Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ensino

De novo, a “maravilhosa projecção internacional da língua”

Director de centro cultural português proibido de entrar na Rússia

Responsável admite que a continuidade da escola, situada em Moscovo, está em risco.

David Andrade (em Moscovo)
“Público”, 20 de Junho de 2018

 

Encontrar quem diga duas ou três palavras numa língua que não a russa nas ruas de Moscovo é um desafio. Poucos, quase todos jovens, desenrascam-se em inglês, mas as várias décadas de isolamento internacional na era soviética resultaram em que quase todos os habitantes da Rússia sejam monolingues. Há, no entanto, quem procure inverter essa realidade. Situado a cerca de dois quilómetros do Kremlin, o Centro de Língua e Cultura Portuguesa (CLCP) conta com dez professores e cerca de 250 alunos, 90% deles russos, que procuram nesta escola aprender a língua lusa. Porém, Stanislav Mikos, director e fundador da instituição, está há um ano proibido de entrar na Rússia, cenário que, segundo o próprio, pode levar ao encerramento do único centro que possui um protocolo com o Instituto Camões no país.

Nasceu na antiga União Soviética, em Kiev, e é filho de pai polaco e de mãe russa, mas, como sublinha em conversa com o PÚBLICO, é “cidadão português” e não tem qualquer outra nacionalidade. Stanislav Mikos abandonou a capital da Ucrânia quando tinha 11 anos. Cresceu nos Açores e viveu também no Porto, cidade onde se licenciou em Música e em Letras. Em 2005, mudou-se para Moscovo, fundando no ano seguinte uma escola de língua portuguesa associada à embaixada portuguesa, que posteriormente se transformaria no CLCP.

“Na altura não havia nenhuma escola de língua portuguesa e a embaixada recebia telefonemas de pessoas em Moscovo que estavam à procura de uma possibilidade de aprenderem português. Como uma das minhas licenciaturas é na área de Línguas, o embaixador sugeriu que tomasse a iniciativa de abrir uma escola. Na altura era o único que dava aulas. Agora somos dez professores — quatro portugueses e seis russos — e temos cerca de 250 alunos”, explica.

O único estabelecimento de ensino em Moscovo onde só se ensina português tem, no entanto, outras valências. “Não nos limitamos a ministrar aulas de português. A promoção da cultura portuguesa também é uma prioridade. Organizamos bastantes eventos, normalmente em colaboração com a embaixada, e, pelo menos duas ou três vezes por ano, organizamos visitas de estudo a Portugal para os nossos alunos.”

Sem explicações

Numa dessas visitas, realizada em Maio do ano passado, aconteceu o que, garante Stanlislav Mikos, só “pode ser um equívoco”: “Quando estava a regressar, apresentei o meu passaporte na alfândega russa e disseram-me que o meu nome estava na lista de pessoas a quem a entrada no país estava proibida. Disseram-me para pedir mais informações na embaixada da Rússia em Lisboa. Foi o que fiz, mas não me foi dada qualquer explicação. A nossa embaixada em Moscovo também dirigiu uma nota diplomática ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a questionar por que motivo foi proibida a entrada na Rússia do director do Centro de Língua e Cultura Portuguesa, mas também não recebeu qualquer resposta.”

Apesar de continuar a dirigir o CLCP através de Lisboa, Stanislav Mikos admite estar neste “momento a lutar para salvar o centro” e que está “a perder a luta”. “As autoridades portuguesas não nos prestam qualquer apoio para me ajudar a voltar ao meu posto de trabalho. Nem sequer me ajudam a averiguar as razões do que se passou. Tendo esgotado todas as outras possibilidades, cheguei ao ponto de escrever à Presidência da República, pois o nosso Presidente estará na Rússia para assistir ao jogo Portugal-Marrocos”, revela.

Confrontado com “uma nova equipa diplomática portuguesa em Moscovo”, que “provavelmente não quer mais um problema”, este português prevê que “caso não haja nenhuma evolução positiva nos próximos meses, é bem possível que o maior centro de língua portuguesa na Rússia esteja a completar o 12.º e o último ano da sua existência”.

[“Público”, 20.06.18. Transcrição integral. “Links” e destaques meus.]

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“Cidadãos dóceis”

 

«O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.»

 

Iliteracia

O dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para citar um dos mais utilizados actualmente sem entrar em obras mais complexas, apresenta os significados seguintes para iliteracia:

“1. Qualidade ou condição do que é iletrado. 2. Estado ou condição de quem não sabe ler nem escrever. = ANALFABETISMO, ALITERACIA, ILETRISMO 3. Incapacidade para perceber ou interpretar o que é lido.”

