Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Direito

O Chile na CPLB (Comunidade dos Países de Língua Brasileira)

«Brasil y Chile iniciaron este miércoles en Brasilia la primera ronda de negociación de un acuerdo de libre comercio de “segunda generación”, pues ya tienen el 100% de su comercio liberado desde hace más de 20 años, dijeron las fuentes diplomáticas.» [Camara Aduanera de Chile, 07.06.18.]

 

Chile na Comunidade de Países de Língua Portuguesa

Germán Guerrero

No passado dia 18 de Julho, o Chile aderiu à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) como Estado Observador Associado. Assim, foi alcançado um novo marco nas excelentes relações diplomáticas entre o Chile e Portugal que para nós constitui não só um canal para relações políticas, comércio e negócios, mas também uma expressão de uma cultura e de valores partilhados.

Ambos os países reconhecem-se como likeminded country com uma afinidade nos seus princípios, objectivos e interesses, o que explica a nossa privilegiada relação e o trabalho conjunto no domínio da cooperação bilateral e multilateral.

No entanto, ao aderir à CPLP não realizámos unicamente um gesto meramente diplomático. Embora os dois países tenham dado um passo importante na integração latino-americana e africana, o reencontro da língua, que é a expressão da alma de um país, é também uma ponte para aprofundar a compreensão mútua e os valores culturais que partilhamos.

Como dizia Fernando Pessoa: “Usando do inglês como língua científica e geral, usaremos do português como língua literária e particular. Teremos, no império como na cultura, uma vida doméstica e uma vida pública. Para o que queremos aprender leremos inglês; para o que queremos sentir, português. Para o que queremos ensinar, falaremos inglês; português para o que queremos dizer.”

Com efeito, na língua está a chave para entrar na alma de um país, a chave para descobrir os seus sentimentos, as suas esperanças e os seus sonhos. É também a chave para compreender que não estamos isolados do resto do mundo e que fazemos parte de uma mesma comunidade.

O Chile e Portugal fazem parte da comunidade ibero-americana composta por 23 países, sendo não só uma comunidade política e económica mas, sobretudo, cultural, constituindo, com o castelhano e o português, uma das maiores comunidades linguísticas do mundo.

O nosso reencontro com o português é também um passo importante para uma real integração latino-americana, que não é possível sem os laços com o Brasil. Metade da América Latina fala a língua de Cervantes e de Pablo Neruda e a outra metade fala o português de Camões e de Eça de Queirós.

O Brasil e o Chile têm uma identidade latino-americana comum e partilham valores fundamentais, tais como a sua vocação democrática e de liberdade e uma firme vontade de lutar contra a pobreza, a exclusão e a desigualdade social.

Por estas razões, as relações entre o Chile e o Brasilsão do mais alto nível. Somos parceiros estratégicos nos processos de integração, no diálogo político bilateral e multilateral e no intercâmbio científico, cultural e educacional. Da mesma forma, no domínio comercial, estamos a negociar um tratado de livre comércio entre os dois países.

A participação do Chile e do Brasil, agora também, na CPLP é uma nova porta para estreitar as relações recíprocas e partilhar novos projectos nas áreas da educação, da cultura e da promoção das nossas línguas e dos nossos escritores.

Por sua vez, Portugal conta com uma significativa presença, cooperação e investimentos em países africanos, o que vai em concordância com o interesse do Chile em se aproximar do referido continente. Assim, o Chile aspira, através da CPLP, estreitar os vínculos, o intercâmbio e a cooperação com o continente africano.

Nessa perspectiva, a Agência para a Cooperação Internacional e o Desenvolvimento do Chile (AGCID) e o Instituto Camões da Cooperação e da Língua subscreveram um memorando de entendimento para a cooperação triangular, especificamente em países africanos de língua oficial portuguesa e na América Latina e o Caribe.

A AGCID também criou o Programa de Bolsas República do Chile-Nelson Mandela para estudos de pós-gradução em universidades chilenas, que beneficiam actualmente 72 funcionários públicos de países desse continente. Da mesma forma, desenvolvemos um programa de diplomados específico para Moçambique e para Angola, nas áreas de aquicultura, manejo costeiro e produção de moluscos.

Outro aspecto muito importante é que, através da adesão do Chile à CPLP, aspiramos também aprofundar a difusão e o ensino da língua portuguesa no Chile.

