Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: CPLP

“O mundo da lusofonia tem de assumir que a liderança é do Brasil” (Marcelo Rebelo de Sousa)

CPLP em Cabo Verde Foto: TIAGO PETINGA/LUSA

CPLP em Cabo Verde Foto: TIAGO PETINGA/LUSA

 

CPLP aprova recomendação de “esforços para implementação do Acordo Ortográfico”

A Declaração de Santa Maria, aprovada na XII Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Cabo Verde, inclui uma recomendação para “o desenvolvimento de esforços para a implementação do Acordo Ortográfico”.

No texto aprovado na FXII Cimeira da CPLP, que decorre em Santa Maria, na ilha do Sal, Cabo Verde, lê-se que os Estados-membros “recomendaram o desenvolvimento de esforços para a implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, instando à sua ratificação e ao estabelecimento de formas de cooperação efectiva para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON)”.

Por outro lado, os nove Estados-membros “tomaram nota, com satisfação, da dinâmica desenvolvida pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), assumindo-se, cada vez mais, como uma instituição de carácter multilateral e fórum de planeamento e coordenação de projectos ligados ao fortalecimento da Língua Portuguesa”.

Neste plano, “expressaram o seu reconhecimento pelos significativos avanços dos projectos ‘Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC)’ e ‘Portal do Professor de Português língua estrangeira/língua não materna (PPPLE)’, sob responsabilidade do IILP”.

Ainda no que respeita ao ILLP, “reconheceram os esforços desenvolvidos” por este instituto “na articulação com os Observadores Associados”.

Criada há 22 anos, a CPLP tem actualmente nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

A XII Cimeira da CPLP, que marca o início da presidência rotativa desta organização por parte de Cabo Verde, começou na terça-feira e termina hoje, com a participação de todos os chefes de Estado, menos o de Timor-Leste, e ainda dos primeiros-ministros português e cabo-verdiano.

Source: CPLP aprova recomendação de ″esforços para implementação do Acordo Ortográfico″

As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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‘Não há dinheiro, não há palhaços’

Directora apreensiva com indefinição sobre liderança do IILP depois de Dezembro

A directora do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), manifestou-se, em entrevista à agência Lusa, preocupada com o futuro desta instituição da comunidade lusófona devido à indefinição sobre a liderança e aos recorrentes problemas financeiros.

 

Marisa Mendonça, que deixa a presidência do IILP em Dezembro, mostrou-se apreensiva por não existir, até ao momento, decisão sobre quem assumirá a direcção do instituto a partir dessa altura ou manifestações de interesse no cargo.

Cabo Verde assume a presidência da comunidade lusófona na XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), agendada para 17 e 18 de Julho, na ilha do Sal.

As propostas sobre os países que irão assumir a liderança dos órgãos da comunidade são aprovadas durante as cimeiras, mas até ao momento não é conhecida a vontade de qualquer país em apresentar uma candidatura.

“Ainda não há uma decisão neste sentido e isto está a deixar-me, de certa forma, muito apreensiva. Estranhamente, até este momento, estamos a menos de 15 dias da cimeira da CPLP, e não há nomes“, disse.

Marisa Mendonça considerou que “seria bom perceber quais são os países ou as pessoas que se estão a perfilar” para a direcção deste organismo, lembrando que, aquando da sua nomeação, Moçambique propôs “muito cedo” o seu nome.

A directora executiva do IILP, que cumpre o seu segundo mandato à frente da instituição, manifestou-se também preocupada com os atrasos recorrentes no pagamento das quotas por parte dos países-membros, adiantando que o instituto tem estado a funcionar com 8% do seu orçamento.

“A nível financeiro estamos numa situação complicada. Quando entrei fizemos um grande esforço de contacto com os Estados-membros, que estavam com uma dívida global acima de um milhão de euros, quatro orçamentos anuais do IILP. Não preciso de entrar em grandes pormenores para se perceber a dificuldades de gerir o instituto nessa situação”, disse.

Adiantou que a dívida chegou a reduzir para 300 mil euros, mas que actualmente ascende a mais de 800 mil euros.

“É uma dificuldade imensa, temos compromissos assumidos diante de outras instituições que dão cobertura técnica às nossas plataformas, aos nossos projectos e andamos muitas vezes com o coração nas mãos, porque não sabemos como honrar os nossos compromissos”, reforçou.

Marisa Mendonça assinalou que se trata de “uma situação recorrente e que vem do passado”.

