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«As raízes passeiam na escuridão» [por Diogo Vaz Pinto, jornal “Sol”]

É raro poder ler alguma coisa de jeito. De mais a mais quando essa coisa e esse jeito denotam uma total ausência de caganças, ou seja, sendo um texto escorreito que não arma aos cucos, simplesmente, ou, mais complicadamente, se demostra à saciedade que certa sociedade (“tipo” académica) não passa de balofa, inconsequente passagem-de-modelos fatela.

Feira de vaidades, montra de vacuidades, parada de militantes sem causa — para além do chequezinho mensal e da parábola mal parida que apenas aos próprios interessa.

De todas estas incompreendidas belezas, enfim, está a presente diatribe cheia, apenas lhe faltando por remate, palpito eu, o inerente, sonoro, retumbante, terminante arroto.

O Cânone. Intrigas e travessuras conventuais

Diogo Vaz Pinto
“Sol”, 24.10.20

Num gesto enfático de quem puxa o pano de uma coluna que não estava propriamente oculta, gesto a que se chama descerrar o monumento, surgiu entre nós um livro de ensaios de crítica literária com a pretensão de firmar a lista das listas. Mas “O Cânone” não traz grande novidade no que toca à eleição dos grandes autores da literatura portuguesa, e esconde, na verdade, um cânone secundário, ao mobilizar um conjunto de leitores da academia, formando um batalhão arregimentado para realizar uma marcha intimidatória entre os tantos percursos possíveis na memória que esta língua alcança.

Hoje, nem os esforços mais inoportunos ou aberrantes dispensam uma certa pompa, particularmente no que toca à vida cultural, essa que, no mesmo compasso em que vai perdendo relevância, e capacidade até de reflectir ou representar as experiências que vamos vivendo, parece enaltecer-se com a sua incapacidade de reagir. Mas, ao invés de assumir esta desistência, assume orgulhosamente a sua incapacidade de colar os cacos do tempo, de retomar uma qualquer razão ordenada, agarrando-se à boneca de pano de um passado morto, e apertando-a contra o peito nos momentos em que uma crise de ansiedade toma conta dela. Vemos assim um certo discurso fluir desde as regiões que se tomam por elevadas e que pouco difere do discurso dominante, esse que exibe, como notava Derrida, frequentemente aquele tom algo maníaco, jubilatório e encantatório que Freud reconhecia na chamada fase triunfante do processo de luto. Esse regime cadenciado, quando não ritualizado de certos encantamentos, é sinal tantas vezes de uma desistência ou até de rejeição profunda do futuro, e produz uma cultura de ecos cada vez mais fracos, de bocados, restos de frases, linhas em que o sublinhado sinaliza o que foi apropriado como um mantra, para manter o mais longe possível o mau-olhado do futuro.

Apareceu por estes dias uma colecta de textos de crítica literária investida, na forma como foi apresentada, desse delírio triunfal das patéticas ficções cheias do convencimento da sua preponderância. Assim, foram os próprios envolvidos a assumir que “O Cânone”, obra editada pela Tinta-da-China e financiada pela Fundação Cupertino de Miranda, deveria provocar algum celeuma, gerar uma torrente de reacções indignadas, e os editores adoptaram aquela pose desafiadora, como quem passa a mão pelo coldre, dizendo-se ansiosos por eventuais polémicas ou convites para duelos.

Por agora, depois de umas vagas notas na imprensa, instalou-se aquele concerto dos grilos, que apenas nos diz que a noite não tropeçou em nada. Não se ouviu gritos, e Vivien Leigh continuou com a cantoria no chuveiro. Houve duas sessões de apresentação, uma delas no Jardim Botânico de Lisboa, com Ricardo Araújo Pereira a assumir a moderação, e a cansar o velho número do pára-quedista que jura não entender porque raio insistem em chamá-lo para estas coisas. Essa sessão andou pela centena de pessoas seguindo a coisa em directo. Se alguém estava em pulgas para saber a lista dos escritores ou dos ensaístas o mais certo é que se tenha entretido a esmagar entre as unhas até à última das pulgas, pois a sessão foi tudo menos empolgante. A do dia seguinte, com apresentação a cargo de Pedro Sobrado, e as intervenções bem mais desenvoltas dos organizadores, especialmente de António M. Feijó e de Miguel Tamen, essa acabou por se mostrar bem mais compensadora para o pequeno auditório virtual que seguia a apresentação. Não estariam mais de 40 pessoas num mesmo momento a acompanhar esta segunda sessão. “O cânone é uma lista é uma lista é uma lista” começou por notar Sobrado, mas disse que sendo este um título anódino é, ao mesmo tempo, assombroso por tudo o que esta palavra consegue evocar – “desde o índice de textos sagrados até controvérsias sísmicas de especial magnitude”. Depois, e assumindo que existe hoje um meio literário, atendido e açulado por um público, deixando-se exaltar ainda por campanhas de promoção ou liquidação total, diz que este livro “possui um carácter incendiário”, isto por causa dos debates virulentos acerca do cânone, os quais por cá tão poucos acompanham como uma partida de futebol, e só por um rádio a pilhas, em diferido e com má recepção, tratando-se de pleitos travados noutras geografias. Sobrado punha essas querelas a par de outras motivadas pelas “sensibilidades pessoais e íntimas, confrarias académicas, tribos literárias. Mas é difícil perceber quem são esses a quem esta edição poderá causar mais do que um certo incómodo, algo mais que um beliscão ou um passageiro episódio de urticária. O mais natural é que, até por cálculo, diante de um esquadrão destes, os hipotéticos ofendidos deixem a coisa passar, e não se oiça ou leia mais que um resmoneio inconsequente à margem destas margens.

