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Mal parido

caixa do engraxador

Para variar, por excepção, um artigo da imprensa regional. E este, em particular, com a evidente vantagem de o seu autor já ter armado em acordista (devia ser na altura um rapazote, estava a crescer, são as ilusões da juventude) e de ter por fim acordado para a vida.

Além dessa transitória e felizmente já terminada ebulição juvenil, este regional autor apresenta uma consistência argumentativa absolutamente telegráfica, atendo-se apenas às mais elementares ilustrações daquilo que no essencial é e em que consiste o aleijão ortográfico — ou seja, em suma, a escrita brasileira que Portugal “adotou” por bovinidade intrínseca e por puro “puxa-saquismo”, engraxar brasileiros.

Parar ou parir

Eu paro, tu paras, ele para.

04-06-2020 – FRANCISCO MARTINS DA SILVA
“Jornal  Oeste online”

Que português é este? “Eu paro”, ainda vá, quer dizer que estou neste momento a parir (com esforço, este texto). Mas, e “paras”, que palavra é esta? De onde vem? E o que quer dizer “tu paras”? E “ele para”? Para onde, para quê? Como pode ser “ele para” uma forma verbal? Se formos ao presente do conjuntivo, que eu pare, que tu pares, que ele pare, continuamos a falar de parir e não de parar. Eliminando o acento agudo, diferencial para estas palavras homógrafas, amputou-se o verbo ‘parar’ de algumas das suas mais comuns conjugações.

O inadjectivável Acordo Ortográfico de 1990 está cheio de absurdos caricatos e risíveis como este, transformando a nossa amada língua num anedotário de confusão. Ao substituir o primado da etimologia por indeterminada tradição de pronúncia culta, eliminou-se a esmo hífens, acentos, consoantes mudas, maiúsculas, et cetera.

Mas que tradição oral culta vem a ser esta? Onde é tradicional dizer que estou a parir quando quero dizer que estou a parar?

Inicialmente, pareceu-me uma boa ideia, harmonizar o português de toda a Lusofonia, para facilitar o entendimento entre os povos e agilizar o vasto mercado editorial em português, havendo o compromisso de se ir aperfeiçoando e corrigindo o Acordo. Passados tantos anos, é evidente que estes objectivos não serão atingidos. Nem se percebe, hoje, a óptica dos acordistasótica, segundo eles, passando-se a confundir visão e audição. Quanto à harmonização da língua, só piorou: com o primado da pronúncia e as duplas grafias criou-se um labirinto babélico.

Reina o caos ortográfico e grande número de publicações rejeitam o Acordo. À excepção de Portugal e do Brasil, e cada um à sua maneira, os outros países de língua portuguesa ignoram-no. E em Portugal, nem nos documentos oficiais o conseguem cumprir correctamente. Quanto ao aperfeiçoamento, a lógica linguística, nas suas várias especialidades (fonética, morfologia, sintaxe, semântica, lexicologia, pragmática, entre outras), foi de tal modo estilhaçada que não há emenda possível.

Como exemplifica o autor e revisor linguístico Manuel Monteiro, no seu imprescindível livro Por Amor à Língua (Objectiva, 2018), com inúmeras estranhas novas palavras como “corréu”, em vez de co-réu, ou “cocomandante”, em vez de co-comandante, ou “arquiteta” (a maior teta?, a teta mais importante?, será homenagem à arquiteta do Estado na qual também mamaram os acordistas?), havia, nos vários países lusófonos, 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes; havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais; e havia 1235 palavras iguais que se tornaram diferentes. Portanto, o desacordo é mais do dobro do Acordo.

Resta ultrapassar a casmurrice e voltar à norma etimológica que ainda norteou o Acordo de 1945, com as alterações introduzidas em 1971 relativas a alguns acentos que marcavam a sílaba subtónica nas palavras derivadas com o sufixo mente ou iniciado por z (ex.: sòmente, terrívelmente, sózinho, cafézinho).

Como diz Nuno Pacheco, intrépido anti-acordista do jornal Público, o único acordo admissível é reconhecer as variantes nacionais e fixá-las como partes de um corpo comum, o da língua portuguesa.

