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“a brincar, a brincar…”

«A stora avisa logo que não quer o regresso das consoantes mudas porque, para os alunos, “é muito mais simples escrever conforme falamos do que estarem a perceber ou a decorar, principalmente depois de ter abolido e estar a escrever de uma determinada forma, estar a voltar atrás” (sic). Tentemos perceber esta ideia enrodilhada — a stora quer que os alunos espetem “espetadores” nas frases porque agora seria difícil a eles, que são novos, “voltar atrás”.

Logo a seguir, Edviges derrama: “o nível etário das pessoas é bastante elevado, em média, o que significa que há sempre aquelas vozes, que são os ‘Velhos do Restelo’, que tudo que seja mudança, não a vêem com bons olhos” (sic). Esta “sociologia” da stora tem também, infelizmente, problemas de gramática e de lógica. Tentemos desnevoar a coisa: a mulher acha que os velhadas são mais que muitos e uns imobilistas.»
[, “blog” Olho de Gato, 02.12.17]

Professora responsável pela fuga de conteúdos do exame de Português punida com demissão

Clara Viana
publico.pt, 20.03.19

 

 

A ex-presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, está impedida de voltar a dar aulas por ter sido comprovado que foi ela a autora da fuga de conteúdos do exame de Português do 12.º ano, realizado a 19 de Junho de 2017.

 

A informação foi revelada nesta quarta-feira pelo Ministério da Educação (ME). Numa nota à comunicação social, o ME informa que “foi determinada a sanção disciplinar de demissão” à referida docente, que era professora da Escola Secundária Rainha D. Leonor, em Lisboa.

Na mesma nota, o ME dá conta de que “todas as infracções constantes da acusação” contra Edviges Ferreira “foram consideradas provadas” no âmbito do inquérito disciplinar levado a cabo pela Inspecção-Geral de Educação e Ciência. E que, por isso, se concluiu que “a docente terá agido de forma consciente e intencional, desrespeitando gravemente os seus deveres funcionais e o interesse público”.

Devido ao mesmo caso, Edviges Ferreira foi constituída arguida pelo Ministério Público em Maio de 2018. Numa nota publicada então no seu site, a Procuradoria-Geral da República informou que estava em causa a “prática de um crime de violação de segredo por funcionário e de um crime de abuso de poder”.

Violação de segredo

Do inquérito que instaurou em Junho de 2017 e que foi dado como concluído em Maio do ano passado, o Ministério Público concluiu que a agora arguida “transmitiu a uma aluna, a quem dava aulas a título oneroso, os temas sobre os quais iam versar as provas” do exame de Português do 12.º ano.

Ministério Público quer levar ex-presidente da Associação de Professores de Português a julgamento

O MP frisava que tal aconteceu apesar de a docente saber que estava obrigada a segredo e também que as funções de auditoria que exercia no Iave “eram incompatíveis com a leccionação de aulas a título particular a alunos que iam submeter-se ao exame nacional de Português do 12.º ano”.  O crime de violação do segredo por funcionário pode ser punido com a expulsão da administração e por uma pena de prisão até três anos.

No dia em que o Expresso avançou com a notícia, dois dias após a realização da prova, dando conta da possibilidade de ter havida uma fuga de conteúdos do exame de Português, a então presidente da associação de professores da disciplina, quando questionada pelo PÚBLICO, declarou que esta era uma situação “bastante chocante”, mas que lhe levantava dúvidas quanto à sua veracidade. Edviges Ferreira disse acreditar que tudo iria “ser esclarecido”.

Numa gravação áudio, que circulou na rede WhatsApp, e que também foi enviada ao PÚBLICO, uma aluna avisava, dias antes da realização do exame, “que é preciso mesmo, mesmo, mesmo” estudar Alberto Caeiro. E treinar “uma composição sobre a importância da memória”.

“Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo e só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. E pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória…”. Os avisos acertaram em cheio. O autor escolhido para o exame realizado por cerca de 74 mil alunos foi Alberto Caeiro e o tema da composição era a importância da memória.

Não se pode impedir a “má-fé”

O que fazer com o exame?

Quando a gravação foi tornada pública, o Instituto de Avaliação Educativa (Iave), responsável pela elaboração dos exames, anunciou que iria abrir uma investigação ao caso, tendo depois feito uma participação ao Ministério Público e à Inspecção-Geral da Educação, apontando como pista a actuação da então presidente da APP.

