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Lá está

Finalmente, um artigo versando um dos aspectos que apresenta já sérias consequências: a forma como a escrita afecta a oralidade.

Resumindo-se o dito AO90 à “adoção” taxativa da escrita brasileira e havendo uma relação de dependência directa (e evidente) entre a escrita e a oralidade, uma coisa influi na outra, a escrita adulterada adultera a fala. Sabendo nós que não existe uma única palavra grafada em Português que o “acordo” tenha imposto ao Brasil (todas, 100% delas são, pelo contrário, impostas pelo Brasil a Portugal), então a tendência normal — em especial nos estudantes — é “ler o que lá está” e, por conseguinte, “dizer o que lá está”; ou seja, ler brasileiro e falar brasileiro, que é o que “lá está”.

Esta vertente de análise do desastre tem sido pouco ou nada abordado ou sequer aflorado. Quem escreve ou fala sobre a imposição ditatorial (e política) da aberração tende a atirar-se às canelas dos acordistas, a enumerar em longas listas e quadros aspectos da ortografia propriamente dita — ainda que o AO90 não tenha absolutamente nada a ver com ortografia — e a fazer longas listas de “incongruências”, de “casos flagrantes” de “contradições”, de “alterações” e “correcções” imprescindíveis.

Tudo treta, é claro. Isto ele há muito quem adore exorbitar seu putativo “brilhantismo” analisando detalhadamente tudo aquilo que (em especial) no AO90 não existe e não interessa para nada. Não há a mínima “incongruência” nem nenhuma “contradição” naquela bambochata neo-colonialista. Não é possível (o que seria tremenda estupidez, aliás) fazer naquilo uma única “correcção” e nem sequer uma única “alteração”.

O “acordo ortográfico” não é acordo, é imposição, e não é ortográfico porque de Ortografia nada tem.

É, portanto, de saudar esta pequena lufada de ar fresco em forma de crónica. Um artigo de jornal sem listas inúteis ou tergiversações e, pelo contrário, atirando-se ao essencial, é admirável pela raridade e digno de aplauso porque não se limita a armar aos cucos.

Enfim, lá está, infelizmente isto é coisa rara.

Lá está.

Nuno Pacheco
“Público” 17.07.20

Ler “o que lá está” é também seguir o que lá não está, deturpando o som das palavras

 

As crianças de hoje argumentarão “que apenas estão a ler o que lá está”. Contraditório? De modo algum, porque não se referem ao “que lá está” em sentido literal (como, de forma irónica, se lhe referia Raul Machado) mas sim ao “que lá está” proveniente da escrita e dos sinais que dela emana para a sua correcta interpretação fonética

Ainda em época de exames, a língua portuguesa vem de novo à baila. Tanto mais que o exame do 12.º ano gerou contundentes críticas, como se vê pelos artigos de António Carlos Cortez ou de Elisa Costa Pinto, ambos no PÚBLICO. Mas não é de exames que trata esta crónica, e sim do tema levantado por uma pequena frase do leitor Alberto E. Diniz, da Figueira da Foz, que em carta ao director do jornal (publicada no dia 7) dizia serem arrepiantes, em Portugal, “as alterações na pronúncia, devido à destruição na modulação das vogais, que as nossas crianças expressam, argumentando elas que apenas estão a ler o que lá está…” Esta ideia, a de “ler o que lá está”, já motivou uma crónica anterior, velhinha de cinco anos (“Maravilhas da fonética”, 19/4/15), mas a verdade é que o tema não só se mantém actual como a situação se agravou.

Porquê? Pela escrita, precisamente. Há cinco anos citaram-se aqui as Charlas Linguísticas de Raul Machado, filólogo e primeiro presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, que iniciou em 1958 na RTP um programa dedicado à língua, compilado mais tarde em livro. Ora logo numa das primeiras emissões (a de 21/1/58) tratou precisamente do tema “Leia o que lá está!” Nesse programa, criticava professores ou pais que, em tom autoritário, diziam a crianças com dificuldade de ler uma frase num livro: “Menino, leia o que lá está!” Como se dissessem: “O menino é parvo! O menino não sabe ler!” E dava como exemplo esta frase: “Os homens sentem e pensam”. Uma frase simples, que toda a gente lerá sem dificuldade. Toda a gente? Sim, toda a gente que já domina, mesmo que de forma inconsciente, as regras do sistema vocálico do português europeu. Se uma criança lesse mesmo “o que lá está”, com base no que aprendera no alfabeto, leria (dizia então o filólogo): Óss hóménnss sénntémm é pénnsamm. Ou, “em grafia sónica, a seguinte algaraviada: Óç hóménç çéntéme é pénçame”. Em vez disso, qualquer pessoa lerá “Uz ómãix sêntãi i pênsão”. No entanto, escrevemos “Os homens sentem e pensam”.

Raul Machado prosseguia, assim, o seu raciocínio: “O fenómeno linguístico da pronúncia do nosso idioma encerra dificuldades e complicações de tal monta, que só com intenso treino e longa aprendizagem se conseguem vencer e dominar. Por isso, o imperativo ‘Leia o que lá está!’ contém, sem dúvida, uma imposição muito difícil de cumprir…, muito difícil de cumprir, sobretudo nos bancos da escola, da escola primária [agora conhecida por ensino básico].” Mas, concluía, era nessas dificuldades que assentava a “realidade magnífica da língua nacional”.

