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«Não irmão mas sim filho» [por Octávio dos Santos, “DN”]

Não irmão mas sim filho

Octávio dos Santos

“Diário de Notícias”, 7 de Setembro de 2022

O Brasil celebra hoje, 7 de Setembro de 2022, 200 anos de independência. É uma data muito importante, realmente histórica, pela qual Portugal é o primeiro país a dar os parabéns e a desejar «feliz aniversário». Ao país irmão? Não, ao país filho. Sim, porque o Brasil é uma completa, total, criação de Portugal, que foi tanto «pai» como «mãe» entre 1500 e 1822…

… Período durante o qual sucessivas gerações de portugueses, cujo maior representante, símbolo, terá sido o Padre António Vieira, trabalharam para fazer da Terra de Vera Cruz a mais bela, a mais rica, quiçá perfeita, nação do planeta. Alargaram o território para além do Tratado de Tordesilhas e assim conquistaram praticamente todo o Amazonas, floresta e rio. Aos povos nativos juntaram europeus e africanos, criando condições para uma autêntica, e profícua, miscigenação. Deste lado do Atlântico levaram inclusivamente pedras com que se construíram fortalezas e igrejas. Providenciaram uma língua que constituiria o principal suporte da identidade e da unidade nacionais. E, algo de incrível nunca acontecido, visto, antes nem depois, fizeram da colónia o centro do império, Rio de Janeiro a substituir Lisboa como capital e metrópole, e a seguir permitiram que a família real portuguesa se tornasse também a brasileira, com o «Grito do Ipiranga» do herdeiro do trono a anunciar o «corte» do «cordão umbilical». Que se fez sem revolução, sem guerra, assim possibilitando à nova nação iniciar o seu próprio caminho sem drama, sem tragédia. Os brasileiros teriam preferido que tivesse acontecido o mesmo que nas independências dos Estados Unidos e da Argélia, marcadas por confrontos longos e sangrentos com, respectivamente, a Grã-Bretanha e a França? Sim, não se duvide: tudo o que de bom o Brasil teve e tem deve a Portugal. Pelo que não se compreende e não se aceita que, ainda hoje, tantos brasileiros, desde cidadãos mais ou menos anónimos a figuras públicas mais ou menos conceituadas, insistam no insulto de que os problemas que a sua pátria sofre(u) sejam culpa de Portugal. Tanta estupidez, tamanha falta de respeito, tal demonstração de ignorância, imaturidade e ingratidão, devem ser condenadas sem hesitação e sempre que se manifestem.

Nós deixámos de ser responsáveis por eles desde 1822, directamente, e desde 1889, indirectamente, quando D. Pedro II, após (e por causa de) abolir a escravatura, foi deposto enquanto chefe de Estado, e com ele a monarquia brasileira. Na verdade, os dois países foram, e são, prejudicados por repúblicas, ambas instauradas por golpistas fanáticos e minoritários, que não cumpriram plenamente o que prometeram, ou seja, ordem e progresso. Uma das áreas em que a desordem e o retrocesso mais se fizeram, e fazem, sentir é a da ortografia. As repúblicas de ambos os lados do Atlântico são reincidentes em obsessivas e absurdas «reformas» e (des)acordos quanto à forma de escrever, iniciativas que desvalorizam, enfraquecem, um vital instrumento de comunicação, com (más) consequências visíveis, inegáveis, nas culturas de ambas as nações. O maior extremismo, e até terrorismo, neste âmbito veio do Brasil em 1943, quando a ditadura de Getúlio Vargas consagrou um radical e generalizado corte de consoantes «mudas», ceifando as raízes latinas, que cobardemente as mais altas (ou baixas?) instâncias oficiais portuguesas viriam a «adotar» através do AO90. Os dois países são, neste aspecto, duas insólitas e ridículas, risíveis, excepções em todo o mundo civilizado, duas «repúblicas das bananas» típicas do Terceiro Mundo, terrenos férteis para o surgimento de «vanguardistas» patéticos que não hesitam em sacrificar os verdadeiros interesses, a estabilidade e o bem-estar da maioria dos seus compatriotas em favor de um falso progresso, de utopias que acabam por se revelar, inevitavelmente, como distopias. E tanto deste lado do Atlântico como do outro a «justificação» tem sido a mesma: simplificar e «facilitar» a aprendizagem; porém, tais objectivos não – nunca – foram atingidos, como o atestam os crónicos e elevados índices de analfabetismo e de iliteracia nas duas nações.
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Independência ou morte 2.0

Independência ou morte, de facto. Versão 2.0, como se impõe, porque 200 anos depois o sistema operativo é completamente diferente; invertido, por assim dizer, ou, na acepção clássica da expressão, o mundo ao contrário.

