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«Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”?» [Polígrafo, 09.01.20]

Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”? – Polígrafo

Espalhou-se pelas redes sociais a imagem de um suposto “tweet” de Abraham Weintraub, actual ministro da Educação do Brasil, no qual terá escrito a palavra “imprecionante”. Em várias publicações remete-se também para outros erros ortográficos do mesmo ministro num documento oficial: “suspenção” e “paralização”. Verdade ou mentira?

“O facto de o ministro da Educação do Brasil escrever ‘imprecionante‘ é, na minha opinião, motivo para que seja demitido imediatamente. É um erro crasso, inadmissível para quem ocupa um cargo tão importante. Eu, como académico e como brasileiro, sinceramente, sinto vergonha. E não é a primeira vez que isso acontece“, sublinha-se numa das publicações em causa, exibindo uma imagem do tweet publicado por Abraham Weintraub.

“Agradeço seu apoio. Mais imprecionante: Não havia área de pesquisa em Segurança Pública. Agora, pesquisadores em mestrados, doutorados e pós-doutorados poderão receber bolsas para pesquisar temas, como o mencionado por ti, que gerem redução da criminalidade”, terá escrito o ministro da Educação, em resposta a um tweet de Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo estado de São Paulo e filho do actual Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Ao longo do dia de ontem, 8 de Janeiro de 2020, propagaram-se nas redes sociais diversas publicações com a imagem do suposto tweet de Weintraub. Em algumas dessas publicações remete-se também para outros erros ortográficos do mesmo ministro num documento oficial: “suspenção” e “paralização”. Confirma-se?

Sim. A história foi confirmada por vários órgãos de comunicação social do Brasil (aqui, aqui e aqui, entre outros exemplos). A mensagem com o erro ortográfico – “imprecionante” – do ministro da Educação consistiu numa resposta a um tweet de Eduardo Bolsonaro, publicado durante a manhã de ontem.

Perante os comentários jocosos que se multiplicaram nas redes sociais, sublinhando o erro ortográfico, Weintraub apressou-se a apagar a mensagem em causa, mas há vários registos fidedignos da mesma.

O ministro apagou o tweet com o erro logo em seguida, mas não conseguiu evitar a repercussão negativa. Em menos de uma hora da publicação, os termos “Imprecionante” e “Ministro da Educação” foram parar nos Trending Topics do Brasil no Twitter”, informou o portal UOL.

Também é verdade que, em Agosto de 2019, Weintraub escreveu “suspenção” e “paralização” num documento que enviou ao ministro da Economia, Paulo Guedes.

“O ministro da Educação, Abraham Weintraub, enviou um documento com erros de português ao ministro da Economia, Paulo Guedes, pedindo mais recursos para sua pasta. No texto, Weintraub explica que as verbas previstas para a Educação em 2020 são insuficientes e alerta para o risco de ‘paralização’. O ministro também cita ‘suspenção’ de pagamentos. A grafia correta das palavras é paralisação e suspensão”, noticiou então “O Globo”.

Em artigo publicado hoje, o portal UOL recorda mais erros do ministro da Educação, nomeadamente quando se referiu ao escritor “Kafta”. “Em Junho do ano passado, Weintraub chamou o escritor Franz Kafka de ‘Kafta’ – prato de origem árabe, semelhante a um espetinho de carne. A confusão gramatical aconteceu quando Weintraub participava de uma audiência no Senado”.

Avaliação do Polígrafo:

Verdadeiro

[Transcrição integral (incluindo imagem, destaques e “links”) de: Ministro da Educação do Brasil escreveu “imprecionante”, “suspenção” e “paralização”? – Polígrafo. Autor: Gustavo Sampaio. O texto com a cacografia brasileira do original do “Polígrafo” foi automaticamente corrigido com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

“Governo Sombra” – AO90 – 27.12.19

Na última emissão de 2019 do programa “Governo Sombra” na TVI, os quatro “governantes” habituais e o convidado da semana demonstram, mais uma vez, a sua quase unânime aversão ao “acordo ortográfico”.

