Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: cAOs

A treta que nos separa


Volta a atacar, salvo seja, um tal Sérgio Rodrigues, autor do panfleto com o significativo título “Viva a Língua Brasileira”.  Reemerge agora esse escriba, portanto, do charco infecto em que chafurdam os flautistas acordistas, para de novo perorar sobre aquilo que, em sua não muito douta opinião, é o “antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana“.

Ou seja, traduzindo para Português tão duvidoso paleio, acha o dito que nós, os tugas, somos “contra eles”, os zucas, e que essa espécie de “contrismo” é uma marca identitária da “cultura lusitana”.

Não há paciência.

Pois está claro, antes do AO90 não existia qualquer “antipatia” pelos diversos crioulos brasileiros, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com a Literatura brasileira. E essa “antipatia” nunca foi mútua, aliás: nós por cá não traduzimos para a língua indígena os livros nem legendamos os filmes provenientes do “país-continente”.

Escora-se o escriba neste seu textículo, o que de todo não surpreende, em supostos aliados que, do lado oriental do Atlântico, circunstancial ou ocasionalmente paridos algures no meridiano de Greenwich, parece apoiarem tão bizarra (quanto estúpida) teoria da conspiração “contra” a “cultura brasileira” em geral e a respectiva Literatura em particular. No caso, para “ilustrar” a tese, cita umas quantas indignadíssimas bojardas publicadas no Fakebook por um tal Venâncio, gajo se calhar porreiríssimo, suponho, mas que tem no entanto essa estranha — e tuga — mania de armar aos cucos denegrindo os seus compatriotas para dar graxa aos brasileiros.

Coisa que me irrita solenemente, confesso. Para isso, bajulação travestida de erudição, ainda tenho menos pachorra do que para levar com as tretas neo-colonialistas dos acordistas de serviço.

 

A língua que nos separa

Forte em Portugal, desprezo ao português brasileiro também viceja aqui

Sérgio Rodrigues

Jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil), 19.07.18

 

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana.

Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.

Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente…

Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.

Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.

Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.

Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.

“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.

O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”.

Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado no jornal brasileiro “Folha de S. Paulo” em 19.07.18.]

Share

«Queremos um português com as características idiomáticas brasileiras»

EXPLICAÇÕES ORTOGRÁFICAS PARA O PORTUGUÊS

Palavras escritas com SS, Ç, SC, C, X, XC geram muitas dúvidas. Afinal, há explicação para tantas diferenças? 

A questão ortográfica da Língua Portuguesa é bem polêmica. Muitas exceções e poucas reflexões convincentes. Nunca me conformei com explicações como: “É assim e pronto!

”Sempre achei horrível não saber, por exemplo, por que a palavra EXCEÇÃO é escrita com “Ç”. Sabemos, pelo contato de comunicação do dia a dia, que algumas pessoas escrevem com “SS” e acabam cometendo o tal “erro” ortográfico.

Este suposto equívoco não ocorre apenas por conta do desconhecimento da regra ou pelo uso. Muitas vezes, ele ocorre por falta de informação. Vamos analisar a origem do vocábulo.

EXCEÇÃO (com “Ç”) significa aquilo que está excluído de um todo. A palavra se originou da raiz latina “CAP”, que significa pegar. Para você entender melhor, essa raiz latina também originou a palavra CAPTEI, isto é, “peguei, compreendi”. O particípio latino da raiz “CAP” é “CAPTUS”, ou seja, aquilo que é pegado.

Para se formar uma palavra com a ideia daquilo que é pegado para fora, diferente ou fora de um todo, colocou-se o prefixo latino “EX”, que significa “para fora”. Com isso, a palavra formada foi: EXCAPTUS, aquilo que é pegado para fora.

Veja: CAP (pegar) formou CAPTUS (pegado), que formou EXCAPTUS (pegado pra fora).

O particípio latino formado com a consoante T (TUS) vai gerar, em Língua Portuguesa, a “terminação” com Ç.

Assim, EXCAPTUS forma EXCEÇÃO. Para você entender melhor, veja outro exemplo. NARE, verbo latino que significa nadar, tem o particípio NATATUS (aquilo que foi nadado) e forma NATAÇÃO (com Ç).

Veja: NARE formou NATATUS, que formou NATAÇÃO.

Alguns colegas alegam que as crianças dos ensinos fundamental e médio, e até adultos do ensino superior, não conseguiriam entender tudo isso. Eu não concordo.

