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Traduções Galego/brasileiro e brasileiro/Português

«O Ministério brasileiro da Integração Nacional participou em outubro da 1ª Missão Técnica de Cooperação Transfronteiriça realizada no Eixo Atlântico, quando pode conhecer instrumentos de trabalho e integração entre as regiões de Galícia, na Espanha, e Viana do Castelo, em Portugal.» [https://www.mundolusiada.com.br/acontece/galiza-brasil-conhece-politica-de-fronteira-entre-espanha-e-portugal/]


Olh’à desinformação fresquinha, ó: «Faz sentido dizer português de Portugal e português do Brasil ou português de Angola?»

Bom. Perguntar não ofende, certo? Certo. E responder também não.

Claro que faz todo o sentido! A gramática — ortografia, sintaxe e morfologia — do Português de Angola é a mesma do Português de Portugal (e de Moçambique e de Cabo Verde e da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe e de Timor-Leste e até de Macau ou Goa). As diferenças — que o não são de facto — limitam-se a entradas lexicais, dicionarizadas ou não, em consonância com a identidade nacional representativa dos povos que integram as diversas ex-colónias portuguesas nos continentes africano e asiático. Esta realidade comprovável contrasta flagrantemente com a ligeireza da língua nacional “adotada” — apenas tendo como base primeva o Português — pelo meio-continente brasileiro, a metade Leste da América-do-Sul, grosso modo.

Tentar criar uma espécie de analogia por arrombamento entre duas realidades diametralmente opostas é não apenas intelectualmente desonesto como, atalhando argumentos e simplificando adjectivações, tentar promover a verdade incontestável uma patranha do tamanho do planeta Júpiter. Não será por alguém usar um pé-de-cabra mental, no caso através de uma comparação absurda (porque não existe qualquer semelhança entre o Português de Portugal e Angola, por um lado, e a língua brasileira, por outro), que alguém com um mínimo de tino irá conceder o mais ínfimo crédito à “tese” imperialista. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ponto final. Parágrafo.

Daí a relevância — para variar — da conclusão que o próprio arguido pelo arrombamento formula com inusitada e contra ele mesmo irónica precisão: «As denominações não são neutras nem neutrais (ainda que podem acabar neutralizadas), indicam interesses.» Oh, sim, sim! Ah, pois são, pois são, pois indicam, indicam mesmo!

E resulta claro como água quais são esses interesses, e de quem, e para quê ou porquê. Basta atender à baralhação das designações e também ao efeito retórico pretendido com a operação algébrico-cavernícola: de uma raiz quadrada de um quadrado a multiplicar por um factorial de zero pretende-se extrair a fórmula química da pedra filosofal. Para pendurar ao pescoço, presumo.

E ainda, mais reconhece o próprio, não deixando de continuar a surpreender pela franqueza: «dependerá da capacidade de imposição e de aceitação das/os agentes que nele actuem».

Humilde raciocínio do qual sai com alguma elegância, se bem que também com brutalidade, usando desta vez a técnica bélica da rajada: «o grave é funcionar com a crença de sentir-se donos da língua. Grave, grave é andar “traduzindo” de Portugal para o Brasil e vice-versa. “Traduzem” do português para o português: vergonha para as políticas da língua. É tudo irresponsável para alguns ganharem à custa deste despropósito.»

Não é fantástico? Exactamente! Na mouche! É isso mesmo o que sempre se fez, continua a fazer-se e no futuro se fará, por mais “língua universau” que nos tentem impingir. Bom, se calhar é melhor nem comentar os balázios do indivíduo, à uma para não tirar lustro aos tirinhos, às duas porque sim, quem se atravessar cai logo, varado, lá diz o povo, é cada tiro, cada melro. “Donos da língua”, pim. “É tudo irresponsável”, pam. “Alguns”, pum. Ou seja, ele e os seus compinchas portugueses e brasileiros.

Todo o textículo é de facto um monumento. Esmiuçado seria porventura menos impressionante, estou em crer, (por exemplo, aquela outra relação de causa e efeito em “por causa da internet” é de uma comicidade inimitável) mas já sabemos que os ataques de riso podem ter consequências graves para a saúde, a coisa pode até matar, veja-se o que faz o óxido nitroso, e por conseguinte será decerto melhor deixar a deglutição da pastilha para o venerável leitor. Que não deverá, caso escape ao acesso de gargalhadas, assustar-se com as enormidades sortidas (claro, a rapsódia habitual, a da “Pharmacia”, tinha de constar, como sempre, ele o Inglês e o Francês são línguas muito atrasadinhas, coitadinhas) que o depoente galego vai espalhando, como quem atira pérolas a porcos, toma lá, Reco, atão vá, Miss Piggy.

Não é o remate dele mas eu cá, com o devido respeito, por aqui me fico: «a sobreposição do espanhol é esmagadora.» Como o brasileiro, portanto. Questão de números.

Como se a Língua fosse uma contagem de cabeças de gado: se as reses forem muitas, é uma manada; se forem poucas são descartáveis, matadouro com elas.

Cuidado, cowboy. As vacas investem tanto como os bois. Empurrados para um canto, cercados, tanto o boi como a vaca marram. E marram bem.

″Grave, grave é andar ‘traduzindo’ de Portugal para o Brasil e vice-versa″

www.dn.pt, 17 Maio 2022
Leonídio Paulo Ferreira

 

[legenda de foto] Palestra de Elias Feijó integra ciclo “Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento”, organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa.

