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Sociedades secretas, negócios discretos

Não hostilizemos quem acredita piamente em que um dia, algures no futuro, o Sacavenense ganhará a Taça dos Campeões Europeus. E ainda, sobretudo, mantenhamos a compostura, admitamos que num outro dia um OVNI azul às riscas aterrará no aeroporto internacional de Portalegre e dele sairão, como turistas, uma data de Conguitos verdes paridos em Melmac.

Acreditar em tão profanos milagres é o mesmo que negar a existência de uma sociedade secreta (ou discreta), sem dúvida a mais perigosa de todas, perante cujo poderio é virtualmente impossível fazer seja o que for.

Esta terceira mas primordial seita, estranha simbiose das duas sociedades secretas oficiais (por assim dizer), é constituída por homens de negócios e por políticos (há diferença?), por regra membros de uma das outras duas confissões (ou de ambas, que também há disso), não têm aparentemente qualquer ligação entre si e não praticam rituais próprios de espécie alguma, ocupando-se exclusivamente da congeminação (entre os membros) de grandes negócios, desfalques faraónicos, tráfico de influências (e toda a sorte de outros tráficos), extorsão, lobbying, corrupção, especulação e manipulação de mercados. Etc. Absolutamente nada fica de fora ou está ao abrigo deste tipo de ganância, daquela patológica obsessão pela acumulação de riqueza.

A Maçonaria, cujos membros dizem de si mesmos ser “Pedreiros Livres” — que de pedreiros nada têm e de livres muito menos — e a Opus Dei (ou “Obra de Deus”, uma entidade abstracta que se rege pela lei da letra morta), constituem, pela junção das partes, um imenso grupo de pressão (política, de regime, autárquica, diplomática, empresarial) e constituem, cumulativamente, um conglomerado de interesses não apenas políticos como, ou principalmente, económicos. O aparente laicismo de uns e a religiosidade fingida de outros consistem basicamente (e comummente) na propagação de uma fé inabalável no dinheiro e na prossecução da sua crença no enriquecimento pelo enriquecimento. Para tal desiderato, no qual crêem cegamente, uns e outros socorrem-se de lacaios especializados para as tarefas mais sujas e plebeias, como lavar vestígios ou “abrir portas”, com tudo o que implicam os trabalhos de tais criados pagos à peça ou à ordem, em espécie ou numerário, por grasso ou por atacado.

É com incontornável solicitude que os sabujos, a mando de membros da seita de seitas. envergando a “libré” de “facilitadores” especializados, avançam amiúde com questões aparentemente menores. As trupes de auxiliares servem (na perfeição) os interesses da selecta alcateia de gananciosos patológicos e foi assim que, por exemplo, surgiu e medrou a chamada “questão ortográfica”, ou seja, o AO90.

Ignoremos, ao invés do habitual, as já muito badaladas teorias da conspiração que envolvem as duas sociedades secretas. No entanto, bem entendido, não apenas existem bastos sinais do envolvimento de qualquer delas (ou de ambas) em questões relacionadas com o idioma em particular e com o Ensino em geral, assim como parece evidente que ambas tiveram tudo a ver com a “adoção” da cacografia brasileira; os “irmãos” de ambas as famílias estiveram envolvidos e na dita questão continuam enterrados até ao pescoço; sabemos que assim terá sido e é, sim, mas também podemos estar certos de que jamais viremos a saber ao certo em que medida ocorreu tal envolvimento, quais dos “manos” (de toga ou de batina) estiveram envolvidos e o quê ou quanto, ao certo, isso implicou: não existe nas seitas, por definição e inerência, qualquer tipo de registo; não prestam contas de nada a ninguém, nem ao Fisco nem a quaisquer outras entidades do Estado (é óbvio, eles “são” o Estado); os membros gozam de total imunidade e outorgam a si mesmos o estatuto de total e absoluta impunidade.