Porém, voltando à carta do citado leitor, as crianças de hoje argumentarão “que apenas estão a ler o que lá está”. Contraditório? De modo algum, porque não se referem ao “que lá está” em sentido literal (como, de forma irónica, se lhe referia Raul Machado) mas sim ao “que lá está” proveniente da escrita e dos sinais que dela emana para a sua correcta interpretação fonética. E é aqui que surgem os equívocos actuais, derivados em grande parte da aplicação do chamado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

Ressalve-se que o caminho para a ambiguidade foi já antes aberto pelas reformas ortográficas anteriores (com a capa de “acordo” ou sem ela). Por exemplo, este conjunto de palavras homógrafas, mas não homófonas, tinha a distinção sónica assinalada por acento gráfico na reforma de 1911, sendo depois abolida na de 1945: acôrdo e acordo (de acordar); fôrma e forma (de formar); sêca e seca (de secar); trôco e troco (de trocar); sôbre e sobre (de sobrar); côrte e corte (de cortar); refôrço e reforço (de reforçar); e até entre formas verbais distintas, mas homógrafas: pregar (de bater um prego) e prègar (dar sermões). Estas distinções gráficas caíram com a reforma de 1945, deixando a desambiguação para o contexto. Em contexto, percebia-se que eram diferentes. E fora de contexto? Ora, que adivinhássemos!

Já com o AO90 pretende-se que sejam lidas de forma diferente palavras de estrutura idêntica, mas sem indicar como. E se as distinções gráficas abolidas em 1945 geralmente ocorriam entre substantivos (corte, ô) e flexões verbais (corte, ó), aqui ocorrem amiúde entre palavras do mesmo género. Substantivos como fator (à) e favor (â); senhor (e mudo) e setor (è); doação (â) e coação (à), de coagir, existindo também coação (â), de coar; diretriz (è) e meretriz (e mudo); adjectivos como correta (è) e forreta (ê); ou até flexões verbais, como adotar (ò) e adoçar (u). Além disso, tornaram-se ambiguamente homógrafas palavras antes só homófonas, dando-lhes a mesma forma: ato (de acto) e ato (de atar) ou ótico (de óptico, da vista) e ótico (do ouvido).
O mais estranho foi o que sucedeu com palavras como infecçãodirecção ou concepção, que, com a sílaba tónica claramente marcada pelo ditongo nasal ão, só se liam “infèção”, “dirèção” ou “concèção” devido à presença da consoante dita muda; sem ela, e escrevendo-se infeçãodireção ouconceção, ler-se-á tendencialmente “inf’ção”, “conc’ção” e “dir’ção”. Por isso, ao lerem “o que lá está”, os alunos vão seguir o que lá não está — e assim deturpar o som das palavras. Esta “benesse”, só podemos agradecê-la aos criadores da aberração conhecida por AO90.

Nuno Pacheco

[O artigo transcrito (a partir das edições em papel e digital), da autoria do jornalista Nuno Pacheco, foi publicado no jornal “Público” de 17 de Julho de 2019.]

Nota: a reprodução deste texto, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessa ou diz respeito ao chamado “acordo ortográfico” e/ou a “outros detritos”, como é o caso do anti-portuguesismo brasileiro. Não prossegue nem implica qualquer intenção, interesse ou finalidades de carácter comercial, político-partidário ou outro, tendo por único objectivo a informação independente. monotemática de interesse público.

Chique chiqueiro

Chique, chicana, chiqueiro, ou os ecos de uma saraivada ortográfica

Nuno Pacheco, 28 de Maio de 2020

 

Já o Dia Mundial da Língua Portuguesa ia longe, entendeu o arquitecto Saraiva preencher a sua “Política a Sério” e ao Sol com esta extraordinária tese: “É chique dizer mal do Acordo”. O que o animou a pegar no assunto? Coisas que ele não percebe e outras que lhe dão vontade de rir. Não percebe, afirma, “o encarniçamento de algumas pessoas contra o Acordo” (o Ortográfico, convém esclarecer), pessoas que ainda por cima falam dele “como se fossem especialistas da Língua”; e dá-lhe “vontade de rir quando certas pessoas que não conseguem escrever duas frases seguidas se põem a criticar o Acordo com ar superior”. Ainda se ri mais quando lê no fim de certos textos de alguns colunistas esta nota “profundamente ridícula”: “Este artigo não respeita as regras do Acordo Ortográfico”. “Devem achar que é chique. Que os faz entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto”, conclui Saraiva.Num curto parêntese, convém dizer que esse problema não afecta jornais como o Sol, onde colunistas que, sendo publicamente contra o Acordo Ortográfico e recusando-o na sua escrita corrente (como António Bagão Félix ou Guilherme Valente), são “traduzidos” para “acordês” sem qualquer nota. Talvez por ser ridícula uma nota a dizer: “Este artigo foi ortograficamente alterado contra a prática dos seus autores.” Do mesmo mal padecem o Jornal de Letras (onde os opositores ao Acordo aparecem sempre “traduzidos”) ou o Expresso, que, no entanto, abre escassas excepções a seguidores da “antiga ortografia” — Saraiva há-de achar que cronistas como Miguel Sousa Tavares ou Pedro Mexia são dois “chiques” que anseiam, com tal aviso, “entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto.”