Ou talvez nem tanto. A natureza humana, persistindo em contrariar com factos horripilantes as belas teorias harpejadas por anjinhos celestiais com suas asinhas a dar a dar, encarrega-se desde sempre de ir demolindo com método e paciência qualquer realidade que não encaixe na narrativa do momento; mentindo por sistema, evidentemente, inventando e tergiversando a trouxe-mouxe, distorcendo e renegando qualquer verdade inconveniente.

Com imenso desplante e não menor descaramento. Por exemplo: «É frequente também ouvir comentários dirigidos a brasileiros como “Fala tão bem, nem quase tem sotaque”.»

Esta citação, retirada do texto abaixo transcrito, é uma das mais do que flagrantes mentiras contidas não apenas naquele textículo — e de tantos outros já aqui “servidos” de bandeja — como também na série de vídeos (“playlist”) acima.

Apenas por desfastio, evidentemente, no impossível caso de alguém ter alguma vez ouvido algo de semelhante à tal patranha de “fala tão bem”, então faria o favor de indicar — por exemplo, na caixa de comentários a este “post” — onde, quando e de quem ouviu ou se porventura é o próprio o autor de tão extraordinária coisinha. Um brasileiro em Portugal a fingir que imita o “sôtáki pórrtugueiss”? Não duvido, tenho a certeza: é mentira.

Da imensa colecção de galgas à brasileira (ou de brasileiristas), merecem também destaque os filmezinhos curtos na “playlist”, produzidos pela TV Senado — o equivalente ao nosso Canal Parlamento — contendo uma espectacular sequência de revisionismo histórico; sempre numa perspectiva hiper-nacionalista, como já vai sendo hábito dos governantes brasileiros, e da mesma forma mantendo o viés lusófobo, logo, preconceituoso e com evidentes traços de racismo, todas aquelas doses de intoxicação das massas — como se as ditas massas carecessem de ainda mais incentivos para detestar o tuga, o colonizador “ladrão” e “imbéciu” — servem apenas como ilustração, como uma galeria inteira de ilustrações, da forma “carinhosa” como alguns daqueles “irmãozinhos” de certos tugas “adoram eles”, como “adoram” Portugal e principalmente como não andam há 200 anos a culpar os portugueses por tudo aquilo que no Brasil correu e continua a correr mal. Pois não, que ideia, andam lá agora.

Aos permanentes insultos com que alguns (muitos) brasileiros mimoseiam todo o povo português respondem alguns políticos tugas com a mais abjecta bajulação, contorcendo-se e rastejando como verdadeiros artistas de circo, deliciados por vergar a cerviz perante o “gigante”.

Igual tara afecta não-políticos, isto é, pessoas que ao menos a julgar pelas aparências seriam normais. Porém, a pancada de teor sado-masoquista — inteiramente “passiva”, logo, exclusivamente masoquista — leva essa gente a atingir paroxismos de gozo, algo que remete para o (triste) axioma “quanto mais me bates, mais gosto de ti”. Deve ser isso, realmente. Se calhar, nem vale a pena escavar a fundo nos labirintos das perturbações mentais. A verdade é que há por aí uma data de indivíduos com semelhante pancada brasileirista, pessoal que “adora eles” à séria — e quanto mais pancada levam mais gostam, ui, adoram, levar porrada “é um barato, viu” –, daí a sua peculiar embirração para com quem sequer se atrever a insinuar que aquilo não é um comportamento normal.

Bem, mas há ainda quem se esteja completamente nas tintas para esse tipo de destrambelhados pruridos. Cá p’ra mim, em suma, abreviando longas considerações a respeito de tão pouco higiénico assunto, quem adora levar nas trombas é marado dos cornos.

O grito do Ipiranga

Ana Paula Laborinho

 

Tem sido muito destacado, por pouco habitual, também ser celebrado em Portugal o Bicentenário da Independência do Brasil. A data simbólica de 7 de Setembro em que D. Pedro rompe as relações de subordinação com Portugal e grita nas margens do Ipiranga “Independência ou Morte!“, permitiu, ao longo destes dois séculos, a visão romantizada do país colonizador que liberta a sua colónia. Decerto um dos melhores resultados destas comemorações tem sido a profusão de encontros científicos e publicações (livros, artigos, nomeadamente dirigidos ao grande público) que mostram a complexidade desse processo.