………………

Faz sentido dizer português de Portugal e português do Brasil ou português de Angola? Não pode caminhar o português para ter cada vez mais variantes nacionais mas ao mesmo tempo, por causa da internet, assistir a certa padronização?

O seu sentido é identificar se há variantes que sejam úteis para alguma cousa. A algumas pessoas podem ser úteis para diferenciar-se ou afastar-se e mesmo podem acabar falando de brasileiro ou angolano. As denominações não são neutras nem neutrais (ainda que podem acabar neutralizadas), indicam interesses. O relevante é que todas as variantes se sintam incluídas no termo e no conceito “português”. A internet pode fomentar certa extensão de usos comuns, como também pode fazer aflorar variantes; dependerá da capacidade de imposição e de aceitação das/os agentes que nele actuem. O importante é não ter medo aos fluxos da língua nem às pessoas e comunidades que a usam. Há suficientes elementos, organizacionais e institucionais, que garantem a sua unidade. A partir de aí, a língua são oceanos onde toda a gente deve sentir o prazer de navegar. Sem patrões! Atenção: sem donos!

A polémica sobre o Acordo Ortográfico faz sentido para si? O Diário de Notícias, que tem mais de século e meio, já seguiu vários acordos. Nas edições mais antigas, por exemplo, existe “Pharmacia”.

Pois é! E, mesmo assim, com uma ortografia bem distante e, em caso, caótica, como é sabido, a intelectualidade galeguista dos século XIX e XX, de Manuel Murguia a Daniel Castelao, reconhecia nela a unidade linguística! Cito um provérbio da minha terra: “melhor um mal acordo que um bom preito“. Eu, galego, numa situação sociolinguística tão precária para o galego, nome que dou à língua que no mundo se conhece como português e, por razão do ofício, um pouco conhecedor do mundo de língua portuguesa, não entro já a discutir as soluções propostas nem, mesmo, as ambiguidades. Quero acordos. Num par de gerações, ninguém se irá lembrar disto; o grave é funcionar com a crença de sentir-se donos da língua. Grave, grave é andar “traduzindo” de Portugal para o Brasil e vice-versa. “Traduzem” do português para o português: vergonha para as políticas da língua. É tudo irresponsável para alguns ganharem à custa deste despropósito.

Até que ponto português e galego são a mesma língua ou já duas línguas diferentes?

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Língua vazia

Population (2020): 12,400,232 | Metro: 22,001,281 (Greater São Paulo) [Wikipedia]

«A única solução para o infeliz acordo seria rasgá-lo. Mas ‘repensar’ também serve, desde que isso sirva para cobrir de vergonha a parolada nativa que abraçou o acordo sem parar para pensar.» [João Pereira Coutinho, 28.01.17]

«Como foi possível levar a sério o acordo ortográfico?»
«O problema do acordo é termos tido vários governos que, reverentes e analfabetos, foram ratificando, modificando e legislando como se o acordo fosse mesmo para levar a sério.»
[João Pereira Coutinho, 08.05.16]

 

Mau, mau, mau. A julgar pelo palavreado desconexo que alardeia neste seu artigo, o mais recente dos que foi escrevendo sobre o AO90, parece-me legítimo formular a seguinte singela pergunta: o que terá acontecido para que João Pereira Coutinho tenha subitamente desatado a confundir o AO90 com os “linguistas” de serviço que o fizeram? Ter-lhe-á dado, a JPC, assim de repente, quando por acaso estava (ou está) no Brasil em serviço, alguma camoeca? Mas afinal o que diabo tem o AO90 a ver com as calças?

Se, de facto, foi um lapso momentâneo, um simples hiato ou decerto acidental pancada fortuita com a testa em alguma portada baixinha, bom, vejamos, então já é outro falar e nesse caso talvez valha a pena relembrar a propósito o bê-á-bá.

Por uma questão de higiene mental e para que resulte claro da leitura que de facto JPC não terá dado uma inoportuna cabeçada, acrescentei na transcrição emendas entre parêntesis rectos ([…]), nos casos em que me pareceu que o texto original foi adaptado pelo editor brasileiro do jornal brasileiro para brasileiro (conseguir) ler a prosa redigida no Português vernáculo*** do original. Como sabemos, os brasileiros que sabem ler têm uma relação extremamente conflituosa com as línguas estrangeiras, a começar pela portuguesa, e por isso mesmo não apenas traduzem todo e qualquer texto em Português como vão ao ponto de legendar em brasileiro, nos canais de TV, tudo o que um tuga diz na estranhíssima língua cuja designação, “língua portuguesa” (ou “português”), foi segundo eles roubada aos brasileiros, os únicos detentores da patente da “língua univerrssau“.

Enfim, adiante, vamos ao artigo propriamente dito. A ver se tiramos a limpo o que afinal se terá passado na ligeiramente vertiginosa carola do escriba para que tenha debitado tamanha concentração de “distracções” e tal sortido de “variações”.

