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Á tramoço e minuins

«Hoje temos “esta grande controvérsia do acordo ortográfico”, mas “os romanos já tinham resolvido isso”, ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta.»

Ou não disse exactamente isto ou, se, ainda que vaga e confusamente, proferiu tal bacorada, então  estamos perante um número circense — abrilhantado pelo inerente “palhaço rico” — que ficará decerto nos anais, salvo seja, do anedotário gramatical. 

Eu cá, notório ignorante (e insuportável fã de minhoquices), confesso que nunca ouvi alguém a pronunciar seja o que for de outra forma que não “na oralidade”. Como debitar asneiras, por exemplo, sem as deitar pela boca fora? Linguagem gestual, claro, pode ser, mas isso não é bem “na oralidade”. E então? Como pronunciar (ou omitir na pronúncia) “certas letras que aparecem na escrita culta” (ou na escrita inculta, “tipo” menus das tascas) sem ser pela “oralidade”? Fala-se pelas orelhinhas? Utiliza-se qualquer outro orifício corporal para “soprar” umas letrinhas (e omitir outras)?

Insondável mistério. Estou sem palavras. E nem sei por que buraco as faria sair, caso me ocorresse algo para dizer a respeito.

A tautologia, de um ponto de vista gramatical, possui — ao contrário da escatologia, na acepção biológica que remete para a coprofilia, longe vá o agoiro — uma piadética intrínseca de impagável hilariedade. Redundâncias tão comuns como subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora ou opinião pessoal, por exemplo, constituem uma espécie de 1.ª Classe do Ensino Primário, de tal forma são… primárias. Mas formulações pleonásticas como esta, “pronunciar na oralidade”, ah, bem, isto é realmente de outro nível, é pleonástico majestático, é abundantemente redundante, é coisa para sair no exame não da 1.ª mas da 4.ª Classe, ou então ainda mais arriba, upa, upa. 

Escreviam como falavam“, afirma Lourenço. Vai daí, toca a “desempoeirar” a gramática latina que, segundo garante, “será para todos“. Argumentum ad baculum, bem entendido, que estendem acordistas por arrevesada analogia sobre o AO90: “escrever como se fala”, “o que não se pronuncia não se escreve“, “facilitar a aprendizagem“, é isso o que significa “desempoeirar” no hiper-acordista jargão TAP (Tretas para Aldrabar Pategos).

Bom, vejamos: se houver por aí quem passe bem sem semelhante coisa, quem aprecie “poeira” na sua gramática e estime “empoeirados” todos os seus livros, pois então que levante o braço.

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A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos

| Livros | PÚBLICO, 18.02.19

Nova Gramática do Latim irá para as livrarias a 15 de Março numa edição da Quetzal. Agora o sonho do Prémio Pessoa 2016 é… fazer uma gramática do grego.

A gramática latina mais usada em Portugal teve a sua primeira edição há mais de 50 anos e reflectia ainda os programas e as metodologias do ensino do latim nos liceus antes do 25 de Abril. Mas a partir de 15 de Março estará nas livrarias portuguesas a Nova Gramática do Latim, um volume de 500 páginas preparado por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa em 2016, docente de línguas clássicas desde que se licenciou, em 1988, tendo começado o seu percurso profissional como professor de Latim no ensino secundário. A novidade foi apresentada esta segunda-feira de manhã pelo director editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, e pelo próprio Frederico Lourenço, num encontro com os jornalistas na Cinemateca, em Lisboa.

“Não sou o primeiro tradutor português da Bíblia a publicar em simultâneo uma gramática de latim porque no século XVIII António Pereira de Figueiredo, o primeiro tradutor da Bíblia completa para português, também foi autor de uma gramática de latim muito utilizada ainda no século XIX”, contou Frederico Lourenço aos jornalistas.

Essa gramática “foi feita com aqueles parâmetros que eram habituais no século XVIII e XIX, em que o latim fazia parte da escolaridade”, lembrou. “Hoje uma gramática como a de António Pereira de Figueiredo não seria útil para ninguém. Era necessário pensar numa gramática do latim feita noutros termos e foi isso justamente que eu quis fazer”, acrescentou Lourenço.

