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«O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão» [João Esperança Barroca, “Público”, 26.03.21]

O busílis da questão, algo que na propaganda acordista passa por anátema amaldiçoado, é a fronteira que a língua brasileira, queiram ou não queiram, já atravessou: à semelhança do que sucedeu em relação ao Latim, com o Português, o Espanhol ou o Francês, por exemplo, a progressiva autonomização acabou por conduzir à inerente e inevitável independência; o fenómeno, salvas as devidas distâncias mas também consideradas as respectivas similitudes, é válido para as línguas assim como para os países. O Brasil adoptou o Português como língua-franca de 1500 em diante e, a partir do momento em que declarou a independência política, em 1822, o país acelerou também o processo de autonomização cultural terminando, a partir de finais do século XIX, por desenvolver de igual modo a sua independência linguística.

Ao invés do que sucedeu com a independência política, que foi súbita e rápida (e simbolicamente liderada por um filho do rei português, nem de propósito), a independência linguística resultou de um processo relativamente lento mas inexorável: paulatinamente, a língua brasileira afastou-se cada vez mais da sua matriz portuguesa e acabou por se transformar tão radicalmente que — por exemplo — qualquer português que diga alguma coisa num canal de TV brasileiro tem de ser legendado.

Tornou-se já virtualmente impossível fingir que um texto brasileiro está redigido em Português; será algo parecido, quando muito, mas ainda mais parecido com o Português é o Galego e afinal pouco diferem da nossa Língua o Espanhol ou o Italiano. Simples diferenças nominais ou ligeiras variações lexicais já não passam de mera bizarria, vulgar e extremamente frequente, no meio de uma floresta com todo um outro sistema comunicacional: além de outra semântica, outra sintaxe, outra semântica, outra prosódia, ou seja, por extenso, toda uma outra Gramática.

Os títulos de filmes ingleses e americanos no Brasil, além de apenas mais um pequeno pormenor, um galho de uma das árvores da floresta linguística (ou do bosque gramatical), são para qualquer português motivo de chacota, quando não de pura risota.

Não seria mau, portanto, que uma obtusidade anedótica como o AO90 servisse em exclusivo os fins para os quais foi inventado: promover os interesses económicos e geopolíticos do Brasil utilizando a língua brasileira como truque de legitimação expansionista, baptizando fraudulentamente essa língua alienígena como “português universal”; “português” de nome, é claro, e “universal”, sim, mas de um “universo” que não vai além das paredes do Palácio do Planalto e dos lisboetas Passos Perdidos.

A língua brasileira separou-se da Língua Portuguesa, então adeus, boa sorte, como sucede em qualquer separação apenas resta a uma das partes desejar à outra que tenha sucesso no seu caminho.

Seria bom, seria excelente, seria magnífico que não roubassem os gatunos de cá e de lá, neo-imperialistas e vigaristas, aquilo que foi por nós originalmente manufacturado e que usamos há séculos, essa nossa antiquíssima, riquíssima, sólida e honesta ferramenta, o cinzel com que escrevemos a História do futuro.

O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão

A quimera da unificação ortográfica foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Mas basta ler Jorge Amado para corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

João Esperança Barroca
26 de Março de 2021, 17:00

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“O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível. E ainda bem.”
Do blogue Apartado 53, 30-01-2021

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“Acordo Ortográfico, não! Começámos a tirar consoantes às palavras, quando, no Brasil, elas continuam a existir. É ridículo, não é nenhum acordo, é uma grande aldrabice! Sou absolutamente contra. Tenho muita esperança de que se consiga corrigir a grande borrada que foi essa invenção.”
Lena d’Água, cantora, vencedora do Prémio José Afonso 2020

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“Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

“Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos.[…] Língua portuguesa do Acordo Ortográfico? Nem como anedota. As culturas portuguesa e brasileira talharam o idioma à sua medida. É por isso que o romance Wuthering Heights1, de Emily Brontë (1818-1848) se chama por cá Monte dosVendavais e no Brasil, O Morro dos Ventos Uivantes (que é, aliás, a tradução dada pelo tradutor automático da Google). Ou que o filme de Robert Wise The Sound OfMusic (1965) ganhou por título em Portugal Música no Coração e no Brasil foi titulado como A Noviça Rebelde. Isso pode ser comprovado em milhares de livros e filmes, onde cada tradução segue o caminho que lhe ditam os costumes e coloquialismos locais.”
Nuno Pacheco, no jornal Público, em 11-02-2021

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A quimera da unificação ortográfica, a maravilhosa língua unificada foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Essa unificação, imprescindível à expansão e difusão do português, abriria, diziam eles, as portas da ONU, por onde a língua entraria, triunfante, como língua de trabalho, a par do inglês, do francês, do russo, do chinês, do espanhol (castelhano, mais propriamente) e do árabe.