Há, no entanto, diverso tipo de iliteracias: científica, política, digital, em saúde, mediática… Vou centrar-me na iliteracia mediática e tecer algumas considerações acerca das suas causas e consequências.

Segundo estudos recentes, quase metade da população portuguesa em idade activa não possui conhecimentos funcionais mínimos.

Quer isto dizer que, embora saibam ler, escrever e contar, o seu nível de conhecimento (literacia) é insuficiente para o cabal desempenho das funções que exercem. A acreditarmos no Relatório do Desenvolvimento Humano publicado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) 48% da população portuguesa é considerada iletrada funcional, valor mais elevado da União Europeia.

Esta aparente realidade pode parecer-nos insólita! Então não basta saber ler para entender o que se lê?!

A comunicação social fez eco da existência de mais de meio milhão de portugueses analfabetos. Não é desses que aqui falo. Falo dos mais de 90% de alfabetizados cuja literacia andará perto dos 45%, segundo os últimos dados.

A ser verdade, só cerca de 45% dos alfabetizados são capazes de ler um texto, observar um gráfico, perceber um aviso, um comunicado e interpretá-lo devidamente.

Os avanços da tecnologia proporcionaram-nos ferramentas e equipamentos capazes de nos proporcionar respostas imediatas (máquinas de calcular, computadores, gps, browsers da internet, telemóveis, etc.) o que nos torna cada dia mais preguiçosos.

Deixamo-nos embalar na aparente facilidade com que absorvemos horas de lixo televisivo, redes sociais e imprensa cor-de-rosa. Acreditamos nas notícias com que somos bombardeados 24 horas por dia de um modo acrítico e… desinformado!

Ouvimos políticos, comentadores, fazedores de opinião, “peritos”. Tudo isto sem que o nosso cérebro se rebele e tome o comando.

Sentamo-nos em frente da televisão e temos ao nosso dispor centenas de canais com informação, actualidade, entretenimento, debate político, desporto, novelas, filmes…tudo isso nos dá a falsa impressão de estarmos “informados”, “actualizados”, “conhecedores da realidade”.

O próprio sistema de ensino está construído nessa base. As famílias não têm tempo. As escolas debitam “informação” não ensinam a aprender e, muito menos, a questionar, a duvidar, a ter opinião devidamente estruturada e fundamentada. O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.

Evitemos as controvérsias sérias. Os problemas sérios. As situações graves que campeiam por todo o lado. Sejamos bons meninos. Bons alunos. Bons cidadãos. Bons trabalhadores.

A injustiça social, o compadrio, o roubo descarado, a corrupção, a injustiça, existem mas… há quem vele por nós! Há quem nos assegure que tudo vai melhorar quando A, B ou C for eleito. Vamos ter saúde, educação, segurança social, justiça.

Apesar de grande parte dos políticos, comentadores, mesmo jornalistas, se expressar mal na própria língua… nós acreditamos! A nossa iliteracia mediática leva-nos a acreditar em tudo o que ouvimos ou lemos, em especial, quando apoia os nossos secretos desejos de uma vida melhor.

A escola continua a ignorar que é preciso melhorar a literacia dos agentes de ensino e dos alunos, que é urgente encontrar novos modelos educacionais, que é fundamental apoiar uma aprendizagem mais personalizada, que é crucial preparar as pessoas para aceitarem a mudança, que é imprescindível ligar as aprendizagens extracurriculares dos alunos às actividades de aprendizagem em aula, que a escola deve guiar os alunos no conhecimento do processo de aprendizagem ao invés de debitar matéria que, frequentemente, já está desactualizada no momento em que é transmitida.

A iliteracia mediática e digital assume-se como uma nova forma de “analfabetismo funcional” que traduz a ausência de competências para existir e coexistir num contexto de uma sociedade global da informação.

Os hábitos de leitura, a análise factual, a dúvida metódica, a capacidade de pôr em causa tudo na procura da verdade, o pensar pela própria cabeça, a necessidade de fundamentar opiniões e certezas não se decretam, quando muito, incentivam-se. Se não tivermos uma estratégia para combater a iliteracia aos múltiplos níveis micro e ao nível macro, de nada nos serve a acessibilidade às mais diversas plataformas comunicacionais, às toneladas de informação que nos caem em cima diariamente. Continuaremos a sofrer de iliteracia.