O novo volume será uma gramática moderna e actualizada destinada aos professores e alunos do ensino secundário, aos universitários e também a quem não sabe nada daquela língua mas gostaria de poder olhar para um excerto em latim e perceber o que lá está escrito.

“Muitas pessoas gostariam de saber latim – até pessoas que não estão ligadas às Letras. Outras – historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos, filósofos e lusitanistas – têm consciência de que deveriam saber (bastante mais) latim. E outras, ainda, estão de facto a aprendê-lo em Portugal, na escola ou na universidade, mas sem se darem conta de que, muito provavelmente, usam recursos para o estudo do latim que ainda reflectem, em pleno século XXI, os programas e as metodologias dos liceus no tempo da ditadura de Salazar. Este livro pretende oferecer a todas estas pessoas uma gramática nova, cujo objectivo é sistematizar de forma desempoeirada os tópicos essenciais para a leitura de textos latinos em prosa e em verso”, escreve, no Preambulum deste livro, o seu autor, que está a fazer a tradução mais completa da Bíblia para português e é também tradutor da Odisseia e da Ilíada (e das respectivas versões para jovens).

“Escreviam como falavam”

“Aquelas palavras vernáculas que aparecem nas inscrições latinas, porque os romanos também diziam palavrões, estão aqui. Os romanos escreviam-nas, faziam parte do dia-a-dia. Mas os exemplos também são tirados dos grandes autores clássicos, dos grandes autores cristãos”, explicou Frederico Lourenço, que procurou nesta obra ir buscar exemplos de latim real, autêntico. Evitou por isso o latim forjado, as frases inventadas para se ensinar latim, que aparecem em muitas gramáticas. Achou “mais motivante” dar aos leitores frases de autores reais, desde os mais elevados até àqueles que escreviam com palavrões e com erros de ortografia.

Muitos dos grafitos que Frederico Lourenço utiliza servem para explicar que também os romanos escreviam de uma forma fonética. Hoje temos “esta grande controvérsia do acordo ortográfico”, mas “os romanos já tinham resolvido isso”, ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta. “Se iam escrever um grafito na parede a mandar alguém àquela parte, escreviam como falavam. É muito importante termos essa noção de que o latim não é uma língua em mármore, foi uma língua viva durante muitos séculos. E é uma língua que nos transmite toda a experiência humana, desde o sexo mais sórdido até à espiritualidade mais elevada. Está tudo presente na literatura latina”.

Nesta nova gramática tentou uma abordagem histórica, que vai desde os exemplos mais antigos que conhecemos do latim escrito até a exemplos do latim cristão mais tardio. “Nisso estou a seguir uma metodologia completamente diferente das gramáticas tradicionais. Uma delas, do século XIX, dizia que era intolerável dar exemplos de latim posterior ao século II. Eu acho que é intolerável não dar. Logo à partida isso nos impediria de dar exemplos de Santo Agostinho, um dos maiores escritores que alguma vez escreveu em qualquer língua e um dos mais talentosos escritores da língua latina.”

Nas gramáticas existentes encontram-se muitas frases atribuídas a Cícero, a Salústio, a Tácito… que eles nunca escreveram. Frederico Lourenço utilizou uma colectânea de toda a obra que existe em latim da Universidade de Harvard para poder fazer essa busca: “Podemos hoje verificar se uma frase supostamente de Cícero é dele ou não. Verifiquei cada citação de modo a que ela seja mesmo aquilo que os autores escreveram. Penso que isso é um aspecto importante desta gramática.”

Quis também que esta gramática fosse um livro interessante sobre a língua latina e sobre a língua portuguesa. Por isso a obra tem vários capítulos de reflexão sobre a história da língua e sobre a literatura latina.

Agora o próximo sonho de Frederico Lourenço é fazer uma gramática do grego.

[Transcrição integral. A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos | Livros | PÚBLICO. Destaques e sublinhados meus. Imagem de autoria desconhecida, várias cópias na Internet.]

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500 anos Barreiras (em pista coberta)


Já começamos a ficar um bocadinho fartos deste bacano (termo aqui aplicável com a devida carga de dignidade parlamentar) mas, dado voltar ele à carga com o seu querido “valor da língua” (este também só vê cifrões, como o Tio Patinhas) e com mais uma declaração de amor dedicada à sua verdadeira pátria, a terra do samba, bom, assim sendo, atão váláver o que lá vem desta.

