Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Espanhol

5 de “maio”, dia da língua de vaca (e da cultura do feijão)

O “Dia da Língua Portuguesa (e da Cultura Lusófona)” é uma patranha inventada em 14 de Maio de 2005 pelos acordistas de serviço, portugueses e brasileiros (com a presença folclórica de representantes dos PALOP), no intuito de revestir de uma aparência “tradicional” e “histórica” a colossal manobra de genocídio linguístico (e cultural) a que alguns mafiosos chamam “acordo ortográfico”.

Citando a “Wikipédjia lusôfuna“, «O dia foi criado em 2005 durante uma reunião em Luanda, Angola, dos ministros da cultura de sete países lusófonos».

Tudo nesta ridícula “efeméride” é absurdo. O próprio conceito de “cultura lusófona” é absurdo: não significa absolutamente nada, porque semelhante coisa não existe, e não passa de um mais do que evidente oximoro, já que os termos da expressão contradizem-se entre si.

A transcrição que se segue não é, por conseguinte (e por excepção, neste Apartado), de uma notícia ou de qualquer outro tipo de peça jornalística sobre a Língua Portuguesa.

Trata-se de simples demonstração daquilo em que consiste a mais pura e dura propaganda — lavagem ao cérebro — em que se especializaram os membros, alguns cidadãos brasileiros e meia dúzia de mercenários portugueses, da repugnante seita acordista de cujo proselitismo imbecil apenas a imbecis pode escapar a absoluta ausência de conteúdo.

E de significado.

E de tino.

CPLP – Quantas línguas cabem na língua portuguesa?

Em Cabo Verde não se pode usar a expressão “pitada de sal”. No Brasil ninguém sabe o que é um autoclismo. Mas todos nos entendemos. Hoje é dia da Língua Portuguesa, que é falada por mais de 260 milhões de pessoas.

Em Cabo Verde não se pode usar a expressão “pitada de sal”. No Brasil ninguém sabe o que é um autoclismo. Mas todos nos entendemos. Hoje é dia da Língua Portuguesa, que é falada por mais de 260 milhões de pessoas

“Eu pergunto se ele vai de terno, ele me diz que não vai de fato. Eu uso calcinhas, que ele diz que são cuecas, ele usa boxers, que eu digo que são cuecas.” Parece caricatura mas não é. “Eu digo para de frescura e ele me diz não me venhas com fitas. Eu digo que ele não sabe porra nenhuma, ele diz que eu não sei a ponta de um corno.” Os problemas de comunicação da brasileira Ruth e do seu marido, o português Filipe, foram o tema da crónica semanal que ela assina no Estadão, no passado dia 22 de abril. O título era: “Eu digo “Brasiu”, ele diz “Purtugal””. E nela Ruth Manus elencava os vários equívocos provocados pelas diferentes línguas que eles usam, apesar de ambos falarem a mesma língua portuguesa.

“É tudo verdade”, garante Ruth Manus, advogada e escritora de 29 anos que vive em Portugal desde 2015. “Às vezes, eu pergunto uma vez, duas vezes, três vezes e continuo sem entender o que ele ou outra pessoa dizem e então simplesmente desisto.” Porque é que isto acontece? “Com o vocabulário eu já estou mais ou menos familiarizada, leio muito, os jornais, os livros. Mas para mim a dificuldade é mesmo a rapidez com que as pessoas falam e a maneira como falam, para dentro. Parece que é outra língua. Às vezes, penso que seria mais fácil falar em inglês, talvez porque eu desde logo presumisse que não fosse entender.”

É essa diversidade e ao mesmo tempo essa união que se celebram hoje, Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP. Entre os muitos eventos programados nos nove países de língua oficial portuguesa – que fazem desta a quarta língua mais falada no mundo – destaque para as celebrações em Nova Iorque, sede da ONU. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o humorista Ricardo Araújo Pereira e o escritor Onésimo Teotónio de Almeida são alguns dos que participam no programa, ao longo de todo o dia, nos Jardins das Nações, onde também serão evocados os 20 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao escritor português José Saramago.

