Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: cAOs

A volta do y, do k e do w [Ruy Castro, “DN”, 02.09.18]

Este texto, se bem que primorosamente escrito, e com o devido respeito para com o autor, deve ser lido com pinças mentais, de tal forma é disparatado, superficial, frívolo ou, condensando tudo num único adjectivo, isto é, abreviando, parvo.

Contém, no entanto, algum substrato histórico, o qual sobrepuja em curiosidade as piadolas que elegantemente aloja. E vale por um parágrafo quase lapidar, eriçado pelo conformismo arrogante de quem está muito longe do assunto:
«Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.»

 

A volta do y, do k e do w

Ruy Castro

Durante quase três anos, no começo dos anos 1970, vivi numa espécie de semi-ilegalidade em Lisboa. Tinha morada e emprego fixos e trazia todos os documentos em ordem e os impostos em dia. Mas carregava um nome que, apesar de ser composto de apenas três letras, continha uma que estava fora da lei: o y. Naquela época, num país de quase dez milhões de habitantes como Portugal e com milhares de cidadãos chamados Rui, eu devia ser um dos poucos Ruy – ou único, já que não conheci outro. Não seria isto a me obrigar a andar de cabeça baixa pelas ruas do Bairro Alto, mas eu sempre percebia uma sensação de estranhamento ao passar a alguém um papel ou cheque assinado com aquele arcaico e defunto y, de que Portugal já se livrara havia décadas.

Sim, Portugal decretara o fim do y (e do k, do w, do ph, do th, dos mm, dos mn e dos nn) na sua grande reforma ortográfica de 1911 – que o Brasil, teimoso e desobediente, não seguira. Com isso, naqueles primórdios do século, o milenar Portugal já modernizara a sua língua enquanto o Brasil, que se julgava avançado e do Novo Mundo, continuara a escrever coisas como phonographo, Nictheroy e hypertrophia. Para piorar, condenara seus Ruys a um lado do Atlântico enquanto os Ruis ficavam do outro.

Bem, sendo brasileiro no Brasil ou fora dele, eu me sentia autorizado a levar o meu y para onde quer que fosse – afinal, estava escorado pelas leis de meu país. Mas, na verdade, não estava. Em 1943, o Brasil adotara um novo formulário ortográfico que finalmente incorporara muitas das determinações portuguesas de 1911, entre as quais o banimento do y, do k, do w, dos ph e th e das consoantes dobradas. Donde, de um instante para outro, haviam surgido no Brasil palavras como fonógrafo, Niterói e hipertrofia. E os Ruys, passado a nascer Ruis.

Pelo menos, era isso o que dizia a lei. Mas, como todos no Brasil sabemos, as leis são como vacina – umas pegam, outras não. Eu, por exemplo, que nasci em 1948, já sob a vigência do dito formulário ortográfico, ainda fui registado como Ruy. Como foi possível? Duas hipóteses: na ida ao cartório, meu pai – um legítimo Ruy de 1910 -, ao passar seu nome para mim, pode ter exigido que seu y fosse respeitado. Ou foi o próprio tabelião, talvez já idoso e cansado, que, habituado a registar Ruys, cravou-me displicentemente o y. E, sendo o Brasil como é, atravessei toda uma atribulada vida escolar, troquei várias vezes de documentos, comecei a assinar artigos em jornais ainda na adolescência e nunca fui solicitado a me tornar Rui.

E assim fomos levando, mas confesso que achava injusto viver com o meu nome na ilegalidade. Se o Brasil era um país cheio de gente legalmente registada como Kléber, Karen, Kátia, Wilson, Wallace e Washington, como o y, o k e o w podiam ser considerados ilegais?

Pois esse problema foi resolvido pela reforma ortográfica de 2009, que visou “unificar” a língua. Tanto quanto os portugueses, eu a detestei. E tanto que não a adotei – continuo até hoje a escrever como escrevia, e os revisores dos jornais e editoras para os quais trabalho que façam as correções, se quiserem. Nunca me conformei com o fim dos hífenes, dos tremas, de certos acentos agudos e com a aparição súbita na língua de palavras como autorretrato, antissocial, coirmão e coerdeiro.