Nuno Pacheco já afirmou um sem-número de vezes que essa língua não existe e como tal, é impossível escrever nela. Por razões que não vêm agora ao caso, o autor deste escrito teve necessidade de reler, há pouco tempo, a obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá do escritor brasileiro Jorge Amado. A versão consultada foi a 11.ª edição, de Outubro de 2005 (em tudo igual aos excertos existentes nos manuais escolares), das Publicações D. Quixote, e essa leitura obriga-nos a corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

Vejamos, então, vários factos (e também alguns fatos de que falava Santana):

– praticamente no início da obra, na página 16, encontramos a interrogação “Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado?” Na variante europeia do português grafaríamos porque e tolo ou parvo (em vez de “bobo”). A mesma situação com o advérbio interrogativo surge ainda na página seguinte no excerto “Mas por que não falar também de inegáveis qualidades?”;

– no excerto da página 18 “… suicidou-se, enforcando-se nos ponteiros, por não mais suportar a lentidão da Manhã…” o advérbio (de quantidade, intensidade ou grau) no português europeu surgiria depois do verbo “suportar”;

– na página 19, lemos “… pouco afeita a regras e códigos, ela o fazia esquecer por alguns momentos a suprema chateação da eternidade e a bronquite crônica.” Este excerto em Portugal seria escrito, talvez, assim: … pouco habituada a regras e códigos, ela fazia-o esquecer por alguns momentos o supremo aborrecimento da eternidade e a bronquite crónica;
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Roteiro da Engenharia Linguística

Roteiro da Engenharia Linguística
1. O totalitarismo obscurantista manipula os cidadãos através da Novilíngua, a única versão da língua consentida pela classe dirigente (o “Grande Irmão”).
2. Esta língua, inventada pelo Partido único, que é omnisciente e omnipresente, assemelha-se ao grasnar, ou seja, reproduz sons repetitivos que lembram o quá-quá-quá dos patos, sem qualquer significado inteligível e implicando que o falante/escrevente não raciocine de forma alguma.
3. Excluído o raciocínio, isso implica a anulação completa da inteligência na comunicação (inexistente) e permitindo em simultâneo que a maior imbecilidade ou a mais inacreditável das vacuidades soem como ideias “geniais” ou “brilhantes”.
4. Sistematicamente bombardeados por esta verborreia embrutecedora, os cidadãos acreditarão com fervor religioso — de forma acrítica, passiva e acéfala — em qualquer fábula, mentira ou invenção, sem jamais se questionar e sempre desprezando violentamente os factos que, por regra, não interessam ao Partido e ao Grande Irmão.
5. Escapar ou sequer tentar escapar à Novilíngua é Crimepensar, ou seja, é um delito gravíssimo, algo interdito e violentamente perseguido no “Novo Normal”; conduz inevitavelmente à ostracização — a nova forma de prisão, sem muros nem carcereiros mas com muito maior isolamento: implica despedimento sumário e exclusão total de qualquer dos tipos de  interacção social (incluindo a familiar).
6. A Novilíngua serve para tornar conforme os ditames infalíveis do Grande Irmão e para adaptar a versão dos acontecimentos ou factos consoante mais convier ou der jeito ao Partido. A História, por exemplo, está em permanente revisão, pelo que nem um nem outro alguma vez se enganaram, no passado, ou cometem erros no presente. Se porventura houver ou tiver havido algo a corrigir, pois bem, é muito simples, corrige-se, basta reescrever a História, apagar o que não interessa, destacar ou eliminar previsões consoante o que vier a suceder na realidade.
7. A conformidade terminológica implica a adaptação dos factos, os quais, recauchutados segundo os ditames do Partido e utilizando a Novilíngua como mecanismo de sintetização, servirão para conferir uma absoluta conformidade ideológica ao todo —  uniforme mas tripartido — que subtilmente cria uma nova Trindade: Grande Irmão, Partido, Novilíngua.

 
O AO90, reduzindo isto à nossa minúscula mas grandiosa dimensão (linguística, histórica, patrimonial), é a Novilíngua que a classe dirigente (a dos “homens de negócios”) nos quer impingir. Comparativamente falando, em termos de dimensão o MPC (Manual Politicamente Correcto) seria uma brincadeira de crianças.

Mas, salvas as devidas distâncias, também não é brincadeira nenhuma.

Politicamente correcto ou fascismo linguístico?

“Sol” 21.03.21

Neutralizar os substantivos, alargar a lista de géneros, substituir ‘a’ e ‘o’ por ‘@’, ‘*’ ou ‘X’. O caminho do debate sobre a questão da língua inclusiva já é longo. Mas onde nos vai levar? Atualmente, assistimos a várias propostas e mesmo alterações linguísticas com o objectivo de aumentar a inclusividade e a neutralidade nos discursos, tanto em Portugal como no resto do mundo.

 

Na Universidade de Manchester pretende-se abolir todas as definições binárias. ‘Mulher/homem’ é substituído por ‘pessoa’; ‘senhoras/senhores’ por ‘toda a gente’; e, o mais polémico, ‘mãe/pai’ por ‘progenitor’ ou ‘guardião’ (que em português têm os dois géneros, mas em inglês são palavras neutras). Em Nova Iorque existe uma lista de 31 géneros e é possível o registo civil com terceiro género. O_caminho vem sendo percorrido há mais de uma década. Já em 2008 o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre a linguagem neutra em termos de género. Actualmente, em Portugal ouve-se falar de Acordo Queerográfico e de um novo manual linguístico de inclusão por parte do Conselho Económico e Social (CES).