Não é tradução, é adaptação

Como escritora, Ruth Manus tem uma tarefa complicada. “Se eu não trabalhasse com a escrita, não teria o menor problema em aportuguesar o meu português, eu até acho bonito. Mas eu não posso permitir que isso aconteça porque o meu público está preponderantemente lá no Brasil.” Ao mesmo tempo, Ruth começou também a publicar crónicas no Observador, em Portugal, e aí a sua preocupação é ser entendida: “Eu jamais vou tentar escrever em português de Portugal porque seria ridículo. Mas tomo alguns cuidados. No outro dia, eu ia escrever celular, depois lembrei-me que aqui se diz telemóvel, mas isso não seria natural para mim, então escrevi iPhone”, conta, rindo.

A jornalista brasileira Giuliana Miranda tem o mesmo problema. Giuliana tem 30 anos e mora em Portugal desde 2014. Quando publica na Folha de São Paulo tem de pensar nos seus leitores brasileiros: “Em alguns lugares do Brasil, rapariga é uma palavra muito feia, quer dizer prostituta, então, se um entrevistado português usasse a palavra muito provavelmente eu traduziria”. Por outro lado, quando participa no programa da RTP Mundo Sem Muros ou quando escreve artigos para o DN, confronta-se com outras dificuldades. Não se trata só de ter de usar autoclismo em vez de descarga ou casa de banho em vez de banheiro. No Brasil, diz-se Irã em vez de Irão. E canadense em vez de canadiano. E mesmo que tenha todas as palavras certas e a preocupação de usar sempre o Acordo Ortográfico, Giuliana percebe que os seus textos são muitas vezes corrigidos: “Eu não me importo, acho que a essência do que escrevo em português do Brasil está ali, mas tem de ser adaptado.”

“Claro que é maravilhoso a língua ser a mesma. Poder reclamar em português, poder xingar ou dizer o que eu gosto. Eu já morei nos Estados Unidos e apesar de falar bem inglês não é a mesma coisa do que a gente poder se expressar na nossa língua de origem”, diz Giuliana. Mas, ao mesmo tempo, não tem problemas em admitir que o português dos dois lados do Atlântico é tão diferente que quase parecem ser duas línguas: “Tem muita gente que leva a mal quando se diz que nós falamos brasileiro, mas eu não levo.” Ruth Manus concorda: “No Brasil existe uma certa mágoa, até ofensa, quando os portugueses dizem que a gente fala brasileiro, porque nós falamos português, a matéria da escola é língua portuguesa. Mas agora que estou cá eu já não me ofendo. Nós falamos brasileiro mesmo.”

[…]

Source: CPLP – Quantas línguas cabem na língua portuguesa?

 

Notas:

  1. A acordista fantochada referida na “peça” não passa de uma (triste) macaqueação das reais efemérides promovidas pela ONU. Existe o “Dia da Língua”, sim, mas apenas daquelas que são “Línguas de trabalho” da Organização: Inglesa (23 de Abril), Francesa (20 de Março), Árabe (18 de Dezembro), Chinesa (20 de Abril), Russa (6 de Junho), Espanhola (12 de Outubro).
  2. Propositadamente (é claro), para esta transcrição não utilizei a abençoada combinação de teclas Shift+F9, que a solução “Firefox contra o AO90” requer para corrigir automaticamente qualquer texto na Internet; portanto, a transcrição reflecte ipsis verbis a imitação rasca da cacografia brasileira constante daquele original de imprensa tuga brasilófona.
  3. Também propositadamente (é claro de novo), atrasei a publicação deste “post” para o dia seguinte ao da “comemoração” em causa. Não iria eu, jamais, participar de alguma forma — e nem mesmo a contrario — em tal vergonhosa palhaçada, um dos incontáveis números  protagonizados por palhaços, contorcionistas e malabaristas como Cavaco, Malaca, Sócrates, Bechara, Lula, Reis, Santana, Canavilhas e outros artistas de quejandos méritos circenses.
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FAQ AO90 — 3


13. Das quatro vias para acabar com o “acordo ortográfico”, qual a mais viável?

Dessas 4, que afinal são 5, se contarmos com a denúncia unilateral do AO90 enquanto Tratado internacional, existem duas muito semelhantes entre si e são ambas igualmente viáveis: em qualquer destes dois casos, a solução passará sempre pela apresentação de uma iniciativa legislativa — ou por um mínimo de 23 deputados ou por mais de 20.000 subscritores no caso de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC).

Seja de uma forma ou seja de outra, o objectivo terá de ser forçosamente a anulação do instrumento legal que ratificou o II Protocolo Modificativo (alterando este a redacção original do AO90) e que, assim, colocou em vigor o “acordo” na ordem jurídica nacional.

