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«Em defesa da ortografia XXXIII» [por João Esperança Barroca]

Em defesa da ortografia XXXIII

João Esperança Barroca

26 de Março de 2021

 

«Que fique escrito a fogo: quem se opõe ao Acordo não deve aceitar uma revisão do mesmo. Não há polimento possível que retoque o que não tem ponta por onde se lhe pegue. É um exercício fútil tentar ancorar algo no vácuo: a ideia de a ortografia navegar à mercê das ondas do elemento mais indomável, flutuante, contingente, mais variável geográfica, temporal e individualmente que há na língua – a pronúncia.»***

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Uma das estratégias adoptadas na aprendizagem de uma língua (e, no que diz respeito à ortografia, não poderia ser de outro modo) é a da utilização das famílias de palavras. No estudo de uma língua estrangeira também se fala do parentesco entre as línguas, mostrando as semelhanças no vocabulário, mesmo em línguas de diferentes origens.

Como o leitor já reparou, desde a aplicação do inadjectivável AO90, o País dos Faraós, um dos berços da civilização, passou a grafar-se sem p, Egito. Contudo, como se escrevem (com o AO90) as outras palavras da família de Egipto? Os habitantes designam-se egípcios, egipcianos ou egipcíacos. Os especialistas na civilização, egiptólogos. A ciência e o adjectivo a ela referente, respectivamente, egiptologia e egiptólogo. O leitor poderá hoje num texto acordizado encontrar uma frase tão banal como: Um egiptólogo não precisa de estar no Egito para estudar a cultura egípcia. Isto é, o Egipto divorciou-se das restantes palavras da sua família. Quando os acordistas falam da “unidade essencial da língua” e da “simplificação da aprendizagem”, será a isto que se referem?

Felizmente, alguns órgãos de comunicação como a RTP e o Jornal da Madeira, como se pode comprovar nas imagens que acompanham este escrito, tomam, regularmente, umas doses da vacina contra o ortogravírus e retomam esporadicamente a grafia coerente, lógica e congruente de 1945.

Indo agora a outros factos, que agora não são fatos, como afirmou Pedro Santana Lopes, que, em nome do governo português, assinou o AO90, e a quem voltaremos num próximo escrito, vejamos como se escreve Egipto em diversas línguas: Egipte, em africâner e catalão; Eg-jipti, em albanês; Ägypten, em alemão e luxemburguês; Yegiptos, em arménio; Egipto, em basco e espanhol (castelha-no); Jehipiet, em bielorrusso; Egipat, em bósnio, croata e sérvio; Egipet, em búlgaro e macedónio; Ījipṭ, em cana-rim (língua falada na região indiana de Canará), malaiala (língua falada no Malabar, Ín-dia Ocidental) e telugo (língua usada no Sudeste da Índia); Egïpet, em cazaque; Ehipto, em cebuano (língua austro-nésia falada nas Filipinas; Ījiptuva, em cingalês (língua falada no Sri Lanca ou Sri Lanka); Ijibteu, em coreano; Egittu, em corso; Egypten, em dinamarquês e sueco; Egypt, em eslovaco, filipino, inglês, latim, norueguês e checo; Egipt, em esloveno, polaco e romeno; Egiptujo, em espe-ranto; Egiptus, em estónio; Egypti, em finlandês; Egypteem francês, frísio (ou frisão) e holandês; An Èiphit, em gaélico (língua céltica falada na alta Escócia e na Irlanda); Exipto, em galego; Eg v i p’t’e, em georgiano; Aígyptos, em grego; Ijipta, em guzerate (língua falada em Guzerate, estado da Índia), marata (lín-gua falada no Centro e Sul da Índia) e nepalês; Aikupita, em havaiano; Egyiptom, em húngaro, Ijipt, em igbo (língua falada no sudeste da Nigéria); Egipti, em iorubá, (língua fala-da na Nigéria, Benim e Togo); An Èigipt, em irlandês; Egypt-taland, em islandês; Egitto, em italiano; Ejiputo, em japonês; Ēģipte, em letão; Egiptas, em lituano; Ejipta, em malgaxe (língua falada em Madagás-car); L-Eġittu,em maltês; Ihi-pa, em maori (língua do povo com o mesmo nome, da Nova Zelândia); Yegipyet, em mon-gol; Igupto, em nianja (língua banta falada na zona do lago Niassa, no distrito de Tete, Moçambique); Yegipet, em russo, Aikupito, em samoano (língua falada no Arquipélago de Samoa, no Pacífico); Ege-peta, em sesoto (língua oficial da África do Sul e Lesoto); Xīyipt̒, em tailandês, Ekiptu, em tâmil (língua falada no Sul da Índia e no Norte e Oeste do Sri Lanca); Yehypet, em ucra-niano; Iphethe, em xosa, xos-sa ou xhosa (língua falada na província de Cabo Delgado,na África do Sul); Ijipita, em xona (língua falada nas províncias de Manica, Tete e Sofala, em Moçambique, na parte Norte do Zimbabué e no Leste da Zâmbia); Igibhithe, em zulu (língua falada na Zululândia, província da África do Sul).