À míngua de provas documentais de qualquer espécie, de muito pouco ou nada servirá especular sobre algum ascendente ou assacar-lhes a mais ínfima responsabilidade (claro, nunca foram eles, nunca fizeram nada, são só apreciadores de missinhas, mais nada). Não será, por conseguinte, com vãs (e ocas) polémicas sobre qual das seitas se superioriza moralmente à outra que será possível concluir, por exemplo, pobre analogia, que em Melmac não existe só o Alf. O conceito de moral (ou imoral) está a priori  fora de cogitação, no caso vertente, pelo que a frivolidade da comparação é inútil.

Porém, sem teorias da conspiração ou sequer a mais subtil das conjecturas, ainda que, porque não há provas, não saibamos ao certo o que é a “fé” ou o que ali é feito, todos sabemos perfeitamente… o que é uma sociedade secreta, o que ali é feito, quem, quando, como e para quê. E sabemos isso de ciência exacta precisamente pelo mesmíssimo secretismo que define qualquer das irmandades: se são secretas, então  têm algo a esconder. 

São coisas que se explicam a si próprias e por si mesmas.

Desta premissa podemos nós ter a certeza. Uma certeza clara e limpa e luminosa — o oposto diametral da permanente obscuridade, a escuridão sepulcral da criminalidade ritual.

Frutas, legumes e sociedades secretas

Observador – observador.pt, 28.03.21

António Pedro Barreiro

Imagine-se que o Parlamento decidia aprovar uma nova regulação acerca da produção de legumes – não de frutas, mas apenas de legumes. Certamente, muito haveria a debater sobre uma proposta desta natureza. Seria pertinente? Que efeitos teria na produção agrícola? E que consequências produziria na dieta dos portugueses? Discussões fascinantes e necessárias. Mas, antes de todos esses debates, há uma questão prévia, que é a de perceber que coisa é essa que o legislador entende por legumes. O caso torna-se agudo quando chegamos, por exemplo, ao tomate, que muita gente acredita ser um legume, mas que a ciência sabe, para além de qualquer dúvida, tratar-se de uma fruta.

Eu posso ser o maior defensor da nova regulação sobre a produção de legumes. Mas não posso aceitar que, à boleia de uma lei sobre legumes, o legislador se sinta no direito de legislar sobre o tomate, porque o tomate não é um legume. Seria, aliás, especialmente perigoso que o legislador andasse a brincar com os equívocos e os preconceitos do senso comum, para convencer os portugueses de que o tomate é afinal um legume e deve, por isso, caber no objecto da nova legislação. A política é uma arte nobre de serviço público. Ou se faz com base na verdade – e a verdade, bem o sabemos, é a adequação das ideias à realidade das coisas – ou faz-se mal. E, quando se faz mal, faz mal ao povo.

Em Dezembro de 2019, o PAN propôs que os deputados pudessem, ao preencher o seu registo de interesses, declarar se pertencem a sociedades secretas – ou, como se tem dito, discretasDizia então o deputado André Silva que é “inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não declarar a sua filiação em organizações marcadas por uma forte opacidade, por um grande secretismo e que apelam a fortes laços de hierarquia”. A proposta tem o seu cabimento, até porque existe o risco real de que algumas pessoas se sirvam das relações travadas no contexto da sociedade secreta para subir na vida à custa do tráfico de influências. Mas o problema, como sempre, está nos pormenores. É que, além da Maçonaria – que é, de facto, uma sociedade secreta, que se caracteriza pela opacidade, que se estrutura segundo relações hierárquicas muito fortes e que constitui, com efeito, um espaço onde o tráfico de influências é possível –, o PAN quis incluir no estatuto de sociedade secreta o Opus Dei, que não obedece a nenhuma dessas características.
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Línguas de trabalho na ONU: brasileiro não consta

United Nations – Official Languages

«There are six official languages of the UN. These are Arabic, Chinese, English, French, Russian and Spanish. The correct interpretation and translation of these six languages, in both spoken and written form, is very important to the work of the Organization, because this enables clear and concise communication on issues of global importance.»

