Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Espanhol

Cantar pelos dois

 

A nossa língua na televisão espanhola?

Marco Neves
Sapo24, 16.12.18

Todos sabemos que os espanhóis não são muito dados a ouvir línguas estrangeiras: não só dobram tudo o que lhes aparece à frente, como têm uma estranhíssima inclinação para ouvir muita música espanhola.

«Olhinhos azuis» na TVE?

Ora, um dos programas mais importantes da TVE é a Operação Triunfo. O programa também já passou por cá, mas não aqueceu nem arrefeceu. Em Espanha, a Operação Triunfo é um fenómeno tremendo — e, ainda por cima, serve para escolher o representante do país na Eurovisão. É fácil concluir que as músicas são, em geral, cantadas em espanhol ou, uma vez por outra, em inglês.

Pois bem — o que dirá o leitor se eu lhe disser que uma das músicas que será cantada na final da Operação Triunfo espanhola de 2018 inclui estes versos?

Meus olhos choram por ver-te meu coraçom por amar-te
meus pés por chegar a ti meus braços por abraçar-te.
Desejava de te ver, trinta dias cada mês
cada semana o seu dia e cada dia umha vez.
Tes os olhinhos azuis inda agora reparei
se reparara mais cedo nom amava a quem amei.

Isto não é uma tradução. São mesmo os versos que serão cantados por Sabela, uma das concorrentes finalistas. A canção chama-se «Tris-tras» e é do grupo Marful.

O que se passa aqui? Uma espanhola vai tentar chegar à Eurovisão a cantar em português?

As palavras «coraçom», «umha», «nom» são as pistas para deslindar o mistério. Sabela é uma concorrente galega e, numa decisão que não é nada simples em Espanha, decidiu cantar na sua língua: o galego.

A letra acima está escrita na ortografia reintegracionista, muito próxima da portuguesa. É verdade que o galego oficial usa uma ortografia mais distante da portuguesa — mas as palavras e as frases são muito nossas.

Reparemos, por exemplo, nos primeiros versos de uma das músicas já cantadas por Sabela («Benditas Feridas»; note-se — «feridas» e não «heridas»), versos estes que estão na ortografia oficial, mais distante da portuguesa (e mesmo assim tão próxima):

Pouco a pouco
Vou deixando de esperar
E secando as miñas ganas de chorar
A luz tornouse a miña escuridade

De Salvador a Sabela

Ao ouvirmos Sabela, notamos como a fonética já se afastou bastante a norte e a sul do Minho. Mas, se repararmos, vemos que ela está a usar palavras tão nossas que arrepiam. Aliás, a proximidade entre português e galego anda a confundir alguns brasileiros no Twitter…

Um amigo confidenciava-me que, para muitos galegos, ter Sabela a cantar em galego na TVE sabe tão bem como aos portugueses soube ganhar a Eurovisão com uma música em português — com a diferença de que a nenhum português lhe passaria pela cabeça que fosse um problema cantar na sua língua para todos os europeus. Em Espanha, cantar em galego para todos os espanhóis ainda é uma novidade — e está longe de ser pacífico. Há quem não perceba que as línguas podem somar-se umas às outras — que haver galegos que insistam em falar e cantar em galego não põe nada nem ninguém em perigo. Aliás, esses mesmos galegos serão os primeiros a falar em espanhol quando é preciso (e, às vezes, quando não é preciso).

Bem, mas porque trago o assunto a esta crónica?

Na verdade, poucos de nós sabemos como a participação de Salvador Sobral na Eurovisão foi muito bem-recebida na Galiza.

Muitos galegos sentiram as palavras daquela canção como suas e comemoraram sem medo a vitória de Sobral.

Não digo que façamos a mesma coisa — mas, já agora, reparemos em Sabela, uma cantora que anda a usar a língua das Cantigas de Amigo para ganhar um concurso espanhol.

À distância segura da nossa fronteira antiga, não nos faz mal desejar sorte a quem leva uma língua tão nossa aos ouvidos dos espanhóis, que assim ficam a saber o que são «olhinhos azuis» — se isto não é a nossa língua, é o diabo por ela.

Que ganhe a melhor — e que a melhor seja Sabela.


Marco Neves | Tradutor, professor e autor. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. O seu livro mais recente é o Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Marco Neves, publicado na “plataforma” Sapo24 em 16.12.18.]