Pois parece que, por entre dois ou três novíssimos “argumentos”, esgalha Barreiras, neste seu segundo textículo a seguinte verdadeira pérola de cultura: «No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo.»

Eisch! C’um caneco, bálhamedeus, etc.! Isto é mesmo fantástico. Uma descoberta sobre as Descobertas, mas que maravilha: no ano 1500, “por coincidência” aquele em que Cabral largou âncora em terras de Vera Cruz, éramos só um milhão, no total, mas agora — certamente, evidentemente, devendo-se tão extraordinário fenómeno (demográfico) ao Brasil — somos para cima de um ror de gente a “falar português no mundo”, eia, há quem aponte para 240 milhões, ou assim, números redondos.

Descobriu Cabral o Brasil há 500 anos e descobre agora Barreiras que a História deu um salto de cinco séculos, em 1500 a população total do planeta não era afinal de 500 milhões. Deixemos os pormenores insondáveis (a Revolução Industrial, a máquina a vapor, a “pílula”, a mecanização maciça, a vacinação, )  para quem sabe umas coisas, como é o notório caso de Barreiras, ele há-de ter informações fidedignas sobre o senhor Taylor, o senhor Ford, o senhor Von Braun e outras personagens inventadas pelos suspeitos do costume.

Há 500 anos nós éramos “só” um milhão e agora somos mais de 260 milhões de “lusófonos”, eis a tese de Barreiras, de 1 vamos num pulinho a 240+IVA, e que se não fosse o Brasil mai-lo milagroso “acordo ortográfico” continuávamos a ser aquele triste milhãozito, e pronto, não se fala mais nisso, adiante.

Nota, porém, Barreiras, neste seu artigalho, com tremendo susto, que a coisa  terá emperrado algures. Chega mesmo ao inusitado ponto, Barreiras, de se queixar com excruciante amargura que é preciso  «resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto?»

Pois, Barreiras, ainda bem que pergunta.

É, Barreiras. É um nado-morto.

II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?

Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol.

«Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios».

Nicolau Maquiavel

No que respeita à aprendizagem de línguas estrangeiras, os dados disponíveis atestam que, ao contrário do percepcionado, não são muitas as pessoas na Europa que aprendem (aprenderam) e falam línguas estrangeiras (inglês e outras). Em 1970, 25% dos portugueses não sabiam ler e escrever. Essa percentagem é actualmente de 4% (ou seja, ainda meio milhão de pessoas com idade entre os 18 e os 65 anos).

No ranking EPI (English Proficiency Index) de 60 países, Portugal é o 14º (igual à Alemanha e Suíça) entre os melhores, apesar de tudo, a falar inglês. Os melhores são a Suécia, a Noruega, a Holanda, a Estónia, a Dinamarca, a Áustria e a Finlândia; os piores são o Chile, Marrocos, Colômbia, Equador, Venezuela, Jordânia, Tailândia, Arábia Saudita e Iraque.

Da Europa, os piores a falar inglês são os franceses e os italianos. No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo. Em 2019, em todos os continentes, são mais de 260 milhões os que hoje falam português. Mais do que nós, nas línguas europeias, só o espanhol e o inglês. Em 2100 serão 400 milhões os falantes de português em todo o mundo. No Facebook e no Twitter, o português é a 3ª língua mais utilizada, e na Internet é a quarta. Países como o Senegal (que as estimativas assumem ir ter um grande aumento da população) já tem quase 50 mil alunos a aprender o português.

Em setenta dos quase duzentos países que o mundo tem, existem actualmente mais de duzentos mil estudantes de português. Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol. Na China, a aprendizagem e o domínio da língua portuguesa estão em grande expansão e não só através de Macau. O português, língua com mais de oitocentos anos (desde o século XII), tem sido ao longo dos séculos um instrumento de identidade de vários estados e comunidades politicamente organizadas.

O monolinguismo, enquanto uma espécie de analfabetismo do século XXI, não pode servir para acabar e secundarizar (e/ou matar) línguas e dialectos. Antes pelo contrário. No caso do português, temos de ser mais inteligentes e corajosos na sua afirmação enquanto língua de poder. Língua falada e oficial nos principais fóruns internacionais (Nações Unidas, FMI, OCDE, Organização Mundial de Turismo, Organização Mundial do Comércio, Vaticano, etc.). O poder regulatório das políticas linguísticas à escala mundial tem um caminho a fazer e muitos objectivos a atingir.

