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Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Direito

«Ficou a Academia, foi-se o bom senso» [Nuno Pacheco, “Público”, 20.06.18]

Ficou a Academia, foi-se o bom senso

Nuno Pacheco
“Público”, 20.06.18

A Academia das Ciências de Lisboa seguiu, por decisão apressada dos seus mais fervorosos acordistas, o mau caminho dos vocabulários “oficiais”. É isto ciência, senhores?

 

Em 2015, promoveu a Academia das Ciências de Lisboa um colóquio intitulado Ortografia e Bom Senso. Dois dias de intenso confronto de opiniões que deram depois origem ao documento “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, produzido pela Academia e divulgado em 2017. O que dizia a Academia (ACL), nesse texto? Que, sendo a ACL “o órgão consultivo do Governo português em matéria linguística”, e sendo o texto do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), “por vezes, ambíguo, omisso e lacunar, não estabelecendo uma ortografia única e inequívoca”, entendia assim importante dar um “forte contributo” na “sistematização de critérios e orientações, em prol de uma maior regularização e, por consequência, na defesa de um registo adequado à variante portuguesa.” Com espírito conciliatório, esclarecia que tal “não significa rejeitar a nova ortografia, mas antes aprimorar as regras ortográficas e retocar determinados pontos para fixar a nomenclatura do Vocabulário e do Dicionário da Academia.”

Mesmo duvidando que um texto tão tecnicamente mal feito e tão prejudicial possa alguma vez ser “aprimorado”, as sugestões dadas pela ACL respeitavam o mais elementar bom senso. Pára, péla, pêlo, pôr, pôde, dêmos eram acentuados (diferenciando-se assim de para, pela, pelo, por, pode, demos); crêem, vêem e lêem recuperariam os respectivos circunflexos; a terminação –ámos (pretérito) voltava a ser acentuada, para se distinguir, no tempo verbal, de –amos (presente); acepção, corrector, espectador e óptica voltariam a imperar sobre aceção, corretor, espetador e ótica; palavras inventadas como interrutor ou concetível seriam abolidas, restaurando-se interruptor ou conceptível; e voltava a olhar-se para o hífen com lógica científica, usando-o “nas combinações vocabulares que formem verdadeiras unidades semânticas” (água-de-colónia, braço-de-ferro, pé-de-meia, etc.) e nas expressões onde a soma dos elementos forma sentido único (faz-de-conta, maria-vai-com-as-outras). Há mais, mas estes exemplos já dão uma ideia do abalo no dito “acordo”.

Há dias, numa estranha comemoração do 10 de Junho, resolveu a ACL publicar online o prometido Vocabulário. Com as sugestões de 2017? Não. Ou seja: ficou a Academia, mas foi-se o bom senso. E isso não é compreensível, mesmo para os defendem que este “acordo” só devia ter como destino o lixo. Porque as portas abertas em 2015 e 2017 foram um sinal de que nem tudo estava bem no território, absurdamente intocável, do “acordo”. Que havia erros, que podiam e deviam ser corrigidos. Ora o que nos traz este Vocabulário da ACL, que aliás vem juntar-se a mais dois “oficiais”, o do ILTEC e o da IILP, sendo este último o mais indigente de todos? Pouco ou nada que acrescente aos demais. Anunciando 215 mil entradas, promete para cada palavra a “indicação da sua grafia, categoria morfossintática [sic] e outras informações úteis, como ortoépia, formas irregulares de feminino e plural, particularidades na flexão verbal, etc.” Logo a abrir, diz: “Não sabe como escrever determinada palavra? Pesquise na nossa base de dados”. Ora vamos lá. Imagine-se que alguém pensa que se escreve “tumada” em lugar de tomada. Escreve “tumada” e surgem 5 palavras, como acostumadamente. Porque têm essa conjugação no meio. Não há um algoritmo que sugira “será que quis dizer tomada?” Nem aqui nem em nenhum dos outros vocabulários citados (ILTEC ou IILP). Conclusão: se é preciso saber escrever bem a palavra para a encontrar, então para que servem os vocabulários? Para impingir o AO90, evidentemente.