 

Celebrar a diversidade

Publicado em 28/05/2017
(53 vídeos)
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Operação Bilu Bilu Teteia


A pouco e pouco, no rasto das aldrabices propaladas e das vigarices cometidas por dois (ou três) Presidentes brasileiros, começam a descobrir-se alguns podres daquilo a que se convencionou chamar CPLP, uma organização internacional altamente suspeita, a qual, apoiando-se na mais colossal mentira de Estado(s) da História, o AO90, não prossegue quaisquer outros fins além do fulgurantemente obsceno enriquecimento de alguns sobas sanguinários e de outros tantos caciques sem escrúpulos, mai-los restos que tocarão a seus paus-mandados, testas-de-ferro, homens (e mulheres)-de-mão.

Por enquanto ainda estamos numa fase incipiente das investigações, visto apenas haver comprovações de algumas negociatas menores entre um ditador e um presidiário, mas deverá ser, por conseguinte, mera questão de tempo até que seja revelada em toda a sua horrorosa extensão o imenso lodaçal em que chafurdam “lusofónicos” em geral e acordistas em particular, com seus lacaios (em sentido restrito) e mercenários (em sentido lato) fazedores de opinião.

 

Lula da Silva acusado de branqueamento de capitais por negócio na Guiné Equatorial

O antigo Presidente brasileiro, preso por corrupção, foi acusado de branqueamento de capitais, por intermediar negociações entre o Governo de Guiné Equatorial e o grupo brasileiro ARG, que terá pago um milhão de reais (230 mil euros).

“DN”/Lusa, 14 Dezembro 2018

 

A acusação foi feita por membros da operação Lava Jato que trabalham no Ministério Público de São Paulo. O pagamento do alegado suborno terá sido dissimulado em doações do grupo empresarial ARG ao Instituto Lula.

Os procuradores afirmam que o maior accionista do grupo ARG, Rodolfo Giannetti Geo, teria pedido em 2011 a Lula da Silva que influenciasse o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, para que aquele país mantivesse os contratos firmados com a empresa para obras rodoviárias.

Em troca, o empresário teria oferecido “doações robustas” ao Instituto Lula.

A denúncia apresentou ‘e-mails’ encontrados em computadores no Instituto Lula, apreendidos em Março de 2016 na Operação Aletheia, 24.ª fase da Operação Lava Jato de Curitiba.

Entre as provas apresentadas pelos investigadores para atestar a prática de obtenção de vantagem ilícita estão recibos de pagamento das supostas doações e menções a uma carta do Presidente da Guiné Equatorial em que o governante africano teria pedido a intervenção de Lula da Silva junto da então Presidente Dilma Rousseff no quadro da entrada de seu país na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Há também a inclusão de uma carta do ex-presidente brasileiro para Teodoro Obiang na qual Lula da Silva dizia estar optimista com a inclusão da Guiné Equatorial na CPLP, na qual recomenda os serviços da ARG, escrevendo que a empresa “desde 2007 se familiarizou com a Guiné Equatorial, destacando-se na construção de estradas”.

O advogado de Lula da Silva, Cristiano Zanin Martins, afirmou numa nota emitida no mês de Novembro sobre este caso que a denúncia era “mais um duro golpe no Estado de Direito, porque subverte a lei e os factos para fabricar uma acusação e dar continuidade a uma perseguição política [contra Lula da Silva] sem precedentes pela via judicial”.

[Transcrição integral de “despacho” da agência brasiLusa publicado pelo “Diário de Notícias” online em 14.12.18. Destaques do original, “links” meus.]

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Ligue os pontos para ver a imagem “escondida”

 

«Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki fazem parte dos geniais que tiveram a audácia de escrever em “mau” português o Desacordo Ortográfico. O diálogo fora criado a partir da similaridade e da diversidade que nos remonta para um convívio linguístico onde a língua portuguesa é apenas um dos códigos das nacionalidades /internacionalidades dos escritores. Fica a saudade do livro e a vontade de comprar outro Desacordo Ortográfico. E no futuro, quem sabe, o “Lusíadas de Angola”.»