O Ministério Público concluiu o seu inquérito em Maio de 2018. A IGEC já tinha dado a sua investigação como terminada uns meses antes, em Dezembro de 2017, na sequência da qual foi determinado pelo ME a abertura de um processo disciplinar, um procedimento que só agora chegou ao fim.

Numa nota divulgada aquando a abertura do processo disciplinar, o ministério dava conta também que iria adiar eventuais acções quanto aos efeitos do exame até serem conhecidos os resultados do inquérito. “No caso dos alunos, não tendo sido possível apurar que o conhecimento da informação se tenha traduzido em benefício mensurável, a IGEC propôs, e foi aceite, que se aguarde a conclusão do processo disciplinar à docente para a aplicação de eventuais medidas.”

“Só agora é que tal aconteceu”, frisou o ME quando questionado, nesta quarta-feira, sobre quais as medidas que iriam ser equacionadas. Um dos cenários que foi então apontado passava pela anulação do exame, uma solução para o qual o ME afirmou à partida estar contra.

cviana@publico.pt

[Transcrição integral. Texto de Clara Viana, publico.pt, 20.03.19. Os “links” a verde são meus. Imagem de topo: screenshot de página do “CM”.]

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A “unificação” ao contrário

Palavras iguais que o AO90 torna diferentes

Não, o assunto não está esquecido.

Primeiro, com base nos “dados” disponibilizados em 2017 pelo “Portal da Língua Portuguesa brasileira”, foram quantificadas e enumeradas as palavras literalmente INVENTADAS pelo AO90, ou seja,  aquelas que não existiam nem no Brasil nem em Portugal nem em África nem em qualquer planeta do sistema solar.

De seguida, com base nos mesmos dados da mesma versão, quantificámos por tipo diversos grupos de registos, para responder a outras tantas questões.

Numa terceira abordagem ao tema, ainda usando os dados de 2017, identificámos as quase três centenas de entradas que eram diferentes antes do AO90 e que diferentes permanecem segundo o mesmo.

Ora, entretanto alguém resolveu fazer alguma coisinha, lá pelo ILTEC, e agora os resultados já não conferem a 100%. A trapalhada homérica levou uma volta, algures em 2018, seguindo os “técnicos” lá do sítio a extremamente científica técnica “baralha e torna a dar”, e portanto tornou-se necessário passar a usar os dados da 2.ª “versão”. Nova versão esta que não contém correcção alguma, apenas modificou a confusão da inicial, mas será de todo conveniente não dar margem a desculpas nem abrir espaço a álibis.

E pronto, foi isto, está explicado o longo hiato desde o último quadro de resultados aqui publicado; foi necessário refazer quase tudo, a começar pela transformação dos novos dados redigidos na origem como texto em dados propriamente ditos: uniformes, com campos regulares, segundo critérios definidos. O que implicou, evidentemente, um longo (e repetido) trabalho de detecção e correcção de erros de digitação, de colocação e de formação, além da rectificação de lacunas várias.

Ficam assim também explicadas as diferenças entre as listas anteriores e as mais actuais. Pequenas diferenças, apesar de tudo; por exemplo, a lista de invenções tinha, segundo a versão anterior,  215 registos e, segundo a nova, passa a ter 213.

Para encerrar esta série de quatro “posts” sobre o assunto, retomemos então a questão mais violentamente estúpida, por assim dizer, que envolve o AO90: a supressão liminar do Português-padrão.

No fundo, e em concreto, é a isto mesmo que se referem — ainda que de tal não se apercebam — aqueles que, muito “indignados” e furiosos, rasgam as vestes reclamando a “revisão” do “acordo”. Aquilo a que alguns anti-acordistas chamam “contradições” ou “aberrações” (como se existisse no AO90 algo que não seja flagrante contradição ou pura aberração) e que, segundo protestam os mesmos, deverá ser “imediatamente corrigido“, consiste afinal na reposição das sequências consonânticas (as ditas “consoantes mudas”) que… no Brasil se mantêm, como única ou como dupla grafia. A anulação destas verdadeiras contradições e das aberrações que são as palavras INVENTADAS pelo AO90, eis aquilo em que consiste a tal “revisão”; com tudo o mais, ponham em “ata” para dar em “direto” um “ótimo aspeto” à “redação”, não se ralam os revisionistas.