Procurem por pêlo, grafia que o AO90 aboliu e a ACL prometia ressuscitar. Saem três resultados: pelo, pelo de arame e pelo de rato. Com esta nota: “Grafia AO1945: pêlo”. Mas se procurarem por pelo, saem 74 palavras, tantas quantas tiverem pelo na sua constituição (ampelofagia, arrepelo, atropelo, etc.). E de nada vale isolar a palavra com aspas (“pelo”) para restringir a busca, como é usual noutras bases de dados. Se procurarmos, por exemplo, por espectador, saem-nos três palavras: espectador, espetador e telespectador. E não há telespetador? Há, mas temos de procurar por espetador. E, nesta palavra, há indicação de abertura da vogal em [é]? Não, há isto: [ô]. Como se alguém dissesse –dór! Inacreditável.

Há mais exemplos, muitos. Consultem e confiram. A Academia seguiu, por decisão apressada dos seus mais fervorosos acordistas, o mau caminho dos vocabulários “oficiais”. É isto ciência, senhores?

Nuno Pacheco

[“Público”, 20.06.18. “Links” e destaques meus. Imagem de topo (ACL): Por enioprado, CC BY-SA 3.0, Hiperligação]

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O tanas, compadre!

Ao fim e ao cabo, se bem que seja enorme a quantidade de informação, o que, paradoxalmente,  impossibilita um  escrutínio minimamente credível, tal é o grau (zero) de iliteracia vigente, o caso explica-se por si mesmo em poucas palavras ou, vá lá, numa frase singela: o autor de um livro ainda não publicado premeia-se a si mesmo enquanto júri de um concurso literário sem regulamento e depois alega em sua defesa que seria absurdo ele próprio ter feito aquilo que exactamente ele mesmo fez.

O objecto da contenda ficou antes aqui substancialmente exposto, contrastando os dois lados da questão, a qual é afinal apenas uma: o compadrio enquanto elemento ancestralmente estrutural na chamada “intelectualidade” portuguesa, essa irrisória (e risível) tribo de indígenas emplumados cujo modo de vida consiste em passear diariamente seus enormes egos entre o Chiado e a pastelaria Suíça.

Deixo agora, portanto, a acompanhar o presigo, o respectivo conduto, isto é, os acompanhamentos, os demais elementos de análise, a documentação atinente, com “bonecos” e tudo, para quem tradicionalmente à portuguesa odeie ler e ainda mais pensar ou tirar as mais simples conclusões — em especial se o prato principal for servido em bandeja de prata por criado de luva branca, venerador, atento e obrigado.

Prémio José Mariano Gago atribuído a “OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA”

Na sua primeira edição, o Prémio José Mariano Gago de Divulgação Científica criado pela SPA é atribuído no Dia do Autor, na próxima terça-feira às 18 horas, na Sala-galeria Carlos Paredes aos 30 volumes das “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”, publicados sob a égide da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta e com o apoio da Fundação Gulbenkian e da Biblioteca Nacional. Os coordenadores desta ampla e muito diversificada edição foram os professores Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco.

Estes 30 volumes da maior operação científica interdisciplinar da cultura portuguesa incluem obras representativas da medicina, da geografia, do direito, da física, da arquitectura, da química, da música, da engenharia, da botânica, da pedagogia e da arte de navegar, entre outras.
Os júri que efectuou esta escolha e levou em conta as obras publicadas na área da divulgação científica em 2017 foi constituído pelos professores universitários e investigadores Rui Vieira Nery, Miguel Lopes e Elvira Fortunato.
Os prémios constam de um troféu e do valor pecuniário de 2.500 euros.
Recorde-se que a Assembleia da República escolheu como Dia da Ciência a data de 16 de Maio, por ser aquela em que José Mariano Gago nasceu há 70 anos. Mariano Gago foi ministro durante 12 anos e realizou um trabalho notável como físico, docente universitário, decisor político e dirigente internacional.
Lisboa, 18 de Maio de 2018

OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA
  Sob a  égide 
da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta,
e com o apoio
da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministério da Educação e da Biblioteca Nacional de Portugal
Editar e conhecer as obras pioneiras da nossa cultura é uma maneira excelente de tomarmos consciência do nosso passado extraordinariamente rico e de nos apercebermos de que a nossa língua esteve a par de grandes línguas europeias, antecipando-se até, por vezes, a algumas delas no processo de autonomização do tronco da língua latina de onde emergiu.
Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República Portuguesa

Estamos em directo da cerimónia do Dia do Autor Português e 93º Aniversário da SPA!#diadoautor #spa #spautores

Publicado por Sociedade Portuguesa de Autores em Terça-feira, 22 de Maio de 2018

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‘Errare humanum est, sed in errare perseverare diabolicum’

«Essa expressão de “caos” estaria mais relacionada com o ensino da língua portuguesa agora usando o acordo ortográfico.»

«Foi a sensação que eu tive de que o ensino se estava a tornar num negócio. Tornou-se num negócio com esta implementação do acordo ortográfico.»

«Porque eu reformei-me, e reformei-me por não querer cumprir o acordo ortográfico, porque não o cumpria.»

«Não interessa que o ser-humano pense. O que interessa é que fique indiferente às coisas e que se torne um escravo e também, às vezes, um selvagem em relação aos outros.»

«Séneca tem uma frase: “errar é próprio dos homens, persistir no erro é próprio de loucos”. »

«Se o critério fundamental é a pronúncia, então cada qual escreve como quer.»

«Dizem que as crianças, se tirassem as consoantes mudas, era tudo tão mais fácil, ora, eu sou professora e nunca foi nas consoantes — nos C e nos P — que os alunos faziam os seus erros.»

«O acordo, o Tratado internacional é uma perfeita fraude.»

«Nenhuma Língua evolui por decreto. Esta língua, que é uma mixórdia em que eu não reconheço o Português, não evoluiu nada, isto não é evolução, isto é o contrário da etimologia da palavra ‘evolução’. Por isso, se a estupidez quiser vingar, e é estupidez se nada se fizer para recuar.»

Maria do Carmo Vieira

Da Capa à Contracapa

Andamos a tratar bem a Língua Portuguesa?

16 Jun, 2018

 

Os professores Maria do Carmo Vieira, Adelino Calado e Rui Afonso Mateus juntam-se a José Pedro Frazão para discutir o ensino do português e a forma como tratamos a Língua Portuguesa na nossa sociedade.

Esta semana no “Da Capa à Contracapa” fala-se do ensino do português e a forma como tratamos a Língua Portuguesa na nossa sociedade.

Professores do Ensino Secundário, Maria do Carmo Vieira, Adelino Calado e Rui Afonso Mateus têm leituras muito próprias e críticas do sistema e do ensino, também das pedagogias aplicadas. Em particular no ensino do Português.

O Professor Adelino Calado, não sendo professor da mesma área, pois leciona Educação Física, é diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos onde tem implementado medidas inovadoras como acabar com os TPC convencionais, os exames ou os toques de entrada. Com a sua ajuda lançamos também um olhar sobre a escola de hoje, trazendo ainda algumas ideias para a escola do futuro.

E recomendamos a leitura dos ensaios da fundação Francisco Manuel dos Santos sobre o tema: nomeadamente os dos autores que convidamos: o Ensino do Português e Literatura e Ensino do português.

O da Capa à Contracapa é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. A moderação como sempre é do jornalista José Pedro Frazão.

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“Egoísta”, dos que pensam e escrevem pela própria cabeça

Ditosa língua, esta, a portuguesa, a que Pessoa chamou a sua Pátria. Resiliente, também: enfrenta as intentonas de um espúrio Acordo Ortográfico e sobrevive, incólume, na semântica dos que pensam – e escrevem – pela própria cabeça”, lê-se no texto de Assis Ferreira.