Fora de Portugal, a língua portuguesa não pode ser apenas uma língua de ‘rua’, do ‘café’, do ‘centro comercial’, etc. Tem de ser também e acima de tudo uma língua da diplomacia, da economia, das cimeiras internacionais.

E neste domínio há muito a fazer. Desde logo, resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto? E já agora, quem cuida da ortofonia? E quem explica a alguns dos nossos ricos e profissionais das bolsas de estudo que não devem esquecer a sua língua materna? Isabelle Oliveira, vice-reitora da Sorbonne, diz que «um cientista que abandone a língua que lhe é mais familiar para realizar o seu trabalho nunca poderá alcançar o seu pleno ‘potencial’». Porque o valor das línguas maternas no mundo científico é muito relevante.

O dia 5 de Maio é o dia internacional da língua portuguesa. O dia 8 de Setembro é o dia internacional da literacia. Saibamos estar à altura não só da importância de ambas as datas mas também de projectar a importância do seu significado. Num tempo desafiante, em que o monolinguismo não pode significar o analfabetismo do nosso tempo – e o esmagamento da generalidade das línguas por uma língua dominante. Em particular, pelo inglês.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral. Semanário “Sol”, Feliciano Barreiras Duarte, 18.02.19, II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?. Destaques e sublinhados meus.As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

Gráfico de Keith Montgomery, Department of Geography and GeologyUniversity of Wisconsin USA

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Uiss Maiaiss nu Timô

E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional [parecer DGBES]


O Acordo Ortográfico poderá afectar negativamente a cooperação que hoje existe na área do livro escolar entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Dado que em tais países se segue a norma ortográfica portuguesa toda a produção do livro escolar – à excepção de uma escassa produção doméstica – é exclusivamente assegurada pelos editores portugueses.

O Acordo poderá não só deslocar esta produção para o Brasil, como determinar, por arrastamento, a prevalência de docentes brasileiros na cooperação com tais países, no âmbito do ensino. [parecer DGBES]

«Representantes do Ministério da Educação estarão no Timor Leste, de 9 a 13 de abril, para avaliar e monitorar programas de cooperação educacional, especialmente o Programa de Qualificação de Docentes e Ensino de Língua Portuguesa, implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) em 2005.»

«O coordenador-geral de Cooperação Internacional da Capes, Benício Schmidt, vai ao Timor Leste para tratar da implantação de um programa de formação de magistério para os professores em exercício nas escolas primárias do país.»

«O grupo de brasileiros que está no Timor Leste ministra aulas, em português, de disciplinas como matemática, química e biologia, com o objetivo de qualificar docentes dos diversos níveis de ensino. Um dos resultados alcançados pela missão foi a elaboração de livros didáticos de física, biologia, história, geografia e educação física, levando em conta a realidade local.»[Governo do Brasil, Ministério da Educação]

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Moinhos de vento

Don Quijote soy, y mi profesión la de andante caballería. Son mis leyes, el deshacer entuertos, prodigar el bien y evitar el mal. Huyo de la vida regalada, de la ambición y la hipocresía, y busco para mi propia gloria la senda más angosta y difícil. ¿Es eso, de tonto y mentecato?
Miguel de Cervantes, ‘Don Quijote de La Mancha’

 

Uma situação embaraçosa que se torna cada vez mais corriqueira nos desgraçados tempos que vão correndo: estão pessoas normais e educadas conversando com toda a pacatez, quando, inopinadamente, um idiota interrompe ou vários dos circunstantes resolvem esparramar em redor toda a sua boçalidade.

Foi o que sucedeu neste caso: durante uma “tertúlia” regular da RTP3, está a escritora Inês Pedrosa comentando a iminente entrega da ILC-AO no Parlamento quando, de repente, dois tipos sentados na mesma mesa desatam a largar umas “bocas”, na tentativa de abafar com ruído o que a escritora estava a dizer.