Mas será a utilização de um género neutro uma forma de promover a inclusão e de afastar percepções desactualizadas sobre homens, mulheres, pessoas com deficiências e grupos minoritários ou estaremos diante um conjunto de artifícios do politicamente correcto que complicam a comunicação e a linguagem?

Daniel Cardoso, investigador nas áreas não-monogâmicas consensuais, BDSM, género e sexualidade considera que só é possível, verdadeiramente e partindo de uma posição democrática, ser a favor deste tipo de directrizes linguísticas.

«O que estamos nós no fundo a dizer se formos contra a inclusividade no discurso e contra a inclusividade na linguagem? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de comunicação? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de democracia?», questiona. Para o investigador, a única posição «politicamente responsável» é a favor da inclusividade como um dos grandes princípios básicos da democracia.

Universidade de Manchester: ‘Já não era sem tempo!’

Daniel Cardoso encontra-se no Reino Unido, na Manchester Metropolitan University, a poucos quilómetros da sua concorrente Universidade de Manchester. As directrizes da segunda universidade que baniu algumas palavras do vocabulário dos funcionários sempre que tenham de falar em nome da instituição, com o objectivo de neutralizar géneros e contribuir para a inclusão, não são uma realidade invulgar naquele país. De resto, a mudança há muito que está em curso – e não só no Reino Unido. Já em 2008, o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre linguagem neutra em termos de género que fornecessem conselhos práticos em todas as línguas oficiais. Objectivo: adoptar uma linguagem justa e inclusiva de género.

Daniel Cardoso defende que estas alterações nas universidades e instituições europeias têm sido, na esmagadora maioria dos casos, recebidas com uma certa naturalidade, já que o inglês tem muito menos marcas de género linguístico na ortografia e gramática do que o português. «O português marca de forma generalizada substantivos, adjectivos, mas o inglês não funciona assim. Tem uma forma pronominal neutra embutida no funcionamento da linguagem e portanto, todas estas questões que às vezes parecem muito contenciosas, na verdade são simplesmente mais um detalhe, mais um pormenor a afinar», afirma.

E não esconde a sua satisfação: «Já não era sem tempo. Que bom que estas instituições estão finalmente a rever os seus processos!», congratula-se.

Mas aquilo que o investigador da Manchester Metropolitan University considera ser linguagem inclusiva, para Helena Matos, professora, jornalista, escritora e colunista do Observador, é «o dialecto dos novos bárbaros». «As palavras geram actos e nós usamo-las para nos relacionarmos, mas não para construirmos realidades», comentou na TVI24, «Seria inconcebível que cada um dos diversos conselhos e órgãos do Estado tecesse manuais sobre como devemos comunicar», rematou. Em artigo no Observador manifestou o seu profundo desacordo com as alterações que têm sido propostas: «Não sou progenitora. Sou mãe. Não sou companheira. Sou mulher de», escreveu na crónica ‘Obviamente desincluída’, publicada no dia 14 de março.

CES: Novo manual de linguagem inclusiva

O Conselho Económico e Social apresentou um novo manual de linguagem para tornar a comunicação interna e externa mais neutra e inclusiva. No documento encontram-se vários exemplos que passam por evitar o género masculino, ou utilizar os dois géneros promovendo a igualdade entre homens e mulheres.

Sara Falcão Casaca, socióloga, vice-presidente da CES e uma das contribuidoras da proposta para uma linguagem neutra e inclusiva, defende que «a linguagem reflecte as concepções dominantes de cada contexto sóciocultural, de cada tempo histórico e ainda uma visão assimétrica das mulheres e dos homens, uma valoração desigual que se expressa na invisibilidade das mulheres». A socióloga confia que se colectivamente nos empenharmos em conferir igual visibilidade a mulheres e a homens na linguagem, do ponto de vista simbólico estaremos também «a veicular novas representações sociais – representações igualitárias sobre o seu valor e estatuto social».

Daniel Cardoso acrescenta que não só se assiste a uma invisibilidade feminina, como também uma invisibilidade de outros géneros não binários. E a linguagem tem o poder de alterar isso: «A linguagem é, foi e será algo vivo, algo que se adapta às mudanças que existem na sociedade e, por outro lado, fez, faz e fará parte de um conjunto de ferramentas e abordagens, para provocar mudanças no mundo», declara.
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Sine qua non

Vitral Mercado Municipal São PauloMercado Municipal de São Paulo

Existem duas teses: uma que em teoria postula a “correcção” (ou a “revisão“, segundo a terminologia de alguns anti-acordistas) e a outra que na prática visa a anulação pura e simples do AO90. Ou seja, há quem pretenda justificar o injustificável socorrendo-se de fábulas mirabolantes e há quem apenas pretenda a oposição determinada, primeiro, a recusa liminar, segundo, e a destruição, por fim, de qualquer veleidade neo-colonialista do Brasil e dos seus capangas portugueses.