Ao longo destes 200 anos, vários movimentos migratórios têm levado e trazido comunidades que serviram para aproximar os dois países que (não será exagerado dizer) ainda se conhecem mal. De um lado e doutro, sobrevivem muitos estereótipos com a sua melhor expressão no anedotário vulgarizado. A língua portuguesa continua a ser considerada o traço de união mais permanente, embora com as diferenças que umas vezes são empoladas e outras ignoradas.

A chegada das telenovelas brasileiras a Portugal trouxe consigo um contacto com vocabulário e sotaques que, na altura, foram rapidamente assimilados. Muito desse vocabulário era, afinal, o regresso de palavras do português antigo que outras influências ou o caminho das palavras fizeram desaparecer ou substituir por distintos termos. Esquecemos que as línguas são corpos vivos que se transformam, embora seja necessário ter uma perspectiva longa para dar conta dessas mudanças. Se o português evoluiu do latim, começando por ser uma língua oral e absorvendo influências como o árabe, o português do Brasil cruzou-se com outras línguas como o tupinambá, o iorubá, mas também o espanhol, o francês e outros idiomas ao sabor da história.

Reconheço que o grande objectivo do Acordo Ortográfico de 1990 não foi alcançado: criar uma base ortográfica comum a todos os países de língua oficial portuguesa que permitisse, por exemplo, maior circulação do livro e de todos os produtos escritos, mas também contribuísse para a criação de um espaço de conhecimento comum, facilitando a mobilidade de estudantes e professores.
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A vitimização como arma política – 2

Gerundiando o estando ensinando

Como prevê expressamente o acordo cacográfico da língua brasileira, «há que procurar uma versão de unificação ortográfica que acautele mais o futuro do que o passado e que não receie sacrificar a simplificação também pretendida em 1986, em favor da máxima unidade possível.» Evidentemente, a expressão “unificação ortográfica” não passa de uma falácia repugnante, dado que as intenções subjacentes a essa “unificação” vão muito para além de tão impossível quanto absurda “minudência”.

As verdadeiras finalidades do plano estabelecido por meia dúzia são de carácter exclusivamente político-económico e geoestratégico: a anexação de Portugal — a sua soberania enquanto Estado, a identidade nacional, as suas Língua e Cultura — a um putativo potentado brasileiro de implantação mundial, através da criação da porta dos fundos para a União Europeia e à custa das outras sete ex-colónias portuguesas. O “acordo” de 1986 foi o ponto de partida negocial, sendo a oferta gratuita (a Língua Portuguesa e demais “facilidades”) oficializada através do AO90; a isto seguiu-se a invenção ad hoc da CPLB, em 1996, servindo esta “comunidade” (paga pelos contribuintes “tugas”) como cobertura política para os avanços da novel potência colonial e a referida versão final do “acordo” de 1990 funcionando como uma espécie de pretexto ideológico para atabalhoadamente “justificar” o golpe inicial por precaução e os subsequentes por antecipação.

Tem de facto costas largas, este “acordo” dito “ortográfico”. Largura essa que se resume ao ditame único “serve para tudo”. A pretensa “língua unificada” (a brasileira, claro) que teoricamente o justificaria serve como a camuflagem perfeita para a imposição selvática a Portugal (e PALOP) de uma língua alienígena — em todas as suas partes constituintes, não apenas numa única categoria gramatical — e para o esmagamento sumário, por arrastamento ou inerência, de todo e qualquer resquício da identidade nacional… portuguesa.

Os acontecimentos mais recentes envolvendo diversos episódios de supostos “racismo, preconceito e xenofobia”, dos quais vão resultando cada vez mais “queixas” que os media exploram até à náusea, servem na perfeição os fins em vista, ou seja, a cada vez mais descarada discriminação selectiva (dita “positiva”, em jargão politiqueiro), privilegiando com prerrogativas exclusivas os imigrantes de uma única proveniência em detrimento de todos os outros e das suas origens geográficas, culturais e identitárias — a começar pelos próprios portugueses, aos quais tais privilégios estão também vedados. Claro que, aliás na senda da narrativa habitual, a governamental hipocrisia e o proverbial mercenarismo dos órgãos de propaganda tratam imediatamente, munidos das suas pinças “ideológicas” de respeitinho a “eles, que são 230 milhões e nós somos só 10 milhões”, de produzir o máximo de ruído possível e de “tomar medidas” — sempre com os mesmos fins, os mesmos pretextos, os mesmos destinatários.