Revista Egoísta recebe três Grandes Prémios Papies e totaliza 86 distinções

SAPO 24, 15.06.18

A revista Egoísta foi distinguida com três Grandes Prémios Papies, relativos aos números 61.º, 62.º e 63.º, elevando para 86 o número de galardões que esta publicação da Estoril Sol já recebeu em 18 anos de edição.

“A Egoísta levou para casa três Grandes Prémios Papies na categoria de Revista, com as edições 61, intitulado ‘Televisão’, 62, ‘Doce’, e 63, ’18’. Esta publicação dirigida por Mário Assis Ferreira, soma assim 86 distinções alcançadas em competições nacionais e internacionais”, afirma a Estoril Sol em comunicado.

Sobre estes três troféus, a editora da revista, desde a sua fundação, a escritora Patrícia Reis, afirmou: “Numa era tecnológica em que as redes sociais parecem dominar, é bom e de salutar que possamos fazer a apologia do papel, da escrita na página, incentivando à leitura e à imaginação”.

No número celebrativo do 18.º aniversário da revista, intitulado enfaticamente “18”, Mário Assis Ferreira escreveu no editorial: “Longa vida à Egoísta! Tão longa, que já nem seja eu, maduro septuagenário, a ter o tempo de escrever o seu último editorial!”.

Este 63.º número da Egoísta conta com as colaborações de Gonçalo M. Tavares, Inês Pedrosa, Raquel Prates – com uma produção exclusiva – Ilda David, que ilustra Hélia Correia, Gonçalo F. Santos e Xavier Pereira, que juntos assinam uma fotonovela, Afonso Cruz, Nuno Júdice, Estelle Valente, Tiago Pimentel e Lena Pogrebnaya, entre outros.

A Estoril Sol, aquando da sua publicação, em Março, afirmou que “a edição da ’18’ será o primeiro de vários momentos que terão como propósito celebrar este marco na história da publicação, e que continuarão a ter lugar ao longo deste ano”.

O número 62.º, publicado em Dezembro do ano passado, intitula-se “Doce” e, no editorial, o seu director elogia a Língua Portuguesa que “enfrenta as intentonas de um espúrio Acordo Ortográfico e sobrevive”.

“Ditosa língua, esta, a portuguesa, a que Pessoa chamou a sua Pátria. Resiliente, também: enfrenta as intentonas de um espúrio Acordo Ortográfico e sobrevive, incólume, na semântica dos que pensam – e escrevem – pela própria cabeça”, lê-se no texto de Assis Ferreira.

“Na pujança do seu léxico, eis que cada vocábulo se desdobra numa multiplicidade de sinónimos e, não raro, cada sinónimo se espraia em duplos sentidos. Tal como a palavra Doce – na sua acepção gastronómica ou enquanto expressão imaterial. Pois que Doce, guloseima, e Doce postura humanística não se confundem, embora se conciliem no prazer da sua fruição”, prossegue Mário Assis Ferreira.

A capa deste número editada em 3D, sugere um rebuçado, e inclui ‘drops’ “flocos de neve”, numa parceria com a septuagenária confeitaria Vieira de Castro.

O 61.º número, editado em Agosto do ano passado, foi dedicado à televisão, “a máquina que mudou o mundo”, escreveu Patrícia Reis, tendo sido a primeira edição da Egoísta, numa versão bilingue – português e inglês.

Esta edição publicou o último texto do economista Miguel Beleza (1950-2017).

A edição realçou o 60.º aniversário da RTP, contou com a participação dos jornalistas João Adelino Faria e Cândida Pinto, e ainda com outros nomes do universo televisivo, como Carlos Ramos, Gonçalo F. Santos, Patrícia Fonseca, Filipe Santos Costa, Drumond, Luís Filipe Cunha, Inês Pedrosa, Richard Zimler, Nuno Artur Silva, Miguel Monteiro, Paulo Mendes Pinto, João Gobern, Henrique Raposo, Joel Neto, Andris Feldmanis, Pedro Boucherie Mendes, Alexandre Honrado, Dulce Garcia e Ricardo Alevizos.