O que significa que os ditos “anti-acordistas furiosos” reclamam ao Brasil, em substância e como esmola, quando “exigem” “revisão do AO90″ e, por via dessa “revisão”, a reposição no Português-padrão das “consoantes mudas”, apenas que o Brasil consinta (repito: que o Brasil consinta) em que Portugal e os PALOP “adotem”, de uma vez por todas e na íntegra, a desortografia brasileira, consoante e conforme for determinado pelo “falar” brasileiro. Ou seja, tratar-se-ia então de “adotar” não apenas a desortografia brasileira como a ortoépia brasileira, já que aquela depende exclusivamente desta.

Nem todos os casos da lista agora apresentada são lineares, gerais e unívocos, mas todos eles seguem a mesma regra, que aliás é comum a todo o AO90: por um lado, se no Brasil existia dupla grafia, ali continua a existir e aqui é aniquilada a respectiva sequência consonântica; se, por outro lado,  lá havia apenas uma grafia e esta continha consoantes “mudas” cá mas sonoras lá, então no Português-padrão os brasileiros liquidam-nas mas conservam-nas no brasileirês. Não será esta bambochata, em particular, assim tão escandalosa como as palavras INVENTADAS (um truque a que voltarei oportunamente), mas não me parece de inferior gravidade.

Ora então vejamos e confiramos se é assim ou não. Vamos à lista.

Sem contar com as INVENTADAS, que já aqui vimos, e sempre excluindo os casos de acentuação e de hifenização, são 785 registos, no total: palavras que eram iguais no Brasil e em Portugal e PALOP. O Brasil mantém sequências consonânticas (como única ou dupla grafia) que em Portugal e PALOP são aniquiladas pelo AO90.

A página com esta lista tem por título N.A.P., abreviatura/acrónimo de “Não Aplicáveis em Portugal”.

Parece coisa de filme de terror, não é? Tão aviltante rol de horrores, com tal sorte de canalhices implícitas e de canalhas envolvidos, deveria chegar e sobrar para que ao menos — à míngua de vozes sonantes — certos notáveis se dignassem soerguer uma sobrancelha desconfiada ou, mais que não fosse, a avaramente rosnar uma pergunta singela (“mas que merda vem a ser esta?”, por exemplo) ou a acrescentar um adjectivo não menos singelo (“merdoso” serve) quando mencionam o excremento.

Felizmente ainda há quem conserve um módico de juízo, uns poucos, e quem não aprecie ser comido por lorpa, outros tantos. Há os que se acomodam, que são muitos, os que se acobardam ou os que não estão para se ralar com “minudências”, e disso há por aí aos pontapés, mas de uns, de outros e dos restantes não rezará com certeza a História, porque de coveiros, assim como de intenções, está o Inferno cheio.

É disso e é de “gênios”.

Nota: alguns erros mais do que evidentes (ver, p.ex., “sector, sectorização, sectorizar“) na origem não foram deliberadamente corrigidos, como dados, porque são insondáveis os “critérios” do ILTEC.

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«Desacordos entre tentativas de acordo» [“Jornal de Angola”, 08.03.19]

Desacordos entre tentativas de acordo | Reportagem | Jornal de Angola – Online

Reportagem

Matadi Makola

jornaldeangola.sapo.ao, 8 de Março, 2019

 

Sob o lema “África e a normalização ortográfica da língua portuguesa”, a Academia Angolana de Letras promoveu, no Memorial António Agostinho Neto, em Luanda, na tarde da última quarta-feira, uma conferência, proferida pelo professor moçambicano Bento Sitoe.

Entre as várias figuras presentes no evento, destaque para o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, e do presidente da Academia Angolana de Letras, Boaventura Cardoso.

Segundo o Professor da Universidade Eduardo Mondlane, a normalização passa pelo reconhecimento e o estabelecimento de regras que permitam acomodar e não deturpar as palavras de línguas nacionais que entram no vocabulário português, sendo esta a via para se estar em pé de igualdade para discutir o que quer que seja.

“A falsa ideia de que a adesão ao acordo ortográfico só traz prejuízos não é unânime entre os linguistas. Por exemplo, o Brasil abraçou este acordo, mas há um grande desacordo entre os intelectuais e académicos daquele país, que se batem até hoje. O mesmo acontece em Angola ou em Moçambique”, avaliou.

Contudo, afirma Bento Sitoe, o processo emperra nos momentos em que as pessoas misturam questões linguísticas com questões políticas, dado que a articulação entre as instituições PALOP e CPLP podem muito bem servir para distinguir o trigo do joio.

Em debate, o Professor aponta duas possíveis soluções para o problema. “Primeiro, seria divulgar este acordo a todos os níveis e em todos os países, para que o Governo tome decisões, sabendo que todos estão esclarecidos. Em segundo lugar, seria preciso, de facto, avaliar como este acordo não contempla os diferentes portugueses”, referiu.