[Transcrição integral. Artigo da autoria de FRANCISCO MARTINS DA SILVA publicado no “Jornal  Oeste online”. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo (caixa de engraxador) de: Sofia Mendes. Imagem de rodapé (escovas de crina para escovar sapatos) de: “Como Limpar“.]

Chique chiqueiro

Chique, chicana, chiqueiro, ou os ecos de uma saraivada ortográfica

Nuno Pacheco, 28 de Maio de 2020

 

Já o Dia Mundial da Língua Portuguesa ia longe, entendeu o arquitecto Saraiva preencher a sua “Política a Sério” e ao Sol com esta extraordinária tese: “É chique dizer mal do Acordo”. O que o animou a pegar no assunto? Coisas que ele não percebe e outras que lhe dão vontade de rir. Não percebe, afirma, “o encarniçamento de algumas pessoas contra o Acordo” (o Ortográfico, convém esclarecer), pessoas que ainda por cima falam dele “como se fossem especialistas da Língua”; e dá-lhe “vontade de rir quando certas pessoas que não conseguem escrever duas frases seguidas se põem a criticar o Acordo com ar superior”. Ainda se ri mais quando lê no fim de certos textos de alguns colunistas esta nota “profundamente ridícula”: “Este artigo não respeita as regras do Acordo Ortográfico”. “Devem achar que é chique. Que os faz entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto”, conclui Saraiva.Num curto parêntese, convém dizer que esse problema não afecta jornais como o Sol, onde colunistas que, sendo publicamente contra o Acordo Ortográfico e recusando-o na sua escrita corrente (como António Bagão Félix ou Guilherme Valente), são “traduzidos” para “acordês” sem qualquer nota. Talvez por ser ridícula uma nota a dizer: “Este artigo foi ortograficamente alterado contra a prática dos seus autores.” Do mesmo mal padecem o Jornal de Letras (onde os opositores ao Acordo aparecem sempre “traduzidos”) ou o Expresso, que, no entanto, abre escassas excepções a seguidores da “antiga ortografia” — Saraiva há-de achar que cronistas como Miguel Sousa Tavares ou Pedro Mexia são dois “chiques” que anseiam, com tal aviso, “entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto.”

O problema é que Saraiva, que manifestamente não percebe mesmo nada deste assunto, não se fica por curtas graças solares. Também adora retirar delas alguma moral. E conta uma história que, garante, se terá passado com o seu pai, o historiador António José Saraiva (1917-1993). Diz Saraiva filho, o arquitecto, que quando “começaram a ser conhecidos os termos do Acordo Ortográfico, com muita gente a ridicularizá-lo”, decidiu visitar Saraiva pai. “Fui a sua casa e perguntei-lhe o que achava do assunto — certo de que arrasaria o Acordo.” Ou seja, certo de que o pai seria um dos “chiques”. Mas a resposta espantou-o — e aqui é o filho a falar pelo pai, valendo o que vale: “Oh Zé, o mais importante é que os portugueses e os brasileiros façam um esforço de entendimento para que as duas escritas não divirjam muito. Agora, escrever uma palavra assim ou assado não tem importância nenhuma.” Espanto do filho: “Foi para mim uma lição.”

Pois se foi, ficou por aí. Recuando uns aninhos, quando se discutia a insana proposta de Acordo de 1986, que antecedeu o actual, escreveu o arquitecto num editorial do Expresso, de que era então director, em 24 de Maio desse ano: “Se as modificações acordadas no Rio de Janeiro há quinze dias forem ratificadas, o português escrito será quase uma nova língua.” Crítica? De modo algum. Mas resignação: “Portugal terá pois de se sujeitar, substancialmente, à ortografia do português tal como se escreve hoje no Brasil e à evolução que ele for tendo neste país.” E em Junho concluía: “Para que o português escrito aqui e no Brasil seja igual é necessário que Portugal passe a fazer regularmente também modificações… que, muito provavelmente, afastarão cada vez mais a nossa ortografia do modo como pronunciamos a língua”. Acertou. Porque a fala tem vindo a alterar-se devido aos artificialismos impostos à ortografia.

