, brasileiro).

Ao fim e ao cabo, que diabo terá “forçado” a cúpula da Igreja tuga a engolir alegremente o AO90, esse imenso manual de patranhas? O que terão visto os Bispos e demais xerifes de saias em tal calhamaço de mentiras? Não terão eles mesmos lido nos livros sacros, entre outros ensinamentos que até às criancinhas (mesmo as ateias) se ensina desde o berço, que mentir é não apenas muito feio como é também um grave pecado?

Bom, pelos vistos, não, os mitras não leram, não sabem, nunca ouviram sequer falar de tal coisa, e portanto, por exclusão de partes, a verdade é algo que não lhes diz nada ou que, pelo menos e mais prosaicamente ainda, pouco lhes importa, são tradicionalmente avessos a minudências.

Não confundamos, porém, as cúpulas com as bases ou os poucos que fazem da Igreja carreira com os muitos que seguem o carreiro da Igreja. Esta questão não tem nada a ver com religião mas tem tudo a ver com política; a respeitabilidade da fé de cada qual é intocável mas os actos indignos dos falsos e dissimulados são apenas isso mesmo, falsidade e dissimulação, desonestidade e mentira.

A verdade está neste caso à vista de toda a gente: há sotainas doiradas que em nada se distinguem de aventais impecavelmente brancos. A ganância é a mesma, como a mesma é a ambição desmedida, a cobiça selvagem embrulhada em todos os seus rituais mecânicos e paramentos sumptuosos.

Mentiras atrás de mentiras. Não adianta perguntar, como Pilatos, diz a lenda, “o que é a verdade”?

Para o céptico, a verdade é simplesmente o contrário da mentira.

Para o cínico, é por definição algo desagradável.

Para o homem comum, é o que é.

Ou, como sabemos desde João (8:32),

E conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará“.

 

[Imagem: Coroa imperial de D. Pedro II do Brasil By Brazilian_Imperial_Crown.jpg: User:Limongiderivative work: CSvBibra (talk) – Brazilian_Imperial_Crown.jpg, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9555672]