Instrumento legal esse (RAR 35/2008) que fez ainda mais do que “apenas”, ratificando o dito Protocolo, aceitar em nome de Portugal o golpe perpetrado pelo Brasil: a ratificação do Protocolo por apenas 3 Estados implica a automática entrada em vigor do AO90 em todos os oito Estados-membros da CPLP.

Portanto, só revogando aquela Resolução parlamentar será possível reverter a entrada em vigor do AO90 em Portugal; a anulação de qualquer outra legislação subsequente, decorrente e dependente da RAR 35/2008, seria inútil. Por exemplo, a revogação da RCM 8/2011 não teria quaisquer efeitos práticos, já que o AO90 continuaria legalmente em vigor.


14.  Em que diferem do “acordo ortográfico” brasileiro os casos Francês, Espanhol ou Alemão? Porque é que o Inglês nunca teve qualquer “acordo”?

Não existe a mais pequena similitude entre as reformas ortográficas dos países civilizados e aquilo que se passa em Portugal.

Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é  compulsiva, como o AO90.

Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. Ou seja, os estrangeiros fixam a sua norma ortográfica, apenas quando absolutamente necessário, em função das naturais oscilações que porventura ocorram pela simples passagem do tempo. “As Línguas” evoluem, de facto, como tanto gostam de cuspilhar os acordistas portugueses, mas de forma natural e não por decreto.

O caso da Língua inglesa é algo completamente diferente. Evoluiu ao longo de 1.400 anos mas a sua ortografia mantém-se praticamente inalterada há vários séculos. Por alguma razão — ao invés do que dizem acordistas, com a sua alucinada teoria do facilitismo e da “expansão” — o Inglês é “só” a Língua mais falada (e escrita) no Ocidente e é “só” a lingua franca por excelência em todo o mundo. De resto, em todos os países do ex-Império britânico a ortografia e a etimologia são ponto de honra e motivo de orgulho; nos EUA e no Canadá, por exemplo, existem concursos nacionais, regionais e locais dedicados exclusivamente a soletrar: spelling bee.


15. Se existiu desde o início tanta resistência (e indiferença), porque é que o “acordo ortográfico” entrou em vigor?

Por uma questão de agenda: aos políticos implicados na tramóia e aos empresários gananciosos interessados nela (é a grande finança que paga as campanhas eleitorais e os tachos dos políticos) convinha que a coisa avançasse o mais depressa possível. Assim, primeiramente avançou a parte política do assunto — aprovação do II Protocolo Modificativo — preparando o terreno para que os grandes grupos editoriais, por exemplo, começassem de imediato a facturar. A expansão económica brasileira, tendo por objectivos primordiais Angola e a União Europeia (usando Portugal como trampolim, bem entendido), ficaria para mais tarde, a seu tempo.

Primeiro, era necessário garantir que o AO90 entrasse em vigor em todos os países da CPLP, fosse como fosse, à força, à má-fila.

Como os processos de ratificação tinham vindo a arrastar-se desde 1994, em todos esses países, então o Brasil e seus agentes em Portugal descobriram a pólvora: cozinhar uma espécie de adenda ao “acordo”, o II Protocolo Modificativo, passando a obrigatoriedade de ratificação do AO90 por todos os 7 para apenas 3 Estados-membros; ou seja, a ratificação por 3 Estados implicaria que o AO90 entraria em vigor oficialmente nesses 3… e também nos outros quatro, mesmo que não ratificassem coisa alguma (ratificar é diferente de simplesmente subscrever o AO90, são processos autónomos).

Assim, em 2004 o Brasil (é claro) ratificou, em 2005 Cabo Verde também e por fim São Tomé e Príncipe idem. Pronto, já está, o AO90 entrou em vigor em todos os Estados da CPLP por via administrativa, por imposição de países terceiros. Só faltava então a aquiescência de Portugal para dar um ar de legalidade ao golpe e assim enfiá-lo goela abaixo dos pategos portugueses.

Foi precisamente esta incrível vigarice que o Parlamento português sancionou, através da RAR 35/2008, entrando do mesmo passo o AO90 em vigor também em Portugal.
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FAQ AO90 — 2


7. Que fundamentos alegaram os inventores do “acordo ortográfico” para o justificar?

Três completos absurdos, basicamente:

Não há “unificação” alguma, muito pelo contrário: o AO90 originou ainda mais diferenças entre as duas normas, novos casos de duplas grafias (e triplas e quádruplas). Neste momento (2018) existem não duas mas três “normas”: PT-BR (Brasil), “acordês” (organismos do Estado e algumas empresas em Portugal) e PT-PT (Angola e Moçambique).