Exceptuando as objecções de João Miguel Tavares, também elas habituais (e, como sempre, parvas), até o convidado Adolfo Mesquita Nunes, deputado do CDS-PP, a opinião geral é de que o AO90 tem de ser revertido, parado, esmagado.

A nota dissonante (a tal parvoíce) de JMT resume-se às criancinhas, coitadinhas, que já estão a “aprender” a cacografia brasileira, aiaiai, e agora, o que fazemos com essas criancinhas, coitadinhas. Ou seja, acha bem, JMT, que se continue a ensinar os alunos a escrever à toa, desde que obedeçam ao “acordo” brasileiro. E acha também JMT, por igual parvamente, que não se pode ensinar Português às criancinhas, coitadinhas, porque elas já estão habituadas a escrever segundo os ditames brasileiros e teriam de fazer um enorme esforço (coitadinhas) para reaprender a escrever correctamente.

Portanto, JMT deve estar convencido de que ainda hoje os alunos alemães continuam a estudar as diferenças entre as raças humanas, a comparar com as dos “Untermenschen” os tamanhos da caixa craniana típica do “ideal ariano” e a treinar a escrita para insultar judeus em letras garrafais, nos muros das casas, nas lojas, nas janelas. De facto, segundo a “lógica do hábito” que JMT defende, os alunos portugueses (coitadinhos) deveriam continuar a escrever com erros porque “estão habituados a isso”, só conhecem o AO90, assim como os programas curriculares alemães de 1933 a 1945 deveriam continuar ainda hoje, imutáveis, impassíveis, indiferentes, impermeáveis à própria passagem do tempo e imunes a qualquer realidade histórica.

Uma teoria demasiadamente infantil, de facto, em especial quando alguém do género JMT (há vários espécimenes), que aparenta ser uma pessoa normal (e até inteligente, quando calha), veicula semelhantes enormidades como se fossem dogmas sagrados.

Felizmente rodeado por três pessoas, incluindo o moderador do programa, capazes de usar a boca e não a testa para comer um gelado, JMT acaba invariavelmente por ficar nesta matéria a falar sozinho, tristonho, desconsolado (coitadinho) por ninguém ligar patavina aos delírios “habituais” do brincalhão.

No meu tempo, a estalada era um método pedagógico; hoje é crime. E na verdade todos nós, na minha geração, estávamos habituados a levar porrada dos professores — rotina antiquíssima que para os alunos de então, que não conheciam outro regime “pedagógico”, era coisa normal. Se o “hábito” fosse alguma espécie de critério de validação, então hoje em dia continuaria a ser habitual o castigo físico, o tabefe e o puxão de orelhas, até mesmo a “menina de cinco olhos”.

Enfim. JMT poderia bem aprender alguma coisinha nos livros. A ver se deixava de cometer erros de palmatória.

Com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira.

[Imagem de: Pardieiros online]

O complexo da metrópole

Eis (mais) um “estudo”, de (mais) uma “investigadora” descaradamente brasileirófila, cuja finalidade única é a promoção da versão propagandística da brasileirofonia. Torna-se então “natural” que a senhora Chatti, armada com tais e tão suspeitas motivações, se entretenha a discorrer inversamente, pondo ao contrário um fenómeno inerente, simples, natural e comum a qualquer ambiente académico, em Portugal, no Brasil ou em Mogadishu.

De facto, só padecendo de miopia mental aguda é possível trocar “brasileiros” — entidade concreta — por “lusófonos” — entidade abstracta — e, destes, com enfoque total nos estudantes brasileiros, servindo os demais estrangeiros como simples engodo político.

Mas não são estes os únicos truques mentalóides da senhora Chatti, evidentemente. Há mais cores no texto além de preto e branco, sobretudo o cinzento — a tonalidade com mais peso cromático na narrativa anti-portuguesa.