[Transcrição de: “Um ataque pessoal a Camões” | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online]”
[“Angola em ‘Desacordo Ortográfico”, 01.05.17]

Editar em Portugal “é mais fácil” para autores angolanos, mas depende – autor e editor

 

O editor livreiro Zeferino Coelho defende que “é mais fácil aos autores angolanos editar” em Portugal e chegar a outras paragens, nomeadamente o Brasil, enquanto o escritor angolano Pepetela considera que “depende”, justificando-se pelos “percursos individuais” dos autores.

Lusa/”DN” , 24 Novembro 2018

 

Para Pepetela, que recentemente publicou em Portugal “Sua Excelência de Corpo Presente”, em declarações à agência Lusa afirmou: “Eu acho que depende, há muitos percursos individuais, há gente que se lançou e é conhecida, publicando em Londres”.

“O Sousa Jamba, por exemplo, começou por publicar o livro dele, ‘Os Patriotas’, em Londres, e só depois em Luanda, mas há outros casos que passaram por Portugal, sobretudo mais da minha geração”, disse o escritor nascido há 77 anos, em Benguela, no sul de Angola, e que, em 1997, se tornou o primeiro autor angolano a receber o Prémio Camões.

Depois da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, os autores angolanos começaram a ser publicados em Portugal. Pepetela recordou que “havia um acordo entre a União de Escritores Angolanos (UEA) e as Edições 70, em Portugal”.

“Esse grupo, dos primeiros escritores que formaram a UEA, passaram a ser conhecidos em Portugal, com mais ou menos destaque, e uns foram traduzidos e outros não”, disse Pepetela, referindo que “há escritores que publicaram em Luanda e foram traduzidos para outras línguas”, e citou o poeta Lopito Feijó, que publicou em Espanha, antes de publicar em Portugal.

Lopito Feijó, 55 anos, foi cofundador da Brigada Jovem de Literatura de Luanda e é membro da UEA. Em 2015, publicou “Desejos da Aminata”, obra poética inspirada na sua mulher. O poeta, que foi deputado à Assembleia Popular, está também traduzido, entre outros idiomas, em francês e inglês.

Pepetela reconheceu que “Portugal tem ainda um papel importante”, mas referiu que a edição no Brasil, sendo “rara”, já vai acontecendo, e permite mais rapidamente o acesso ao mercado de língua espanhola, “e a partir do espanhol, parece-me, há uma difusão maior”.

O editor livreiro Zeferino Coelho, por seu turno, argumentou que “o facto de as editoras nacionais, prestigiadas, interna e internacionalmente, que compram e vendem direitos de publicação”, serem “conhecidas um pouco por todo lado”, dá uma maior visibilidade aos escritores que editam, nomeadamente os angolanos.

“Isto é assim desde há bastante tempo, continua a ser e acho que vai ser”, argumentou.

Zeferino Coelho lidera a Editorial Caminho, que publicou a coleção “Uma terra Sem Amos”, no âmbito da qual vários escritores africanos de língua portuguesa editaram, como “A Conjura”, do angolano José Eduardo Agualusa, que continua a publicar em editoras portuguesas.

O Grupo LeYa, do qual faz parte a Editorial Caminho, que é liderada por Zeferino Coelho, tem uma editora em Angola, a Nzila

Jorge Mendonça, Ondjacki, Luandino Vieira ou Pepetela, de quem saiu recentemente “Sua Excelência de Corpo Presente”, e Kalaf Epalanga, que no ano passado lançou “Também os Brancos Sabem Dançar”, são alguns dos escritores angolanos que editam sob a chancela do grupo LeYa.

“É melhor publicar [em Portugal], que apenas em Angola. Aqui ganham maior visibilidade porque há atenção de meios [de comunicação] internacionais do que se passa no mundo Língua Portuguesa”, disse Zeferino Coelho à Lusa, referindo, todavia, que “não é algo muito forte, mas ainda assim há”.

O editor realçou ainda que a atenção que em Portugal se presta a um autor angolano “é maior” que noutros países, e que actividade editorial portuguesa é mais dinâmica do que a angolana.

[Source: Editar em Portugal ″é mais fácil″ para autores angolanos, mas depende – autor e editor. “DN”/Lusa, 24.11.18. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo de: “Connect The Dots” ( European Donkeys).]

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O Chile na CPLB (Comunidade dos Países de Língua Brasileira)

«Brasil y Chile iniciaron este miércoles en Brasilia la primera ronda de negociación de un acuerdo de libre comercio de “segunda generación”, pues ya tienen el 100% de su comercio liberado desde hace más de 20 años, dijeron las fuentes diplomáticas.» [Camara Aduanera de Chile, 07.06.18.]

 

Chile na Comunidade de Países de Língua Portuguesa

Germán Guerrero

No passado dia 18 de Julho, o Chile aderiu à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) como Estado Observador Associado. Assim, foi alcançado um novo marco nas excelentes relações diplomáticas entre o Chile e Portugal que para nós constitui não só um canal para relações políticas, comércio e negócios, mas também uma expressão de uma cultura e de valores partilhados.

Ambos os países reconhecem-se como likeminded country com uma afinidade nos seus princípios, objectivos e interesses, o que explica a nossa privilegiada relação e o trabalho conjunto no domínio da cooperação bilateral e multilateral.

No entanto, ao aderir à CPLP não realizámos unicamente um gesto meramente diplomático. Embora os dois países tenham dado um passo importante na integração latino-americana e africana, o reencontro da língua, que é a expressão da alma de um país, é também uma ponte para aprofundar a compreensão mútua e os valores culturais que partilhamos.

Como dizia Fernando Pessoa: “Usando do inglês como língua científica e geral, usaremos do português como língua literária e particular. Teremos, no império como na cultura, uma vida doméstica e uma vida pública. Para o que queremos aprender leremos inglês; para o que queremos sentir, português. Para o que queremos ensinar, falaremos inglês; português para o que queremos dizer.”

Com efeito, na língua está a chave para entrar na alma de um país, a chave para descobrir os seus sentimentos, as suas esperanças e os seus sonhos. É também a chave para compreender que não estamos isolados do resto do mundo e que fazemos parte de uma mesma comunidade.

O Chile e Portugal fazem parte da comunidade ibero-americana composta por 23 países, sendo não só uma comunidade política e económica mas, sobretudo, cultural, constituindo, com o castelhano e o português, uma das maiores comunidades linguísticas do mundo.

O nosso reencontro com o português é também um passo importante para uma real integração latino-americana, que não é possível sem os laços com o Brasil. Metade da América Latina fala a língua de Cervantes e de Pablo Neruda e a outra metade fala o português de Camões e de Eça de Queirós.

O Brasil e o Chile têm uma identidade latino-americana comum e partilham valores fundamentais, tais como a sua vocação democrática e de liberdade e uma firme vontade de lutar contra a pobreza, a exclusão e a desigualdade social.

Por estas razões, as relações entre o Chile e o Brasilsão do mais alto nível. Somos parceiros estratégicos nos processos de integração, no diálogo político bilateral e multilateral e no intercâmbio científico, cultural e educacional. Da mesma forma, no domínio comercial, estamos a negociar um tratado de livre comércio entre os dois países.

A participação do Chile e do Brasil, agora também, na CPLP é uma nova porta para estreitar as relações recíprocas e partilhar novos projectos nas áreas da educação, da cultura e da promoção das nossas línguas e dos nossos escritores.

Por sua vez, Portugal conta com uma significativa presença, cooperação e investimentos em países africanos, o que vai em concordância com o interesse do Chile em se aproximar do referido continente. Assim, o Chile aspira, através da CPLP, estreitar os vínculos, o intercâmbio e a cooperação com o continente africano.

Nessa perspectiva, a Agência para a Cooperação Internacional e o Desenvolvimento do Chile (AGCID) e o Instituto Camões da Cooperação e da Língua subscreveram um memorando de entendimento para a cooperação triangular, especificamente em países africanos de língua oficial portuguesa e na América Latina e o Caribe.

A AGCID também criou o Programa de Bolsas República do Chile-Nelson Mandela para estudos de pós-gradução em universidades chilenas, que beneficiam actualmente 72 funcionários públicos de países desse continente. Da mesma forma, desenvolvemos um programa de diplomados específico para Moçambique e para Angola, nas áreas de aquicultura, manejo costeiro e produção de moluscos.

Outro aspecto muito importante é que, através da adesão do Chile à CPLP, aspiramos também aprofundar a difusão e o ensino da língua portuguesa no Chile.

Actualmente, a Universidade de Santiago do Chile ministra uma licenciatura em Tradução Português-Espanhol-Inglês, iniciando em breve um curso de diplomado em Pedagogia em língua portuguesa. Simultaneamente, numerosos professores de língua portuguesa ministram cursos em institutos privados ao abrigo do protocolo subscrito em 2015, tal como divulgado, entre a referida universidade e o Instituto Camões da Cooperação e da Língua.