O problema é que Saraiva, que manifestamente não percebe mesmo nada deste assunto, não se fica por curtas graças solares. Também adora retirar delas alguma moral. E conta uma história que, garante, se terá passado com o seu pai, o historiador António José Saraiva (1917-1993). Diz Saraiva filho, o arquitecto, que quando “começaram a ser conhecidos os termos do Acordo Ortográfico, com muita gente a ridicularizá-lo”, decidiu visitar Saraiva pai. “Fui a sua casa e perguntei-lhe o que achava do assunto — certo de que arrasaria o Acordo.” Ou seja, certo de que o pai seria um dos “chiques”. Mas a resposta espantou-o — e aqui é o filho a falar pelo pai, valendo o que vale: “Oh Zé, o mais importante é que os portugueses e os brasileiros façam um esforço de entendimento para que as duas escritas não divirjam muito. Agora, escrever uma palavra assim ou assado não tem importância nenhuma.” Espanto do filho: “Foi para mim uma lição.”

Pois se foi, ficou por aí. Recuando uns aninhos, quando se discutia a insana proposta de Acordo de 1986, que antecedeu o actual, escreveu o arquitecto num editorial do Expresso, de que era então director, em 24 de Maio desse ano: “Se as modificações acordadas no Rio de Janeiro há quinze dias forem ratificadas, o português escrito será quase uma nova língua.” Crítica? De modo algum. Mas resignação: “Portugal terá pois de se sujeitar, substancialmente, à ortografia do português tal como se escreve hoje no Brasil e à evolução que ele for tendo neste país.” E em Junho concluía: “Para que o português escrito aqui e no Brasil seja igual é necessário que Portugal passe a fazer regularmente também modificações… que, muito provavelmente, afastarão cada vez mais a nossa ortografia do modo como pronunciamos a língua”. Acertou. Porque a fala tem vindo a alterar-se devido aos artificialismos impostos à ortografia.

Agora, no texto do Sol, afiança que não se pode dizer que este é um “acordo falhado”, porque “os dois maiores países da CPLP, Portugal e Brasil, assinaram-no, e este era o objetivo [sic] principal: que os outros o adotem [sic] ou não, é um problema deles.” Os dois maiores países da CPLP, foi o que disse? Em influência? Em área geográfica? Em número de habitantes? Em rendimentos? Más contas, para um arquitecto. Mas certas, no raciocínio dos autores da coisa, e aqui ele também acertou: o Acordo é, na verdade, uma manigância luso-brasileira mascarada de multinacional. Na matrioska ortográfica imaginada (e aceite) por Saraiva há um bojudo Brasil que encaixa um menos anafado Portugal, dentro do qual se enfiariam, sempre por submissão ao primeiro, os “irrelevantes” países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e o longínquo Timor-Leste. “Adotem [sic] ou não, é um problema deles.”

Mas não era problema nosso? Não era para unificar a ortografia toda? Era. E é por isso que está mais dividida; que no Brasil se escreve “aspecto”, “infecção” e “recepção”, como dantes, e que em Portugal passou a escrever-se “aspeto”, “infeção” e “receção”; que nos correctores do Word continua a haver duas variantes ortográficas, a de Portugal e a do Brasil, sem espaço para mais. Não é como estávamos? Só na aparência. Porque é pior, muito pior. Agora lemos títulos inimagináveis como este (dia 26, online no Expresso, jornal que Saraiva já dirigiu): “Covid-19: BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos [sic] da economia.” Passando o chique, o Acordo já foi chicana e agora é um chiqueiro. Só que nada nos obriga a viver nele.

Nuno Pacheco

[Os destaques, sublinhados e “links” (a verde) são meus.]

«Fora-da-lei» [“Público” 20.05.20]

O Acordo Ortográfico e o fora-da-lei

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

“Sou assumidamente um fora-da-lei, passei a ser um autor clandestino. Sou também um analfabeto porque me recuso terminantemente a cumprir um acordo ortográfico imbecil que assassinou o meu português. Sinto-me chocado e de luto pela língua portuguesa, mas comigo sei que tenho milhões que também não compreendem aquilo que aconteceu. Nenhuma língua pode ser alterada e imposta por decreto, cerceando a nossa liberdade e inteligência.”
Pedro Barroso, músico, compositor e professor

Em época de pandemia, em estado de calamidade, para combater as agruras do isolamento, e durante o pouco tempo livre que o ensino a distância permite, a literatura tem sido uma opção imperiosa. E como professor de Português mantenho, sem tréguas, a inquietação que este Acordo Ortográfico trouxe para o meu quotidiano escolar. Um Acordo Ortográfico que levianamente decidiu pela desvalorização da etimologia, fomentando sucessivos equívocos, e que se fez acompanhar de uma Nota Explicativa, incompreensível nas suas justificações e opções, irracionais e incongruentes.

Enquanto professor experiente o que mais me choca na referida Nota é a justificação, porventura a mais risível de todo o texto, em que os mentores da nova ortografia demonstram a sua enorme preocupação e infinito desvelo para com as pobres crianças que têm o português como língua materna. Ressalte-se ainda a circunstância de esta aberração ser desconhecida de grande número de acordistas, pensando muitos deles tratar-se de uma anedota:

De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.

Perante isto, só podemos concluir que os redactores do AO90 têm em muita pouca conta as capacidades das “crianças” lusófonas, apetecendo-nos perguntar como é que as outras crianças que usam outras línguas conseguem memorizar todos os grafemas não articulados e as diferentes representações gráficas para o mesmo som? Por exemplo, no francês, com a palavra brouillé [bʀuje] que apresenta oito grafemas e cinco fonemas ou no inglês, com knowledge [ˈnɒlɪdʒ] que apresenta também uma diferença substancial entre grafemas e fonemas. Como é que essas crianças conseguem?

Na perspectiva dos autores do AO 90, a memória já será bem utilizada num conjunto de adivinhas com que os alunos se deparam actualmente, seja por exemplo com a omissão das consoantes ditas mudas (c e p) ou com o hífen. É a língua, sem lógica, na base da incoerência do critério acientífico da pronúncia privilegiado pelos catequistas da nova ortografia:

— epiléptico e epilepsia, só uma destas palavras tem p. Qual será?

— ortóptico e óptico, só uma delas tem p. Qual será?

— bissectriz e trissectriz, só uma delas tem c. Qual será?

— Egipto e egípcio, só uma das duas tem p. Qual será?

— lácteo e lacticínio, só uma delas tem c. Qual será?

— infecção e infeccioso, só uma delas tem c. Qual será?

— cor-de-rosa e cor-de-laranja, só uma das duas tem hífen. Qual será?

— manda-chuva e guarda-chuva, só uma delas tem hífen. Qual será?

— pé-de-cabra e pé-de-meia, só uma delas tem hífen. Qual será?

A todas estas questões, poderá sempre acrescentar outra: porquê? Pode ainda adicionar mais uma: que ferramenta posso consultar para me assegurar que estou a cumprir escrupulosamente o acordo? Não faça perguntas difíceis, caro leitor.

Cada fonte consultada pode usar a sua versão do AO90. Se reparar, o jornal Correio da Manhã, o Expresso ou o jornal Record utilizam o acento na forma verbal pára, ao contrário do que estipula o texto do AO90. Há um ou dois dias, a propósito de manifestações pró-Bolsonaro, li num cartaz, num noticiário televisivo: “Ninguém para a juventude do Brasil!” O que significa isto? Como se lê isto?

Outro embuste recorrente é o de que as alterações ortográficas não teriam interferência na pronúncia. Nada mais falso! Temos, com regularidade, apresentado palavras acordizadas e solicitado a grupos de alunos que as pronunciem. Por exemplo, na palavra conceção (concepção em português vernáculo), 92,4% pronunciaram o e como se fosse uma vogal fechada [kõsəˈsɐ̃w̃] e apenas 7,6% pronunciaram [kõsɛˈsɐ̃w̃], com a dita vogal aberta. Números semelhantes ocorreram com as palavras invetiva e recetação.

Para quem duvida do caos que este AO trouxe, refira-se a utilização do hífen na locução substantiva “mão-de-obra”. Tem ou não hífen, agora com o AO90? Se consultar o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) não verá quaisquer vestígios dos dois hífenes, mas se, por exemplo, preferir pesquisar noutra ferramenta, na página da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, encontrará os ditos hífenes. E na imprensa? No Jornal de Notícias predominam as ocorrências sem hífen; no Diário de Notícias, no Jornal de Negócios e no I predominam as formas com os dois hífenes; no Observador e no Sol coexistem em número aproximado as duas formas. Caso idêntico se passa com “fora-da-lei”, evidenciando a salgalhada que por aí campeia. Consulte-se regularmente os órgãos de imprensa e ver-se-á repetidamente a oscilação entre as formas com ou sem hífen.

Mais uma dupla grafia em perspectiva?

Para quem continua a duvidar do caos ortográfico que se instalou no último decénio, contabilize-se, calmamente sentado, a profusão de fatos, contatos, artefatos e impatos que aparecem quotidianamente na comunicação social, nas legendas televisivas, no Diário da República e em documentação variada (dos privados às instituições). É também crucial indicar qual a fonte acordizada que utilizamos na nossa pesquisa porque cada uma dessas fontes segue uma diferente versão do AO90, uma espécie de marxismo com cinco tendências (Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo).

Como cidadão, lutando contra a inércia, continuarei a ser obstinadamente um “fora-da-lei”; como professor darei conta aos meus alunos do sem sentido de um “fora da lei”, ainda que a sabedoria oficial os force a escrever assim.

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

[Destaques, sublinhados e “links” meus. João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20. Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Logótipo: Facebook.]

Erros de português

clickbahia.com.br, 12 de Maio

60 erros de Português que tiram a credibilidade de qualquer pessoa

André Carvalho


No marketing digital, especialmente no marketing de conteúdo, os textos são ferramentas necessárias.

E digo “ferramenta” no significado correto da palavra: o texto é um verdadeiro instrumento da estratégia, utilizado a fim de entregar conteúdo relevante às personas, educá-las e fidelizá-las.

Para que isso aconteça, é indispensável que o texto seja confiável.

A “receita” básica para um texto assim, nós já temos: é preciso fornecer um tema pertinente, um assunto no qual a persona realmente tenha interesse, uma reflexão ou dica valiosa, a resposta certa para uma dúvida ou a solução eficiente para um problema.

Mas o que muitos não percebem é que a relevância do texto não depende apenas do seu grau de informatividade.

Não adianta nada ter a saída perfeita para uma situação da sua persona se você não consegue se expressar com clareza, se não é capaz de se fazer entender perfeitamente. Por isso, o bom uso da língua é o maior aliado de um texto valioso.

E uma coisa é fato: na língua escrita, a norma culta é a variante de prestígio. Na prática, isso significa que um texto bem escrito é valorizado, ao passo que um texto cheio de errinhos e inconsistências pode fazer o leitor torcer o nariz e desconfiar das competências do autor.

Não ganhar a confiança do leitor é apenas a primeira consequência dos erros, e a segunda é ainda mais preocupante: é muito pouco possível que alguém compartilhe e ajude a propagar um texto criticável. Isso é péssimo para o marketing de conteúdo, certo?

Para ajudar você a evitar essa situação, elencamos neste post 60 erros de português capazes de tirar a credibilidade de qualquer texto. Continue lendo e aprenda a deixar seus conteúdos impecáveis!

Os erros ortográficos são aqueles que não respeitam a maneira correta de escrever as palavras. Podem ser considerados problemas de ortografia:

1. Erros de digitação

Eles acontecem quanto você troca uma letrinha de lugar, ou digita um caractere a mais ou a menos. Percebeu algum erro assim na frase anterior? Foi proposital, para você entender como a troca de uma letra parece inofensiva mas pode quebrar o fluxo de raciocínio e confundir quem está lendo.

“Quanto” e “quando” são duas palavras em que isso ocorre bastante, assim como construções que podem terminar tanto com s quanto com r: internar / internas, por exemplo.

2. Confusão entre fonemas parecidos

Existem mais sons na língua do que sinais gráficos para representá-los. Assim, o mesmo fonema pode ser grafado usando várias letras diferentes. É o caso do som de “s” em “sítio” e “caça”, de “z” em “casa” e “azeite”, de “j” em “jiboia” e em “viagem”.

Essa semelhança entre fonemas é o que nos faz escrever “traz” (verbo) em vez de “trás” (preposição), ou formar frases como “Maria não quiz saber do ebook de André”.

A boa notícia é que esses equívocos são fáceis de solucionar: basta ter um dicionário por perto (pode ser um online, claro) e realizar uma revisão atenta no final. Você pode pedir para alguém ajudar ou revisar sozinho.

Nesse último caso, espere um tempinho após escrever o texto, para “esfriar a cabeça” antes da releitura. Outra dica importantíssima é sempre passar o texto por um corretor automático.

Caso seu os erros de digitação estejam frequentes, o ideal é fazer um curso de digitação para aprender as melhores técnicas e melhorar a sua coordenação, assim reduzindo os erros.

A acentuação também se encaixa na categoria de ortografia, mas, como são muitos os erros desse tipo, teremos um tópico apenas para eles. Confira abaixo!

Erros de acentuação

Crase

A rigor, a “crase” é uma junção de letras idênticas. Na língua portuguesa, a principal forma de crase é a ligação da preposição “a” com a letra “a” (geralmente um artigo definido), simbolizada por um acento grave que indica essa união (por isso este tópico se encaixa nos erros de acentuação).

Veja abaixo alguns dos equívocos de crase mais cometidos:

3. Crase antes de palavras masculinas

Como mencionado acima, a principal ocorrência de crase no Português é a junção da preposição “a” com o artigo definido “a”, usado apenas antes de palavras femininas. Como as palavras masculinas são precedidas do artigo “o”, a junção com a preposição resulta em “ao”. Por isso falamos:

“Eles vão à empresa e depois ao evento de marketing”

São incorretos, portanto,  os usos “à rigor” e “à respeito”, por exemplo. Nesses casos, apenas a preposição é utilizada: “a rigor” e “a respeito”.

Mas, como em toda regra, há uma exceção: quando a expressão “à moda de” está escondida na sentença, podemos dizer, por exemplo: “bife à Osvaldo Aranha” ou “cantou a canção à Roberto Carlos”.

Nesses casos, o acento indicativo de crase é um grande aliado da desambiguação: se dissemos “cantou a canção a Roberto Carlos”, quer dizer que a pessoa cantou para o Rei, e não imitando-o.

4. Crase antes de demonstrativos

Outra exceção para a proibição do acento indicativo de crase com palavras masculinas é diante do demonstrativo “aquele”. Isso acontece porque a preposição “a” se junta à primeira letra do pronome, que é idêntica. Dessa forma, quando temos verbos ou expressões que exigem a preposição a + “aquele”, podemos dizer:

“o post fez referência àquele curso de marketing de conteúdo”.

Entretanto, alguns demonstrativos não começam com a letra “a” nem são acompanhados do artigo “a”. Por isso é errado utilizar a crase em frases como: “o post fez referência à essa cartilha”. Nesse caso, usamos apenas a preposição: “…fez referência a essa cartilha”.

5. Crase antes de palavras femininas no plural

Ok, já sabemos que a crase ocorre quando há junção da preposição “a” com o artigo “a”. Mas e quando a palavra seguinte está no plural?

Nesses casos, o correto é fazer a junção com o artigo no plural, naturalmente: a + as = às. Outra opção é utilizar somente a preposição. Mas é importante notar que essa escolha faz diferença no sentido da frase. Observe:

Quando dizemos “o post faz referência a cartilhas de segurança”, podem ser várias cartilhas, indeterminadas. Quando dizemos “o post faz referência às cartilhas de segurança”, são cartilhas específicas, que devem ser mencionadas em algum outro lugar do texto. As duas opções estão corretas, dependendo do sentido que você quer dar à frase.

Mas é incorreto dizer “o post faz referências à cartilhas”, porque, como não há o artigo no plural, não há com o que a preposição se juntar. Isso impede a crase (junção) e o uso do acento grave.

6. Crase antes de verbos

A lógica se aplica aqui mais uma vez: a crase (junção) só ocorre quando há uma letra idêntica imediatamente após a preposição. Assim como os pronomes demonstrativos, os verbos não admitem artigo (pois artigos são acompanhantes de substantivos).

Dessa forma, não há com o que a preposição se juntar. É incorreto, portanto, falar “à partir” ou “à combinar”: usamos apenas a preposição nesses casos: “a partir” e “a combinar”.

É bom lembrar que em algumas situações a crase pode até ser facultativa, mas ela é muito útil para preservar o sentido correto da frase.

Por exemplo, há muito menos perigo em “receber a bala” do que em “receber à bala” — a não ser, é claro, que a bala da primeira sentença seja oferecida por um estranho em uma van!
(mais…)

“Ter na Língua causa para vergonha” (“Jornal de Angola”, 10.05.20)

Não há atalho para a escrita


Caetano Júnior

O Mundo celebrou, a 5 último, o Dia da Língua Portuguesa. A efeméride obriga-nos a uma reflexão sobre o uso que lhe damos, durante o processo que pretendemos que desagúe na comunicação e informação, mas que, não poucas vezes, resvala para âmbitos contrários aos quais nos propusemos à partida.

Complexo como só o próprio, este Idioma, que nem sempre nos consegue unir – porque de exigente literacia e de difícil domínio, ainda mais num contexto como o nosso, de convivência com falares locais -, faz de muitos de nós reféns da crítica quase geral, quando não o tratamos com a deferência que merece.

“Parece uma maldição, e talvez mesmo seja. O nosso uso diário do idioma aparece polvilhado de descuidos, de impropriedades, desvios à norma, rotundas agramaticalidades. Mesmo escrevendo, contenta-nos rapidamente a primeira formulação, essa onde uma ligeira releitura logo detectaria o manquejar da semântica, a redundância incomodativa, a urgente conveniência da mais humilde preposição”. Eis um trecho de Fernando Venâncio, logo à entrada, no prefácio que dedica ao livro “Em Português, se Faz Favor”, de Helder Guégués.

Um fragmento ao qual fazemos recurso também para traduzir a realidade da Língua Portuguesa entre nós. Estamos perante um exercício reflectivo, dirigido não a especialistas – o que os não impede de ler -, mas ao leitor comum; àquele que tem sempre necessidade de produzir um escrito, um bilhetinho que seja; que se sente perseguido pelo desejo de emendar os danos que inflige ao Idioma.

O que se busca, nesta abordagem que se quer pedagógica, também não é a perfeição na produção escrita, porque é extremamente difícil tê-la. A Língua Portuguesa é um campo do conhecimento muito vasto, delicado e em permanente actualização, que inclui contextos variados, entre os quais os sócio-culturais. Podemos até, para atestar a complexidade que a envolve, trazer à conversa as variedades ou dialectos (por exemplo, o que para nós é “figo”, para o são-tomense é “caroço”) e o acordo ortográfico ainda por harmonizar entre os falantes da comunidade lusófona.

Adentramos em território perigoso, como o que, amiúde, subjaz à crítica – no caso, à vertente escrita da Língua. Afinal, paira a possibilidade de uma qualquer falta, distorção ou omissão comprometer a escrita. É a omnipresente Lei de Murphy. Um risco, entretanto, consciente, que parte da necessidade de deixarmos de trazer a Língua tão remendada. E não há, nestes tempos dominados pela tecnologia, que deixa o saber à distância de um “click” no computador, razões extraordinárias para que o Português continue a ser vilipendiado.

No passado, dependemos dos livros físicos ou de quem os tivesse, geralmente, a figura do professor/educador/padre, que intermediava a transmissão de conhecimentos. Como ontem, o processo tem na base a alfabetização e a literacia. Começamos por juntar as letras e vemos, depois, alargados os procedimentos, de forma gradativa, até lermos e percebermos textos mais complexos. Quanto mais cedo tivermos contacto com os livros, mais rapidamente deixamos as trevas. E, hoje, é preciso que sejamos, também, autodidactas, se nos quisermos cultivar. Para tanto, basta gastar com pesquisa e leitura algum do tempo que dedicamos a esbanjar “likes” nas Redes Sociais. Se não for assim, jamais deixaremos de ter na Língua causa para vergonha, sobretudo nós, que a usamos como instrumento de trabalho. Ler é, definitivamente, a única via para alguma proficiência na escrita. Não há atalho possível. De outra forma, é encontrar satisfação na agramaticalidade.

Entre nós, o uso tosco do Português no dia-a-dia é um problema transversal a todos os grupos profissionais, à maioria das instituições e às pessoas. O assunto merece uma resposta à medida da gravidade que encerra. De contrário, prevalece o risco de vermos entidades, sobretudo públicas, terem a integridade e a responsabilidade questionadas, devido a actos desleixados ou a atitudes de negligência para com o Idioma. Aliás, a Internet, nas mais variadas Redes Sociais e plataformas, faz, amiúde, circular papelada produzida em instituições públicas, nas quais a Língua Portuguesa sai muito maltratada. São vazamentos que empoeiram o perfil de entes e organismos que se pretendem impolutos.

Há, entretanto, formas de prevenir a inadequada utilização da Língua, nas instituições, em particular. A primeira pode ser a opção por quadros de comprovada qualidade; para o caso, de reconhecida competência linguística e comunicativa. É verdade que se trata de uma alternativa muito difícil de atender, à luz do contexto de enorme debilidade sob o qual corre o processo de ensino e aprendizagem no país. Mas é uma solução possível, se o recrutamento obedecer a critérios rigorosos e não se circunscrever a recomendações sustentadas numa qualquer outra natureza de confiança que não inclua a profissional. Há muito tempo que esta devia ser, aliás, a forma habitual de actuar.

Por outro lado, há o recurso à contratação de especialistas em Português, que, em situações oportunas e concretas, ajudem a conferir à redacção final a perfeição que se impõe. É assim que se faz em muitos lugares do mundo. Mesmo as áreas do conhecimento que têm relações mais estreitas com a língua, como o Direito, recebem o suporte da especialização no Idioma. É um procedimento necessário também do ponto de vista estético, além da prova de que a auto-suficiência é ilusão.

Já há muito passou o tempo de se conferir a devida importância à Língua, não apenas como veículo de comunicação e meio de expressão, mas também enquanto reflexo da imagem de quem a usa.

Somos todos conhecedores da deficiente qualidade escrita em documentos, alguns dos quais passam na TV e saem no jornal. É verdade que a correcção, a palavra certa, é muitas vezes devorada pelo uso, pelo sussurro dos falantes, mas há contextos nos quais deve prevalecer a norma vigente.

“Os erros jamais serão varridos da face da terra”, postula o escritor. Mas sempre estaremos em condições de os banir dos nossos escritos e assim torná-los mais permeáveis à comunicação. A nossa criatividade de nada servirá, se estiver ao serviço da deformação.

[Transcrição integral de artigo do “Jornal de Angola” de 10.05.20.
Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Imagem da bandeira de Angola: Wikipedia. Fotografia de autoria desconhecida (ver um dos ‘posts’ anteriores). Logótipo da  EPL – Escola Portuguesa de Luanda: Facebook.]

Uma língua Vital

Um “diálogo” muito interessante em que ambos os “contendores”, entrincheirados nas respectivas valas comuns, tentam convencer os demais com a superioridade dos “argumentos” de cada qual e da total ausência de méritos de qualquer deles. No fundo, trata-se de um (educadíssimo, polidíssimo, extremamente alfacinha) diálogo em forma de sporting-benfiquismo, ou seja , segundo a inamovível “lógica” futebolística que infalivelmente postula que “o meu clube é melhor do que o teu porque o meu é meu é o teu não é o meu”.

Talvez isto fosse pasto para psiquiatras. maná para bruxos e adivinhos e outros mecânicos da caixa dos martelos, mas decerto as respectivas operações (leucotomias, por exemplo) iriam revelar-se de uma complexidade escusada; mais vale a abordagem céptico-cínica das pessoas normais, por conseguinte.