“Fala português!”, dizem professores para alunos brasileiros, africanos e timorenses

Há “choque de culturas” e discriminação nas universidades portuguesas relata um estudo sobre o acolhimento de estudantes estrangeiros.

 

Choque de culturas”, “casos de discriminação”, “não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por estudantes lusófonos“, “falta de sensibilização dos professores” – são algumas das conclusões de um estudo da investigadora científica do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa.

Juliana Chatti Iorio, uma brasileira a viver em Portugal há 20 anos, admite que “muita coisa tem sido feita para atrair os estudantes internacionais”, mas alerta para a falta de preparação das universidades para o actual ‘boom’ de alunos estrangeiros que já são a maioria em alguns cursos.

Num artigo intitulado “O acolhimento de estudantes internacionais: brasileiros e timorenses em Portugal”, publicado na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), em co-autoria com Silvia Garcia Nogueira (Universidade Estadual da Paraíba, Brasil), Juliana Chantti disse, numa entrevista à agência Lusa, que não ficou “surpreendida” com os resultados dos estudos.

“Quando entrei para o mestrado, em 2003, havia cinco estrangeiros na minha sala. Era outra realidade. Hoje, há cursos em Portugal que têm mais estudantes estrangeiros do que portugueses, e eu penso que muitas faculdades ou institutos não estavam preparadas para isso”, afirmou. A investigadora considera que estas instituições “não estavam preparadas para receberem esse ‘boom’ de estudantes internacionais e, como tal, o acolhimento fica a desejar”.

Culturas inferiorizadas

“Não me refiro só a logística, mas sobretudo a compreensão das diferentes culturas que pretendem receber. Se estão abertas para receberem estudantes de diferentes culturas, os professores, funcionários, enfim, a comunidade docente e discente tem que estar aberta para conhecer e procurar entender estas diferentes culturas”, defendeu.

A investigadora mostra-se especialmente preocupada com as relações humanas entre os estudantes estrangeiros e os professores, destacando que o choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”.

No artigo lê-se que “a não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.

“Fala português” e o ‘complexo’ da Metrópole

A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.

Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’, ou quando um professor diz que as traduções feitas por editoras brasileiras não têm qualidade“.

“Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.

E, acrescentou, “ainda age como se fosse a ‘metrópole’ a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas ‘colónias’, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.
(mais…)

Teolinda Gersão: “por alma de quem?!” [entrevista]

Excerto da entrevista de Teolinda Gersão no programa “Entre Tantos” da TVI24 em 03.11.19. Este excerto abarca apenas a parte da entrevista em que o assunto é o AO90.

 

Obra

Sus novelas tratan de la sociedad contemporánea, aunque transcurren en diferentes períodos. Algunos de los temas principales de sus novelas incluyen las complejidades de las relaciones humanas, la dificultad de la comunicación, el amor y muerte, la opresión, la libertad, la identidad, la resistencia y el proceso de creación. Otro tema central de su obra es el concepto de tiempo, sea el tratamiento del tiempo en la estructura narrativa o el tiempo histórico en el cual tienen lugar sus novelas. la dictadura de Salazar (Paisaje con mujer y mar al fondo); los años 1920 (O Cavalo de Sol), el siglo XIX (A Casa da Cabeça de Cavalo) y los años 1950 y 1960 en la Mozambique colonial (El árbol de las palabras).

Caracteriza a la mujer como instrumento de ruptura de los modelos tradicionales que presenta el feminismo. En su obra, existe un tiempo circular infinito, de retorno y comienzo que reproduce los ciclos de la naturaleza.

Premios literarios

Recibió el Grande Prémio de Romance e Novela de la Asociación Portuguesa de Escritores por su novela A Casa da Cabeça de Cavalo (1995) y los Premios de Ficción del PEN Club por sus libros El silencio (1981) y O Cavalo de Sol (1989). Asimismo, recibió el premio de la crítica de la Asociación Internacional de Críticos Literarios y el Premio Fernando Namora por su novela Los teclados (1999). En 2002, se le otorgó el Gran Premio Camilo Castelo Branco para cuentos por su colección de relatos, Historias de ver y andar.