Igualmente, o Centro Cultural Brasil-Chile trabalha em três áreas principais: a difusão da língua portuguesa, a promoção da cultura e o reforço dos laços de amizade e cooperação cultural entre os dois países.

Assim, a adesão do Chile à CPLP constitui não só um gesto diplomático ou publicitário mas também uma oportunidade para promover uma comunidade cultural e valiosa e, ainda, reforçar a política de aproximação aos países lusófonos, facilitando, por essa via, as relações entre o nosso povo, os nossos intelectuais e artistas e as nossas instituições, com os seus homólogos de língua portuguesa num vasto horizonte que vai desde Lisboa ao Rio de Janeiro, desde Díli a Maputo.

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa é também uma associação para a concertação político-diplomática, para a cooperação e promoção do desenvolvimento humano, a paz e a segurança internacional e a implementação da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, entre outros temas de importância global.

Como Embaixada do Chile em Portugal ficamos felizes por este novo passo nas relações chileno-portuguesas. Simultaneamente, estamos a cumprir o sonho da nossa poetisa e Prémio Nobel Gabriela Mistral, cônsul do Chile em Lisboa (1935-1937), que ansiava pelo reencontro das nossas línguas.

Gabriela Mistral dizia: “Nuestros idiomas han vivido de espaldas vueltas, sin odio alguno, pero también sin amor… muchas veces el verbo luso y el castellano me han parecido un árbol absurdo partido en dos frondosas ramas” e concluía: “algún día nuestros pueblos celebrarán la fecha del intercambio idiomático… la fiesta de la reconciliación de dos verbos malamente olvidados, que borraron por siglos su apelativo común, aún sabiendo que la sangre seguía siendo una y entera debajo de la falsa extranjería”.

Partilhando hoje as palavras da nossa poetisa, comove-nos dizer que chegou a data tão esperada da festa das nossas línguas e celebramos com alegria a adesão do Chile à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, por constituir um passo de grande importância para a compreensão mútua, a aprendizagem e a construção de um futuro comum.

Embaixador do Chile em Portugal

[Transcrição integral do paleio debitado pelo embaixador do Chile em Portugal que o “Diário de Notícias” (órgão central da propaganda acordista) publicou em 16.08.18. Destaques meus. A desortografia abrasileirada foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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As variações da mentira – III

E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará“.
João, 8:32

Isto é de facto extremamente cansativo. O que aliás faz parte, desde o início, da estratégia acordista: vencer-nos pela exaustão, derrotar-nos pela descrença, paralisar-nos pelo silenciamento.

Já pudemos constatar, na primeira série de patranhas e na segunda, que toda esta gigantesca mentira é uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”: o tema é monótono, as variações monocórdicas.

O que implica, para que semelhante quantidade de patranhas, a granel e a seco, possa ser minimamente deglutida, salvo seja, necessitar um cristão de não despiciente dose de humildade, quando não de puro masoquismo. Trata-se de um cruel exercício de auto-flagelação, quase a raiar a santidade, digamos, se bem que não exista alternativa ao sacrifício para enfrentar a peçonha da mentira.

E pronto, haja coragem, aguentemos estoicamente mais um pouco, para a vintena final já só ficam a faltar outras cinco além das anteriores 10 e de mais estas.

 

11. O AO90  abriu um mercado único de edições (livros, imprensa, etc.). Intrujice.
«Juca Ferreira não acredita que, com o Acordo Ortográfico, o Brasil possa “engolir” o mercado editorial português. “Acho difícil. Acredito mais na possibilidade de cooperação, não só entre Brasil e Portugal, mas de todos os países de Língua Portuguesa, para criarmos um espaço para a literatura dos nossos países neste mundo editorial”» [“Expresso”, 08.2008] Intrujice.

