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Galegos

Note to self: antes em Inglês, a língua franca ocidental (se não mundial), do que em brasileiro, essa labreguice asquerosa falada (e garatujada) por tacanhos provincianos, boçais intelectualóides, gado vacum em geral e pategos deslumbrados em particular. A anglicização não me aquenta nem me arrefenta mas a brasileirização — o que só a mim mesmo interessa — enoja-me até ao vómito. Em sentido literal.

 

O entusiasmo dos galegos a desconfinar o idioma e a anglicização portuguesa

 

Enquanto o idioma galego luta por uma posição dominante, em Portugal continua a abusar-se do inglês.

Nuno Pacheco
“Público” 11.06.20

 

O confinamento inspirou os galegos a desconfinarem a língua. Assim mesmo. Um movimento intitulado Queremos Galego lançou um manifesto, apadrinhou uma canção motivadora e deu novos ares a uma pretensão antiga: que a língua galega tenha, na Galiza, posição dominante. Questão de brio, naturalmente. E, apesar de o tal manifesto ser uma carta a Ricardo Carvalho Calero (1910-1990), filólogo e escritor galego que foi um ideólogo do reintegracionismo, ou seja, da integração da língua galega no universo da língua portuguesa, ele surge escrito na ortografia galega e não naquela que tem vindo a ser adoptada pelos reintegracionistas, que é a portuguesa resultante do chamado Acordo Ortográfico de 1990.

Assinado por María Pilar García Negro, nele se diz que os pressupostos defendidos por Calero no artigo “O uso do galego para todo” não se cumpriram. “Tal necesidade non se atendeu; antes ben, desprezáronse as actividades, o combate pro-galego, a mobilización cívica de tantas e tantos galegos a prol de poderen viver con normalidade en galego, as 24 horas do día e os 365 días do ano, nen máis nen menos que en calquer lingua das que definimos como normais na sociedade respectiva.” Daí que se defenda uma atitude mais interventiva: “Somos nós, galegas e galegosos lexítimos proprietarios da nosa lingua. Somos, igualmente, os responsábeis de que ela perviva non como unha reliquia ou un monumento literario senón con toda a práctica que aínda lle falta: para a vida de todos os días, para toda a sociedade, para a fala e a escrita, para ouvila e para lela de forma xeral, para non ter que a procurar, cal detectives, en cápsulas controladas.” Quanto à canção, A Fala, com letra do poeta galego Manuel María (1929-2004), foi gravada por Uxía e muitos outros músicos e cantores e ganhou um videoclipe entusiástico durante o confinamento: “O idioma é un herdo,/ Patrimonio do pobo,/ Maxicamente vello,/ Eternamente novo. (…)/ Renunciar ao idioma/ É ser mudo e morrer/ Precisamos a línguaSe queremos vencer!”

É um bom princípio, este, de associar a defesa da língua à defesa de uma cultura e de um património. E defender o galego, língua que Portugal falou nos seus primórdios (para depois criar uma língua sua, mas ainda tão próxima), é acto de coragem e de justiça. De xustiza.

E os portugueses? Também precisam da língua se querem vencer? Quando calha. Nos dias da Língua, nos de Camões (na quinta-feira celebrou-se mais um 10 de Junho) e outros do género, lá vêm as promessas de grandiosidade, geralmente envoltas em girândolas poéticas de ocasião. Mas, arrumada a “sala”, volta à superfície um antigo desprezo não confessado pelo idioma que nos coube. Idêntica atitude tantas vezes corroeu a Galiza (quantos galegos não consideraram inculto o seu idioma?), e daí que a atitude do Queremos Galego seja algo a aplaudir, sem reservas.

Exemplos, temo-los de sobra. Um, já esquecido, que o jornalista Pedro Correia relembrou há dias no blogue Delito de Opinião, é o facto de o governo açoriano de Vasco Cordeiro ter www.azores.gov.pt como endereço do seu portal. Por medo de ficar “a cores”? Porquê, se os paços não receiam passar a “pacos” nos endereços electrónicos (veja-se Paços de Ferreira, ou Paços de Brandão, ou restaurantes e hotéis) e se até o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas não receia tirar a cedilha a caça em endereços seus: https://icnf.pt/caca/despachos? Não será por acharem que em inglês soa, digamos, mais moderno? Pedro Correia não resiste a comentar: “Caso para alguém o interpelar nestes termos, quando o vir: ‘Mr. LambI presume.’”