No entanto, é a presunção de que uma iniciativa editorial como esta possa assumir um carácter incendiário que chega a ser enternecedora, uma ficção ao mesmo tempo ingénua, como se, além da pauta fixada nos corredores, a tal listinha, fosse haver alguma revisão na bolsa dos valores literários, como se esta obra sinalizasse outra coisa que não um organigrama com a actual composição da comissão que dirige as festas e que tem o dedo na balança no que toca à promoção e despromoção dos autores a quem se vão dedicando teses, currículos e o raio. Sendo esta, em grande medida, uma recolha de actas, de circulares internas, de resumos de aulas, é disparatado quando Pedro Sobrado afirma que há o risco “de ninguém se rever n’O Cânone”. O verdadeiro risco que esta obra corre é de outra natureza: o de se estar tudo a marimbar e ser este gesto apenas mais outro exemplo da histeria algo nostálgica de uma “casta sacerdotal” que prega aos peixes e pouco mais. Um conciliábulo que, em face da ruína, não abre mão da postura teatral, com aquela atitude de soberba envolvida numa boa dose de anacronismo. Mas finjamos, por um momento que seja, aceitar o desafio, e discutamos essa ultrapassada questão. Não nos peçam é que levemos a coisa ao ponto de nos comovermos ou escandalizarmos com a intriga ou os personagens desta chatíssima peça de um só acto interminável, desfiando o delírio de um século ausente, a tossir o pó e as aranhas nos sótãos ou nas caves, entre a desilusão e o reacionarismo. Um século no qual um bando de académicos se convencem de que ainda são capazes de armar uma bulha dos diabos seja por, desta vez, Sophia não merecer senão uns piropos, seja por Eugénio ter sido deixado sozinho no Jardim de S. Lázaro a medir o tesão das flores ou Graça Moura em brasa e perdido no gozo com as suas musas em trajes menores, seja por terem recambiado Vergílio Ferreira para as évoras do Além ou Cardoso Pires para repórter de crime nalgum pasquim de pouco prestígio ainda que com mais proveito, até literário, do que o de tantas publicações académicas duplamente subsidiadas: quando são pagas e, depois, quando fazemos o favor de as ignorar.

O tom que caracteriza as intervenções mais contundentes neste volume é o da empáfia, o de uma injustificada sobranceria, um registo que se aproxima mais da crónica que do ensaio de crítica literária. E é Miguel Tamen quem se destaca nessa potestade que, nas voltas que dá, vai desenhando o seu próprio ralo, o vazio onde tudo acaba, entre banalidades denotativas, arremedos dando nó ao saco das obviedades ululantes, deduções vulgares, infusões e vapores achacantes, tudo como quem se baixa para acariciar um papagaio imaginário ou numa cadência de quem marcha e leva atrás de si uma pequena tropa. Sirva de exemplo a entrada que dedica a Portugal: “Quando se fala de Portugal, como aliás de literatura portuguesa, há uma grande diferença entre o que os portugueses fazem e o que os outros dizem. No caso da literatura portuguesa pode pensar-se que tal se deva a terem os portugueses lido mais livros de literatura portuguesa que os não-portugueses. Acontece que poucos portugueses leram literatura portuguesa, e a maior parte não se lembra de nada”. Aqui e ali, deparamo-nos mesmo com apatetadas tentativas de comédia: “Bem entendido, os portugueses não são uma pessoa ou sequer um animal. A palavra ‘portugueses’ designa uma soma de pessoas muito variadas, e não um ser vivo independente, por exemplo uma pessoa muito grande, ou muito gorda, ou com muitos braços.”