Em uma sociedade altamente desenvolvida do ponto de vista da tecnologia, com ferramentas de realidade aumentada, internet cognitiva e inteligência artificial, os jovens compreendem questões muito mais complexas, sem o menor problema. O que devemos mudar mesmo são os nossos conceitos.

Explicações históricas e coerentes podem auxiliar o aprendizado e, ainda, o interesse pelo idioma.

Queremos um português com as características idiomáticas brasileiras, mas, também, com explicações mais consistentes do que um simples: “É isso e pronto!”

Source: EXPLICAÇÕES ORTOGRÁFICAS PARA O PORTUGUÊS – Prisma – R7 Português de Brasileiro

Share

11. Não discutirás com idiotas

Não adianta, pelos vistos, insistir na tremenda inutilidade que é esgrimir com acordistas argumentos “técnicos” a respeito de um assunto que de técnico nada tem. Alguns deles — os que não são perfeitos imbecis — agradecem a deferência e assim, fazendo resvalar a “conversa” para o campo da ortografia, quando o AO90 não tem absolutamente nada a ver com ortografia, disfarçam o carácter exclusivamente político da questão: para cada um dos exemplos citados pelos anti-acordistas que se deixam enredar neste “diálogo” de surdos, é claro, os acordistas citam logo três ou quatro outros exemplos para derrotar — por vezes “tecnicamente” bem, o que pouco ou nada importa para o caso — os apontados pelos “contristas” como sendo “verdadeiras aberrações” ou “contradições flagrantes”.

Ora, como sabemos, o AO90 é uma verdadeira aberração, de cabo a rabo, e não passa, todo ele, de uma flagrante contradição: ninguém o pediu nem a alguém jamais ocorreu a mais ínfima necessidade de tal coisa mas fizeram-no à mesma e impõem-no selvaticamente; não veio resolver problema algum e, pelo contrário, inventou novos (e enormes) problemas onde não existia um único; tenta justificar-se com uma pretensa “simplificação” mas apenas gerou instabilidade, anarquia, o caos total; garantia a “unificação da língua” mas tornou ainda mais díspares as duas variantes… que se transformaram em quatro; pretendia ser um instrumento de “difusão” do Português mas o que se verifica é mais do mesmo, ou seja, “difusão” nenhuma, quando não sucede precisamente o contrário. E por aí fora, são sobejamente conhecidos os factos que explicam o estado a que isto chegou

O que aliás torna ainda mais incompreensível que alguém conceda alguma espécie de crédito “científico” ao acordismo (um fenómeno político normal que se designa como “geopolítica”) e aos acordistas (um fenómeno social paranormal a que se chama “ganância”).

É que tal concessão de credibilidade implica um custo exorbitante, isto é, o luxo a que se dão alguns acaba por sair caríssimo a todos os demais: os membros da seita acordista conseguem, pela via “dialogante” aberta por certos opositores, matar logo dois coelhos de uma cajadada só, transformando uma inacreditável aldrabice numa coisa que até parece ser meramente “técnica” e escamoteando aquilo que de facto está em causa.

Pior: não apenas abatem de imediato um par de coelhos, inteiramente grátis, como — para cúmulo — em simultâneo fazem passar de si mesmos, acordistas empedernidos, ferozes e brutalmente comprometidos, a impressão de que afinal são pessoas condescendentes, tolerantes, até “democratas”.

Nada mais falso, bem entendido. Essas aparentes tolerância e condescendência dos acordistas não passam de puro cinismo (na variante “esperteza saloia”), uma forma de traiçoeiramente esconder da opinião pública a real essência do AO90, ou seja, que se trata de um mero expediente político para justificar o injustificável, um  pretexto verborreico para “explicar” as ânsias expansionistas de um “país-continente”. Por isto mesmo já nem se coíbem de aberta e descaradamente tratar a Língua como um bem transaccionável, exportável, vendável, falando do “valor económico do português” enquanto “facilitador de negócios” e enormidades quejandas. 

Nem todos os agentes acordistas são simples comerciantes, mercadores, vendilhões ou traficantes da Língua, porém. Há uns quantos que se limitam a fazer o papel de idiotas úteis, papagueando as bojardas que interessam aos verdadeiros “donos da língua” —  que o assunto fique, muito bem tapado por uma mortalha palavrosa, enterrado no mofo das academias ou, quando muito, encapsulado nos minúsculos guetos onde “técnicos”  discutem com os botões uns dos outros se os anjos serão meninos ou meninas.