“Temos vivido sempre com este problema a nível financeiro. Isto não nos permite dar outros passos, temos obrigações, orientações plasmadas nos planos de acção de Brasília, de Lisboa e de Díli, mas temos de ser muito cautelosos quando pensamos abrir mais uma frente de trabalho e trazer outras dimensões àquilo que é a actividade do IILP”, disse.

Ainda assim, a directora executiva do instituto faz um “balanço positivo” do seu mandato, manifestando a expectativa de que os projectos em curso não sejam postos em causa.

“Fez-me muito trabalho, temos projectos em bom nível de desenvolvimento, seria realmente uma pena que estes projectos não pudessem ser continuados. É muito importante pensarmos como é que essas actividades vão continuar, mas antes de pensarmos nisto temos de pensar na consolidação da instituição, temos de pensar noutras formas de manter a instituição viva e com as condições que obrigatoriamente tem de ter”, considerou.

Marisa Mendonça sublinhou a importância de ter dado continuidade aos projectos que estavam em curso na organização – Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), Portal de Português Língua Estrangeira e a Revista Plateau, bem como de ter conseguido iniciar novos projectos.

“Iniciámos e estamos a desenvolver três projectos: CPLP – Comunidade Mais Leitora, que visa o desenvolvimento e promoção da leitura e da escrita, como uma estratégia comum a todos os países da CPLP, o dicionário de autores de literaturas africanas de língua portuguesa, que é a transformação de um dicionário em formato físico num dicionário virtual, e as terminologias científicas e técnicas comuns da língua portuguesa”, enumerou.

Para Marisa Mendonça, este último projecto será “bastante importante” porque “vai trazer uma plataforma consensualizada de terminologias que poderão ser um apoio fundamental para as actividades tanto de tradução como de interpretação de conferências”.

Marisa Mendonça apelou às autoridades cabo-verdianas, que vão presidir à CPLP e país onde está a sede do instituto, que olhem para o IILP “com outra atenção”.

Sediado na cidade da Praia, o IILP é um instrumento para a gestão comum da língua portuguesa, envolvendo todos os Estados-membros da CPLP.

CFF/RYPE // VM

Lusa/Fim

https://24.sapo.pt/noticias/internacional/artigo/diretora-apreensiva-com-indefinicao-sobre-lideranca-do-iilp-depois-de-dezembro_24501232.html

[A transcrição deste texto da Brasilusa, como de costume estropiado pelo AO90, foi corrigida automaticamente pela solução Firefox contra o AO90. Destaques meus.]

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Passagem de modelos

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Não deixa de ter sua piada, de facto. Nem de propósito, a respeito deste tipo de fantochadas ainda ontem aqui tinha deixado uma espécie de 11.º Mandamento, que me perdoe o Supremo Chefão pela ousadia (espero bem que ao menos Ele tenha algum sentido de humor), e eis que de imediato surge esta coisada patusca, ena, mais um “debate” sobre a “língua portuguesa”, mas que luxo, aquilo não há-de ser propaganda acordista nem nada.

Tratar-se-á, esta espécie de eleição da Miss Mundo Lusófono, de um evento ilustradíssimo, sapientíssimo, quiçá amiúde brilhantíssimo, a avaliar pelos e pelas presentes no desfile (parece que a parte do fato-de-banho foi proibida recentemente, temos pena), do qual resultará com certeza uma cerimónia de coroação condigna, a vencedora (ou vencedor, sejamos “paritários”) chorando baba e ranho pela “surpresa” e debitando depois o tradicional discurso sobre os seus desejos de “paz e prosperidade para toda a humanidade”. Uma coisa linda e comovente, em suma.

Estou em crer que será um sucesso estrondoso. Em especial a parte final, a do “debate”, certamente abrilhantado por uma qualquer tuna universitária com sua garota da pandeireta aos pulinhos; haverá, como é da praxe, 90% de acordistas massacrando, com cuidado para não esmagar de vez, a única anti-acordista (extra-concurso) presente.

10 DE JULHO | SALÃO NOBRE DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS

Manhã
9.00h – Académico Adriano Moreira (ACL) ─ A Língua não é nossa, também é nossa.

9.20h – Escritor José Eduardo Agualusa (Angola) ─ Título a indicar.

9.40h – Juíza Desembargadora Vera Duarte (Cabo Verde) ─ A Língua Portuguesa como metáfora do Quinto Império.

10.00h – (Censurado [por mim, é claro]. Não transcrevo o nome daquele escroque no meu blog.)

10.20h – Doutor Rafael Gomes Filipe (Universidade Nova de Lisboa) ─ Algumas reflexões sobre os acordos ortográficos luso-brasileiros.

10.40h – Doutor Olivier Pellegrino (França) ─ A primeira edição luso-brasileira do Vocabulário Internacional de Metrologia.

11.00h – Padre António Colimão (Damão) ─ Crioulo Damanense ou Português falado em Damão-Diu e Silvassá.

11.20h – Professora Doutora Ana Maria Martinho (Universidade Nova de Lisboa ─ CHAM) ─ A língua portuguesa em Moçambique e a valorização das línguas bantu.

11.40h – Professor Doutor Luís Filipe Reis Thomaz ─ Título a indicar (sobre Timor).

12.00h – Doutora Maria do Carmo Vieira ─ Lusofonias.

12.20h – Académico João Abel da Fonseca (ACL) ─ Moçambicanismos e características peculiares.

12.40h – Debate.

Tarde
14.30h – Abertura da Exposição sobre “Filólogos da Academia”, patente na Biblioteca da Academia.

15.00h – Académico Manuel Alegre (ACL) ─ Título a indicar.

15.20h – Professora Doutora Fátima Roque (Angola) ─ A Língua Portuguesa e as línguas maternas em Angola.

15.40h – Professora Doutora Teresa Lino (Universidade Nova de Lisboa) ─ Neologia do Português contemporâneo.

16.00h – Professor Doutor Deonísio da Silva (Brasil) ─ Futebol: breve observação sobre palavras-chaves.

16.20h – Doutor António Callixto (Luxemburgo) ─ Situação da Língua Portuguesa no Luxemburgo.

16.40h – Doutora Carmen de Frias e Gouveia (Universidade de Coimbra) ─ Da inutilidade do “novo” Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

17.00h – Académico João Bigotte Chorão (ACL) ─ Por amor ao idioma.

17.20h – Professor Doutor Celso Augusto da Conceição (Brasil) ─ A diversidade linguística entre Brasil e Portugal: uma questão idiomática.

17.40h – Professora Doutora Annabela Rita (Universidade de Lisboa ─ CLEPUL) ─ Língua Portuguesa: da diversidade à esteticização.

18.00h – Académico Fernando Paulo Baptista (ACL) ─ A expressão da diversidade intercultural dos países da C.P.L.P., no respeito do “direito à diferença”.

18.20h – Académico Duarte Ivo Cruz (ACL) ─ A Língua no teatro pré-vicentino.

18.40h – Professor Doutor José Carlos Gentili (Brasil) ─ O continente Brasil e seus falares.

19.00h – Académico Artur Anselmo (ACL) ─ Todas as línguas são iguais em direitos.

19.20h – Debate.

https://www.facebook.com/events/1080680245415994/

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11. Não discutirás com idiotas

Não adianta, pelos vistos, insistir na tremenda inutilidade que é esgrimir com acordistas argumentos “técnicos” a respeito de um assunto que de técnico nada tem. Alguns deles — os que não são perfeitos imbecis — agradecem a deferência e assim, fazendo resvalar a “conversa” para o campo da ortografia, quando o AO90 não tem absolutamente nada a ver com ortografia, disfarçam o carácter exclusivamente político da questão: para cada um dos exemplos citados pelos anti-acordistas que se deixam enredar neste “diálogo” de surdos, é claro, os acordistas citam logo três ou quatro outros exemplos para derrotar — por vezes “tecnicamente” bem, o que pouco ou nada importa para o caso — os apontados pelos “contristas” como sendo “verdadeiras aberrações” ou “contradições flagrantes”.

Ora, como sabemos, o AO90 é uma verdadeira aberração, de cabo a rabo, e não passa, todo ele, de uma flagrante contradição: ninguém o pediu nem a alguém jamais ocorreu a mais ínfima necessidade de tal coisa mas fizeram-no à mesma e impõem-no selvaticamente; não veio resolver problema algum e, pelo contrário, inventou novos (e enormes) problemas onde não existia um único; tenta justificar-se com uma pretensa “simplificação” mas apenas gerou instabilidade, anarquia, o caos total; garantia a “unificação da língua” mas tornou ainda mais díspares as duas variantes… que se transformaram em quatro; pretendia ser um instrumento de “difusão” do Português mas o que se verifica é mais do mesmo, ou seja, “difusão” nenhuma, quando não sucede precisamente o contrário. E por aí fora, são sobejamente conhecidos os factos que explicam o estado a que isto chegou

O que aliás torna ainda mais incompreensível que alguém conceda alguma espécie de crédito “científico” ao acordismo (um fenómeno político normal que se designa como “geopolítica”) e aos acordistas (um fenómeno social paranormal a que se chama “ganância”).