[Source: «Iliteracia», “DN” Madeira, 17.06.18. “Links” meus.]

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‘Errare humanum est, sed in errare perseverare diabolicum’

«Essa expressão de “caos” estaria mais relacionada com o ensino da língua portuguesa agora usando o acordo ortográfico.»

«Foi a sensação que eu tive de que o ensino se estava a tornar num negócio. Tornou-se num negócio com esta implementação do acordo ortográfico.»

«Porque eu reformei-me, e reformei-me por não querer cumprir o acordo ortográfico, porque não o cumpria.»

«Não interessa que o ser-humano pense. O que interessa é que fique indiferente às coisas e que se torne um escravo e também, às vezes, um selvagem em relação aos outros.»

«Séneca tem uma frase: “errar é próprio dos homens, persistir no erro é próprio de loucos”. »

«Se o critério fundamental é a pronúncia, então cada qual escreve como quer.»

«Dizem que as crianças, se tirassem as consoantes mudas, era tudo tão mais fácil, ora, eu sou professora e nunca foi nas consoantes — nos C e nos P — que os alunos faziam os seus erros.»

«O acordo, o Tratado internacional é uma perfeita fraude.»

«Nenhuma Língua evolui por decreto. Esta língua, que é uma mixórdia em que eu não reconheço o Português, não evoluiu nada, isto não é evolução, isto é o contrário da etimologia da palavra ‘evolução’. Por isso, se a estupidez quiser vingar, e é estupidez se nada se fizer para recuar.»

Maria do Carmo Vieira

Da Capa à Contracapa

Andamos a tratar bem a Língua Portuguesa?

16 Jun, 2018

 

Os professores Maria do Carmo Vieira, Adelino Calado e Rui Afonso Mateus juntam-se a José Pedro Frazão para discutir o ensino do português e a forma como tratamos a Língua Portuguesa na nossa sociedade.

Esta semana no “Da Capa à Contracapa” fala-se do ensino do português e a forma como tratamos a Língua Portuguesa na nossa sociedade.

Professores do Ensino Secundário, Maria do Carmo Vieira, Adelino Calado e Rui Afonso Mateus têm leituras muito próprias e críticas do sistema e do ensino, também das pedagogias aplicadas. Em particular no ensino do Português.

O Professor Adelino Calado, não sendo professor da mesma área, pois leciona Educação Física, é diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos onde tem implementado medidas inovadoras como acabar com os TPC convencionais, os exames ou os toques de entrada. Com a sua ajuda lançamos também um olhar sobre a escola de hoje, trazendo ainda algumas ideias para a escola do futuro.

E recomendamos a leitura dos ensaios da fundação Francisco Manuel dos Santos sobre o tema: nomeadamente os dos autores que convidamos: o Ensino do Português e Literatura e Ensino do português.

O da Capa à Contracapa é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. A moderação como sempre é do jornalista José Pedro Frazão.

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“Do lirismo ao desastre” [Nuno Pacheco, “Público”, 14.06.18]

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

 

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre

Nuno Pacheco
“Público”, 14 de Junho de 2018

Os panegíricos em torno da expansão da língua portuguesa equivalem a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas. Um absurdo.

 

Inflada pelo 5 de Maio, Dia Internacional da Língua Portuguesa, e o 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, anda por aí a euforia do costume em torno da nossa língua. “A quinta mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul”, diz a propaganda, e os políticos rejubilam. “Trabalho bem feito, hã? Valeu o esforço, ora se valeu!” Há como que uma espécie de embriaguez que nos tolda os sentidos e nos impede de ver o que se esconde por detrás dos desejos, da retórica, das frases encomiásticas, das estatísticas que anunciam, sem pejo, que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século. É obra, senhores, é obra!

Mas é obra, sobretudo, da imaginação. Quem preza a língua portuguesa desconfia de tal abundância. Para que isso fosse verdade, era preciso haver um trabalho sério de difusão da língua à escala global (e difundi-la é fazê-la ouvir e ser utilizada no mundo, não é trocá-la pelo inglês à mínima oportunidade, como é hábito nosso), era não confundir língua com ortografia (e o malfadado “acordo” nasce desse equívoco espúrio), era olhar primeiro para a nossa própria casa, que tão desarrumada está, e só depois para o horizonte em torno dela.