Actualmente, a Universidade de Santiago do Chile ministra uma licenciatura em Tradução Português-Espanhol-Inglês, iniciando em breve um curso de diplomado em Pedagogia em língua portuguesa. Simultaneamente, numerosos professores de língua portuguesa ministram cursos em institutos privados ao abrigo do protocolo subscrito em 2015, tal como divulgado, entre a referida universidade e o Instituto Camões da Cooperação e da Língua.

Igualmente, o Centro Cultural Brasil-Chile trabalha em três áreas principais: a difusão da língua portuguesa, a promoção da cultura e o reforço dos laços de amizade e cooperação cultural entre os dois países.

Assim, a adesão do Chile à CPLP constitui não só um gesto diplomático ou publicitário mas também uma oportunidade para promover uma comunidade cultural e valiosa e, ainda, reforçar a política de aproximação aos países lusófonos, facilitando, por essa via, as relações entre o nosso povo, os nossos intelectuais e artistas e as nossas instituições, com os seus homólogos de língua portuguesa num vasto horizonte que vai desde Lisboa ao Rio de Janeiro, desde Díli a Maputo.

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa é também uma associação para a concertação político-diplomática, para a cooperação e promoção do desenvolvimento humano, a paz e a segurança internacional e a implementação da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, entre outros temas de importância global.

Como Embaixada do Chile em Portugal ficamos felizes por este novo passo nas relações chileno-portuguesas. Simultaneamente, estamos a cumprir o sonho da nossa poetisa e Prémio Nobel Gabriela Mistral, cônsul do Chile em Lisboa (1935-1937), que ansiava pelo reencontro das nossas línguas.

Gabriela Mistral dizia: “Nuestros idiomas han vivido de espaldas vueltas, sin odio alguno, pero también sin amor… muchas veces el verbo luso y el castellano me han parecido un árbol absurdo partido en dos frondosas ramas” e concluía: “algún día nuestros pueblos celebrarán la fecha del intercambio idiomático… la fiesta de la reconciliación de dos verbos malamente olvidados, que borraron por siglos su apelativo común, aún sabiendo que la sangre seguía siendo una y entera debajo de la falsa extranjería”.

Partilhando hoje as palavras da nossa poetisa, comove-nos dizer que chegou a data tão esperada da festa das nossas línguas e celebramos com alegria a adesão do Chile à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, por constituir um passo de grande importância para a compreensão mútua, a aprendizagem e a construção de um futuro comum.

Embaixador do Chile em Portugal

[Transcrição integral do paleio debitado pelo embaixador do Chile em Portugal que o “Diário de Notícias” (órgão central da propaganda acordista) publicou em 16.08.18. Destaques meus. A desortografia abrasileirada foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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«Os livros e os papéis que vão para o lixo» [JPP, “Público”, 28.07.18]

Os livros e os papéis que vão para o lixo

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar.

José Pacheco Pereira
“Público”, 28.07.18

Livros são uma das coisas que nos nossos dias têm mais probabilidade de ir parar ao lixo. Não exagero, é mesmo assim. As razões são cada vez mais habituais: despejos ou mudanças de casa sob a pressão das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez não têm espaço para os livros, divórcios, falecimentos, e “os meus filhos não se interessam por isto”. Não me cabe julgar, até porque estou consciente do drama que muitas vezes é esta separação de alguém dos livros de uma vida.

Mesmo quando são oferecidos a bibliotecas ou instituições, a resposta habitual é que não os querem. Conheço muitas destas histórias e podem-se compreender algumas das razões da recusa, e saber que, nalguns casos, não existem mesmo condições para os receber — nem pessoal para os tratar, nem espaço para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto é verdade. Mas estes “nãos” são também favorecidos por uma concepção “moderna” do que é uma biblioteca pública, com muita animação, Internet, jogos, música e DVD, e com uma enorme dificuldade em pôr as pessoas a ler livros. É um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contemporâneo de distracções e rapidez, actividades “lentas” e silenciosas como a leitura.

Não é uma questão de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvalorização do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que não às ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em função da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou vão de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem também para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.

