Etiqueta: Direito

A Guiné Equatoriáu e a CPLP

Muita gente, por alienação programada ou porque o assunto foi impingido como sendo menor, nunca entendeu, não entende e já nem quer saber para que diabo serve a CPLP e o que faz nessa “comunidade” a Guiné-Equatorial. É um grande mistério. Ou não.

Se tivermos em conta apenas os factos conhecidos e verificáveis de tão bizarra “ligação”, não é muito difícil perceber não apenas porque é que o país do ditador Obiang entrou na CPLP, como também o que é e para que serve a “comunidade”. Existe de facto uma relação de causa e efeito entre a admissão daquela ditadura e o carácter político-económico da organização.

Sendo a CPLP uma invenção totalmente brasileira (com a prestimosa colaboração de jagunços  portugueses), interessa ao Itamarati (e aos jagunços) ter mais um entreposto comercial em África, sendo que este, funcionando como uma espécie de feitoria do sub-mundo empresarial, facilita enormemente as negociatas e cambalachos em que se especializaram capitalistas pseudo-acordistas; ora, sendo inconfessáveis tais negociatas, os interesses tripartidos (digamos, 90% para brasileiros, 8% para portugueses, 2% para a família Obiang) têm, debaixo da cortina de fumo da “língua universáu”, uma espécie de caverna obscura para planear os seus assaltos e roubalheiras. Portanto, em conclusão, a Guiné-Equatorial serve, no contexto da CPLP, de entreposto para legitimar (e ocultar) negócios que de outra forma, por métodos legais, transparentes e legítimos seriam impossíveis.

O pouco que se sabe daquele país de Língua oficial espanhola não se recomenda de forma alguma (até tem “ficha” na CIA), em perfeita consonância com a génese, os métodos de actuação e as finalidades da agremiação inventada pelo Brasil e paga por Portugal.

Em linguagem cifrada, é disso que tratam estas duas notícias: a primeira limita-se a reproduzir um despacho da agência brasiLusa e a segunda desenvolve o tema, destapando uma pontinha do véu de secretismo que por definição envolve estas “cimeiras”.

De entre outros chavões incontornáveis dos “jornalistas” avençados pela CPLP, destaque-se o mais habitual de todos, sempre presente — expressa ou implicitamente — neste tipo de “notícias”: o encontro da organização lusófona deverá levar “à Guiné Equatorial grandes empresas de todos os nove países, espalhados por quatro continentes”. Ou seja, traduzindo, empresas de apenas dois dos nove países, dez ou vinte grandes tubarões do Brasil e um ou dois dromedários de Portugal; a Guiné-Bissau, um narco-estado, e os micro-estados de Cabo Verde, São Tomé e Timor não contam porque não têm “grandes empresas” e Moçambique tem mais com que se ralar; talvez algum angolano apareça lá por Malabó, a ver as cotações dos diamantes no mercado-negro.

Guiné Equatorial acolhe “Cimeira de Negócios” da CPLP em Fevereiro

e-Global, 04.01.21

 

A Guiné Equatorial vai acolher em Malabo, entre 14 a 16 de Fevereiro, a primeira “Cimeira de Negócios” da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Esta é a primeira vez que recebe o evento desde que aderiu à organização lusófona, em 2014.

O anúncio foi feito pela Embaixada da Guiné Equatorial em Lisboa, capital de Portugal. A cimeira é patrocinada pelo Governo equato-guineense e também pelo secretariado executivo da CPLP, estando a organização a cargo da Confederação Empresarial da CPLP.

O objectivo do evento é “impulsionar, desenvolver e fortalecer a cooperação económica e empresarial” entre os Estados-membros da organização dos países de língua portuguesa e observadores associados.

Um comunicado da Embaixada da Guiné Equatorial refere ainda que o encontro da organização lusófona deverá levar “à Guiné Equatorial grandes empresas de todos os nove países, espalhados por quatro continentes”.

Recorde-se que, além da Guiné Equatorial, a CPLP é igualmente constituída por Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné-Bissau.

Guiné Equatorial acolhe “Cimeira de Negócios” da CPLP em Fevereiro

“Expresso das Ilhas“, LUSA, 30 Dez. 2020

 

A Guiné Equatorial vai acolher em Malabo de 14 a 16 de Fevereiro a primeira “Cimeira de Negócios” da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), desde que aderiu à organização em 2014, anunciou a embaixada equato-guineense em Lisboa.

A cimeira, patrocinada pelo Governo equato-guineense e pelo secretariado executivo da CPLP, e organizada pela Confederação Empresarial da CPLP, tem como objectivo “impulsionar, desenvolver e fortalecer a cooperação económica e empresarial” entre os Estados-membros da organização dos países de língua portuguesa e observadores associados.

Segundo um comunicado da embaixada equato-guineense, o encontro da CPLP deverá levar “à Guiné Equatorial grandes empresas de todos os nove países, espalhados por quatro continentes”.

Empresas dos sectores do petróleo e gás, indústria, pesca, agricultura, transformação alimentar, meio ambiente, turismo, transportes, saúde e formação dos nove países da CPLP vão ter acesso a um menu de “oportunidades de negócio no país”, a ser apresentado pelo governo anfitrião, assim como conhecer as instituições locais de suporte ao investimento internacional, ainda segundo o texto.

A queda dos preços do petróleo, em consequência da violenta quebra de consumo mundial provocada pela pandemia de covid-19, teve um forte impacto na economia da Guiné Equatorial, que em agosto remodelou o Governo, e em Outubro substituiu o ministro das Finanças, como recurso de combate à crise, assumido pelo próprio Presidente Teodoro Obiang Nguema.

O chefe de Estado declarou na altura ter sido obrigado “a tomar medidas rigorosas para mitigar os efeitos de uma grave recessão económica e prevenir a instabilidade política e social”.

Obiang sublinhou então que “razões económicas” justificaram a dissolução do Governo anterior e que o novo executivo – ainda que fundamentalmente com o mesmo elenco – devia “procurar soluções específicas e viáveis para resolver os atuais problemas enfrentados pelos países do mundo e os problemas económicos”.

A consultora Economist Intelligence Unit (EIU) considerou no início do quarto trimestre deste ano que a Guiné Equatorial vai necessitar de mais ajuda financeira além do programa do Fundo Monetário Internacional (FMI), antevendo uma queda de 5,5% no PIB em 2021.

“Antevemos que a Guiné Equatorial vá pedir mais assistência além do seu atual pacote de financiamento, e cumprir as condições prévias de financiamento dos credores será uma das principais prioridades políticas, com o Governo a tentar encontrar maneiras de gerir o forte choque nas receitas causado pela pandemia”, escreveram os peritos da unidade de análise económica da revista britânica The Economist.

Numa nota sobre a economia do país enviada aos clientes, os analistas da EIU estimaram que a Guiné Equatorial enfrentará uma recessão de 12,7% do PIB este ano e que em 2021 a economia volte a quebrar, ao contrário do que prevê o FMI, que antecipa um crescimento da economia equato-guineense no próximo ano.

Desde a sua independência de Espanha, em 1968, a Guiné Equatorial tem sido considerada pelos grupos de direitos humanos como um dos países mais repressivos do mundo, devido a alegações de detenção e tortura de dissidentes e de fraude eleitoral.

Obiang, que tem liderado o país desde 1979, quando derrubou o seu tio, Francisco Macias, num golpe de Estado, é o Presidente em funções há mais tempo em todo o mundo.

A Guiné Equatorial integra a CPLP desde 2014, que é ainda composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Um murro na chipala

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[veja aqui um “filme” falado em “Portuguese” (“língua universal” brasileira)]
[imagem Facebook de uma empresa qualquer de “ensino” de “Portuguese” (brasileiro) online]
O AO90 não tem nem “erros” nem “deficiências”. O AO90 é um erro, todo ele, e é uma deficiência total, de cabo a rabo. Para que algo contenha “erros” e “deficiências” necessariamente deverá conter alguma coisa acertada, algo que faça pelo menos algum sentido ou, no mínimo, que tenha uma ponta por onde se lhe pegar; ora, é mais do que evidente que o “acordo ortográfico”, não sendo sequer um acordo e não contendo absolutamente nada de ortográfico, não apenas não tem ponta por onde se lhe pegue como também nem mesmo tenta disfarçar o seu carácter exclusivamente político e, por inerência, as suas finalidades: o aniquilamento do Português-padrão substituindo-o por uma versão exclusivamente brasileira visando a “adoção” dessa versão, sob a capa ficcionada de “língua universal”, para que seja “adotada” em alguns organismos supra-nacionais e assim “facilitar” os interesses geo-económicos do Brasil; esta dupla manobra de neo-colonização ao contrário utiliza na integra os ditames brasileiros com a colaboração de uma ridícula cáfila de traidores portugueses vendidos a sinecuras várias na CPLP (uma organização fantoche) no IILP e em outras instituições outrora portuguesas (Instituto Camões, LUSA, etc.).

Por conseguinte, sendo exclusivamente político, tentar “despiorar” o AO90 equivale a transformar um insulto à inteligência num simpático remoque. Ou tornar um monstro numa coisinha um bocadinho menos monstruosa. Ou ainda transformar, por artes nada mágicas, uma aberração informe numa elegante flor de papel.

O artigo que se segue, de uma publicação angolana (em Português correcto, visto que dos oito países da CPLP apenas Portugal “adotou” a aberrante cacografia) tenta inicialmente traçar uma espécie de “background” da questão e depois desenvolve a coisa num estilo bem mais solto, digamos, atirando-se vorazmente às canelas dos tugas que inventaram — para bajular ainda mais o Brasil, é claro — a CPLP e a sua excrescência a armar ao “ténico” (tem duas consoantes seguidas, não pode), aquela bambochata a que chamaram IILP.

Que não doam a mão e a escrita aos angolanos, é o que se espera e deseja. Cada cachaporra no toutiço daqueles anormais é mais uma pazada de terra (ou esterco) atirada para cima do cadáver adiado, o zombie ressuscitado por Cavaco, Lula e Sócrates.

Vasco Graça Moura, a CPLP e o… português

jornalf8.net. 03.01.21

 

Como o Folha 8 escreveu hoje, o Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural distinguiu o gestor e jurista Emílio Rui Vilar, cujo percurso profissional “constituiu um expressivo exemplo de cidadania cultural”. Vasco Graça Moura nasceu no dia 3 de Janeiro de 1942 e morreu em 2014.

Vasco Graça Moura considerava que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) era uma espécie de organização fantasma, “que não serve para rigorosamente nada”, a não ser “ocupar gente desocupada”.

“O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer”, disse em Julho de 2010 o escritor e também poeta, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP.

“Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada”, acrescentou na altura em declarações à Lusa. Para o escritor, o IILP “é uma entidade fantasma criada dentro de outra entidade fantasma.”

“Não se nota que exista qualquer espécie de política da língua da parte do Governo português e nota-se, da parte da mesma entidade, uma enorme estupidez na forma de tratar a língua, no que diz respeito ao Acordo Ortográfico”, disse o escritor.

Vasco Graça Moura, que foi uma das vozes contrárias ao Acordo Ortográfico por considerar que este tem deficiências e erros que lesam o Português, considerava que o Governo estava a cometer um crime contra a língua portuguesa.

Os crimes que este Governo está a cometer e está em vias de cometer em relação à língua diz respeito ao Acordo Ortográfico. Portanto, não há política de língua digna deste nome. Há uma série de equívocos em que este Governo está a persistir”, sublinhou.

Segundo o escritor, “o acordo ortográfico é um atentado criminoso contra a língua portuguesa tal como se fala em Portugal, Angola, Moçambique, na Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.”

“É um atentado que tenta desfigurar completamente a língua e é absolutamente irresponsável da parte de quem negociou e da parte de quem o aprovou”, disse.

“As pessoas falam português em qualquer parte do mundo e se entendem, seja no aspecto familiar, cultural, negocial, diplomático, isso nunca prejudicou ninguém (o facto de não haver um acordo ortográfico)”, referiu.

Graça Moura sublinhou também a importância dos países africanos lusófonos na projecção do português no âmbito internacional, além de Portugal e Brasil.

“Basta considerar o número de habitantes de todos os países que falam a língua portuguesa, não apenas o Brasil, não apenas Portugal. Se considerarmos os países africanos de língua portuguesa, temos mais 50 milhões de pessoas, pelo menos, a falar português”, indicou na altura.

Para Graça Moura, nunca foi preciso um Acordo Ortográfico para a projecção internacional do português.

“A projecção do português pode passar pelas organizações internacionais, pode passar pela promoção da cultura da língua, pela promoção da aprendizagem. Neste momento, a melhor maneira de projectar a língua é acabar, pura e simplesmente, com o Acordo Ortográfico”, concluiu.

Recordemos Amélia Mingas

No dia 21 de Julho de 2009, a directora executiva do Instituto Internacional de Língua Português (IILP), Amélia Mingas, disse que não iria recandidatar-se ao cargo em 2010, alegando que estava “cansada de ser sacrificada”.

Bater com a porta é, nestes casos, uma boa solução. Na altura esperava-se que o barulho fizesse algo pela comunidade lusófona (algo mais do que a mera CPLP), acordando-a da longa, mas bem nutrida, letargia em que ainda hoje se encontra.

“Tudo o que poderia ter dado já dei, com muito sofrimento e com muitas noites sem dormir para tentar ver o que poderia ser feito para dar visibilidade ao IILP. A única coisa que se comenta é que o IILP não fez nada e que é inoperante. Mas nunca deram meios”, afirmou a linguista angolana, nomeada em 2006 e reconduzida em 2008.

Também nós somos dos que dizem que o IILP é, tal como a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, um elefante branco anestesiado pelas sucessivas tentativas de o tornar ora cor-de-rosa, ora laranja, ora outra coisa qualquer.

Isso não significa, nem significou como o Folha 8 escreveu em 24de Maio de 2016, uma crítica a Amélia Mingas, a não ser que deveria (exactamente porque nunca lhe deram meios) ter há muito dado um valente murro na mesa ou, talvez, até na chipala dos que se julgam donos da CPLP.

Amélia Mingas comentava nessa data os resultados da 14ª Reunião do Conselho de Ministros da CPLP, que decorreu na Cidade da Praia, em Cabo Verde, em que foi decidido criar um grupo de trabalho para pensar a refundação do Instituto, criado em 1989.

Questionada sobre se a perspectiva de Angola assumir a presidência da CPLP em Julho de 2010 poderia trazer benefícios para a direcção do IILP, Amélia Mingas foi clara na resposta: “Quando tudo isso for aprovado e capaz de ser posto em acção, já não estarei cá. Termino a minha comissão em Julho do próximo ano. E não me recandidato.”

Amélia Mingas sabia, melhor do que todos nós, que a refundação nada mais significaria do que a constatação do óbito do Instituto Internacional de Língua Português. Isto porque, ao esperarem que ele sobreviva sem “comer”, vão verificar que quando estava já a saber viver sem “comer”… morreu.

“Tem sido uma travessia difícil. A verdade é que, quer se queira ou não, o IILP tem uma directora executiva, que o representa e que dá a cara sempre que necessário, mas nunca se fala dos meios que lhe puseram à disposição. Foi uma missão muito ingrata”, sustentou.

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Traduttore traditore

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Abílio de Guerra Junqueiro

Isto não sucedeu só na tradução mas foi a tradução que a vigarice de Estado mais violentamente afectou. O AO90, ou seja, a imposição canina da língua brasileira, não apenas implicou a falência, a ruína, a extinção da actividade de tradução em Portugal, de empresas e principalmente de tradutores por conta própria, como implicou a pura e simples extinção do próprio conceito de “Língua Portuguesa”: o chamado “Português europeu” foi administrativamente abolido e em seu lugar aparece agora por todo o lado o brasileiro, essa horripilante “língua universáu”. A própria bandeira portuguesa foi virtualmente arreada e içada em seu lugar a bandeira brasileira para significar “Portuguese” nas empresas de tradução internacionais.

Claro que a geral carneirada, os burros de carga de que falava Guerra Junqueiro em 1896, engoliu esta imperdoável afronta e lá seguiu, com um encolher de ombros e assobiando, num alegre optimismo que faria inveja a qualquer Miguel de Vasconcelos temporão e fantasmagórico.

De certa forma, com muito boa vontade e não menor caridade, a atitude da dita carneirada compreende-se; é do conhecimento comum que a hombridade e a coragem são, nos sinistros tempos que vão correndo, luxos caríssimos; a noção de honra, somente a noção. já sem ir mais longe, como o brio patriótico ou o orgulho nacional, não passam agora de vagas memórias que se misturam num passado longínquo com os nossos “egrégios avós”, que do hino se papagueia sem o mínimo significado.

Para esta nação de “heróis do mar” a terraplanagem neo-colonialista parece afinal ser indiferente, coisa de somenos. Para os tradutores em particular, de facto, sem ofensa (ou com ela, tanto se me dá), resta o labéu cujo significado, profundo e triste, só agora se revela e que pouco ou nada tem a ver com o do jogo de palavras antigo: tradução, traição.

[este jornal é português, não é brasileiro]

jornaldocentro.pt, 21.12.20

Qual é o custo de uma tradução online?

O cálculo do preço para traduções profissionais depende de vários fatores e varia de profissional para profissional e de agência para agência de tradução. Isto porque existem vários métodos diferentes para chegar ao valor final e também existem muitos fatores que influenciam a complexidade dos trabalhos.

Veja alguns exemplos do que pode influenciar o custo de uma tradução online:

Formato do documento: se o documento a ser reproduzido é muito complexo, o custo pode ser maior do que uma tradução mais simples. Por exemplo, se o documento a ser traduzido contém gráficos ou imagens que exigem tradução, o trabalho será maior e o custo da tradução também será maior; há também o DTP (Desktop Publishing), que influencia no custo da tradução online. Criar novos gráficos, tabelas ou imagens vai gerar trabalho extra.

O volume: um maior número de palavras ou de páginas tem um preço correspondente;

Prazo: traduções mais urgentes costumam ter um custo mais elevado;

Combinação linguística: quanto mais raro o idioma, maior será o preço da tradução.

Grau de conteúdo técnico: quanto mais técnicos forem os documentos, maior o preço;

Entre outros;

Quais são os cálculos de custo de tradução online mais comuns?

Pode aceder este site para saber mais sobre o Custo de Tradução https://www.protranslate.net/pt/custo-de-traducao/. De qualquer forma, os cálculos de custo de tradução online mais comuns são:

Custo de Tradução por Palavra

Nestes casos, o orçamento será de acordo com o número de palavras num documento. Este é um método de valorização bastante usado em empresas de confiança como a Protranslate, que possui uma plataforma online onde pode submeter o seu documento, selecionar um idioma e depois calcular o custo do serviço de tradução.

Custo por Página de Tradução Certificada

Como a modalidade de Tradução Certificada possui preços tabelados, os valores destes serviços costumam ser fixos. De qualquer forma, plataformas como a Protranslate também permitem que envie os seus documentos e tenha acesso a traduções profissionais de acordo com o serviço que necessita.

Tudo o que precisa fazer é aceder à plataforma, enviar o documento, selecionar o idioma de origem e o de destino que pretende na sua tradução. Depois, ser-lhe-á pedido que escolha a categoria da tradução, ou seja tradução certificada. A partir daí vai conseguir aceder a um valor médio do custo pelo serviço.

É importante salientar que, mais do que o custo, é preciso observar a qualidade da agência de tradução ou dos profissionais que farão o trabalho. Procure sempre empresas que também disponibilizem profissionais de revisão de texto, para garantir qualidade e legibilidade em cada documento, evitando erros de ortografia, gramática e estilo.

[A imagem de topo foi copiada do “site” LawLinguistics. O autor da pintura original (Torre de Babel) foi Pieter Bruegel the Elder (1563)]

Do “inconseguimento” e outros neologismos estranhos

publico.pt, 17.12.20

Louvor e explicação da “língua desportuguesa” de Ondjaki

Nuno Pacheco

Numa entrevista a propósito do seu mais recente livro, o escritor angolano Ondjaki disse a Isabel Coutinho (Ípsilon, 11/12) que o facto de o livro não trazer glossário se devia a estar escrito em “língua desportuguesa”, “a língua de liberdade estética”, explicando-se depois assim: “Não creio que deva haver uma língua desportuguesa nos dicionários para ensinar às crianças, não é disso que falo, não é aí que eu opero. Eu não opero com língua de dicionário, eu opero com língua de barro.” E dava como exemplos de “línguas desportuguesas” os brasileiros Manoel de Barros e Guimarães Rosa, os moçambicanos Mia Couto e Luís Bernardo Honwana, os angolanos Luandino Vieira e Manuel Rui e o guineense Abdulai Silla.

Logo no título, Ondjaki parece dizer ao que vem: O Livro do Deslembramento, como que cruzando a sonoridade de “deslumbramento” com o acto de esquecer. Mas para quem julgue que se trata de neologismo, convém dizer que deslembrado, deslembrança, deslembrar ou até mesmo deslembrativo já constam dos dicionários, justificando plenamente deslembramento. Tal como consta o desnascer usado por José Mário Branco no FMI ou há-de constar um dia o desconseguir que Mia Couto popularizou na escrita, mas foi buscar à oralidade quotidiana.

A “língua desportuguesa”, na acepção que lhe é dada por Ondjaki, é praticada há décadas, senão mesmo há séculos. Porque tem sido a liberdade estética, aliada às tradições e também às inovações culturais, a alimentar os dicionários e não o contrário; é o barro da escrita, moldado a partir do barro (esse ainda mais indomável) da fala, que vai aos poucos enriquecendo os volumes que registam a evolução da língua na sua forma oral (pela fonética) e escrita. Que isso se deva sobretudo à literatura e à poesia também não é surpresa. Mas os regionalismos, igualmente caldeados num saber antigo, contribuem para tal enriquecimento.

Por exemplo, só para recorrer a palavras começadas por “des”: Desgargoleirado (por desgargolado, com decote ou colarinho largo), no Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1996; Desencodear (tirar a côdea), no Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano, de Cidália Martins, José Pires e Mário Sacramento, 2017; Desbussolado (por desnorteado), no Dicionário de Língua Baianaêsa, de Luciano Jatobá, 2004; ou até, numa língua que é filha directa da língua portuguesa, Desmagâ (por esmagar, esmigalhar), no crioulo cabo-verdiano, segundo o Léxico do Dialecto Crioulo, de Armando Napoleão Fernandes, 1889-1969.

Mas deslavrar, deslaiar, desleigar, deslimar, desmaginar, desnevoar, desnocar, desnoutar, despoer, despolir, desrefolhar, desrisonhar, desvizinhar, quem as inventou? Os dicionários não dizem, mas estão todas lá. Algumas há anos, outras há décadas. E todas elas poderiam caber numa qualquer “língua desportuguesa”, porque esta, nascendo do barro da palavra e da fala, será portuguesíssima. Por curiosidade, diga-se que o volumoso dicionário da Sociedade de Língua Portuguesa dedica 154 páginas só às palavras começadas por “des” (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, 1981, Tomo IV, págs, 62 a 216) e lá, além das já citadas, estão centenas de palavras que nos parecerão… “desportuguesas”.

É claro que ficcionistas e poetas têm inventado palavras, que os dicionários acolhem ou não, como o inutensílio de Manoel de Barros (“O poema é antes de tudo um inutensílio”, Poesia Completa, 2010, pág. 182) ou as bem-pensânsias de Alexandre O’Neill (Poesias Completas, 2000, pág. 195). Mas é bom lembrar que, antes deles, muito antes deles, são sobretudo as crianças que mais palavras inventam sem as registarem, pelo simples gozo da descoberta, trocando-lhes letras e sentidos, virando palavras do avesso como quem revira brinquedos.

Ao conjunto de tudo isto, juntando as novidades que nos traz a liberdade estética às heranças ancestrais da etimologia, pode bem chamar-se língua portuguesa, com as suas variantes culturais, lexicais e até ortográficas, porque os “desportuguesamentos” que dela derivam a enriquecem. Ao contrário da propalada e nunca conseguida (porque impossível e inútil) unificação ortográfica, teimosamente imposta por um acordo que nunca o foi nem será.

Ondjaki: “Eu não opero com língua de dicionário, eu opero com língua de barro”

“Público” (Ípsilon),
Isa­bel Cou­ti­nho

Ondjaki regressa à infância e juventude da personagem Ndalu, dos seus tios, avós e amigos da Luanda dos anos 1980/90

 

Andou às voltas com um cubo mágico para chegar aqui, onde tudo se encaixa. No ano em que comemora 20 anos de vida literária, lançou O Livro do Deslembramento, auto-ficção onde regressa às personagens da sua até agora tetralogia dedicada à Luanda dos anos 80. Para o angolano, é o seu livro mais psicológico e aquele em que os escudos literários estão mais em baixo.

Ondjaki, de seu verdadeiro nome Ndalu de Almeida, regressa em O Livro do Deslembramento (ed. Caminho) à infância e juventude da personagem Ndalu, dos seus tios, avós e amigos da Luanda dos anos 1980/90. Essa Luanda em que “uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória” vista pelos olhos de uma criança. Obra de auto-ficção, livro “composto a partir de memórias que derreteram ao sol”, é seguramente uma das mais belas e conseguidas em língua “desportuguesa”. Dá a sensação de que todos estes anos Ondjaki andou às voltas com um cubo mágico para chegar aqui, onde tudo se encaixa.

O romance faz parte da sua, até agora, tetralogia inaugurada com o romance Bom Dia Camaradas, que será discutido com o escritor a 15 de Dezembro, às 22h em Lisboa (19h em Brasília), na primeira sessão do Encontro de Leituras que reunirá online, através da plataforma Zoom, leitores lusófonos. É uma parceria entre o PÚBLICO e o jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Dessa tetralogia fazem também parte Os da Minha Rua, AvóDezanove e o Segredo do Soviético.

O Prémio José Saramago 2013, com a obra Os Transparentes, tem 43 anos, regressou há três à cidade onde nasceu e inaugurou em Luanda a editora Kacimbo e a livraria Kiela. Continua a trabalhar sobre a memória que ficcionaliza. Não se lembra do que aconteceu há dias, mas daqueles tempos lembra-se com “uma nitidez absurda”.

“Lembrar, todos nós crescemos aqui e ali, agora o que é que vamos contar… É preciso um bocadinho de discernimento também”, diz durante uma conversa telefónica quase à hora do recolher obrigatório em Luanda por causa da covid- 19.

Começou a escrever O Livro do Deslembramento quando estava a terminar Os Transparentes, que lançou em 2012. Foi necessário o regresso a Angola para o finalizar?

Necessário não. Já escrevi muito sobre Angola estando fora. Realmente foi uma coincidência. Quando comecei a pensar e a falar com o meu editor, Zeferino Coelho, sobre o que íamos fazer quando chegasse a data dos 20 anos de vida literária, e como ele gosta de perguntar muitas vezes se tenho livro novo, disse-lhe que tinha e brinquei: mas não é novo; é um livro inédito, mas não é novo.
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Cares senhores/as deputades…

Tinha de ser: no âmbito de “patrióticas” e alucinadas experiências “linguísticas”, o Brasil vai a choute com a aparentemente urgente empreitada de demolição sistemática da sua língua. Continuam também, como de costume, a chamar “portuguesa” à cacofonia (e cacografia) da língua brasileira, cujas cada vez mais vagas e remotas parecenças com o Português-padrão são de facto folclóricas e politicamente dementes, tão imenso é o fosso que as separa.

Este modismo politicamente correcto da língua “assexuada” não deixa de ser algo cómica, hilariante por vezes, e ao que parece, em função do processo de colonização em curso, ensombra já a língua brasileira impingida a Portugal (e PALOP) pelo AO90. No fundo, esta Novilíngua que não é “menino” nem “menina” chegará quiçá aos antros acordistas do nosso país, a Assembleia de República, e assim, tornando ainda mais anedótica a sua execrável brasileirada de tribunos (“tribunes”) obedientes/os/as, carneirinhes habituades a proferir barbaridades/os/as à velocidade/o/a de/a/o luz/lamparina/pisca-pisca.

Errata: nos dois talos de folha-de-couve que se seguem, onde se lê “língua Portuguesa” leia-se língua brasileira.

 

Pais decidem se unir contra o “gênero neutro” em escolas

 

Henrique Gimenes
pleno.news – 23/11/2020

Grupo lançou abaixo-assinado contra a medida após colégio no RJ promover a mudança

Após um colégio do Rio de Janeiro decidir inovar e adotar o “terceiro gênero” dentro da instituição, um grupo de pais resolveu promover um abaixo-assinado contra a “neutralização de gênero” da Língua Portuguesa dentro da instituição de ensino.

O documento pede a “não mudança da norma culta da língua Portuguesa em documentos e comunicados oficiais das escolas” por entender a medida “como um movimento de ‘ideologia de gênero’”.

Leia também1 Neutralização de Gênero: Doutor em Letras explica se faz sentido
2 Bolsonaro critica ‘gênero neutro’: “Aparelhamento na educação”
3 Deputados protocolam PL contra uso de gênero neutro em escolas
4 Colégio “inova” e adota terceiro gênero: “Querides alunes”
5 STF retira da pauta ação sobre ideologia de gênero nas escolas

O abaixo assinado ressalta ainda que “discursos ideológicos e com viés partidário dentro das instituições escolares tradicionais e apartidárias promovem maior polarização e dividem a comunidade escolar e a sociedade como um todo”.

O abaixo assinado ressalta ainda que “discursos ideológicos e com viés partidário dentro das instituições escolares tradicionais e apartidárias promovem maior polarização e dividem a comunidade escolar e a sociedade como um todo”.

A petição já conta com mais de 2.380 assinaturas e pode ser vista aqui.

NEUTRALIZAÇÃO DE GÊNERO
Em um comunicado, o Colégio Franco-Brasileiro, do Rio de Janeiro, informou que a “neutralização de gênero” foi adotada devido ao “compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar”.

No documento, o colégio explicou que a “neutralização de gênero gramatical consiste em um conjunto de operações linguísticas voltadas tanto ao enfrentamento do machismo e do sexismo no discurso, quanto à inclusão de pessoas não identificadas com o sistema binário de gênero.

Eles também citaram como exemplos a substituição de “queridos alunos por querides alunes”, já que a mudança “passa a incluir múltiplas identidades sob a marcação de gênero ‘e’”.

O colégio, no entanto, deixou claro que “essa iniciativa não configura, absolutamente, a obrigatoriedade da adoção de estratégias de neutralização do gênero” por parte dos alunos e professores, “até mesmo porque a normatividade linguística inerente à redação de documentos oficiais ainda configura certa restrição a esses usos”.

O que você acha dessa história de falar amigues bonites?… –

Reinaldo Polito
Colunista do UOL
24/11/2020
«A gramática é a arte de remover as dificuldades de uma língua; mas a alavanca não deve ser mais pesada que a carga…»
Rivarol

Não é de hoje que ouço falar nessa tendência de mudar a indicação de gênero na língua portuguesa. No começo, parecia ser algum tipo de brincadeira. Sugeriam que palavras terminadas em “o” para indicar masculino e feminino passassem a ser grafadas com “x” ou “@”. Quase caí de costas ao me deparar com um anúncio em uma das faculdades em que leciono: “Atenção alun@s”. Pensei – o assunto é sério mesmo.

Nessa época eu presidia a Academia Paulista de Educação, composta por reitores de grandes universidades, secretários estaduais e municipais de educação e profissionais envolvidos diretamente com o mundo educacional. Levantei essa questão em algumas de nossas reuniões, mas ninguém achou que valesse a pena discutir o tema. Nós nos enganamos, pois deveríamos ter debatido o assunto com mais profundidade.

De uns tempos para cá, tem ganhado força a ideia de que palavras femininas terminadas em “a” e palavras masculinas terminadas em “o” devessem ter a terminação em “e”. A maioria que não concorda quase sempre diz que isso é besteira, coisa de gente que não tem o que fazer. Lógico que o assunto não pode ser debatido nessa superficialidade, de forma tão rasa.

A opinião do professor Sérgio Nogueira

Há pouco tempo fiz uma live com o professor Sérgio Nogueira (está salva no meu instagram), um dos maiores estudiosos da língua portuguesa, e conversamos sobre essa questão. Ele deu uma explicação interessante. Disse que no latim, de onde vem a língua portuguesa, havia três gêneros: o masculino, o feminino e o neutro.

Na língua portuguesa, o neutro acabou sendo absorvido pelo masculino, embora nos pronomes demonstrativos tenhamos este, esse e aquele que são masculinos; esta, essa e aquela que são femininos; e isto, isso e aquilo que são neutros. Afirma o professor Nogueira duvidar que “esse tal neutro” que estão querendo impor funcione. Isso porque a língua é um fenômeno natural. Não vem de fora para dentro, já que não se criam regras para que as pessoas falem corretamente. Nós é que criamos as regras a partir do bom uso.

Entrevista com a Dra. Edna M. B. Perrotti

Por causa dessa polêmica, resolvi entrevistar a professora Edna Maria Barian Perrotti, doutora em Linguística Aplicada ao Ensino da Língua, professora de Linguística e Redação em importantes universidades e autora de vários livros sobre a matéria de sua especialidade. Uma de suas obras, “Superdicas para escrever diferentes tipos de texto”, superou a marca dos 100 mil exemplares vendidos, e foi publicada com sucesso na Itália. Suas respostas nos dão bons subsídios para refletirmos a respeito desse tema.

É possível que regras impostas para a língua sejam adotadas?

As línguas são organismos vivos e naturais, portanto, passíveis de mudanças. Ao utilizá-las, seus falantes vão adquirindo novas palavras e abandonando outras, num processo natural, quase inconsciente e coletivo, sem que haja nenhuma imposição. As pessoas que hoje têm mais de 60 anos certamente se lembram das cartas comerciais em que era preciso usar o pronome de tratamento V.Sa. Hoje ninguém estranha receber uma carta de um banco, por exemplo, e ser chamado por você. E é claro: a mudança não ocorreu de um dia para o outro, nem foi feita por imposição.

Como a senhora avalia essa mudança para indicar o gênero na língua portuguesa?

Hoje está havendo sim um movimento, em nome da inclusão, para que a indicação de gênero seja mudada na língua portuguesa. Palavras femininas terminadas em -a e palavras masculinas terminadas em -o passariam a ter a terminação -e. E como se trata de uma matéria mais geral, nem vou entrar na questão de que a terminação o não é marca de masculino. O feminino e o plural é que são formas marcadas.

A senhora poderia explicar melhor?

Vou me ater ao movimento de inclusão que diz respeito à terminação das palavras referentes às pessoas do sexo feminino e do sexo masculino para que tenham um gênero neutro. Por este movimento, menino e menina teriam uma só terminação: menine, que seria caracterizada pelo adjetivo bonite. Só que, neste caso, seria preciso também mudar os artigos o(s) e a(s) para e(s)e menine bonite. Mas isso traria um grande problema de comunicação.

Haveria, então, só o gênero neutro?

Pois é, o gênero neutro não poderia abolir as formas de masculino e feminino, substituindo-os, mas sim deveria designar aquelas pessoas que tiveram outra opção que não o sexo masculino ou o sexo feminino. Haveria, então, na língua portuguesa, três marcas de gênero gramatical: o masculino, o feminino e o neutro, como ocorria no latim.

Há diferença do nosso uso e do latim?

Somos uma língua originada do latim, ou continuidade do latim, só que o latim, o clássico em especial, não fazia uso do artigo. Como, em português, o artigo é essencial, e é ele que determina o gênero gramatical (reforço: gênero gramatical, não gênero sexual), a substituição da tradicional marca de gênero masculino (-o) e feminino (-a) para (-e) ou (-x) (meninx bonitx) apenas na terminação das palavras, em nome de uma identidade inclusiva, caem por terra. Se for continuar a oposição o/a pelo artigo, não existirá neutralidade nenhuma.

Como a língua falada entra nessa história?

Essa é uma questão importante. Em primeiro lugar, porque a escrita é e sempre foi consequência da fala. E ninguém diz o menine é bonite ou a menine é bonite ou e menine bonite; nem formula a frase: médique, e farmacêutique, es terapeutes e e psicólogue estão em reunião; nem mesmo todes vão gostar deste suco.

Qual o outro ponto a ser considerado?

A segunda consideração é o fato de que é função do ARTIGO e não da terminação da palavra identificar o gênero gramatical em português. Senão, vejamos:

 

  • palavras terminadas em -a são geralmente antecedidas pelo artigo -a: a menina, a médica, a poeta, a engenheira, a garça, a criança, a vítima, a pessoa (não importa se as quatro últimas são do sexo feminino, do sexo masculino ou de outro sexo).
  • palavras com a mesma terminação -a são gramaticalmente masculinas se antecedidas pelo artigo -o: o psiquiatra, o astronauta, o psicopata, o planeta, o telefonema (vale lembrar: essas palavras são originadas do grego, não do latim).
  • palavras terminadas em -o são gramaticalmente masculinas quando antecedidas pelo artigo -o: o menino, o moço, o muro, o relatório, o médico.
  • palavras terminadas em -o (poucas) são gramaticalmente femininas quando antecedidas pelo artigo -a: a prodígio, a robô, a foto.
  • palavras terminadas em -e são gramaticalmente femininas quando antecedidas pelo artigo -a: a estudante, a principiante, a paciente, a superintendente.
  • palavras terminadas em -e são gramaticalmente masculinas quando antecedidas pelo artigo -o: o estudante, o principiante, o jacaré, o elefante, o cônjuge (esta serve tanto para homem quanto para mulher).
  • palavras com qualquer outra terminação dependerão do artigo para ser consideradas gramaticalmente femininas ou masculinas: o juiz, o/a aprendiz, a perdiz, o homem, o/a general (há também a generala), o/a major, o/a coronel.

A senhora acredita que esteja havendo algum equívoco nessa imposição?

Sim, pois se quem advoga a mudança está pensando numa identidade de gênero inclusiva é porque confunde gênero sexual (o homem/a mulher; o gato/a gata) com gênero gramatical, que serve para identificar não só pessoas ou animais de sexos diferentes, mas também seres inanimados, que não pertencem a nenhum gênero sexual (a casa, a roupa, o dia, o muro, o soluço, a noite, a rede, o pente).
(mais…)

Issu daí é porrtugueiss universáu, viu?

A reboque ou à boleia (“pegando carona”, em brasileiro) do AO90 e do respectivo paleio-para-enganar-idiotas-deslumbrados sucedem-se as aberrações, qual delas a mais “imaginativa” e absurda. Já conhecemos as verdadeiras intenções da CPLB e, como escorrência (ou vomitado) daquela inacreditável palhaçada, as consequências catastróficas do AO90 sobre a Língua Portuguesa (Portugal e PALOP), mas de facto seria impossível sequer imaginar esta: brasileiros e brasileiras pretendem, à conta da tão propalada “língua universal” (o brasileiro), emigrar para cá e vir-nos “ensinar” a falar… Português. Ou seja, gêntchi, qui légáu, vamu dizê qui akilo é porrtugueiss; eles, pelo menos, apropriaram-se já da “marca”, a fingir que são muito europeus.

Confesso que nunca, jamais, em tempo algum poderia ter sequer imaginado semelhante coisa: 4 mil pessoas (4 mil, raios!) do Brasil vêm para cá ensinar o indígena (o “portuguesinho”) a usar a sua própria Lingua!

O AO90 em todo o seu brasileiro esplendor, em toda a sua asquerosa dimensão de ex-colónia que coloniza o ex-colonizador, em toda a dimensão sem medida do mais horrível pesadelo que acontece debaixo do Sol.

Inacreditável?

Não, é “terapia da fala”.

Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…

– Veja mais em https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/11/22/fonoaudiologa-brasileira-em-portugal-luta-para-provar-que-fala-portugues.htm?cmpid=copiaecola

Luciana Alvarez
Colaboração para o TAB, de Lisboa
22/11/2020 04h01

Quando Thaís Cruz chegou a São Paulo falando “tu vais”, “tu queres”, os colegas da faculdade de fonoaudiologia logo a apelidaram de portuguesinha. Thaís vinha na verdade de Belém, Pará, cidade onde se usa a segunda pessoa do singular (tu) por padrão. Thaís precisou viajar 2,5 mil km para fazer o curso porque, em 1997, não havia fonoaudiologia em nenhuma faculdade paraense.

Quase 23 anos depois, agora morando em Cascais, município do distrito de Lisboa, a portuguesinha não consegue exercer a fonoaudiologia porque seu português não é suficientemente português, segundo o órgão responsável por regular a profissão no país de Camões. Depois de passar por uma entrevista e escrever uma redação, recebeu um documento dizendo que ela não domina a semântica (sentido das palavras), a morfossintaxe (construção das frases), a fonética e a fonologia (os sons) do português europeu.

Preconceito linguístico ou reserva de mercado seriam as verdadeiras motivações para que seu credenciamento profissional em Portugal tenha sido negado, acredita Thaís. “A existência da prova é um disparate. Se eu não tivesse as habilidades linguísticas, sequer conseguiria me comunicar com as entrevistadoras. A justificativa é completamente inaceitável”, afirma a brasileira, que faz mestrado na área de linguagem na Universidade Nova de Lisboa.

Thaís não é a única fonoaudióloga formada no Brasil impedida de trabalhar como “terapeuta da fala” em Portugal — assim é a nomenclatura local. No dia de fazer a prova, conheceu outras fonos brasileiras, que acabaram se reunindo num grupo de WhatsApp, que foram chamando outras conhecidas. Hoje, o time das reclamantes têm quase 40 profissionais. Algumas ainda esperam ser convocadas para o exame, outras aguardam os resultados. O processo todo, entre dar entrada na papelada e receber o resultado, leva quase dois anos. Todas que já receberam resposta tiveram seus pedidos indeferidos com a mesma justificativa, ipsis litteris.

O número total de profissionais tentando obter o registro deve ser muito maior — nas redes das fonos brasileiras, especula-se que cheguem a 4 mil. Procurada pela reportagem, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) não informou até quinta-feira (19) qual era o número de pedidos de credenciamento total, quantos foram aceitos e quantos foram negados.

Com o recente aumento da emigração brasileira para Portugal, alguns setores de profissionais da saúde sentem pressão com a chegada de diplomados. Mais de 50% dos dentistas estrangeiros que atuam em Portugal vieram do Brasil; são quase 500 com autorização para trabalhar. Entre os médicos, há quase 600 registros de brasileiros, com número de pedidos de autorização recorde em 2018.

Sem conseguir o registro, muitas fonos acabam trabalhando em funções de baixa especialização. Thaís conta que já trabalhou na parte administrativa de um asilo, mas não gostou. “Sou fonoaudióloga. Foi a profissão que escolhi para a minha vida e não sei ser outra coisa.”

A prova para comprovar que falam português passou a ser exigida apenas em 2018. Quando questionada, a ACSS não explicou por que decidiu submeter os profissionais a um exame de proficiência no seu seu idioma materno, tampouco mostrou os referenciais teóricos para classificar o português europeu, uma variante regional, um fator decisivo para a atuação de terapeutas da fala.

As diferenças na forma de se expressar fazem com que um cidadão português reconheça um brasileiro no primeiro “oi”, até porque, em Portugal, usa-se “olá”. Mas a língua em Portugal continua sendo a mesma falada oficialmente no Brasil e em mais sete países de África e Ásia.

Existem tratados internacionais, como o Acordo Ortográfico de 1990, e órgãos oficiais, como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma espécie de ONU, cujos objetivos comuns são a “defesa do prestígio internacional” e “promoção e difusão da Língua Portuguesa”. Assim, em maiúsculas, no singular e sem subdivisões.

Dentro do próprio território português, embora pequeno, há variações de palavras, construção de frases e de pronúncia. No sul do país, tênis é chamado de sapatilha. No Alentejo, usa-se o gerúndio como no Brasil e como usava Camões, embora no restante do país a construção normal seja diferente: dizem “estou a escrever”, em vez de “estou escrevendo”. No norte, o som do “v” se parece como o do “b”, como se fala no espanhol.

Na prática, as variantes do idioma não afetam o trabalho de um terapeuta da fala. Thaís faz um estágio em hospital não remunerado (porque não tem registro) e conta que nunca teve dificuldade de desempenhar qualquer função. “Faço vários exames. Em um deles, falo algumas palavras e as pessoas têm de repetir. Ninguém nunca reclamou”, garante.

Também já ajudou, informalmente, a filha de uma amiga portuguesa a pronunciar o /l/ do jeitinho português. “Cá em Portugal o fonema /l/ no final das palavras produz-se com a elevação da ponta da língua. Em duas semanas eu consegui instalar o fonema na miúda de 6 anos. Apesar de eu falar ‘Portugau’, porque sou brasileira, eu estudei a produção fonoarticulatória dos fonemas”, explica ela, já introjetando o “miúda” característico.

Por considerar o exame da ACSS “um absurdo”, Thaís tentou outro caminho para comprovar que fala, sim, português. Já tinha um laudo de um terapeuta da fala nascido, criado e estudado em terras lusitanas. O laudo foi apresentado, mas nada adiantou. Tentou fazer uma prova externa, mas a única certificação de idioma do Estado Português, do Instituto Camões, não é aplicada a brasileiros, pois dirige-se exclusivamente a quem fala português como língua estrangeira.

Enquanto aguarda uma solução, contínua no mestrado e faz até aulas de português europeu. “Resolvi estudar por causa do mestrado, não para mudar o sotaque, mas pelo fato de a gramática ser diferente — o que não quer dizer que seja melhor ou pior, certo ou errado. Como estudiosa da linguagem, penso ser interessante conhecer essas variações”, explica.

Apesar da frustração, Thaís mantém a esperança de conseguir validar de alguma forma seu diploma. Já contactou um advogado e deve ser a primeira do grupo das fonos brasileiras a levar o caso à Justiça. As demais se articulam para esperar a manifestação do juiz e, dependendo do teor, entrar uma ação coletiva. Para ela, a história realmente ainda vai dar o que falar.

[Transcrição integral de artigo com o título “Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…”, com redacção da autoria de Luciana Alvarez, publicado online em “Tab” a 22.11.20. Destaques e “links” meus. Foi conservada, sem corrector automático ou manual, a cacografia do original em brasileiro. Base da imagem de topo: magalu (Brasil)]

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos).]