Mas, numa coisa, tenho de ser grato à nefanda reforma. Ela trouxe de volta o y, o k e o w. Não sei o que motivou essa exumação, mas aí estão de novo, pimponas e lampeiras, as três letras que levaram quase um século excomungadas. Não acredito que, por causa disso, em Portugal, os novos Ruis nascerão Ruys. No Brasil, onde se encaixam yy em qualquer nome – o país abunda de Dayanes, Thyagos, Rycharlysons e outras cafonices -, tenho a certeza de que sim.

A volta do y poderá significar até um renascimento do nome Ruy entre os brasileiros. Porque, enquanto Portugal nunca deixou de produzir uma legião de Ruis, o nome Ruy no Brasil parecia estar se tornando um daqueles que em breve só seriam encontrados em cemitérios.

 

Escritor e jornalista brasileiro, é autor de, entre outros livros, Carnaval no Fogo – Crônica de Uma Cidade Excitante demais, sobre o Rio (Tinta-da-China).

[Transcrição integral de “A volta do y, do k e do w” , da autoria de Ruy Castro, publicado no A ortografia do original, sendo o autor brasileiro, não foi, para variar, automaticamente corrigida. Imagem de topo de: “na mira” (Brasil). ]

Share

Feira do Livro do Porto 2018

Jornal da Feira do Livro do Porto 2018

Published on Aug 30, 2018

A inquietação é o tema dominante do grande festival literário deste ano, que homenageia o cantautor José Mário Branco nos 50 anos de carreira. Os assuntos ligados à sua obra – liberdade, amor e sublevação – são percorridos pelos debates, sessões de spoken word e lições comissariados por José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Entre 7 e 23 de Setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, há também um ciclo de cinema, três exposições, várias sessões especiais e ainda numerosas oficinas, acções de programa educativo e de animação.

[Imagem de topo de: CMP]

Share

«Os livros e os papéis que vão para o lixo» [JPP, “Público”, 28.07.18]

Os livros e os papéis que vão para o lixo

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar.

José Pacheco Pereira
“Público”, 28.07.18

Livros são uma das coisas que nos nossos dias têm mais probabilidade de ir parar ao lixo. Não exagero, é mesmo assim. As razões são cada vez mais habituais: despejos ou mudanças de casa sob a pressão das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez não têm espaço para os livros, divórcios, falecimentos, e “os meus filhos não se interessam por isto”. Não me cabe julgar, até porque estou consciente do drama que muitas vezes é esta separação de alguém dos livros de uma vida.

Mesmo quando são oferecidos a bibliotecas ou instituições, a resposta habitual é que não os querem. Conheço muitas destas histórias e podem-se compreender algumas das razões da recusa, e saber que, nalguns casos, não existem mesmo condições para os receber — nem pessoal para os tratar, nem espaço para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto é verdade. Mas estes “nãos” são também favorecidos por uma concepção “moderna” do que é uma biblioteca pública, com muita animação, Internet, jogos, música e DVD, e com uma enorme dificuldade em pôr as pessoas a ler livros. É um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contemporâneo de distracções e rapidez, actividades “lentas” e silenciosas como a leitura.

Não é uma questão de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvalorização do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que não às ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em função da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou vão de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem também para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.

Esta desvalorização do carácter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a considerá-los um “peso morto” que ninguém consulta. Também não tem de ser assim, porque há maneiras de dar vida ao “morto” com vontade e imaginação. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotecários fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes há décadas, sem nunca terem visto um olhar humano, são particularmente interessantes. Também não me custa perceber que a mesma falta de imaginação nas bibliotecas é o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investigação nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investigação sobre a “má” poesia (em edições de autor, mas não só), que enche estantes sobre estantes, por que é que é “má”, por que é que é escrita, é escrita por quem e quem é que acha que deve gastar dinheiro a publicá-la. Suspeito que algumas respostas não são as que pensamos ser óbvias.

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar. Já se salvaram muitos e continuamos a fazê-lo, mas também já fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E não estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se é que há disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que não são ajuntamentos, e que contêm critérios de selecção e sinais da identidade de quem as fez, dedicatórias, notas nos livros, coerência entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e papéis únicos, correspondência, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa história. A micro, mas também a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que estão a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcionários coloniais, que estão a morrer e, com eles, parte da nossa história “ultramarina”. Voltaremos noutra altura aqui.

Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

A fotografia acima mostra parte da pilha e engana. Havia à superfície manuais escolares (aliás, novos) e números do National Geographic, até porque é provável que haja mais do que uma origem para a pilha, mas por baixo estava uma muito boa biblioteca de História, com edições raras, dedicatórias, obras completas de vários volumes, uma muito boa secção de monografias locais, com relevo para Lisboa e a sua região, livros de ficção portuguesa e estrangeira, com destaque para edições dos anos 1940 e 1950, e o mais que adiante se verá, visto que apenas cerca de 10% do total foi visto e às pressas.

Tivemos sorte, pois não choveu e chegámos uma semana antes de os livros regressarem ao seu estado original de polpa de papel. Não tenho dúvidas de que, um pouco por todo o lado, é o que está a acontecer.

José Pacheco Pereira

[Transcrição integral de Os livros e os papéis que vão para o lixo” | Opinião | PÚBLICO, 28.07.18. A imagem no corpo do artigo é do autor, alojada no “site” do jornal. Destaques meus. Imagem de topo de: “Ephemera“.]

Share

“Os curiosos protagonistas do activismo” (…)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Ilustremos o paradigma (ou axioma, vá) com um caso flagrante de “consumidora de causas” que aterrou de pára-quedas na ILC-AO: fazia ela então uma campanha chamada “destrua as ondas, não as dunas” (acho que era qualquer coisa assim, se não era isto exactamente era algo igualmente exótico), até tinha um “blog” sobre a matéria (seja lá isso o que for), até tinha um grupo no Facebook (olha, mas que original, hem, grande surpresa, não estava nada à espera) e até tinha, por fim, uma “ideia” para propor à ILC: ela faria campanha pela ILC e, em troca, a ILC fazia campanha pelas dunas…» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.» [Inactivismo (2)]

Os curiosos protagonistas do activismo verde

 

Revista “Sábado”, 28.07.2018
Maria Henrique Espada

Há “associações” que não passam de páginas de Facebook, ligações ao BE, grupos dentro de grupos e até uma comunidade pelo sexo livre nos protestos contra o furo de Aljezur. E há movimentos com outra estrutura que admitem que isto põe um problema de credibilidade aos ambientalistas.

————————–

Alentejo Litoral pelo Ambiente. É um dos promotores da manifestação de 14 de Abril, em Lisboa, “Enterrar de vez o furo, tirar as petrolíferas do mar”, e primeiro signatário da carta aberta a pedir a demissão do ministro do Ambiente. Ora, o que é o ALA? Não tem site, apenas uma página de Facebook gerida por Fátima Teixeira, que, na sua própria página de Facebook indica gerir ainda outra página, a Plataforma Transgénicos Fora, e trabalhar no Tamera – a comunidade alternativa do Sudoeste Alentejano, que, no seu site, no segmento “Investigação”, a par da Terra Deva (“ecologia espiritual”), exibe também referências à “sexualidade como poder sagrado”, “sexualidade e parcerias livres”, e conceitos mais difíceis de traduzir a leigos (“Ashram Político”, “Círculo das Pedras”, “Marisis”). Fátima Teixeira esteve a 21 de Abril a representar o ALA no debate Ainda é possível Parar o Petróleo?, em Vila Nova de Milfontes. E o Tamera, por sua vez, também foi um dos movimentos promotores da manifestação de dia 14.

Contactada a página de Facebook do ALA, quem respondeu afinal foi Eugénia Santa Bárbara, que em 2017 participou no protesto na marginal de Sines em que cerca de 10 pessoas se pintaram com tinta de choco para “simular um derrame de petróleo” e dizer não ao furo. Acabou por não ser possível o contacto (nunca por falta de disponibilidade da SÁBADO), e apenas ficou claro numa mensagem que o protesto de 7 de Julho, um cordão humano nas praias contra o furo, estava a ser organizado por outras pessoas, “os movimentos e organizações apoiam e divulgam”. Em resumo: o ALA é uma página de Facebook, com alguma ligação ao Tamera, e não parece ter corpos sociais nem foi possível saber se são 10 ou 100. E pelos vistos só deu o nome.