A favor do AO90

Resposta ao núcleo do artigo de Nuno Pacheco, publicado a 21 de Junho, com o título “Ficou a Academia, foi-se o bom senso”.

Ludgero Basto
“Público”, 04.07.08

Irrita-me e enerva-me ninguém responder aos sucessivos, insistentes e entediantes artigos de opinião contra o AO90. Em regra, são escritos por jornalistas e escritores porque têm acesso natural aos media e os leitores são levados a pensar: “se estes tipos dizem isto e são jornalistas e escritores, eles, que usam intensivamente a escrita, devem ter razão.”

Penso que o que move estes jornalistas e escritores é principalmente aquilo que alguns já tiveram o dislate de dizer: “Deu-me tanto trabalho aprender a escrever corretamente (eles escrevem correctamente) a nossa querida língua e agora estes gajos mudam tudo, bolas!” (alguns até levaram reguadas por omitirem o c em reta ou em direto).

Segue a transcrição das alterações ao AO90 que Nuno Pacheco considera de “elementar bom senso” intercaladas com os meus comentários: “Mesmo duvidando que um texto tão tecnicamente mal feito e tão prejudicial possa alguma vez ser ‘aprimorado’, as sugestões dadas pela Academia das Ciências de Lisboa respeitavam o mais elementar bom senso.”

1. Pára, péla, pêlo, pôr, pôde, dêmos eram acentuados (diferenciando-se assim de para, pela, pelo, por, pode, demos);

Podíamos acrescentar: colhér, séde, gósto, fórça, bóla, prégar, segrédo, almóço, acórdo (diferenciando-se assim de colher, sede, gosto, força, bola, pregar, segredo, almoço, acordo)

2. Crêem, vêem e lêem recuperariam os respectivos circunflexos;

Que falta faz aqui a acentuação com os circunflexos?

3. A terminação –ámos (pretérito) voltava a ser acentuada, para se distinguir, no tempo verbal, de –amos (presente);

Concordo com esta alteração, ficando esta como a única exceção à regra de não acentuação das palavras graves.

4. Acepção, corrector, espectador e óptica voltariam a imperar sobre aceção, corretor, espetador e ótica;

A mesma questão que se põe no ponto 1. Aqui o c e o p servem para abrir a vogal anterior exceto em óptica, que nem para isso serve.

Neste ponto, é frequente encontrar o argumento “que se perde a etimologia… e dão como exemplo Egito versus Egípcio”. Pois, mas isso é a evolução normal, também nudo em latim deu nu apesar de o d continuar presente em nudismo.

5. Palavras inventadas como interrutor ou concetível seriam abolidas, restaurando-se interruptor ou conceptível;

Concordo com a dupla grafia. Se os brasileiros dizem interrutor e nós dizemos interruptor, por que não havemos de escrever em concordância?

6. Voltava a olhar-se para o hífen com lógica científica, usando-o “nas combinações vocabulares que formem verdadeiras unidades semânticas” (água-de-colónia, braço-de-ferro, pé-de-meia, etc.) e nas expressões onde a soma dos elementos forma sentido único (faz-de-conta, maria-vai-com-as-outras);

Não tenho preferência: digam-me como se deve escrever, eu seguirei a regra estabelecida.

 

Transcrito de: https://www.publico.pt/2018/07/04/opiniao/opiniao/a-favor-do-ao90-1836805

Share

Dar à língua

«(…) algumas pessoas que só falam das questões lusófonas por razões negativas, sendo que, nalguns casos, o fazem até com indisfarçado júbilo.»

Como diriam brasileiros: “oi? É nóis.”

Enfio de bom grado, com cagança e pundonor, qual forcado da cara numa pega rija, o competente barrete. Confesso, eu cá só falo dessas tais “questões lusófonas” por “razões negativas” (há outras?) e faço-o não apenas com “indisfarçado júbilo” como até com manifesto gozo: apreciamos basto ficções, invenções e ilusões, é por isso, daí a piada.

E não apenas apreciamos esse tipo de números “lusófonos” como não desprezamos usar, quando em vez, nosso plural majestático. Sim, que a 1.ª pessoa do plural tem — como toda a gente sabe — muitíssimo mais pinta do que a 1.ª do singular, essa pessoinha desprezível.