Language Days at the UN

«The Translation Services translate all official United Nations documents, meeting records and correspondence at Headquarters from and into Arabic, Chinese, English, French, Russian, and Spanish.  Some official documents are also translated into German


«A questão de fundo a reflectir/refletir é a seguinte: porque é que o Português não é língua de trabalho nas Nações Unidas? Porque os critérios de selecção/seleção foram de natureza essencialmente política, não reflectindo/refletindo a importância das línguas no contexto do mundo de hoje. As Nações Unidas e o Conselho de Segurança surgem na sequência da geopolítica saída da II Guerra Mundial. Os seus vencedores, a China, os Estados Unidos, a França, o Reino Unido e a antiga URSS, hoje Rússia, integraram, como membros permanentes, o Conselho de Segurança. As suas línguas, isto é, o idioma de cada um dos vencedores, prevaleceram como as línguas de trabalho na então nascente ONU. O Alemão e o Japonês nunca poderiam ter sido escolhidas. Estes países – espanto dos espantos – ainda hoje são designados como países inimigos pela Carta das Nações Unidas…

A par das línguas dos países vencedores do último grande conflito mundial, foram ainda escolhidos o Espanhol e o Árabe. É sempre bom ter países árabes no leque de países amigos. O petróleo era essencial para alimentar as indústrias norte-americanas e europeias/européias e, por outro lado, era de bom tom dar voz aos países emergentes do chamado Terceiro Mundo. O Árabe era língua de uma série de países nestas circunstâncias. Quanto ao Espanhol pesou a sua própria relevância e, também, o empenho nesse sentido das autoridades de Madrid.

Este cenário geopolítico e linguístico está ultrapassado. As línguas, hoje, têm de valer pelo que representam no mundo da ciência, da cultura, da arte e da economia. E, não restam quaisquer dúvidas, a Língua Portuguesa tem hoje mais expressão nestes domínios do que algumas línguas de trabalho das Nações Unidas.»

[in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/aberturas/sobre-as-linguas-de-trabalho-na-onu/22 [consultado em 12-02-2021]


Já em 2008 Malaca Casteleiro  babujava uma das suas mentiras favoritas: «A língua portuguesa é a única com duas variantes que têm que ser traduzidas nas Nações Unidas

Esta é uma das patranhas favoritas dos acordistas. Pretendem, se bem que vagamente, para disfarçar, porque sabem que semelhante coisa está fora de cogitação, promover a língua brasileira, a pretexto do AO90 e de uma alegada “unificação”, à aparentemente suprema condição de língua de trabalho da ONU. A realidade, por mais que os acordistas encenem a esse respeito uma rapsódia delirante, é que as línguas de trabalho da ONU são aquelas que fazem sentido o sejam: o Inglês, como língua franca e por acréscimo sendo a oficial em inúmeros países, e outras cinco línguas que, de certa forma, incluindo a componente política, representam a esmagadora maioria dos 193 países que fazem parte da Organização. Do brasileiro, nada, nem pio, não consta nem conta coisa nenhuma; ninguém na ONU sequer refere a questão, que afinal não existe de todo; a Organização das Nações Unidas trata de assuntos sérios, não de brincadeiras de mau gosto.

Outra patranha de igual calibre é a do número de falantes de “português”. Nesta espécie de “copa” brasileira para apurar a língua campeã do mundo, para fingir que a língua brasileira ocupa um lugar “honroso”, os brasileiros torcem a realidade e torturam os números por forma a que o seu cadinho linguístico apareça na 5.ª posição ou, quando muito, classificado na 6.ª posição. Isto no pressuposto de que tal campeonato, mais uma invenção absurda, interessa a alguém com um mínimo de tino. Apenas os ultra-competitivos brasileiros (e alguns imbecis portugueses) se entretêm com este tipo de onanismo desportivo-linguístico e, reiteremos, tentam assim justificar o injustificável (o brasileiro como língua de trabalho da ONU) e se calhar impressionar sabe-se lá bem que tipo de labregos deslumbrados. Sob a capa rota da CPLP, montam uma ficção ao estilo do Teatro do Absurdo que nem Ionescu desdenharia.