[Wkipedia]
[Nota: recuso-me a utilizar a wikipédjia brasileirófona]

‘Com fúria e raiva’

Atentados e absurdos no ensino do Português: tudo em família

 

As sucessivas e absurdas alterações no ensino do Português, todas elas marcadas pelo oportunismo, pela ausência de debate, pela ignorância e pela arrogância intelectual, têm-no lesado profundamente.

Maria do Carmo Vieira
Público”, 27 de Outubro de 2019

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada (…)//
(…) // Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in “O Nome das Coisas”

 

De 2000 a 2019, as histórias absurdas, a propósito do ensino do Português, vão-se repetindo em moldes semelhantes porque a esperteza, bem como a mentira e o medo do debate público dominam nestas situações. E a nossa falha está em não termos ainda aprendido com os erros. Histórias que em segredo se organizam, no isolamento de gabinetes, e que não têm que ver propriamente com os partidos políticos, mas com a falta de Cultura e de Conhecimento, e de Ideal democrático, que grassam no seu interior e se têm vindo a ampliar, o que se reflecte nos Governos e na Assembleia da República. Foquemo-nos em três dessas histórias:

1. Na década de 90, eram muitos os indícios de que algo se prepararia na 5 de Outubro, através de encontros de formação que decorriam em escolas e a que assistiam todos os professores, independentemente da sua área de ensino, incluindo os do Conselho Directivo. Tudo em nome de uma “pedagogia nova”, invocando “o direito dos alunos à felicidade”, uma espécie de “baba pedagógica”, nas palavras de Fernando Pessoa, sobre a estupidificação a que, por vezes, sujeitamos os nossos alunos. Num desses encontros de “reeducação”, alertava-se o professor para a possibilidade de um aluno sugerir que fossem jogar futebol, o que deveria ser satisfeito interrompendo-se a aula. “Quando regressassem viriam mais estimulados!”, concluía-se, o que valeu umas gargalhadas e intervenções críticas de alguns professores que assistiam e que desde esse momento foram apontados como “resistentes à mudança”.

Ninguém acreditou que o absurdo e a estupidez se viessem a impor, mas poucos anos depois receberam os professores novos programas de Português (Reforma de 2003) para uma análise crítica, em cuja Nota Explicativa se explicitava que “as críticas dos professores não poderiam colidir com as metodologias apresentadas”. Programas cozinhados com a colaboração de 2 interlocutores exclusivos do ME, sem intrusos e sem discussão, numa apologia, sem precedentes, da facilidade e do funcional, a par de um profundo desprezo pela Literatura.

No entanto, sabe-se, por experiência, que a facilidade não é estimulante, antes entedia, que os textos funcionais não determinam um bom domínio da língua, essencial no acto de pensar, nem, e cito o neurocientista António Damásio (Março de 2006), despertam “a criatividade e a imaginação”, sem as quais “não haveria evolução científica e tecnológica porque não haveria curiosidade ou capacidade de imaginar alternativas.”, concluindo criticamente com o facto de o sistema educativo “deixar de lado as artes e as humanidades”. É ainda Damásio, em 2017, numa entrevista concedida ao Público, que acentua de novo a importância da Literatura enquanto representação da vida. Muito aplaudido, mas pouco seguido, no eterno jogo do ser e do parecer bem explícito na conduta hipócrita de muitos decisores políticos.

O absurdo e a estupidez impuseram-se em 2003, apesar de intensa polémica. Com o esvaziamento dos programas, não só na disciplina de Português, mas em todas, com especial relevo para as de Humanidades, desenhava-se já o modelo, que actualmente se pretende e que o meu colega Paulo Guinote sintetizou bem na expressão “descaracterização de saberes fundamentais”, sendo de realçar que, na preparação da Reforma de 2003, se preconizara retirar toda a Literatura dos programas de Português, o que não aconteceu por receio de forte oposição.