Consideramos, por conseguinte, eu e aqui o Garfield da vizinha, que em mais este texto perpassa a já bocejante obsessão pelo “gigantismo” da língua (ou seja, do Brasil), a estranha fixação pelos “260 milhões” de “falantes” (dos quais “só” 240 milhões são brasileiros) que serão mais não sei quantos milhões não sei quando nem sei onde, mai-la costumeira teoria do “crescimento” (“exponencial”) da língua aliando esta a uma “defesa” que não sei quê e à “difusão” não sei das quantas.

Enfim, quero dizer (ou queremos significar), cá na minha (nossa), a conversa fiada da “lusofonia” já chateia. E já parava.

Mas parece que não, temos agora duas indústrias paralelas, quais Pepsi e Coca-Cola por escrito: uma para dar a língua, a outra para dar à língua.

Opinião

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre? Resposta a Nuno Pacheco

São as autoridades de cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa que, legítima e soberanamente, têm reafirmado a sua aposta na defesa e difusão da língua portuguesa.

Renato Epifânio
“Público”, 29 de Junho de 2018

Sabemos que não é o caso de Nuno Pacheco (NP), mas o seu artigo “Língua portuguesa, do lirismo ao desastre” (PÚBLICO, 14.06.2018) não pôde deixar de nos lembrar algumas pessoas que só falam das questões lusófonas por razões negativas, sendo que, nalguns casos, o fazem até com indisfarçado júbilo.

Feita esta justa ressalva, vamos então ao teor do texto. No essencial, NP contesta “que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século”. Fá-lo, porém, a nosso ver, misturando bons e maus argumentos. Daí a nossa resposta.

Começando por dar razão a NP, importa reconhecer que, na realidade, os únicos países de língua portuguesa (no sentido em que nesses países se fala massivamente a nossa língua) são, no presente, Portugal e Brasil. E se é incontestável, como alega NP, que “o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa)”, não será por isso que no Brasil se deixará de falar a nossa língua. A língua portuguesa é no Brasil uma realidade mais do que consolidada, sendo também, por via disso, um dos grandes factores de coesão nacional, apesar de todas as crises.

Atravessando o Atlântico, a situação já é bem diferente, como importa igualmente reconhecer. Em todos esses países, o número real de falantes de língua portuguesa está muito aquém da maioria. Aqui, porém, mais do que para os dados, importa olhar para as tendências. E o que estas nos antecipam é que a tendência é de crescimento, assim se consolidem os diversos sistemas de ensino. Esse tem sido, até ao momento, o maior obstáculo a esse crescimento.

Aqui, a única (semi-)excepção é Cabo Verde, que, como refere NP, está entretanto a apostar mais no crioulo do que na língua portuguesa. Pela nossa parte, acreditamos que essa tendência não é irreversível, desde logo porque a língua portuguesa tem, em relação ao crioulo, uma vantagem óbvia: enquanto o crioulo será apenas uma língua de comunicação interna, a língua portuguesa garante uma comunicação a nível internacional. De resto, situação similar se passa em Timor-Leste: apesar da força do “tétum”, as autoridades timorenses não deixam cair a língua portuguesa porque perceberam isso há muito tempo.

Em suma: são as autoridades de cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa que, legítima e soberanamente, têm reafirmado a sua aposta na defesa e difusão da língua portuguesa. Obviamente, não o fazem para agradar a Portugal. Fazem-no (talvez até, nalguns casos, a contragosto) porque sabem que isso é do seu essencial interesse. À medida que o Estado em cada um desses países se for consolidando (também a nível do sistema de ensino), é mais do que previsível que o número real de falantes de língua portuguesa vá crescer exponencialmente, até porque esses países se mantêm em expansão demográfica (neste plano, a única excepção é, como se sabe, Portugal).

Tudo isto são, porém, aspectos quantitativos. Ora, mais importantes são, a nosso ver, os aspectos qualitativos. E aqui, de facto, o cenário é bem menos auspicioso: esse conjunto em crescendo de pessoas que falam a língua portuguesa está ainda longe, muito longe, de formar uma real comunidade. Nalguns casos, cada vez mais longe. Sendo que aqui as razões são outras: no Brasil, por exemplo, o sistema de ensino continua a diabolizar, em grande parte, a colonização portuguesa; em África, em geral, a situação não é muito diferente; depois, têm existido alguns incidentes político-diplomáticos, como entre Portugal e Angola; corolário de tudo isso tem sido a crescente inércia da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que, mais do que uma redinamização, precisa de uma refundação.