Dos mencionados labregos deslumbrados podemos ler, por exemplo, no texto parcialmente citado acima, contendo as mentirolas do costume as suas deles “perplexidades” (digamos assim) por a ONU ignorar olimpicamente a sua amada língua brasileira. Pois parece que não estão com sorte nenhuma…

É isso mesmo o que vemos e lemos, na citação de topo, no extracto da página respectiva do site das Nações Unidas: aquelas são as línguas de trabalho e não lembraria nem ao careca introduzir nas 6 línguas oficiais um corpo estranho.

Em baixo, como contraponto (o enésimo, visto que há no Apartado 53 bastantes conteúdos sobre o tema), um texto em Inglês que mais uma vez repõe os números correctos, os factos, a verdade: o brasileiro (na figura diz “Portuguese” mas é gralha) é a 9.ª (nona) língua mais utilizada no mundo

 

thelanguagenerds.com

The 10 Oldest Languages That Are Still Spoken Today.

 

As of today, the world has 7111 languages according to Ethnologue. A staggering third of these languages are endangered and only spoken by very few people, 1000 speakers at best. what’s even more serious is that more than 50% of the world’s population is covered by 23 major languages.

Top 10 most spoken languages, 2019. By Ethnologue.

 

Languages appeared about 100.000 years ago and have been evolving ever since. Languages are always in a state of flux; some die out and some branch out and give us more languages. Exceptionally, some languages have survived long periods of time and erosion and made it to the modern world. Here are 10 of the most ancient languages that are still spoken today:
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Passar a ferro

«Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.»

Valha-me Deus. Mas que cretinice.

Bem entendido, já sabemos que o “argumento” da “evolução” — com mais ou com menos ornamentos, como é o caso citado, pejado de palavras sem absolutamente significado algum — é um dos mais martelados pelos acordistas em geral. Usar verbos e adjectivá-los aos pulinhos, com imensa solicitude, numa construção frásica cheia de floreados do piorio, como se a rapariga autora do esgalhanço escrito estivesse a falar de plantinhas, coitadinhas, bem, convenhamos, bálhamedeus, repito, dá vómitos, é um nojo. Mas paradigmático, é claro; qualquer labrego acordista tende sistematicamente para os “simbolismos” pindéricos, a metáforazinha catita, o estilo… hum… estiloso.

A Língua não é exactamente um malmequer ou um girassol, nem na escrita peganhenta do poeta mais foleiro da Via Láctea e arredores. Mas isto ele para os brasileiros, mai-la sua verborreia tipo culto do vácuo, em especial se a coisa mete graveto (pilim, cacau, guito, c’roas), em suma, em cheirando-lhes a dinheiro vai mesmo tudo raso, até a língua deles passa por uma mui elegante (e quiçá periclitante) tulipa verde e amarela.

Note-se que o artigalho não começa por uma pergunta. A ausência do ponto de interrogação no título denuncia de imediato, sendo aquilo a constatação de um facto, o carácter tóxico-propagandístico do textículo (salvo seja) desta Bruna e demais Brunas e Brunos. Esta espécie de elegia histérica cheia de paleio a armar aos cucos (ou às catatuas) merece, portanto, para mais fácil entendimento do fenómeno, ser genericamente designada por brunismo.

A toxicidade da propaganda brunística ressalta imediatamente, “de fato” e gravata, pela “conclusão” implícita no “pensamento” veiculado: por exemplo, americanos, ingleses e canadianos, franceses, argelinos e tunisinos, espanhóis, mexicanos e chilenos, para já não falar em chineses, indianos, russos, japoneses, filipinos e coreanos, etc., essa malta toda, cerca de 99% da população mundial é constituído, segundo o brunismo, por uma cambada de imbecis, burros como cepos:  mantêm inalteradas há séculos as suas línguas nacionais, nativas ou adquiridas, que horror, que “retrógrados”, que “reaccionários” que “velhos do Restelo”. Extremamente espertinhos, por exclusão de partes e por paradoxalmente se entreterem a “mudar a língua brasileira tantas vezes”, são eles, os brasileiros (e os seus “camaradjinha” tugas), porque mudam amiúde a sua caótica escrita. De 20 em 20 ou de 30 em 30 anos lá vem mais «uma repaginada com o passar do tempo», como diz a Bruna. Caramba! Não é um crânio, a Bruna, não é mesmo uma maravilha, o brunismo? Légáu, né? Hem? “Oi”?