Esta desvalorização do carácter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a considerá-los um “peso morto” que ninguém consulta. Também não tem de ser assim, porque há maneiras de dar vida ao “morto” com vontade e imaginação. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotecários fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes há décadas, sem nunca terem visto um olhar humano, são particularmente interessantes. Também não me custa perceber que a mesma falta de imaginação nas bibliotecas é o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investigação nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investigação sobre a “má” poesia (em edições de autor, mas não só), que enche estantes sobre estantes, por que é que é “má”, por que é que é escrita, é escrita por quem e quem é que acha que deve gastar dinheiro a publicá-la. Suspeito que algumas respostas não são as que pensamos ser óbvias.

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar. Já se salvaram muitos e continuamos a fazê-lo, mas também já fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E não estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se é que há disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que não são ajuntamentos, e que contêm critérios de selecção e sinais da identidade de quem as fez, dedicatórias, notas nos livros, coerência entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e papéis únicos, correspondência, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa história. A micro, mas também a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que estão a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcionários coloniais, que estão a morrer e, com eles, parte da nossa história “ultramarina”. Voltaremos noutra altura aqui.

Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

A fotografia acima mostra parte da pilha e engana. Havia à superfície manuais escolares (aliás, novos) e números do National Geographic, até porque é provável que haja mais do que uma origem para a pilha, mas por baixo estava uma muito boa biblioteca de História, com edições raras, dedicatórias, obras completas de vários volumes, uma muito boa secção de monografias locais, com relevo para Lisboa e a sua região, livros de ficção portuguesa e estrangeira, com destaque para edições dos anos 1940 e 1950, e o mais que adiante se verá, visto que apenas cerca de 10% do total foi visto e às pressas.

Tivemos sorte, pois não choveu e chegámos uma semana antes de os livros regressarem ao seu estado original de polpa de papel. Não tenho dúvidas de que, um pouco por todo o lado, é o que está a acontecer.

José Pacheco Pereira

[Transcrição integral de Os livros e os papéis que vão para o lixo” | Opinião | PÚBLICO, 28.07.18. A imagem no corpo do artigo é do autor, alojada no “site” do jornal. Destaques meus. Imagem de topo de: “Ephemera“.]

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“Os curiosos protagonistas do activismo” (…)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Ilustremos o paradigma (ou axioma, vá) com um caso flagrante de “consumidora de causas” que aterrou de pára-quedas na ILC-AO: fazia ela então uma campanha chamada “destrua as ondas, não as dunas” (acho que era qualquer coisa assim, se não era isto exactamente era algo igualmente exótico), até tinha um “blog” sobre a matéria (seja lá isso o que for), até tinha um grupo no Facebook (olha, mas que original, hem, grande surpresa, não estava nada à espera) e até tinha, por fim, uma “ideia” para propor à ILC: ela faria campanha pela ILC e, em troca, a ILC fazia campanha pelas dunas…» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.» [Inactivismo (2)]

Os curiosos protagonistas do activismo verde

 

Revista “Sábado”, 28.07.2018
Maria Henrique Espada

Há “associações” que não passam de páginas de Facebook, ligações ao BE, grupos dentro de grupos e até uma comunidade pelo sexo livre nos protestos contra o furo de Aljezur. E há movimentos com outra estrutura que admitem que isto põe um problema de credibilidade aos ambientalistas.

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Alentejo Litoral pelo Ambiente. É um dos promotores da manifestação de 14 de Abril, em Lisboa, “Enterrar de vez o furo, tirar as petrolíferas do mar”, e primeiro signatário da carta aberta a pedir a demissão do ministro do Ambiente. Ora, o que é o ALA? Não tem site, apenas uma página de Facebook gerida por Fátima Teixeira, que, na sua própria página de Facebook indica gerir ainda outra página, a Plataforma Transgénicos Fora, e trabalhar no Tamera – a comunidade alternativa do Sudoeste Alentejano, que, no seu site, no segmento “Investigação”, a par da Terra Deva (“ecologia espiritual”), exibe também referências à “sexualidade como poder sagrado”, “sexualidade e parcerias livres”, e conceitos mais difíceis de traduzir a leigos (“Ashram Político”, “Círculo das Pedras”, “Marisis”). Fátima Teixeira esteve a 21 de Abril a representar o ALA no debate Ainda é possível Parar o Petróleo?, em Vila Nova de Milfontes. E o Tamera, por sua vez, também foi um dos movimentos promotores da manifestação de dia 14.