A língua nacional do Brasil, o brasileiro, resultou primeiramente da colonização portuguesa e subsequentemente de um (relativamente) rápido processo de miscigenação linguística, compreendendo esta a  incorporação das línguas indígenas e em simultâneo as dos contingentes migratórios. Tal processo natural de progressiva autonomização, que perdurou por mais de quatro séculos, terminou na constituição de um “corpus” linguístico próprio e distinto sob todos os pontos de vista: lexical, semântico, prosódico (pronúncia, ortoépia) e ortográfico. Essa progressiva mas terminante (e determinante) autonomização terminou, pela simples ordem natural das coisas, em inexorável e irrevogável independência, ou seja, conduziu a uma nova língua em tudo diversa da original: hoje em dia, a língua que se fala e escreve no Brasil — veicular, por acréscimo, dada a enorme dimensão do país — já pouco ou nada tem a ver com o Português-padrão, a Língua-matriz que exportámos para todo o mundo ao longo dos séculos XV e XVI e que aterrou no Brasil no ano da graça de 1500.

Não é nada fácil, convenhamos, explicar de forma simples e essencial a lógica ou demonstrar as evidências de um fenómeno comum, mas de facto é muito, é demasiado e é por vezes irritante o que se diz e se lê sobre as patranhas acordistas — a “língua universal“, a “expansão e difusão do Português“, a “língua de trabalho da ONU“, o “valor económico da Língua“, a “facilidade na aprendizagem“. Tudo tretas absurdas, é claro, tudo a ver se algum patego cai na esparrela, ou, havendo vários animais de bossa, então que deles se faça uma cáfila (nem de propósito, o substantivo colectivo que designa os grupos de camelos), os quadrúpedes marchando a compasso; o objectivo é enganar o gado, em suma, e assim facilitar os negócios estrangeiros. O que significa, literal e passivamente, a promoção do expansionismo brasileiro, o consentimento cavalar do neo-colonialismo brasileiro e até o aplauso entusiasta da nacional-corrupção atávica e congenitamente brasileira (e portuguesa, ou pela ordem inversa).

Demonstrar a pessoas normais, essa sub-espécie em vias de extinção, algo tão comezinho e trivial como o golpe de Estado que Portugal e Brasil “adotaram”, temos de reconhecer essa triste realidade, não é pequeno exercício de humildade e reveste-se de roupagens com seu quê de oriental, uma espécie robe tipo “paciência de Chinês”. Isto à falta de mais gente com um pouco de tino, que ainda há-de haver disso, porque há, com certeza, imagino, mas que vai primando pelo mutismo ou pelas mais inconsequentes e inúteis sessões de malabarismos ortográficos (listas irrelevantes que apenas servem para vulgarizar as calinadas) ou longas e bocejantes exposições de um suposto brilhantismo pessoal (eventos famosíssimos na Buraca, por exemplo). Maníaca e sistematicamente, o que se tem escrito por aí sobre o AO90 é pura palha, cereal para espessar rações.

Seria por conseguinte necessário — ou condição sine qua non, pelo menos desde 2008 — que mais alguém dissesse e fundamentasse (muito melhor do que o arquivista do Apartado 53, decerto) que a independência linguística é um fenómeno comum… como sucedeu com todas as Línguas de raiz latina, o Francês, o Castelhano, o Italiano, o Romeno, o Catalão, o Galego, o Português.

Nós herdámos dos romanos a linhagem civilizacional, as estradas, as pontes, os aquedutos e as bases da Língua Portuguesa. O Brasil herdou de nós, por amostra, as igrejas de Ouro Preto, a imensidão das fronteiras e as bases da sua língua nacional.

Tentar estabelecer alguma espécie de paralelismo com as Línguas de outras potências colonizadoras é algo deslocado: usando, sem afinal alterar o embate violento com a realidade, o caso do Português-padrão no Brasil em comparação com o Inglês da Inglaterra e o da América, ou o Francês de França e o do Québec ou o Espanhol da Espanha e o do México… não tem ponta por onde se lhe pegue, lamento; rebaixar, diminuir, amesquinhar a bitola da comparação é, no mínimo, ridículo. As diferenças assinaladas em tais analogias, que afinal o não são, não têm absolutamente nada a ver com a questão: nos USA (ou na África do Sul, na Índia, no Quénia e em toda a Commonwealth) não existe a menor diferença estrutural e gramatical; o mesmo vale para o Francês e todas as nações, territórios e países que integram a Francophonie; e o mesmo sucede, evidentemente, com o Castelhano e os 23 países de língua oficial espanhola.

Sotaques diferentes e pontuais entradas lexicais são factores comuns nos países anglófonos, francófonos ou da hispanofonia, mas esses factores são irrelevantes em qualquer das três “irmandades” linguísticas. As respectivas matrizes são sólidas, são invariáveis e estão fixadas.

Ora, o do AO90 difere em tudo, não há analogias possíveis se compararmos o brasileiro com o Português: não há comparação. Não tem nada a ver. A língua brasileira seguiu o seu próprio caminho e este, ao contrário do que sucede com todos os caminhos, não tem retorno. Não há regresso. Pelo contrário, aliás: este caminho continua a afastar-se cada vez mais, infinitamente, do ponto de partida — a Língua Portuguesa.

Face a isto, que é uma realidade, verificável e verificada, comprovável e comprovada, somente restam duas alternativas: ou se aceita a realidade ou se nega a realidade. Não há terceira via. Nem outra hipótese além de lutar contra a realidade inventada que pretendem impor-nos e, com igual tenacidade, pela realidade como ela é.