O pressuposto inicial em que o escriba se estriba, executando um estranhíssimo número de malabarismo argumentativo — aliás, um pouco trapalhão — sem qualquer mérito ou a merecer o menor crédito, é inventar de raiz uma estranha e indistinta figura genérica de malvados aos quais chama, em tom de insulto e chacota, “os puristas da língua”. Não se refere com certeza aos que rasgam as vestes por causa de estrangeirismos, barbarismos, francesismos e, principalmente, anglicismos. Não. Com esses não se chateará JPC porque esses mesmos não chatearão JPC; é-lhe indiferente, e bem, que tais fanáticos domésticos não parem nos sinais de STOP (“to stop” é um verbo em Inglês, que horror), que não apreciem nem “mousse” nem “suflé” (olha, “soufflé”, é Francês, que nojo, iach!) ou que tenham raiva a “olés”, a “faenas, a “chicuelinas” (espanholadas tauromáquicas por junto, t’arrenego). Pois nada disso interessa. O epíteto assenta inteirinho e em exclusivo, segundo a estranha formulação do autor, nos lombos dos acordistas portugueses, os patuscos que pretendem esgalhar uma “língua unificada” e tudo.

Mas que raio de confusão, caro JPC! Não é isso o que pretendem patuscos nem o que procuram vendidos nem o que privilegiam traidores; de todo; ou, melhor dizendo, isso tanto se lhes dá como se lhes deu, essa tanga da língua “univerrsáu” serve exclusivamente para fingir que a CPLB não é uma máquina brasileira de fazer negócios e que o principal objectivo desta não é o saque metódico das riquezas naturais das ex-colónias portuguesas em África.

Convém não confundir a narrativa para enganar saloios e deslumbrados com a geral ânsia de enriquecer rapidamente dos inventores da dita narrativa e seus lacaios. Não passam, como nunca passaram, de paus-mandados do seu patronato tuga-zuca — os ladrões podres de ricos da “santa aliança” atlântica (abençoada pela própria Igreja Católica), empresários políticos e políticos empresários com ligações nada discretas a irmandades não muito secretas com evidentes ligações aos meandros do poder político.

Bom, findemos, que isto ele é viscosidade a virar com pinças, portanto já basta o que basta, fiquemo-nos pelo essencial.

Pareceu-me da leitura do artigo que a JPC baralharam-se-lhe um pouco as ideias mas devo com certeza ter entendido mal. Ou então não entendi de todo.

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Português, uma língua vadia

João Pereira Coutinho

“Gazeta do Povo”, 12.04.22

 

São Paulo, 11 horas da manhã. Entro no táxi, indico o endereço ao motorista, o carro inicia a viagem. Conversamos. Política, pandemia, trânsito na cidade. A certa altura, ele pergunta: “De onde você é?” Respondo, um pouco surpreso: “Portugal”. Ele sorri e depois elogia: “Você fala muito bem a nossa língua”.

Agradeço, honrado: quem diria que, vindo de Portugal, eu saberia falar essa língua chamada português? Aliás, até acrescento: “Língua difícil, mas eu vou chegar lá”. Ele, compreensivo, consola a minha insegurança: “Imagina! Já está bom assim”.

Seria fácil olhar para o motorista e deplorar a ignorância dele. Será que ele nunca estabeleceu uma ligação entre “Portugal” e “língua portuguesa”? Pergunta absurda. Talvez o ignorante seja eu. Talvez o meu português seja mesmo diferente do dele. Talvez ele fale “português” e o meu português seja uma melodia parecida, familiar, quase igual. Quase.

Não sabem os puristas da língua, esses que sonham com um idioma unificado e até fizeram um Acordo Ortográfico, que o português nasceu antes de Portugal e que continuará a evoluir fora do país?

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Lusophonia

Keng teng fortuna ficah na Malaka,
Nang kereh partih bai otru tera.
Pra ki tudu jenti teng amizadi,
Kontu partih logo ficah saudadi.Ó Malaka, tera di San Francisku,
Nten otru tera ki yo kereh.
Ó Malaka undi teng sempri fresku,
Yo kereh ficah atih moreh.
Quem tem fortuna fica em Malaca,
Não quer partir para outra terra.
Por aqui toda a gente tem amizade,
Quando partir logo fica a saudade.Ó Malaca, terra de São Francisco,
Não há outra terra que eu quero.
Ó Malaca, onde tem sempre ar fresco,
Eu quero ficar até morrer.

O português de Malaca, também denominado cristão, papiá kristang ou simplesmente papia, é uma língua crioula de base portuguesa e com estrutura gramatical próxima do malaio, falado em Malaca, Malásia e Singapura. [Wikipedia]

Cada vez mais sistematicamente somos aspergidos com grossas gotas de propaganda “lusófona”, uma das matérias de intoxicação e estupidificação em massa da preferência dos acordistas. Esta espécie de bênção, que paradoxalmente lança uma maldição por sobre as cabeças de gado por eles contadas na imensa manada, visa tentar deslumbrar o gado vacum com a “iluminação” beata de um edílico império linguístico que, abreviando em extremo e em linguagem corrente, não lembraria ao careca, vulgo, ao diabo.

Presumem os auto-ordenados padres da Santa Madre Igreja dos 250 Milhões que assim procedendo, com umas ladainhas beatas e viscosas, arrebanharão cada vez mais crentes e espalharão a sua fé, a crença cega no II Império brasileiro em versão pastoral, o “milagre” re-baptizado como “língua universáu” ou, para os mais “lá de casa”, como “lusofonia”.