Oh, raio de texto, o que me havia de tocar pela proa! Canoijo. Bem perto da genialidade, realmente, e expondo — ainda por cima — sua inatacável premissa com artistices de fazer inveja ao cromo mais pintado. A florzinha pretende «crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver», oh, mas que lindo, que bela imagem, é fantástico, um gajo até parece que está vendo o malmequer a crescer, a tulipazinha a tornar-se flexível e colorida, ui, que beleza, enfim, isto não é bem escrever, enfim, «isto é viver».

Enfim, enfim, enfim.

É mais do que evidente o que pretendem impor-nos. Neste texto brunístico, ainda que de cariz comercial — ou por isso mesmo –, não é referido Portugal uma única vez. Claro. A língua brasileira é deles, portanto têm todo o direito a assassiná-la, ui, caríssimos, à vontade, chateiem lá os Tupi, os Guarani e os Zé Carioca, não venham é para cá brunir (passar a ferro, literalmente) a Língua Portuguesa. Nem em Portugal nem em qualquer dos PALOP. Xô.

O nexo de causalidade, reitere-se o que amiúde aqui é dito, aparece agora de novo espectacular e obscenamente nítido: o AO90 teria sido, quando muito, uma tentativa de normalização das várias desortografias fonéticas brasileiras, um acordo entre Estados, sim, mas estabelecido apenas entre os 27 Estados brasileiros, acabou por tornar-se, depois de desenterrado por Cavaco, Lula e Sócrates, numa fantochada inaudita à escala mundial. 

Impor a sete Estados soberanos um “Tratado” para transformar a língua de um oitavo país na “língua nacional” de todos eles (com a subscrição de apenas três), isso, repito, semelhante desconchavo, o “acordo” imposto pelo Brasil e propagado, propagandeado e pago por Portugal, é algo que  jamais ocorreu a qualquer dos “restantes” 191 Estados-membros da ONU.

Esta “ideia”, ó Brunas do universo, é um dos motivos pelos quais a língua brasileira muda tanto na acepção de tantas vezes e porque a sua cacografia varia infindavelmente.

Infelizmente, o brunismo medra. E não há peito ilustre que o mande ao anagrama de medra. 

Vão brunir longe.

Por que a Língua Portuguesa muda tanto

por Bruna Eckel
28 de janeiro de 2021

 

As pessoas se perguntam por que uma língua não permanece estável no curso da vida? Uma língua muda porque é falada segundo os costumes, a cultura, as tradições, modernização tecnológica e o modo de viver da população. Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.

A mudança que se observa numa dada língua, no decorrer do tempo, tem paralelo na mudança dos conceitos de vida, na mudança das artes, da filosofia, da ciência e até da própria natureza. Essa evolução temporal, mudança diacrônica ou história, é um dos aspectos mais evidentes da variação ou mudança que se processa em toda e qualquer língua. Antigamente, no Brasil, se falava cutex ao invés de esmalte, petisqueira no lugar de armário, penteadeira ao invés de cômoda, ceroula ao invés de cueca. São exemplos que ilustram a mudança diacrônica ou histórica.

Considera-se, também, que a língua varia no espaço, razão porque a língua portuguesa apresenta variedades nacionais e internacionais. É a mesma língua, mas com traços peculiares das regiões, dos países como Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Brasil.

A língua é viva

Como sabemos bem, a língua portuguesa foi trazida ao Brasil no século XVI em virtude do Descobrimento. O português era imposto como língua oficial às línguas nativas que havia aqui ou modificava-se dando origem a outros dialetos. Mas houve um longo processo para estabelecer o idioma no território brasileiro. O contato entre os indígenas, os africanos e os vários imigrantes que vieram de algumas regiões da Europa contribuiu para o chamado multilinguismo. Assim, além da fase bilíngue pela qual passou a nossa língua, o multilinguismo contribuiu – e continua contribuindo – para a formação da identidade do português brasileiro.