Não fora a epidérmica simpatia da senhora a salvar a situação, estivesse ali um homem e decerto outro galo cantaria, poderia ter acontecido algo muito mais aborrecido, como, por exemplo, o dito ter dado um murro na mesa e uma palmada num dos rufias ou, pior ainda, vice-versa, uma palmada na mesa e um murro no gajo.

“Não estamos na RTP Memória”, arrotou um qualquer garoto, por entre as gargalhadas postiças de outro cretino de serviço. Mas que idiotas, valha-nos Deus, mas que abjectos yuppies caseiros, rudes, ignorantes e mal-educados “fatinhos”, mas que desoladora imagem do subúrbio mental em que vegetam tecnocratas e onde apenas e sem nenhum préstimo sopra o vento.

Inês Pedrosa saiu-se muitíssimo bem, de facto, com a sua natural classe, poupando a todos os espectadores e ouvintes o enxovalho da vergonha alheia — esse sentimento já vulgarizado pela corrupção hedonista da juventude, pelo galopante enobrecimento da estupidez, pelo inexorável triunfo da mediocridade.

Honra lhe seja feita, a senhora tem o que é preciso. Conseguiu muito mais com um simples sorriso do que teria valido uma singela chapada.

Ou duas, vá.

[foto de topo: https://pixabay.com/en/portugal-sintra-mill-landscape-2943915/]

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Correntes na escrita

(aviso: o “pugrama” está, no original, perdoe-se-me a redundância, em nojento acordês)

Confesso que não entendi. Nem à primeira nem à segunda nem à terceira. Esta simpática missiva aterrou no meu “desktop” há já umas horas e ainda estou a tentar percebê-la.

Das duas, uma: ou sou (mesmo) de compreensão lenta ou então a coisa afinal pouco ou nada tem que se lhe diga, mistério nenhum.

Apenas estranhei que a introdução do texto fale de uma coisa quando o texto propriamente dito se limita a reproduzir, quase na íntegra, o programa do evento do qual na dita introdução o autor diz — muito justamente — cobras e lagartos.

É, mal comparando (e, repito, pior entendendo), como se um vegetariano apelasse a uma manifestação de protesto contra a matança do porco e nesse apelo incluísse todo o cardápio de certo repasto, a ocorrer num festim de degola do suíno, com requintes de malvadez para com os esfomeados em geral e os comedores de saladas em particular, há lombo assado de presigo, arrozinho de miúdos por conduto, pernil fumado, enchidos que ele só visto, pasta de fígado nas hors d’oeuvres, a sopinha é caldo verde com chouriça e nacos de toucinho, tudo regado com a bela pinga da região, uns verdinhos do melhorio, e por fim rola a sobremesa, disso é que não há nada que venha do reco, temos pena, mas há doces e gelados de toda a maneira e feitio, que até ferve, vinde, vinde, de pé, ó vítimas da fome, ou comei vossemecês sentados, isso é consoante prefira cada qual, já provou vocelência o nosso presunto, salvo seja?

São, neste caso, ignoremos similitudes quiçá foleiras, 191 palavras de entrada apelando à manifestação contra o evento de propaganda ao “acordo” e 550 palavras de propaganda ao mesmíssimo evento.

Talvez se trate de alguma nova técnica de mobilização (ou de “agitprop”, ou assim), que sinceramente desconheço. Ou seja, em resumo, continuo sem entender.

Mas das 191 contra e das 550 a favor aí ficam — para quem as quiser — todas as 741 palavras, não guardo nem uma só.

Caros amigos “desacordistas” (aqueles que são contra o acordo ortográfico de 1990):

Contamos com a vossa prestimosa participação, no protesto que se pensa efectuar contra o AO90, conhecido por Aborto Ortográfico, no dia 19 de Fevereiro de 2019, pelas 11H00, terça-feira, à entrada do casino da Póvoa de Varzim, aquando da cerimónia de abertura do Correntes d’Escritas pelo Senhor Presidente da República.

Caso não queira ou não possa aderir, solicitamos os bons ofícios, no sentido de fazer circular este texto por todos os vossos contactos do FACEBOOK e assim sucessivamente até que a mensagem chegue ao maior número de pessoas possível, que são contra o AO90, que tem lesado permanentemente o ensino da Língua Portuguesa na matriz culta indo-europeia, um autêntico linguicídio, crime de LESA-PÁTRIA.