Fonia essa da qual os brasileirófilos expulsaram prudentemente qualquer vestígio daquilo que, apesar da limpeza étnica e do extermínio histórico-cultural concomitantes e em simultâneo, existe mesmo, de facto: a verdadeira Lusofonia, isto é, o longo, profícuo e antiquíssimo rasto que a Língua Portuguesa disseminou por todo o planeta.

Evidentemente, dado que a propaganda da CPLB acordista tem a ver unicamente com a “difusão e expansão da língua” brasileira no mundo, são metodicamente ocultados — no escabroso processo de apagamento da História — os diversos crioulos de base portuguesa principalmente no extremo-Oriente e em África: o papiamento de Aruba, Bonaire e Curaçao, o Kristáng na Malásia, o Indo-Português do Ceilão (Sri Lanka), o Português e o crioulo de Damão e de Diu (em Goa é “só” mesmo Português), a mescla que são as variantes de Tétum (Timor), os crioulos em diversas ilhas e enclaves africanos ou ainda os casos mais diversificados — também significativos — de Macau (e Hong Kong!), Cabo Verde (onde o crioulo é língua nacional), Casamansa (Senegal), Singapura, Batávia (Jakarta, Indonésia) e todos os outros que felizmente alguns linguistas portugueses persistem em identificar, estudar, divulgar e até incentivar. Isto sim, conjuntamente com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), é Lusofonia. No âmbito da qual os diversos falares dos 27 Estados brasileiros, todos eles de base portuguesa, cumprem papel, função e ordem de valores equivalentes aos de qualquer outro dos inúmeros crioulos do género que a nossa Língua gerou ao longo de cinco séculos.

A Lusofonia é, por conseguinte, um facto que rigorosamente nada tem a ver com o “gigantismo” do Brasil (clinicamente falando, uma variante de elefantíase linguística) e muito menos compreende as ânsias tardo-colonialistas e neo-imperialistas dos magnates sedentos de lucro que mandaram inventar um argumento (o AO90) para encobrir os negócios chorudos feitos à sombra da bananeira a que chamaram CPLP.

Sintomas visíveis desta ganância patológica e do inerente encobrimento por iniciativa dos políticos envolvidos são, por exemplo, a eliminação sumária — inclusivamente em discursos oficiais — de qualquer referência não só aos diversos crioulos mas também aos variadíssimos falares das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo; tudo isso passou estrategicamente a ser por eles ignorado, a bem da dita “lusofonia”, ou seja, como os crioulos não sejam mais do que umas coisinhas faladas por meia dúzia de exóticos labregos que deviam era estar “devíamos escrever todos brasileiro“: escrever e falar, é claro, que dá muito menos “trabalho”.

Enfim, a “lusofonia” (a de brincadeira) tem muito que se lhe diga. É sobre tal bizarria que rezam os dois conteúdos que se seguem: um texto laudatório enaltecendo a coisa (redigido em Português-padrão, reconheça-se esse mérito) e um “sketch” (“esquete”, em brasileiro) propagandístico tecendo loas e entoando hossanas aos “milhões” de brasileiros (mas omitem os milhões que os brasileiros já estão a empochar, olha que aborrecido).

Conclui-se de ambos, artigo e “clip”, que não sei bem o quê, e tal e tal, ah, a “expansão”, ena, a “quinta língua mais falada” em Klingon (parece), a “segunda no hemisfério” inferior do hemisférico que há no museu do Botafogo, tudo coisas assim, maravilhas, os ingleses estão raladíssimos com a “língua mais falada”, diz que Sua Alteza a Rainha até anda com insónias, o Macron vai convocar o Conselho de Guerra, em Madrid já há tumultos (“joder, qué pasa con el brasileño, coño?”), o mundo inteiro está raladíssimo com o festival de rapapés artilhados, isto do império linguístico ainda vai dar bernarda, até em Berlim já começaram a afiar as facas longas.

Perspectivas lusófonas para 2022

Jornal “O Diabo”, 13.01.22
Renato Epifânio

 

O ano de 2021 acaba novamente sob o espectro da pandemia, mas esperamos que o novo ano que aí vem seja realmente um ano de viragem – não apenas em relação à pandemia, mas também no que respeita à Lusofonia.

A esse respeito, o ano de 2021 trouxe alguns bons sinais, sobretudo com a nova Presidência da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), assumida por Angola, que reiterou o seu empenhamento na nossa Comunidade, apostando numa maior cooperação económica.

Para o avanço real da CPLP, não bastam, contudo, Portugal e Angola – e todos os demais PALOPs: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Sem esquecer Timor-Leste, o Brasil é uma peça fundamental deste tripé, deste triângulo atlântico. Tal como a União Europeia só funciona verdadeiramente com o eixo franco-alemão, também a CPLP só avança quando este triângulo está activo.
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Falar margaritês ou Português, eis a questão

Falar ″brasileiro″ ou falar ″americano″, eis a questão!