Em Portugal, de entre todas as comunidades de imigrantes (anglófonos ou francófonos e os provenientes de Ucrânia, Rússia, Roménia ou Moldávia, por exemplo) apenas os brasileiros se recusam sistematicamente a falar e ainda mais a escrever usando a Língua nacional; pelo contrário, aliás, os brasileiros fazem absoluta questão de impor aos nacionais a sua própria linguagem e não se coíbem sequer de manifestar irritação quando algum português se “atreve” a não entender o que dizem; fazem absoluta questão de jamais tentar sequer adaptar o seu linguajar às regras gramaticais mais básicas ou de usar um vocabulário inteligível ou as expressões idiomáticas mais comuns em Portugal. Nem quando eles próprios não entendem o que diz um português usam qualquer das formulações normais e usuais (como?, desculpe?, não entendi, como diz? etc.) ; em qualquer caso utilizam por sistema a interjeição que pelos vistos no seu país é a única: “oi”?

Este aparente pormenor é apenas mais um indício do bizarro fenómeno de “preconceito linguístico” ao contrário, ou seja, a imposição a quem está do “falar” de quem chega. Do “falar” e do “escrever”, bem entendido. Neocolonialismo de sentido inverso, portanto, uma horrorosa perversão politicamente motivada que vai muito para além do mero paradoxo semântico ou idiossincrático.

Estribado na pretensa língua “universau” brasileira (via AO90), o plano de erradicação da Língua e da Cultura portuguesas compreende a táctica de vitimização sistemática como forma de pressão acrescida para “agilizar” e “simplificar” — ou seja, abreviar — o esmagamento da soberania nacional. Esta táctica vai apresentando torções e contorções cada mais imaginativas e chocantemente óbvias, incluindo a vitimização por proxy e sempre contando com o precioso auxílio do chamado coitadismo militante: brasileiros queixam-se imenso de “racismo e xenofobia” e alguns portugueses correm a “solidarizar-se” com eles, coitadinhos, que são tão perseguidos, coitadinhos, e que até não são eles mesmos racistas e xenófobos nem nada, que ideia.

E depois, como seria mais do que previsível ainda nos anos 90 do século passado, a imposição ditatorial do AO90 tem vindo a revelar-se bem mais catastrófico do que aquilo que na altura foram capazes de prever alguns especialistas em linguística, História e pedagogia. Com o tempo, fomos verificando que afinal qualquer parecer seria redundante e frívolo, mero exercício de entretenimento político (todos eram contra, todos foram arquivados, nenhum produziu qualquer efeito); aliás, nem dez vezes mais pareceres e nem mesmo caso incluíssem áreas tão imprescindíveis como a sociologia e, principalmente, a psiquiatria (o “acordo” foi o alucinado resultado de uma obsessão esquizofrénica), pois nem assim serviriam para alguma coisa os estudos de ainda mais prestigiadas autoridades intelectuais. A decisão é política, foi tomada politicamente (mas nunca assumida como tal) e “portanto” a “legitimidade” conferida por uma minoria da população “autorizou” alguns políticos a cozinhar a sua abominável negociata e a impô-la sumária e abusivamente a todos os portugueses.

Algumas das consequências do desastre cacográfico e da submissão canina a uma potência estrangeira têm-se revelado das mais variadas e igualmente imaginativas formas, principalmente aquelas que se revestem de especial ridículo.

É miserável mas não deixa de ser caricato o que vai sucedendo, por exemplo paradigmático, no assim dito “sistema de Ensino” indígena: evidentemente, visto que “eles são 230 milhões e nós somos só 10 milhões”, então há que — além de escrever como “eles” falam — “facilitar” e “agilizar” também o percurso académico “deles” (e só deles, para os alunos portugueses fica tudo na mesma), aceitando que escrevam como falam (ou como de resto lhes der na real gana). Este aparente conflito resultante da aculturação selvagem deixará de o ser de imediato, como que por milagre, com o estalar de dedos do costume — ou seja, via “orientações” internas da tutela, na secretaria da 24 de Julho, e de seguida com a consagração legal na respectiva linha de montagem, a São Bento.

Professores querem regra clara do Iave sobre variante brasileira em exames de Português para evitar desigualdades

Associação de professores vai levar tema a reunião ao conselho científico do Iave. A variante brasileira deve ser aceite em exames? Há professores que dizem que “a língua é a mesma” e quem defenda que alunos se devem adaptar, outros falam em “xenofobia linguística”. Alunos comentam: “Pode ser muito frustrante escrever na sua própria língua e ser penalizado, quando no seu país não era errado”.

 

João Rodrigues, professor na Escola Secundária Rainha Dona Amélia, em Lisboa, não corrigia exames de Português do 12.º ano havia alguns anos. Mas este ano teve que penalizar respostas escritas na variante brasileira de Português que não iam ao encontro da norma do padrão do português europeu. “É revoltante quando a expressão sintáctica está correcta [na variante brasileira] e tenho que penalizar. Revolta-me bastante porque sinto que estou a prejudicar e a discriminar os alunos”, afirma ao PÚBLICO.