Mas o que mais denuncia esta atitude de quem, a coberto da liberdade da crítica para expor opiniões, usa de um tom jocoso, e faz desse exercício uma forma de tagarelice, em que as provocações degradantes assumem um tom de snobeira insuportável, lê-se numa passagem como esta: “Os portugueses, tantas vezes impiedosos com os erros de ortografia e as imprecisões em guias turísticos compostos no estrangeiro, tendem a encarar com mais benevolência o Holocausto só porque muitos refugiados, e mesmo alguns refugiados ilustres, passaram brevemente por Lisboa, como num grande congresso internacional. Tudo no mundo, acreditam, existe essencialmente para chegar a Portugal.

Vítor Aguiar e Silva, prémio Camões 2020

«Vítor Aguiar e Silva é o Prémio Camões 2020, um crítico do novo Acordo Ortográfico»

«Depois de Chico Buarque ter recebido o Prémio Camões na edição do ano passado, Vítor Manuel de Aguiar e Silva foi o nome escolhido pelo júri que esteve reunido esta terça-feira. A ministra da Cultura, Graça Fonseca, anunciou o vencedor.» [DN]

«A acta da reunião do júri da 32ª edição do Prémio Camões, que decorreu em Lisboa, explica a escolha de Vítor Manuel de Aguiar e Silva para a edição do Prémio Camões 2020: “A atribuição do Prémio Camões a Vítor Aguiar e Silva reconhece a importância transversal da sua obra ensaística, e o seu papel activo relativamente às questões da política da língua portuguesa e ao cânone das literaturas de língua portuguesa.» [DN]


«O professor e ensaísta Vítor Manuel de Aguiar e Silva é o vencedor do Prémio Camões 2020, anunciado hoje pela ministra da Cultura, após reunião do júri.» [Lusa]

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Vítor Aguiar e Silva nasceu em 1939.

Tendo obtido todos os seus graus e títulos académicos na Universidade de Coimbra, foi professor catedrático da Faculdade de Letras da mesma Universidade até 1989, ano em que solicitou a sua transferência para a Universidade do Minho.

Nesta Universidade, foi professor catedrático do Instituto de Letras e Ciências Humanas, fundou e dirigiu o Centro de Estudos Humanísticos e a revista “Diacrítica” e desempenhou as funções de vice-reitor de Junho de 1990 a Julho de 2002, data em que passou à situação de professor aposentado.

Tem-se dedicado especialmente ao estudo da Teoria da Literatura, domínio em que a relevância do seu ensino e da sua investigação é nacional e internacionalmente reconhecida, e da Literatura Portuguesa do Maneirismo, do Barroco e do Modernismo. Os estudos camonianos têm constituído objecto constante da sua actividade de investigador.

Tem desempenhado funções docentes, como professor visitante, em diversas Universidades estrangeiras. Orientou numerosas dissertações de mestrado e doutoramento, na sua maioria publicadas. Ocupou, por escolha governamental, diversos cargos nas áreas da Educação e da Cultura.

Autor, entre outros, dos seguintes trabalhos: Para uma interpretação do Classicismo, Maneirismo e Barroco na poesia lírica portuguesa, Teoria da Literatura, Competência Linguística e competência literária: Sobre a possibilidade de uma poética gerativa, Análise e metodologia literárias e Camões: Labirintos e fascínios (obra galardoada com o prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários e da Associação Portuguesa de Escritores).

A Universidade de Évora atribuiu-lhe o Prémio Vergílio Ferreira de 2002.

Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Caixa Geral de Depósitos, o mais alto galardão literário existente em Portugal. Em 2018, recebeu o prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural.

Wook

 

«Presidente da República felicita Vítor Aguiar e Silva pela atribuição do Prémio Camões»

«Felicito vivamente Vítor Manuel Aguiar e Silva pela atribuição, hoje, do Prémio Camões 2020, a mais importante distinção literária de língua portuguesa.»

«Ao escolher o Professor Aguiar e Silva, o júri reforça a ideia de que não há géneros maiores ou secundários e de que uma cultura vive de obras de invenção (ficção, teatro, poesia) e de trabalhos de ensaísmo e crítica, quer no âmbito académico quer fora dele.»

«Autor da mais importante obra de Teoria da Literatura publicada em Portugal, professor da Universidades de Coimbra e da Universidade do Minho, Aguiar e Silva tem sido um exímio estudioso da cultura e literatura quinhentista e seiscentista, destacando-se a sua obra de camonista, atenta aos “fascínios” e aos “labirintos” do poeta, como uma vez mais pudemos comprovar no seu último livro, “Colheita de Inverno”.»