(mais…)

Share

«O saneamento de Os Maias» [Manuel Alegre, “Público”, 26.07.18]

http://bibliografia.bnportugal.pt/bnp/bnp.exe/registo?1819606https://leituracom.blogs.sapo.pt/2470.html?thread=351654Eu li o livro ” Anedotas de morrer a rir do Versinho e da Kapinha ” e aconselho-o a todos que gostem de anedotas.
As escritoras são: Maria João Mergulhão, e Maria da Graça Dimas;
A editora é: Verso de Kapa;
A 1ª edição foi em fevereiro de 2011;
Este livro tem vários tipos de anedotas como: Anedotas de alentejanos, Anedotas de médicos e doenças, Anedotas sobre a escola, Anedotas de loiras, Anedotas de desporto, entre outras. E por isso divirtam-se a ler.
Daniel nº4 7ºA
[https://leituracom.blogs.sapo.pt/2470.html?thread=351654]

O saneamento de Os Maias

Desiste-se da Escola Pública. Mas também do SNS, cada vez mais descaracterizado e reduzido a um serviço caritativo para pobres enquanto florescem as mil flores dos hospitais privados para quem pode pagar.

Manuel Alegre
“Público”, 26.07.18

 

Depois de ler o artigo de Carlos Reis sobre o “saneamento” de Os Maias, pergunto-me se Portugal não estará a desistir de si mesmo, da sua literatura, da sua língua, da sua Escola Pública?

Os mais pobres, aqueles cujos pais não têm biblioteca em casa, não vão ler Eça de Queiroz, nem Garrett, nem Camilo, nem, pelos vistos, Cesário Verde. Fica para os colégios privados, a quem parece estar a deixar-se a preparação das futuras elites. À Escola Pública restará a leitura rápida de textos fáceis e curtos, ao contrário de uma cultura de exigência sem a qual jamais poderá cumprir o seu papel de ser um factor de igualdade de oportunidade para todos. Mas, enfim, Os Maias, como as Viagens na Minha Terra e o Amor de Perdição colidem com o facilitismo, não há espaço nem tempo, não cabem num SMS.

Desiste-se da Escola Pública. Mas também do SNS, cada vez mais descaracterizado e reduzido a um serviço caritativo para pobres enquanto florescem as mil flores dos hospitais privados para quem pode pagar. Como é que não se consegue travar a drenagem do SNS para o privado? Como é que se deixa degradar a TAP e os CTT a um ponto nunca visto? E como é que sectores estratégicos da economia continuam em mãos de empresas chinesas que são, como se sabe, instrumentos de um Estado que não é o nosso?

Vão com certeza chamar-me soberanista e um dia destes ainda vou ter de pedir desculpa por ser português, gostar do meu país, da sua língua (apesar do acordo ortográfico), dos seus Os Lusíadas e daqueles navegadores que segundo disse Amílcar Cabral, numa entrevista que lhe fiz para a Voz da Liberdade, “deram de facto novos mundos ao mundo e aproximaram povos e continentes”? Sim, eu sei que há limites para o voluntarismo e para uma “intervenção consciente num processo histórico inconsciente”. Mas também sei que foram a abdicação, o conformismo e o politicamente correcto que abriram caminho à vitória de Trump e de todos os populismos que estão a pôr em causa o que parecia definitivamente adquirido. Vejo a pavonearem-se por aí, em várias alas direitas, ex-esquerdistas que, no Verão Quente de 75, queriam substituir Camões pelos textos de dirigentes dos movimentos de libertação africanos.

Alguns de nós, que tínhamos estado presos e exilados por nos opormos à guerra e ao colonialismo, não nos calámos nem deixámos sanear Camões. Também hoje não sou capaz de me resignar perante esse atentado à cultura e à Escola Pública resultante da abdicação do Ministério da Educação que remete para as escolas a decisão de eventualmente passar Eça de Queiroz à clandestinidade.

Ao primeiro-ministro e ao Presidente da República cabe o cumprimento da Constituição no que respeita à defesa da língua e da Escola Pública. Gostava de saber o que pensam da retirada de Os Maias da “lista de obras e textos para a Educação Literária” no 11.º ano. Sei que há muitos números e contas a fazer até à aprovação do Orçamento de Estado. Mas gostem ou não, nada é tão prioritário como Eça de Queiroz e Os Maias.

[Transcrição integral de: O saneamento de “Os Maias” | Opinião | PÚBLICO.]

Share

«Ascensão e queda dos pontinhos voadores» [Nuno Pacheco, “Público”, 26.07.18]

Ascensão e queda dos pontinhos voadores

Os “pontinhos voadores”, como os brasileiros também chamam ao trema, ainda voam por aí. Mesmo proibidos.