Margarita Correia
www.dn.pt,22.11.21

 

Até aos 10 anos, vivi num ambiente linguístico peculiar. Os meus pais, portugueses emigrados na Venezuela, falavam um registo de contacto entre português e espanhol; a minha madrinha, brasileira do Nordeste emigrada na Venezuela, falava o seu registo de contacto. Não sei ao certo qual terá sido a primeira língua que falei, ou qual registo, mas sei que, aos 5 anos, fui alfabetizada em espanhol, língua que desde então tenho a certeza de falar. Entre os amigos da família havia falantes de português (portugueses e brasileiros, com vários sotaques) e falantes de castelhano (venezuelanos, espanhóis, cubanos, colombianos…), de galego, catalão, basco, de italiano, eu sei lá! Entre as colegas de escola havia quem falasse alemão, francês, inglês, iídiche. Cresci no meio de uma grande algaraviada! O resultado foi eu hoje falar e até ensinar português europeu e entender outras variedades do português; falar espanhol de variedade venezuelana e entender outras variedades; falar francês por o ter estudado por 12 anos e ter habilitação profissional para o ensinar como língua estrangeira; falar inglês, que aprendi no ensino básico e de que muito preciso para o exercício da profissão; falar italiano, que aprendi quase sem dar por isso, como se sempre tivesse estado dentro de mim.

Quando cheguei a Portugal, fui para a escola de uma aldeia da Beira Litoral, onde frequentei a 4.ª classe. A professora ficou muito aborrecida por eu entrar a meio do ano lectivo e ser tão burra (ela dizia “buuurrra!”) que nem sabia falar português nem percebia o que lhe diziam. Na escola havia umas meninas ainda mais burras [do] que eu, porque, além de terem vindo do estrangeiro, eram muito mais pobres. Era assim em 1971. Que ainda hoje seja assim é inaceitável.

Vem isto a propósito de uma reportagem do DN, de 10 de Novembro p.p., intitulada “Há crianças portuguesas que só falam “brasileiro””, instigadora de alarmismo social e fobias, a avaliar pela reacção nas redes sociais. No texto grassa a ignorância e as asneiras são tantas que nem posso referi-las todas. Logo o título está errado. “Brasileiro” não existe (nem angolano, moçambicano ou africano), apenas português, vivo e de boa saúde, tal como não existe americano, sul-africano, indiano ou australiano, mas apenas inglês.

Ninguém em seu perfeito juízo ficaria aborrecido se o seu filho tivesse um colega, falante de inglês, que falasse português com sotaque; se o filho viesse para casa a dizer umas palavras ou expressões em língua inglesa, os pais até ficariam orgulhosos. Também não imagino pais a preocupar-se por os seus filhos começarem a falar inglês, seja de que país for, por exposição exagerada a produtos audiovisuais nessa língua. Contudo, conheço muitos relatos de crianças discriminadas na escola portuguesa por falar português de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné ou Moçambique; talvez seja por serem morenas, talvez por serem pobres.

Diz uma reportagem de O Globo online, de dia 16, que Luccas Neto “anunciou que passará a dublar os seus vídeos em português … de Portugal”. Alguém imagina a Disney a dobrar os seus filmes em inglês … de Inglaterra? Imaginam as criancinhas inglesas a fazer terapia por falarem “americano”?

Haja bom senso! Aos pais, sugiro que conversem com os filhos e os ajudem entender o mundo que os rodeia, seja em que língua ou variedade for. Aos professores, que se actualizem e leiam umas coisas sobre variação linguística, multilinguismo e multiculturalismo. A sociedade agradece. E as crianças também.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

 

[Transcrição integral de artigo de opinião, da autoria de Margarita Correia, publicado no “DN” de 22.11.21. Cacografia brasileira do original corrigida automaticamente. Destaques, sublinhados e “links” meus.]

«É professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), onde coordena o Portal da Língua Portuguesa (www.portaldalinguaportuguesa,org) e foi responsável pelo Vocabulário Ortográfico do Português (VOP). É doutora em Linguística Portuguesa pela Universidade de Lisboa.»
«Especializou-se na área dos estudos do léxico, no âmbito da qual publicou diversas obras, tais como Os Dicionários Portugueses (Lisboa, Caminho, 2009) e, em co-autoria, Inovação Lexical em Português (Lisboa, Colibri, 2005) e Neologia do Português (São Paulo, 2010).» [Wook]

«O nosso VI Simpósio tem como tema “Terminologia, desenvolvimento e identidade nacional”.
Acreditamos que, nestes tempos de globalização, (…) é muito importante que os membros da RITerm reflictam acerca das medidas a tomar para defender as possibilidades das línguas espanhola e portuguesa como instrumentos para a comunicação intra e interlinguística especializada (…).
Acreditamos que, quando defendemos os direitos das nossas línguas espanhola e portuguesa, defendemos também o nosso património cultural comum, a nossa identidade nacional.» [“Terminologia, Desenvolvimento e Identidade Nacional” – VI Simpósio Ibero-Americano de Terminologia – de Margarita Correia, Edições Colibri, 2002]

«Margarita Correia é doutora em Linguística Portuguesa pela Universidade de Lisboa, tendo-se especializado nos estudos do léxico. Atualmente é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora integrada no Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), onde coordena o grupo de Léxico e Modelização Computacional. Coordenou a realização do Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) e, com José Pedro Ferreira, o Lince – Conversor para a nova ortografia. Garante a coordenação científica do Portal da Língua Portuguesa [“Webinars” DGE]

"click" na imagem para aceder a YouTube

A questão consiste em falar margaritês, ou seja, penetrar num sítio deprimente e caótico e tentar entender alguma coisa que por acaso escape à proverbial desonestidade intelectual desta falante única da sua própria língua. O margaritês consiste em aturar essa tal Margarita a dizer apenas mentiras — das mais escabrosas — e a inventar teorias da treta para vender mais uns livrecos de propaganda ao AO90 e de bajulação ao seu (dela) querido Brasil. Requer um módico de coragem, por conseguinte, levar com o margaritês, e ainda assim, mesmo fazendo salientar os bíceps mentais, torna-se imprescindível munir-se a gente de uma dose cavalar de paciência para “ouvi-la”.