O debate que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu no mais recente programa Fronteiras XXI, que a RTP3 transmitiu em directo no dia 6 de Junho, foi bem elucidativo dos equívocos que persistem. Ouvimos Onésimo Teotónio de Almeida, escritor radicado há 46 anos nos Estados Unidos, dizer que o “movimento de crescimento” do português está ali a ter uma curva descendente desde 2015; ouvimos, numa reportagem, dizer que em cada dez crianças que chegam à escola em Moçambique, só uma fala português, e que, segundo o último censo moçambicano, só metade da população fala minimamente o português (só um em cada dez moçambicanos considera o português língua materna, disse-se também); ouvimos Germano Almeida, escritor cabo-verdiano recém-distinguido com o Prémio Camões, dizer que “Cabo Verde não é um país bilingue, é um país que tem uma língua que é o crioulo” e que “talvez 10% da população fale português” em Cabo Verde, sendo que “mais de 50%” entende a língua portuguesa (os restantes, conclui-se, nem sequer a entenderão). A este quadro, poderíamos juntar uma notícia inquietante desse mesmo dia 6: Angola vai pedir adesão à Commonwealth (comunidade com 53 países de língua inglesa) e à Francofonia (57 países), no que, aliás, não está isolada, já que Moçambique pertence também à Commonwealth, pertencendo Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, ambos, à Organização Internacional da Francofonia. Talvez em “troca”, França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia pedem agora adesão à CPLP, como observadores.

Perante tal quadro, que reacções houve? Preocupação? Insistência num trabalho mais firme e profícuo? Não, muito pelo contrário. Ouvimos, espantados, dizer que “o português nunca esteve tão bem”, que “continua firme”, que “está muito bem e recomenda-se”. E ouvimos Luís Antero Reto (um dos autores do panegírico Novo Atlas da Língua Portuguesa) dizer que “o facto mais significativo da língua portuguesa é o seu potencial de crescimento neste século”, garantindo que o português “é a língua que mais cresce a seguir ao árabe” por estar em mais continentes. Estar, está; mas de que modo? Disso os “promotores” da língua não querem saber. Há escolas a ensinar português na China, e isso basta-lhes, é sinal de “crescimento” (e logo na China, caramba!), mas ignoram que mesmo debaixo dos seus olhos Moçambique está como está; Angola afasta-se; o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa); Cabo Verde, São Tomé e Guiné privilegiam, compreensivelmente, os respectivos crioulos; e a língua portuguesa, em todo este enorme universo, corre o risco de minguar em lugar de expandir-se.

Ouvir os arautos desta mirífica expansão é como assistir a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas: um absurdo. Nos anos 1970, o PPD tinha um curioso slogan: “Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”. Os anarquistas, cáusticos, acrescentaram-lhe um comentário: “Tomem a pílula”. Pois na língua portuguesa não precisamos: já tomámos a pílula da inconsciência, do lirismo e do desvario. A continuar assim, nenhum discurso nos valerá. A menos que abramos os olhos.

Nuno Pachecho

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pacheco, publicado no “Ipsilon” (suplemento do jornal “Público”) em 14.06.18. Inseri “links”. Imagem de topo de: RTP.]

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Outra academia vandalizada por um bando de “hooligans”

«É que isto não é uma questão linguística, é uma questão política.»

Malaca Casteleiro
Jornal Expresso, 20.02.08

1. «Dizer que o Brasil cedeu alguma coisa é de uma hipocrisia total» [Artur Anselmo, “Público”, 12.11.16]
Artur Anselmo defende que o respeito pelas normas de cada país é essencial para um bom entendimento em matéria ortográfica: um mesmo sistema, o da Língua Portuguesa, e várias normas, consoante os países a que digam respeito. E isto dispensaria um acordo.

2. «Academia e bom senso» [Nuno Pacheco, “Público”, 15.11.15]
Do presidente da Academia, Artur Anselmo, ouvimos esta declaração: “A Academia não foi consultada no momento em que um ministro da Cultura decidiu pôr em vigor o que ainda estava em discussão” (o acordo ortográfico de 1990, AO90). (…) Ah, e o Vocabulário Ortográfico Comum, essa coisa essencial ao acordo que devia estar pronta logo, logo?

3. Artur Anselmo: «situações que ferem a nossa inteligência (12.12.16)»
“Nós consideramos que o normal é o respeito pelas ortografias nacionais”
O presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Artur Anselmo, anuncia para Janeiro um documento chamado ‘Subsídios para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico’. É o retomar da polémica pelo lado científico, num campo em que “a política é incompetente”.