Esta não foi a primeira vez que uma edição da Egoísta foi distinguida com o Grande Prémio Papies, na categoria Revista, pois já lhe tinha sido aliás entregue, pelo 60.º número, cuja temática foi a política.

[Source: Revista Egoísta recebe três Grandes Prémios Papies e totaliza 86 distinções – Atualidade – SAPO 24O texto em acordês no original foi corrigido automaticamente para Português-padrão pela solução Firefox contra o AO90.]

 

As edições Televisão, Doce e 18 foram reconhecidas com Grande Prémio na categoria de Revista, nos mais recentes Prémios…

Publicado por Revista Egoísta em Sexta-feira, 8 de Junho de 2018

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O tanas

Ocorrência: Fraude na SPA

No jornal Público foi ontem publicado electronicamente, e hoje na edição em papel, o artigo (e notícia) «Rui Vieira Nery premiou como júri obra de que é um dos coordenadores», escrito por Rodrigo Nogueira.

Este é um facto do qual eu fui o primeiro a tomar conhecimento… fora da Sociedade Portuguesa de Autores, cujos principais (ir)responsáveis vieram a revelar-se cúmplices numa situação de autêntica fraude intelectual, e privando-me, e ao meu livro «Nautas – O início da Sociedade da Informação em Portugal» (e, eventualmente, a outros autores e a outras obras), de um prémio, com o nome de José Mariano Gago, já falecido e saudoso professor, investigador e ministro, nesta capacidade tendo dado início, em meados da década de 90, a um processo, a um projecto, de modernização tecnológica do país, do Estado e da sociedade civil, corporizado no «Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal», editado em 1997, e que, precisamente, constituiu o pretexto e o ponto de partida para a minha carreira enquanto jornalista especializado em tecnologias da informação e da comunicação. Reuni os que considero serem os melhores textos dessa carreira num volume publicado no ano passado, quando se assinalou o 20º aniversário do «Livro Verde…».

Custaria a acreditar que um livro feito por causa de José Mariano Gago, e em homenagem (explícita) a José Mariano Gago, não vencesse a primeira edição de um prémio com o nome de José Mariano Gago, com o objectivo declarado de «ser atribuído ao autor português do melhor livro de divulgação científica publicado no ano anterior». Porém, infelizmente e até escandalosamente, foi isso mesmo o que aconteceu. Para o artigo do Público dei o meu depoimento e, deste, excertos são citados, resumindo correctamente o que sucedeu desde 22 de Maio último: a minha surpresa após saber qual tinha sido a obra «vencedora», considerando as suas características, incluindo em especial o estar «escrita» em sujeição ao AO90; a minha ainda maior surpresa ao descobrir, quase por acaso, que um dos membros do júri era também um dos co-autores da obra – veja-se, e confirme-se, quem coordena(rá) o volume Nº 20 daquela; o meu contacto junto da SPA, com conhecimento do Presidente da Direcção daquela, José Jorge Letria, apelando a que a entrega do prémio fosse cancelada, o que não aconteceu; a minha mensagem a Carlos Fiolhais (que, enquanto director da colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, recusou publicar o meu livro «Nautas» naquela editora, isto depois de se ter queixado, no seu livro «A Ciência em Portugal», de que faltavam obras escritas por jornalistas de ciência) sugerindo-lhe, e a José Eduardo Franco, que renunciassem ao prémio, e da qual, significativamente, não recebi resposta.