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Os ridículos

13.ª Cimeira da CPLP – Luanda, Julho 2021 — Os diplomatas falam de uma comunidade com grandes possibilidades. Ela inclui países com reservas significativas de gás e petróleo, outros têm potencial agrícola. Se a CPLP tem ambições, a circulação de pessoas terá de ser melhorada, pelo menos para alguns grupos. [jornal “Novo”, 24.07.21]


«O português que falamos/escrevemos no Brasil é bem diferente daquele falado/escrito em Portugal.» [Luiz Fernando Casanova, tradutor brasileiro]

Pois sim, pois é. O brasileiro é tão diferente do Português quanto o Português é diferente do Galego. Qualquer texto, de qualquer tipo, escrito em Galego é imediatamente e sem qualquer esforço inteligível para um leitor português — e o mesmo sucede se invertermos os factores. Isto é naturalíssimo, claro, dado que ambas as Línguas partilham um tronco comum e, historicamente, foram na Idade Média o idioma comum aos diversos povos estabelecidos a Norte e a Sul do rio Minho. A Língua galaico-portuguesa, ancestral elo de ligação de cariz (também) político, foi partilhada ao longo de séculos, portanto, mas nem um facto nem o outro influíram minimamente na autonomização das duas “variantes”, primeiramente, e na separação, por fim, transformando-se uma e outra em Línguas nacionais independentes.

Seria possível copiar e colar todo o parágrafo antecedente, para ilustrar a situação actual das línguas portuguesa e brasileira, com a errata da ordem: onde se lê «Galego» leia-se «brasileiro» e «onde se lê rio Minho leia-se oceano Atlântico». Não se trata de mera similitude, o que sucede hoje — e desde 1822 — é rigorosamente a mesma coisa que sucedeu na Península Ibérica no século XIV, com um período de carência que se prolongou por cerca de duzentos anos. Grosso modo, o mesmo hiato temporal entre o “grito do Ipiranga” e a invenção do AO90, esse absurdo manual de colonização linguística invertida.

A consistência, a regularidade e a inevitabilidade do processo de separação verifica-se em concomitância, não apenas no plano linguístico mas também no político, com a excepção do malaquenho aleijão — um “acordo” inédito, sem qualquer precedente (ou alguma coisa vagamente parecida) em todo o mundo.

Tanto o brasileiro como o Galego apresentam notórias divergências em relação ao Português, a todos os níveis, a começar pela ortoépia (ou prosódia, não confundir com pronúncia ou sotaque e muito menos com “o falar”) e incluindo, por natural inerência, o léxico, a semântica, a ortografia e, evidentemente, a morfologia. Não entra nesta analogia, por acréscimo a contrario, que na língua brasileira a sintaxe (a construção frásica, o “modo de escrever”) não tem nada a ver com a da Língua Portuguesa — mas essa discrepância fundamental e estruturante não sucede com o Galego.

É uma questão de tempo, realmente. Apesar de alguns galegos pretenderem também, nisso concorrendo com engraxadores profissionais da tugalândia, abichar umas sinecuras à conta do AO90 puxando o lustro aos chanatos dos brasileiros, a questão na Galiza é respeitavelmente vetusta e evidentemente pacífica: Galego é Galego, Português é Português. Aliás, um “acordo ortográfico” com a Galiza não apenas jamais lembraria ao diabo como também não iria permitir bajular qualquer “país-continente” nem concorrer aos tachos sobrantes (e menores) à conta de uma putativa “língua ibérica” ou outra coisa qualquer parecida com a “língua universáu” de Malaca, Bechara, Cavaco, Lula e Sócrates.

E quem diz Galego, diz o próprio Castelhano, esse verdadeiro gigante, ou diz Catalão ou, já agora, se a questão é de “parecenças”, então porque não um acordo ortográfico luso-transalpino, pois então, o Italiano é parecidíssimo com o Português, nós por cá até temos boa pizza, em não havendo carrascão marcha o belo Chianti, ou assim, e isto já dando de barato que o Mourinho agora é treinador do AS Roma, há lá coisa mais universal do que a língua futebolística, não brinquemos.

Portugal em peso deveria começar já a treinar o seu Espanhol, a alinhavar El Acuerdo Ortográfico, salvo seja, ou em alternativa seria de tentar os nossos “irmãos” italianos (em especial no Vaticano há disso aos pontapés), fazer um verdadeiro acordo ortográfico com eles, algo mais pingue e sumarento do que o péssimo negócio (para nós) com o Brasil, para quem a fantochada ortográfica é um belo troço.

Se o que se pretende é rebolar a rir, distraindo assim o povão de golpadas e camuflando mafiosos, então ao menos que se tente a via italiana — apinhada de especialistas em omertá. Capisce?

Esqueçam de vez o elefante e habituem-se às diferenças

Nuno Pacheco
publico.pt, 22.07.21

 

Hoje, como há dez, trinta ou cinquenta anos, o português continua a ter duas variantes claras: a portuguesa e a brasileira. O acordo não alterou isso, só alterou cada uma das variantes.

