Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: editoras

FAQ AO90 — 6



31. Porque não se unem numa iniciativa conjunta todos os grupos anti-AO90?

A tal “união de esforços“, portanto?

Bom, alguns — mas nem todos — dos que enchem a boca com essa história de embalar, na verdade querem é o contrário: dividir, fraccionar, pulverizar. para assim desmoralizar as hostes, neutralizar as acções, abater a militância, fomentar o inactivismo.

Afinal, paradoxalmente, a julgar pelos efeitos práticos dessa velha e relha ladainha, a “união de esforços” fundamenta-se na lapidar máxima “dividir para reinar”.

São por regra os mais pedantes (ou pretensiosos, porque armados em bonzinhos) quem mais apregoa a “união” divisionista, utilizando para o efeito um argumento “imbatível”: é tudo uma “questão de protagonismo” e portanto vá de fazer o oposto diametral das belas palavras que debitam, toca a lançar a confusão engraxando este e insultando aquele, o que é preciso é acicatar rivalidades — mesmo que ou em especial se estas de facto não existirem. Ou seja, projectam esses vaidosos nos outros o seu próprio penacho mental — fenómeno psicológico de transferência que Freud explica em vários textos, ditados com soberana displicência, palitando os dentes.

Estou em crer, porque já ando “nisto” há muito tempo, que nenhum dos arautos da “união de esforços” faz a mais pequena ideia de que afinal está a sabotar aquilo que diz defender, e muito menor ideia faz de que não passa de uma marioneta manipulada por mão invisível — a dos acordistas, nada menos.

Nunca dizem ao que vêm, os arautos da união com os parasitas dos esforços alheios; não têm qualquer proposta ou ideia concreta, limitam-se a despejar o chavão da “união de esforços”, a seco, sem mais. É atirar o barro à parede, a ver se cola…

“Iniciativa conjunta”? Mas que iniciativa? A ILC que já existe desde 2010 ou uma das petições e outras tretas lançadas consecutivamente, a partir de 2012, para desviar as atenções da primeira?

E essa outra “iniciativa” seria “conjunta” com quem? Com a malta dos grupos, grupinhos e grupelhos do Fakebook? Mas quem é aquela gente? O que fizeram esses grupos, que fez essa virtual malta nesta luta e desde quando e como e com que resultados?

E porque não, contrapondo, com nenhuma dessa gente virtual em virtuais seitas mas com toda a gente verdadeira que existe mesmo na vida real?

Lançar uma nova iniciativa conjuntamente com quem andou a recolher assinaturas para a já existente e depois não as entregou, ficou com elas, sonegou, desviou, roubou essas assinaturas?

Ou pensarão que ninguém percebeu a jogada? O que fizeram a essas subscrições que literalmente roubaram, mai-los respectivos dados dos subscritores, sem conhecimento destes?

Enfim, bem sei que é um pouco estranho responder a uma pergunta frequente com várias perguntas que frequentemente coloco a mim mesmo. Mas pronto, faz-se o que se pode. Até para tentar explicar o que não tem uma explicação humanamente aceitável.

Mas isto sou só eu a falar, evidentemente. Estas são as minhas FAQ AO90, não são as FAQ da ILC-AO, este é o meu modesto “blog”, não é o “site” da ILC — da qual aliás me “reformei” em 2015, por motivos de saúde, entre outros, nomeadamente para não ter de continuar a aturar pulhas ainda piores do que os acordistas.


32. Como reverter o processo de “adoção” no ensino?

Pois. Aparentemente para os adultos é fácil, para as crianças nem tanto. Mas não é nada que não se possa fazer com relativa facilidade: as crianças não nascem necessariamente, em massa, estúpidas ou retardadas. A ideia subjacente ao “acordo” é imbecilizá-las o mais depressa e o mais profundamente possível, mas ainda assim não me parece difícil erradicar o vírus acordista das nossas escolas primárias. Os cérebros juvenis possuem plasticidade (ou maleabilidade) mais do que suficiente para se auto-regenerar em menos de um ano (lectivo).

Talvez este processo de reposição da normalidade e estabilidade do código escrito acabe por revelar-se como uma excelente oportunidade para a re-introdução generalizada, nos planos curriculares dos 3 ciclos do ensino obrigatório, de História da Língua, Ortografia e até, porque não, aulas facultativas de caligrafia — uma vertente pedagógica estupidamente abandonada nos anos 70 do século passado (reforma de Veiga Simão, em 1972, se bem me lembro).