É que tal concessão de credibilidade implica um custo exorbitante, isto é, o luxo a que se dão alguns acaba por sair caríssimo a todos os demais: os membros da seita acordista conseguem, pela via “dialogante” aberta por certos opositores, matar logo dois coelhos de uma cajadada só, transformando uma inacreditável aldrabice numa coisa que até parece ser meramente “técnica” e escamoteando aquilo que de facto está em causa.

Pior: não apenas abatem de imediato um par de coelhos, inteiramente grátis, como — para cúmulo — em simultâneo fazem passar de si mesmos, acordistas empedernidos, ferozes e brutalmente comprometidos, a impressão de que afinal são pessoas condescendentes, tolerantes, até “democratas”.

Nada mais falso, bem entendido. Essas aparentes tolerância e condescendência dos acordistas não passam de puro cinismo (na variante “esperteza saloia”), uma forma de traiçoeiramente esconder da opinião pública a real essência do AO90, ou seja, que se trata de um mero expediente político para justificar o injustificável, um  pretexto verborreico para “explicar” as ânsias expansionistas de um “país-continente”. Por isto mesmo já nem se coíbem de aberta e descaradamente tratar a Língua como um bem transaccionável, exportável, vendável, falando do “valor económico do português” enquanto “facilitador de negócios” e enormidades quejandas. 

Nem todos os agentes acordistas são simples comerciantes, mercadores, vendilhões ou traficantes da Língua, porém. Há uns quantos que se limitam a fazer o papel de idiotas úteis, papagueando as bojardas que interessam aos verdadeiros “donos da língua” —  que o assunto fique, muito bem tapado por uma mortalha palavrosa, enterrado no mofo das academias ou, quando muito, encapsulado nos minúsculos guetos onde “técnicos”  discutem com os botões uns dos outros se os anjos serão meninos ou meninas.

A favor do AO90

Resposta ao núcleo do artigo de Nuno Pacheco, publicado a 21 de Junho, com o título “Ficou a Academia, foi-se o bom senso”.

Ludgero Basto
“Público”, 04.07.08

Irrita-me e enerva-me ninguém responder aos sucessivos, insistentes e entediantes artigos de opinião contra o AO90. Em regra, são escritos por jornalistas e escritores porque têm acesso natural aos media e os leitores são levados a pensar: “se estes tipos dizem isto e são jornalistas e escritores, eles, que usam intensivamente a escrita, devem ter razão.”

Penso que o que move estes jornalistas e escritores é principalmente aquilo que alguns já tiveram o dislate de dizer: “Deu-me tanto trabalho aprender a escrever corretamente (eles escrevem correctamente) a nossa querida língua e agora estes gajos mudam tudo, bolas!” (alguns até levaram reguadas por omitirem o c em reta ou em direto).

Segue a transcrição das alterações ao AO90 que Nuno Pacheco considera de “elementar bom senso” intercaladas com os meus comentários: “Mesmo duvidando que um texto tão tecnicamente mal feito e tão prejudicial possa alguma vez ser ‘aprimorado’, as sugestões dadas pela Academia das Ciências de Lisboa respeitavam o mais elementar bom senso.”

1. Pára, péla, pêlo, pôr, pôde, dêmos eram acentuados (diferenciando-se assim de para, pela, pelo, por, pode, demos);

Podíamos acrescentar: colhér, séde, gósto, fórça, bóla, prégar, segrédo, almóço, acórdo (diferenciando-se assim de colher, sede, gosto, força, bola, pregar, segredo, almoço, acordo)

2. Crêem, vêem e lêem recuperariam os respectivos circunflexos;

Que falta faz aqui a acentuação com os circunflexos?

3. A terminação –ámos (pretérito) voltava a ser acentuada, para se distinguir, no tempo verbal, de –amos (presente);

Concordo com esta alteração, ficando esta como a única exceção à regra de não acentuação das palavras graves.

4. Acepção, corrector, espectador e óptica voltariam a imperar sobre aceção, corretor, espetador e ótica;

A mesma questão que se põe no ponto 1. Aqui o c e o p servem para abrir a vogal anterior exceto em óptica, que nem para isso serve.

Neste ponto, é frequente encontrar o argumento “que se perde a etimologia… e dão como exemplo Egito versus Egípcio”. Pois, mas isso é a evolução normal, também nudo em latim deu nu apesar de o d continuar presente em nudismo.

5. Palavras inventadas como interrutor ou concetível seriam abolidas, restaurando-se interruptor ou conceptível;

Concordo com a dupla grafia. Se os brasileiros dizem interrutor e nós dizemos interruptor, por que não havemos de escrever em concordância?

6. Voltava a olhar-se para o hífen com lógica científica, usando-o “nas combinações vocabulares que formem verdadeiras unidades semânticas” (água-de-colónia, braço-de-ferro, pé-de-meia, etc.) e nas expressões onde a soma dos elementos forma sentido único (faz-de-conta, maria-vai-com-as-outras);

Não tenho preferência: digam-me como se deve escrever, eu seguirei a regra estabelecida.

 

Transcrito de: https://www.publico.pt/2018/07/04/opiniao/opiniao/a-favor-do-ao90-1836805

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Dar à língua

«(…) algumas pessoas que só falam das questões lusófonas por razões negativas, sendo que, nalguns casos, o fazem até com indisfarçado júbilo.»

Como diriam brasileiros: “oi? É nóis.”

Enfio de bom grado, com cagança e pundonor, qual forcado da cara numa pega rija, o competente barrete. Confesso, eu cá só falo dessas tais “questões lusófonas” por “razões negativas” (há outras?) e faço-o não apenas com “indisfarçado júbilo” como até com manifesto gozo: apreciamos basto ficções, invenções e ilusões, é por isso, daí a piada.

E não apenas apreciamos esse tipo de números “lusófonos” como não desprezamos usar, quando em vez, nosso plural majestático. Sim, que a 1.ª pessoa do plural tem — como toda a gente sabe — muitíssimo mais pinta do que a 1.ª do singular, essa pessoinha desprezível.

Consideramos, por conseguinte, eu e aqui o Garfield da vizinha, que em mais este texto perpassa a já bocejante obsessão pelo “gigantismo” da língua (ou seja, do Brasil), a estranha fixação pelos “260 milhões” de “falantes” (dos quais “só” 240 milhões são brasileiros) que serão mais não sei quantos milhões não sei quando nem sei onde, mai-la costumeira teoria do “crescimento” (“exponencial”) da língua aliando esta a uma “defesa” que não sei quê e à “difusão” não sei das quantas.

Enfim, quero dizer (ou queremos significar), cá na minha (nossa), a conversa fiada da “lusofonia” já chateia. E já parava.

Mas parece que não, temos agora duas indústrias paralelas, quais Pepsi e Coca-Cola por escrito: uma para dar a língua, a outra para dar à língua.

Opinião

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre? Resposta a Nuno Pacheco

São as autoridades de cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa que, legítima e soberanamente, têm reafirmado a sua aposta na defesa e difusão da língua portuguesa.

Renato Epifânio
“Público”, 29 de Junho de 2018

Sabemos que não é o caso de Nuno Pacheco (NP), mas o seu artigo “Língua portuguesa, do lirismo ao desastre” (PÚBLICO, 14.06.2018) não pôde deixar de nos lembrar algumas pessoas que só falam das questões lusófonas por razões negativas, sendo que, nalguns casos, o fazem até com indisfarçado júbilo.

Feita esta justa ressalva, vamos então ao teor do texto. No essencial, NP contesta “que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século”. Fá-lo, porém, a nosso ver, misturando bons e maus argumentos. Daí a nossa resposta.

Começando por dar razão a NP, importa reconhecer que, na realidade, os únicos países de língua portuguesa (no sentido em que nesses países se fala massivamente a nossa língua) são, no presente, Portugal e Brasil. E se é incontestável, como alega NP, que “o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa)”, não será por isso que no Brasil se deixará de falar a nossa língua. A língua portuguesa é no Brasil uma realidade mais do que consolidada, sendo também, por via disso, um dos grandes factores de coesão nacional, apesar de todas as crises.