«Ligado à fundação do Instituto Camões, uma das entidades que atribui este Prémio, e a outras organizações culturais e pela defesa da cultura, o Professor Aguiar e Silva é um justíssimo vencedor, e uma escolha inspirada do júri deste ano.»
27.10.2020 [“site” da Presidência da República]

 

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

Mal parido

caixa do engraxador

Para variar, por excepção, um artigo da imprensa regional. E este, em particular, com a evidente vantagem de o seu autor já ter armado em acordista (devia ser na altura um rapazote, estava a crescer, são as ilusões da juventude) e de ter por fim acordado para a vida.

Além dessa transitória e felizmente já terminada ebulição juvenil, este regional autor apresenta uma consistência argumentativa absolutamente telegráfica, atendo-se apenas às mais elementares ilustrações daquilo que no essencial é e em que consiste o aleijão ortográfico — ou seja, em suma, a escrita brasileira que Portugal “adotou” por bovinidade intrínseca e por puro “puxa-saquismo”, engraxar brasileiros.

Parar ou parir

Eu paro, tu paras, ele para.

04-06-2020 – FRANCISCO MARTINS DA SILVA
“Jornal  Oeste online”

Que português é este? “Eu paro”, ainda vá, quer dizer que estou neste momento a parir (com esforço, este texto). Mas, e “paras”, que palavra é esta? De onde vem? E o que quer dizer “tu paras”? E “ele para”? Para onde, para quê? Como pode ser “ele para” uma forma verbal? Se formos ao presente do conjuntivo, que eu pare, que tu pares, que ele pare, continuamos a falar de parir e não de parar. Eliminando o acento agudo, diferencial para estas palavras homógrafas, amputou-se o verbo ‘parar’ de algumas das suas mais comuns conjugações.

O inadjectivável Acordo Ortográfico de 1990 está cheio de absurdos caricatos e risíveis como este, transformando a nossa amada língua num anedotário de confusão. Ao substituir o primado da etimologia por indeterminada tradição de pronúncia culta, eliminou-se a esmo hífens, acentos, consoantes mudas, maiúsculas, et cetera.

Mas que tradição oral culta vem a ser esta? Onde é tradicional dizer que estou a parir quando quero dizer que estou a parar?

Inicialmente, pareceu-me uma boa ideia, harmonizar o português de toda a Lusofonia, para facilitar o entendimento entre os povos e agilizar o vasto mercado editorial em português, havendo o compromisso de se ir aperfeiçoando e corrigindo o Acordo. Passados tantos anos, é evidente que estes objectivos não serão atingidos. Nem se percebe, hoje, a óptica dos acordistasótica, segundo eles, passando-se a confundir visão e audição. Quanto à harmonização da língua, só piorou: com o primado da pronúncia e as duplas grafias criou-se um labirinto babélico.

Reina o caos ortográfico e grande número de publicações rejeitam o Acordo. À excepção de Portugal e do Brasil, e cada um à sua maneira, os outros países de língua portuguesa ignoram-no. E em Portugal, nem nos documentos oficiais o conseguem cumprir correctamente. Quanto ao aperfeiçoamento, a lógica linguística, nas suas várias especialidades (fonética, morfologia, sintaxe, semântica, lexicologia, pragmática, entre outras), foi de tal modo estilhaçada que não há emenda possível.

Como exemplifica o autor e revisor linguístico Manuel Monteiro, no seu imprescindível livro Por Amor à Língua (Objectiva, 2018), com inúmeras estranhas novas palavras como “corréu”, em vez de co-réu, ou “cocomandante”, em vez de co-comandante, ou “arquiteta” (a maior teta?, a teta mais importante?, será homenagem à arquiteta do Estado na qual também mamaram os acordistas?), havia, nos vários países lusófonos, 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes; havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais; e havia 1235 palavras iguais que se tornaram diferentes. Portanto, o desacordo é mais do dobro do Acordo.

Resta ultrapassar a casmurrice e voltar à norma etimológica que ainda norteou o Acordo de 1945, com as alterações introduzidas em 1971 relativas a alguns acentos que marcavam a sílaba subtónica nas palavras derivadas com o sufixo mente ou iniciado por z (ex.: sòmente, terrívelmente, sózinho, cafézinho).

Como diz Nuno Pacheco, intrépido anti-acordista do jornal Público, o único acordo admissível é reconhecer as variantes nacionais e fixá-las como partes de um corpo comum, o da língua portuguesa.

[Transcrição integral. Artigo da autoria de FRANCISCO MARTINS DA SILVA publicado no “Jornal  Oeste online”. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo (caixa de engraxador) de: Sofia Mendes. Imagem de rodapé (escovas de crina para escovar sapatos) de: “Como Limpar“.]