Em termos de sinopse, e mesmo dando de barato os já algo mofados antecedentes. o que temos aqui é Vital, um ex-comunista — aflito para que se não confunda o que agora julga com a posição oficial dos comunistas portugueses –, a mandar bocas (isto é, a mentir com quantos dentes ainda tem na boca) a um anti-acordista especializado em minudências (listas enormes de palavras) sem jamais referir o essencial (que não existe “ortografia” no Brasil, que brasileiro é uma coisa e Português é algo completamente diferente): primeiro, o comunista — pobre diabo — chama “sebastianista” ao outro, ao que este, zangadíssimo, retruca umas diatribes tremendas num ralhete de meter medo a qualquer criança. Agora, e ameaçando desde já ambos que muito provavelmente isto não fica assim, Vital ataca de novo com igual soma de meias-verdades, mentirolas, invenções e puras patranhas. Na sua lisboeta cabecinha pensadora, o livre-pensador acha perfeitamente normal enfiar o barrete mais descabelado ao mais circunspecto e sisudo cidadão. Foi este, aliás, o princípio basilar que o comunista adoptou para si mesmo: enfiar o barrete e, já que está enfiado, defendê-lo com unhas e dentes — é meu, o garruço é meu, ninguém mo tira — a ver se consegue, à falta de melhor, já que não convence ninguém, ao menos convencer-se a si mesmo.

Talvez um dia, de tanto se agarrar ao barrete, Vital acredite nele.

 


1. Vital ataca Francisco

Pobre Língua (15): Sebastianismo ortográfico

Publicado por Vital Moreira.
“Blog” Causa Nossa, sexta-feira, 17 de abril de 2020

 

1. Confesso que não deixo de admirar a pequena tribu de opositores ao Acordo Ortográfico, os quais, passados mais de dez anos sobre a sua vigência e a sua aplicação generalizada – o que o torna irreversivel -, continuam a pugnar pelo regresso à antiga ortografia, com a mesma convicção com que os sebastianistas esperavam o regresso de D. Sebastião.
O caso é tanto mais de admirar, quanto eles insistem sem desfalecimento num pequeno menu de argumentos, em geral de uma enorme fragilidade, como se deduz de mais uma peça de um dos seus mais empenhados ativistas, Nuno Pacheco, ontem no Público, um dos poucos periódicos que se mantém fiel à antiga ortografia.

2. O argumento tem a ver desta vez com a grafia dos termos infetar e derivados (infeção, infetado, etc.) no Português europeu, depois do Acordo, quando no Brasil – que também subscreveu o Acordo (e noutros países de Língua Portuguesa que o não ratificaram ainda) – os mesmos termos se escrevem com um adicional (infectar, infecção, etc.).
O que o autor não diz, propositadamente para criar a confusão, é que no Brasil essas palavras se escrevem com o tal c porque assim se pronunciam, sendo esse um dos vários casos da diferença de pronúncia das mesmas palavras nos dois lados do Atlântico (facto e fato, contacto e contato, perceção e percepção, etc.).
Ora, uma das mais-valias do Acordo Ortográfico, sem prejuízo da tendencial uniformização da ortografia, consiste justamente em assinalar essas diferenças incontornáveis entre as duas versões da Língua. A ortografia não deve servir para esconder artificialmente reais diferenças de dicção, nem a Língua comum ganha nada com isso.

3. O mesmo se diga do facto de várias outras línguas (Castelhano, Francês, Inglês, etc.) usarem igualmente o dito c nas palavras correspondentes: só que também em todas elas o c é pronunciado. Curiosamente, o autor regista o caso italiano, que não usa o dito c, escrevendo-se infezione, infettare, infetto, justamente porque é assim que se pronunciam. Ou seja, nos exemplos do autor, o tal c escreve-se lá onde se pronuncia, mas não onde não se pronuncia – o que, portanto, não abona a sua tese
Outra das vantagens do Acordo está justamente em registar para os estudantes estrangeiros as diferenças fonéticas e gráficas entre Português europeu e outras línguas próximas. Já se imaginou o problema de um aluno estrangeiro de Português, em Portugal, ao pronunciar a palavra infetar, se ela se escrevesse com c, como querem os sebastianistas ortográficos? Ou, já agora, as palavras ativo, respetivo, efetivo, etc., se escritas com c, à moda antiga, julgando que elas se leem da mesma maneira que na sua própria língua?
Na verdade, ao eliminar esse e outros arcaísmos da ortografia portuguesa, o Acordo Ortográfico também veio facilitar a aprendizagem do português europeu pelos estrangeiros que estudam a nossa Língua.

 


2. Francisco responde a Vital

«Não conheço o artigo científico que serve de base a esta afirmação peremptória e grave do ex-eurodeputado. Fico a aguardar, serenamente, as referências de Vital Moreira. Obviamente, esperarei sentado.» [Francisco Miguel Valada, publico.pt 21.04.20]


3. Vital fica chateado com a resposta de Francisco

Uma língua, uma ortografia

Vital Moreira, publico.pt, 22.04.20

 

Não existe nenhuma razão lógica para que uma mesma língua mantenha tantas divergências ortográficas

 

Desde a sua assinatura em 1990, sou apoiante declarado do acordo ortográfico para unificar tanto quanto possível a língua portuguesa escrita, eliminando as discrepâncias entre a norma europeia (e africana) e a norma brasileira. E também nunca entendi bem as razões pelas quais Portugal, que ratificou o acordo logo em 1991, não fez depois nada para conseguir a ratificação dos Estados que o não fizeram, nem as que agora justificam uma “moratória” de dez anos para a sua efectiva entrada em vigor.