No momento em que escrevo e publico este relato não há indícios de que este caso de «compadrio cultural», de atropelo à ética, de «promiscuidade professoral», vá ter consequências, mais concretamente, e obviamente, (algumas) demissões. Afinal, é tão só mais um exemplo de como neste país certas pessoas sentem ter a autoridade e a impunidade para fazerem o que, como e quando querem, não obedecendo a regras ou adoptando regras diferentes para elas próprias. No entanto, e apesar de particularmente grave, este «incidente» com a SPA não constitui o único exemplo recente, e em que eu estou de algum modo envolvido, de prémios literários organizados e/ou atribuídos de forma duvidosa. Antes, mas já igualmente neste ano de 2018, (um júri nomeado pel)a Associação Portuguesa de Escritores concedeu o seu Prémio de Crónica e Dispersos Literários, não a «Nautas» mas sim a «A Alma Vagueante» de Mário Cláudio… que, por «coincidência» e curiosamente, é igualmente presidente da mesa da assembleia geral da APE! Todavia, aqui houve um regulamento, divulgado publicamente, que indicava claramente como (única?) incompatibilidade a de membros do júri não poderem ser autores concorrentes ao prémio. Contudo, será isso suficiente para afastar as suspeitas? (Também no MILhafre.)

Octávio dos Santos , “blog” Octanas, 14.06.18

«”Fiquei intrigado com a tipologia da obra vencedora, esperava que fosse algo mais recente, não uma obra estilo enciclopédia, com textos antigos da cultura portuguesa e abrangendo algumas áreas que nem são ciências”, partilha, acrescentando que também achou estranho o projecto “seguir o Acordo Ortográfico de 1990”, contra o qual – “e bem”, comenta – a SPA tem vindo a lutar.»

Rui Vieira Nery premiou como membro do júri obra de que é um dos coordenadores

Rodrigo Nogueira
“Público”, 13.06.18

Na sua primeira edição, o Prémio José Mariano Gago de Divulgação Científica foi para Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, pela coordenação do projecto Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa. Rui Vieira Nery, que fez parte do júri e vai coordenar um dos 30 volumes do projecto, diz que não há qualquer conflito de interesses.

Rui Vieira Nery fez parte, com Miguel Lopes e Elvira Fortunato, do júri que a 22 de Maio atribuiu ao físico Carlos Fiolhais e ao historiador José Eduardo Franco o primeiro Prémio José Mariano Gago de Divulgação Científica, uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), pela coordenação do projecto Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa. Mas é também o coordenador de Primeiros tratados de música, o vindouro 20.º volume daquela colecção, cuja equipa reúne mais de 170 especialistas, investigadores nacionais e internacionais.

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Ainda o “Fronteiras 31”

«O futuro da Língua Portuguesa nunca poderá estar neste famigerado acordo ortográfico, em que a língua foi vilmente…

Publicado por Fundação Francisco Manuel dos Santos em Segunda-feira, 4 de Junho de 2018

Aldrabice. Aquilo foi, na verdade, e absolutamente ao contrário das expectativas, um saco cheio de lixo acordista. Não reciclável, portanto.

Como se já não bastasse tratar-se o programa de uma “parceria” entre a Fundação Francisco Manuel dos Santos, instituição respeitável e — pelo menos, aparentemente — insuspeita, e a RTP, rede televisiva de propaganda governamental e de intoxicação acordista, e mesmo que dêmos de barato a fraude das “perguntas do público” que afinal não existiram, ainda tivemos de levar com as baboseiras dos paineleiros (tirando a honrosa excepção de Ivan Lins) e com toda aquela encenação feérica, elegíaca, pacóvia, incrivelmente patega na sua “admiração” pelo “gigantismo” do Brasil.

Uma coisa nojenta, em suma.

O acordismo impingido às massas, o II Império brasileiro servido em bandeja “lusófona”. De novo. E, como sempre sucede quando a esmola é grande, o pobre, afinal, estupidamente, nunca desconfia.

O pobre, neste caso, ingénuo, crédulo, anjinho, fui eu. Divulguei aqui uma badalhoquice, peço desculpa.


«O vencedor do Prémio Camões, Germano Almeida, pede mais apoio do Estado de Cabo Verde à literatura portuguesa. Já o escritor português Pedro Mexia defende que a Guiné Equatorial não devia estar na CPLP. Declarações no programa Fronteiras XXI, da RTP 3, que discutiu o futuro da língua portuguesa.» [RTP]

https://www.rtp.pt/play/p4259/fronteiras-xxi

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