Não há qualquer tipo de “projecção e expansão”, acontece o oposto: fecham cada vez mais leitorados de Português no estrangeiro e diversos organismos internacionais extinguem o Português como Língua de trabalho ou institucional.

Não há “maior facilidade” na aprendizagem coisa nenhuma: no Ensino oficial em Portugal a confusão é total e o cAOs instalado afecta gravemente as crianças e jovens, confundindo-as estúpida e desnecessariamente. Não sendo imbecis ou retardados, os alunos portugueses estão mergulhados num caldo de instabilidade ortográfica no qual não só eles mas principalmente eles já não sabem ao certo como se escreve (ou lê). Por isto mesmo os resultados são cada vez piores desde que o AO90 passou a ser obrigatório nos exames.

E os estrangeiros que aprendem Português não são também, em princípio, atrasados mentais: o AO90, abolindo radicalmente a etimologia, afasta ainda mais o Português das demais Línguas de países europeus ex-colonizadores, em especial os das Línguas francesa, espanhola e inglesa.


8. Qual foi a ideia-base para sustentar tecnicamente o “acordo ortográfico”?

Uma ideia de jerico, evidentemente, na qual apenas fingem acreditar alguns idiotas ou pessoas que comem da gamela acordista: prescindir do critério etimológico (a raiz e a evolução ortográfica das palavras) substituindo-o pelo “critério” fonético (“o que não se pronuncia não se escreve”). Uma abominável cretinice, portanto, que jamais passaria pela cabeça de um francês, americano, inglês, espanhol, australiano ou canadiano, para citar apenas alguns povos que são “parvos” por ignorarem as maravilhas dos acordos ortográficos; ideias assim tão asininas, se bem que vendidas como “geniais”, jamais ocorreriam a qualquer cidadão daqueles atrasadíssimos países; só em Portugal e no Brasil, duas super-potências mundiais, como sabemos, existem “génios” capazes de esgalhar semelhante “genialidade”.

Consequência directa do “genial” critério fonético: como no Brasil a pronúncia é completamente diferente das de Portugal e PALOP, a suposta “unificação” resulta em milhares de novas duplas grafias.

Mas esta ideia de jerico deveria levar os ditos “génios” ainda mais longe: sendo o Brasil um país-continente, nada de mais natural do que, apenas ali, existam  “dialectos” — o que, segundo a máxima acordista “se não se pronuncia não se escreve”, deveria dar direito a 16 “ortografias” brasileiras diferentes. Fica a sugestão.

Claro que algum estratagema, de preferência suficientemente idiota para impingir a perfeitos cretinos, teria de ser inventado para mascarar as verdadeiras motivações — ambições políticas e económicas do Brasil — e por conseguinte os acordistas atiraram para o ar um dos absurdos disponíveis no seu arsenal de insanidades: o critério fonético “facilita imenso”.
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Pèidéluó, Pútáoyá (1)

como se escreve Pedro em Mandarim: algo como Pèidéluó

 

Olá, o meu nome é Pèidéluó e vivo em Pútáoyá.

Parece que acabei de dizer dois palavrões mas não. Aquilo ali é a tradução de “Pedro” e de “Portugal” para Mandarim (Pinyin).

Toda a gente sabe, por experiência própria e até porque o fenómeno faz já parte do anedotário nacional, os chineses “comem” os RR (érres) porque… não conseguem pronunciá-los. Ou porque “têm preguiça” de articulá-los, como explica esta simpaticíssima chinesa do Brasil.

Quem nunca entrou numa “loja do chinês” à plócula de palafusos ou de blocas, pol exemplo? E quem nunca teve de conter o riso (convém não lile, sobletudo não lile, pala não ofendele) quando nos pelguntam se quelemos glandes ou pequenos?

Mas os chineses não são caso único. “Deficiência” semelhante na pronúncia dos RR têm também americanos, ingleses e todos os demais nativos de Língua inglesa. Os sons “aRRanhados” ou, de forma geral, aqueles que envolvam “érres”, são para eles algo de muito difícil articulação, quando não totalmente impossíveis de articular. A chinesinha do vídeo acima fala também deste problema que são os RR no Inglês e não apenas no Mandarim.