Porém, não chega ao radicalismo de chamar imposição. A seu ver, houve precipitação na maneira como foi à aprovação. “Não se deu tempo suficiente para que se pudesse discutir isso com calma”, critica.

Uma audiência interventiva

Preenchida maioritariamente por professores renomados e estudantes da especialidade de Linguística e Literatura, muitas foram as intervenções que mereceram a atenção da mesa. A primeira foi da linguista Luísa Costa, que se posicionou a desfavor de Angola aderir à proposta do novo acordo ortográfico.

Já no acordo de 1990 não estávamos preparados e, neste, por tudo o que apresenta, acho que é um acordo ortográfico ilegal”, defendeu.

O escritor Fragata de Morais comungou da linguista, posicionando-se “em total desacordo com o acordo”, que acredita não ser mais do que um caso flagrante que chama de “imperialismo livreiro”.

Insatisfeito, o escritor e Professor universitário Abreu Paxe disse prestar menos atenção à adesão ou não, mas ser necessário aplicar severidade na interpretação e real significação dos termos.

“Dizer Maianga à maneira portuguesa pode somente remeter-nos ao bairro, mas dizer com o sotaque apropriado da língua de origem já nos remete à razão do nome do bairro: a fonte de água”, exemplificou.

Ao coro de vozes, juntaram-se Benedito Homem, linguista formado pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Na sua opinião, a discussão não pode parar, pois se trata de um acordo que não beneficia a todos os países. Porém, assume que os linguistas dos Países Africanos de Língua Portuguesa ainda não chegaram a um consenso no verdadeiro sentido da palavra.

“Devemos primeiro arrumar a casa e depois fazer um acordo interno, para posteriormente chegar a uma conclusão”, sugeriu. Contudo, visiona que Angola não perde nada em não aderir ainda. “O tempo é mestre. E só com o tempo é que vamos poder avaliar”, reforça.

Já Mbiavanga Fernandes, linguista afecto ao ISCED-Luanda, avalia positiva a iniciativa da normalização da escrita do português em África, porque pode causar desenvolvimento, principalmente, no que toca à escolarização. “Na minha visão, essa questão acarreta duas obrigações: devemos olhar para a perspectiva política, dado que somos um país e temos interesses a defender. Por outro lado, aderir ao acordo pressupõe que estejamos preparados o suficiente e bem organizados, que é o que ainda falta”, pontua.

Na opinião de Ezequiel Bernardo, mestre em Linguística Crítica, afecto ao ISCED-Cabinda, é urgente que o Estado angolano ratifique o acordo ortográfico, uma vez que a realidade do país assim o exige.

“Estamos dependentes de Portugal e Brasil e é destes dois que extraímos os diversos livros”, justifica.

Por outra, refere que o acordo ortográfico vem a representar o processo histórico dos povos, sendo, para todo os efeitos, uma questão de política da língua. A seu ver, já é hora de darmos espaço e território a essa realidade. “Agora, isso não pressupõe esquecer as línguas nacionais”, adverte.

A rebuscar um caso prático, o sociólogo Paulo de Carvalho provocou a plateia, colocando ao conferencista a questão de um famoso supermercado angolano, cujo nome é um exemplo que se enquadra nos atropelos ou não do português nas línguas locais.

“Entre escrever ‘Candando’ e não ‘Kandando’, já que a ideia é aportuguesar o nome, seria coerente escrever mesmo abraço”, defende, para grande riso dos presentes.

Bornito de Sousa explica troca de “K” pelo “C”

Na primeira fila, o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, contribuiu significativamente para a temática. Disse que tomou a palavra não no sentido de obter resposta, mas de polemizar, para que a discussão continue satisfatoriamente.

“Eu também já fiz provocações no sentido de se perceber qual seria o sentido do acordo ortográfico, quando um país praticamente tem dez milhões de habitantes e o outro tem quase duzentos milhões. Que peso teriam os dez sobre os duzentos, quando não são acolhidos os elementos específicos, sobretudo das línguas culturais dos países africanos? Mas ficando fora, qual é a capacidade de sobrevivência”? Provocou assim a audiência, acrescendo que é um trabalho que deve contar com a colaboração de todos, quer enquanto países (PALOP), quer enquanto estudantes, docentes e indivíduos chamados à discussão.