4. “Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!
As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. (…) A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

5. (…) uma vez que o acordo entrou em vigor por indicação do Ministério e que os manuais escolares e os dicionários começaram a escrever-se com o acordo, se agora quisermos voltar para trás, e queremos, a maior parte das pessoas querem, o que é que acontece? Acontece aquilo que eu não sabia e que provavelmente a maior parte das pessoas não sabe: é que o Ministério não pode, porque os editores assinaram um protocolo com o Ministério, segundo o qual — e isto é feito nas costas da população e a população não sabe — o Ministério tem que indemnizar regiamente os editores da despesa que já foi feita. [Maria Alzira Seixo, Março 2013]

Acordo Ortográfico. Academia das Ciências de Lisboa disponibiliza vocabulário ortográfico “online”

A Academia das Ciências de Lisboa (ACL) vai disponibilizar, no domingo, um novo vocabulário ortográfico online, em www.volp-acl.pt, que permitirá “a pesquisa de mais de 215.000 entradas”.

No comunicado enviado nesta sexta-feira, a ACL afirma que “este recurso contempla a variedade portuguesa da língua e segue a nova ortografia, podendo ser acedido gratuitamente”, e inclui “informações sobre a classificação gramatical, indicação de pronúncia, e muitos outros elementos úteis”.

A colocação online do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), no domingo, celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, e contou com o apoio do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa (ILLLP).

Esta é a primeira vez que a ACL apresenta uma página na Internet, inteiramente dedicada à língua portuguesa, “dando garantias de uma actualização diária dos dados lexicais”, assinala a mesma fonte, acrescentando que, “do ‘corpus’ reunido no Vocabulário, cem mil vocábulos irão constituir a nomenclatura do novo Dicionário da Academia”.

Os mais de 215.000 vocábulos que constituem o VOLP, além de informação sobre a classificação gramatical e indicação de pronúncia, refere as formas irregulares femininas e plurais de compostos.

A lista vocabular inclui nomes próprios, designadamente, antropónimos e topónimos entre outros.

“Apesar de a lista de entradas ter sido actualizada ortograficamente, as grafias, segundo a norma de [19]45 são pesquisáveis e remetem para as formas segundo o Acordo de 1990”, refere a ACL, acrescentando que o VOLP “integra as formas não adaptadas ao português, ou seja, vocábulos de origem estrangeira que não se encaixam na matriz ortográfica portuguesa”.

Relativamente aos estrangeirismos, a ACL adianta que “foram alvo de uma rigorosa selecção e são devidamente assinalados como tal”.

Telmo Verdelho, presidente do ILLLP, citado pela ACL, afirma que o novo vocabulário “responde à necessidade de promover a unidade, a defesa e a abundância da língua, actualizando os vocabulários anteriores e promovendo o registo do fluxo inovador resultante do convívio interlinguístico e da criatividade lexical dos falantes e dos escritores”.

A ACL assinala o “empreendimento demorado e trabalhoso” que sustenta o novo VOLP, pois, apesar de dar sequência às anteriores edições académicas, “foi elaborado inteiramente de novo”.
A recolha lexical foi Ana de Castro Salgado, do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, coordenadora do projecto, e contou “com a colaboração de vários membros da ACL, especialmente no que concerne a termos pertencentes a diferentes áreas de especialidade”.

No mesmo documento a ACL afirma-se “consciente de que há ainda muito trabalho pela frente”, e “reconhece que este é um passo muito importante”.

Para a ACL, “vivendo na era digital, este é um recurso que se impunha necessariamente à instituição”.

https://www.publico.pt/2018/06/08/sociedade/noticia/academia-das-ciencias-de-lisboa-disponibiliza-vocabulario-ortografico-online-1833793

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«Independentemente da realidade» [Francisco Miguel Valada, “Luso Productions”]

Francisco Miguel Valada e a questão controversa do Acordo Ortográfico

Luso Productions, 08.06.18

 

LusoProductions – Em 2009 publicou a obra “Demanda, Deriva, Desastre – os Três Dês do Acordo Ortográfico”, onde criticava duramente o AO. Mantém hoje a mesma posição?

Francisco Miguel Valada Digamos que mantenho a mesma posição, mas tecnicamente ainda mais fundamentada, pois entretanto também aprendi mais. Infelizmente, agora tenho exemplos concretos para apresentar, em vez de meras hipóteses, de meras simulações, como em 2009, uma vez que – na óptica do poder político – o Acordo Ortográfico de 1990 está em vigor. Logo, há muito material à disposição, não só para confirmar o desastre, mas também para demonstrá-lo a todos em geral e aos catequistas da nova ortografia em particular.