Todas estas línguas, no total de setenta, mantêm a consoante p ou, em alternativa, a sua correspondente sonora bou ainda dobram o t, como é o caso do italiano e das línguas que lhe são mais próximas. O leitor imagina que, por pena das crianças de 6-7 anos, obrigadas a um enorme esforço de memorização, alguém venha a propor a eliminação dessas consoantes? Nuno Pacheco já deu a resposta a essa pergunta: “Não, loucos desses só existem por cá.

Quando, caro leitor, ouvir um acordista recitar o mantra de que o AO90 é um sinal de progresso, pergunte-lhe se ele pensa resolver o problema da humidade nos monumentos (como o Convento de Cristo ou o Mosteiro dos Jerónimos), aplicando pavimento flutuante e placas de capoto. Ou, em alternativa, mande-o bugiar. Se possível, no Egipto.

26.03.21

*** Autor citado no original: Manuel Monteiro (nota minha)

[Imagem de Bic Laranja (citado aqui em 12.12.17.). “Links” meus.]

 

Sociedades secretas, negócios discretos

Não hostilizemos quem acredita piamente em que um dia, algures no futuro, o Sacavenense ganhará a Taça dos Campeões Europeus. E ainda, sobretudo, mantenhamos a compostura, admitamos que num outro dia um OVNI azul às riscas aterrará no aeroporto internacional de Portalegre e dele sairão, como turistas, uma data de Conguitos verdes paridos em Melmac.

Acreditar em tão profanos milagres é o mesmo que negar a existência de uma sociedade secreta (ou discreta), sem dúvida a mais perigosa de todas, perante cujo poderio é virtualmente impossível fazer seja o que for.

Esta terceira mas primordial seita, estranha simbiose das duas sociedades secretas oficiais (por assim dizer), é constituída por homens de negócios e por políticos (há diferença?), por regra membros de uma das outras duas confissões (ou de ambas, que também há disso), não têm aparentemente qualquer ligação entre si e não praticam rituais próprios de espécie alguma, ocupando-se exclusivamente da congeminação (entre os membros) de grandes negócios, desfalques faraónicos, tráfico de influências (e toda a sorte de outros tráficos), extorsão, lobbying, corrupção, especulação e manipulação de mercados. Etc. Absolutamente nada fica de fora ou está ao abrigo deste tipo de ganância, daquela patológica obsessão pela acumulação de riqueza.

A Maçonaria, cujos membros dizem de si mesmos ser “Pedreiros Livres” — que de pedreiros nada têm e de livres muito menos — e a Opus Dei (ou “Obra de Deus”, uma entidade abstracta que se rege pela lei da letra morta), constituem, pela junção das partes, um imenso grupo de pressão (política, de regime, autárquica, diplomática, empresarial) e constituem, cumulativamente, um conglomerado de interesses não apenas políticos como, ou principalmente, económicos. O aparente laicismo de uns e a religiosidade fingida de outros consistem basicamente (e comummente) na propagação de uma fé inabalável no dinheiro e na prossecução da sua crença no enriquecimento pelo enriquecimento. Para tal desiderato, no qual crêem cegamente, uns e outros socorrem-se de lacaios especializados para as tarefas mais sujas e plebeias, como lavar vestígios ou “abrir portas”, com tudo o que implicam os trabalhos de tais criados pagos à peça ou à ordem, em espécie ou numerário, por grasso ou por atacado.

É com incontornável solicitude que os sabujos, a mando de membros da seita de seitas. envergando a “libré” de “facilitadores” especializados, avançam amiúde com questões aparentemente menores. As trupes de auxiliares servem (na perfeição) os interesses da selecta alcateia de gananciosos patológicos e foi assim que, por exemplo, surgiu e medrou a chamada “questão ortográfica”, ou seja, o AO90.

Ignoremos, ao invés do habitual, as já muito badaladas teorias da conspiração que envolvem as duas sociedades secretas. No entanto, bem entendido, não apenas existem bastos sinais do envolvimento de qualquer delas (ou de ambas) em questões relacionadas com o idioma em particular e com o Ensino em geral, assim como parece evidente que ambas tiveram tudo a ver com a “adoção” da cacografia brasileira; os “irmãos” de ambas as famílias estiveram envolvidos e na dita questão continuam enterrados até ao pescoço; sabemos que assim terá sido e é, sim, mas também podemos estar certos de que jamais viremos a saber ao certo em que medida ocorreu tal envolvimento, quais dos “manos” (de toga ou de batina) estiveram envolvidos e o quê ou quanto, ao certo, isso implicou: não existe nas seitas, por definição e inerência, qualquer tipo de registo; não prestam contas de nada a ninguém, nem ao Fisco nem a quaisquer outras entidades do Estado (é óbvio, eles “são” o Estado); os membros gozam de total imunidade e outorgam a si mesmos o estatuto de total e absoluta impunidade.