Esse “Azores” já tinha sido referido, e criticado, no espaço de Opinião do PÚBLICO em 2014 e 2015, em artigos assinados pelo jornalista e escritor Octávio dos Santos. Criticava ele, também, o recurso excessivo ao inglês em títulos de programas televisivos: Chef’s AcademyOff-SideI Love ItRTP RunningShark TankCinebox ou The Money Drop, entre muitos.

aqui, nestas crónicas, também já por mais de uma vez se falou do mesmo assunto, referindo, além das muito ridículas campanhas turísticas Allgarve e Allto Douro, o excesso de denominações inglesas em universidades nacionais, concursos televisivos como The Big PictureGot Talent PortugalCook offThe Voice PortugalFama ShowLove on Top, etc., ou a escolha de NewsMuseum para baptizar um museu dos media, do jornalismo e da comunicação sediado em Sintra. Mas há mais, muito mais. Em campanhas promocionais de lojas e empresas portuguesas, lá temos os “packs”, com os seus “promo code”, um “lunch card” para animar as hostes, o “backstage” em lugar dos (muito provincianos?) bastidores, as “power week”, as “eco life style” ou as secções de “gaming” e de “gifts e merchandising”, já para não falar da inevitável invasão de “apps” e “cookies”.

Quem assim age, duplicando consoantes e abusando do inglês, é geralmente quem as corta a eito no português, em nome da aberração a que gostam de chamar Acordo Ortográfico. O que ganha o português com isso? Só se for um barrete, a ilustrar quão saloia é a sua anglicização.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral e “ipsis verbis”, incluindo “links”, de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” em 11.06.20. Imagem de topo (fora do texto) de Wikipedia Galega Por Anónimo – http://medspains.stanford.edu/demo/lisbon/warriors.jpg, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7645635]

 

Bandeira de Galicia

Na Galipedia, a Wikipedia en galego.

A bandeira de Galicia actual foi creada a finais do século XIX polos galeguistas históricos do Rexurdimento e consolidada pola Xeración Nós como insignia nacional[1], a actual bandeira civil. Ten fondo branco e presenta unha franxa azul dende o ángulo superior esquerdo até o inferior dereito. A franxa azul posúe unha largura igual á terceira parte do alto da bandeira.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_Galicia.svg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/64/Flag_of_Galicia.svg
Pedro A. Gracia Fajardo / Public domain


Disclaimer

Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Não existe qualquer interesse comercial neste tipo de reproduções/transcrições e não há  outra pretensão que não seja a de prestar um serviço  público: modestamente contribuir para a consolidação da memória colectiva nacional.

«Afinal de onde vem a Língua Portuguesa?» [Observador, 08.02.20]

Foto de Danilin (Alemanha)«Nem este Acordo Ortográfico nem uma dúzia deles conseguiria travar a deriva em que Português Brasileiro e Português Europeu entraram. E entraram já há séculos, não é fenómeno recente.»

“É promíscua e é liberal”: afinal de onde vem a Língua Portuguesa?

Amores e desamores, roubos, inimigos, tempestades e terramotos criaram a língua que falamos e escrevemos. Entrevistámos Fernando Venâncio, autor de uma história do português.

Joana Emídio Marques – Texto

 

As palavras são de tal forma utilitárias, quotidianas e cada vez mais fúteis, que nos esquecemos que todas elas têm uma história, que cada letra, cada som, foi engendrado num tempo e numa circunstância política, social específica e a ela está para sempre ligado. Muitas palavras nasceram de sensações corporais ou psicológicas concretas, outras de necessidades comezinhas da comunicação  que vai desde a esfera familiar à esfera das leis, dos enamoramentos ou da poesia.

Por isso, a história de uma Língua começa sempre por ser oral e pode demorar dezenas de anos, séculos até aparecer pela primeira vez na sua forma escrita. Cada fenómeno linguístico tem origens antiquíssimas e é um pequeno tesouro patrimonial que herdamos das muitas gerações pretéritas. Um tesouro frágil que todos os dias esmagamos usando sempre um número restrito de palavras, ou que é esmagado por decisões mais ou menos arbitrárias do poder que acredita poder torcer as palavras até elas deixarem de ser rebeldes e se tornarem submissas a um regime artificial como é a ortografia, por exemplo.