LP – Considera que a aplicação do Acordo Ortográfico continua ainda hoje a levantar problemas e a apresentar fragilidades ou é hoje já consensual o seu uso?

FMV – Basta consultar o Diário da República, para se ter uma ideia bem clara do caos a que isto chegou. No Diário da República, há ‘fatos’, há ‘contatos’, há ‘contatar’, há ‘contatado’ e, pior, há gente que envia para lá textos a achar que assim é que está bem, há outros que por lá andam e não corrigem, porque acham que está bem assim, e temos ainda outros que são responsáveis por isto tudo e que assobiam para o ar. Mas não é só no Diário da República. Qualquer jornal que adopte o AO90… Ia falar-lhe do Expresso, mas deixe-me dar-lhe um exemplo da imprensa regional, tão importante e tão pouco falada. Num dos últimos números do diário “As Beiras”, podemos ler “elementos fatuais” em vez de “elementos factuais”, numa entrevista a um professor, por acaso, defensor do AO90. Um leitor desse diário, um incauto que ache que o AO90 é criação de gente preparada, sábia, conhecedora e insuspeita, encontra “elementos fatuais”, acha que é muito giro, acredita na imensa sabedoria de quem produziu tal aberração e vai reproduzi-la, publicitá-la, divulgá-la e se calhar até defendê-la.

Portanto, respondendo à sua pergunta, o uso não é consensual e ainda bem. Se fosse, teríamos uma autêntica calamidade, em vez de um desastre. Posso acrescentar que, tendo em conta a proliferação de ‘fatos’, ‘fatuais’ e ‘contatos’, qualquer dia corremos o risco de alguém considerar que estas grafias são as correctas em português europeu, devido à frequência de uso, e decidir adoptá-las em conformidade, em vez de dar o braço a torcer e acabar com esta coisa duma vez por todas.

LP -Como vê o facto de a maioria dos países da CPLP não estar a respeitar a aplicação do AO?

FMV – Devo confessar-lhe que não me interessa por aí além aquilo que outros fazem em termos de adopção do AO90. Aquilo que me preocupa é Portugal querer à força toda adoptar o AO90, independentemente da realidade. Preocupar-me-ia imenso que Portugal deixasse de adoptar o AO90 porque outros não adoptam, em vez de deixar de adoptar o AO90 pelo motivo mais natural de todos: porque é inadequado para a norma portuguesa europeia. Preocupar-me-ia, repito. Todavia, considerando um certo historial, não me admiraria nada que fosse esse o caminho. Mas tendo em conta que actualmente há indivíduos que votaram contra o AO90 e adoptam o AO90 (ou permitem que lhes alterem a grafia original, o que se calhar até é pior) em publicações onde até se lhes permite a aplicação da norma de 1945, creio que temos aqui um problema mais grave, mais profundo, que vai além da distracção crónica.

LP – Não lhe parece que a unificação ortográfica entre os países da CPLP poderia constituir um motivo de agregação e de consolidação da identidade da língua portuguesa, para além, claro, de ser facilitadora da comunicação?

FMV – Nessa entrevista de que há pouco falava, o autor do texto produziu grafias como ‘perspetiva’, ‘conceção’ e ‘aspetos’. Estas palavras foram criadas pelo AO90 exclusivamente para fora do Brasil. Em Portugal, tais grafias são adoptadas por quem quer respeitar o AO90, mas são desconhecidas no Brasil, onde se mantêm a ‘perspectiva’, a ‘concepção’ e os ‘aspectos’. Se procura unificação ortográfica, recomendo-lhe que tente noutro sítio. Respondendo à sua pergunta: com este Acordo Ortográfico de 1990, tal fito é impossível. Andaram a vender essa ideia aos políticos que a aceitaram, a assinaram de cruz e andaram a pregá-la. Além disso, mesmo que tal objectivo fosse possível, seria indesejável, uma vez que perturba a qualidade ortográfica do português europeu. A procura dessa agregação e dessa consolidação só trouxe caos e confusão. A identidade da língua de que fala é constituída pelos hábitos linguísticos dos falantes dessa língua. Ora, o português dos falantes de cada um dos países com língua oficial portuguesa é necessariamente diferente e é um mundo interessante que deve ser estudado e explorado.
(mais…)

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