O elefante estava muito sossegadinho a um canto, na sua perene inutilidade, até que alguém o chamou. E ele lá veio, arrastando o seu peso, sem saber a que propósito se lembraram da sua existência. Sim, porque na festa ninguém reparou. Ao chegar aos 25 anos, idade para ter juízo, o quarteto de consoantes que lemos como cêpêélepê mantém muitos devaneios (como a crença de que Obiang virá algum dia a ser democrata), mas já se entretém com coisas mais adultas como a livre circulação ou até os negócios, sejam eles promitentes ou duvidosos. Agora a língua, que na declaração de Luanda se reveste das pomposidades habituais (a palavra “língua” é repetida 25 vezes, seja para recomendar vacuidades como a “ampliação da [sua] difusão internacional” , ou reiterar o sonho de a ver como “oficial” na ONU), já se desembaraçara — na retórica, mais ainda não nos nefastos efeitos — do elefante. Para quê, então, trazê-lo à baila?
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Estópi

«Mal muralhada e defendida, a língua deixa-se invadir por assassinos silenciosos, que, numa manobra de guerrilha, se dedicam à implantação de um dialecto semi-bárbaro.»

Exacto. O autor da frase, retirada de um texto publicado no DN, refere-se à língua brasileira. Certo?

Bem, não. Errado. É só mais um texto contra os estrangeirismos e com mais uma listinha de termos, “tipo” salada mista, baralhando deliberadamente contaminações do brasileiro e verdadeiros barbarismos, sejam estes de origem anglófona, francófona, “espanholófona”; parece, talvez derivado ao  tempo de “bazuca”, que andar numa fona a armar ao fino, catando até os estrangeirismos suecos, é mesmo o que está a dar.

No caso deste artigo, à mistura com a louvaminha habitual aos “extraordinários” brasileirismos e ao ainda mais persistente embasbacamento pelo “gigantismo” brasileiro (ah, e tal, 210 milhões, ah, que espanto), temos a já patológica mania das listinhas, ou seja, bocejantes  sequências de palavras a eito exemplificando isto, aquilo e aqueloutro, mai-lo diabo a quatro.

Os estrangeirismos são inevitáveis, pela sua tão estranha quanto absurda recorrência, seu uso e abuso sem qualquer conta, peso, medida ou critério? Sim, certamente, isso acontece. Até “estrangeirismos” incompreensíveis, segundo o estilo inconfundível do “Chef sueco”, há marretas que os usam julgando estar a falar “estrangeiro”.

São inevitavelmente ridículos, é verdade, variando a medida do ridículo na razão directa, isto é, quanto maior o número de ocorrências (e erros), maior o absurdo. Se bem que, pontualmente, possam também ser úteis e até, em alguns casos, insubstituíveis: experimente-se falar, por exemplo, de haute cuisine sem usar o Francês, de futebol (football), informática, Internet  ou rugby (pronunciado em Portugal como “reiguebi”) sem recorrer ao Inglês, de tauromaquia sem utilizar terminologia em Espanhol ou… de Fado, mesmo no Japão ou na Mongólia, sem usar a Língua Portuguesa. Os galicismos, os anglicismos, os espanholismos ou (principalmente, claro) os portuguesismos, nada disso é para deitar fora.

Já quanto à novilíngua apalhaçada que o AO90 implica, utilizando uma espécie de gatafunhos com a transcrição fonética brasileira (prônúncia cuuta, viu?), a história é completamente diferente. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

Confundir exagero com destruição em massa, ridículo com extermínio ou meia dúzia de parvos com uma divisão de tropas de assalto é um “raciocínio” que em si mesmo transporta o agente patológico de que diz pretender livrar-se.

Rendidos às evidências

Pedro Fontes

 

Quarta-feira foi o dia mundial da Língua Portuguesa. E vale a pena assinalá-lo. Não para constatar que se escreve mal, como sempre se escreveu, mas para reparar na novidade de ninguém se importar com o que está mal escrito.

Com as redes sociais, a língua seguiu uma evolução curiosa. Por um lado, globaliza-se, confiscando expressões do inglês e de outras línguas dominantes. Por outro, sentimentaliza-se, preferindo palavras mais chamativas e sensacionais, extraídas de tradições orais mais maleáveis, como a do português do Brasil. Mal muralhada e defendida, a língua deixa-se invadir por assassinos silenciosos, que, numa manobra de guerrilha, se dedicam à implantação de um dialecto semi-bárbaro. E não são poucos.

Começamos pelo capitão da companhia anglófila: o verbo “escalar”. Num dicionário clássico, escalar significa galgar ou trepar, e ainda abrir, estripar e salgar um peixe. Na nova língua (e o “nova” usa-se com suspeição, como em “novos-ricos”), é sinónimo de “crescer rápida e progressivamente”. O capitão obteve a patente numa missão de alto risco, depois de se infiltrar num discurso de Estado a propósito de uma infecção viral. O resto da equipa, que também escalou, é composta por sicários da mesma ordem e quilate. Temos o “mandatório”, encarregado de tirar o pio ao “obrigatório” e ao “compulsivo”. “Parquear”, para tirar o lugar ao “estacionar”. “Aportar, que, além de parquear navios, é um rival pretensamente fino de “contribuir”. “Endereçar”, um verbo antes reservado a carteiros, escriturários, e namorados por correspondência, sequestrou o “abordar”, o “confrontar”, e o “lidar com”. E o comando “briefar” aguarda, camuflado, a sua estreia num relatório do Infarmed.