Agora, no texto do Sol, afiança que não se pode dizer que este é um “acordo falhado”, porque “os dois maiores países da CPLP, Portugal e Brasil, assinaram-no, e este era o objetivo [sic] principal: que os outros o adotem [sic] ou não, é um problema deles.” Os dois maiores países da CPLP, foi o que disse? Em influência? Em área geográfica? Em número de habitantes? Em rendimentos? Más contas, para um arquitecto. Mas certas, no raciocínio dos autores da coisa, e aqui ele também acertou: o Acordo é, na verdade, uma manigância luso-brasileira mascarada de multinacional. Na matrioska ortográfica imaginada (e aceite) por Saraiva há um bojudo Brasil que encaixa um menos anafado Portugal, dentro do qual se enfiariam, sempre por submissão ao primeiro, os “irrelevantes” países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e o longínquo Timor-Leste. “Adotem [sic] ou não, é um problema deles.”

Mas não era problema nosso? Não era para unificar a ortografia toda? Era. E é por isso que está mais dividida; que no Brasil se escreve “aspecto”, “infecção” e “recepção”, como dantes, e que em Portugal passou a escrever-se “aspeto”, “infeção” e “receção”; que nos correctores do Word continua a haver duas variantes ortográficas, a de Portugal e a do Brasil, sem espaço para mais. Não é como estávamos? Só na aparência. Porque é pior, muito pior. Agora lemos títulos inimagináveis como este (dia 26, online no Expresso, jornal que Saraiva já dirigiu): “Covid-19: BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos [sic] da economia.” Passando o chique, o Acordo já foi chicana e agora é um chiqueiro. Só que nada nos obriga a viver nele.

Nuno Pacheco

[Os destaques, sublinhados e “links” (a verde) são meus.]

«Fora-da-lei» [“Público” 20.05.20]

O Acordo Ortográfico e o fora-da-lei

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

“Sou assumidamente um fora-da-lei, passei a ser um autor clandestino. Sou também um analfabeto porque me recuso terminantemente a cumprir um acordo ortográfico imbecil que assassinou o meu português. Sinto-me chocado e de luto pela língua portuguesa, mas comigo sei que tenho milhões que também não compreendem aquilo que aconteceu. Nenhuma língua pode ser alterada e imposta por decreto, cerceando a nossa liberdade e inteligência.”
Pedro Barroso, músico, compositor e professor

Em época de pandemia, em estado de calamidade, para combater as agruras do isolamento, e durante o pouco tempo livre que o ensino a distância permite, a literatura tem sido uma opção imperiosa. E como professor de Português mantenho, sem tréguas, a inquietação que este Acordo Ortográfico trouxe para o meu quotidiano escolar. Um Acordo Ortográfico que levianamente decidiu pela desvalorização da etimologia, fomentando sucessivos equívocos, e que se fez acompanhar de uma Nota Explicativa, incompreensível nas suas justificações e opções, irracionais e incongruentes.

Enquanto professor experiente o que mais me choca na referida Nota é a justificação, porventura a mais risível de todo o texto, em que os mentores da nova ortografia demonstram a sua enorme preocupação e infinito desvelo para com as pobres crianças que têm o português como língua materna. Ressalte-se ainda a circunstância de esta aberração ser desconhecida de grande número de acordistas, pensando muitos deles tratar-se de uma anedota:

De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.

Perante isto, só podemos concluir que os redactores do AO90 têm em muita pouca conta as capacidades das “crianças” lusófonas, apetecendo-nos perguntar como é que as outras crianças que usam outras línguas conseguem memorizar todos os grafemas não articulados e as diferentes representações gráficas para o mesmo som? Por exemplo, no francês, com a palavra brouillé [bʀuje] que apresenta oito grafemas e cinco fonemas ou no inglês, com knowledge [ˈnɒlɪdʒ] que apresenta também uma diferença substancial entre grafemas e fonemas. Como é que essas crianças conseguem?

Na perspectiva dos autores do AO 90, a memória já será bem utilizada num conjunto de adivinhas com que os alunos se deparam actualmente, seja por exemplo com a omissão das consoantes ditas mudas (c e p) ou com o hífen. É a língua, sem lógica, na base da incoerência do critério acientífico da pronúncia privilegiado pelos catequistas da nova ortografia:

— epiléptico e epilepsia, só uma destas palavras tem p. Qual será?