Foi o que aconteceu com os estudantes cujos exames classificou, um deles poderia ter uma nota superior aos 12 valores que atribuiu: “Se não tivesse a penalização”, poderia ter chegado aos 14 ou 15, afirma. “Um falante da variante brasileira dificilmente consegue esquecer aquilo que é a sua norma, pelo que me parece muito injusto a aplicação deste critério.”

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Gabinete de quê brasileiro em Lisboa?

Página “edição Portugal” da agência informativa espanhola EFE. Como tantas outras páginas do género (BBC, Twitter, Facebook, Google, ONU), também está redigida em brasileiro: “contato”, “prêmios” etc.

 

O cansaço é perfeitamente natural e aceitável quanto ao já enorme acervo noticioso e documental que envolve tudo aquilo que aqui foi dito e repetido, explicado, demonstrado, ilustrado. Esse cansaço (público) é o princípio fundamental da estratégia acordista e a anestesia mental a sua técnica de eleição. É à base de cansaço e anestesia que podem instaurar a política do facto consumado.

Boa parte dos episódios e incidências que marcam o processo de demolição cultural em curso têm sido neste “blog” persistente e sistematicamente relatados, escalpelizados, documentados, outro tanto sucedendo — as duas realidades são concomitantes e consequentes — com a metodologia e os objectivos de cariz político-económico que enformam o AO90 enquanto instrumento primordial do linguicídio do Português.

Efectivamente, desde o lançamento do plano de brasileirização, através e a pretexto de uma pretensa “unificação ortográfica”, até às mais recentes movimentações de bastidores, em especial nos meandros esconsos da chamada “diplomacia”, passando pelas sucessivas campanhas de propaganda e lavagem cerebral em massa através dos mais diversos organismos oficiosos, por fim já vamos vendo que afinal todas as peças do puzzle encaixam mesmo, que afinal não havia pessimismo algum nas previsões, que afinal as “teorias da conspiração” não eram teorias coisíssima nenhuma.

O plano original, ainda em tosco, urdido por meia dúzia de portugueses que foram expressamente ao Brasil traficar a Língua Portuguesa, nos idos de 1985 e 86, foi posteriormente redesenhado — então já com os préstimos de verdadeiros profissionais em desinformação, especialistas em psicologia de massas e especuladores bolsistas de alto gabarito — tendo sido “implementado” à força com base no “acordo” de 1990. Após um longo período de aparente letargia, a marcar passo, e contando com um paciente trabalho de “remoção” de obstáculos (apadrinhamento presidencial e governamental, assinaturas de 3 valendo por 8, pareceres ignorados, opositores silenciados, garantia de aprovação parlamentar), o AO90 seria finalmente aprovado em 2008 com a conivência da esmagadora maioria dos deputados que passeiam seus bocejos pelos Passos Perdidos.

Com tamanho triunfo nas mãos, o que equivalia a um cheque em branco passado pelo Estado português ao portador, então sim, o plano de brasileirização foi lançado a todo o vapor. A transcrição fonética do falar “culto” brasileiro — nisso consiste o acordo que de ortográfico nada tem — tornou-se obrigatório no Ensino e em todos os organismos oficiais (portugueses, só os portugueses, em tudo isto o papel do Brasil é exclusivamente o de assistir à paródia) a partir de 1 de Janeiro de 2010. E de então para cá foi, como diz(ia) o povo, um ver se te avias: a começar pelos “órgãos de comunicação social” — emissores de material de propaganda a soldo do patrão governamental — e a terminar nas instituições e empresas dos mais diversos sectores que são ou estão de alguma forma dependentes do Estado, gradualmente grande parte do tecido socioeconómico nacional “adotou” a cacografia brasileira.

Tudo decorreu entre os “mentideros” da política e os bares de porta fechada onde se cozinham e apuram os maiores pitéus em metal sonante, mas hoje em dia, decorridos 36 anos desde o lançamento do primeiro calhau, as mais diversas incidências — e até alguns aparentes acidentes de percurso — encaixam perfeitamente uns nos outros, como peças de Lego, compondo um quadro terrível que era até há poucos anos quase indecifrável.

Agora, quando vemos e lemos “notícias” sobre “queixas” de brasileiros por xenofobia, racismo e preconceito em Portugal, percebemos que isso não passa de mais uma manobra com finalidades políticas, que aquilo não é mais do que pura e dura vitimização, em busca de ainda mais dividendos e privilégios.