À míngua de provas documentais de qualquer espécie, de muito pouco ou nada servirá especular sobre algum ascendente ou assacar-lhes a mais ínfima responsabilidade (claro, nunca foram eles, nunca fizeram nada, são só apreciadores de missinhas, mais nada). Não será, por conseguinte, com vãs (e ocas) polémicas sobre qual das seitas se superioriza moralmente à outra que será possível concluir, por exemplo, pobre analogia, que em Melmac não existe só o Alf. O conceito de moral (ou imoral) está a priori  fora de cogitação, no caso vertente, pelo que a frivolidade da comparação é inútil.

Porém, sem teorias da conspiração ou sequer a mais subtil das conjecturas, ainda que, porque não há provas, não saibamos ao certo o que é a “fé” ou o que ali é feito, todos sabemos perfeitamente… o que é uma sociedade secreta, o que ali é feito, quem, quando, como e para quê. E sabemos isso de ciência exacta precisamente pelo mesmíssimo secretismo que define qualquer das irmandades: se são secretas, então  têm algo a esconder. 

São coisas que se explicam a si próprias e por si mesmas.

Desta premissa podemos nós ter a certeza. Uma certeza clara e limpa e luminosa — o oposto diametral da permanente obscuridade, a escuridão sepulcral da criminalidade ritual.

Frutas, legumes e sociedades secretas

Observador – observador.pt, 28.03.21

António Pedro Barreiro

Imagine-se que o Parlamento decidia aprovar uma nova regulação acerca da produção de legumes – não de frutas, mas apenas de legumes. Certamente, muito haveria a debater sobre uma proposta desta natureza. Seria pertinente? Que efeitos teria na produção agrícola? E que consequências produziria na dieta dos portugueses? Discussões fascinantes e necessárias. Mas, antes de todos esses debates, há uma questão prévia, que é a de perceber que coisa é essa que o legislador entende por legumes. O caso torna-se agudo quando chegamos, por exemplo, ao tomate, que muita gente acredita ser um legume, mas que a ciência sabe, para além de qualquer dúvida, tratar-se de uma fruta.

Eu posso ser o maior defensor da nova regulação sobre a produção de legumes. Mas não posso aceitar que, à boleia de uma lei sobre legumes, o legislador se sinta no direito de legislar sobre o tomate, porque o tomate não é um legume. Seria, aliás, especialmente perigoso que o legislador andasse a brincar com os equívocos e os preconceitos do senso comum, para convencer os portugueses de que o tomate é afinal um legume e deve, por isso, caber no objecto da nova legislação. A política é uma arte nobre de serviço público. Ou se faz com base na verdade – e a verdade, bem o sabemos, é a adequação das ideias à realidade das coisas – ou faz-se mal. E, quando se faz mal, faz mal ao povo.

Em Dezembro de 2019, o PAN propôs que os deputados pudessem, ao preencher o seu registo de interesses, declarar se pertencem a sociedades secretas – ou, como se tem dito, discretasDizia então o deputado André Silva que é “inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não declarar a sua filiação em organizações marcadas por uma forte opacidade, por um grande secretismo e que apelam a fortes laços de hierarquia”. A proposta tem o seu cabimento, até porque existe o risco real de que algumas pessoas se sirvam das relações travadas no contexto da sociedade secreta para subir na vida à custa do tráfico de influências. Mas o problema, como sempre, está nos pormenores. É que, além da Maçonaria – que é, de facto, uma sociedade secreta, que se caracteriza pela opacidade, que se estrutura segundo relações hierárquicas muito fortes e que constitui, com efeito, um espaço onde o tráfico de influências é possível –, o PAN quis incluir no estatuto de sociedade secreta o Opus Dei, que não obedece a nenhuma dessas características.
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Roteiro da Engenharia Linguística

Roteiro da Engenharia Linguística
1. O totalitarismo obscurantista manipula os cidadãos através da Novilíngua, a única versão da língua consentida pela classe dirigente (o “Grande Irmão”).
2. Esta língua, inventada pelo Partido único, que é omnisciente e omnipresente, assemelha-se ao grasnar, ou seja, reproduz sons repetitivos que lembram o quá-quá-quá dos patos, sem qualquer significado inteligível e implicando que o falante/escrevente não raciocine de forma alguma.
3. Excluído o raciocínio, isso implica a anulação completa da inteligência na comunicação (inexistente) e permitindo em simultâneo que a maior imbecilidade ou a mais inacreditável das vacuidades soem como ideias “geniais” ou “brilhantes”.
4. Sistematicamente bombardeados por esta verborreia embrutecedora, os cidadãos acreditarão com fervor religioso — de forma acrítica, passiva e acéfala — em qualquer fábula, mentira ou invenção, sem jamais se questionar e sempre desprezando violentamente os factos que, por regra, não interessam ao Partido e ao Grande Irmão.
5. Escapar ou sequer tentar escapar à Novilíngua é Crimepensar, ou seja, é um delito gravíssimo, algo interdito e violentamente perseguido no “Novo Normal”; conduz inevitavelmente à ostracização — a nova forma de prisão, sem muros nem carcereiros mas com muito maior isolamento: implica despedimento sumário e exclusão total de qualquer dos tipos de  interacção social (incluindo a familiar).
6. A Novilíngua serve para tornar conforme os ditames infalíveis do Grande Irmão e para adaptar a versão dos acontecimentos ou factos consoante mais convier ou der jeito ao Partido. A História, por exemplo, está em permanente revisão, pelo que nem um nem outro alguma vez se enganaram, no passado, ou cometem erros no presente. Se porventura houver ou tiver havido algo a corrigir, pois bem, é muito simples, corrige-se, basta reescrever a História, apagar o que não interessa, destacar ou eliminar previsões consoante o que vier a suceder na realidade.
7. A conformidade terminológica implica a adaptação dos factos, os quais, recauchutados segundo os ditames do Partido e utilizando a Novilíngua como mecanismo de sintetização, servirão para conferir uma absoluta conformidade ideológica ao todo —  uniforme mas tripartido — que subtilmente cria uma nova Trindade: Grande Irmão, Partido, Novilíngua.