Assim, a história de uma Língua está indelevelmente ligada à história de um povo, de uma nação e vice-versa. E, da mesma forma que Portugal e os portugueses não caíram do céu ali por volta de 1143, também a Língua começou a sua odisseia particular muito, muito tempo antes, talvez ali por volta do ano 600, quando nem o Condado Portucalense era sonhado. É pois uma viagem longa, cheia de peripécias, aventuras, amores e desamores, roubos, inimigos, tempestades e terramotos aquela que tem feito a Língua Portuguesa até chegar a esta nossa conversa num jornal digital.

Quem a conta é o linguista Fernando Venâncio, num livro fascinante, culto, complexo mas, ao mesmo tempo didático, acessível a qualquer falante do português. A obra, cheia de exemplos e curiosidades, não teme polémicas nem humor, tem a chancela da Guerra & Paz e chama-se Assim Nasceu Uma Língua/ Assi Naceu ũa Lingua e mostra que aquilo a que hoje chamamos “minha pátria”, a Língua Portuguesa, é uma derivação do galego, a sua origem matricial. O Observador falou com Fernando Venâncio sobre as suas aventuras no português.

Neste livro, dá-nos a ver a história da Língua Portuguesa como uma odisseia. Já não é a heroicidade de um povo, como fez Camões, nem de um homem, como fez Homero. Podemos comparar o caminho de uma língua a uma odisseia sem fim cheia de aventuras, perdas e conquistas?
Acho essa imagem, a da história de uma língua como uma odisseia, extremamente sugestiva. Digamos que, no seu percurso, cada idioma passa por muitas. Ao ponto de, como é infelizmente caso comum, ele soçobrar. A tal ideia de que sempre que morre o último falante de uma língua, o Mundo perdeu uma enciclopédia. O nosso idioma não soçobrou, e está hoje vivíssimo. Mas poderia não ter sido nunca nosso. Bastaria, para isso, que Portugal nunca tivesse surgido. Hoje existiria uma idioma extremamente parecido ao nosso, mas sem nós. É, concedo, um cenário ousado. Mas historicamente realista. O nosso idioma surgiu, e fez-se grande e sólido, quando Portugal ainda não existia. Nós herdámo-lo e fizemo-lo ainda maior.

Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.

A premissa deste seu livro, que o português deriva do galego, não é uma novidade, mas é algo que em Portugal os filósofos e os historiadores não encararam seriamente. Porquê?
Exacto. A origem galega do nosso idioma não é a notícia mais sexy. Acostumámo-nos a conceber-nos únicos, com uma língua exclusiva e original. Esquecemos que ela nasceu em território galego. É certo que o grande linguista Ivo Castro já no-lo disse com todas as letras. Mas um passado de marca galega, insisto, não nos lisonjeia. Na melhor da hipóteses, e como o exprimiu Eduardo Lourenço, trazemos a Galiza diluída em nós, e não a reconhecemos já. Continuamos a contar-nos lindas histórias no cantinho da lareira e, para mantermos a auto-estima, fugimos com o rabo à seringa.

 Nesta obra mostra como insistimos em ver-nos como se caídos do céu, um país, um estado, uma língua, um povo, tudo pronto desde 1143. Uma mistificação que a história da Língua Portuguesa nega com veemência. Como foi então que nasceu o Português?
Nasceu há muito tempo e teve uma longa infância. No livro, reúno uma porção de informações para identificar o momento em que na Galécia deixou de falar-se latim, com a criação duma língua nova, e cheguei ao ano 600 d.C. É então que se dão no latim do Noroeste peninsular modificações de monta e únicas na Latinidade. A principal delas foi a queda de L e N entre vogais. Para dar os exemplos clássicos: “salire” tornou-se “sair” e “luna” tornou-se “lua”. Parece pouca coisa, mas o fenómeno afectou centenas e centenas de palavras. Várias outras novidades se deram e, a partir de então, existia uma língua própria nesse território que ocupava a actual Galiza e um troço noroeste do futuro Portugal. Começava em Melgaço, tocava Vila Real e vinha acabar em cunha na Ria de Aveiro. Essa é a geografia inicial do idioma, ainda hoje perfeitamente desenhada na toponímia. Os nomes de terras, lugares e lugarejos. Faltava ainda muito para surgir o Condado Portucalense e, evidentemente, o Reino de Portugal. Quando eles surgiram, falavam a língua ali disponível: o galego. O português só bastante mais tarde se constrói.