O espírito funcional continua a ser elogiado e imposto, em 2019, a literatura desprezada, com destaque para a poesia, e o descalabro das humanidades prossegue.

2. Ao longo da década de noventa, foram muitos os professores que se queixaram da falta de uniformidade na nomenclatura gramatical, uma situação resultante da dita “Gramática das Árvores” que o próprio criador, Noam Chomsky, advertira não ser apropriada à Escola. Contrariando Chomsky, entrou nos ensinos Básico e Secundário, convivendo, na sintaxe, por exemplo, sujeito e predicado com sintagma nominal e sintagma verbal, respectivamente. David Justino, ministro da Educação (2002-2004), num encontro com professores de Português, de diferentes níveis de Ensino, anunciaria para breve a uniformidade desejada, notícia bem recebida por quem há muito a exigia. E aconteceu o habitual: crédulos em promessas, e deixando que outros o fizessem por nós, esperámos confiantes.

O resultado foi a desconcertante Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), actualmente disfarçada num Dicionário Linguístico, cujo mentor foi o agora reconduzido Secretário de Estado da Educação, João Costa, aliás, um dos interlocutores do ME, na Reforma de 2003, e adepto convicto do funcional. A TLEBS, que se pautava por uma descrição estéril e confusa, foi enviada aos professores, num CD, de que escolhi um exemplo, que evidencia a linguagem usada, a propósito do adjectivo “assinalável” e da sua nova designação: “Chamam-se adjectivos de possibilidade os adjectivos derivados de uma base verbal, e que podem ser parafraseados pela expressão “que pode ser Vpp”, sendo Vpp a forma do particípio passado da base verbal derivante.” Assim mesmo!…

Face à polémica, o linguista Jorge Morais Barbosa, em Novembro de 2006, com outros abaixo-assinados, de que recordo os nomes de Vasco Graça Moura, Manuel Gusmão, Maria Alzira Seixo e José Saramago, expressava à Ministra da Educação a sua “preocupação com as consequências negativas […] da colocação em funcionamento da TLEBS, […] terminologia proposta em termos de parcialidade científica e disciplinar […] à margem dos especialistas […] e sem discussão pública […]”, solicitando a “suspensão imediata da sua aplicação […] por se tratar de uma “terminologia incorrecta e abstrusa, inadaptável a certos níveis etários e ocasionadora de graves dificuldades de aprendizagem […]”.

O ME acabaria por decidir a sua revisão (18 de Abril de 2007), salientando simplesmente a necessidade de identificar “alguns termos inadequados”, como se a isso se resumisse a imensa polémica suscitada. O linguista João Andrade Peres lamentava igualmente “que o ME não [reconhecesse] denúncias públicas de erros e inconsistências científicas de documentos produzidos sob a sua tutela”. Foi então que num programa televisivo sobre a polémica suscitada, com a presença da Professora Maria Alzira Seixo e o mentor da TLEBS, Professor João Costa, se soube que do grupo revisor da TLEBS faria parte a esposa do Professor João Costa, o que ele próprio atarantadamente confirmou quando questionado a esse propósito por Maria Alzira Seixo. Tudo em família, portanto.

Na avalancha indescritível de descrições exaustivas, algumas acabaram por ser poupadas a professores e alunos, por intervenção de académicos críticos cujas fontes foram inexplicavelmente omitidas pelos revisores, numa atitude de visível desonestidade intelectual, mas a TLEBS permanece e lembremo-nos, entre muitos exemplos, da designação errónea de “Nome”, usada em vez de “Substantivo”, do “complemento oblíquo” ou do cansativo item “funcionamento da língua” analisado pelos alunos através de um estonteante método descritivo e de opções.