Vamos falar a sério, então? Lutar, sim, mas sem malabarismos inconsequentes? Enfrentar os negacionistas e inventores de realidades alternativas?

É que torna-se a cada dia mais urgente que mais gente se junte à luta. Com a sua palavra, dita ou escrita mas pronta. Com a sua vontade, intacta e férrea mas transparente e honesta. Com a certeza, enfim, de que estamos do lado certo desta luta e que este é também o lado real da História.

Isso é muito importante. É vital. É condição sine qua non.

Até o Spotify passou a “falar” português europeu

Nuno Pacheco
www.publico.pt, 18.03.21

 

Nem de propósito. No mesmo dia em que era publicada a minha crónica anterior, dando conta da edição em Portugal de uma colecção do ‘Snoopy’ em português do Brasil, sem qualquer aviso a explicar tal opção, chegava a notícia de que a plataforma de distribuição de música Spotify ia ter 36 novos idiomas, incluindo “oficialmente o Português Europeu”. Note-se que entre os 25 antes disponíveis o Spotify incluía o “Português do Brasil (Brazilian Portuguese)” mas também duas variantes do espanhol (“Spanish” e “International Spanish”) e duas do francês (“French” e “Canadian French”), acrescentando agora ao chinês nova variante, o “Simplified Chinese”. E assim somam quatro línguas com duas variantes cada, incluindo o “Portuguese for Portugal”!

Nada disto é estranho. Estranho é que se continue a insistir numa uniformização ortográfica do português, ignorando que, mesmo que tal fosse possível (e não é), de nada adiantaria face ao resto, ou seja, às diferenças naturais que cada cultura imprimiu ao uso, oral e escrito, do idioma comum. É curioso, por exemplo, que na citada edição do ‘Snoopy’ (com as tiras traduzidas em português do Brasil), os textos introdutórios tenham um lote de palavras que, mesmo aplicando o malfadado Acordo Ortográfico de 1990, continuam diferentes cá e lá. Comecemos pelas que passaram a ser iguais na escrita: ‘diretor’, ‘ótimo’ ou ‘trajetória’. E agora as outras: ‘fato’, ‘contato’ (‘facto’ e ‘contacto ‘em Portugal), ‘tênis’, ‘bebê’, ‘polêmica’, ‘platônica’, ‘fenômeno’, ‘icônicos’ (aqui diferentes na acentuação), ‘dezesseis’ (‘dezasseis’, na grafia portuguesa) ou ‘características’, ‘aspecto’, ‘perspectiva’ e ‘acepção’, que eram iguais nos dois países mas que o AO90 obrigou Portugal a alterar para ‘caraterísticas’, ‘aspeto’, ‘perspetiva’ e ‘aceção’. Que belo serviço à unidade do idioma!

O cinema é outro exemplo de que, mesmo com reformas ortográficas, a distinção entre o uso do idioma em Portugal e no Brasil se mantém e manterá, saudavelmente, já que só assim ganham identidade em cada um dos países as dobragens ou legendagens de filmes estrangeiros. Já aqui se falou disto, no passado, com vários exemplos. Mas podemos fazer um outro exercício, usando dois vídeos de filmes com uma característica rara: dobragem (dublagem, no Brasil) em português brasileiro e legendas no português europeu pré-AO90.

Um deles é o DVD de ‘6 Dias, 7 Noites’, de Ivan Reitman, comédia com Harrison Ford e Anna Heche. Ainda no genérico, na cena do jantar entre Frank e Robin, ouve-se este diálogo entre ambos: Ela: ‘Será que dá pra dizer o que está tramando?’ Ele: ‘É somente parte da surpresa.’ Ela: ‘Não vai terminar tudo, vai?’ Ele: ‘Nós não vamos terminar. ‘Ela:’ Tá legal.’ Ele: ‘Sabe o que é que eu quero? O que eu quero mesmo é incrementar o romance’. E nas legendas lemos isto: Ela: ‘O que andas a tramar?’ Ele: ‘Faz tudo parte da surpresa.’ Ela: ‘Queres acabar comigo?’ Ele: ‘Nós não estamos a acabar’. ‘Pelo contrário, eu pretendo aumentar o romantismo das nossas vidas’.”

Já com a edição francesa em UHD-4K de ‘Dracula’, de Francis Ford Coppola, podemos fazer idêntico exercício. A dada altura, Renfield (Tom Waits) diz, na dobragem: ‘Eu fiz tudo o que me pediu, Mestre. Mestre, eu estou aqui! Eu idolatro o Senhor!’ E nas legendas lemos: ‘Fiz tudo o que pediste, Amo. Amo, estou aqui! Tenho-te venerado!’ Quando Jonathan (Keanu Reeves) e Mina (Winona Ryder) se encontram no jardim, trocam estas palavras: Ela’: Jonathan, eu amo você’. Ele: ‘Eu amo você, Mina’. E nas legendas: Ela: ‘Jonathan, amo-te’. Ele: ‘E eu a ti, Mina’.
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3%

«Fotografia aérea dos Liceus Salazar/D. Ana da Costa Portugal, actualmente Liceu Josina Machel. Situado na Polana, o complexo foi edificado no final dos anos 1940 e dos pontos de vista arquitectónico e funcional é considerado dos mais bem conseguidos.»«Fotografia aérea dos Liceus Salazar/D. Ana da Costa Portugal, actualmente Liceu Josina Machel. Situado na Polana, o complexo foi edificado no final dos anos 1940 e dos pontos de vista arquitectónico e funcional é considerado dos mais bem conseguidos.»