Assim como os demais idiomas, a nossa língua é viva, ou seja, se transforma e se reinventa com as pessoas ao longo do tempo, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. Algumas alterações ocorrem naturalmente; outras são determinadas formalmente, como o Acordo Ortográfico implementado pela CPLP, em 2009, com o objetivo de facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países que têm o português como idioma oficial e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa.

Diferenças e exemplos de variações

As variedades nacionais de um idioma não apresentam uma uniformidade interna, são constituídas por variantes geográficas que os dialetólogos denominam dialetos. Também há as variações decorrentes dos diferentes grupos sociais a que pertencem os falantes, tal como variações de faixa-etária, sociocultural e sócio profissional.

São exemplos de variações por faixa-etária:

Idoso – coroa – velho;

Homem – rapaz – tiozinho;

Baile – festa – balada.

São exemplos de variações socioculturais:

Festa – arrasta-pé ou piseiro;

Briga – confusão – furdunço – baixaria – barraco;

Namorar – ficar;

Moça – mina.
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Diz que coiso e tal

Lari e Hugo – 135K subscribers
Larissa, como é que você aprendeu a falar português de Portugal? É muito difícil? É muito diferente? Você demorou quanto tempo pra entender tudo? haha Recebo várias mensagem assim diariamente!! E no vídeo de hoje resolvi ser professora por um dia e vim “vos ensinar” a “FALAR PORTUGUÊS DE PORTUGAL” de uma maneira rápida, prática e fácil!! Quem aí tá animado? Vamos lá comigo que tenho a certeza que vai ser divertido!!

Uma das bacoradas favoritas de acordistas (e outras não menores mas de aparente sinal contrário) é esta coisinha intocável: «o falar influencia a ortografia mas no sentido inverso ‘no pasa nada’». Estabelecido na sua mirrada cabecinha tão grosseiro quanto idiota axioma, estendem-no como se fosse um tapete a outras “verdades” de igual ou semelhante calibre: por exemplo, diz que «a ortografia não passa de um código arbitrário para simples transcrição da fala», assim como diz que, ainda por exemplo, que «o AO90 não altera o modo de falar, só “afeta” a escrita».

Ora, evidentemente — e neste ponto dá imenso jeito aos acordistas a metáfora do tapete, para debaixo do qual varrem os argumentos contra os seus ditames –, qualquer aluno da 4.ª Classe (do 5.º Ano, vá) sabe e já percebeu que a via é bi-unívoca, dá para os dois lados, salvo seja, a fala afecta a escrita assim como a escrita influencia o modo de falar. Veja-se (e oiça-se) o que já se vai passando por aí, o emudecimento (por via da caça à consoante dita muda) daquelas coisinhas que antes eram sílabas tónicas (em Portugal e PALOP) e que agora até locutores de TV ou rádio fazem soar conforme lêem textos estropiadas pelo AO90 segundo a “lógica” fonética brasileira (em que todas as vogais são mais tónicas do que o Gin); a peçonha acordista já chegou ao inimaginável ponto de alguns não apenas tentarem ler o brasileiro com sotaque português (ou seja, sem sotaque algum) como, ainda por cima, os mais expeditos a engraxar brasileiros desataram já a “imitar” o próprio léxico brasileiro: os advérbios de modo foram abolidos (é tudo “fácil”, nada é feito facilmente, o que antes se fazia rapidamente agora faz-se “rápido”, e assim por diante), já não há pessoas, o que há é “oi, minha gente” (ou algo do género, igualmente asqueroso), volta-e-meia ouve-se tugas a balbuciar “registro” em vez de registo, o verbo “dizer” foi também administrativamente abolido, agora é “falar”, ele “falou” que ou, pior ainda, “ele me falou que”.

São aberrações destas (sim, isto é que são aberrações, fora o resto) que levam um ser-humano a interrogar-se “mas onde raio guardei eu a pistola”.