Ora, outro tanto sucede em sentido inverso, isto é, por regra os portugueses manifestam uma tremenda incapacidade para articular certos sons em qualquer Língua estrangeira, seja ela Mandarim, Inglês ou até Francês.

Mesmo que sejam, por paradoxal que isto possa parecer, fluentes em qualquer daquelas Línguas. Basta recordarmos, e igualmente tentando conter o riso, como na loja do chinês, os casos de Mário Soares em Francês ou de José Mourinho em Inglês, por exemplo.

Isto para não referir fenómenos verdadeiramente patológicos, digamos assim, como José Sócrates e o seu “castelhanês” ou “portuñol” totalmente inventado e “alternativo”.

Mas ultrapassemos esta nota de rodapé, simples ilustração da tese pela demonstração de uma situação-limite de incapacidade articulatória.

Incapacidade que, exceptuando patologias, verifica-se ser bem mais comum do que geralmente se admite.

Na Língua inglesa existe uma palavra, quiçá a mais básica de todas, que só à custa de muito treino (ou de uma tendência natural e congénita para “aprender línguas”) um português — e mais ainda um brasileiro — consegue articular correctamente: “THE” (artigo definido). E a coisa piora muitíssimo se o dito português tentar pronunciar qualquer um da gama de sons cuja grafia seja representada por este par de letras: TH. Como em “moth” (traça, borboleta nocturna), thirst/thirsty (sede/sedento) ou thread (vários significados).

É muito engraçado escutar as formas extremamente artísticas como os non-native English speakers  “resolvem” o “problema”. Se esse falante não nativo de Inglês for português (ou, pior, repito, se for brasileiro) então a maneira que ele arranja para “desenrascar” o TH já não é só hilariante — é de rebolar a rir.

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«À vontade do freguês» [N. P., “Público”, 16.11.17]

Sai uma espetada para o senhor espetador!

Na “ortografia unificada” a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Nuno Pacheco, “Público”, 16.11.17

————-

Andou escondido, durante uns tempos, mas reapareceu. Nada a ver com Tancos, com a tragédia dos incêndios nem com o já cansativo Panteão. Trata-se do espetador. Sim, esse mesmo. Por vergonha, muita gente foi adoptando a grafia “espectador”, talvez por não quererem espetar nada em ninguém. O “espetáculo” ainda vá, lá vai surgindo com “c” ou sem ele, consoante os gostos. Já o espetador tinha desaparecido. Mas reapareceu em todo o seu esplendor. No Teatro da Trindade, agora mais activo em matéria de “espetáculos”, distribui-se um papelinho onde se lê “Antes do espetáculo, venha ao bar do teatro! -30% na comida para espetadores com bilhete do dia.” Qual será o menu? Espetadas? Na contracapa do DVD com o (muito recomendável) filme São Jorge, de Marco Martins, lê-se o seguinte: “Uma obra prima. Um banquete cinematográfico que mantém o espetador colado à cadeira.” Não deviam, antes, dizer pregado à cadeira? Ou espetado na cadeira?

O mais curioso é que se trata da tradução de uma nota elogiosa escrita no The Huffington Post; ou seja, a culpa não é de quem escreveu mas de quem traduziu. Quanto ao “espetador”, que no Brasil se diz e escreve “espectador”, com “c”, embora só se admita a grafia sem “c” para “espetáculo” (e esta é uma das muitas incongruências patentes na grafia oficial brasileira, mesmo antes do acordo ortográfico), o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) de Portugal admite duas variantes, com e sem “c”, à escolha do freguês. Mas há outro erro na frase, “obra prima”: a designação em português para masterpiece, chef-d’ouvre, obra maestra, meisterwerk ou capolavoro é obra-prima com hífen, seja em Portugal ou no Brasil, antes ou depois do acordo (está no VOC, é só conferir). Porque não há obras primas, como não há obras tias ou obras avós; é palavra composta, onde a justaposição por via do hífen lhe dá um significado novo: o de obra máxima, de excelência absoluta. Claro que estas coisas nada dizem às criaturas que tiram e põem hífenes ou consoantes a eito, porque acham que reformas é isso: tirar sinais. Basta ver as notas de rodapé nas televisões, ler legendas de filmes ou andar pelos museus para avaliar o descalabro desta aleatoriedade. Um exemplo: na colecção permanente do Museu Berardo, em Belém, há um painel intitulado “Concetualismo”. No texto desse painel, lê-se essa palavra por mais duas vezes, e lê-se também “coletivo”, respeitando os ditames do acordo ortográfico de 1990 (AO). Mas lê-se “caracterização”, “recepção”, “cariz conceptual” ou “arte conceptual”. Nem uma só vez “concetual” surge no texto. Já agora, esclareça-se que o dito VOC do Brasil não reconhece “concetualismo” nem “concetual”. Elas só existem no VOC de Portugal, mas admitindo dupla grafia. É isso: escolham.