Chique chiqueiro

Chique, chicana, chiqueiro, ou os ecos de uma saraivada ortográfica

Nuno Pacheco, 28 de Maio de 2020

 

Já o Dia Mundial da Língua Portuguesa ia longe, entendeu o arquitecto Saraiva preencher a sua “Política a Sério” e ao Sol com esta extraordinária tese: “É chique dizer mal do Acordo”. O que o animou a pegar no assunto? Coisas que ele não percebe e outras que lhe dão vontade de rir. Não percebe, afirma, “o encarniçamento de algumas pessoas contra o Acordo” (o Ortográfico, convém esclarecer), pessoas que ainda por cima falam dele “como se fossem especialistas da Língua”; e dá-lhe “vontade de rir quando certas pessoas que não conseguem escrever duas frases seguidas se põem a criticar o Acordo com ar superior”. Ainda se ri mais quando lê no fim de certos textos de alguns colunistas esta nota “profundamente ridícula”: “Este artigo não respeita as regras do Acordo Ortográfico”. “Devem achar que é chique. Que os faz entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto”, conclui Saraiva.Num curto parêntese, convém dizer que esse problema não afecta jornais como o Sol, onde colunistas que, sendo publicamente contra o Acordo Ortográfico e recusando-o na sua escrita corrente (como António Bagão Félix ou Guilherme Valente), são “traduzidos” para “acordês” sem qualquer nota. Talvez por ser ridícula uma nota a dizer: “Este artigo foi ortograficamente alterado contra a prática dos seus autores.” Do mesmo mal padecem o Jornal de Letras (onde os opositores ao Acordo aparecem sempre “traduzidos”) ou o Expresso, que, no entanto, abre escassas excepções a seguidores da “antiga ortografia” — Saraiva há-de achar que cronistas como Miguel Sousa Tavares ou Pedro Mexia são dois “chiques” que anseiam, com tal aviso, “entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto.”

O problema é que Saraiva, que manifestamente não percebe mesmo nada deste assunto, não se fica por curtas graças solares. Também adora retirar delas alguma moral. E conta uma história que, garante, se terá passado com o seu pai, o historiador António José Saraiva (1917-1993). Diz Saraiva filho, o arquitecto, que quando “começaram a ser conhecidos os termos do Acordo Ortográfico, com muita gente a ridicularizá-lo”, decidiu visitar Saraiva pai. “Fui a sua casa e perguntei-lhe o que achava do assunto — certo de que arrasaria o Acordo.” Ou seja, certo de que o pai seria um dos “chiques”. Mas a resposta espantou-o — e aqui é o filho a falar pelo pai, valendo o que vale: “Oh Zé, o mais importante é que os portugueses e os brasileiros façam um esforço de entendimento para que as duas escritas não divirjam muito. Agora, escrever uma palavra assim ou assado não tem importância nenhuma.” Espanto do filho: “Foi para mim uma lição.”

Pois se foi, ficou por aí. Recuando uns aninhos, quando se discutia a insana proposta de Acordo de 1986, que antecedeu o actual, escreveu o arquitecto num editorial do Expresso, de que era então director, em 24 de Maio desse ano: “Se as modificações acordadas no Rio de Janeiro há quinze dias forem ratificadas, o português escrito será quase uma nova língua.” Crítica? De modo algum. Mas resignação: “Portugal terá pois de se sujeitar, substancialmente, à ortografia do português tal como se escreve hoje no Brasil e à evolução que ele for tendo neste país.” E em Junho concluía: “Para que o português escrito aqui e no Brasil seja igual é necessário que Portugal passe a fazer regularmente também modificações… que, muito provavelmente, afastarão cada vez mais a nossa ortografia do modo como pronunciamos a língua”. Acertou. Porque a fala tem vindo a alterar-se devido aos artificialismos impostos à ortografia.

Agora, no texto do Sol, afiança que não se pode dizer que este é um “acordo falhado”, porque “os dois maiores países da CPLP, Portugal e Brasil, assinaram-no, e este era o objetivo [sic] principal: que os outros o adotem [sic] ou não, é um problema deles.” Os dois maiores países da CPLP, foi o que disse? Em influência? Em área geográfica? Em número de habitantes? Em rendimentos? Más contas, para um arquitecto. Mas certas, no raciocínio dos autores da coisa, e aqui ele também acertou: o Acordo é, na verdade, uma manigância luso-brasileira mascarada de multinacional. Na matrioska ortográfica imaginada (e aceite) por Saraiva há um bojudo Brasil que encaixa um menos anafado Portugal, dentro do qual se enfiariam, sempre por submissão ao primeiro, os “irrelevantes” países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e o longínquo Timor-Leste. “Adotem [sic] ou não, é um problema deles.”