De semelhante cambada, de tais e tão estranhos fenómenos, temos aqui dois exemplos (também eles) contrastantes; lá em baixo, como o tiroliroliro, temos uma espécie de exposição do “mundo das línguas”; lá em cima, como se fosse o tiroliroló da loucura, temos a demonstração prática do processo de colonização linguística em curso.

Ao mundo dos conceitos básicos na matéria, traduzido sem calão da árvore em imagem, junte-se o vídeo com efeitos especiais de uma rapariga brasileira ensinando a seus patrícios como comunicar com os selvagens que habitam nesta sua nova província.

Que horror.

Viagem ao extraordinário mundo das línguas – Opinião

Marco Neves
24.sapo.pt
24.01.21

 

Fechado em casa, apetece-me fazer uma viagem pelo mundo das línguas. Vou escrever um facto sobre uma língua de cada vez. A língua seguinte terá de estar ligada à anterior pela geografia ou de outra maneira. No fim, regresso ao nosso país.

 

GALEGO | Será uma surpresa em Portugal, mas há galegos que consideram o galego e o português a mesma língua. As opiniões dividem-se, mas uma coisa é certa: se não forem a mesma língua, dificilmente encontraremos duas línguas mais próximas do que estas.

CASTELHANO | A língua aqui ao lado tem 5 vogais. Por cá, usamos umas 14 da boca para fora. É uma das razões pelas quais é tão difícil aos vizinhos perceber o que dizemos. Para compensar, na escrita, têm uma letra vogal adicional: o <y>.

BASCO | É a única língua não indo-europeia da Península. Na Europa, há mais umas quantas: o maltês, o turco e as línguas urálicas como o húngaro, o finlandês e o estónio (sem esquecer outras da família, como o lapão). O basco é a única sem familiares.

CATALÃO | Na Idade Média, foi uma importante língua do Mediterrâneo. Os primeiros textos conhecidos em catalão são mais antigos do que os primeiros textos escritos em galego ou português.

OCCITANO | A língua tradicional do Sul de França é hoje falada por poucos, mas recebeu um Prémio Nobel da Literatura antes do inglês ou do italiano. O laureado foi Frédéric Mistral, em 1904.

FRANCÊS | A ortografia francesa está particularmente distante da fonética da língua. Uma palavra como «août» é lida por muitos franceses simplesmente como [u]. A conjugação verbal é também muito mais simples na oralidade do que na escrita.

NEERLANDÊS | Apesar de, em Bruxelas, ser mais fácil encontrar quem fale francês, o neerlandês é a língua mais falada na Bélgica, onde era tradicionalmente chamada de «flamengo». Por cá, também usamos o termo «holandês» para designar a língua.

FRÍSIO | Esta é a língua mais próxima do inglês. Mesmo assim, são muito diferentes, porque o inglês sofreu profundas alterações (e o frísio também não deve ter ficado parado). Aqui fica uma frase em frísio: Myn namme is Marco en ik kom út Portegal.

INGLÊS | É uma língua germânica apaixonada pelo léxico de origem latina. Vindas do francês, do latim ou de outras línguas românicas, há tantas palavras latinas no inglês que é quase um membro honorário do nosso clube. Note-se: no inglês, as palavras latinas tendem a ser mais formais.

SCOTS | Ane leid is ne’er eneuch!* Na Escócia, fala-se gaélico (nas Terras Altas), inglês (à escocesa) e ainda Scots, considerado por uns dialecto do inglês e por outros língua separada. Uma coisa é certa: tem uma antiga tradição literária. [*Uma língua nunca é suficiente!]

NORUEGUÊS | Tem duas normas oficiais, ambas ensinadas nas escolas, cada uma com variedade interna considerável: o nynorks («novo norueguês») e o bokmål («língua dos livros»). Esta última é a mais usada e também a mais próxima do dinamarquês.