E escolhem, nem que seja ao acaso. Numa separata comercial recente, lê-se “arquitectura” no título (com “c”), mas “atividade”, “direcionada” e “objetivos” (sem “c”) a par de “sector” (com “c”). Que bela salada mista proporciona a “ortografia unificada” que nos impingiram! Sim, porque antes do malfadado AO não havia tais mixórdias. Um exemplo, elegante e digno: a revista especializada Áudio & Cinema em Casa não respeita o AO em nenhum dos seus textos. No entanto, tem um colunista brasileiro (interessantíssimo, aliás), Holbein Menezes, cujas crónicas ou textos de análise respeitam integralmente a grafia brasileira, seja nas “eletrônicas” ou nos “fenômenos”. Vantagem: nuns e noutros textos, a ortografia é impecável, seja no português de Portugal ou do Brasil. Há mais exemplos destes, felizmente, em espectáculos, discos, livros, museus, de onde a mistela ortográfica é afastada como sujidade indesejável. Mas, apesar dessas honrosas excepções, a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Será depois do Verão?, escreveu-se aqui numa das crónicas sobre o malfadado AO. Ainda não foi. Apesar das escusas, dos protestos, da evidência clamorosa de erros, ainda nada se corrigiu e tudo segue na miséria de antes. Saúde-se o sinal de vida dado, esta semana, pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, através de um texto de Rui Valente no PÚBLICO intitulado “4379 Cidadãos para a Língua Portuguesa.” Esta e outras iniciativas contribuem para que não se esqueça tão magno assunto. Não é saudosismo nem reaccionarismo, como pretendem os mentores dessa aberração técnica e linguística conhecida por acordo ortográfico. É apenas senso. E higiene.

P.S.: Entre muitos outros textos publicados sobre este tema, destacaria aqui uma série relativamente recente, que tem vindo a ser publicada no PÚBLICO online, da autoria do jornalista, formador e revisor Manuel Matos Monteiro, sob o título genérico “Admirável Língua Nova” (parte I, parte II, parte III e parte IV).

Nuno Pacheco


Nota: os “links” em cor verde são meus.

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“A nossa língua ninguém pode comprar” [revista “Raia Diplomática”, 20.10.17]

“Ki Nobas”?

Pergunta um luso-descendente do Bairro Português de Malaca a querer saber novidades.

Esta é uma das expressões que oiço habitualmente. Um pouco do nosso Portugal longínquo e flutuante, herança portuguesa de uma outra geração.

Um dia, uma amiga chinesa visitou-me em Malaca e levei-a a conhecer a comunidade. Cruzámo-nos com o Senhor António, que caminhava com o seu carrinho de mão e as suas redes de pesca ao longo da rua Teixeira. Apresentei-o falando em inglês, dizendo que era o meu amigo António. A minha amiga disse “Hello Anthony”, ao qual ele respondeu “My name is António, Portuguese name” apertando a mão e sorrindo.

A identidade de um povo, assim como de uma comunidade, sente-se na alma das pessoas quando convivemos com elas no dia-a-dia, sente-se na sua vontade de querer ser, na forma como reagem e interpretam a sua história e como a projectam no futuro.

Na isti parti di mundo”, deparei-me com várias gerações de pessoas orgulhosas da nossa identidade. O senhor que canta o fado, a criança que joga ao berlinde, o jovem que dança folclore, a senhora que confecciona bolos tradicionais, o senhor da mercearia.

Conheço gente com verdadeira alma lusitana sem nunca terem visitado Portugal. Sentem-se portugueses, sem renegarem a sua nacionalidade Malasiana. Houve uma evolução diferente do Português na comunidade luso-descendente de Malaca, uma evolução que resultou da simples vontade e necessidade de querer comunicar na língua materna. Foi esta vontade, este sentir, esta necessidade de se identificarem com os seus antepassados que permitiu que ainda hoje se possa ouvir em Malaca: “Sou Português”.

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