Factualmente … sobre a normalização ortográfica da Língua Portuguesa em África, Bornito de Sousa manifestou estranheza no caso de se suprimir o “C” antes do “T”, facto que, na sua opinião, não é pelo falar em si, quando dois terços das línguas mantêm essa grafia, como é o caso do Inglês.

“Ora, se o argumento é a pronúncia, o muito teríamos que ter um ‘N’ ou algo assim”, sentenciou.

Um outro caso que lhe constituiu preocupação é a termo “Cokwe”, um exemplo que deve ser salvaguardado no processo de normalização da Língua Portuguesa.

“Para nós, falantes da Língua Portuguesa, ver isso num texto que não está diferenciado ou em itálico, a tendência é ler como está escrito. Qual seria a solução? Mudaríamos a grafia? Um outro caso é o termo ‘Muxima’. Será que escreveremos com x ou ch? Portanto, há um conjunto de questões que continuarão a ser debatidas”, destacou.

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No doubt about it

O que tem a ver com o AO90 um texto sobre a Língua Inglesa escrito por um russo em Inglês?

Bom, tem tudo a ver. Qualquer semelhança entre este argumentário sólido e as tretas acordistas é mera coincidência, bem entendido, seguindo o autor uma linha de raciocínio coerente (e inteligível) que radicalmente difere do discurso errático, polvilhado com “inverdades” escabrosas, que é típico do paleio de Malaca, Bechara, Reis, Canavilhas e outros portadores de mitomania.

E se quanto a semelhanças estamos conversados, já no que diz respeito a diferenças temos apenas esta: não existe a mais leve referência a ortografia. Nem explícita nem implicitamente. Nem claramente expressa nem vagamente aflorada.

O que faz todo o sentido, evidentemente. Tratando-se de anglofonia, falando-se de países anglófonos, analisando-se a (real, efectiva) difusão e expansão da Língua Inglesa, a “questão ortográfica” jamais ocorreria sequer a qualquer anglófono: a ortografia do Inglês permanece intocada há séculos. Aliás, por alguma razão é essa e não outra, hoje em dia e desde há séculos, a única língua-franca universal.

Afinal, vendo bem, este texto tem tudo a ver porque não tem nada a ver.

 

The English Language No Longer Belongs to Britain and America»

Brits and Americans No Longer Own English

By Leonid Bershidsky
“Bloomberg”, 02.03.19

 

The Brexit circus and the unpopularity of President Donald Trump are causing apprehension about the future of the Anglosphere, the cultural, intellectual and political influence of the core English-speaking nations: Britain and the U.S.

As a non-native English speaker who works in the Anglosphere, though, I’m not worried about that; Americans and Brits are merely facing increasing competition from within their accustomed domain rather than from without.

The English language, which has just 379 million native speakers, is spoken at a useful level by some 1.7 billion people, according to the British Council. That has long ensured that U.S. and U.K. voices are heard louder than any others.

There is no indication that the language’s popularity is declining despite the recent damage to the two countries’ soft power. Last year, the British Council forecast that the number of potential learners in Europe will decline by 8.8 percent, or some 15.3 million, between 2015 and 2025. Brexit has nothing to do with this: the expansion of English teaching at schools is expected to cut demand for the organization’s courses. Overall, the market for English in education is predicted to grow by 17 percent a year to reach $22 billion in 2024. That, in large part, is thanks to insatiable demand in Asia.

I learned it in the Soviet Union. I have to admit I did it because of British and U.S. soft power: I wanted to understand rock song lyrics, watch Hollywood movies in the original, and read books that weren’t available in translation. But that wasn’t the reason high-quality instruction was available to me in Moscow in the 1980s: English was the adversary’s mother tongue. Russian President Vladimir Putin is no fan of the U.S. or the U.K., but he has learned their language well enough to speak to other foreign leaders without a translator.

It’s impossible to avoid: 54 percent of all websites are in it. The next most widespread language is Russian, with 6 percent. The most popular translation requests on Google all involve English. The global academic community speaks it, and not just because U.S. and U.K. universities are important: If they all closed tomorrow, scholars would still need a common tongue, and they aren’t going to vote to adopt another one.

Nor will the global political community. The European Union is a case in point: After Brexit, English could lose the status as one of the bloc’s working languages because no remaining members use it officially. Yet the legal departments of all the EU governing bodies have agreed that it can retain its status on the rather thin argument that it’s used in Irish and Maltese law. It’s also the lingua franca for all the Eastern European officials who have never learned French or German. Even after Brexit, it will share with German the status of the most widely spoken language in the EU – that is, as long as one takes into account non-native speakers.

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Panem et circenses

Optimism is the opium of the people.‘ [Milan Kundera]

Crença não é exactamente o mesmo que fé, assim como fé pouco tem a ver com escolha consciente e em nada depende da razão. No entanto, ao que parece, é melhor, respectivamente, tê-la do que não tê-la. A fé, quero dizer, já que as demais variáveis da premissa estão hoje em dia pela hora da morte.

Nesta categoria — que o “povão”, na sua infinita capacidade de síntese, designa como “fia-te na Virgem e não corras” — encaixam perfeitamente os chamados “arremedos”, isto é, aqueles eventos e gestos, aquelas datas e cerimónias ou, em suma, aqueles “actos simbólicos” que valem tudo enquanto simbólicos mas não valem rigorosamente nada enquanto actos; não raramente meras encenações — não ocasionalmente puras macaqueações — de algo inexistente a que o Poder pretende conferir alguma espécie de credibilidade e assim desviar as atenções daquilo que de facto interessa.

O caso mais flagrante de tal tipo de fantochada (designação minha) é o chamado “Natal”: há um dia 25 no calendário em que toda a gente só quer é “paz e amor e passarinhos e florinhas”, o pessoal fecha-se em casa com “os seus” e todos atestam o bandulho (as “broas” em versão Marco Ferreri), ai, mas que grande alegria, vamos cantar-zi-o Jingle Bell-Jingle Bell, que é tão nosso, tão lindo, ó Maria, não te esqueças de guardar aí os ossos do piru para dar aos pobrezinhos, óvistes? E pronto, bate a meia-noite e oferecem-se prendas, arruma-se o estenderete e xixi-cama. No dia seguinte, 26, tudo volta ao normal, durante outras 364 jornas a única dúvida existencial que por vezes assalta o maralhal é se ainda há quem acredite no Pai Natal.

Bom, mas lá voltamos à presunção básica, não haja dúvidas, também no que respeita ao Natal é melhor havê-lo (e tê-lo) do que não tê-lo (ou não havê-lo).

E quem diz Natal, salvas as devidas distâncias, diz o “Dia De” (não confundir com “Dia D”, que é ligeiramente diferente). Há um Dia da Mulher, por exemplo, como o Dia do Mar ou o Dia da Árvore (palpita-me que ainda vamos ter o Dia do Aquecimento Global, um destes dias), e há os dias feriado, os civis e os religiosos, Páscoa, Carnaval, Ano Novo, Santo António, São João, São Pedro, um Santo por dia, ui, vai por aí um engarrafamento de santos que até ferve, são mais q’as mães, salvo seja, e Dia Disto e Dia Daquilo é a gastar, já só falta um dia (feriado, bem entendido, que o pessoal adora comemorar o Dia do Banho de Sol sempre que possível) em que se “comemore” ou “enalteça” ou “recorde” uma qualquer raça canina (o Dia do Galgo Afegão seria giro, ou o Dia do Chihuahua, porque não).

Salvas as devidas distâncias, repito, pois não é certo que sirvam para alguma coisa, uns, e que não sejam absolutamente ridículos, outros, todos estes Dia De entupindo o espaço entre luas não passam também de  fantochadas com a finalidade de entreter as massas ignaras. Fantochadas essas que as ditas massas agradecem, veneradoras, atentas e obrigadas, lamentando apenas que lhes não concedam os “eleitos”, em havendo pão, ainda mais circo.

Pão e circo, portanto e afinal, o fulcro da questão em toda a sua primordial simplicidade. Quando (supostamente) Juvenal crismou a essência da conservação do Poder — culto das aparências, apagamento da memória, erosão da consciência cívica — estaria decerto muito longe de sequer imaginar que dezanove séculos depois a sua formulação, tão perene e exacta como H2O, estaria ainda mais próxima da pureza absoluta.

A cidadania também é uma questão de cultura

A noção de cidadania é algo que a cultura do espírito não deve ignorar, na sua formação primária.

Nuno Pacheco
“Público”, 28.02.19

 

A Casa da Democracia (o parlamento) abriu-se esta terça-feira à Casa da Cidadania, no que constituirá um acto simbólico de aproximação entre eleitos e movimentos sociais. Antes de falarmos da essência de tal acto (a 3.ª Conferência Anual da Plataforma de Associações da Sociedade Civil – Casa da Cidadania, reunida desta vez na Sala do Senado da Assembleia da República), recuemos na História, em busca das origens da moderna noção de cidadania que, sendo designação muito antiga, adquiriu um novo significado a partir do século XVIII.

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, ao procurar “o sentido moderno” de tal palavra, encontrou as suas origens prováveis em França. Terá sido em Outubro de 1774, quando Pierre-Augustin Beaumarchais (1732-1799), dramaturgo, autor de O Barbeiro de Sevilha ou As Bodas de Fígaro, usou a palavra “cidadão” num contexto de litígio, após ter sido processado por um conselheiro de Paris. Terá dito Beaumarchais: “Eu sou um cidadão; não sou nem um banqueiro, nem um abade, nem um cortesão, nem um favorito, nada daquilo que se chama uma potência; eu sou um cidadão, isto é, alguma coisa de novo, alguma coisa de imprevisto e de desconhecido em França; eu sou um cidadão, quer dizer, aquilo que já devíeis ser há duzentos anos e que sereis dentro de vinte talvez!” Não se enganava: em 1791, a Constituição nascida da Revolução Francesa (1789-1799) deu o qualificativo de cidadão (citoyen) a todo e qualquer membro do Estado, substituindo o anterior tratamento de senhor e senhora (monsieur e madame). E a Marselhesa, hino composto nos fervores revolucionários, em 1792, registou o “Aux armes, citoyens” (às armas, cidadãos) que ainda hoje se mantém, apesar das muitas mudanças desde então.

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A terra e a terrinha

Esta política, este S. Bento, esta eloquência, estes bacharéis matam-me. Querem dizer agora aí que isto por fim não é pior que a Bulgária. Histórias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
— Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
— Distingamos! Chafurdo por necessidade, como político: e troço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparável para o país – esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter.
Assim, ali estava o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil…
— Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
— Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Os Maias’, Eça de Queirós

 

Enquanto a Assembleia da República da “terrinha” conserva intacto o balde do lixo onde serão despejados quaisquer laivos de resistência, o patronato brasileiro comemora o décimo aniversário da sua campanha de terraplanagem linguística e cultural. 

São, de facto, mais do que evidentemente concordantes, consequentes, interligados os sinais de um lado e do outro: a extrema arrogância do “gigante” brasileiro, passeando à trela a “sua” língua pequenina, e a vergonhosa, insultuosa, asquerosa passividade do minorca tuga, encolhido a um canto, sempre fingindo que nada se passa, receoso das chibatadas ou ganindo pelos restos que lhe possa atirar o dono.

Esta “notícia” da “terra” (brasileira, claro) é apenas uma de entre as muitas que de igual forma “parabenizam” a sua nacional golpada neo-colonialista — sem cujos acólitos, mercenários, deslumbrados, vendidos tugas não teria sido possível — e exultam, já cantando vitória, pela extinção radical do Português-padrão.

Note-se como os “caras” já nem se ralam com minudências como sejam a existência de outros países na CPLP (não contando com Portugal, pois, que não é um país, é uma choldra) e que a esses outros também “afeta” a cacografia brasileira. No parágrafo inicial da “notícia”, lá aparecem a “choldra” e os “outros” mas isso serve apenas para efeitos contabilísticos, como lembrete do número, quantas são as novas colónias.

No resto, no corpo da “notícia”, o costume: mentiras atrás de mentiras. Em todos os aspectos. Nem vou, desta vez, dar-me à maçada de acrescentar “links” ou notas; é tudo, de cabo a rabo, um chorrilho de mentiras tão descabeladas que nem vale a pena “atrapalhar” mais a fluidez das tangas, o texto ficaria virtualmente ilegível; e mesmo assim, apenas sublinhando ou destacando algumas das patranhas mais significativas, já se torna difícil ler (e muito mais ainda acreditar na lata descomunal daqueles “caras”).

A vertente política da matéria — a única que de facto interessa — é literalmente “chutada para canto”, mas até quanto ao “acordo” propriamente dito não têm qualquer pejo em reafirmar aquilo que toda a gente sabe e que apenas alguns tugas tentam iludir: o AO90 tenta atenuar um pouco a cacografia nos diversos estados do Brasil e impor a salgalhada daí resultante a sete “colônias” no “isstêriô”. Por isto mesmo referem apenas “dificuldades” brasileiras (sobrantes do AO45, não resultantes do AO90), “hábitos” brasileiros, “especialistas” brasileiros, “populações” brasileiras, “pessoas” brasileiras.

Pois sim, pois sim. Em Angola não há dificuldades nem há populações. Em Moçambique não há hábitos nem especialistas. E em Portugal ainda é pior: aqui na “terrinha” não há pessoas, só há impessoas. E “grupos de trabalho”.

Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos

Acentuação e hifenização ainda são maiores dificuldades apontadas por especialistas

No dia 1º de janeiro de 2009, entrava em vigor no Brasil o novo Acordo Ortográfico, medida que pretendia padronizar a grafia das palavras do Português nos nove países que adotam o idioma como língua oficial. Estima-se que as novas regras afetaram de 0,5% a 0,8% das palavras do Português brasileiro, bem menos do que as alterações estimadas para o Português de Portugal, que ficaram em 1,5% – o que explicaria a menor resistência do brasileiro em abraçar o Acordo.

“Mudanças na ortografia, por meio de leis e acordos, ocorrem de tempos em tempos no Português. O último acordo, antes do vigente, datava de 1943, com alterações em 1971. Sempre haverá, nesses momentos, quem esperneie e blasfeme quanto às mudanças, mas nenhum Acordo nesse sentido é feito para dificultar – e sim para tornar as coisas mais simples, mais fluentes. O Português carecia de uniformidade em sua modalidade escrita. São 250 milhões de usuários que escreviam e liam com diferenças que atrapalhavam essa uniformidade do idioma. A sintaxe, a forma de combinar as frases, o vocabulário de cada localidade falante dos diversos tipos de Português não sofreram alteração. Sob o ponto de vista simbólico, essa uniformização valoriza a Língua Portuguesa em sua representatividade no cenário internacional”, avalia Yeso Osawa Ribeiro, professor de Língua Portuguesa e Redação no Curso Positivo, de Curitiba (PR).

Gestado desde 1990, como desdobramento de um encontro para unificação do Português ocorrido em 1986, o Acordo Ortográfico deveria ter entrado em vigor em 1994. Em vez disso, por questões burocráticas, ele só passou a ser adotado há uma década, quando o Brasil iniciou a implantação, fazendo com que os outros países iniciassem seus processos em seguida. Por alguns anos, as novas regras conviviam com as antigas sem qualquer problema. Porém, desde 2016, quando terminou o período de transição, somente o novo Acordo Ortográfico passou a ser aceito no Brasil.

O assessor pedagógico de Língua Portuguesa do Sistema Positivo de Ensino, Caio Castro, afirma que, apesar de o novo Acordo Ortográfico pretender facilitar a comunicação entre os países de Língua Portuguesa, é comum as pessoas apresentarem dúvidas em relação à nova ortografia – principalmente aquelas que estavam acostumadas com as normas antigas há mais tempo. Segundo ele, uma das alterações que mais confunde as pessoas, atualmente, estão ligadas à hifenização. “É muito comum nos perguntarem em que situações o hífen deixou de ser usado, como em ‘antirreligioso’ e ‘autorretrato’, e em quais não, como ‘bem-vindo’ e ‘anti-inflamatório'”, explica. Outro caso em que o hífen deixou de ser usado e ainda gera confusão na população é quando o prefixo termina em vogal e o sufixo começa com uma vogal diferente, como em aeroespacial, lembra o especialista.

Com as novas regras do Acordo Ortográfico, palavras como “assembleia”, “ideia” e “jiboia” perderam o acento, por serem paroxítonas, enquanto “herói”, “chapéu” e “anéis”, que são oxítonas, mantiveram o acento. Para Ribeiro, o caso que mais trouxe dor de cabeça, principalmente aos adultos, foi o da mudança nos ditongos abertos em “ei”, “eu”, “oi”. “Antes, todos eles eram acentuados, indistintamente. Agora, apenas quando ocorrem em palavras oxítonas”, explica o professor. Outra dificuldade de assimilação citada por ele foi a extinção do acento circunflexo nos hiatos “oo” e “ee”, o que fez com que palavras como “voo” e “leem” não sejam mais acentuadas; bem como o fim do acento diferencial em palavras com a mesma grafia, mas pronúncia e significados diferentes, como é o caso do verbo e da preposição para, ou do substantivo e da preposição pelo. “As regras dos acentos diferenciais e dos hiatos em vogais dobradas ainda causam problemas, embora a frequência seja muito menor do que os dos ditongos”, explica Ribeiro.

Por outro lado, diz ele, algumas alterações, como o fim do trema, só expressaram o que já acontecia de fato e foram rapidamente absorvidas. “As pessoas, de um modo em geral, não usavam trema; a regra, nesse sentido, facilitou o trabalho para a maioria”.

Source: Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos (destaques meus)

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