Mas e de onde vem o galego? Fale-nos dessa Gallaecia matricial, ali a norte do Douro…
O galego formou-se, como descrevi há bocadinho, a partir do latim. É uma língua directamente surgida dele, como o leonês,o castelhano, o catalão, o occitano, o francês, o italiano. Do leonês sobra hoje, no nosso país, o mirandês. E o occitano tem existência já muito precária, por acção do centralismo parisiense. Que o Noroeste ibérico pudesse gerar um idioma único e forte, vários factores o favoreceram. Era, como ainda é hoje, um território densamente povoado, empreendedor, consciente de si próprio. Ao mesmo tempo, mantinha-se isolado. As novidades de Roma chegavam com muito atraso, incluindo as linguísticas. Em comparação com o que sucedia na Itália, na futura França e mesmo em Castela, o latim da Galécia foi sempre antiquado. Continuamos a distinguir as pronúncias “sêde” e “séde”, ou “côrte” e “córte”, diferenças sonoras que o castelhano ignora.

Apesar da formação do país em 1143, a verdade é que só em 1488 vai surgir o primeiro documento que se pode dizer escrito em português? Passámos então três séculos a falar galego até termos aquilo que se pode chamar uma língua nossa…
1488 é o ano do primeiro livro impresso em Portugal. O português, como língua própria, diferente do galego, começa a tomar corpo por volta de 1400. É uma criação de Lisboa, tornada centro do Reino, com a instalação da dinastia de Avis, ciosa do seu elevado nível cultural. Inicia-se então um processo acelerado de distanciamento das marcas nortenhas do idioma, substituídas por novidades do Sul. Esse processo de “desgaleguização” do idioma está bem descrito em obras da linguista Esperança Cardeira.

E o que acontecia no Sul? Que língua se falava nesse sul dominado pelos muçulmanos, que tinham uma cultura literária muito superior à dos cristãos?
Sabemos muito pouco daquilo que se passava a sul do Vouga. É certo que Coimbra foi, antes da chamada Reconquista, um forte centro de dominação moçárabe, mas falta saber se o moçárabe era a língua veicular. Ivo Castro duvida que os conquistadores cristãos ainda ouvissem esse idioma em uso nos territórios que foram ocupando. Também não é provável que se falasse ainda berbere, e mesmo árabe só seria dominado por uma elite instruída. Continua ainda tudo por esclarecer. Que a cultura literária árabe, audível em cantigas e em poesia, era de superior qualidade, disso não resta dúvida. Mas era uma cultura de elite.

Uma das faces desse processo foi o momento em que Portugal se enamora pela língua castelhana e introduz no seu léxico centenas de palavras castelhanas. Aqui o Fernando Venâncio fala em “relatinização”, ou seja muita da herança latina vem desse espanhol que incorporamos…
A vitória portuguesa em Aljubarrota, em 1385, accionou, embora não pareça, uma reviravolta cultural. Castela era uma cultura pujante, e de repente os portugueses podiam aproveitar-se dela em boa consciência. Iam a Toledo vestir-se e voltavam encantados e com a sua labiazinha castelhana. Na corte, as coisas fiavam mais fino, e convidavam-se sábios de Castela para virem relacionar-se com a Ínclita Geração. Em breve, o castelhano se tornou entre nós língua “de cultura”, situação que se manteria até por volta de 1750, quando foi Paris a decidir os modelos. Os da vestimenta e os do idioma. Durante esses 300 anos, o português foi-se acomodando à prestigiosa língua da forte Castela, longo tempo dominante também na Europa. Entraram muitas palavras novas, em catadupas, feitas na Meseta, e até bastantes dos L e N, que haviam caído séculos antes, regressaram aos seus lugares. Foi o processo de “castelhanização”, paralelo ao da “desgaleguização”. Não que os portugueses da altura se dessem conta disso. Os mais atentos supunham, mesmo, que o português estava a latinizar-se. Estava, decerto, mas muito menos do que se julgava e ainda se julga. Adoptavam-se não só numerosos materiais de feitura castelhana, como também muitos latinos que, pelo castelhano, se nos alojavam no idioma. Atenção: tudo isto se fez na convicção duma “modernização” do português. E mais: duma “internacionalização” dele. Os grandes clássicos Camões e Vieira, também grandes castelhanizantes, sonhariam (é a uma hipótese atrevida, mas venha outra) poder ser lidos directamente na Península e na Europa.

(mais…)

Cantar pelos dois

 

A nossa língua na televisão espanhola?