O grupo é maior do que se julga, e mais insidioso do que se imagina. Quando há dias ouvi comentar que alguém teria “comportamentos aditivos”, julguei que se tratava de um aficionado da matemática. Era afinal um toxicodependente, que se debatia com uma “adição”. Há depois uma beleza lepidóptera nestes neologismos, onde por pouco qualquer lagarta dá em borboleta. Semanas depois do drogado, falaram-me numa mulher “empóderada”. Confiante de que farejara vestígios etimológicos de “pó”, perguntei, com estudada perfídia, se a senhora sofria de comportamentos aditivos. Cá nada! A pequena dava formação em auto-ajuda. E tinha público. Perdão, “audiência”!

A escrita sensacional consegue ser ainda mais manhosa. Os infiltrados são expressões utilizadas por aproximação fonética, cujo sentido intuitivo substituiu o intelectual. Soam melhor assim. O chefe é o general “assertivo”, que agora se escreve “acertivo”, e mesmo quando não se escreve “acertivo” se usa no sentido de “acertado”, e não de “determinado” ou “categórico”. A correspondência agora “recepciona-se”. Quando nos ocorre estar ao corrente, estamos afinal “ocorrentes”, que é como fica alguém que visita o “Ocorrências da Madeira”. Os madeirenses têm um infiltrado de estimação: é o “genuíno”. Algures entre o “autêntico”, “verdadeiro”, ou “sincero”, genuíno significa uma coisa ser neutramente o que é. Por cá, porém genuíno é “benevolente”, “puro”; ou “cândido”, e significa uma coisa ser positivamente como deve ser. Mas o genuíno madeirense anda enganado. É que um defeito genuíno é muito pior do que um defeito envergonhado. Basta olhar para os genuínos burgessos, e ver como agem como superiores técnicos da demais burgessura, dando barraca de bom grado e até pretensiosamente. Nesses casos, a boa educação mandaria domesticar a genuinidade, optando antes por alguma discrição e reserva. Melhor do que ser burgesso, é ao menos fingir que não se é. “Genuíno” pode, pois, ser uma qualidade. Só não para toda a gente. Estou também convencido de que se julga que “chármoso” é diferente de charmoso, e quer dizer bonito. Mas fica para outro dia.

O Acordo Ortográfico não ajudou. Se o brasileiro é um português dilatado pelo sol (Eça), o Acordo Ortográfico é um brasileiro encolhido pela chuva. Num esforço integrativo simpático mas fútil, abastardou a escrita, e nada mais fez senão instalar praga de “cês”. Pelos “cês” que morreram, temos uma certa ternura. São como chapéus atirados a um bengaleiro que o AO aposentou. Convém é lembrar que nem todos chegaram a viver: “contrato” nunca foi “contracto”, “retrato” nunca foi “retracto”, e “quarteto” nunca foi “quartecto”. Assim foge o pé para o chinelo. Erudito, erudito, é queixar-se das palavras carequinhas, que continuam a precisar do seu chapéu de “cê”. Depois do AO, por exemplo, é impossível a uma senhora escrever, com correcção e seriedade, sobre os “tetos” de sua casa.

É tudo joio? Não, há algum triguinho. “Engajamento” por exemplo, é uma corruptela de engagement, e significa adesão, compromisso ou activação. Em condições normais, deveria ser fulminado. Excepcionalmente, é tolerável. Mas só na imprescindível premissa de derivar de “gajo”, e não da foleirice inglesa. Arrasta muitos gajos – e gajas – consigo? Parabéns. É um gajo engajador.

Carinho merece também a pérola “realizar”. Realizar, já se viu, é “aperceber-se”, ganhar noção de algo. Mas nenhum deles captura o dramatismo da descoberta de que a luz ao fundo do túnel se trata, afinal, do comboio da realidade. Há dias realizei, por exemplo, que o Marítimo podia descer de decisão. Mas já me tinha apercebido desde o Natal.

Entre o cómico e o caricato, há extravios que não merecem complacência. O mais irritante é talvez a “evidência”. Passou a ser preciso “indicar evidências”, ou produzir “evidência científica”. E é o mais irritante porque, além de combinar imperialismo do inglês com o colonialismo do brasileiro, é o mais paradoxal. Não só passou a significar outra coisa, como se transformou no oposto do que significava: o que não necessitava de prova transformou-se na prova necessária. Torna-se aos poucos possível afirmar o seguinte escândalo “o evidente dispensa a apresentação de evidências”.

Há quem conviva com estes mutantes sem comoção ou censura, como se fossem derivados criativos da revolução digital. Endereçam as evidências acertiva e empoderadamente, briefando a audiência engajada com o retracto por si apresentado, repleto de emojis como os egípcios.

Perguntam-me se também escrevo “Farmácia” com “PH”, como se fosse a mesma coisa. Convencem-se, e convencem-me, de que a ruína afinal sou eu. Antes assim. Phoda-se.

[Transcrição integral de artigo com o título “Rendidos às evidências”, da autoria de Pedro Fontes, publicado no “DN” em 09.05.21. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo de: “Razão Automóvel“.]

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