A ofensiva neo-colonialista continua, sistemática e implacável, qual rolo compressor, através da imposição brutal da língua nacional brasileira; com a cobertura política da sua invenção primordial — a chamada CPLB (Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira) –, os mandantes brasileiros e os paus-mandados portugueses vão demolindo cada vez mais vastas zonas dos países que no passado foram colónias portuguesas;  paulatinamente e com a prestimosa conivência de “técnicos”, de “académicos” e, em especial, de políticos tugas (labregos deslumbrados, cretinos patológicos e vigaristas profissionais), a golpada está já largamente disseminada, começando a infectar outros países além de Portugal. Como é o caso relatado na notícia (pura propaganda) agora aqui reproduzido.

É arrepiante de facto. Como Portugal “já está” e enquanto ainda não lhes é possível enterrar o dente naquilo que de essencial os move, isto é, Angola, então no imediato segue-se, por exemplo, Moçambique (e Timor-Leste, servindo este micro-país como tubo de ensaio).

Muita coisa haveria a dizer sobre o episódio, se bem que tristemente sumarento, ou seja, amargo, porém não vale a pena maçar as pessoas com a irritante trivialidade das evidências: o Brasil mai-los seus tugas apaniguados desembarcaram em Moçambique, a 2.ª das ex-colónias portuguesas a ser abocanhada  (Timor-Leste também “já está”, como Portugal), e ali vão iniciando o seu trabalho de terraplanagem. Quais bandeirantes do avesso, com o solícito empenho do Ministro dos Negócios Estrangeiros e de outras entidades portuguesas igualmente cooperantes, os enviados do Itimaraty inauguraram — a coberto do AO90, o guião da palhaçada, e da respectiva “difusão internacional da língua” brasileira — a tomada de posse administrativa de Moçambique.

Para os 3% de Moçambicanos falantes de Português (na escrita, devem ser algo como 1%, ou coisa que o valha), a neo-colonização deve ser uma grande alegria, digo eu. Terá sido a um qualquer moçambicano, aliás, digo eu também, que repente ocorreu que. por exemplo, a maiúscula inicial nos meses do ano provocava imensas comichões e que era tremendamente incómodo (e inútil) ter de redigir um porradal de “consoantes mudas”. Pronto, é uma explicação como outra qualquer, agora já se sabe quem e porquê se lembrou de esgalhar o AO90, foi um moçambicano que certo dia acordou com os pés de fora.


Projecto do primeiro Dicionário de Português de Moçambique arranca com formação em Maputo


Jornal “Mundo Lusíada” (Brasil), 13.03.21

Da Redação
Com Lusa

Os trabalhos para a elaboração do primeiro dicionário de língua portuguesa de Moçambique (DiPoMo) arrancaram, em Maputo, com uma formação promovida pela Cátedra de Português da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), anunciou o instituto Camões.

O anúncio do arranque do projecto para o lançamento de um dicionário de língua portuguesa de Moçambique, com financiamento do instituto Camões, através do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), tinha sido feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, no início de Março no parlamento português.

“É o primeiro dicionário da língua comum de Saramago e Mia Couto que se publicará fora de Portugal e do Brasil”, disse na altura Santos Silva.

De acordo com uma nota do instituto Camões, no âmbito do Projecto DiPoMo – Dicionário do Português de Moçambique, a Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Maputo, promoveu, no início de Março, o primeiro curso de formação sobre a construção do “corpus do português de Moçambique”.

A formação, que decorreu de forma virtual, contou com a participação de investigadores e representantes de cada uma das províncias moçambicanas.

O Dicionário de Português de Moçambique surge na sequência da construção e publicação, em 2014, do Vocabulário Ortográfico Moçambicano da Língua Portuguesa – VOMOLP, “recurso que permitiu descrever o português moçambicano” e “desenvolver um primeiro recurso linguístico de larga escala”, segundo a nota.

O VOMOLP é parte integrante do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC), acervo do qual constam vocabulários ortográficos de outros países de língua portuguesa.
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50 tons de cinza

Peanuts. Aquilo que toda a gente aponta como sendo a “principal culpada” pelo AO90 não é a indústria editorial e essa “acusação” ainda menos pode ser assacada a qualquer editora, grupo de editoras ou associação empresarial do sector. Essa treta não passa, como se diz em “americano”, de amendoins. Servirá a carapuça, quando muito, no improvável caso de alguém a enfiar, para — como de costume — quem tenta desviar as atenções da questão essencial e assim enganar totós ou, ainda que não tenham caído no logro, pôr a conversar uns com os outros, de forma inconsequente e ociosa, os “teóricos” e “especialistas” na matéria.

A questão, evidentemente, é em essência de cariz político — privilegiar os interesses geoestratégicos do Brasil — e em função deste mesmo facto envolve, realmente, “operações financeiras”; mais prosaicamente, o que define e explica o AO90 é o dinheiro, o vil metal: em notas de Banco, letras e livranças, cheques à sorrelfa ou, ainda mais “interessante” para a “difusão da língua” brasileira e para a “expansão da língua” brasileira no mundo, em negociatas de todo o tipo.