Atravessando o Atlântico, a situação já é bem diferente, como importa igualmente reconhecer. Em todos esses países, o número real de falantes de língua portuguesa está muito aquém da maioria. Aqui, porém, mais do que para os dados, importa olhar para as tendências. E o que estas nos antecipam é que a tendência é de crescimento, assim se consolidem os diversos sistemas de ensino. Esse tem sido, até ao momento, o maior obstáculo a esse crescimento.

Aqui, a única (semi-)excepção é Cabo Verde, que, como refere NP, está entretanto a apostar mais no crioulo do que na língua portuguesa. Pela nossa parte, acreditamos que essa tendência não é irreversível, desde logo porque a língua portuguesa tem, em relação ao crioulo, uma vantagem óbvia: enquanto o crioulo será apenas uma língua de comunicação interna, a língua portuguesa garante uma comunicação a nível internacional. De resto, situação similar se passa em Timor-Leste: apesar da força do “tétum”, as autoridades timorenses não deixam cair a língua portuguesa porque perceberam isso há muito tempo.

Em suma: são as autoridades de cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa que, legítima e soberanamente, têm reafirmado a sua aposta na defesa e difusão da língua portuguesa. Obviamente, não o fazem para agradar a Portugal. Fazem-no (talvez até, nalguns casos, a contragosto) porque sabem que isso é do seu essencial interesse. À medida que o Estado em cada um desses países se for consolidando (também a nível do sistema de ensino), é mais do que previsível que o número real de falantes de língua portuguesa vá crescer exponencialmente, até porque esses países se mantêm em expansão demográfica (neste plano, a única excepção é, como se sabe, Portugal).

Tudo isto são, porém, aspectos quantitativos. Ora, mais importantes são, a nosso ver, os aspectos qualitativos. E aqui, de facto, o cenário é bem menos auspicioso: esse conjunto em crescendo de pessoas que falam a língua portuguesa está ainda longe, muito longe, de formar uma real comunidade. Nalguns casos, cada vez mais longe. Sendo que aqui as razões são outras: no Brasil, por exemplo, o sistema de ensino continua a diabolizar, em grande parte, a colonização portuguesa; em África, em geral, a situação não é muito diferente; depois, têm existido alguns incidentes político-diplomáticos, como entre Portugal e Angola; corolário de tudo isso tem sido a crescente inércia da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que, mais do que uma redinamização, precisa de uma refundação.

Ainda assim, o facto de um país como Angola estar a multiplicar as suas relações (com os países anglófonos e francófonos, como NP salienta) não fará com que Angola deixe de ser um país lusófono, cada vez mais lusófono, ainda que só linguisticamente. O que mais importa é, sobre isso, consolidar uma cooperação (a todos os níveis) digna desse nome. Aí sim, Portugal pode e deve fazer muito mais. Já quanto às nossas comunidades de emigrantes, o cenário é bem diferente: a esse respeito, NP refere, citando Onésimo Teotónio de Almeida, que “o movimento de crescimento do português está nos Estados Unidos da América a ter uma curva descendente desde 2015”. E o mesmo tem acontecido, acrescentamos nós, noutros países com fortes comunidades portuguesas.

Há, a nosso ver, duas razões para tal: em primeiro lugar, é natural que, à medida que as gerações se sucedem, a ligação com a língua portuguesa se vá desvanecendo, sobretudo porque (e essa é a segunda razão) não parece haver motivos para contrariar essa tendência, a não ser os afectivos/ familiares. Quando, nalguns casos, são as próprias autoridades políticas e académicas portuguesas a promoverem uma visão envergonhada da nossa história e cultura, que estímulo podem ter os netos ou bisnetos de portugueses para aprenderem a nossa língua? Falamos por nós: se tivéssemos nascido nos Estados Unidos da América ou em França, apenas para dar dois exemplos, e se nos tivéssemos deixado formatar pela “cultura dominante” (bem visível, por exemplo, na polémica em curso sobre o “Museu dos Descobrimentos”), não teríamos o menor estímulo para manter uma ligação linguística com Portugal. Pelo contrário.

https://www.publico.pt/2018/06/29/culturaipsilon/opiniao/lingua-portuguesa-do-lirismo-ao-desastre-resposta-a-nuno-pacheco-1836095

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O AO90 e a “maravilhosa projecção internacional da língua” «unificada»

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

 

Faire d’une pierre deux coups. C’est l’ambition du nouveau président angolais Joao Lourenço qui souhaite, contre toute attente, voir son pays, une ancienne colonie portugaise, intégrer à la fois la Francophonie et le Commonwealth britannique.