Contactada a página de Facebook do ALA, quem respondeu afinal foi Eugénia Santa Bárbara, que em 2017 participou no protesto na marginal de Sines em que cerca de 10 pessoas se pintaram com tinta de choco para “simular um derrame de petróleo” e dizer não ao furo. Acabou por não ser possível o contacto (nunca por falta de disponibilidade da SÁBADO), e apenas ficou claro numa mensagem que o protesto de 7 de Julho, um cordão humano nas praias contra o furo, estava a ser organizado por outras pessoas, “os movimentos e organizações apoiam e divulgam”. Em resumo: o ALA é uma página de Facebook, com alguma ligação ao Tamera, e não parece ter corpos sociais nem foi possível saber se são 10 ou 100. E pelos vistos só deu o nome.

(mais…)

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«A Língua e a Comunidade» [Viriato Teles, RTPN, 20.07.18]

«A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.»

A Língua e a Comunidade

Os governantes dos nove países da CPLP reuniram-se esta semana em Cabo Verde para mais uma cimeira de topo. Que terminou com os costumeiras declarações optimistas dos participantes, mas onde aparentemente pouco se avançou quanto ao que realmente interessa: a Comunidade propriamente dita ainda pouco mais é do que uma boa intenção.

RTP Notícias, 20 Julho 2018

Viriato Teles

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa nasceu em 1996, mais de duas décadas depois do golpe de misericórdia dado pelo 25 de Abril no «império português». Entre os objectivos fundadores da organização, destacavam-se «a cooperação em todos os domínios» e «a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa» – dois pressupostos muito nobres e que, na verdade, deveriam ser inerentes à própria natureza dos países que a integram.

A CPLP é uma organização de Estados, e nessa medida talvez funcione minimamente. Mas ainda não é – ainda, digo eu, que sou um optimista e continuo a acreditar que possa vir a ser – o motor de uma comunidade de povos. Como, eventualmente, terá idealizado o brasileiro que, para todos os efeitos, é com justiça considerado o fundador da CPLP: o embaixador José Aparecido de Oliveira, cuja persistência e talento diplomático foram determinantes para ultrapassar os obstáculos, as desconfianças e as inevitáveis mesquinhices de estados e de almas.

Reduzido à dimensão peninsular de origem, Portugal nunca apostou como deveria na ideia de uma verdadeira «comunidade lusófona». Fosse por «complexo de ex-colonizador», por um sentimento de pobreza congénita, ou por receio de virmos a ser «engolidos» pelos países-irmãos maiores e potencialmente mais poderosos, a verdade é que nunca do lado de cá se deram passos seriamente empenhados nesse sentido.

Mas isto é válido também para o lado dos países africanos de expressão portuguesa, para quem interessavam sobretudo os aspectos da «cooperação em todos os domínios», e mesmo assim com resultados frequentemente muito discutíveis – fruto de décadas de corrupção instalada, tanto lá como cá.

Quanto ao Brasil, o interesse será também essencialmente político-diplomático (e naturalmente económico), já que de cooperação o país não precisa e de cultura está razoavelmente bem servido. Isto apesar de ter sido de lá que partiu a peregrina ideia do «acordo ortográfico», contestado de ambos os lados do Atlântico e (felizmente) ignorado por Angola e Moçambique, mas ainda não exterminado, como merece – um objectivo que, aliás, bem poderia entrar na agenda da CPLP.

Só que, para isso, era necessário que a língua e a cultura fossem realmente importantes para os governos envolvidos. E manifestamente não parecem sê-lo, por mais entusiásticas que sejam as declarações formais de todos eles. O problema não é de agora, nem tem a ver especificamente com este(s) governo(s), mas – por isso mesmo – tem de ser séria e eficazmente combatido, sob pena de se hipotecar irremediavelmente toda uma memória comum.

O influente Novo Jornal Online, de Luanda, alertava há dias em editorial para o «estado absolutamente desastroso em que se encontra o uso da língua portuguesa em Angola». E isto, sendo um problema dos angolanos, é também uma questão que deve preocupar todos os membros desta ainda-não-comunidade de povos – que nasceu e se pretende continue unida pela língua, com respeito pelas diferenças e pelas especificidades que a engrandecem.