a) «O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.» [Francisco Vale (editor), “Jornal de Leiria”, 02.2018]
b) «A Porto Editora fez uma queixa-crime contra o ex-candidato à Presidência da República, Paulo de Morais, alegando “prejuízo ao bom nome e reputação da empresa” ao associar a editora a corrupção e cartelização do mercado de manuais escolares. Por seu lado, o ex-vice-presidente da autarquia do Porto já reagiu, declarando que considera “inadmissível” o sistema de “cartelização de venda de livros escolares” em Portugal e que irá continuar a denunciar esta situação “enquanto não for efectivamente resolvida”.» [“Público”, 03.2016]
c) «De resto, não vejo qualquer problema em que o português escrito possa ter grafias um pouco diferentes conforme seja de origem portuguesa ou brasileira. Antes pelo contrário, ajuda a mostrar a diversidade das expressões e acentua os factores de diferenciação que nos distinguem realmente e que reforçam a nossa identidade. Aliás, considero míope a visão de que o mercado brasileiro de cultura passará a estar aberto aos autores portugueses em razão da homogeneidade da grafia, pois que o interesse desse mercado pela nossa produção só pode depender do real interesse pelas nossas especificidades e aí a suposta barreira do grafismo não chega a ser uma barreira, pode ser um factor de distinção que acentua o interesse pela diferença.» [Pedro Passos Coelho, 05.2008]

12. O AO90 no ensino facilita e poupa tempo para outras tarefas. Invencionice.
«É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.» [Acordo Ortográfico – Nota ExplicativaInvencionice.

a) Não há “maior facilidade” na aprendizagem coisa nenhuma: no Ensino oficial em Portugal a confusão é total e o cAOs instalado afecta gravemente as crianças e jovens, confundindo-as estúpida e desnecessariamente. Não sendo imbecis ou retardados, os alunos portugueses estão mergulhados num caldo de instabilidade ortográfica no qual não só eles mas principalmente eles já não sabem ao certo como se escreve (ou lê). Por isto mesmo os resultados são cada vez piores desde que o AO90 passou a ser obrigatório nos exames. [Apartado 53, FAQ]
b) «Que avaliação rigorosa foi feita por parte do Governo dos impactos que, do ponto de vista do sistema educativo, teve a entrada em vigor do Acordo Ortográfico? Que avaliação foi feita das consequências que, do ponto de vista científico e pedagógico, nos programas de Português, teve a entrada em vigor do Acordo Ortográfico?» [PCP, Projecto de Resolução, 02.2018]
c) «Estou de acordo com o que disse o Malaca Casteleiro neste aspecto: o ensino é que fracassa completamente. Nós deveríamos ensinar os alunos a dicção correcta do português e devíamos combater esse “engolir” das vogais; os brasileiros fazem o contrário e é essa a grande razão que faz com que muitos estrangeiros prefiram aprender a variante brasileira.» [Teolinda Gersão, Antena 1, 05.2015]

13. O AO90 é simplificação da língua. Tanga.
«Questionado, entretanto, sobre as resistências que existem em Portugal em relação ao Acordo Ortográfico, o ministro disse que este movimento não é tão forte. (…) O Acordo é uma simplificação da Língua.» [José António Pinto Ribeiro, ex-Ministro da Cultura, “Expresso“, 08.2008] Tanga.

a) «(…) é impossível unificar ortograficamente um idioma a partir das suas variantes linguísticas e ignorar por completo a origem comum das palavras; consequentemente, as muitas excepções à regra, por falta de referências estandardizadas, em vez de facilitarem a ortografia, acabam por dificultá-la ainda mais.» [Filipe Zau, “Jornal de Angola”, 05.2016]
b) «O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO), assinado em 1990, possibilita diferentes interpretações das novas regras dado que não estabelece uma ortografia única e inequívoca: a interpretação do vocabulário oficializado em Portugal, a interpretação da Academia das Ciências de Lisboa e a interpretação do vocabulário oficializado no Brasil que, logo após a publicação da sua 5.ª edição, disponibilizou ‘online’ um Encarte de Correções e Aditamentos à 5.ª Edição, além de outras possíveis interpretações do texto propriamente dito.» [Vasco Teixeira (Porto Editora), 01.2013]
c) «Afinal, ainda é preciso ir atrás da pronúncia da moda para saber escrever. Há quem chame a isto “simplificação”. Eu chamo-lhe “pesadelo”.» [Manuel Matos Monteiro,“Público”, 04.2018]

 14. Sem o AO90, o Português-padrão caminharia para a extinção. Fantasia.
«Estará o “português de Portugal” condenado a desaparecer? Será o fechamento das vogais, que aparentemente fará que muitos dos nossos parceiros dos países de língua portuguesa não nos percebam, a sua sentença de morte? A questão foi levantada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros [“DN”, 11.2016] Fantasia.