— ortóptico e óptico, só uma delas tem p. Qual será?

— bissectriz e trissectriz, só uma delas tem c. Qual será?

— Egipto e egípcio, só uma das duas tem p. Qual será?

— lácteo e lacticínio, só uma delas tem c. Qual será?

— infecção e infeccioso, só uma delas tem c. Qual será?

— cor-de-rosa e cor-de-laranja, só uma das duas tem hífen. Qual será?

— manda-chuva e guarda-chuva, só uma delas tem hífen. Qual será?

— pé-de-cabra e pé-de-meia, só uma delas tem hífen. Qual será?

A todas estas questões, poderá sempre acrescentar outra: porquê? Pode ainda adicionar mais uma: que ferramenta posso consultar para me assegurar que estou a cumprir escrupulosamente o acordo? Não faça perguntas difíceis, caro leitor.

Cada fonte consultada pode usar a sua versão do AO90. Se reparar, o jornal Correio da Manhã, o Expresso ou o jornal Record utilizam o acento na forma verbal pára, ao contrário do que estipula o texto do AO90. Há um ou dois dias, a propósito de manifestações pró-Bolsonaro, li num cartaz, num noticiário televisivo: “Ninguém para a juventude do Brasil!” O que significa isto? Como se lê isto?

Outro embuste recorrente é o de que as alterações ortográficas não teriam interferência na pronúncia. Nada mais falso! Temos, com regularidade, apresentado palavras acordizadas e solicitado a grupos de alunos que as pronunciem. Por exemplo, na palavra conceção (concepção em português vernáculo), 92,4% pronunciaram o e como se fosse uma vogal fechada [kõsəˈsɐ̃w̃] e apenas 7,6% pronunciaram [kõsɛˈsɐ̃w̃], com a dita vogal aberta. Números semelhantes ocorreram com as palavras invetiva e recetação.

Para quem duvida do caos que este AO trouxe, refira-se a utilização do hífen na locução substantiva “mão-de-obra”. Tem ou não hífen, agora com o AO90? Se consultar o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) não verá quaisquer vestígios dos dois hífenes, mas se, por exemplo, preferir pesquisar noutra ferramenta, na página da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, encontrará os ditos hífenes. E na imprensa? No Jornal de Notícias predominam as ocorrências sem hífen; no Diário de Notícias, no Jornal de Negócios e no I predominam as formas com os dois hífenes; no Observador e no Sol coexistem em número aproximado as duas formas. Caso idêntico se passa com “fora-da-lei”, evidenciando a salgalhada que por aí campeia. Consulte-se regularmente os órgãos de imprensa e ver-se-á repetidamente a oscilação entre as formas com ou sem hífen.

Mais uma dupla grafia em perspectiva?

Para quem continua a duvidar do caos ortográfico que se instalou no último decénio, contabilize-se, calmamente sentado, a profusão de fatos, contatos, artefatos e impatos que aparecem quotidianamente na comunicação social, nas legendas televisivas, no Diário da República e em documentação variada (dos privados às instituições). É também crucial indicar qual a fonte acordizada que utilizamos na nossa pesquisa porque cada uma dessas fontes segue uma diferente versão do AO90, uma espécie de marxismo com cinco tendências (Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo).

Como cidadão, lutando contra a inércia, continuarei a ser obstinadamente um “fora-da-lei”; como professor darei conta aos meus alunos do sem sentido de um “fora da lei”, ainda que a sabedoria oficial os force a escrever assim.

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

[Destaques, sublinhados e “links” meus. João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20. Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Logótipo: Facebook.]

Erros de português

clickbahia.com.br, 12 de Maio

60 erros de Português que tiram a credibilidade de qualquer pessoa

André Carvalho


No marketing digital, especialmente no marketing de conteúdo, os textos são ferramentas necessárias.

E digo “ferramenta” no significado correto da palavra: o texto é um verdadeiro instrumento da estratégia, utilizado a fim de entregar conteúdo relevante às personas, educá-las e fidelizá-las.

Para que isso aconteça, é indispensável que o texto seja confiável.

A “receita” básica para um texto assim, nós já temos: é preciso fornecer um tema pertinente, um assunto no qual a persona realmente tenha interesse, uma reflexão ou dica valiosa, a resposta certa para uma dúvida ou a solução eficiente para um problema.

Mas o que muitos não percebem é que a relevância do texto não depende apenas do seu grau de informatividade.

Não adianta nada ter a saída perfeita para uma situação da sua persona se você não consegue se expressar com clareza, se não é capaz de se fazer entender perfeitamente. Por isso, o bom uso da língua é o maior aliado de um texto valioso.

E uma coisa é fato: na língua escrita, a norma culta é a variante de prestígio. Na prática, isso significa que um texto bem escrito é valorizado, ao passo que um texto cheio de errinhos e inconsistências pode fazer o leitor torcer o nariz e desconfiar das competências do autor.

Não ganhar a confiança do leitor é apenas a primeira consequência dos erros, e a segunda é ainda mais preocupante: é muito pouco possível que alguém compartilhe e ajude a propagar um texto criticável. Isso é péssimo para o marketing de conteúdo, certo?

Para ajudar você a evitar essa situação, elencamos neste post 60 erros de português capazes de tirar a credibilidade de qualquer texto. Continue lendo e aprenda a deixar seus conteúdos impecáveis!

Os erros ortográficos são aqueles que não respeitam a maneira correta de escrever as palavras. Podem ser considerados problemas de ortografia:

1. Erros de digitação

Eles acontecem quanto você troca uma letrinha de lugar, ou digita um caractere a mais ou a menos. Percebeu algum erro assim na frase anterior? Foi proposital, para você entender como a troca de uma letra parece inofensiva mas pode quebrar o fluxo de raciocínio e confundir quem está lendo.

“Quanto” e “quando” são duas palavras em que isso ocorre bastante, assim como construções que podem terminar tanto com s quanto com r: internar / internas, por exemplo.

2. Confusão entre fonemas parecidos

Existem mais sons na língua do que sinais gráficos para representá-los. Assim, o mesmo fonema pode ser grafado usando várias letras diferentes. É o caso do som de “s” em “sítio” e “caça”, de “z” em “casa” e “azeite”, de “j” em “jiboia” e em “viagem”.

Essa semelhança entre fonemas é o que nos faz escrever “traz” (verbo) em vez de “trás” (preposição), ou formar frases como “Maria não quiz saber do ebook de André”.

A boa notícia é que esses equívocos são fáceis de solucionar: basta ter um dicionário por perto (pode ser um online, claro) e realizar uma revisão atenta no final. Você pode pedir para alguém ajudar ou revisar sozinho.

Nesse último caso, espere um tempinho após escrever o texto, para “esfriar a cabeça” antes da releitura. Outra dica importantíssima é sempre passar o texto por um corretor automático.

Caso seu os erros de digitação estejam frequentes, o ideal é fazer um curso de digitação para aprender as melhores técnicas e melhorar a sua coordenação, assim reduzindo os erros.

A acentuação também se encaixa na categoria de ortografia, mas, como são muitos os erros desse tipo, teremos um tópico apenas para eles. Confira abaixo!

Erros de acentuação

Crase

A rigor, a “crase” é uma junção de letras idênticas. Na língua portuguesa, a principal forma de crase é a ligação da preposição “a” com a letra “a” (geralmente um artigo definido), simbolizada por um acento grave que indica essa união (por isso este tópico se encaixa nos erros de acentuação).

Veja abaixo alguns dos equívocos de crase mais cometidos:

3. Crase antes de palavras masculinas

Como mencionado acima, a principal ocorrência de crase no Português é a junção da preposição “a” com o artigo definido “a”, usado apenas antes de palavras femininas. Como as palavras masculinas são precedidas do artigo “o”, a junção com a preposição resulta em “ao”. Por isso falamos:

“Eles vão à empresa e depois ao evento de marketing”

São incorretos, portanto,  os usos “à rigor” e “à respeito”, por exemplo. Nesses casos, apenas a preposição é utilizada: “a rigor” e “a respeito”.

Mas, como em toda regra, há uma exceção: quando a expressão “à moda de” está escondida na sentença, podemos dizer, por exemplo: “bife à Osvaldo Aranha” ou “cantou a canção à Roberto Carlos”.

Nesses casos, o acento indicativo de crase é um grande aliado da desambiguação: se dissemos “cantou a canção a Roberto Carlos”, quer dizer que a pessoa cantou para o Rei, e não imitando-o.

4. Crase antes de demonstrativos

Outra exceção para a proibição do acento indicativo de crase com palavras masculinas é diante do demonstrativo “aquele”. Isso acontece porque a preposição “a” se junta à primeira letra do pronome, que é idêntica. Dessa forma, quando temos verbos ou expressões que exigem a preposição a + “aquele”, podemos dizer:

“o post fez referência àquele curso de marketing de conteúdo”.

Entretanto, alguns demonstrativos não começam com a letra “a” nem são acompanhados do artigo “a”. Por isso é errado utilizar a crase em frases como: “o post fez referência à essa cartilha”. Nesse caso, usamos apenas a preposição: “…fez referência a essa cartilha”.

5. Crase antes de palavras femininas no plural

Ok, já sabemos que a crase ocorre quando há junção da preposição “a” com o artigo “a”. Mas e quando a palavra seguinte está no plural?

Nesses casos, o correto é fazer a junção com o artigo no plural, naturalmente: a + as = às. Outra opção é utilizar somente a preposição. Mas é importante notar que essa escolha faz diferença no sentido da frase. Observe:

Quando dizemos “o post faz referência a cartilhas de segurança”, podem ser várias cartilhas, indeterminadas. Quando dizemos “o post faz referência às cartilhas de segurança”, são cartilhas específicas, que devem ser mencionadas em algum outro lugar do texto. As duas opções estão corretas, dependendo do sentido que você quer dar à frase.

Mas é incorreto dizer “o post faz referências à cartilhas”, porque, como não há o artigo no plural, não há com o que a preposição se juntar. Isso impede a crase (junção) e o uso do acento grave.

6. Crase antes de verbos

A lógica se aplica aqui mais uma vez: a crase (junção) só ocorre quando há uma letra idêntica imediatamente após a preposição. Assim como os pronomes demonstrativos, os verbos não admitem artigo (pois artigos são acompanhantes de substantivos).

Dessa forma, não há com o que a preposição se juntar. É incorreto, portanto, falar “à partir” ou “à combinar”: usamos apenas a preposição nesses casos: “a partir” e “a combinar”.

É bom lembrar que em algumas situações a crase pode até ser facultativa, mas ela é muito útil para preservar o sentido correto da frase.

Por exemplo, há muito menos perigo em “receber a bala” do que em “receber à bala” — a não ser, é claro, que a bala da primeira sentença seja oferecida por um estranho em uma van!
(mais…)

“Circulatura do Quadrado” – TVI, 06.05.20

Círculatura do Quadrado – TVI

Espaço de debate onde Jorge Coelho, Pacheco Pereira e Lobo Xavier discutem, semanalmente, os temas políticos actuais da actualidade.

Programa de 6 de Maio de 2020. Extractos da gravação. Pacheco Pereira introduz a crónica publicada no “Público” Também alguns comentários de espectadores/leitores no site original do jornal; edição em papel (online) AQUI

 

(AO43/90) O AO43/90 é filho da ignorância e da corrupção. A ganância dos editores sempre se baseou nestes dois parâmetros. A defender o Aborto Ortográfico temos os que vendem dicionários, gramáticas, prontuários ortográficos, correctores ortográficos, sintetizadores de voz, etc. Comum aos dois países, temos os editores, especialmente os ligados aos livros escolares, Leya, Porto Editora no lado de cá e no planeta o grande gigante mundial a Microsoft que vendeu milhões de novas edições de todos os programas que têm correcção ortográfica. Os restantes têm apenas prejuízo, mas factores ligados à ignorância e à vaidade não os deixam ver mais longe. Em resposta à utopia da ortografia única, consultemos “Nova Gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e Lindley Cintra, de 1984, pág.74:

O jornalista Nuno Pacheco, nas páginas deste jornal, tem informado os seus leitores das aberrações do AO. Alguns exemplos apresentados são verdadeiramente hilariantes e custa a crer que profissionais do ofício da Língua, como Malaca Casteleiro, tenham alinhado nisto, indo ao ponto de edificarem dicionários segundo o novo AO.Nunca o utilizei e, com toda a franqueza, digo que prefiro ler em português do Brasil do que o português do AO.