O que se pretende é que a mensagem chegue ao conhecimento dos professores e alunos das escolas e freguesias da Póvoa de Varzim, e cidades vizinhas da região, onde o evento se realizará, e que se sentem maltratados e coagidos na aprendizagem da língua, segundo a cartilha brasileira: o AO90.

Eis o que vai passar-se neste evento, onde o AO90 brilhará na escuridão que o envolve.

A 20ª edição do Correntes d’Escritas decorrerá na Póvoa de Varzim, de 16 a 27 de Fevereiro.

Além de Marcelo Rebelo de Sousa, o Correntes d’Escritas contará com mais de 140 escritores de 20 países (Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, Guatemala, Guiné Bissau, México, Moçambique, Nicarágua, Peru, Portugal, Republica Dominicana, S. Tomé, Timor e Uruguai).

Dos autores convidados, estão já confirmadas as seguintes presenças: um prémio Cervantes: Sérgio Ramírez (Nicarágua); três Prémios Camões: Arménio Vieira, Germano Almeida e Hélia Correia; cinco Prémios Literários Casino da Póvoa: Lídia Jorge, Ana Luísa Amaral, Hélia Correia, Manuel Jorge Marmelo, Juan Gabriel Vásquez (Colômbia); seis Prémios Saramago (e já todos os vencedores passaram por cá ao longo das várias edições): Paulo José Miranda, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e 8 ex-conferencistas de Abertura das Correntes: Nélida Piñon, Marcelo Rebelo de Sousa, José António Pinto Ribeiro, Álvaro Laborinho Lúcio, Adriano Moreira, Guilherme D’Oliveira Martins, Francisco Pinto Balsemão e Ignácio de Loyola Brandão.

A Conferência de Abertura desta edição, a 19 de Fevereiro, terça-feira, às 15h00, será proferida pelo Presidente da Conferência dos Chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Jorge Carlos Fonseca, que falará sobre “As Letras da Língua e a Mobilidade dos criadores na CPLP”. Um dos objectivos do actual presidente da CPLP é a mobilidade entre os países da Comunidade. Jorge Carlos Fonseca é também o Presidente da República de Cabo Verde.

(Logo Cabo Verde que passou a Língua Portuguesa para segunda língua, e adoptou o Crioulo Cabo-verdiano como língua oficial, em 2017).

Neste mesmo dia, às 11h30, vai realizar-se, no Casino da Póvoa, a Sessão de Abertura do Correntes, com o anúncio dos vencedores dos Prémios Literários 2019 e o lançamento da Revista Correntes d’Escritas nº 18, dedicada a Nélida Piñon. O Presidente da República presidirá a esta cerimónia.

Muitas outras iniciativas, além das Mesas (temas serão versos da Sophia de Mello Breyner, cujo centenário do nascimento se assinala este ano), vão coabitar neste 20º Correntes d’Escritas: a Feira do Livro (que promove edições acordizadas). As Galerias Euracini 2 vão acolher não apenas a Feira do Livro mas Exposições, Lançamentos de Livros, sessões com alunos do 1º ciclo e famílias, as Correntes DAR, pequenas conversas literárias e muitas outras conversas paralelas.

Serão lançados durante o Encontro meia centena de livros, destacando: “Correntes D’Escritas & Correntes Descritas” de Onésimo Teotónio Almeida, uma compilação das suas intervenções ao longo dos anos no Correntes D’Escritas.

A Arte terá um papel de destaque nesta edição e vai espalhar-se um pouco por toda a cidade com as mais variadas exposições. Palavras, Música e a musicalidade das palavras estão sempre presentes, desde a 1ª edição, no Correntes e este ano vários cantores, músicos e poetas darão voz às suas e às palavras dos outros em vários espectáculos.

Destaque ainda para a emissão em directo do Programa Governo Sombra, da TVI24, às 24h00 de 22 de Fevereiro, sexta-feira, com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, a partir do Cine-Teatro Garrett. Além deste, vários programas de Rádio e Televisão serão gravados durante o Correntes, como: Obra Aberta, da Rádio Renascença, Ensaio Geral, da Rádio Renascença e Todas as Palavras, da RTP.»

O programa completo pode ser consultado aqui:
https://www.cm-pvarzim.pt/areas-de-atividade/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2019/programa

[Inseri “links”.]