Marco Neves
Sapo24, 16.12.18

Todos sabemos que os espanhóis não são muito dados a ouvir línguas estrangeiras: não só dobram tudo o que lhes aparece à frente, como têm uma estranhíssima inclinação para ouvir muita música espanhola.

«Olhinhos azuis» na TVE?

Ora, um dos programas mais importantes da TVE é a Operação Triunfo. O programa também já passou por cá, mas não aqueceu nem arrefeceu. Em Espanha, a Operação Triunfo é um fenómeno tremendo — e, ainda por cima, serve para escolher o representante do país na Eurovisão. É fácil concluir que as músicas são, em geral, cantadas em espanhol ou, uma vez por outra, em inglês.

Pois bem — o que dirá o leitor se eu lhe disser que uma das músicas que será cantada na final da Operação Triunfo espanhola de 2018 inclui estes versos?

Meus olhos choram por ver-te meu coraçom por amar-te
meus pés por chegar a ti meus braços por abraçar-te.
Desejava de te ver, trinta dias cada mês
cada semana o seu dia e cada dia umha vez.
Tes os olhinhos azuis inda agora reparei
se reparara mais cedo nom amava a quem amei.

Isto não é uma tradução. São mesmo os versos que serão cantados por Sabela, uma das concorrentes finalistas. A canção chama-se «Tris-tras» e é do grupo Marful.

O que se passa aqui? Uma espanhola vai tentar chegar à Eurovisão a cantar em português?

As palavras «coraçom», «umha», «nom» são as pistas para deslindar o mistério. Sabela é uma concorrente galega e, numa decisão que não é nada simples em Espanha, decidiu cantar na sua língua: o galego.

A letra acima está escrita na ortografia reintegracionista, muito próxima da portuguesa. É verdade que o galego oficial usa uma ortografia mais distante da portuguesa — mas as palavras e as frases são muito nossas.

Reparemos, por exemplo, nos primeiros versos de uma das músicas já cantadas por Sabela («Benditas Feridas»; note-se — «feridas» e não «heridas»), versos estes que estão na ortografia oficial, mais distante da portuguesa (e mesmo assim tão próxima):

Pouco a pouco
Vou deixando de esperar
E secando as miñas ganas de chorar
A luz tornouse a miña escuridade

De Salvador a Sabela

Ao ouvirmos Sabela, notamos como a fonética já se afastou bastante a norte e a sul do Minho. Mas, se repararmos, vemos que ela está a usar palavras tão nossas que arrepiam. Aliás, a proximidade entre português e galego anda a confundir alguns brasileiros no Twitter…

Um amigo confidenciava-me que, para muitos galegos, ter Sabela a cantar em galego na TVE sabe tão bem como aos portugueses soube ganhar a Eurovisão com uma música em português — com a diferença de que a nenhum português lhe passaria pela cabeça que fosse um problema cantar na sua língua para todos os europeus. Em Espanha, cantar em galego para todos os espanhóis ainda é uma novidade — e está longe de ser pacífico. Há quem não perceba que as línguas podem somar-se umas às outras — que haver galegos que insistam em falar e cantar em galego não põe nada nem ninguém em perigo. Aliás, esses mesmos galegos serão os primeiros a falar em espanhol quando é preciso (e, às vezes, quando não é preciso).

Bem, mas porque trago o assunto a esta crónica?

Na verdade, poucos de nós sabemos como a participação de Salvador Sobral na Eurovisão foi muito bem-recebida na Galiza.

Muitos galegos sentiram as palavras daquela canção como suas e comemoraram sem medo a vitória de Sobral.

Não digo que façamos a mesma coisa — mas, já agora, reparemos em Sabela, uma cantora que anda a usar a língua das Cantigas de Amigo para ganhar um concurso espanhol.

À distância segura da nossa fronteira antiga, não nos faz mal desejar sorte a quem leva uma língua tão nossa aos ouvidos dos espanhóis, que assim ficam a saber o que são «olhinhos azuis» — se isto não é a nossa língua, é o diabo por ela.

Que ganhe a melhor — e que a melhor seja Sabela.


Marco Neves | Tradutor, professor e autor. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. O seu livro mais recente é o Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Marco Neves, publicado na “plataforma” Sapo24 em 16.12.18.]

 

Celebrar a diversidade

Publicado em 28/05/2017
(53 vídeos)

Afinal nAO!