a) Mas o camartelo acordês teve outro tipo de repercussões a nível mundial, nomeadamente na Internet, a primeira das quais foi a quase extinção da bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais. [Apartado 53, FAQ]
b) «Ao contrário do que diz, a escrita é um repositório de enxames de significações ancoradas em redes etimológicas e um tesouro da memória. Na medida do possível, a ortografia deveria evitar o seu apagamento.» [Maria Filomena Molder, “Público”, 05.2015]
c)
«Que se saiba, isso nunca impediu Portugal ou o Brasil de marcarem presença nas conferências das Nações Unidas e das suas agências especializadas. Ora, se até agora as divergências terminológicas não comprometeram e, aparentemente, não ameaçam vir a comprometer os contributos que os dois países têm a dar em tais fóruns, ilustrando com as suas divergências uma riqueza cultural fundada na diversidade geográfica da Língua Portuguesa, porque virá a ortografia a determinar o seu desaparecimento da cena internacional? Esta questão já foi colocada demasiadas vezes para que os defensores do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 continuem a ignorar que têm de vir a terreiro expor, decentemente, as verdadeiras razões subjacentes à teimosia em impor um acordo que nada resolve, mas tem gerado antagonismos que anteriormente não existiam.» [Isabel Coutinho Monteiro, ILCAO, 05.2014]

15. “Portugal tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil“. Burla.
«Marcelo referiu que o Brasil hoje é a maior potência económica e o maior país lusófono e realçou a ideia que “Portugal precisa mais do Brasil, do que o Brasil de Portugal”. Afirmou que o acordo tem “virtuosidades” e disse que “para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil.”» [JPN, 05.2008] Burla.

a) «Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática.» [Nuno Pacheco, “Público”, 02.2017]
b) «
Países lusófonos apresentam resistência em introduzir as novas normas de modo efetivo. Por quê? O argumento principal é de que se trata de um acordo brasileiro. (…) O Brasil ratificou a norma e deu início à implantação. Porém, o país parece estar só na viabilização dessas políticas públicas. Por quê? A questão é muito simples: toda a lógica instrumental do acordo é brasileira.» [Jornal “Opção” (Brasil), 07.2016]
c)«There are 200 million of us, and not even 11 million of them [in Portugal],” says Tania de Souza Bastos, a Portuguese teacher and linguaphile in Rio. “It only makes sense that ours will be the world’s Portuguese. They have no choice.This bit of realpolitik is understood, if not relished, in Lisbon. “In Portugal, it’s obvious that people don’t feel very good that they are adopting the Brazilian norm, in most cases,” says João Vincente Faustino, a scholar with Portugal’s Instituto Camões (which promotes Portuguese globally) who is now a visiting lecturer on Portuguese at the University of Toronto. “In the background, you have the issue of, Are we being dominated by Brazil?”» [Jornal ‘The Globe and Mail (Canadá), 10.2013’]

 

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As variações da mentira – I

 

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
Joseph Goebbels Ministro da Propaganda de Adolf Hitler

 

«All this was inspired by the principle—which is quite true within itself—that in the big lie there is always a certain force of credibility; because the broad masses of a nation are always more easily corrupted in the deeper strata of their emotional nature than consciously or voluntarily; and thus in the primitive simplicity of their minds they more readily fall victims to the big lie than the small lie, since they themselves often tell small lies in little matters but would be ashamed to resort to large-scale falsehoods. It would never come into their heads to fabricate colossal untruths, and they would not believe that others could have the impudence to distort the truth so infamously. Even though the facts which prove this to be so may be brought clearly to their minds, they will still doubt and waver and will continue to think that there may be some other explanation. For the grossly impudent lie always leaves traces behind it, even after it has been nailed down, a fact which is known to all expert liars in this world and to all who conspire together in the art of lying
— Adolf Hitler, “Mein Kampf”, vol. I, ch. X [“Big Lie”, Wikipedia]

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Na perspectiva dos acordistas, tudo se resume a seguir a táctica preconizada por Goebbels, a qual consubstancia na prática o “pensamento” teórico do seu alucinado chefe: uns quantos agentes  papagueiam, sistematicamente e à vez, como servindo-se num rodízio com patranhas em vez de acepipes, sempre as mesmas aldrabices básicas.