La mission ne s’annonce pas impossible, à en croire le chef de l’Etat, qui tente coûte que coûte d’attirer les investisseurs étrangers dans son pays producteur de pétrole, mais embourbé depuis des années dans une profonde crise économique.

Joao Lourenço en veut pour preuve le Mozambique, une autre ex-colonie portugaise qui a rejoint le Commonwealth en 1995.

“L’Angola n’est pas entouré de pays lusophones”, a-t-il benoîtement constaté pour justifier son initiative. Il est pressé au nord par la République démocratique du Congo et le Congo-Brazzaville, adeptes de la langue de Molière. Au sud et à l’est par la Namibie et la Zambie, pratiquants de celle de Shakespeare.

“Par conséquent, ne vous étonnez pas que nous demandions maintenant l’adhésion à la Francophonie et, dans quelques jours, au Commonwealth”, a lancé le président angolais lors d’une récente tournée diplomatique en Europe.

Londres a réagi avec enthousiasme à cette annonce surprise. “Formidable”, s’est extasié le chef de la diplomatie britannique Boris Johnson sur Twitter.

“Nous accueillons avec une grande satisfaction l’engagement du président Lourenço sur des réformes de long terme, la lutte contre la corruption, l’amélioration des droits humains. Au plaisir de l’accueillir bientôt au Royaume-Uni”, a-t-il lancé.

L’intégration au Commonwealth répond à des critères stricts. Sa charte insiste notamment sur “l’égalité et le respect de la protection et de la promotion des droits civils, politiques, économiques, sociaux et culturels” de ses membres.

La perspective d’y ajouter l’Angola réjouit Zenaida Machado, de l’organisation Human Rights Watch (HRW).

“Il devra adhérer à des règles et des principes qui, s’ils sont respectés, seront très bons pour le climat du pays”, se réjouit-elle, “pour nous c’est un bon signal”.

– “Bonne idée” –

Car, de l’avis des ONG, l’Angola n’est pas précisément un parangon de vertu démocratique.

Il sort à peine de trente-huit ans de règne autoritaire de Jose Eduardo dos Santos, qui a largement muselé ses adversaires politiques. Son successeur Joao Lourenço, issu du même parti, le MPLA, a promis d’éradiquer la corruption, mais la route reste longue sur la voie d’un changement de régime.

S’il a autorisé en mars une rare manifestation de l’opposition, sa police a encore été épinglée au début du mois pour avoir abattu sans autre forme de procès un suspect dans la rue.

A ce jour, seuls deux pays sans histoire coloniale commune avec le Royaume-Uni – le Mozambique et le Rwanda – sont membres du Commonwealth. Et ceux qui adhèrent en même temps à la Francophonie (84 membres) et au Commonwealth (53) se comptent sur les doigts des deux mains.

“C’est une bonne idée que l’Angola (les) rejoigne car la majorité des pays africains sont liés à ces organisations”, estime l’analyste politique Augusto Bafua Bafua. “L’Angola est déjà membre de la Communauté des pays de langue portugaise, mais cette organisation est très faible”, fait-il remarquer.

Dans les rues de Luanda, les Angolais, qui se débattent au quotidien avec un chômage de masse et une forte inflation, s’interrogent pourtant sur l’impact de telles adhésions.

“L’Angola fait déjà partie d’organisations similaires et les avantages ne sont pas visibles”, estime Augusto Pedro, chômeur de 36 ans. “Le portugais n’est pas parlé par toute la population, donc on devrait se battre pour rejoindre ces communautés”, nuance un autre habitant, Manuel Joao, 28 ans.

L’opposant Rafael Marques, lui, reste très perplexe. “Les gens en Angola peuvent à peine écrire portugais parce que le système éducatif s’est effondré”, constate-t-il, “si on ne peut pas éduquer son peuple dans la langue officielle, à quoi bon rejoindre deux autres communautés de langue ?”

Alors Rafael Marques, féroce critique du parti au pouvoir, avance une autre explication. “Cette annonce sympathique va lui faire gagner des points dans les médias”, cingle-t-il.

Source: L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

https://twitter.com/BorisJohnson/status/1004039780076748802?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=https%3A%2F%2Feco.pt%2F2018%2F06%2F06%2Fboris-johnson-confirma-no-twitter-angola-quer-juntar-se-a-commonwealth%2F

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