Agora entende-se com a maior das facilidades para que serve, ao certo, o “acordo de mo(r)bilidade” e como o AO90 serve de respaldo e cobertura política para essa manobra, sabendo-se que desde há muitos anos foram assinados acordos de mobilidade com vários dos PALOP, se não com todos eles. O mesmo vale para uma série de outras benesses gratuitas e ainda veremos o que mais virá.

Sempre com o AO90 a servir de pretexto ideológico e com a CPLP a funcionar como expediente para alguma cobertura política, foram subsequente e sucessivamente implementadas diversas medidas cujos únicos objectivos sempre foram — ao contrário do que faz constar a persistente propaganda governamental — privilegiar os interesses geoestratégicos e político-económicos da República Federativa do Brasil. É esse, aliás, o factor comum que explica a “adoção” forçada do “fálá” brasileiro, as represálias, a censura e a repressão de quaisquer contestações ou contestatários, a pulverização dos acordos diplomáticos entre Portugal e as suas ex-colónias africanas, o acordo de morbilidade (com gralha na designação oficial) e, por fim, a presidencialmente almejada dupla nacionalidade luso-brasileira “facilitada”, válida apenas para uma das partes.

É para que se cumpra este “projeto” de etapas múltiplas que surgem de permeio as manifestações folclóricas de vitimização a propósito das igualmente encenadas alegações de “racismo, xenofobia e preconceito“. Isto quando, afinal, se porventura tão negativos (e primitivos) sentimentos existem entre portugueses e brasileiros, então o exclusivo de semelhante aberração cabe por inteiro a brasileiros — não o contrário.

Já lá vão os tempos em que o sinistro plano foi sumariamente arquivado na gaveta sem fundo das “teorias da conspiração”. Por definição, uma teoria deixa de o ser quando factos verificáveis anulam qualquer carácter especulativo da premissa.

Aquilo a que vamos assistindo, com cada vez mais clareza e sempre sem deixar margem para a menor das dúvidas, é ao infindável desfilar de sucessivos “pacotes” de medidas governamentais que objectivamente delapidam o património histórico-cultural português.

https://www.onfm.pt/2020/01/10/matrafona-a-mulher-desleixada-mais-famosa-do-pais/Torna-se impossível contornar o ambiente de pesadelo que envolve tal desfile, algo como se fosse um corso de carnaval à antiga portuguesa, para variar, carros alegóricos com umas fitinhas (alusões à “língua universau”, claro) e mimos e cabeçudos e pantomineiros e sobretudo matrafonas, muitas, imensas matrafonas (acordistas, políticos, lacaios) com seus vestidos e enchumaços pretensamente engraçados, com suas pinturas grotescas enfeitando bigodes farfalhudos, com suas horríveis piadolas (o “porrtugueiss univerrsau”, a “expansão da língua”), com toda a sua confrangedora tristeza travestida de um arremedo de alegria avinhada e sórdida.


As três transcrições que se seguem constituem mais uma pequena amostra do percurso habitual.

Um político — sacando de um pretexto qualquer do restrito naipe de brasileirismo — enaltece o “dia mundial da língua” brasileira e “aproveita” para falar de uma coisa a que chama «agenda estratégica para a língua portuguesa», aproveitando a oportunidade para avançar com uma espécie de originalidade velha e relha: «plataforma de comunicação para o entendimento empresarial». Tentando escorar a “ideia”, a ver se cola, atira com a «cooperação cultural entre os dois países» e, para compor o ramalhete, refere «centros de investigação e associações locais da comunidade imigrante brasileira». Pronto. Está o mote lançado. Dará para várias glosas mas, assim de repente, dado o curto espaço temporal entre causa e (esta) consequência, serve a charla das “associações locais”.

Atirado o osso à comunicação social, esta lança-se com entusiasmo e apetite na busca de algum pretexto para reforçar a ministerial “ideia”. Por norma, nestes casos repete-se mesmo a “argumentação” usando até algumas expressões ipsis verbis. Basta portanto encontrar alguém (um qualquer “notável” ou uma organização) que se preste a cumprir as funções de idiota útil e fazer eco da mais recente inovação que ocorreu nas insondáveis circunvoluções cerebrais de tal indivíduo.

Biblicamente falando, ecce item, consummatum est. Ou, em Português vernáculo, bem mais simples, então pronto, está feito. A coisa fica ainda mais apimentada, salvo seja, se se meter uma agência estrangeira ao barulho, ainda que essa estrangeirice não passe de mais uma das imensas brasileiradas de que está o mundo virtual cheio.