A táctica é de facto viável: basta repetir infinita e invariavelmente as mesmas tretas. E a técnica parece ser mesmo infalível: quanto maior e mais simples é a mentira, mais gente acredita nela — até porque ninguém concebe que “outros possam distorcer a verdade tão abominavelmente“.

Neste caso concreto, quanto ao AO90, prato principal do alucinado repasto, com CPLP e “lusofonia” por acompanhamento e decoração, sequer existe “distorção da verdade” — isto ele é só mentiras mesmo.

Das quais aqui temos as primeiras 5, algumas das principais, mais requentadas, mais repetidas e mais conhecidas — cuja colecção ficará, qual expositor de vitualhas podres, na nova página “Pseudologia Fantastica“.

 

1. O AO90 facilita ensino/aprendizagem, é mais fácil para as crianças. Mentira.
«Não fazia sentido, e essa foi a principal razão para adoptarmos o princípio da pronunciação. Se não houvesse essa diferença, com certeza que as consoantes teriam ficado. Além disso, do ponto de vista pedagógico-didáctico, para as crianças que começam a aprender a ler e a escrever, era mais fácil.» [Malaca Casteleiro, Observador, 02.2017] Mentira.

a) «Então, por causa dos tais dois mil para quem o conhecimento desta língua é útil, noventa e oito mil foram torturados e em vão sacrificaram um tempo precioso. (…) Daí que seria essencialmente mais útil se ao jovem estudante fossem transmitidos apenas os contornos gerais da língua (…) Evitar-se-ia também o perigo de, de toda a sobrecarga de matéria, apenas ficarem uns fragmentos na memória, uma vez que o jovem só teria de aprender o essencial, sendo assim feita antecipadamente a selecção do que é útil e inútil. (…) Ganhar-se-ia assim no currículo o tempo necessário para a educação física, bem como para as crescentes exigências nas áreas já atrás referidas.» [“Mein Kampf”, Adolf Hitler]
b) «Uma avaliação internacional apurou que os alunos portugueses do 4.º ano [i.é, 4.ª classe] pioraram na leitura. Em cinco anos a média desceu onze pontos, colocando Portugal em 30.° lugar entre 50 países […] O problema está nos resultados aos testes sobre literacia e a leitura. E aqui as crianças portuguesas entre os 9 e 10 anos descem 11 pontos em relação ao estudo anterior realizado em 2011. Na prática estão pior na leitura. («Má nota na leitura», Jornal da Noite, S.I.C., 5/XII/17.) Ora bem, em 2011, começaram a ensinar aos meninos o acordo ortográfico para a aprendizagem do português ser mais fácil. E foi.”» [Blog “Bic Laranja”, 12.2017]
c) «Porque chumbam os alunos logo no 2.º ano de escolaridade? A principal razão apontada é esta: “por não lerem bem e não terem atingido os objectivos estabelecidos no programa no que respeita à leitura e escrita”. » [“Público”, 05.2017]

2. O AO90 permite “expansão da Língua Portuguesa no mundo”. Treta.
«Fundamentalmente porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa, a brasileira e a portuguesa. Do ponto de vista da promoção internacional da língua, era prejudicial. Numa universidade ou instituição estrangeira onde se ensine o português, qual era a ortografia que se ia ensinar? A de Portugal? A do Brasil?» [Malaca Casteleiro, Observador, 02.2017]. Treta.

a) «Fecharam muitos dos leitorados nas universidades e esse espaço foi ocupado pelos Brasileiros”. No entender de Filipa Melo, “hoje o ensino de português no estrangeiro é feito por brasileiros”.» [Rádio Renascença, 04.2018]
b) «O que se passa em alguns sectores importantes da Cúria Romana revela precisamente a perda da importância de Portugal e da língua portuguesa. Em Março, por exemplo, a Congregação para a Causa dos Santos anunciou que deixaria de ter o português como língua oficial.» [DN, 09.2016]
c) «De acordo com a governante, a promoção do ensino e uso das línguas nacionais e a elaboração de estudos sobre a variante da Língua Portuguesa em Angola constam das acções prioritárias do sector a par de criação de infraestruturas, com vista ao desenvolvimento de uma indústria cultural forte e eficiente.» [DN/Lusa, 06.2017]

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