Ainda assim, o facto de um país como Angola estar a multiplicar as suas relações (com os países anglófonos e francófonos, como NP salienta) não fará com que Angola deixe de ser um país lusófono, cada vez mais lusófono, ainda que só linguisticamente. O que mais importa é, sobre isso, consolidar uma cooperação (a todos os níveis) digna desse nome. Aí sim, Portugal pode e deve fazer muito mais. Já quanto às nossas comunidades de emigrantes, o cenário é bem diferente: a esse respeito, NP refere, citando Onésimo Teotónio de Almeida, que “o movimento de crescimento do português está nos Estados Unidos da América a ter uma curva descendente desde 2015”. E o mesmo tem acontecido, acrescentamos nós, noutros países com fortes comunidades portuguesas.

Há, a nosso ver, duas razões para tal: em primeiro lugar, é natural que, à medida que as gerações se sucedem, a ligação com a língua portuguesa se vá desvanecendo, sobretudo porque (e essa é a segunda razão) não parece haver motivos para contrariar essa tendência, a não ser os afectivos/ familiares. Quando, nalguns casos, são as próprias autoridades políticas e académicas portuguesas a promoverem uma visão envergonhada da nossa história e cultura, que estímulo podem ter os netos ou bisnetos de portugueses para aprenderem a nossa língua? Falamos por nós: se tivéssemos nascido nos Estados Unidos da América ou em França, apenas para dar dois exemplos, e se nos tivéssemos deixado formatar pela “cultura dominante” (bem visível, por exemplo, na polémica em curso sobre o “Museu dos Descobrimentos”), não teríamos o menor estímulo para manter uma ligação linguística com Portugal. Pelo contrário.

https://www.publico.pt/2018/06/29/culturaipsilon/opiniao/lingua-portuguesa-do-lirismo-ao-desastre-resposta-a-nuno-pacheco-1836095

Share

AO90: a teta gigante [Nuno Pacheco, “Público”, 28.06.18]

Afinal Ricardo Araújo Pereira tinha razão

Agora dizem-nos que tecto se lê “têto” Sim, leram bem: têto, com acento circunflexo.


Público”, 28.06.18

 

Num dos filmes da primeira fase de Woody Allen como realizador, O ABC do Amor (1972), há uma cena delirante onde um homem (ele próprio, como actor) é perseguido por uma aterradora mama gigante, num tributo cómico e burlesco aos clássicos de terror (não por acaso, o cientista louco do filme é encarnado por John Carradine). Ora é impossível não pensar nesta delirante cena quando se ouve Ricardo Araújo Pereira falar, a propósito dos equívocos do acordo ortográfico de 1990, em “arquitetas”. É uma imagem a que ele costuma recorrer, para mostrar os absurdos da chamada “nova ortografia”. Claro que os defensores do dito AO dirão que é má vontade, que é óbvio que se lê “arquitètas” e não “arquitêtas”, toda a gente sabe. Sabe? Pois agora vem o Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa (não confundir com a própria ACL, já que a esta preside Artur Anselmo, cultor do bom senso ortográfico, e àquele preside agora Telmo Verdelho, defensor acérrimo do AO90), através do seu Vocabulário, explicar como se fala, para evitar equívocos. E o que diz o Vocabulário? Procura-se por arquitecta e não há; procura-se arquitecto e surge “arquiteto”, com esta explicação: “nome masculino, Grafia AO1945: arquitecto.” Sem qualquer indicação de pronúncia. E tecto? Aqui sim, explica-se. Diz a respectiva fichinha: “teto /ê/ nome masculino, Grafia AO1945: tecto.” Sim, leram bem: têto, com acento circunflexo. Assim ensina o douto instituto a pronúncia correcta de tecto, ou melhor, teto, aliás, têto. Por analogia directa, arquitecto ler-se-á arquitêto e arquitecta ler-se-á arquitêta. Em “bom português”, meus senhores! Razão tinha Ricardo Araújo Pereira. Só falta mesmo a maléfica “arquiteta” de Woody Allen.