Mas não era problema nosso? Não era para unificar a ortografia toda? Era. E é por isso que está mais dividida; que no Brasil se escreve “aspecto”, “infecção” e “recepção”, como dantes, e que em Portugal passou a escrever-se “aspeto”, “infeção” e “receção”; que nos correctores do Word continua a haver duas variantes ortográficas, a de Portugal e a do Brasil, sem espaço para mais. Não é como estávamos? Só na aparência. Porque é pior, muito pior. Agora lemos títulos inimagináveis como este (dia 26, online no Expresso, jornal que Saraiva já dirigiu): “Covid-19: BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos [sic] da economia.” Passando o chique, o Acordo já foi chicana e agora é um chiqueiro. Só que nada nos obriga a viver nele.

Nuno Pacheco

[Os destaques, sublinhados e “links” (a verde) são meus.]

«Fora-da-lei» [“Público” 20.05.20]

O Acordo Ortográfico e o fora-da-lei

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

“Sou assumidamente um fora-da-lei, passei a ser um autor clandestino. Sou também um analfabeto porque me recuso terminantemente a cumprir um acordo ortográfico imbecil que assassinou o meu português. Sinto-me chocado e de luto pela língua portuguesa, mas comigo sei que tenho milhões que também não compreendem aquilo que aconteceu. Nenhuma língua pode ser alterada e imposta por decreto, cerceando a nossa liberdade e inteligência.”
Pedro Barroso, músico, compositor e professor

Em época de pandemia, em estado de calamidade, para combater as agruras do isolamento, e durante o pouco tempo livre que o ensino a distância permite, a literatura tem sido uma opção imperiosa. E como professor de Português mantenho, sem tréguas, a inquietação que este Acordo Ortográfico trouxe para o meu quotidiano escolar. Um Acordo Ortográfico que levianamente decidiu pela desvalorização da etimologia, fomentando sucessivos equívocos, e que se fez acompanhar de uma Nota Explicativa, incompreensível nas suas justificações e opções, irracionais e incongruentes.

Enquanto professor experiente o que mais me choca na referida Nota é a justificação, porventura a mais risível de todo o texto, em que os mentores da nova ortografia demonstram a sua enorme preocupação e infinito desvelo para com as pobres crianças que têm o português como língua materna. Ressalte-se ainda a circunstância de esta aberração ser desconhecida de grande número de acordistas, pensando muitos deles tratar-se de uma anedota:

De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.

Perante isto, só podemos concluir que os redactores do AO90 têm em muita pouca conta as capacidades das “crianças” lusófonas, apetecendo-nos perguntar como é que as outras crianças que usam outras línguas conseguem memorizar todos os grafemas não articulados e as diferentes representações gráficas para o mesmo som? Por exemplo, no francês, com a palavra brouillé [bʀuje] que apresenta oito grafemas e cinco fonemas ou no inglês, com knowledge [ˈnɒlɪdʒ] que apresenta também uma diferença substancial entre grafemas e fonemas. Como é que essas crianças conseguem?

Na perspectiva dos autores do AO 90, a memória já será bem utilizada num conjunto de adivinhas com que os alunos se deparam actualmente, seja por exemplo com a omissão das consoantes ditas mudas (c e p) ou com o hífen. É a língua, sem lógica, na base da incoerência do critério acientífico da pronúncia privilegiado pelos catequistas da nova ortografia:

— epiléptico e epilepsia, só uma destas palavras tem p. Qual será?

— ortóptico e óptico, só uma delas tem p. Qual será?

— bissectriz e trissectriz, só uma delas tem c. Qual será?

— Egipto e egípcio, só uma das duas tem p. Qual será?

— lácteo e lacticínio, só uma delas tem c. Qual será?

— infecção e infeccioso, só uma delas tem c. Qual será?

— cor-de-rosa e cor-de-laranja, só uma das duas tem hífen. Qual será?

— manda-chuva e guarda-chuva, só uma delas tem hífen. Qual será?

— pé-de-cabra e pé-de-meia, só uma delas tem hífen. Qual será?

A todas estas questões, poderá sempre acrescentar outra: porquê? Pode ainda adicionar mais uma: que ferramenta posso consultar para me assegurar que estou a cumprir escrupulosamente o acordo? Não faça perguntas difíceis, caro leitor.

Cada fonte consultada pode usar a sua versão do AO90. Se reparar, o jornal Correio da Manhã, o Expresso ou o jornal Record utilizam o acento na forma verbal pára, ao contrário do que estipula o texto do AO90. Há um ou dois dias, a propósito de manifestações pró-Bolsonaro, li num cartaz, num noticiário televisivo: “Ninguém para a juventude do Brasil!” O que significa isto? Como se lê isto?

Outro embuste recorrente é o de que as alterações ortográficas não teriam interferência na pronúncia. Nada mais falso! Temos, com regularidade, apresentado palavras acordizadas e solicitado a grupos de alunos que as pronunciem. Por exemplo, na palavra conceção (concepção em português vernáculo), 92,4% pronunciaram o e como se fosse uma vogal fechada [kõsəˈsɐ̃w̃] e apenas 7,6% pronunciaram [kõsɛˈsɐ̃w̃], com a dita vogal aberta. Números semelhantes ocorreram com as palavras invetiva e recetação.

Para quem duvida do caos que este AO trouxe, refira-se a utilização do hífen na locução substantiva “mão-de-obra”. Tem ou não hífen, agora com o AO90? Se consultar o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) não verá quaisquer vestígios dos dois hífenes, mas se, por exemplo, preferir pesquisar noutra ferramenta, na página da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, encontrará os ditos hífenes. E na imprensa? No Jornal de Notícias predominam as ocorrências sem hífen; no Diário de Notícias, no Jornal de Negócios e no I predominam as formas com os dois hífenes; no Observador e no Sol coexistem em número aproximado as duas formas. Caso idêntico se passa com “fora-da-lei”, evidenciando a salgalhada que por aí campeia. Consulte-se regularmente os órgãos de imprensa e ver-se-á repetidamente a oscilação entre as formas com ou sem hífen.

Mais uma dupla grafia em perspectiva?

Para quem continua a duvidar do caos ortográfico que se instalou no último decénio, contabilize-se, calmamente sentado, a profusão de fatos, contatos, artefatos e impatos que aparecem quotidianamente na comunicação social, nas legendas televisivas, no Diário da República e em documentação variada (dos privados às instituições). É também crucial indicar qual a fonte acordizada que utilizamos na nossa pesquisa porque cada uma dessas fontes segue uma diferente versão do AO90, uma espécie de marxismo com cinco tendências (Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo).

Como cidadão, lutando contra a inércia, continuarei a ser obstinadamente um “fora-da-lei”; como professor darei conta aos meus alunos do sem sentido de um “fora da lei”, ainda que a sabedoria oficial os force a escrever assim.

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

[Destaques, sublinhados e “links” meus. João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20. Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Logótipo: Facebook.]

Erros de português

clickbahia.com.br, 12 de Maio

60 erros de Português que tiram a credibilidade de qualquer pessoa

André Carvalho


No marketing digital, especialmente no marketing de conteúdo, os textos são ferramentas necessárias.

E digo “ferramenta” no significado correto da palavra: o texto é um verdadeiro instrumento da estratégia, utilizado a fim de entregar conteúdo relevante às personas, educá-las e fidelizá-las.

Para que isso aconteça, é indispensável que o texto seja confiável.

A “receita” básica para um texto assim, nós já temos: é preciso fornecer um tema pertinente, um assunto no qual a persona realmente tenha interesse, uma reflexão ou dica valiosa, a resposta certa para uma dúvida ou a solução eficiente para um problema.

Mas o que muitos não percebem é que a relevância do texto não depende apenas do seu grau de informatividade.

Não adianta nada ter a saída perfeita para uma situação da sua persona se você não consegue se expressar com clareza, se não é capaz de se fazer entender perfeitamente. Por isso, o bom uso da língua é o maior aliado de um texto valioso.

E uma coisa é fato: na língua escrita, a norma culta é a variante de prestígio. Na prática, isso significa que um texto bem escrito é valorizado, ao passo que um texto cheio de errinhos e inconsistências pode fazer o leitor torcer o nariz e desconfiar das competências do autor.

Não ganhar a confiança do leitor é apenas a primeira consequência dos erros, e a segunda é ainda mais preocupante: é muito pouco possível que alguém compartilhe e ajude a propagar um texto criticável. Isso é péssimo para o marketing de conteúdo, certo?

Para ajudar você a evitar essa situação, elencamos neste post 60 erros de português capazes de tirar a credibilidade de qualquer texto. Continue lendo e aprenda a deixar seus conteúdos impecáveis!

Os erros ortográficos são aqueles que não respeitam a maneira correta de escrever as palavras. Podem ser considerados problemas de ortografia:

1. Erros de digitação

Eles acontecem quanto você troca uma letrinha de lugar, ou digita um caractere a mais ou a menos. Percebeu algum erro assim na frase anterior? Foi proposital, para você entender como a troca de uma letra parece inofensiva mas pode quebrar o fluxo de raciocínio e confundir quem está lendo.

“Quanto” e “quando” são duas palavras em que isso ocorre bastante, assim como construções que podem terminar tanto com s quanto com r: internar / internas, por exemplo.

2. Confusão entre fonemas parecidos

Existem mais sons na língua do que sinais gráficos para representá-los. Assim, o mesmo fonema pode ser grafado usando várias letras diferentes. É o caso do som de “s” em “sítio” e “caça”, de “z” em “casa” e “azeite”, de “j” em “jiboia” e em “viagem”.

Essa semelhança entre fonemas é o que nos faz escrever “traz” (verbo) em vez de “trás” (preposição), ou formar frases como “Maria não quiz saber do ebook de André”.

A boa notícia é que esses equívocos são fáceis de solucionar: basta ter um dicionário por perto (pode ser um online, claro) e realizar uma revisão atenta no final. Você pode pedir para alguém ajudar ou revisar sozinho.

Nesse último caso, espere um tempinho após escrever o texto, para “esfriar a cabeça” antes da releitura. Outra dica importantíssima é sempre passar o texto por um corretor automático.

Caso seu os erros de digitação estejam frequentes, o ideal é fazer um curso de digitação para aprender as melhores técnicas e melhorar a sua coordenação, assim reduzindo os erros.

A acentuação também se encaixa na categoria de ortografia, mas, como são muitos os erros desse tipo, teremos um tópico apenas para eles. Confira abaixo!

Erros de acentuação

Crase

A rigor, a “crase” é uma junção de letras idênticas. Na língua portuguesa, a principal forma de crase é a ligação da preposição “a” com a letra “a” (geralmente um artigo definido), simbolizada por um acento grave que indica essa união (por isso este tópico se encaixa nos erros de acentuação).

Veja abaixo alguns dos equívocos de crase mais cometidos:

3. Crase antes de palavras masculinas

Como mencionado acima, a principal ocorrência de crase no Português é a junção da preposição “a” com o artigo definido “a”, usado apenas antes de palavras femininas. Como as palavras masculinas são precedidas do artigo “o”, a junção com a preposição resulta em “ao”. Por isso falamos:

“Eles vão à empresa e depois ao evento de marketing”

São incorretos, portanto,  os usos “à rigor” e “à respeito”, por exemplo. Nesses casos, apenas a preposição é utilizada: “a rigor” e “a respeito”.

Mas, como em toda regra, há uma exceção: quando a expressão “à moda de” está escondida na sentença, podemos dizer, por exemplo: “bife à Osvaldo Aranha” ou “cantou a canção à Roberto Carlos”.

Nesses casos, o acento indicativo de crase é um grande aliado da desambiguação: se dissemos “cantou a canção a Roberto Carlos”, quer dizer que a pessoa cantou para o Rei, e não imitando-o.

4. Crase antes de demonstrativos

Outra exceção para a proibição do acento indicativo de crase com palavras masculinas é diante do demonstrativo “aquele”. Isso acontece porque a preposição “a” se junta à primeira letra do pronome, que é idêntica. Dessa forma, quando temos verbos ou expressões que exigem a preposição a + “aquele”, podemos dizer:

“o post fez referência àquele curso de marketing de conteúdo”.

Entretanto, alguns demonstrativos não começam com a letra “a” nem são acompanhados do artigo “a”. Por isso é errado utilizar a crase em frases como: “o post fez referência à essa cartilha”. Nesse caso, usamos apenas a preposição: “…fez referência a essa cartilha”.

5. Crase antes de palavras femininas no plural

Ok, já sabemos que a crase ocorre quando há junção da preposição “a” com o artigo “a”. Mas e quando a palavra seguinte está no plural?

Nesses casos, o correto é fazer a junção com o artigo no plural, naturalmente: a + as = às. Outra opção é utilizar somente a preposição. Mas é importante notar que essa escolha faz diferença no sentido da frase. Observe:

Quando dizemos “o post faz referência a cartilhas de segurança”, podem ser várias cartilhas, indeterminadas. Quando dizemos “o post faz referência às cartilhas de segurança”, são cartilhas específicas, que devem ser mencionadas em algum outro lugar do texto. As duas opções estão corretas, dependendo do sentido que você quer dar à frase.

Mas é incorreto dizer “o post faz referências à cartilhas”, porque, como não há o artigo no plural, não há com o que a preposição se juntar. Isso impede a crase (junção) e o uso do acento grave.

6. Crase antes de verbos

A lógica se aplica aqui mais uma vez: a crase (junção) só ocorre quando há uma letra idêntica imediatamente após a preposição. Assim como os pronomes demonstrativos, os verbos não admitem artigo (pois artigos são acompanhantes de substantivos).

Dessa forma, não há com o que a preposição se juntar. É incorreto, portanto, falar “à partir” ou “à combinar”: usamos apenas a preposição nesses casos: “a partir” e “a combinar”.

É bom lembrar que em algumas situações a crase pode até ser facultativa, mas ela é muito útil para preservar o sentido correto da frase.

Por exemplo, há muito menos perigo em “receber a bala” do que em “receber à bala” — a não ser, é claro, que a bala da primeira sentença seja oferecida por um estranho em uma van!
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