E o mundo real a encher. Bem, pelo menos nesta “terrinha” que perdeu além do tino a última réstia de decência.

Celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa

João Gomes Cravinho
“Público”, 04.05.22

 

O trabalho conjunto de Portugal e dos países da CPLP foi determinante para que a UNESCO decidisse, em 2019, que o dia 5 de Maio ficasse consagrado mundialmente à Língua Portuguesa.

A institucionalização de um Dia comemorativo assume uma importância, tanto real como simbólica, para a promoção da causa do reconhecimento e da disseminação da nossa língua. Ao longo deste dia, em múltiplas organizações internacionais, em variados organismos regionais, nacionais e locais, em diversas entidades de natureza distinta espalhadas pelos quatro cantos do mundo, a língua portuguesa será evocada, entoada, cantada, dita. Serão destacadas as suas enormes virtualidades como ferramenta de comunicação que, como poucas, dá a volta ao mundo. Será ressaltada a plasticidade que permitiu que se espalhasse, que crescesse, e que se constituísse como elo entre povos. Será uma ocasião para recordar o intenso dinamismo e a variedade que caracteriza a língua portuguesa, e a importância cada vez maior que assume na sua expressão cultural.
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Lusofobia: causa(s) e efeito(s) – 5

grupo Braguil no Facebook

“Bombardear Portugal”

lusofobia

lusofobia | n. f.
lu·so·fo·bi·a

(luso- + -fobia)

nome feminino

Antipatia ou aversão pelos portugueses ou pelas coisas de Portugal.

Palavras relacionadas: lusófobo.

“lusofobia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/lusofobia [consultado em 21-07-2022].

Esta série de “posts” destina-se exclusivamente a documentar aquilo em que de facto consiste a lusofobia enquanto fenómeno sociológico, por assim dizer, já que a maioria das pessoas não apenas desconhece o conceito como nem mesmo alguma vez ouviu sequer falar de tal coisa. No fim de contas, o próprio termo presta-se a confusões visto que difere numa única letra de “lusofonia”; evidentemente, apesar da semelhança “sonora”, o significado do substantivo “lusofobia” — que remete para uma atitude concreta — não tem absolutamente nada a ver com a ideia abstracta e indefinida de “lusofonia”, uma palavra vazia de significado que serve apenas finalidades e objectivos políticos.

Nestes pressupostos e neste âmbito, os conteúdos aqui apresentados destinam-se, sem outras pretensões que não as evidenciadas expressamente, a esclarecer minimamente os menos informados, tentando explicar as causas e demonstrando os efeitos da lusofobia, mas sempre sem acicatar sentimentos ou estados de alma que, pela própria natureza dos enxovalhos, provocações e insultos envolvidos, vão já ameaçando vir a tornar-se num problema sério e, como por regra sucede neste tipo de questões baseadas em preconceitos, de resultados absolutamente imprevisíveis.

Mantenhamos, por conseguinte, um módico de contenção, deixando o proselitismo e a mentira como desde sempre foram, isto é, exclusivos de acordistas e seus acólitos, tendo sempre presente duas premissas tão óbvias quanto curiais: a lusofobia é uma afecção de sentido único, sem reciprocidade do lado português, mas nem por isso poderemos generalizar: mesmo contando com alguns casos patológicos entre figuras públicas naquele país, o fenómeno é ainda assim restrito, manifestando-se principalmente — como aliás por regra sucede com a xenofobia ou o racismo em geral — nas camadas mais ignorantes da população. Não confundamos, portanto, um bosque com o maciço da selva amazónica ou, dito de outra forma, mesmo que sejam muitos os trogloditas, ainda assim há bastantes que o não são de todo.

O que mais importa, por falar em bosque, é que nos não deixemos emboscar. Não sem ao menos dar luta.

Receita de bolinho de bacalhau

Queremos despedaçar Portugal
Matar e comer, eis nosso desejo.
Foda-se os bons costumes e a moral
Foda-se Camões, os Pedros, o Tejo.
Queremos bombardear Portugal
Seus livros, estátuas, navios, cruzes
Que este incêndio nos livre do mal
E limpando o tapete acenda as luzes.
Ai, queremos violentar Portugal
Escarrar na língua, cagar no porto
Ver um futuro em que seja banal
O luso passado enterrado e morto
O nosso seio está seco de leite
De Portugal apenas o mar e o azeite.

Bruna Kalil Othero

Contra-colonização em curso

José Manuel Diogo*
“Jornal de Notícias”, 14 Julho 2022

Quando a Câmara Brasileira do Livro escolheu Portugal como país convidado da Bienal do Livro de São Paulo, o maior evento dedicado à literatura e ao livro que acontece em todo o mundo de língua portuguesa, sabia que nesse convite existia um significado maior.

A CBL não nos escolheu “apenas” porque o Brasil comemora 200 de independência, 100 de Saramago ou porque Abel Ferreira, treinador e ídolo do Palmeiras, fez o gosto ao dedo e lançou um livro com enorme sucesso e na presença do próprio embaixador de Portugal em Brasília.

Todos estes motivos são bons, mas não são a causa da escolha, eles são a sua consequência. A causa é mais simples, menos evidente e, por isso, mais difícil de explicar.

Ela faz parte de um processo que se está se transformar num verdadeiro movimento (o primeiro) de contra-colonização na História. Desta vez planeado politicamente, organizado pelas elites e amplamente conhecido pelos povos.
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Lusofobia: causa(s) e efeito(s) – 4

Os brasileirófilos

Sem comentários.

Constituição da República Portuguesa

PARTE I – Princípios fundamentais
Artigo 9.º
Tarefas fundamentais do Estado

a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam; (…)
d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais (…);
e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português (…);
f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa; (…)

PARTE III – Organização do poder político
TÍTULO II – Presidente da República
Artigo 127.º – (Posse e juramento)

(…)
3. No acto de posse o Presidente da República eleito prestará a seguinte declaração de compromisso:
Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa.

 

«Este é um primeiro episódio a tratar da massiva emigração de brasileiros para Portugal. Iniciaremos a reflexão juntamente com o apontamento do presidente Marcelo Rebelo de Sousa em seus pronunciamentos nos Consulados Gerais de Portugal no Rio de Janeiro e São Paulo. Para o presidente da República Portuguesa, “Está a haver uma invasão de Portugal por brasileiros”, e isso ocorre especialmente nos últimos 4 anos e coincide com o governo de Bolsonaro. Nunca antes na História do Brasil um presidente foi capaz de expulsar tantos cidadãos brasileiros… É mesmo uma pena… Muitos brasileiros chegam à Portugal desesperados, saídos de um Brasil de ódio, insegurança, injustiças, instabilidade política e caos social…»

[YouTube, André Carvalho LUSOaBRaço (Brasil)]

Marcelo: “Não há portugueses puros, como não há brasileiros puros”

Lusa
“Públiico”, 3 de Julho 2022

 

Na intervenção que encerrou a cerimónia de abertura da Bienal do Livro de São Paulo, Presidente da República considerou que orquestra com músicos refugiados “é um retrato daquilo que o Brasil é, que Portugal também gosta de ser, que é acolhimento de refugiados e de migrantes”.

[imagem]
[legenda] Marcelo Rebelo de Sousa discursou na abertura oficial da
26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

O Presidente da República afirmou este sábado à noite que “não há portugueses puros, como não há brasileiros puros”, depois de ouvir uma orquestra formada por músicos imigrantes e refugiados, em São Paulo.

Marcelo Rebelo de Sousa falava na abertura oficial da 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em que houve uma actuação da Orquestra Mundana Refugi, com músicos vindos da Síria, da Palestina, do Congo, da Guiné, da Tunísia e de Cuba, entre outros.

Esta orquestra tocou, entre outros, os temas As caravanas, de Chico Buarque, e Canto das três raças, que ficou famoso na voz de Clara Nunes.

Na intervenção, que encerrou esta cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a Orquestra Mundana Refugi “é um retrato daquilo que o Brasil é, que Portugal também gosta de ser, que é acolhimento de refugiados e de migrantes”.

“Não há portugueses puros, como não há brasileiros puros. Somos todos cruzamento de todos. E temos honra em sermos cruzamento de todos. E isto é uma lição própria de sociedades cultas, avançadas, progressivas”, afirmou, em seguida, recebendo palmas.

No discurso, o Presidente da República declarou-se muito honrado por Portugal ser o país homenageado nesta edição da Bienal do Livro de São Paulo.

Segundo o chefe de Estado, isso quer dizer que “Portugal já não é só nem sobretudo o Portugal do passado, é o Portugal do futuro, é o Portugal da liberdade, é o Portugal da democracia, em que é possível ter um Presidente de direita com um Governo de esquerda”.

“É o Portugal da juventude, é o Portugal da nova literatura e da nova cultura”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu, no entanto, que “se a língua portuguesa é importante no mundo é porque há muitos outros países irmãos que têm mais falantes, muito mais falantes, mais leitores e maior projecção nesse mundo” do que Portugal.

E apontou o Brasil como “uma potência cultural” desde “há muito, muito, muito tempo” e “uma potência cultural imparável”.

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