O “pequeno pormenor” dos títulos de filmes é de facto “amendoins”, se comparado com os cambalachos esconsos, as roubalheiras escandalosas, os negócios escuros (ou totalmente negros) a que o AO90 confere  cobertura política. Na mesma linha de “peanuts” estratégico, a banda desenhada fabricada no Brasil para impingir às nossas crianças o mais retinto brasileiro, se bem que ainda mais grave (e asqueroso), é uma golpada  igualmente irrelevante, ou de pouca monta, comparativamente falando.

As “traduções” brasileiras, à patada, por grosso e atacado, nos livros e revistas, nas legendas de filmes ou documentários, nas plataformas cibernéticas e nos programas de computador, toda essa parafernália de estupidificação em massa e de anestesia metódica, enfiando-nos goela abaixo, com violência, um linguajar alienígena, até esse triste cortejo de miserável bajulação do “gigante brasileiro” é coisa pouca se nos lembrarmos da abolição do Acordo de Schengen, do ensino do brasileiro em Timor-Leste, da Embraer em Évora, dos governantes brasileirófilos (Durão Barroso, Guterres, Marcelo e tutti quanti), dos vendidos e graxistas, da indústria das telenovelas, do futebol e suas transferências bilionárias, de Angola e suas imensas riquezas…

Efectivamente, vai avançada a anexação da ex-potência colonizadora pela sua ex-colónia. Assim que for nomeada a CTR (Comissão Técnica de Revisão) do AO90 e depois de nela instalados todos os tachistas que já andam por aí em bicos-de-pés, suplicando por um tachinho “académico”, abatidas as derradeiras diferenças (inventadas em 1986) a cacografia da língua brasileira será oficial, integral e radicalmente “adotada” pelo Governo português. Logo após esse sancionamento seguir-se-á a benzedura legislativa (outra golpada, como a RAR 35/2008) e então Portugal passará a ser a única colónia linguística do mundo, isto é, mais exactamente, o único país do sistema solar a escrever numa língua que não existe.

 

 Não é possível escrever numa língua que
não existe

Nuno Pacheco

www.publico.pt, 11.03.21

 

Em Janeiro, o diário brasileiro O Globo garantia, em título, que as “Editoras independentes brasileiras preparam ofensiva em Portugal”. Boa notícia, para os amantes da leitura. Porém, logo nas primeiras linhas, trazia esta declaração espantosa: “Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos. Querem exemplos? Aqui vai um, bem recente. A editora Planeta DeAgostini, especialista em colecções generalistas, vendidas em bancas de jornais ou papelarias, acaba de lançar o primeiro volume (são 61) de uma família bem célebre na história da banda desenhada: Snoopy, Charlie Brown & Friends – A Peanuts Collection. O título vem em inglês, mas a edição é em português… do Brasil. A ficha, logo nas primeiras páginas, não engana e até o serviço de atendimento “ao colecionador” (sic) é, não em Portugal, mas no Brasil: www.planetadeagostini.com.br. Se o Snoopy fosse criação brasileira, fazia todo o sentido. Mas não: o original é americano, criado por Charles Monroe Schulz em 1950. Por isso, quiseram apenas poupar numa nova tradução, à boleia das promessas do Acordo Ortográfico (edições iguais para todo o espaço lusófono) e das crenças do senhor Silveira.
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Uma questão de milhões

O que dizer sobre isto? Por vezes não é nada fácil conseguir, mesmo retendo com tremendo esforço os palavrões, apresentar ou sequer comentar aqui um artigo; bem sei que a principal “missão” deste modesto blog é constituir acervo sobre o AO90 (e outros detritos), e que, portanto, tenho mesmo de me aguentar à bronca, mas, porém, contudo, no entanto, bálhamedeus, já são demasiadas as ocasiões em que este masoquista exercício torna-se  absolutamente insuportável. Estes acordistas (e também os assimilados, ou seja, os que fingem ser contra) são, de facto, uns aldrabões do piorio; por regra, como agora de novo é o caso, mentem com quantos dentes têm na boca e apenas são capazes de debitar as tretas do costume.

Nem de propósito, como espectacular demonstração de tão inamovível quanto arrepiante premissa, eis aqui uma (inacreditável) entrevista de certa ex-governante, calculo, ex-Directora-Geral de Nãoseiquê, presumo, e ex-pessoa decente, imagino. Escusado será dizer, até porque isso é um vício comum entre os políticos em geral e os acordistas em particular, que mente por método e sistema, de cabo a rabo, sem ponta por onde se lhe pegue no paleio de chacha: um chorrilho, uma torrente, um tsunami de galgas.