Ora a CPLP poderá, se quiser, ter um papel a desempenhar na solução deste e de outros problemas que, lenta e silenciosamente, vão deteriorando irremediavelmente o património cultural comum. Terá de ser uma intervenção séria, sem receio de corrigir erros passados, em que interesses particulares não se sobreponham aos valores comuns. Uma boa maneira de começar seria acabar de vez com o «acordo ortográfico», mas até agora, por razões diferentes, ninguém teve a coragem de dar o primeiro passo.

Nos próximos dois anos, Angola vai assumir a presidência da CPLP. Ironicamente, é neste país e em Moçambique que, actualmente, se continua a falar e a escrever o Português de que o antigo colonizador já prescindiu (na lei, mas não na grei) em nome de interesses alheios à história, à cultura e à identidade da língua e dos povos a que ela pertence.

É com certeza pedir demais, mas seria muito interessante verificar que os ventos de mudança que parecem fazer-se sentir em Luanda chegavam, nestes dois anos, também à CPLP. Não haveria, decerto, melhor sinal de que esta ideia de uma «comunidade de países» pode ser mais e melhor do que um mero conjunto de interesses circunstanciais. E tornar-se um dia, quem sabe, num espaço que os netos dos nossos netos venham a partilhar, de um modo fraterno e justo – como as dores da história ainda não nos permitem fazer hoje.

Afinal, trata-se apenas de colocar na lei aquilo que já é uma realidade: o AO só está em vigor teoricamente – e apenas no Brasil (que não o aplica, aliás quase não precisa de o fazer), em Portugal (onde as «facultatividades» e outros disparates instalaram uma confusão ortográfica que, aliada à iliteracia geral, transformou a língua numa caricatura) e, por simples inércia, em Cabo Verde (que, na prática, também o ignora, antes investe na promoção dos crioulos locais).

A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.

Eu sei que a CPLP não produz leis nem negoceia tratados. Mas é (deve ser) a plataforma comum e, deseja-se, o ponto de encontro dos governantes dos países que dela fazem parte. Nada obsta, portanto, a pelos canais de que dispõe este deixe de ser um tema tabu entre os nossos países e seja clara e seriamente discutido. Basta querer.

Para mais, é do conhecimento geral a quantidade dos que – ora no poder, ora na oposição, em Portugal e nos outros – reconhecem a valência dos argumentos «anti-acordistas» e o desconchavo que resultou da sua aparente aplicação. E todos concordam que, à medida que o tempo passa, maiores são os danos e mais difícil se torna a recuperação. Não será então a altura de, duma vez por todas, pôr fim à iniquidade?

Viriato Teles

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Viriato Teles, publicado no “site” da RTP Notícias em 20.07.18. Destaques e “links” meus. Foto de topo de: Miguel Silva (“Público“).]

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‘Não há dinheiro, não há palhaços’

Directora apreensiva com indefinição sobre liderança do IILP depois de Dezembro

A directora do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), manifestou-se, em entrevista à agência Lusa, preocupada com o futuro desta instituição da comunidade lusófona devido à indefinição sobre a liderança e aos recorrentes problemas financeiros.

 

Marisa Mendonça, que deixa a presidência do IILP em Dezembro, mostrou-se apreensiva por não existir, até ao momento, decisão sobre quem assumirá a direcção do instituto a partir dessa altura ou manifestações de interesse no cargo.

Cabo Verde assume a presidência da comunidade lusófona na XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), agendada para 17 e 18 de Julho, na ilha do Sal.

As propostas sobre os países que irão assumir a liderança dos órgãos da comunidade são aprovadas durante as cimeiras, mas até ao momento não é conhecida a vontade de qualquer país em apresentar uma candidatura.

“Ainda não há uma decisão neste sentido e isto está a deixar-me, de certa forma, muito apreensiva. Estranhamente, até este momento, estamos a menos de 15 dias da cimeira da CPLP, e não há nomes“, disse.

Marisa Mendonça considerou que “seria bom perceber quais são os países ou as pessoas que se estão a perfilar” para a direcção deste organismo, lembrando que, aquando da sua nomeação, Moçambique propôs “muito cedo” o seu nome.

A directora executiva do IILP, que cumpre o seu segundo mandato à frente da instituição, manifestou-se também preocupada com os atrasos recorrentes no pagamento das quotas por parte dos países-membros, adiantando que o instituto tem estado a funcionar com 8% do seu orçamento.