3. Em 1986, pretendeu-se impor aquilo que ninguém pedira: um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que, entre outras barbaridades, preconizava a abolição dos acentos nas palavras esdrúxulas, o que foi anedoticamente aproveitado por Miguel Esteves Cardoso, no seu exemplo do “cágado” que evoluiria para “cagado”. A muita polémica suscitada e os inúmeros pareceres técnicos contrários determinaram uma acalmia nesta aventura e a todos pareceu que o assunto ficara encerrado. Foi o nosso mal. Como habitualmente, guardaram segredo dos seus encontros e viagens de “estudo”, esperaram com paciência o momento oportuno, e, em 1990, deram à luz um novo acordo ortográfico que, segundo as suas palavras, decorria da “correcção de aspectos criticados em 1986”, o que na realidade não correspondia à verdade.

Com efeito, mantiveram-se intactos aspectos da acentuação gráfica (lembre-se o equívoco que gera a falta de acento em “pára”), a supressão das consoantes ditas mudas, a alteração desastrosa das regras de hifenização e a capitalização de alguns nomes próprios, com a agravante de lhe terem acrescentado, entre outras aberrações, “grafias duplas”, pondo em causa a função normativa da ortografia. E, como não podia deixar de ser, a facilidade para as crianças foi invocada, arrastando a aberração do “critério da pronúncia” na ortografia e o consequente menosprezo pela etimologia, “coisa de elites”!

Na pegada de outras histórias, redactores do AO e decisores políticos ignoraram pareceres críticos emitidos fosse para a versão de 1986 fosse para a de 1990, realçando-se neste último caso o parecer do linguista António Emiliano, em 2008, bem como a petição “Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico”, com 113.206 assinaturas “oficialmente registadas em 10.05.2009”. Ao contrário do que redactores e decisores políticos continuam a afirmar, os debates públicos nunca aconteceram e o certo é que são incapazes de indicar quando e onde tiveram lugar.

A polémica dura há anos, mantêm-se as inúmeras dúvidas suscitadas pelo Tratado Internacional que deu origem ao acordo, e que Augusto Santos Silva (ASS), na sua arrogância habitual e deficitário comportamento democrático, recusa esclarecer; o debate continua por fazer-se, e, pior, trabalha-se exclusivamente em família e à porta fechada, sendo disso exemplo, mais um, a recente reunião do Conselho de Ortografia Portuguesa (COLP), na Universidade do Porto, a que presidiu ASS que prometeu todo o dinheiro necessário. Decorreu este encontro sob o signo do Absurdo em que se realçou de novo a mentira e se deixou a descoberto a ignorância. Na verdade, não se compreende que alguém que reagiu ao AO 90 com um “Deus nos livre daquela bomba!”, tenha posteriormente aceitado promover o dito, no Brasil. Referimo-nos a Evanildo Bechara, um dos homenageados, no Porto, que, em 2008, afirmou que o AO continha “imprecisões, erros e ambiguidades” e, em 2011, “Mergulhamos no texto do acordo e muitas vezes demos com a cabeça na pedra. O texto é muito lacunoso e, o que não sabíamos, interpretamos, imbuídos do espírito do acordo”. Agora, contrariando o seu pensamento, realça que “Será difícil encontrar quem faça melhor do que foi feito, seja no Brasil seja em Portugal”. E é para isto que ASS garantiu já todo o dinheiro necessário!

Em suma, estas sucessivas e absurdas alterações no ensino do Português, todas elas marcadas pelo oportunismo, pela polémica, pela ausência de debate, pela ignorância e pela arrogância intelectual, têm-no lesado profundamente. Não se questionará Tiago Brandão, na sua qualidade de investigador, sobre a violência que representa para um professor ser forçado a obedecer a alterações aberrantes que contrariam estudo e inteligência? Podem os professores estar motivados para ensinar, mantendo-se esta contínua pressão exterior?

Na verdade, não podemos, por uma questão de dignidade profissional, tolerar a demagogia, nem esperar que “outros remedeiem o mal e ponham fim aos [nossos] lamentos” (Henry Thoreau, in Desobediência Civil). Tudo dependerá da nossa resistência à estupidez!

Maria do Carmo Vieira
Professora

[Acrescentei “link” (a verde) e 2 destaques a “bold”. Créditos: autora, Maria do Carmo Vieira; publicação, jornal “Público” de 27.10.19.]

Nota: a reprodução deste artigo, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico”. Neste caso, salvas as devidas distâncias, também por causa da TLEBS, esse outro detrito.

«Uma comunidade às avessas» [José A. Filho, “Observador”, 22.09.19]

Uma comunidade às avessas


Observador”, 22.09.19

Da forma em que foi conduzido, o Acordo serve mais para enfraquecer a língua de Camões do que para disseminá-la. Quanto aos ganhos políticos e económicos esperados, foram até agora praticamente nulos.

O Acordo Ortográfico de 1990 é um falhanço total. Ele em nada tem facilitado a integração política e económica entre os estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Bem ao contrário, tem antes servido a alimentar nacionalismos e ressentimentos. A relutância de parte da comunidade lusófona em aderir ao famigerado Acordo desnuda o imbróglio, típico produto da grandiloquência oca do Brasil lulopetista.

A lebre em realidade era um gato. Bastou que o Acordo entrasse em vigor para que o que fora vendido como instrumento de uniformização da língua se convertesse em trincheira de resistência por uma legião de descontentes. Os governos dos dois maiores Estados lusófonos em África, Angola e Moçambique, em larga medida seguem a ignorar o Acordo. Por outro lado, reconhece-se que em seus territórios o português concorre com outros idiomas. Mas não faltam acusações de negligência e incompetência da parte das suas autoridades em decretar a entrada em vigor das mudanças ortográficas.

Apesar da polémica que o envolve, a imposição política do Acordo a muitos beneficiou, sobretudo no final dos anos 2000. Um dos setores mais favorecidos foi o editorial. À revelia de gramáticos e filólogos – o antigo lexicógrafo da Academia Brasileira de Letras chegou a denunciá-lo como “fraude” –, o Acordo justificou a multiplicação das compras governamentais de livros didáticos.

Os caudalosos rios de dinheiro canalizados para as bibliotecas públicas acabaram por irrigar também os bolsos de particulares no governo.  Finda a orgia de corrupção, sobrou o bode na sala. Especialistas são praticamente unânimes: o Acordo deveria ser revogado. Argumentam que “uma língua não se muda por decreto, nem muito menos para atender a interesses escusos”. Mas muitos políticos insistem na unicidade do idioma como fator de coesão da CPLP na arena internacional.

Alguns dos outrora mais entusiasmados defensores do Acordo, já não conseguem esconder o falhanço. Nesse sentido, a mais recente apologia por parte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil pecou por um simplismo pueril na pretensão de justificá-lo à luz do conceito de soft power. Para o seu formulador, o cientista político norte-americano Joseph Nye Jr., “o poder suave é um conceito descritivo e não normativo”. Ou seja, a ideia de soft power não se prestaria a justificar iniciativas como o Acordo.

Na seara da cultura, resultados efetivos dependem de uma série de outras condicionantes. Por si só, um acordo cultural não chega a produzir influência. Na ausência de outros recursos, a tentativa de se uniformizar um idioma não gera a coesão necessária para convertê-lo em recurso de poder.

O Acordo enfrenta dificuldade de adoção na totalidade dos países da CPLP. Mesmo naqueles que o adotaram legalmente, nota-se imensa resistência por parte da população, sobretudo a de Portugal. Não há mais como se remediar a impopularidade do Acordo, o que subtrai largamente da sua legitimidade. Se ele falha em atrair a própria população lusófona, o que se dirá de estrangeiros? Como ressalta Nye Jr., “a atração e a persuasão são criadas socialmente. O poder suave é uma dança que exige parceiros”.

Para lograr aproveitar o poder suave latente na língua portuguesa, os países da CPLP devem antes desenvolver dois outros recursos: valores políticos e uma estratégia em política externa. Aos olhos do resto do mundo, o idioma português muitas vezes é associado a instituições políticas corruptas. No âmbito da CPLP, a democracia liberal é muitas vezes um mero verniz formal, a mal encobrir o extrativismo autárquico que caracteriza a maioria dos seus regimes.

Contraste-se com o caso das comunidades francófona e anglófona: o soft power dos seus idiomas é, em significativa medida, também produto da atratividade das instituições governativas dos seus países. Da mesma forma, a pujança de suas economias e o notável poderio militar fazem delas modelo até para os seus concorrentes. Trata-se de circunstâncias em que o hard power se converte em soft power.

As potências não se podem dar ao luxo de ignorar o terreno cultural. Atenta às possibilidades de influenciar as relações internacionais por meio do idioma, em 2004, a China passou a patrocinar uma rede de instituições para a difusão da cultura mandarim: o Instituto Confúcio. O Partido Comunista Chinês parece esperar que o brilho milenar das tradições do Império do Meio possa ofuscar o autoritarismo do seu regime.

Mas mesmo países como Portugal e Brasil, com parcos recursos de hard power, podem e devem se valer do potencial de soft power latente no idioma português. Contudo, para tanto, a sua língua comum precisa de ser tratada com mais zelo e honestidade.

Da forma em que foi conduzido, o Acordo serve antes para enfraquecer a língua de Camões do que para disseminá-la. Quanto aos ganhos políticos e económicos decorrentes, foram até agora praticamente nulos. A CPLP permanece a patinar sobre muitas das questões que a acompanham desde a criação. É, por exemplo, notável a lentidão com que é conduzido o tema da mobilidade de pessoas no espaço lusófono.

Em grande medida, a valorização da lusofonia está a depender mais de iniciativas da sociedade civil, que tem demonstrado real interesse numa “comunidade de povos”. Por outro lado, a completa omissão de organizações políticas como a CPLP apenas a torna uma “comunidade de croquete”, expressão que aos poucos vai se fixando à marca daquela instituição multilateral. Infelizmente, a língua portuguesa parece prestar-se particularmente bem à verborragia dos demagogos cínicos.

É sabido que o principal patrocinador do Acordo, o Brasil, pretendeu dele obter alguns dos muitos quilos que lhe faltam para se apresentar como importante player no xadrez do sistema internacional. O lulopetismo hipnotizou mentes e recrutou vassalos para o messianismo sindical. Assim, a maior parte da classe “bem-pensante” – intelectuais, artistas e comunicação social – foi levada a abraçar o Acordo como um passo adicional rumo ao status de potência.

Lula da Silva e seus companheiros miravam uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Contudo, desde 2017, sabe-se que o Brasil ficará de fora do mais importante órgão do sistema ONU ao menos até 2033, simplesmente por não ter apresentado candidatura. Se o plano lunático falhou, os delírios de poder deixaram para a posteridade o imbróglio do Acordo.

O mais grave é que o governo de Jair Bolsonaro parece disposto a absorver nacos do projeto lupetista de poder, inclusive a defesa do Acordo. Em discurso na XXIV Reunião do Conselho de Ministros da CPLP, em Mindelo (Cabo Verde), no último 19 de julho, o Ministro da Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, destacou o interesse do atual governo na sua manutenção. Ou seja, “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.


Jornalista e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem mundial.

[Transcrição integral de «Uma comunidade às avessas» – “Observador”, 22.09.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Imagem de topo de: https://medium.com/@bodinholoiro]

[Nota: a ortografia brasileira do original foi conservada intacta na transcrição dado o autor do texto ser também brasileiro.]