 
O AO90, reduzindo isto à nossa minúscula mas grandiosa dimensão (linguística, histórica, patrimonial), é a Novilíngua que a classe dirigente (a dos “homens de negócios”) nos quer impingir. Comparativamente falando, em termos de dimensão o MPC (Manual Politicamente Correcto) seria uma brincadeira de crianças.

Mas, salvas as devidas distâncias, também não é brincadeira nenhuma.

Politicamente correcto ou fascismo linguístico?

“Sol” 21.03.21

Neutralizar os substantivos, alargar a lista de géneros, substituir ‘a’ e ‘o’ por ‘@’, ‘*’ ou ‘X’. O caminho do debate sobre a questão da língua inclusiva já é longo. Mas onde nos vai levar? Atualmente, assistimos a várias propostas e mesmo alterações linguísticas com o objectivo de aumentar a inclusividade e a neutralidade nos discursos, tanto em Portugal como no resto do mundo.

 

Na Universidade de Manchester pretende-se abolir todas as definições binárias. ‘Mulher/homem’ é substituído por ‘pessoa’; ‘senhoras/senhores’ por ‘toda a gente’; e, o mais polémico, ‘mãe/pai’ por ‘progenitor’ ou ‘guardião’ (que em português têm os dois géneros, mas em inglês são palavras neutras). Em Nova Iorque existe uma lista de 31 géneros e é possível o registo civil com terceiro género. O_caminho vem sendo percorrido há mais de uma década. Já em 2008 o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre a linguagem neutra em termos de género. Actualmente, em Portugal ouve-se falar de Acordo Queerográfico e de um novo manual linguístico de inclusão por parte do Conselho Económico e Social (CES).

Mas será a utilização de um género neutro uma forma de promover a inclusão e de afastar percepções desactualizadas sobre homens, mulheres, pessoas com deficiências e grupos minoritários ou estaremos diante um conjunto de artifícios do politicamente correcto que complicam a comunicação e a linguagem?

Daniel Cardoso, investigador nas áreas não-monogâmicas consensuais, BDSM, género e sexualidade considera que só é possível, verdadeiramente e partindo de uma posição democrática, ser a favor deste tipo de directrizes linguísticas.

«O que estamos nós no fundo a dizer se formos contra a inclusividade no discurso e contra a inclusividade na linguagem? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de comunicação? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de democracia?», questiona. Para o investigador, a única posição «politicamente responsável» é a favor da inclusividade como um dos grandes princípios básicos da democracia.

Universidade de Manchester: ‘Já não era sem tempo!’

Daniel Cardoso encontra-se no Reino Unido, na Manchester Metropolitan University, a poucos quilómetros da sua concorrente Universidade de Manchester. As directrizes da segunda universidade que baniu algumas palavras do vocabulário dos funcionários sempre que tenham de falar em nome da instituição, com o objectivo de neutralizar géneros e contribuir para a inclusão, não são uma realidade invulgar naquele país. De resto, a mudança há muito que está em curso – e não só no Reino Unido. Já em 2008, o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre linguagem neutra em termos de género que fornecessem conselhos práticos em todas as línguas oficiais. Objectivo: adoptar uma linguagem justa e inclusiva de género.

Daniel Cardoso defende que estas alterações nas universidades e instituições europeias têm sido, na esmagadora maioria dos casos, recebidas com uma certa naturalidade, já que o inglês tem muito menos marcas de género linguístico na ortografia e gramática do que o português. «O português marca de forma generalizada substantivos, adjectivos, mas o inglês não funciona assim. Tem uma forma pronominal neutra embutida no funcionamento da linguagem e portanto, todas estas questões que às vezes parecem muito contenciosas, na verdade são simplesmente mais um detalhe, mais um pormenor a afinar», afirma.

E não esconde a sua satisfação: «Já não era sem tempo. Que bom que estas instituições estão finalmente a rever os seus processos!», congratula-se.

Mas aquilo que o investigador da Manchester Metropolitan University considera ser linguagem inclusiva, para Helena Matos, professora, jornalista, escritora e colunista do Observador, é «o dialecto dos novos bárbaros». «As palavras geram actos e nós usamo-las para nos relacionarmos, mas não para construirmos realidades», comentou na TVI24, «Seria inconcebível que cada um dos diversos conselhos e órgãos do Estado tecesse manuais sobre como devemos comunicar», rematou. Em artigo no Observador manifestou o seu profundo desacordo com as alterações que têm sido propostas: «Não sou progenitora. Sou mãe. Não sou companheira. Sou mulher de», escreveu na crónica ‘Obviamente desincluída’, publicada no dia 14 de março.

CES: Novo manual de linguagem inclusiva

O Conselho Económico e Social apresentou um novo manual de linguagem para tornar a comunicação interna e externa mais neutra e inclusiva. No documento encontram-se vários exemplos que passam por evitar o género masculino, ou utilizar os dois géneros promovendo a igualdade entre homens e mulheres.

Sara Falcão Casaca, socióloga, vice-presidente da CES e uma das contribuidoras da proposta para uma linguagem neutra e inclusiva, defende que «a linguagem reflecte as concepções dominantes de cada contexto sóciocultural, de cada tempo histórico e ainda uma visão assimétrica das mulheres e dos homens, uma valoração desigual que se expressa na invisibilidade das mulheres». A socióloga confia que se colectivamente nos empenharmos em conferir igual visibilidade a mulheres e a homens na linguagem, do ponto de vista simbólico estaremos também «a veicular novas representações sociais – representações igualitárias sobre o seu valor e estatuto social».

Daniel Cardoso acrescenta que não só se assiste a uma invisibilidade feminina, como também uma invisibilidade de outros géneros não binários. E a linguagem tem o poder de alterar isso: «A linguagem é, foi e será algo vivo, algo que se adapta às mudanças que existem na sociedade e, por outro lado, fez, faz e fará parte de um conjunto de ferramentas e abordagens, para provocar mudanças no mundo», declara.
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The choldragate

«Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega:e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…»
Eça de Queirós, Os Maias

Para baixar o manual do usuário tem de logar e subir o material viral que depois pode embedar ou deletar se há estoque.

A frase anterior não faz qualquer sentido, evidentemente, mas é uma pequena demonstração de uma das tendências concomitantes da “adoção” do AO90: no Brasil não apenas se utiliza terminologia inglesa (especialmente a técnica) como também, obsessivamente, são literalmente “traduzidos” os termos originais em Inglês (usuário, logar, subir, embedar, deletar, estoque e outras centenas ou milhares de verbos, substantivos, adjectivos e advérbios).

Dado que o “acordo ortográfico” não passa da extinção integral do Português-padrão e sua (selvática) substituição por uma espécie de ortografia fonética brasileira, somos obrigados, ainda por cima, a engolir “efeitos colaterais” em transliteração da cacografia brasileira; este “fenómeno” é especialmente (e asquerosamente) visível na legendagem de filmes ou documentários e também em páginas de Internet ou nos manuais do “usuário” feitos por… portugueses!

Não é exactamente o Inglês — a actual língua-franca, inócua e utilitária –, é o brasileiro imposto pelo AO90 aquilo que está a destruir o Português.

A adopção de termos técnicos em Inglês é comum a todas as Línguas ocidentais (com excepção, talvez, da muito patriótica França) e difunde-se tanto mais quanto a Internet, os “smartphones” e os computadores se democratizam e evoluem. A contaminação da Língua por estrangeirismos em geral e por anglicismos em particular é uma inevitabilidade, tanto quanto a mudança das estações do ano ou o “inescapável” pagamento de impostos. Não é por aí que virá algum mal ao mundo. Exceptuando os sistemas de escrita das Línguas pictográficas ou simbólicas orientais, a estrangeirização (ou barbarização) é um fenómeno comum e universal, com passado, evolução e tradição. Fica absolutamente impossível falar de comida, por exemplo, sem utilizar termos franceses (soufflé, mousse, etc.); ou de tauromaquia sem o Castelhano (chicuelina, capote e outros); e o mesmo já sucedia nos séculos XVIII, XIX e XX com o Inglês (just-in-time, football, lobby, bacon, whisky, spleen e assim por diante).

Nesta ordem de ideias, estabelecendo uma relação de causa e efeito, podemos concluir que o voluntarismo acérrimo dos puristas da Língua — linguisticamente anglófobos ou apenas sem outro entretém — esbarra no mais elementar raciocínio, o qual, funcionando como uma parede contra a qual se estampam consecutiva e repetidamente os ditos puristas, transforma a sua bela teoria num desastre pragmático. Acidentes deste tipo costumam suceder, por exemplo e por maioria de razões, a adeptos fanáticos de um qualquer clube de futebol; ora, maus tratos da bola é cousa tão diversa dos maus tratos na Língua que as pretensões ultra-nacionalistas terminam em puro e simples ridículo.

A arma de destruição linguística em massa é o AO90, epítome da estupidez, não é o estrangeirismo — esse incontornável  mal menor. Este, que é um fenómeno universal, não mata nada —  ao invés da língua brasileira “universáu”, que tudo arrasa e destrói.

Tá ligado, cara? Liga não pro anglicismo. Cê si cuida e si preocupa com aquilo que interessa pra você e pra todo mundo porrtugueiss: the choldragate. That’s the real thing: how did they do it?

Erradicar o Português: ponto de situação

Alexandre Borges

“Observador”, 20 Fev 2021

Tenho a certeza de que sabe que estamos praticamente a caminhar sobre um cadáver. Que nos sirvamos do Português roça a profanação de sepultura – deveria dizer: a necrofilia? A língua portuguesa caminha para a extinção mais depressa do que o rinoceronte e, no fim, embora possamos sempre resguardar em cativeiro porventura um bibliotecário macho e uma linguista fêmea, ou vice-versa, com vista à continuação da espécie, eu não depositaria demasiada fé na operação. Sabe-se lá que língua falarão então. E que líbido lhes restará.

Não culparei o infame acordo ortográfico, nem o Instituto Camões, nem as telenovelas, nem os sucessivos governos, nem as pessoas com necessidades especiais que a televisão filantropicamente emprega na inserção de caracteres com vista à criação no indivíduo de um sentimento de dignidade e amor-próprio. Não culparei os professores, nem os alunos, nem os Brasileiros, nem os Portugueses, nem o fado, nem o kuduro, nem ao menos a quizomba, nem necessariamente a televisão, que é capaz de ainda morrer primeiro. O português está prestes a bater a bota pela mesma razão que todas as outras línguas que não o inglês estão prestes a bater a bota: a monocultura do sucesso.

O que é a monocultura do sucesso? A forma mais curta que o presente autor encontrou de descrever a convicção generalizada de que: a) a felicidade individual é não só possível como o objectivo último da vida; b) a felicidade reside no sucesso; e c) há uma e uma só forma de lá chegar. E essa forma implica teses estruturantes como o trabalho estar acima de tudo e o crescimento ser um fim em si mesmo, e outras aparentemente acidentais, mas de que ninguém abdica, materializadas num comportamento de rebanho ou manada, e que significam, mormente: comermos todos a mesma coisa, fazermos todos o mesmo tipo de exercício, consumirmos todos o mesmo entretenimento, visitarmos todos os mesmos lugares, falarmos todos a mesma língua, através até das mesmas expressões.

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O macho-alfa


Ah, pois, isso das caixas de comentários é como os sacos para vomitar que se distribuem nos aviões. A gente precisa de um mas só se nunca tiver sido usado. Ou seja, assim com’assim o melhor é nem olhar para eles, a não ser em caso de extrema necessidade e na condição exclusiva de ainda estar virgem de todo, por assim dizer; quando não, pela certa levaremos com o pivete e se porventura não nos estiver a apetecer “restituir”, como dizia o Conselheiro Acácio, então com aquela abjecta visão  teremos de largar um vómito interminável, tão nojento como o que já lá está. Em suma, é fazer de conta que se trata de “ordens do médico”, o mais avisado para que se nos resguarde a saúde mental será conservar uma distância higiénica das caixas de comentários tanto quanto dos sacos aeronáuticos.

Neste caso, tratando-se do AO90, a “matéria orgânica” é a habitual: ou de brasileirófilos empedernidos, sapateiros que não cobram nada para engraxar brasileiros, ou então aqueles outros que, armando ao “tolerante”, concedem que o “acordo” não passa de “uma questão de hábito”. Ambos os tipos restituem os mesmos eflúvios, diferindo entre si apenas pelo grau de octanagem da lavadura regurgitada — porque o AO90 já se transformou numa bebedeira homérica, algo como uma pandemia mental, demencial alucinação colectiva. Exceptuando uma ou outra pessoa, um ou outro comentário, isto é, nos raros e honrosos casos em que não há insultos ou asneiras como ácidos gástricos e bolo alimentar mal digerido, então estamos perante alguém que não carece de Kompensan, logo, de pouco ou nada adianta alimentar uma hipotética discussão; discutir o indiscutível é, com gente normal, converter os convertidos ou sobrecarregar com proselitismo quem já sabe da missa a muito mais de metade.

Não são portanto de grande utilidade os comentários escritos em “caixas” várias, sejam eles latrinários ou redundantes; porém, com certeza algo de aproveitável sobrará da mais simples e amena cavaqueira — face a face, sem “nicknames”, sem “alias”, sem gorilas, sem machos-beta (ou delta ou zeta) que se julgam alfa por se esconderem atrás de um vidro, um teclado e imensa bazófia. 

 

O ocaso das consoantes e a felicidade dos jovens

Nuno Pacheco
“Público”, 14.01.21

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Num tempo dominado por pês (Presidenciais & Pandemia) pode parecer excessivo reincidir no magno problema de escrever com os pés. Mas como a minha crónica anterior suscitou três comentários a merecer resposta, aqui vai. Um: “Na minha opinião o AO 90 tem defeitos, que podem ser analisados e corrigidos, havendo vontade para isso. Nuno Pacheco limita-se a repetir até à exaustão exemplos de erros e incorreções que pouco ou nada têm a ver com o AO 90, numa lógica do ‘quanto pior, melhor’. Analisar e debater seriamente os defeitos e propor correções/soluções não parece ser para ele importante”; outro: “Meta na sua cabeça que está a lutar contra moinhos de vento. Desaparecida a sua geração, estas confusões deixarão de existir porque teremos uma nova geração de gente que aprendeu a escrever a língua portuguesa segundo a nova norma”; Último, que uma criatura assinou como “Macho Alfa”: “Títulos à la André Ventura para continuar uma guerra perdida? É muito à la Trump. Há gente confusa? Há? Sempre houve gente confusa aquando dos acordos ortográficos, nomeadamente os velhotes. Os jovens estão na onda AO90 e felicíssimos. Estão sintonizados. Esta conversa já dá sono.”

O acordo ortográfico de 1990 tem defeitos, há que propor soluções e “correções” (sic). Pois. Isso até os seus autores diziam. Mas algum deles mexeu um só músculo para corrigir o que quer que fosse? Nem um. E já lá vai tempo suficiente para perceber que, tecnicamente, como já muita gente demonstrou (e felizmente por escrito), o problema não são os erros que ele terá, é o erro monumental que ele é: a dita “nova norma” é uma fraude, que não só não uniformizou a grafia nos países de língua portuguesa como fomentou um persistente caos ortográfico que, em lugar de diminuir, a cada dia vai dando novos ares da sua (des)graça.

Debater seriamente? Há décadas que muita gente o faz, apontando erros técnicos, disparates, noções erradas. A isso, os responsáveis pela coisa fazem “orelhas moucas”. Não admira, tal o autoconvencimento de que este acordo é uma coisa com futuro. Já em 1986, um dos grandes defensores, à época, do acordo, escrevia: “Umas semanas bastarão para que as pessoas fiquem acomodadas a ler o seu jornal com meia dúzia de letras e acentos a menos. Alguns dias bastarão para que uma pessoa que escreva frequentemente assimile as novas regras” (Expresso, 21/6).

Contudo, nestes muitos anos cavou-se um fosso abissal entre a prática e essa falsa e ilusória propaganda. A tal “assimilação” rápida das “novas regras” produz todos os dias pequenos monstros, obrigando-nos a ler coisas como “otogonal”, “inato” (por inapto, que inato é outra coisa!), “impato”, “etoplasma”, “adeto”, “ocipital”, “inteletual”, “ocional”, “eucalito”, “rétil”, “elítico” e até “arimética”. Esta colheita é recente e pode juntar-se à da minha crónica anterior. Mas é curioso que já em 2015, no PÚBLICO, o jornalista e escritor Octávio dos Santos (num artigo intitulado “Apocalise abruto”) mencionava dezenas de disparates deste calibre, coligidos em documentos oficiais, institucionais ou na imprensa, por especialistas atentos. Dir-me-ão que erros sempre houve. É verdade. Mas estes são novos, induzidos pela “guerra” às consoantes que o AO90 incentivou. “Arimética”, por exemplo, é dada como correcta no vocabulário oficial do IILP, como grafia facultativa de “aritmética”. Já no da Academia das Ciências não existe.

Gente confusa? Sim, os “velhotes”, coitados. Como os Prémios Camões Vítor Aguiar e Silva e Manuel Alegre, o também premiado linguista Fernando Venâncio ou os recém-desaparecidos Eduardo Lourenço e Carlos do Carmo, aos quais o país teceu as louvaminhas do costume. Adversários, todos eles, do AO90. Deve ser por aquilo que Pedro Mexia disse ao recomendar em 2020 um livro de Vítor Aguiar e Silva no “Governo Sombra” da SIC: “Há esta curiosidade, de pessoas que conhecem bem a língua e a literatura serem contra o acordo ortográfico.”

E os jovens? Diz o tal “Macho” que estão “felicíssimos” e “sintonizados”. É. Basta passar junto das escolas para se ouvirem gritos de alegria onde antes só havia gemidos de dor a temer pelas aulas de português. Aliás, porque não abolir a ortografia? Era muito mais barato e os resultados não andariam longe destes. Tal conversa já dá sono? Deve ser por isso que os responsáveis ou cúmplices de tal trapalhada pedem logo umas almofadas quando se lhes fala no assunto. Azar: os disparates já são tantos e tão ruidosos que não hão-de ter um só minuto de sossego.

[Transcrição integral de artigo com o título “O ocaso das consoantes e a felicidade dos jovens”, da autoria de Nuno Pacheco. (publico.pt, 14.01.21.Destaques, sublinhados e “links” (a verde) meus. Foto de topo de: “¿Qué comen los gorilas?” (quecome.org)]

Rádio Comercial

Esta semana passaram a ser obrigatórias as regras do acordo ortográfico. Ricardo Araújo Pereira explica os problemas do acordo, com o auxílio de Samantha Fox.

«O (des)investimento na Educação em Portugal» [Ricardo Ferraz, “Eco”, 11.12.20]

Embora o tema do artigo transcrito entre na categoria “Outros Detritos” e não expressamente na secção principal, a do “Acordo Ortográfico”, evidentemente ambos estão umbilicalmente interligados: não existe Educação em geral sem o AO90, o qual contamina em especial aquela recém-misteriosa área lúdica em que se entretêm a destruir metodicamente qualquer vestígio de ensino/aprendizagem alguns políticos avulsos e decerto meia-dúzia de atrasados “técnicos” e linguistas.

Ora, se quem fala de Educação fala de AO90 e, por conseguinte, por mais elaborado que seja o método de demolição em curso, fala também um pouco de caligrafia — a eterna forma de expressão manual (e com alma). E nem a sua extinção administrativa nos planos curriculares — mesmo que no artigo não haja uma única referência expressa a “antiguidades” como os cadernos de duas linhas e os alunos com a língua de fora, concentradíssimos, escrevendo à mão na sua bela Língua — impede que pelo menos se reflicta sobre as mil e uma formas de o “nosso” Ministério da Educação torrar dinheiro.

Daí a imagem que ilustra este “post”. Aniquilar a Caligrafia e tornar em simultâneo obrigatória a “Ginástica” (“Educação Física”, sinal dos tempos), foi e continua a ser mais uma irritante imbecilidade mas, ao que parece, destruir é que é “progresso”. Isto, claro, dizem os “técnicos especialistas” que julgam suficiente para alterar o significado das palavras mudar-lhes o significante. Não é gente de tino, ignore-se os ignorantes diplomados.

Fica portanto à laia de sugestão esta pasta de caligrafia com papeis, carimbos, lacre (?), tinta, canetas de aparo. Por uns somíticos 12 €, agora que apesar de tudo vem aí o Natal.

O (des)investimento na Educação em Portugal

Ricardo Ferraz“Eco”. 11 Dezembro 2020

 

É evidente que Portugal não tem apostado o suficiente num sector que é vital. E um país que não investe no seu futuro está condenado ao insucesso e à insignificância no panorama internacional.

Quando alguém me pergunta onde é que pode aplicar o seu dinheiro, costumo responder: “educação e formação”. Perante um mercado laboral global e feroz, trata-se da solução mais adequada para quem pretende vingar. Para os que já estão fora do mercado, tal significa ocupação e aquisição de novos conhecimentos; há sempre novos mundos para explorar.

Também esta deve ser uma das principais apostas do Estado. Embora a literatura sobre o tema seja vasta, há consenso acerca dos benefícios da despesa pública em educação. Conciliando fontes primárias e secundárias e estimando um modelo econométrico, pude confirmar recentemente a existência de uma relação positiva e estatisticamente significativa entre as despesas do Estado em educação e o PIB per capita português ao longo de um extenso horizonte temporal compreendido entre a segunda metade do século XIX e os dias de hoje (veja-se The Portuguese Military Expenditure from a Historical Perspective publicado na revista científica britânica Defence and Peace Economics). Mais uma evidência acerca da importância da Educação para a economia portuguesa.

De facto, só nos poderemos tornar mais produtivos e competitivos se tivermos trabalhadores mais qualificados. Só assim o nosso país se poderá desenvolver e modernizar. Mas será que Portugal tem apostado verdadeiramente na Educação ao longo dos últimos anos?

Como se observa na Figura 1, a despesa das administrações públicas portuguesas em educação em percentagem do PIB tem apresentado uma trajectória descendente desde o ano de 2011; altura em que a ‘troika’ aterrou em Portugal. A partir de 2016, já após o fim do programa de assistência, começámos mesmo a registar valores inferiores aos da média da União Europeia a 28 (UE-28).

Despesa pública em educação (% do PIB), Portugal versus UE-28, 2001-2018)

Fonte: INE, Eurostat e cálculos próprios.

As estatísticas oficiais demonstram ainda que se no início do presente século Portugal era o 3.º país da UE-28 com a mais elevada despesa pública em educação em percentagem do PIB, no ano de 2018 encontrava-se no modesto 20.º lugar. Caímos a pique no ranking.

Recordo que em 2017, o primeiro-ministro, António Costa, veio a terreiro afirmar que o investimento na Educação era “absolutamente essencial” e uma “prioridade central”. No ano seguinte, Portugal acabaria por registar o rácio despesa pública em educação/PIB mais reduzido desde que há registos oficiais. A realidade não casa com o discurso político. Onde está o Ministro da Educação? Onde está o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior? Afinal de contas, qual é o peso político destes dois ministros no Governo do Dr. Costa?

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