“A nível financeiro estamos numa situação complicada. Quando entrei fizemos um grande esforço de contacto com os Estados-membros, que estavam com uma dívida global acima de um milhão de euros, quatro orçamentos anuais do IILP. Não preciso de entrar em grandes pormenores para se perceber a dificuldades de gerir o instituto nessa situação”, disse.

Adiantou que a dívida chegou a reduzir para 300 mil euros, mas que actualmente ascende a mais de 800 mil euros.

“É uma dificuldade imensa, temos compromissos assumidos diante de outras instituições que dão cobertura técnica às nossas plataformas, aos nossos projectos e andamos muitas vezes com o coração nas mãos, porque não sabemos como honrar os nossos compromissos”, reforçou.

Marisa Mendonça assinalou que se trata de “uma situação recorrente e que vem do passado”.

“Temos vivido sempre com este problema a nível financeiro. Isto não nos permite dar outros passos, temos obrigações, orientações plasmadas nos planos de acção de Brasília, de Lisboa e de Díli, mas temos de ser muito cautelosos quando pensamos abrir mais uma frente de trabalho e trazer outras dimensões àquilo que é a actividade do IILP”, disse.

Ainda assim, a directora executiva do instituto faz um “balanço positivo” do seu mandato, manifestando a expectativa de que os projectos em curso não sejam postos em causa.

“Fez-me muito trabalho, temos projectos em bom nível de desenvolvimento, seria realmente uma pena que estes projectos não pudessem ser continuados. É muito importante pensarmos como é que essas actividades vão continuar, mas antes de pensarmos nisto temos de pensar na consolidação da instituição, temos de pensar noutras formas de manter a instituição viva e com as condições que obrigatoriamente tem de ter”, considerou.

Marisa Mendonça sublinhou a importância de ter dado continuidade aos projectos que estavam em curso na organização – Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), Portal de Português Língua Estrangeira e a Revista Plateau, bem como de ter conseguido iniciar novos projectos.

“Iniciámos e estamos a desenvolver três projectos: CPLP – Comunidade Mais Leitora, que visa o desenvolvimento e promoção da leitura e da escrita, como uma estratégia comum a todos os países da CPLP, o dicionário de autores de literaturas africanas de língua portuguesa, que é a transformação de um dicionário em formato físico num dicionário virtual, e as terminologias científicas e técnicas comuns da língua portuguesa”, enumerou.

Para Marisa Mendonça, este último projecto será “bastante importante” porque “vai trazer uma plataforma consensualizada de terminologias que poderão ser um apoio fundamental para as actividades tanto de tradução como de interpretação de conferências”.

Marisa Mendonça apelou às autoridades cabo-verdianas, que vão presidir à CPLP e país onde está a sede do instituto, que olhem para o IILP “com outra atenção”.

Sediado na cidade da Praia, o IILP é um instrumento para a gestão comum da língua portuguesa, envolvendo todos os Estados-membros da CPLP.

CFF/RYPE // VM

Lusa/Fim

https://24.sapo.pt/noticias/internacional/artigo/diretora-apreensiva-com-indefinicao-sobre-lideranca-do-iilp-depois-de-dezembro_24501232.html

[A transcrição deste texto da Brasilusa, como de costume estropiado pelo AO90, foi corrigida automaticamente pela solução Firefox contra o AO90. Destaques meus.]

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A “monstruosa agremiação de pessoas”

«Em Lisboa há uma Academia Real das Ciências, grande título que por si se impõe, deduzindo-se que Lisboa possui sábios e se encontra dotada com um lugar onde se honra e cultiva as ciências… Risum teneatis amici, porque esta Academia não passa de um madeiro que, ao flutuar na água, por vezes pode aparentar um grande barco.»
«Esta Academia é uma monstruosa agremiação de pessoas, umas que não sabem nem têm nada a fazer, outras que não sabem nem querem fazer nada, e ainda de alguns sujeitos que se mexem muito para fingirem que andam muito ocupados e que, no entanto, não produzem mais que aqueles que nada fazem.» [“Panorama de Lisboa no ano de 1796”, J.B.F. Carrère]

 

Se o ridículo matasse…

Afinal, ao que parece, algumas pessoas, até do “respeitável Público”, levam a sério a espécie de sarau que a lisboeta “Academia das Ciências” está a preparar para amanhã, 10 de Julho de 2018.

Ao que parece também, afinal os paineleiros não serão exactamente os anunciados em cartaz para abrilhantar a coisa, mas isso, uma ou outra lacuna, aquela ou aqueloutra ausência (decerto imediatamente colmatada por algum “académico” da assistência, é favor uma das 15 pessoas presentes levantar o braço, obrigado, então pode ser aquele cavalheiro ali ao fundo, o de bigode), não há-de ser nada de cuidado, a eleição da Miss Mundo Lusófono decorrerá conforme previsto, dê lá por onde der.

Mantém-se o programa na íntegra, a julgar pelo que diz o “respeitável Público”, apenas com uma ligeira diferença, questão de pormenor, nada de ainda mais absurdo ou ridículo do que o inicialmente previsto: um dos modelos prevê a oficialização do Português como “língua minoritária”, expressão técnica esta que designa um conceito totalmente estranho aos cerca de 99,999% de cidadãos que jamais chegaram sequer perto da tristonha fachada da ACL.

O que isto significa, traduzido em miúdos, para que as outras pessoas, as normais,  entendam, é que  dentro daquelas tão vetustas quanto impenetráveis paredes preparam-se, uns quantos gatos pingados de borla, capelo e lata, para oficializar num papel, de uma vez por todas, a “solução final“, a liquidação sumária, a extinção definitiva da Língua Portuguesa enquanto património histórico e identitário. 

O que vale é que ninguém lhes liga nenhuma, aos gajos das borlas mai-la sua senil ociosidade.

Qualquer documento que decida exarar, portanto, esse académico colectivo de inúteis sumidades, será para todos os efeitos absolutamente nulo e de nenhum efeito.

“A diversidade na língua não compagina com actos ditatoriais”

Unidade e Diversidade da Língua Portuguesa é o tema de um colóquio que a Academia das Ciências de Lisboa promove esta terça-feira, dia 10, a pensar nas línguas maternas.

Nuno Pacheco
“Público”, 09.07.18

A Academia das Ciências de Lisboa promove esta terça-feira, por iniciativa do seu presidente, Artur Anselmo, um colóquio subordinado ao tema Unidade e Diversidade da Língua Portuguesa, com participação de académicos, professores e autores portugueses mas também brasileiros e africanos. “O colóquio decorrerá durante todo o dia”, diz ao PÚBLICO Artur Anselmo, “com três conferências de cerca de meia hora cada, não mais, e umas 20 a 30 comunicações de 20 minutos. A primeira conferência, de abertura, é feita pelo professor Adriano Moreira, com um título sugestivo: ‘A Língua não é nossa mas também é nossa’; a conferência da tarde é feita pelo Manuel Alegre, que falará, como grande escritor que é, em nome da língua portuguesa viva, dos escritores; e na conferência de fecho, feita por mim, tratarei do direito à diferença, um tema que me agrada muito, no respeito pelas línguas maternas.” O colóquio começa às 9h, no salão nobre da Academia, e terminará por volta das 19h com um intervalo das 13h às 15h.

O que motiva este colóquio é uma preocupação, já antiga, do presidente da Academia das Ciências quanto ao futuro das línguas maternas. Ele explica: “A Língua Portuguesa tem de conviver, cada vez mais, em boa paz, com as outras línguas. Porque nós não podemos alienar um património riquíssimo de línguas maternas. São as dezasseis de Moçambique, são as doze de Angola, são os crioulos. Depois o português vai-se adaptando, como diz o Manuel Ferreira, como diz o Mia Couto. E eu acho que a diversidade não compagina com actos ditatoriais.” Isto aplica-se à convivência entre as línguas maternas ou os crioulos e as variantes que assume a língua portuguesa em cada país, mas também à ortografia, que, embora não sendo tema deste colóquio (foi-o de um anterior, Ortografia e Bom Senso, em 2015), estará presente nalgumas comunicações. Artur Anselmo: “O uso da língua tem de ser um acto de civismo: respeitar os outros, respeitar as línguas maternas, respeitar as áreas dialectais, respeitar os falares (vai haver uma comunicação sobre falares brasileiros, que não são dialectos, são falares!). Como diz Adriano Moreira, a língua não é nossa mas também é nossa. Por isso vamos insistir: a diversidade é um ponto importante. E eu vou apresentar uma comunicação sobre os direitos linguísticos das minorias.”

Source: “A diversidade na língua não compagina com actos ditatoriais” | Língua Portuguesa | PÚBLICO

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