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A “condescendência do brasileiro”

Este artigo é já o segundo, praticamente de rajada, disparado por um jornal brasileiro sobre o mesmo tema: separar, de uma vez por todas, o Português do brasileiro, duas línguas tão parecidas entre si como o Italiano e o Espanhol, por exemplo, mas com estruturas gramaticais radicalmente diferentes, em todos os aspectos, construções frásicas, léxico e ortografia de todo inconciliáveis, para já não salientar questões de ortoépia e de prosódia (se quisermos abrilhantar a coisa com uns palavrões jeitosos, “tipo” ênclise ou próclise), de concordância em género, número e pessoa, tempo e modo, etc.

Até este ponto, pois muito bem, nada a assinalar, começa felizmente a vulgarizar-se a tomada de consciência — ou assumpção da realidade — entre as camadas mais ilustradas (ou minimamente instruídas, não exageremos) daquele “país-continente”, cuja incontinência verbal — ou caos linguístico, em síntese — se estende com toda a naturalidade por uma área equivalente a quase o dobro da da União Europeia, distribuída por  26 Estados e com uma população total a rondar os 209 milhões. Por exemplo, só este “pequeno” Estado do Paraná, onde se publica (não muito surpreendentemente) o jornal “O Paraná”, tem o dobro do tamanho de Portugal e mais um milhão e meio de alminhas do que aqui “a terrinha”, como “carinhosamente” chamam ao país dos “tugas” os zucas.

Porém, se até este ponto nada de relevante havia a declarar, quanto ao paranaense texto ora citado, já no que diz respeito a algumas afirmações nele contidas, nomeadamente quando a autora desata de repente a delirar, parece-me ser meu dever, por prudência, atendendo aos efeitos que tais delírios poderiam, caso fossem servidos de sopetão, acarretar a uma ou outra vítima inocente, ir avisando que tais pontuais porém reiteradas afirmações podem, como se fossem doses cavalares de SG Gigante, provocar efeitos nefastos na sua saúde, dar-lhe cabo dos dentes provocando cáries mentais (e  vice-versa) ou originar outros problemas de saúde aborrecidíssimos e avulso, pronto, fica o sanitário aviso. Recomenda-se, por exemplo, que feche os olhos quando vir a palavra “pharmácia” (já cá faltava a “pharmácia”, chiça, que a “pharmácia” até já chegou ao Brasil) ou quando chegar à parte em que ela, a autora, a Jocimar, conta uma “istorinha” em que relata certa discussão com sua patroa portuguesa.

Ahahahahahah (isto sou eu a rir, señorita Jocimar) essa foi muito engraçada, manda mais.

Brasileiro não é Português, é facto!

PDi Publicador Digital Inteligente – MSWI Soluções Web Inteligentes
oparana.com.br, 08.02.19
Jocimar Bertelli

 

Outro dia (15/01/2019), lendo os artigos de opinião deste jornal, tive o prazer de ler o ótimo texto do Sr. Amorin sobre O acordo ortográfico em Portugal, que discorreu muito bem sobre a situação do acordo, feito sem o interesse da população e, por isso, com poucas possibilidades de funcionar.

Infelizmente, governantes que não fazem um estudo cultural e não solicitam a opinião da população, utilizando um plebiscito, por exemplo, promovem “reajustes” irreais para a sociedade fadados ao fracasso.

Não seria preciso, mas reitero que os livros editados em Portugal de Pessoa e Camões, por exemplo, citados no artigo anterior, são lidos nas escolas brasileiras com facilidade e raramente um aluno questiona a linguagem encontrada. Parece-me que o olhar dos brasileiros rapidamente se adapta às palavras como: “pharmácia”; “directoria”; ou mesmo ao “rato” do computador que, para nós, é falado usando como referência a língua inglesa: mouse.

Assim, concordo com o que o escritor Amorin relatou, a única observação que gostaria de fazer é em relação ao final do texto, em que ele diz que: “O português não é exatamente o mesmo que o nosso, há diferenças, sim, mas não há necessidade de tradução […] porque a compreensão é completamente possível”. Pois bem, nesse ponto peço-lhes licença para apresentar a minha experiência como escritora informal em Portugal e demonstrar que talvez o português não tenha a mesma condescendência que o brasileiro.

(mais…)

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