Nuno Pacheco
“Público”, 26 de Julho de 2018, 7:30

 

O assunto é antigo, mas regressa amiúde. No jornal brasileiro O Povo, de Pernambuco, o jornalista Elves Rabelo, que costuma escrever sobre questões linguísticas, publicou um artigo intitulado “Sem trema, a lingüiça não tem mais sabor”. Um excerto: “Com a morte do trema, o sequestro virou banal, a liquidação perdeu a graça e a língua ganhou mais uma armadilha. Agora, lingüiça, seqüestro, liqüidação e tantas outras palavras não são mais escritas com o sinal, passando a ser grafadas assim: linguiça, sequestro e liquidação. Contudo, segundo as novas regras, a pronúncia continua a mesma.” Este “agora” já tem algum tempo porque, sendo o artigo recente, a abolição do trema no Brasil (abolição que muita gente não respeita, diga-se) coincidiu com a entrada em vigor do chamado Acordo Ortográfico de 1990, no caso brasileiro em Janeiro de 2016. Mas em Portugal caiu antes.

Muito antes, até. Visto pelo dicionário, o trema é um “sinal ortográfico (¨) indicativo de que a vogal que o recebe não forma ditongo com a anterior; sinal de diérese; ápices; cimalhas”. Em Portugal teve uso irregular e esparso, não se encontrando em muitos livros. D’Silvas Filho, num artigo publicado em 1998 no Ciberdúvidas, lembrou que em 1911 se recomendava a substituição do trema pelo acento grave (ex.: “agùentar”), voltando-se ao trema numa portaria de 1920 (ex.: “agüentar”), para depois o suprimir de vez em 1945. E é verdade. Consultando, por exemplo, o livrinho Nova Ortografia Portuguesa (ed. Gazeta das Aldeias, Porto, 1911) lá está: quente, quinta, quando o U é mudo; mas freqùência, eqùestre, eqùidade, quando o U é aberto, lendo-se pois, em equidade, u-i e não ui.” Mas logo o Acordo Ortográfico de 1945 se impôs, proibindo tudo. Lendo, por exemplo, uma edição brasileira do AO de 1945 (Jornal do Commercio, 1947) lê-se nas bases analíticas (XXVII): “O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido nas palavras portuguesas ou aportuguesadas. Nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas vogais que normalmente formam ditongo: saudade e não saüdade, ainda que tetrassílabo.”

Ora no artigo brasileiro do jornal O Povo, lê-se a dada altura esta declaração de Ernani Pimentel, professor de Língua Portuguesa e crítico do AO90: “Em entrevista à Agência Brasil, ele disse que ‘é absurdo ter tirado o trema, porque o acordo é ortográfico, só pode mexer na escrita, e o trema não é ortográfico, é ortofônico (é um sinal que significa que a letra sobre a qual há trema se pronuncia). Ele [o Acordo] mudou a pronúncia”. Curioso, isto, porque a ideia de que um sinal “é ortofónico” (“ortofônico” no Brasil) coincide com as críticas de que a abolição das ditas consoantes mudas em Portugal e de uma série de diacríticos levarão (estão já a levar, aliás) a alterações significativas na fala. Um exemplo, antigo: a queda do trema (ou do acento grave, em sua substituição) levou a que saudade já se diga só sôdade ou sòdade. O U aberto foi-se com o mesmo vento que levou o trema.

Simplificar ou complicar? No Brasil, por exemplo, o U é aberto em liquidar (“li-qu-i-dar”), mas em Portugal é fechado, não se lê. E há mais exemplos desta oscilação adivinhatória. Simplificar é, pois, memorizar? Há quem ache que sim, quase sempre pelas piores razões.

Voltando ao citado artigo de D’Silvas Filho, encontra-se esta curiosa conclusão: “O trema é útil. Devia, por isso, pelo menos, ser facultativo no novo acordo”, devendo nós “poder escrever reütilize, agüentar, saüdade, etc.” O Brasil, por sua vez, trata isto como trata tudo: com humor, como se pode ver nos exemplos aqui reproduzidos. É que os “pontinhos voadores”, como os brasileiros também chamam ao trema, ainda voam por aí. Mesmo proibidos.

[Transcrição integral de: Ascensão e queda dos pontinhos voadores | Opinião | PÚBLICO, Nuno Pacheco, 26.07.18. “Links” meus. Imagem de topo da autoria de Orlandeli.]

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme