Etiqueta: China

Português correcto em Macau

CAPÍTULO I

Disposição geral

Artigo 1.º

(Línguas oficiais)

1. As línguas chinesa e portuguesa são as línguas oficiais de Macau.

2. As línguas oficiais têm igual dignidade e são ambas meio de expressão válido de quaisquer actos jurídicos.

3. O disposto nos números anteriores não prejudica a liberdade de escolha, por cada indivíduo, da sua própria língua e o direito de a utilizar na sua esfera pessoal e familiar, bem como de a aprender e ensinar.

4. A Administração deve promover o ensino das línguas oficiais, bem como a sua correcta utilização.

[http://bo.io.gov.mo/bo/i/99/50/declei101.asp]

 

Um Acordo, Dois Sistemas

TDM Canal Macau

«O novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é uma realidade no território, apesar de não ter sido oficialmente aprovado. É utilizado há vários anos no ensino, mas não entra nos sectores da administração ou do governo.»

 

 

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Macau é “activo indispensável” na promoção do português [“Ponto Final” (Macau)]


Macau é “activo indispensável” na promoção do português

“Ponto Final” (Macau), 12.04.18

O presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua considerou ontem que “Macau é um activo indispensável na promoção da língua portuguesa” na região da Ásia Pacífico. No território para a terceira Subcomissão Mista entre Portugal e a RAEM, na quinta e sexta-feira, Luís Faro Ramos disse à Lusa que esta reunião tem como objectivo fazer “um ponto de situação das relações bilaterais” entre Portugal e a RAEM, reflectindo o “longo caminho que se tem percorrido” nestas duas áreas, língua e educação.

Um caminho que se tem mostrado “cada vez mais sólido” e, em muito, devido ao trabalho do Instituto Português do Oriente (IPOR) na “promoção da língua portuguesa em Macau, na China e na Austrália”, sublinhou.

A Subcomissão Mista para a língua portuguesa e educação foi constituída no âmbito da Comissão Mista entre Portugal e a RAEM e reúne-se alternadamente em Lisboa e Macau. O último encontro decorreu em Lisboa, em Fevereiro do ano passado.

À margem da reunião, o presidente do Camões cumprirá uma agenda de encontros com autoridades portuguesas e macaenses, designadamente o cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Vítor Sereno, o presidente da Escola Portuguesa de Macau, Manuel Machado, o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, o presidente do IPM, Lei Heong Ieok, e a presidente do Instituto Cultural, Mok Ian Ian.

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua é um instituto público tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Portugal, que tem por missão propor e executar a política de cooperação portuguesa e a política de ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro.

[Transcrição integral (incluindo imagem) de: Macau é “activo indispensável” na promoção do português. Jornal “Ponto Final” (Macau), 12.04.18. Imagem de topo: Diego Delso [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], from Wikimedia Commons.]

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Patuá Sâm Assi

Patuá, a língua que Macau deixou ‘morrer’ a troco de “dinheiro fácil”

Joana Almeida
14 Jan 2018

O crescimento de Macau, alicerçado na indústria do jogo, veio pôr em xeque a cultura local. O patuá macaense, língua crioula baseada no português, está a em risco de se extinguir e os cidadãos locais apontam o dedo “ao dinheiro fácil”.

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O negócio dos casinos em Macau fez da região administrativa a ‘Las Vegas do Leste’ e, embora tenha ajudado financeiramente, este crescimento veio reflectir muito pouco da cultura local macaense. O patuá macaense, língua crioula baseada no português, está a em risco de se extinguir e os cidadãos locais apontam o dedo “ao dinheiro fácil”.

“Hoje em dia, ninguém fala muito patuá. Apenas as pessoas com mais idade”, afirma Aida de Jesus, de 102 anos, ao jornal britânico ‘The Guardian’. Esta é uma das guardiãs mais antigas do idioma, que se originou para ser a língua da comunidade indígena eurasiática de Macau, depois do intercâmbio entre colonizadores portugueses e o povo chinês.