Como professor de inglês e alemão durante mais de quarenta anos, nunca notei que uma língua demorasse mais a aprender do que a outra. Notei, sim, e costumava dizê-lo aos meus alunos, que o alemão era difícil no início – há aquelas regras gramaticais todas que é preciso interiorizar – e depois ia ficando mais fácil; ao passo que o inglês é ao contrário porque a gramática é simples mas à medida que avançamos vamos encontrando cada vez mais expressões idiomáticas e subtilezas semânticas. Leio com mais prazer em inglês do que em alemão, pesem embora grandes estilistas da língua alemã como Hermann Hesse. E isto, penso eu, pela maior flexibilidade e riqueza expressiva do inglês, resultante em parte de haver poucas regras gramaticais ou ortográficas.

Assino um único jornal nacional: o Público. E faço-o para poder ler um jornal redigido em português, e não em abortês ortográfico! Necessitamos de fazer alguma coisa, eficaz, contra o Aborto Ortográfico!…

Concordo inteiramente com este artigo e louvo a persistência e qualidade argumentativa do José Pacheco Pereira. Só um movimento muito forte poderá vencer a inércia política instalada e pôr cobro a este dito acordo aberrante, e quanto mais demorar mais difícil será revertê-lo.

Muito obrigada, Dr. Pacheco Pereira! Esperava ansiosamente que abordasse este assunto na sua crónica semanal! E constatei, com agrado, a sua insistência em introduzir o tema na última “Circulatura do Quadrado”. Porque é URGENTE gritar bem alto o que se mete pelos olhos dentro de quem sabe o que é uma LÍNGUA! E foi o silêncio conivente de tantos que deveriam sabê-lo – e dos ‘media’, com louváveis excepções, entre elas o “Público” – que tornou possível a imposição deste estúpido, débil e aberrante AO90, à revelia da nossa democracia, tão duramente conquistada. Professora reformada de Português (e Francês), conheço e combato o AO90 desde o início. Recolhi centenas de assinaturas para a ILC-AO e ouvi as inúmeras queixas dos nossos compatriotas! Leiam o AO90, e pensem, se são capazes disso!

«Livremo-nos dele» [Nuno Pacheco, “Público”, 07.05.20]

Língua portuguesa: uns só sabem do sonho, outros é mais inquietação, inquietação

 

No Dia Mundial da Língua Portuguesa houve um generalizado tom ufanista que só a custo encontra expressão prática.

Nuno Pacheco, “Público” 07.05.20

António Gedeão, Manuel Freire e José Mário Branco não têm culpa nenhuma disto, mas se tivéssemos de traduzir em música as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, o primeiro desde que a UNESCO fez mundial a data fixada em 2009 pela CPLP, só duas canções nos ocorrem: Pedra filosofal e Inquietação. A insustentável leveza do sonho e o peso do que nos inquieta.

É certo que, a esta hora, já todos viraram a página, até porque o fantasma da recessão que paira sobre as economias relegará mais uma vez a língua para segundo plano. Mas nas mensagens, nos discursos, nos artigos de opinião e nas celebrações que marcaram o dia 5 nos artigos de opinião e nas celebrações que marcaram o dia 5 há um generalizado tom ufanista que só a custo encontra expressão prática. Dos arroubos poéticos da mensagem presidencial (Marcelo Rebelo de Sousa elogiou no português “o génio de ser uma língua do futuro, viva, diversa na unidade, que muda no tempo e no espaço, continuando a ser a mesma no essencial”) à euforia de António Costa (“Na língua portuguesa cabe o mundo inteiro. A língua portuguesa é, porventura, a nossa maior riqueza, colectiva, de todos nós”), passando pelo ufanismo matreiro do texto para o qual o ministro Augusto Santos Silva arregimentou três outros ministros que em matéria de políticas da língua só são chamados quando convém, vai um largo rol de cenários sonhadores e vacuidades. É possível escrever, como se faz neste último texto, sem soltar de imediato uma gargalhada, que “cresce o uso [da língua portuguesa] na economia, nas viagens, na informação”? Em que planeta vivem?

Falantes de português no mundo, hão-de ser 500 milhões no futuro, afiança Costa. Mas hoje há quem fale em 265 milhões, mais de 270 milhões ou cerca de 300 milhões. São números que só querem dizer alguma coisa se descermos à realidade dos países onde a língua é falada ou ensinada e aí veremos que há inúmeros problemas ocultos neste nevoeiro de sonhos. A imagem, idílica, de milhões de estrangeiros ávidos de aprender o português (pouco importa em que variante) esbarra na dura realidade de a língua enfrentar dificuldades no seu próprio terreno, seja no ensino em países africanos (as queixas são públicas e conhecidas), seja na insistência com que o português é facilmente substituído pelo inglês em várias instâncias. A orquestra “lusófona” internacional quer ser bonita, mas anda muito desafinada.

O embaixador de Portugal na UNESCO, António Sampaio da Nóvoa, deu recentemente uma entrevista à Renascença onde, a par de considerar que “temos que fazer mais” pelo ensino da língua no estrangeiro e em Portugal (e se temos de fazer mais é porque não fazemos ainda o suficiente), acenou com esta velha miragem: o português como língua oficial da ONU. Diz ele que hoje “estamos mais perto” de o conseguir. Estamos? Olhe que não. O secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles, também numa entrevista recente à Deutsche Welle África, reconhece “que existe de facto uma vontade de diferentes departamentos das Nações Unidas em poder desenvolver esforços no sentido em que o português venha a ser uma língua oficial”, mas constata que, “para além de uma vontade política, é necessário um enorme esforço financeiro, que obviamente levará o seu tempo a concretizar”. Um enorme esforço financeiro, aí está. Ora a CPLP tem um largo historial de contribuições em atraso e o nada recomendável Instituto Internacional da Língua Portuguesa está financeiramente nu. Portanto sim, há sonhos, planos, protocolos, promessas. Mas não há dinheiro. A isto, dá o sonhador uma singela resposta: “A língua portuguesa é, porventura, a nossa maior riqueza.” Ufanismo de bolsos vazios.

Como se não bastasse, há ainda o incómodo Acordo Ortográfico. Ratificado por quatro países, que só parcialmente o aplicam (com as incongruências a ele associadas e com uma trapalhada enorme nas datas de ratificação, como já várias vezes aqui se escreveu), vem agora Cabo Verde dizer que a atitude do país “é não entrar em posições fracturantes, neste momento”, ao passo que Angola, cujo ministro das Relações Exteriores, Téte António, diz “estar a trabalhar com vista à ratificação”, sublinha que ali o português apresenta “particularidades discursivas, pragmáticas, sintácticas, léxicas, morfológicas, fonológicas e prosódicas.” Concluindo: é uma variante e quer ser como tal reconhecida. A amálgama “unificadora” actual não lhe serve.

E a Portugal muito menos. Atente-se nesta passagem da já citada entrevista de Sampaio da Nóvoa: “O professor Adriano Moreira, num texto recente, dizia que tínhamos que acabar com a inquietação do Acordo Ortográfico. Julgo que é preciso, serenamente, fazer uma avaliação, pensarmos no que nunca aconteceu ao longo destes últimos anos e décadas. Pensar o que isso significa para as gerações mais jovens, o que significa para as gerações menos jovens como a minha e a partir dessa avaliação encontramos soluções de futuro. É uma resposta que lhe estou a dar a título pessoal, mas creio que está na altura de fazermos essa avaliação e, retomando as palavras do professor Adriano Moreira, acabar com esta inquietação.” É um ponto de partida tardio. Mas a inquietação só terminará quando for reconhecido o logro que este acordo é. Livremo-nos dele, que terminará a inquietação. E haverá paz ortográfica.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral. “Links” (a verde), destaques, sublinhados e comentários meus.]
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Aprova, para ratificação, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A Assembleia da República resolve, nos termos dos artigos 164.º, alínea j), e 169.º, n.º 5, da Constituição, aprovar, para ratificação, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa a 16 de Dezembro de 1990, que segue em anexo. Aprovada em 4 de Junho de 1991.