Claro que o objectivo é promover os interesses geo-estratégicos do Brasil, aproveitando as raspas dos negócios (estrangeiros), se possível, isto é, correndo atrás das migalhas que porventura possam sobejar dos milhões traficados entre o “país-continente” e, por exemplo, o petróleo venezuelano, a carne argentina, as minas chilenas e até, se calhar, nunca se sabe do que são capazes os meliantes da “língua universáu”, produtos da Colômbia. Uma versão revista e aumentada da CPLP, por conseguinte, sustentadas ambas as teatralizações pela patranha fundamental, aquilo a que chamam “difusão da língua“; da língua brasileira, bem entendido, porque, dizem os mesmos, “eles são 220 milhões e nós somos só 10 milhões“. O Estado português, que paga a CPLP e as demais despesas das negociatas, incluindo os “pacotes” de “turismo linguístico” (ahahahah, boa malha, têm imensa piada com as desculpas para as roubalheiras, são uns pândegos), cala-se muito caladinho ou, mil vezes pior, alinha no caldinho.

Na promoção de eventos propagandísticos, sessões de esclarecimento de mentiras delirantes, igualmente escabrosas mas também hilariantes, o Estado português faz a todos nós, em nome da “expansão da língua” brasileira no mundo, o favor de torrar milhões sonegados aos nossos impostos.

Fica assim explicado, com todos os éfes e érres, esplendorosa e escarrapachadamente, o significado da expressão “valor económico da língua“, essa fulcral aldrabice que tanto os fascina e de que tanto se esticam nas suas ridículas prelecções.

Agora era capaz de citar o “jingle” do Euromilhões mas não queremos abusar, enfim, por algum motivo isto dos milhões (de dólares, por hipótese) provoca uns reflexos condicionados aborrecidos, é fácil, é barato e rima com aldrabões.

Já quanto a outro tipo de milhões, por assim dizer, ao que parece os 280 da CPLB (Comunidade dos Países de Língua Brasileira) afinal não chegam, agora o alvo da “difusão” é constituído por 800 milhões de alminhas, nada menos, soma aos tais 280 do Brasil e anexos (incluindo Portugal) os 50 de Espanha e os sobrantes 470 milhões acumulados no Uruguai, no Peru, na Argentina, na Colômbia, no Chile e nos restantes países da América do Sul e arredores.

Bem, convenhamos, de facto é um magote de respeito. E devem estar  todas elas, as referidas alminhas, da cordilheira dos Andes às Pampas, até aposto, lá estarão todos contentes, felizes da vida com esta coisa da OEI que uns señores simpáticos pariram, oh, extraordinário milagre, isto ele nem na América.

São tão altos dignitários — e destes, em especial, os que têm dedo para o negócio — realmente uns cómicos, por conseguinte (se bem que não tenham gracinha nenhuma) e, como se vê, essa chusma de maduros (salvo seja) apenas pretendem, segundo protestam — além da “difusão”, ou lá o que é –, o melhor para apascentar os povos: e estes outros, perdidos no meio de 800 milhões, agora também alardeiam com imenso salero e não menor precisão a vinda de tão fantásticos salvadores linguísticos da Pátria, oops, melhor dizendo, das pátrias.

Bem, longa história, abreviemos. A ver se a Espanha cai desse cavalo abaixo. Palpita-me que não.

Y olé, olé, ¡arriba, arriba! ¡Ándale, ándale!

 

A Estratégia da OEI para a língua Portuguesa

raiadiplomatica.info, 05.03.21

 

Em 2017 foi inaugurada a delegação em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI). Em entrevista à Raia Diplomática, Ana Paula Laborinho, directora da OEI em Portugal, contou-nos a estratégia desta organização internacional para a difusão da língua portuguesa no espaço ibero-americano. Para além disso, ainda houve tempo para falar da dimensão científica, cultural…e da cidadania ibero-americana.

Quais foram as razões para a abertura de uma delegação em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI)?

Portugal é Estado membro da OEI desde 2002 e, nesse sentido, desde essa data se perspectivava a abertura de uma representação nacional. Portugal tem participado desde [o] princípio nas Cimeiras Ibero-americanas e tem reforçado o seu interesse pelo espaço ibero-americano onde tem dois parceiros relevantes – Brasil e Espanha – mas também tem havido um aumento das relações com outros países da região, seja económica, seja cultural como foram os casos das Feiras do Livro de Bogotá (2013) e de Gu[a]dalajara (2018) em que Portugal foi o país convidado.

Durante vários anos foi a Directora do Instituto Camões. Quais são as diferenças nas suas competências na promoção da Língua Portuguesa como directora em Portugal da OEI com as anteriores funções de Directora do Instituto Camões?

As minhas actuais funções têm um âmbito centrado na região ibero-americana, o que desde logo se distingue das anteriores funções. Também se concentram nas áreas de actuação da organização – educação, ciência e cultura – enquanto as responsabilidades na área da cooperação da instituição que dirigi são muito mais alargadas. Fui recentemente nomeada Directora-Geral de Bilinguismo e Difusão da Língua Portuguesa da OEI, sendo a minha primeira acção melhorar a cooperação entre línguas em áreas em que a sua relevância é grande, desde logo a educação, incluindo o ensino superior, mas também ao nível da produção científica aberta e plurilingue, área fundamental para o reconhecimento internacional das duas línguas. Estamos também a desenvolver um grande esforço para tornar a OEI verdadeiramente bilingue, desde logo produzindo toda a sua documentação nas duas línguas, incluindo relatórios técnicos, mas também conferências, reuniões técnicas, o que tem possibilitado o envolvimento da CPLP, de que somos Observadores Associados e que também é Observador Associado da OEI.
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