Elisabela Larrea, uma das habitantes da região que ainda conserva a língua, conta que o progressivo desaparecimento do patuá macaense se deveu, numa primeira fase, à forte presença portuguesa na região. As crianças eram obrigadas nas escolas a falar português e, aos poucos, com o aumento da escolarização, o patuá macaense foi-se perdendo.

“Na escola, fui ensinada a falar em português e pediram-me que não falasse em patuá”, conta Aida de Jesus. “Se falasse Patuá na escola, eles não entenderiam. Por isso, precisávamos de falar em português”.

A situação tornou-se ainda mais crítica quando, em 1999, a administração da região de Macau foi devolvida à China, depois de quase cinco séculos sobre domínio português. A entrada no capitalismo de mercado chinês trouxe consigo novas empresas e negócios e fez da indústria do jogo o principal motor da economia. Com isso vieram também novos hábitos e tendências, os velhos costumes estão a perder-se (ainda mais).

“A minha mãe disse-me que os nossos antepassados desistiram do que era nosso para passarem a ter uma língua que não faz parte da nossa identidade”, conta Elisabela Larrea, que tem um blog, onde divulga palavras em patuá macaense e as traduz para mandarim, cantonês e inglês para não deixar morrer a língua. “Resta-nos agora recuperar o que realmente representa a nossa cultura e o nosso espírito”, considera.

Em 2009, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) classificou o patuá como uma língua “criticamente ameaçada”, depois de na viragem do milénio se ter estimado a população total de falantes em apenas 50.

[“Jornal Económico”, 14.01.18. O texto em acordês no original foi corrigido automaticamente para Português-padrão pela solução Firefox contra o AO90.]

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“Das várias variantes da língua portuguesa” [jornal “Ponto Final” (Macau)]

«Entre as novidades introduzidas este ano, para além da sessão de cultura macaense, estiveram as sessões de cinema de língua portuguesa. Ambas deverão ser mantidas, na edição do próximo ano, explica a docente: “As tardes de cultura macaense, sim, é para continuar. Este ano também fizemos umas tardes de cinema português, filmes das várias variantes da língua portuguesa. Porque os alunos também gostam e porque é um bom exercício para aprender uma língua”.»

Curso de Verão de língua portuguesa termina com avaliação “francamente positiva”

Sílvia Gonçalves

“Ponto Final” (Macau), 07.08.17

A 31ª edição do Curso de Verão de Língua e Cultura Portuguesa da Universidade de Macau (UMAC) ficou marcada por um acréscimo significativo de alunos, por uma maior assiduidade e ausência de desistências. A coordenadora do curso, Ana Nunes, fala em maior esforço dos estudantes e mostra-se surpreendida com a apreensão imediata que estes fazem das danças tradicionais portuguesas.

Durante três semanas, tomaram contacto com a língua portuguesa dentro e fora da sala de aulas. Numa imersão cultural que incluiu canto, dança, cinema e sessões de história e cultura de Macau. O 31º Curso de Verão de Língua e Cultura Portuguesa da UMAC terminou na passada sexta-feira, numa edição marcada pelo acréscimo de alunos – dos 370 da edição de 2016 para os 450 deste ano – pela ausência de desistências e uma maior assiduidade às aulas. Pelos elementos da avaliação, diz a coordenadora do curso, regista-se um maior esforço dos estudantes, que a cada ano chegam maioritariamente da China continental. Além da vertente linguística, certo é que todos se apropriaram das coreografias das danças folclóricas portuguesas. Como se o fizessem desde sempre, garante a docente Ana Nunes.

“O balanço é muito positivo. Já temos acesso aos elementos da avaliação e percebeu-se que este ano, para além dos alunos estarem presentes em todas as aulas, costumam estar mas dá-me a sensação que este ano eles foram ainda mais assíduos, houve ainda um maior interesse, uma maior motivação. O curso é intensivo, todos os dias das 8h30 até às 13 horas, mas notou-se um entusiasmo verdadeiramente desde o início até ao fim. Na avaliação também se percebe que os alunos se esforçaram mais. Para além das presenças nas aulas, as notas deles, a avaliação deles foi francamente positiva”, conta Ana Nunes ao PONTO FINAL.

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“Passarinhos quadrúpedes”

Erro do IACM choca residentes que falam português mas não é um caso isolado

O presidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais pediu desculpa pela confusão cometida pelo organismo, que trocou no seu portal electrónico a língua portuguesa pela castelhana e promete investigar o caso. Para a comunidade local, o erro é inadmissível, mas não é um caso único e tem as raízes no tempo da Administração Portuguesa.

 

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“ponto final” (Macau), 09.09.16

João Santos Filipe

O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) publicou na sua página electrónica um postal em castelhano, desejando ao visitantes uma “Feliz Fiesta de la Luna”, quando pretendia utilizar o idioma português. O erro foi assumido pelo presidente do IACM, José Tavares que, através da página do PONTO FINAL na rede social Facebook, pediu desculpas pelo ocorrido. Segundo o mesmo foi ontem instaurado um processo para apurar as responsabilidades.

A atitude do presidente do IACM mereceu elogios na rede social, mas não faltou quem definisse o erro como “vergonhoso”. Também os membros da comunidade lusófona radicada no território, contactados pelo PONTO FINAL, se mostraram críticos com o caso: “Não tenho palavras para o erro… Aquilo nem é bem um erro, um erro seria ter uma letra trocada. Aquilo é simplesmente confundir uma língua com a outra… É imperdoável”, disse Fernando Gomes, antigo presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, médico e presidente da Associação dos Médicos dos Serviços de Saúde.

Para Rui Rocha, coordenador do Departamento de Português da Universidade Cidade de Macau, o caso ganha especial relevância por se tratar de um erro cometido pelo próprio Governo: “Fiquei espantado. Mesmo considerando eu o português uma língua subsidiária em relação ao chinês, esses erros não são admissíveis, principalmente na administração pública”, afirmou.

Contudo, erros ortográficos ou expressões incompreensíveis em português não são uma novidade no território. Quando Macau estava sob administração portuguesa estas falhas eram frequentes e ficou famoso caso de uma loja que em 1999, na Rotunda Carlos da Maia, anunciava no letreiro a comercialização de “Passarinhos Quadrúpedes”.

“Historicamente a língua portuguesa, mesmo na altura da Administração Portuguesa, tinha erros frequentemente. Bastava ler as tabuletas nas ruas. Pode haver a ideia que a língua portuguesa tinha um tratamento privilegiado até 1999 e isso deixou de acontecer. Mas não é verdade”, frisou Rui Rocha.

“É uma mera consequência do que a Administração Portuguesa deixou. Mas também mostra que nunca houve uma preocupação efectiva com o planeamento linguístico do português em Macau, que continua a não haver”, esclareceu.

Para Rui Rocha, a situação tem de ser resolvida com reformas ao nível do ensino básico e secundário, visto que o contacto com a língua portuguesa apenas no ensino superior não garante a proficiência necessária.

Fernando Gomes reconhece igualmente que estes erros existiam no tempo da Administração Portuguesa, porém diz que a exigência deve aumentar: “Apesar da falta, que é pública, de tradutores, o número que temos agora no Governo é superior em relação há dois, cinco anos ou mesmo no período antes da transição. É complicado justificar este erro quando se confunde uma língua com a outra. Mostra uma grande ignorância e estamos a falar de tradutores que têm uma boa carreira e um bom ordenado”, defende.

Fernando Gomes colocou ainda, em tom irónico, a possibilidade da tradução ter sido realizada por um “estafeta”, o que poderia justificar o acontecido. Mesmo assim, sublinhou que na rua há letreiros com erros visíveis e que estes são aprovados e inspeccionados pelo IACM.

Por sua vez, o presidente da Associação dos Macaense e da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, definiu o incidente como “lamentável”. Porém o advogado acredita que se ficou a dever a uma falha por parte dos trabalhadores nos escalões mais baixos da hierarquia do IACM, que muitas vezes “não têm uma certa sensibilidade para uma língua que todos os dias ouvimos dizer que é importante para o território”.

No entanto, o advogado destaca que em relação aos primeiros anos após a transição há uma alteração no discurso oficial, que cada vez mais sublinha a importância da língua portuguesa. Uma tendência que Miguel de Senna Fernandes diz estar presente na Assembleia Legislativa, mesmo entre os deputados da comunidade chinesa.

Source: Erro do IACM choca residentes que falam português mas não é um caso isolado

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Espeleologia do Paleiolítico

http://pgl.gal/xxii-coloquio-da-lusofonia-decorrera-em-setembro-em-seia/Sucedem-se as notícias sobre o “potencial económico da língua“, essa inacreditável invenção que se baseia num mirabolante “universo de 340 a 400 milhões de falantes lusófonos“.

Por mero acaso, por extraordinária coincidência, esta colossal patranha apenas ocorreu a meia dúzia de iluminados quando outra meia dúzia impingiu à força o AO90 aos tais “340 a 400 milhões“.

É de tal forma evidente este nexo de causalidade que nem carece a coisa de grandes ou detalhadas explicações: basta saber ler, digo eu, e conseguir discernir alguma coisinha de entre o emaranhado paleio neo-colonialista, neo-imperialista e, em suma, neo-neanderthal.

Por exemplo, aqui vão dois textos, um mais noticioso (mais neolítico, digamos), o outro mais na base do paleio (do paleiolítico, portanto), publicados com poucos dias de intervalo.

Esmiucemos os dois nacos de prosa simplesmente lendo-os em sequência, um atrás do outro. Entre ambos (o paleiolítico e o neolítico) nota-se perfeitamente o tal nexo de causalidade: as grandiloquências de um servem de respaldo verborreico aos grandes negócios de que fala o outro.

E tudo à custa de uma língua lascada. A deles.

 

jn_default_imgA minha língua na tua

Afonso Camões, Director

05 Junho 2016

Olhemos o planisfério à procura de laços. Aí está. Há pelo menos uma nação no Mundo cuja capital está em cinco continentes: é a língua portuguesa, património comum de sete estados soberanos, adoçada e declinada com diferentes acentos e musicalidades em cada ponto da cartografia onde espetamos o alfinete de cabeça colorida.

Assim é, desta pontinha na Europa ao Brasil, de Cabo Verde a São Tomé, Angola e Moçambique, e também Timor. Podemos espetar ainda outro em Macau, onde o português, apesar de ser usado por uma minoria, partilha com o mandarim o estatuto de língua oficial.

Se isto não é mercado, onde é que está o mercado? Porque será que, em poucos anos, a língua portuguesa já é ensinada em quase duas dezenas de universidades chinesas? A resposta é de previsão estatística e vem-nos da UNESCO: até 2050, haverá entre 340 e 400 milhões de falantes lusófonos. E aqui, o sábio olho chinês para o mercado revela visão rasgada sobre o Mundo e o incerto futuro.

É que a língua portuguesa, tradicionalmente de cultura e diplomacia, pode e deve voltar a assumir a condição de língua global de comércio, como o foi no período da primeira globalização, com os Descobrimentos. A miragem imperial dissolveu-se há muito. Mas o português já é a quarta língua mais utilizada na Internet, a terceira mais utilizada no Facebook e no Twitter, e o poder económico do mundo lusófono, em crescimento, já representa 4% da riqueza mundial.

Não se percebe, a esta luz, que passados 20 anos, assinalados em breve, sobre a criação da CPLP não haja uma verdadeira aposta recíproca em transformar a geografia lusófona num verdadeiro mercado comum, facilitador de transacções e de livre circulação, pondo termo a esse negócio hipócrita e corrupto que se esconde por detrás da teia burocrática e da concessão de vistos para viagens ou comércio.

Numa comunidade de estados soberanos vigora o princípio da reciprocidade. Pelo que o ónus destes atavismos é de cada um e de todos os sócios, a começar por nós. Nas vésperas de um 10 de Junho que o presidente Marcelo leva pela primeira vez para fora de Portugal, para homenagear a nossa diáspora, e a poucos dias do 20.º aniversário da CPLP, é dever dos nossos políticos valorizar a língua como activo verdadeiramente estratégico, com futuro.

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