Não é exemplo único. Se procurarmos o tristemente célebre “espetador”, o Vocabulário mostra-nos tal palavra com esta nota: “espetador /ô/, adjetivo, nome masculino, Grafia AO1945: espectador, Grafia dupla: espectador.” Como a única indicação fonética é “ô”, deduz-se que se lê “espetador”, tal como o sujeito que espeta, e não “espètador”, como nos garantem que se lerá. Mas se procurarmos no mais trivial Dicionário Priberam, edição digital brasileira, lê-se isto: “espetador /èt…ô/ s. m. […] Etimologia: latim spectator, -oris. Grafia no Brasil: espectador.” Não só indica a fonética de forma mais completa, o que no Vocabulário da ACL se omite, como diz que “espetador” não existe, com tal sentido, na grafia brasileira.

Mas para que o instituto não fique sozinho na sua arte de ensinar o “bom português”, e já que estamos em época de exames, não fica mal recordar que a Associação de Professores de Português, pela voz de Paulo Feytor Pinto ou Edviges Ferreira (hoje seus ex-presidentes), chegou a bramar pela punição dos que não cumpriam o AO90 nas escolas, garantindo Paulo Feytor Pinto que bastaria uma meia hora para que os professores aprendessem as regras do acordo. Pelos vistos, não bastou uma década. No ano passado, o parecer da própria APP à prova do 12.º ano de português, além de má pontuação (vírgulas e pontos fora do sítio) e um erro inadmissível em professores (12º, como doze graus, em lugar de 12.º, como décimo-segundo), tinha palavras do AO90 como objetivas, objetivamente, correta, perspetivas e objetividade, a par de objectivas ou percepcionar, que, sendo correctas pelo Acordo de 1945 (ainda em vigor na lei) não são aceites pela “nova ortografia”. Não admira, por isso, que o ponto II dos Critérios de Classificação do IAVE às provas de Português do Secundário exiba agora, desde 2017, esta nota lapidar: “A ocorrência de erros ortográficos não implica a desvalorização da resposta.” Preçeberaum bãim u alkansse distu?

Source: Opinião | Afinal Ricardo Araújo Pereira tinha razão | PÚBLICO (inseri “links”)

Share

45% dos alunos não conseguem situar Portugal no mapa

«Então, por causa dos tais dois mil para quem o conhecimento desta língua é útil, noventa e oito mil foram torturados e em vão sacrificaram um tempo precioso. (…) Daí que seria essencialmente mais útil se ao jovem estudante fossem transmitidos apenas os contornos gerais da língua (…) Evitar-se-ia também o perigo de, de toda a sobrecarga de matéria, apenas ficarem uns fragmentos na memória, uma vez que o jovem só teria de aprender o essencial, sendo assim feita antecipadamente a selecção do que é útil e inútil. (…) Ganhar-se-ia assim no currículo o tempo necessário para a educação física (…)»

[“Mein Kampf”, Adolf Hitler]

«É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.» [Acordo Ortográfico – Nota Explicativa [Pseudologia fantastica – 12]

 

 

 

Grande parte dos alunos que fizeram as provas de aferição de História e Geografia do 2.º ciclo, em 2017, não conseguiam localizar o país no Sudoeste da Europa.

Entre os mais de 90 mil alunos que fizeram provas de aferição de História e Geografia do 2.º ciclo, em 2017, 45% não conseguiram localizar Portugal continental em relação ao continente europeus. Esta conclusão consta num novo relatório que abrange dois anos de provas de aferição – 2016 e 2017 – de várias disciplinas e anos de escolaridade, citado pelo Diário de Notícias.

Ou seja, utilizando os pontos colaterais da rosa-dos-ventos, os alunos não conseguiam localizar o país no Sudoeste da Europa. Além disso, apenas 45% dos estudantes localizaram correctamente “o continente europeu em relação ao continente asiático, o continente africano em relação ao continente europeu e Portugal continental em relação ao continente americano”.

O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), Hélder de Sousa, não considera que estas falhas sejam por falta de conhecimento, mas sim na capacidade de o aplicar.

“Em alguns relatórios, na análise que se faz da Geografia do ensino secundário, uma das coisas um pouco anacrónicas é a dificuldade que os alunos têm em utilizar a informação cartográfica, quando a Geografia é a área em que, por excelência, estas áreas deviam estar mais consolidadas”, frisa.

Source: 45% dos alunos não conseguem situar Portugal no mapa – Portugal – SÁBADO

 

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme