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«Fora-da-lei» [“Público” 20.05.20]

O Acordo Ortográfico e o fora-da-lei

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

“Sou assumidamente um fora-da-lei, passei a ser um autor clandestino. Sou também um analfabeto porque me recuso terminantemente a cumprir um acordo ortográfico imbecil que assassinou o meu português. Sinto-me chocado e de luto pela língua portuguesa, mas comigo sei que tenho milhões que também não compreendem aquilo que aconteceu. Nenhuma língua pode ser alterada e imposta por decreto, cerceando a nossa liberdade e inteligência.”
Pedro Barroso, músico, compositor e professor

Em época de pandemia, em estado de calamidade, para combater as agruras do isolamento, e durante o pouco tempo livre que o ensino a distância permite, a literatura tem sido uma opção imperiosa. E como professor de Português mantenho, sem tréguas, a inquietação que este Acordo Ortográfico trouxe para o meu quotidiano escolar. Um Acordo Ortográfico que levianamente decidiu pela desvalorização da etimologia, fomentando sucessivos equívocos, e que se fez acompanhar de uma Nota Explicativa, incompreensível nas suas justificações e opções, irracionais e incongruentes.

Enquanto professor experiente o que mais me choca na referida Nota é a justificação, porventura a mais risível de todo o texto, em que os mentores da nova ortografia demonstram a sua enorme preocupação e infinito desvelo para com as pobres crianças que têm o português como língua materna. Ressalte-se ainda a circunstância de esta aberração ser desconhecida de grande número de acordistas, pensando muitos deles tratar-se de uma anedota:

De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.

Perante isto, só podemos concluir que os redactores do AO90 têm em muita pouca conta as capacidades das “crianças” lusófonas, apetecendo-nos perguntar como é que as outras crianças que usam outras línguas conseguem memorizar todos os grafemas não articulados e as diferentes representações gráficas para o mesmo som? Por exemplo, no francês, com a palavra brouillé [bʀuje] que apresenta oito grafemas e cinco fonemas ou no inglês, com knowledge [ˈnɒlɪdʒ] que apresenta também uma diferença substancial entre grafemas e fonemas. Como é que essas crianças conseguem?

Na perspectiva dos autores do AO 90, a memória já será bem utilizada num conjunto de adivinhas com que os alunos se deparam actualmente, seja por exemplo com a omissão das consoantes ditas mudas (c e p) ou com o hífen. É a língua, sem lógica, na base da incoerência do critério acientífico da pronúncia privilegiado pelos catequistas da nova ortografia:

— epiléptico e epilepsia, só uma destas palavras tem p. Qual será?

— ortóptico e óptico, só uma delas tem p. Qual será?

— bissectriz e trissectriz, só uma delas tem c. Qual será?

— Egipto e egípcio, só uma das duas tem p. Qual será?

— lácteo e lacticínio, só uma delas tem c. Qual será?

— infecção e infeccioso, só uma delas tem c. Qual será?

— cor-de-rosa e cor-de-laranja, só uma das duas tem hífen. Qual será?

— manda-chuva e guarda-chuva, só uma delas tem hífen. Qual será?

— pé-de-cabra e pé-de-meia, só uma delas tem hífen. Qual será?

A todas estas questões, poderá sempre acrescentar outra: porquê? Pode ainda adicionar mais uma: que ferramenta posso consultar para me assegurar que estou a cumprir escrupulosamente o acordo? Não faça perguntas difíceis, caro leitor.

Cada fonte consultada pode usar a sua versão do AO90. Se reparar, o jornal Correio da Manhã, o Expresso ou o jornal Record utilizam o acento na forma verbal pára, ao contrário do que estipula o texto do AO90. Há um ou dois dias, a propósito de manifestações pró-Bolsonaro, li num cartaz, num noticiário televisivo: “Ninguém para a juventude do Brasil!” O que significa isto? Como se lê isto?

Outro embuste recorrente é o de que as alterações ortográficas não teriam interferência na pronúncia. Nada mais falso! Temos, com regularidade, apresentado palavras acordizadas e solicitado a grupos de alunos que as pronunciem. Por exemplo, na palavra conceção (concepção em português vernáculo), 92,4% pronunciaram o e como se fosse uma vogal fechada [kõsəˈsɐ̃w̃] e apenas 7,6% pronunciaram [kõsɛˈsɐ̃w̃], com a dita vogal aberta. Números semelhantes ocorreram com as palavras invetiva e recetação.

Para quem duvida do caos que este AO trouxe, refira-se a utilização do hífen na locução substantiva “mão-de-obra”. Tem ou não hífen, agora com o AO90? Se consultar o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) não verá quaisquer vestígios dos dois hífenes, mas se, por exemplo, preferir pesquisar noutra ferramenta, na página da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, encontrará os ditos hífenes. E na imprensa? No Jornal de Notícias predominam as ocorrências sem hífen; no Diário de Notícias, no Jornal de Negócios e no I predominam as formas com os dois hífenes; no Observador e no Sol coexistem em número aproximado as duas formas. Caso idêntico se passa com “fora-da-lei”, evidenciando a salgalhada que por aí campeia. Consulte-se regularmente os órgãos de imprensa e ver-se-á repetidamente a oscilação entre as formas com ou sem hífen.

Mais uma dupla grafia em perspectiva?

Para quem continua a duvidar do caos ortográfico que se instalou no último decénio, contabilize-se, calmamente sentado, a profusão de fatos, contatos, artefatos e impatos que aparecem quotidianamente na comunicação social, nas legendas televisivas, no Diário da República e em documentação variada (dos privados às instituições). É também crucial indicar qual a fonte acordizada que utilizamos na nossa pesquisa porque cada uma dessas fontes segue uma diferente versão do AO90, uma espécie de marxismo com cinco tendências (Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo).

Como cidadão, lutando contra a inércia, continuarei a ser obstinadamente um “fora-da-lei”; como professor darei conta aos meus alunos do sem sentido de um “fora da lei”, ainda que a sabedoria oficial os force a escrever assim.

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

[Destaques, sublinhados e “links” meus. João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20. Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Logótipo: Facebook.]

“Ter na Língua causa para vergonha” (“Jornal de Angola”, 10.05.20)

Não há atalho para a escrita


Caetano Júnior

O Mundo celebrou, a 5 último, o Dia da Língua Portuguesa. A efeméride obriga-nos a uma reflexão sobre o uso que lhe damos, durante o processo que pretendemos que desagúe na comunicação e informação, mas que, não poucas vezes, resvala para âmbitos contrários aos quais nos propusemos à partida.

Complexo como só o próprio, este Idioma, que nem sempre nos consegue unir – porque de exigente literacia e de difícil domínio, ainda mais num contexto como o nosso, de convivência com falares locais -, faz de muitos de nós reféns da crítica quase geral, quando não o tratamos com a deferência que merece.

“Parece uma maldição, e talvez mesmo seja. O nosso uso diário do idioma aparece polvilhado de descuidos, de impropriedades, desvios à norma, rotundas agramaticalidades. Mesmo escrevendo, contenta-nos rapidamente a primeira formulação, essa onde uma ligeira releitura logo detectaria o manquejar da semântica, a redundância incomodativa, a urgente conveniência da mais humilde preposição”. Eis um trecho de Fernando Venâncio, logo à entrada, no prefácio que dedica ao livro “Em Português, se Faz Favor”, de Helder Guégués.

Um fragmento ao qual fazemos recurso também para traduzir a realidade da Língua Portuguesa entre nós. Estamos perante um exercício reflectivo, dirigido não a especialistas – o que os não impede de ler -, mas ao leitor comum; àquele que tem sempre necessidade de produzir um escrito, um bilhetinho que seja; que se sente perseguido pelo desejo de emendar os danos que inflige ao Idioma.

O que se busca, nesta abordagem que se quer pedagógica, também não é a perfeição na produção escrita, porque é extremamente difícil tê-la. A Língua Portuguesa é um campo do conhecimento muito vasto, delicado e em permanente actualização, que inclui contextos variados, entre os quais os sócio-culturais. Podemos até, para atestar a complexidade que a envolve, trazer à conversa as variedades ou dialectos (por exemplo, o que para nós é “figo”, para o são-tomense é “caroço”) e o acordo ortográfico ainda por harmonizar entre os falantes da comunidade lusófona.

Adentramos em território perigoso, como o que, amiúde, subjaz à crítica – no caso, à vertente escrita da Língua. Afinal, paira a possibilidade de uma qualquer falta, distorção ou omissão comprometer a escrita. É a omnipresente Lei de Murphy. Um risco, entretanto, consciente, que parte da necessidade de deixarmos de trazer a Língua tão remendada. E não há, nestes tempos dominados pela tecnologia, que deixa o saber à distância de um “click” no computador, razões extraordinárias para que o Português continue a ser vilipendiado.

No passado, dependemos dos livros físicos ou de quem os tivesse, geralmente, a figura do professor/educador/padre, que intermediava a transmissão de conhecimentos. Como ontem, o processo tem na base a alfabetização e a literacia. Começamos por juntar as letras e vemos, depois, alargados os procedimentos, de forma gradativa, até lermos e percebermos textos mais complexos. Quanto mais cedo tivermos contacto com os livros, mais rapidamente deixamos as trevas. E, hoje, é preciso que sejamos, também, autodidactas, se nos quisermos cultivar. Para tanto, basta gastar com pesquisa e leitura algum do tempo que dedicamos a esbanjar “likes” nas Redes Sociais. Se não for assim, jamais deixaremos de ter na Língua causa para vergonha, sobretudo nós, que a usamos como instrumento de trabalho. Ler é, definitivamente, a única via para alguma proficiência na escrita. Não há atalho possível. De outra forma, é encontrar satisfação na agramaticalidade.

Entre nós, o uso tosco do Português no dia-a-dia é um problema transversal a todos os grupos profissionais, à maioria das instituições e às pessoas. O assunto merece uma resposta à medida da gravidade que encerra. De contrário, prevalece o risco de vermos entidades, sobretudo públicas, terem a integridade e a responsabilidade questionadas, devido a actos desleixados ou a atitudes de negligência para com o Idioma. Aliás, a Internet, nas mais variadas Redes Sociais e plataformas, faz, amiúde, circular papelada produzida em instituições públicas, nas quais a Língua Portuguesa sai muito maltratada. São vazamentos que empoeiram o perfil de entes e organismos que se pretendem impolutos.

Há, entretanto, formas de prevenir a inadequada utilização da Língua, nas instituições, em particular. A primeira pode ser a opção por quadros de comprovada qualidade; para o caso, de reconhecida competência linguística e comunicativa. É verdade que se trata de uma alternativa muito difícil de atender, à luz do contexto de enorme debilidade sob o qual corre o processo de ensino e aprendizagem no país. Mas é uma solução possível, se o recrutamento obedecer a critérios rigorosos e não se circunscrever a recomendações sustentadas numa qualquer outra natureza de confiança que não inclua a profissional. Há muito tempo que esta devia ser, aliás, a forma habitual de actuar.

Por outro lado, há o recurso à contratação de especialistas em Português, que, em situações oportunas e concretas, ajudem a conferir à redacção final a perfeição que se impõe. É assim que se faz em muitos lugares do mundo. Mesmo as áreas do conhecimento que têm relações mais estreitas com a língua, como o Direito, recebem o suporte da especialização no Idioma. É um procedimento necessário também do ponto de vista estético, além da prova de que a auto-suficiência é ilusão.

Já há muito passou o tempo de se conferir a devida importância à Língua, não apenas como veículo de comunicação e meio de expressão, mas também enquanto reflexo da imagem de quem a usa.

Somos todos conhecedores da deficiente qualidade escrita em documentos, alguns dos quais passam na TV e saem no jornal. É verdade que a correcção, a palavra certa, é muitas vezes devorada pelo uso, pelo sussurro dos falantes, mas há contextos nos quais deve prevalecer a norma vigente.

“Os erros jamais serão varridos da face da terra”, postula o escritor. Mas sempre estaremos em condições de os banir dos nossos escritos e assim torná-los mais permeáveis à comunicação. A nossa criatividade de nada servirá, se estiver ao serviço da deformação.

[Transcrição integral de artigo do “Jornal de Angola” de 10.05.20.
Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Imagem da bandeira de Angola: Wikipedia. Fotografia de autoria desconhecida (ver um dos ‘posts’ anteriores). Logótipo da  EPL – Escola Portuguesa de Luanda: Facebook.]

“Circulatura do Quadrado” – TVI, 06.05.20

Círculatura do Quadrado – TVI

Espaço de debate onde Jorge Coelho, Pacheco Pereira e Lobo Xavier discutem, semanalmente, os temas políticos actuais da actualidade.

Programa de 6 de Maio de 2020. Extractos da gravação. Pacheco Pereira introduz a crónica publicada no “Público” Também alguns comentários de espectadores/leitores no site original do jornal; edição em papel (online) AQUI

 

(AO43/90) O AO43/90 é filho da ignorância e da corrupção. A ganância dos editores sempre se baseou nestes dois parâmetros. A defender o Aborto Ortográfico temos os que vendem dicionários, gramáticas, prontuários ortográficos, correctores ortográficos, sintetizadores de voz, etc. Comum aos dois países, temos os editores, especialmente os ligados aos livros escolares, Leya, Porto Editora no lado de cá e no planeta o grande gigante mundial a Microsoft que vendeu milhões de novas edições de todos os programas que têm correcção ortográfica. Os restantes têm apenas prejuízo, mas factores ligados à ignorância e à vaidade não os deixam ver mais longe. Em resposta à utopia da ortografia única, consultemos “Nova Gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e Lindley Cintra, de 1984, pág.74:

O jornalista Nuno Pacheco, nas páginas deste jornal, tem informado os seus leitores das aberrações do AO. Alguns exemplos apresentados são verdadeiramente hilariantes e custa a crer que profissionais do ofício da Língua, como Malaca Casteleiro, tenham alinhado nisto, indo ao ponto de edificarem dicionários segundo o novo AO.Nunca o utilizei e, com toda a franqueza, digo que prefiro ler em português do Brasil do que o português do AO.

Como professor de inglês e alemão durante mais de quarenta anos, nunca notei que uma língua demorasse mais a aprender do que a outra. Notei, sim, e costumava dizê-lo aos meus alunos, que o alemão era difícil no início – há aquelas regras gramaticais todas que é preciso interiorizar – e depois ia ficando mais fácil; ao passo que o inglês é ao contrário porque a gramática é simples mas à medida que avançamos vamos encontrando cada vez mais expressões idiomáticas e subtilezas semânticas. Leio com mais prazer em inglês do que em alemão, pesem embora grandes estilistas da língua alemã como Hermann Hesse. E isto, penso eu, pela maior flexibilidade e riqueza expressiva do inglês, resultante em parte de haver poucas regras gramaticais ou ortográficas.

Assino um único jornal nacional: o Público. E faço-o para poder ler um jornal redigido em português, e não em abortês ortográfico! Necessitamos de fazer alguma coisa, eficaz, contra o Aborto Ortográfico!…

Concordo inteiramente com este artigo e louvo a persistência e qualidade argumentativa do José Pacheco Pereira. Só um movimento muito forte poderá vencer a inércia política instalada e pôr cobro a este dito acordo aberrante, e quanto mais demorar mais difícil será revertê-lo.

Muito obrigada, Dr. Pacheco Pereira! Esperava ansiosamente que abordasse este assunto na sua crónica semanal! E constatei, com agrado, a sua insistência em introduzir o tema na última “Circulatura do Quadrado”. Porque é URGENTE gritar bem alto o que se mete pelos olhos dentro de quem sabe o que é uma LÍNGUA! E foi o silêncio conivente de tantos que deveriam sabê-lo – e dos ‘media’, com louváveis excepções, entre elas o “Público” – que tornou possível a imposição deste estúpido, débil e aberrante AO90, à revelia da nossa democracia, tão duramente conquistada. Professora reformada de Português (e Francês), conheço e combato o AO90 desde o início. Recolhi centenas de assinaturas para a ILC-AO e ouvi as inúmeras queixas dos nossos compatriotas! Leiam o AO90, e pensem, se são capazes disso!

5 de Maio: dia mundial da língua brasileira

O texto que se segue NÃO É, ao contrário do habitual, uma reprodução para efeitos de constituição e repositório de acervo sobre o AO90. Apesar de a base do texto citado ser a publicada no jornal, a versão aqui vertida é a (minha) interpretação factual e política deste folheto propagandístico, mais uma manobra de contra-informação e de intoxicação da opinião pública sobre a inacreditável farsa com que hoje em dia se designa a língua brasileira veiculada pelo “acordo”, rebaptizado como “Língua Portuguesa” — uma palhaçada nojenta.


UNESCO oficializa o 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasleira

Sérgio C. Andrade

publico.pt, 05.05.20


A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) ratificou esta segunda-feira de manhã, em Paris, o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasileira.

A oficialização foi assinada na sede da organização, na capital francesa, por uma delegação portuguesa composta pelo primeiro-ministro António Costa, pela ministra da Cultura Graça Fonseca, pela secretária de Estado das Comunidades Portuguesas Berta Nunes, e pelo Embaixador de Portugal na UNESCO António Sampaio da Nóvoa.

A ratificação pela UNESCO do 5 de Maio como o dia oficial da língua portuguesa brsileira “é um passo muito importante para o reconhecimento global desta língua que é falada oficialmente em nove países, quatro continentes, e é a quinta mais utilizada no espaço da internet”, disse António Costa aos jornalistas, em Paris, citado pela Lusa. À RTP, o primeiro-ministro lembrou também que o Português brasileiro é “a língua oficial de 260 milhões de pessoas, e a mais falada no hemisfério Sul”. E realçou ainda que a língua portuguesa brasileira vai ter “um forte crescimento”, prevendo-se que, no “final do século, serão 500 milhões” a falá-la, tornando-a uma “língua cada vez mais global”. É, por essa razão, uma “prioridade fundamental na nossa política externa”, acrescentou António Costa.

Antes da promulgação final do Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasileira pela 40.ª Conferência Geral da UNESCO, o governante português visitou a sede da instituição, reunindo-se com a sua directora, Audrey Azoulay, e com os embaixadores dos países da CPLP. Aos jornalistas, António Costa notou ainda que este reconhecimento constitui “um passo importante” para tornar o Português brasileiro uma das línguas de trabalho da Organização das Nações Unidas.

Questionado sobre a polémica em volta do Acordo Ortográfico, o primeiro-ministro reconheceu que o Português permite diferentes grafias e que a língua não pertence a Portugal. “Essa é uma questão que os Estados têm debatido: as línguas não são só escritas, têm também uma dimensão falada. O Português tem uma característica importante, tem-se sabido adaptar a diferentes territórios onde tem evoluído. Hoje é uma língua que pertence a muito mais pessoas no Mundo do que só a nós portugueses, e isso traduz-se em formas diversas de escrever”, concluiu o primeiro-ministro, citado Lusa.

O acto desta segunda-feira na UNESCO vem oficializar uma decisão já tomada no mês de Outubro, quando todos os países lusófonos apresentaram esta proposta à organização das Nações Unidas. Tomada por unanimidade pelos países da CPLP, a proposta acabou por contar também com o apoio de 24 outros países, entre os quais o Luxemburgo, a Geórgia, a Argentina, o Chile e o Uruguai. É a primeira vez que uma língua nāo-oficial da UNESCO vê declarado um dia mundial.

Não é ainda conhecido o programa, mas, quando da decisão de Outubro, António Sampaio da Nóvoa antecipou à Lusa que o dia 5 de Maio de 2020 seria assinalado em Paris com um vasto leque de iniciativas “relacionadas com a arte, a literatura e música”.

Optimismo e reservas

Ouvido pelo PÚBLICO, o professor universitário António M. Feijó não acredita que o título da UNESCO venha trazer algum ganho significativo para a afirmação da língua portuguesa brasileira. “Como é habitual nestas ocasiões, o país entra em autocongratulação, mas isso é um bocado vazio, nada decorre dela”, diz o também presidente do Concelho Geral Independente (CGI) da RTP. “Se os poderes públicos quiserem levar a defesa da língua portuguesa a sério, então têm de o demonstrar no orçamento para a educação e a cultura, apostando num aumento efectivo das verbas nesse domínio”, acrescenta Feijó.

Perspectiva diferente é a do professor e teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva, que vê na decisão da UNESCO “um motivo de orgulho para Portugal” e um desafio a “construir o futuro em comunhão com os países que têm como língua oficial a materna língua portuguesa, sobretudo o Brasil e Angola”, recordando serem “dois pilares fundamentais do universo” da nossa língua.

O autor de Teoria da Literatura diz que o Português – “independentemente das estatísticas, que em países como Angola, Moçambique e mesmo no Brasil nem sempre batem certo” – é “realmente uma das grandes línguas do mundo, uma das grandes línguas de comunicação e de construção de cultura, de ciência e de tecnologia”. E que a criação de um dia oficial por parte da UNESCO vem agora conferir-lhe “um prestígio acrescido”.

Vítor Aguiar e Silva está confiante em que os diferentes países irão dar a esta iniciativa “uma concretização extremamente relevante”, não deixando também de pensar na diáspora e na língua de comunicação dos milhões de portugueses espalhados pelo mundo. E acredita que a polémica que se vive em volta do Acordo Ortográfico não virá afectar essa celebração. “O importante não é atender às diferenças, mas àquilo que nos une, que é mais profundo do que o que nos desune”, diz o professor e investigador, lembrando que “a língua é liberdade, e é dentro desse conceito e da maneira de ser e de estar dos países que falam e escrevem a língua portuguesa brasileira que temos de perspectivar o futuro”.

Notícia actualizada com a posição de Vítor Aguiar e Silva.

 

[“Links” (a verde), destaques, sublinhados e comentários meus.]

‘O Estado a que isto chegou’

Meus senhores, como todos sabem, há diversos tipos de Estado: o Estado social, o Estado corporativo, o Estado socialista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou!
Salgueiro Maia, capitão, 25 de Abril de 1974

 

A língua portuguesa resiste bem, mas urge acabar com o estado a que ela chegou

Nuno Pacheco, publico.pt 30.04.20

 

Mesmo confinados, não nos faltam datas para comemorar. Primeiro foi a Páscoa, depois o 25 de Abril, na sexta-feira será o 1.º de Maio, domingo o Dia da Mãe e na próxima terça-feira, dia 5, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, essa outra mãe que nos calhou. Como de costume, vão tecer-se louvores ao Camões (não a Luís Vaz, mas àquele que despudoradamente usa o seu nome), brandir-se mapas e números, organizar-se saraus e discursos, agora forçosamente virtuais.

Mas nada disso pode ocultar algo que não é propriamente penúria, até porque a língua vai resistindo a tudo (fome, privações, maus tratos) e há por aí muita gente de todas as idades a falá-la e a escrevê-la com conhecimento, criatividade e brio; mas é um estado de ignorância e desleixo, muito pouco saudável, que a vai apoucando e corroendo até roçar o analfabetismo.

Nos mais diferentes meios (jornais, revistas, televisão, livros, Internet), a aplicação acéfala do chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) continua a dar coisas como (e todas elas estão documentadas, com origens e datas) “artefatos” por artefactos, “estupefato” por estupefacto, “impato” por impacto, “impatante” por impactante, “pato” por pacto, “ojetivo” por objectivo, “corruto” por corrupto, “convição por convicção, “execto”, “excepo” e “exeto” por excepto, “exeção” ou “excessão” por excepção, “inteletual” por intelectual (a mais recente prova desta imbecilidade foi estampada no oficialíssimo Diário da República n.º 72/2020, Série II de 13/4/2020, no Aviso n.º 6075/2020), para já não falar na aplicação a Portugal, contra as indicações do próprio AO90, da norma escrita brasileira, escrevendo-se e até dizendo-se “fato” por facto, “contato” por contacto, “seção” por secção ou “conosco” por connosco, isto apesar de a rubrica Bom Português da RTP garantir que é “connosco” que se escreve em Portugal.

Se bem se lembram, o AO90 gabava-se de conseguir “unificar ortograficamente cerca de 98% do vocabulário geral da língua”, segundo a nota explicativa que o acompanhava. Só que tal frase ignorava um pequeno pormenor: mesmo que fosse possível unificá-lo graficamente, o vocabulário difere no uso e no sentido não só em Portugal e no Brasil (onde as diferenças neste campo são enormes) mas também nos países que começaram a moldar a língua ao seu jeito. Se a unificação ortográfica é, já de si, uma quimera retrógrada – porque línguas como o inglês, o francês ou o espanhol admitem tantas variantes ortográficas nacionais quantos os países que as usam –, a unificação vocabular é uma tolice sem nexo. Nisto, o brasileiro Evanildo Bechara, um dos bonzos do AO90, foi claro, numa entrevista que deu ao Expresso em 2012. Disse ele: “Não tem sentido uniformizarmos o vocabulário comum e os portugueses chamarem à capital da Rússia Moscovo e o Brasil chamar Moscou.” Mas chamam e escrevem, ainda hoje. Ao mesmo tempo, Bechara disse este disparate: “Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma.”

Não, não é a mesma, há o facto-fato, bebé-bebê, contacto-contato, amnistia-anistia, secção-seção, libertar-liberar, casino-cassino, registo-registro, planear-planejar, além das mil e uma palavras que no Brasil e em Portugal querem dizer coisas diferentes. Isso chama-se evolução. A língua foi crescendo e modificando-se consoante a cultura dos seus utilizadores. Ora isto, em lugar de ser usado como trunfo e sinal de riqueza, é aplainado por um capricho retrógrado e infame. Sim, podíamos estar a celebrar o facto, historicamente merecido, de termos neste Dia Mundial da Língua Portuguesa oito variantes vocabulares e ortográficas, que juntas fariam ainda mais forte o idioma no seu todo. Porém, na miséria que nos coube, vamos passar esse dia a ouvir discursos inflamados e a ler novos erros fomentados por um acordo que se transformou numa descabelada caça às consoantes. Seguindo a sugestão de “escrever como se fala”, ainda iremos ler “runiões”, “tamos”, “competividade”, “óvio”, “curdenação”, “mnistro” ou “custume”. É só esperar.

Na madrugada do 25 de Abril de 1974 houve um discurso decisivo para conquistar as tropas em Santarém. Foi feito por Salgueiro Maia e ele resumiu-o assim no seu livro Capitão de Abril (Editorial Notícias, 1997, pág. 87): “Declarei que havia várias modalidades de Estados: os liberais, os sociais-democratas, os socialistas, etc., mas nenhum pior do que o Estado a que chegáramos, pelo que urgia acabar com ele.” Pois também na língua portuguesa, espalhada por vários Estados e neles enraizada, há o estado indecoroso a que chegámos. Acabemos com ele.

Aliás, há um precedente vindo de dentro. Quando se acede ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e se tenta entrar no dito Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), recebe-se esta mensagem de alarme: “Este site não é seguro. Isto poderá significar que alguém está a tentar enganá-lo ou a roubar qualquer informação que envie para o servidor. Deve fechar este site imediatamente.” É isso, fechem-no. E festejemos a rica diversidade desta língua que nos é comum.

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). (“livro de estilo”) ]

[Destaques, sublinhados, citações e “links” acrescentados por mim. Imagem de topo de:  Turismo de Portugal.]

 

Uma língua Vital

Um “diálogo” muito interessante em que ambos os “contendores”, entrincheirados nas respectivas valas comuns, tentam convencer os demais com a superioridade dos “argumentos” de cada qual e da total ausência de méritos de qualquer deles. No fundo, trata-se de um (educadíssimo, polidíssimo, extremamente alfacinha) diálogo em forma de sporting-benfiquismo, ou seja , segundo a inamovível “lógica” futebolística que infalivelmente postula que “o meu clube é melhor do que o teu porque o meu é meu é o teu não é o meu”.

Talvez isto fosse pasto para psiquiatras. maná para bruxos e adivinhos e outros mecânicos da caixa dos martelos, mas decerto as respectivas operações (leucotomias, por exemplo) iriam revelar-se de uma complexidade escusada; mais vale a abordagem céptico-cínica das pessoas normais, por conseguinte.

Em termos de sinopse, e mesmo dando de barato os já algo mofados antecedentes. o que temos aqui é Vital, um ex-comunista — aflito para que se não confunda o que agora julga com a posição oficial dos comunistas portugueses –, a mandar bocas (isto é, a mentir com quantos dentes ainda tem na boca) a um anti-acordista especializado em minudências (listas enormes de palavras) sem jamais referir o essencial (que não existe “ortografia” no Brasil, que brasileiro é uma coisa e Português é algo completamente diferente): primeiro, o comunista — pobre diabo — chama “sebastianista” ao outro, ao que este, zangadíssimo, retruca umas diatribes tremendas num ralhete de meter medo a qualquer criança. Agora, e ameaçando desde já ambos que muito provavelmente isto não fica assim, Vital ataca de novo com igual soma de meias-verdades, mentirolas, invenções e puras patranhas. Na sua lisboeta cabecinha pensadora, o livre-pensador acha perfeitamente normal enfiar o barrete mais descabelado ao mais circunspecto e sisudo cidadão. Foi este, aliás, o princípio basilar que o comunista adoptou para si mesmo: enfiar o barrete e, já que está enfiado, defendê-lo com unhas e dentes — é meu, o garruço é meu, ninguém mo tira — a ver se consegue, à falta de melhor, já que não convence ninguém, ao menos convencer-se a si mesmo.

Talvez um dia, de tanto se agarrar ao barrete, Vital acredite nele.

 


1. Vital ataca Francisco

Pobre Língua (15): Sebastianismo ortográfico

Publicado por Vital Moreira.
“Blog” Causa Nossa, sexta-feira, 17 de abril de 2020

 

1. Confesso que não deixo de admirar a pequena tribu de opositores ao Acordo Ortográfico, os quais, passados mais de dez anos sobre a sua vigência e a sua aplicação generalizada – o que o torna irreversivel -, continuam a pugnar pelo regresso à antiga ortografia, com a mesma convicção com que os sebastianistas esperavam o regresso de D. Sebastião.
O caso é tanto mais de admirar, quanto eles insistem sem desfalecimento num pequeno menu de argumentos, em geral de uma enorme fragilidade, como se deduz de mais uma peça de um dos seus mais empenhados ativistas, Nuno Pacheco, ontem no Público, um dos poucos periódicos que se mantém fiel à antiga ortografia.

2. O argumento tem a ver desta vez com a grafia dos termos infetar e derivados (infeção, infetado, etc.) no Português europeu, depois do Acordo, quando no Brasil – que também subscreveu o Acordo (e noutros países de Língua Portuguesa que o não ratificaram ainda) – os mesmos termos se escrevem com um adicional (infectar, infecção, etc.).
O que o autor não diz, propositadamente para criar a confusão, é que no Brasil essas palavras se escrevem com o tal c porque assim se pronunciam, sendo esse um dos vários casos da diferença de pronúncia das mesmas palavras nos dois lados do Atlântico (facto e fato, contacto e contato, perceção e percepção, etc.).
Ora, uma das mais-valias do Acordo Ortográfico, sem prejuízo da tendencial uniformização da ortografia, consiste justamente em assinalar essas diferenças incontornáveis entre as duas versões da Língua. A ortografia não deve servir para esconder artificialmente reais diferenças de dicção, nem a Língua comum ganha nada com isso.

3. O mesmo se diga do facto de várias outras línguas (Castelhano, Francês, Inglês, etc.) usarem igualmente o dito c nas palavras correspondentes: só que também em todas elas o c é pronunciado. Curiosamente, o autor regista o caso italiano, que não usa o dito c, escrevendo-se infezione, infettare, infetto, justamente porque é assim que se pronunciam. Ou seja, nos exemplos do autor, o tal c escreve-se lá onde se pronuncia, mas não onde não se pronuncia – o que, portanto, não abona a sua tese
Outra das vantagens do Acordo está justamente em registar para os estudantes estrangeiros as diferenças fonéticas e gráficas entre Português europeu e outras línguas próximas. Já se imaginou o problema de um aluno estrangeiro de Português, em Portugal, ao pronunciar a palavra infetar, se ela se escrevesse com c, como querem os sebastianistas ortográficos? Ou, já agora, as palavras ativo, respetivo, efetivo, etc., se escritas com c, à moda antiga, julgando que elas se leem da mesma maneira que na sua própria língua?
Na verdade, ao eliminar esse e outros arcaísmos da ortografia portuguesa, o Acordo Ortográfico também veio facilitar a aprendizagem do português europeu pelos estrangeiros que estudam a nossa Língua.

 


2. Francisco responde a Vital

«Não conheço o artigo científico que serve de base a esta afirmação peremptória e grave do ex-eurodeputado. Fico a aguardar, serenamente, as referências de Vital Moreira. Obviamente, esperarei sentado.» [Francisco Miguel Valada, publico.pt 21.04.20]


3. Vital fica chateado com a resposta de Francisco

Uma língua, uma ortografia

Vital Moreira, publico.pt, 22.04.20

 

Não existe nenhuma razão lógica para que uma mesma língua mantenha tantas divergências ortográficas

 

Desde a sua assinatura em 1990, sou apoiante declarado do acordo ortográfico para unificar tanto quanto possível a língua portuguesa escrita, eliminando as discrepâncias entre a norma europeia (e africana) e a norma brasileira. E também nunca entendi bem as razões pelas quais Portugal, que ratificou o acordo logo em 1991, não fez depois nada para conseguir a ratificação dos Estados que o não fizeram, nem as que agora justificam uma “moratória” de dez anos para a sua efectiva entrada em vigor.