Mesmo com a misteriosa ausência de Malaca Casteleiro, esta previsível cilada de todos contra um (tipo “moche” de pancadaria, ou “arreia nesse gajo, caia, caia”) acabou, afinal, por não correr nada mal ao único anti-acordista do painel e, portanto, saiu a ganhar a Causa anti-AO90.

Afinal, milagrosamente, mesmo fumegando já o caldeirão para cozer a vítima em fogo lento, desenvencilhou-se muitíssimo bem o suposto pitéu e chegou até, ele próprio, a chamuscar os salivantes canibais. Não aconteceu felizmente mais uma fantochada, enganei-me no vaticínio e ainda bem, o que resultou foi uma excelente acção de agitprop contra o “acordo”.

Afinal, apesar de em esmagadora maioria (4 para 1), mesmo tendo sido escolhidos a dedo, os acordistas levaram um verdadeiro baile de bola e ficaram a falar sozinhos, ou, melhor formulando, limitaram-se a recitar a ladainha do costume perante uma plateia que fazia um tremendo esforço para não rebentar a rir com as baboseiras.

Contra.o.Acordo Ortográfico
Published on Jun 6, 2018
No âmbito do ciclo de debates “Ensino Superior, Ciência e Sociedade”, a Universidade da Beira Interior (UBI) promoveu o debate “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” com a presença de Nuno Pacheco (Redactor principal do jornal “Público”), Fernando Paulouro Neves (escritor e jornalista), Henrique Manso (Departamento de Letras da Faculdade de Artes e Letras da UBI) e Eduarda Maria Andrade (professora). Vídeo gentilmente cedido pela Universidade da Beira Interior.

Em Português – 22

Spain.info

Sabe que pode fazer uma escapadela a Tenerife. Já há voos directos desde Lisboa? #visitspain

Publicado por Spain.info em Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2017

Sabe que pode fazer uma escapadela a Tenerife. Já há voos directos desde Lisboa? #visitspain

Spain.info
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Teatro Municipal Joaquim Benite

Passatempo "Nathan, o sábio"Temos cinco convites duplos para oferecer para a sessão desta noite, 15 de Dezembro, às…

Publicado por Teatro Municipal Joaquim Benite em Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Temos cinco convites duplos para oferecer para a sessão desta noite, 15 de Dezembro, às 21h00. Para ganhar basta responder correctamente à seguinte questão: qual o nome do autor do texto “Nathan, o sábio”?

Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada)
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HOMENS DA LUTA

Publicado por HOMENS DA LUTA em Sábado, 16 de Dezembro de 2017

Ver um comediante a queixar-se do politicamente correcto é como ver um forcado a queixar-se que o touro marra com força. A boa comédia é sempre politicamente incorrecta. #deixemdeserconas

HOMENS DA LUTA
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Em Português – 17

Editora Objectiva

É já hoje que Ana Bravo apresenta o seu mais recente livro, Sem Culpa, Com Sabor, um livro que tem o selo da campanha do SNS, Juntos contra o sal. Na Bertrand Amoreiras, às 18h30.

Publicado por Editora Objectiva em Terça-feira, 28 de Novembro de 2017

O livro, que está aprovado pela campanha Juntos Contra o Sal, do Ministério da Saúde, será apresentado pelo Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, pela actriz Rita Pereira e pela cantora Carolina Deslandes.

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Olhares do Mediterrâneo – Projecto CRIA

A Drª Teresa Fragoso, Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, e da Drª Carla Raposeira, Directora…

Publicado por Olhares do Mediterrâneo em Sexta-feira, 29 de Setembro de 2017

A Drª Teresa Fragoso, Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, e da Drª Carla Raposeira, Directora de Divisão de Cultura da Fundação Inatel na abertura da 4ª Edição do Festival Olhares do Mediterrâneo.

Olhares do Mediterrâneo – Projecto CRIA
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Rodrigo Leão

2018 é o ano em que Rodrigo Leão comemora os 25 anos de uma bem sucedida carreira a solo e serão muitos e variados os…

Publicado por Rodrigo Leão em Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

2018 é o ano em que Rodrigo Leão comemora os 25 anos de uma bem sucedida carreira a solo e serão muitos e variados os eventos a assinalar esse acontecimento. As comemorações começam amanhã com uma exposição retrospectiva no espaço atmosfera m, na Rua Castilho, n.º 5 em Lisboa.
Em 2018 haverá discos novos e reedições e ainda 4 espectáculos diferentes que irão subir a palco em várias zonas do país. Fiquem atentos para mais informação.

Rodrigo Leão
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