Para as editoras de manuais corrigidos, a liquidação do AO90 representaria a duplicação dos chorudos lucros que obtiveram aquando da “adoção”, desde o ano lectivo de 2010/11, já que tudo teria de ser editado, corrigido e publicado novamente.

A eliminação do AO90 no Ensino é uma tarefa prioritária, evidentemente, já que é na identidade em formação de cada uma das nossas crianças que se forma a consciência colectiva da identidade nacional — na qual a ortografia é elemento fundamental e estruturante.


33. Que repercussões teve o AO90 no estrangeiro?

Todo este desastre foi, e será para todo o sempre, uma embaraçosa humilhação, um enxovalho nacional atirado para cima deste país e dos seus oito séculos de História. Os estrangeiros oscilam invariavelmente entre a perplexidade e o espanto quanto confrontados com este caso único, a nível mundial, de colonização cultural às avessas. E como não têm sobre si a pata da máfia acordista luso-brasileira (muito brasileira e pouco lusa), os analistas e cronistas estrangeiros dizem com desarmante simplicidade aquilo que em Portugal ninguém se atreve a verbalizar: o AO90 representa a eliminação sumária do Português-padrão, numa manobra neo-imperialista brasileira coadjuvada, facilitada e promovida por meia dúzia de vendidos portugueses com a cobertura de políticos tecnicamente analfabetos e geneticamente corruptos.

Mas o camartelo acordês teve outro tipo de repercussões a nível mundial, nomeadamente na Internet, a primeira das quais foi a quase extinção a bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais. Claro que já seria suficientemente grave a substituição da bandeira portuguesa pela brasileira, passando esta em vez daquela a identificar o interface em “Português”; mas o arrepiante valor simbólico que representa este arrear de uma e o hastear de outra bandeira não se fica por aí: os próprios conteúdos, que anteriormente eram sobre figuras, monumentos, feitos históricos, objectos, invenções, idiossincrasias portuguesas… tudo foi radicalmente (e com efeitos retroactivos, apagando os antecedentes) substituído pelos respectivos equivalentes sambísticos, fedendo a cachaça.

A Wikipédia é o caso mais flagrante, deste sinistro apagamento da História, da identidade e da nacionalidade portuguesas. Mas não é o único: Google, YouTube, Facebook, em todas as plataformas virtuais desapareceu a opção “Português (Portugal)”, assim como foi liquidado em todas as versões recentes dos programas informáticos de uso corrente (como o MS-Office, por exemplo). Não se tratou “apenas” de substituir conteúdos e de “adotar” a cacografia brasileira; nada disso; o próprio léxico e o jargão técnico passaram a ser integralmente brasileiros (usuário, baixar, curtir, deletar), o mesmo sucedendo até com a sintaxe e as construções frásicas — tudo  integralmente brasileiro.

Uma das patranhas associadas ao “acordo” seria a projecção e expansão da língua portuguesa (leia-se, brasileira) no mundo, o que, em concreto, se traduziria na “adoção” do português (leia-se, do brasileiro) como língua de trabalho da ONU. Claro que também essa tremenda mentira rapidamente foi desmentida pela realidade, o que não obstou a que — por mera “coincidência”, claro — o Brasil tenha começado de imediato a exportar, a granel, às carradas,  professores de “português” para as ex-colónias portuguesas.

E tudo isto em paralelo com um outro fenómeno igualmente espantoso (para os ingénuos): agora, já sem qualquer disfarce, há cursos de brasileiro para estrangeiros e dicionários para traduzir de brasileiro para Francês ou Inglês, por exemplo.
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FAQ AO90 — 3


13. Das quatro vias para acabar com o “acordo ortográfico”, qual a mais viável?

Dessas 4, que afinal são 5, se contarmos com a denúncia unilateral do AO90 enquanto Tratado internacional, existem duas muito semelhantes entre si e são ambas igualmente viáveis: em qualquer destes dois casos, a solução passará sempre pela apresentação de uma iniciativa legislativa — ou por um mínimo de 23 deputados ou por mais de 20.000 subscritores no caso de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC).

Seja de uma forma ou seja de outra, o objectivo terá de ser forçosamente a anulação do instrumento legal que ratificou o II Protocolo Modificativo (alterando este a redacção original do AO90) e que, assim, colocou em vigor o “acordo” na ordem jurídica nacional.

Instrumento legal esse (RAR 35/2008) que fez ainda mais do que “apenas”, ratificando o dito Protocolo, aceitar em nome de Portugal o golpe perpetrado pelo Brasil: a ratificação do Protocolo por apenas 3 Estados implica a automática entrada em vigor do AO90 em todos os oito Estados-membros da CPLP.

Portanto, só revogando aquela Resolução parlamentar será possível reverter a entrada em vigor do AO90 em Portugal; a anulação de qualquer outra legislação subsequente, decorrente e dependente da RAR 35/2008, seria inútil. Por exemplo, a revogação da RCM 8/2011 não teria quaisquer efeitos práticos, já que o AO90 continuaria legalmente em vigor.


14.  Em que diferem do “acordo ortográfico” brasileiro os casos Francês, Espanhol ou Alemão? Porque é que o Inglês nunca teve qualquer “acordo”?

Não existe a mais pequena similitude entre as reformas ortográficas dos países civilizados e aquilo que se passa em Portugal.

Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é  compulsiva, como o AO90.

Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. Ou seja, os estrangeiros fixam a sua norma ortográfica, apenas quando absolutamente necessário, em função das naturais oscilações que porventura ocorram pela simples passagem do tempo. “As Línguas” evoluem, de facto, como tanto gostam de cuspilhar os acordistas portugueses, mas de forma natural e não por decreto.

O caso da Língua inglesa é algo completamente diferente. Evoluiu ao longo de 1.400 anos mas a sua ortografia mantém-se praticamente inalterada há vários séculos. Por alguma razão — ao invés do que dizem acordistas, com a sua alucinada teoria do facilitismo e da “expansão” — o Inglês é “só” a Língua mais falada (e escrita) no Ocidente e é “só” a lingua franca por excelência em todo o mundo. De resto, em todos os países do ex-Império britânico a ortografia e a etimologia são ponto de honra e motivo de orgulho; nos EUA e no Canadá, por exemplo, existem concursos nacionais, regionais e locais dedicados exclusivamente a soletrar: spelling bee.


15. Se existiu desde o início tanta resistência (e indiferença), porque é que o “acordo ortográfico” entrou em vigor?

Por uma questão de agenda: aos políticos implicados na tramóia e aos empresários gananciosos interessados nela (é a grande finança que paga as campanhas eleitorais e os tachos dos políticos) convinha que a coisa avançasse o mais depressa possível. Assim, primeiramente avançou a parte política do assunto — aprovação do II Protocolo Modificativo — preparando o terreno para que os grandes grupos editoriais, por exemplo, começassem de imediato a facturar. A expansão económica brasileira, tendo por objectivos primordiais Angola e a União Europeia (usando Portugal como trampolim, bem entendido), ficaria para mais tarde, a seu tempo.

Primeiro, era necessário garantir que o AO90 entrasse em vigor em todos os países da CPLP, fosse como fosse, à força, à má-fila.

Como os processos de ratificação tinham vindo a arrastar-se desde 1994, em todos esses países, então o Brasil e seus agentes em Portugal descobriram a pólvora: cozinhar uma espécie de adenda ao “acordo”, o II Protocolo Modificativo, passando a obrigatoriedade de ratificação do AO90 por todos os 7 para apenas 3 Estados-membros; ou seja, a ratificação por 3 Estados implicaria que o AO90 entraria em vigor oficialmente nesses 3… e também nos outros quatro, mesmo que não ratificassem coisa alguma (ratificar é diferente de simplesmente subscrever o AO90, são processos autónomos).

Assim, em 2004 o Brasil (é claro) ratificou, em 2005 Cabo Verde também e por fim São Tomé e Príncipe idem. Pronto, já está, o AO90 entrou em vigor em todos os Estados da CPLP por via administrativa, por imposição de países terceiros. Só faltava então a aquiescência de Portugal para dar um ar de legalidade ao golpe e assim enfiá-lo goela abaixo dos pategos portugueses.

Foi precisamente esta incrível vigarice que o Parlamento português sancionou, através da RAR 35/2008, entrando do mesmo passo o AO90 em vigor também em Portugal.
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“Em termos literários”

Lusofonia, acordo ortográfico e Nobel em debate no festival Fronteira

Maria João Costa

14 Abr 2018

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Terminou este sábado a sexta edição do Festival Literário de Castelo Branco.

“António Lobo Antunes ou Mia Couto” são os nomes de autores de língua portuguesa apontados por Pedro Mexia como os mais prováveis candidatos ao Nobel da Literatura. Numa sessão de encerramento da sexta edição do Festival Fronteira, em Castelo Branco, o assessor cultural de Marcelo Rebelo de Sousa falou de outros nomes como possíveis sucessores de José Saramago.

O poeta Nuno Júdice seria um deles “porque já ganhou vários prémios internacionais”. Lídia Jorge é outro nome que Mexia traz à conversa com o poeta José Mário Silva, mas na sua opinião nem Júdice, nem a autora de “Os Memoráveis” teriam hipóteses quando “comparados com Lobo Antunes ou Mia Couto”.

Na Biblioteca Municipal de Castelo Branco, onde decorreu o último dia do Festival Fronteira, numa tarde em que o público foi menos concorrido do que em anteriores edições, falou-se também de lusofonia e dos 20 anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Num debate onde faltou o escritor João Ricardo Pedro, a jornalista e escritora Filipa Melo conversou com o escritor Pedro Vieira sobre a questão da lusofonia. Nas palavras da autora de “Dicionário Sentimental do Adultério”, “com a crise económica fecharam muitos dos leitorados nas universidades e esse espaço foi ocupado pelos Brasileiros”. No entender de Filipa Melo, “hoje o ensino de português no estrangeiro é feito por brasileiros”. Portugal, segundo a opinião desta escritora, “deveria apanhar boleia” deste trabalho do Brasil.

Numa conversa onde também se falou do Acordo Ortográfico, o moderador Pedro Vieira quis saber a opinião de Filipa Melo. A escritora questionou: “Mas, está em vigor?” Do público, Pedro Mexia explicou que nem todos os países ratificaram. Melo conclui que foi “um desastre jurídico” e que em termos literários é contra o acordo ortográfico.

A tarde em Castelo Branco começou com o debate em torno do balanço dos 20 anos da atribuição do Nobel a José Saramago e de que forma isso ajudou ou não a escrita em português. Na opinião da escritora e jornalista Isabel Lucas “as literaturas em português não souberam aproveitar a projecção do Nobel”. Já a escritora Ana Margarida Carvalho falou da forma como Saramago usou os palcos internacionais depois do prémio da academia sueca. “Saramago era um activista em permanente estado de vigília, e virou os holofotes para Portugal”.

“Hoje as universidades americanas ensinam Saramago mas ainda há muito o culto de Fernando Pessoa”, explicou Isabel Lucas, que disse que o livro mais lido de Saramago nos Estados Unidos é justamente o livro sobre Pessoa: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

[Transcrição integral de notícia “online”. Rádio Renascença, 14.04.18. Acrescentei “links”, citações, destaques e sublinhados.]

 

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“Horror e espanto”


Fascinante entrevista de nosso actual Ministro da Cultura, verdadeiro poço de contradições com pernas, salvo seja, pessoa capaz de dizer uma coisa e de imediato o seu contrário, mas sempre sem se rir, com o ar mais sério deste mundo e do outro. Enfim, mais do outro do que deste — daí rir-se a gente por ele, porque de facto tem Sua Excelência sua piada.

Luís Filipe Castro Mendes: “Este Acordo Ortográfico não é perfeito”

(…)

Pode dizer-se que A Misericórdia dos Mercados é onde essa afirmação de vida mais existe?

Esse livro tem que ver com uma revolta com determinado discurso que nos foi imposto e tendia a negar aquilo que é mais humano em nós: a capacidade de transformar e a dignidade de quem trabalha. O livro revolta-se contra uma ordem do mundo que assenta na lógica puramente financeira, daí ser vincadamente de protesto, apesar de igualmente melancólico porque manifesta a desilusão com uma ordem política e económica que parece negar o que há-de mais importante na humanidade.

No prefácio é referido que esta é uma “poesia culta”. Revê-se?

Mesmo que se queira muito ingénua, a poesia tem de ser culta porque está sempre em diálogo. Tem sempre que ver com o que já foi escrito, mesmo que se a queira muito vanguardista e a arrasar todo o passado. Diz-se que esta poesia é culta porque cita muito. É verdade, existe grande vontade de citar e falar para o círculo dos que conhecem o mundo poético. Gostaria que tocasse mais gente, porque há muitos poemas que procuram ir ao coração das pessoas.

A grande alteração está na utilização do Acordo Ortográfico em vigor. Não lhe foi difícil?

Não considero que este Acordo Ortográfico seja perfeito e penso que há coisas susceptíveis de melhoria, mas sendo o que se utiliza oficialmente achei que seria hipócrita não o fazer. Isto sem criticar outras pessoas, até porque não tenho ideias tão fortes sobre ortografia como elas. O acordo não é o melhor possível mas está vigente e segui-o para horror e espanto de muitos amigos. Não porque lhe tenha um grande amor, mas porque para mim a ortografia é uma convenção e não considero que a anterior seja a maior das maravilhas. Tudo se pode aperfeiçoar, é a minha opinião. Enquanto estiver em vigor vou segui-lo e lamento os meus amigos que consideram isto uma traição. Há como que uma luta de religiões em torno do acordo, só que eu não tenho religião. Acredito que esta opção vá ser muito criticada, mas é assim.

(…)

A língua portuguesa falada nesses países entrou nos poemas?

Sim, em Os Dias Inventados tenho um poema em que escrevo “Se eu beijar você na tua boca”. Tem que ver com a diferença do português de Portugal e o do Brasil, e mostra como a linguagem íntima deles faz-se com o “você” e que para nós usar essa palavra num momento de maior arrebatamento de paixão não faz muito sentido.

Tem diálogos poéticos com Bandeira, Caetano, Chico… O brasileiro é assim tão imponente?

Há uma grande unidade da língua apesar dos vários padrões. Quando se vive no Brasil, verifica-se que falamos a mesma língua se não tivermos em conta o nível semântico em certas palavras e a pronúncia.

(…)

[Source: Livro – Luís Filipe Castro Mendes: ″Este Acordo Ortográfico não é perfeito″, “DN”, 10.03.18. Transcrição parcial. “Links” e destaques meus. As letras em falta no original foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da “extensão” FoxReplace do “browser”.]

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AO90 «é um golpe de estados» [por Alexandra Lucas Coelho, “Sapo24”]

Este país partido ao meio pela própria língua

Somos muitos clandestinos. Mas não fomos nós que sequestrámos a língua. De certa forma, o acordo ortográfico é um golpe de estado progressivo.

Alexandra Lucas Coelho
“Sapo24”, 02.03.18

1. O que aconteceu há uma semana no parlamento português é de pasmar, para quem ainda for capaz. Todos os deputados portugueses, com a honrosa excepção dos comunistas e de dois centristas, são agora co-responsáveis por a) um erro com décadas b) Portugal estar partido ao meio pela própria língua c) manter tantos portugueses na clandestinidade.

Que dia cheio, essa quinta-feira, 22 de Fevereiro. E lendo nas notícias até parecia que não tinha sido nada demais, a votação na assembleia. Assunto arrumado.

2. Como quiçá 99 por cento dos portugueses, estou farta deste assunto. Há uma boa razão para isso. É que o assunto tem barbas. Tanto tempo que o facto de até agora não ter sido possível enfiarem-nos o acordo pela goela é uma prova de como ele é um mau acordo. Outra prova, claro, é o facto de terem que tentar, e continuarem a tentar, enfiar-nos o acordo pela goela. Quanto mais tempo passa, mais me apetece dizer que nunca escrevi nem escreverei uma frase segundo o acordo. E quanto mais tempo passa mais me chateia que os meus sobrinhos sejam obrigados a ler e escrever asneiras, e quando todos eles aprenderem a ler e escrever fiquemos separados por tanta asneira. Cada um dos deputados que se absteve ou votou pela continuidade é responsável por isso.

De resto, com o aval dos deputados eleitos, a minha situação, e a de tantos portugueses, é oficialmente essa: estamos, vivemos, trabalhamos na clandestinidade. Mas quem sequestrou a língua não fomos nós. De certa forma, o auto-proclamado acordo é um golpe de estado progressivo. Um golpe de estados, aliás. E isso faz parte do equívoco de base.

3. Esta monumental perda de tempo, dinheiro, burocracia e energia vem de 1990. São 28 anos — vinte e oito anos — de declarações, contorções, petições, recursos, rejeições, discussões, pancadaria verbal desde o equívoco de base. Os contestatários foram ignorados, partiu-se para a imposição: em Portugal, o acordo entrou em vigor em 2009, tornou-se obrigatório nas escolas públicas em 2011, nos organismos públicos em 2012, e em geral (?) em 2015, data desde a qual um aluno que não escreva segundo o acordo é penalizado.

Totalitarismo por etapas. Mas em nome de quê?

4. Aí está o equívoco de base: em nome de uma visão política desligada da vida. Da vida da língua, com as suas mutações naturais, da vida de cada país onde essa língua é dominante, e das relações entre esses países. Já me perdi no imbróglio do que gerou o acordo, se/como os linguistas foram utilizados pelos políticos e/ou vice-versa, ou a certa altura os defensores do acordo se cristalizaram nessa posição porque sentiam que já tinham ido demasiado longe para voltar atrás.

Supostamente este acordo era para aproximar os países de língua portuguesa. Mas o que separa os países de língua portuguesa são muitas outras coisas, muitas delas de facto políticas, muitas delas de facto incómodas, muitas delas de facto sistematicamente ignoradas, ou menosprezadas, enquanto um acordo totalmente desnecessário, supostamente a bem da lusofonia, nos mói o juízo há 28 anos.

Expressões que me tiram do sério: países da lusofonia. Que países da lusofonia? Lusofonia resulta de uma ideia de dominação, ou dominância, lusa, sem sentido. Não há países da lusofonia. Há países que falam a língua portuguesa. E, não por acaso, Portugal está bem, bem longe de ser o mais populoso.

5.* Também estou longe de em geral votar PCP, o partido que corajosamente fez a proposta rejeitada no parlamento, para que Portugal se retirasse do acordo. Estar contra o acordo é o ponto em que coincido com os comunistas, depois divirjo em parte quanto à visão da língua portuguesa, as relações entre os países que falam a língua portuguesa. Mas pasmei com a quantidade de deputados que votaram em massa, ao lado dos seus partidos, contra a proposta do PCP. As abstenções ficaram-se pela meia dúzia.

Difícil de acreditar. Toda esta gente está mesmo convicta de que o acordo é uma coisa boa? Ou acha apenas que dá demasiado trabalho voltar atrás? Seja como for parecem imunes ao facto de tanta gente, com argumentos, não seguir o acordo.

6. Mexeu-se na língua, onde não fazia falta, por maus motivos políticos. Esse acordo, alegadamente para o melhor entendimento de vários países, conseguiu transformar-se em grande desentendimento neste país. Entretanto, todos os dias me sento a esta mesa, e bato neste teclado palavras que oficialmente já estão erradas, como pára em vez de para, ou pêlos em vez de pelos.

O meu trabalho é escrever há mais de trinta anos. Na minha geração, tenho de pensar um bocado para achar conhecidos que escrevam voluntariamente segundo o acordo. E na geração posterior idem. A petição que acompanhava a proposta do PCP tinha 20 mil assinaturas, mas multiplicar isso por 100 não me pareceria pouco razoável. Imagino a quantidade de professores que não gostam do acordo e são obrigados a usá-lo. Com certeza que muitos seguidores do acordo o fazem por obrigação, em organismos públicos, ou empresas que tomaram a decisão de aplicar o acordo por contingências várias. Entre 2011 e 2012 aconteceu editoras acharem que o caminho já era irreversível, e terem começado a aplicar o acordo, para depois retrocederem.

Falhado o parlamento, a próxima esperança dos desalinhados será o recurso que o Supremo vai analisar, quanto à ilegalidade ou não de impor a aplicação do acordo.

7. A língua portuguesa são tantas que ainda não as conheço, nem conhecerei. Morei anos no Brasil, e que sorte, a língua tornou-se muito maior. Vou à Guiné, a Cabo Verde, a Moçambique, idem. A língua vai à frente de qualquer dicionário, e se quem escreve não der trabalho aos arrumadores da língua estamos tramados. Portanto, os clandestinos estão naturalmente na clandestinidade. Mas não por decreto, com um acordo tipo implante. Deixem a língua solta, porque ela muda a cada minuto. O trabalho dos dicionários, e dos especialistas, é correrem atrás.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Alexandra Lucas Coelho, publicado no site “Sapo24” em 02.03.18. Destaques e “links” meus. Imagem de topo de: jornal “Público”]

*Parece-me que a sequência numérica (lista ordenada, “ol”) tem um equívoco no original: repete o número 4.

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Uma oportunidade perdida


Já aqui realcei a incrível estupidez que foi este partido político ter-se deixado enredar nas intrigas palacianas dos peticionistas compulsivos, mas ainda assim parece-me continuar a merecer destaque o Projecto de Resolução que o dito partido apresentou recentemente.

Foi, na verdade — ou, melhor dizendo, poderia ter sido, caso o Grupo Parlamentar proponente não tivesse sido “parvo” — a melhor e mais viável proposta até hoje apresentada no Parlamento para desatar o imbróglio político (ou a incrível vigarice) a que se convencionou chamar “acordo ortográfico”.

A estupidez do “timing” na apresentação e a sua absurda mistura com uma petição idiota não retiram um átomo ao mérito da redacção, à credibilidade da sustentação ou à viabilidade da proposta.

Intervenção de Ana Mesquita na Assembleia de República

O PCP saúda os mais de 20 mil subscritores da petição, alguns dos quais aqui presentes nas galerias da Assembleia da República.

Em 4 de Junho de 1991, o PCP foi único Grupo Parlamentar que não votou favoravelmente a Proposta de Resolução sobre a ratificação do Acordo Ortográfico. Fizemos críticas severas quanto à metodologia seguida pelo Governo para apuramento das bases do AO90. Manifestámos as nossas preocupações quanto às consequências do Acordo, alertando que o processo tendia, e cito “a transformar-se num atoleiro cujas dimensões e proporções desconhecemos.” Estava certo o PCP.

De facto, veio o Primeiro Protocolo Modificativo, veio o Segundo, o Acordo continuou a ser um mau Acordo, a não responder às críticas feitas em 1990 por várias pessoas e entidades. E aqui estamos hoje. Subsistem incongruências, insuficiências, dificuldades práticas na aplicação do Acordo, visíveis todos os dias nas escolas, nos média, nos livros, nas páginas oficiais de entidades públicas. Foram referidas por inúmeras vezes em contributos escritos e audições dos Grupos de Trabalho sobre esta matéria.

O PCP não tem uma concepção fixista em torno da ortografia. Mas valorizamos a participação política e científica, o robustecimento técnico da norma escrita, a democraticidade da escrita e da oralidade. E estes são aspectos determinantes que não foram plenamente alcançados ou, alguns, sequer tidos em conta neste processo.

A existência de um qualquer Acordo só pode ter algum sentido se for integrada no contexto mais global de uma verdadeira política da língua.

Que promova maior cooperação com os países de língua portuguesa, com um profundo e intrínseco respeito pela identidade cultural de cada povo, que assuma a necessidade de promoção e difusão do livro e dos autores portugueses, que reflicta sobre a natural evolução da Língua envolvendo todos os interessados. Não por via de imposições legislativas desligadas da realidade concreta e da comunidade.

A verdade nua e crua é que, volvidos 28 anos, não existe um Acordo Ortográfico comummente aceite, ratificado e depositado, por todos os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Não há sequer previsão concreta em relação a países como Angola ou Moçambique. Falta-lhe o alicerce.

Há quem considere impossível ou contraproducente voltar atrás e corrigir os erros cometidos porque muitas crianças e jovens já aprenderam o Acordo na escola, mas não houve qualquer pejo em fazer experimentalismo ortográfico com os alunos que tiveram de o aprender.

A esmagadora maioria da população aprendeu a norma ortográfica anterior, e também por isso, não é tarde para corrigir um percurso com origem num procedimento errado, desde que se acautelem as necessárias medidas de acompanhamento a quem aprendeu e utiliza a grafia do Acordo.

É preferível aprender com todo este processo, estudá-lo, sair do Acordo Ortográfico e devolver a discussão – ou melhor, dar finalmente a discussão – à comunidade científica e literária na definição de objectivos e princípios de partida para uma nova negociação das bases e termos de um Acordo Ortográfico, assim seja entendida a sua necessidade, junto dos restantes países da CPLP.

É essa a proposta do PCP.

Source: PCP recomenda o recesso ao Acordo Ortográfico de 1990 | Partido Comunista Português

Desenho de: Facetoons

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