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Uma língua Vital

Um “diálogo” muito interessante em que ambos os “contendores”, entrincheirados nas respectivas valas comuns, tentam convencer os demais com a superioridade dos “argumentos” de cada qual e da total ausência de méritos de qualquer deles. No fundo, trata-se de um (educadíssimo, polidíssimo, extremamente alfacinha) diálogo em forma de sporting-benfiquismo, ou seja , segundo a inamovível “lógica” futebolística que infalivelmente postula que “o meu clube é melhor do que o teu porque o meu é meu é o teu não é o meu”.

Talvez isto fosse pasto para psiquiatras. maná para bruxos e adivinhos e outros mecânicos da caixa dos martelos, mas decerto as respectivas operações (leucotomias, por exemplo) iriam revelar-se de uma complexidade escusada; mais vale a abordagem céptico-cínica das pessoas normais, por conseguinte.

Em termos de sinopse, e mesmo dando de barato os já algo mofados antecedentes. o que temos aqui é Vital, um ex-comunista — aflito para que se não confunda o que agora julga com a posição oficial dos comunistas portugueses –, a mandar bocas (isto é, a mentir com quantos dentes ainda tem na boca) a um anti-acordista especializado em minudências (listas enormes de palavras) sem jamais referir o essencial (que não existe “ortografia” no Brasil, que brasileiro é uma coisa e Português é algo completamente diferente): primeiro, o comunista — pobre diabo — chama “sebastianista” ao outro, ao que este, zangadíssimo, retruca umas diatribes tremendas num ralhete de meter medo a qualquer criança. Agora, e ameaçando desde já ambos que muito provavelmente isto não fica assim, Vital ataca de novo com igual soma de meias-verdades, mentirolas, invenções e puras patranhas. Na sua lisboeta cabecinha pensadora, o livre-pensador acha perfeitamente normal enfiar o barrete mais descabelado ao mais circunspecto e sisudo cidadão. Foi este, aliás, o princípio basilar que o comunista adoptou para si mesmo: enfiar o barrete e, já que está enfiado, defendê-lo com unhas e dentes — é meu, o garruço é meu, ninguém mo tira — a ver se consegue, à falta de melhor, já que não convence ninguém, ao menos convencer-se a si mesmo.

Talvez um dia, de tanto se agarrar ao barrete, Vital acredite nele.

 


1. Vital ataca Francisco

Pobre Língua (15): Sebastianismo ortográfico

Publicado por Vital Moreira.
“Blog” Causa Nossa, sexta-feira, 17 de abril de 2020

 

1. Confesso que não deixo de admirar a pequena tribu de opositores ao Acordo Ortográfico, os quais, passados mais de dez anos sobre a sua vigência e a sua aplicação generalizada – o que o torna irreversivel -, continuam a pugnar pelo regresso à antiga ortografia, com a mesma convicção com que os sebastianistas esperavam o regresso de D. Sebastião.
O caso é tanto mais de admirar, quanto eles insistem sem desfalecimento num pequeno menu de argumentos, em geral de uma enorme fragilidade, como se deduz de mais uma peça de um dos seus mais empenhados ativistas, Nuno Pacheco, ontem no Público, um dos poucos periódicos que se mantém fiel à antiga ortografia.

2. O argumento tem a ver desta vez com a grafia dos termos infetar e derivados (infeção, infetado, etc.) no Português europeu, depois do Acordo, quando no Brasil – que também subscreveu o Acordo (e noutros países de Língua Portuguesa que o não ratificaram ainda) – os mesmos termos se escrevem com um adicional (infectar, infecção, etc.).
O que o autor não diz, propositadamente para criar a confusão, é que no Brasil essas palavras se escrevem com o tal c porque assim se pronunciam, sendo esse um dos vários casos da diferença de pronúncia das mesmas palavras nos dois lados do Atlântico (facto e fato, contacto e contato, perceção e percepção, etc.).
Ora, uma das mais-valias do Acordo Ortográfico, sem prejuízo da tendencial uniformização da ortografia, consiste justamente em assinalar essas diferenças incontornáveis entre as duas versões da Língua. A ortografia não deve servir para esconder artificialmente reais diferenças de dicção, nem a Língua comum ganha nada com isso.

3. O mesmo se diga do facto de várias outras línguas (Castelhano, Francês, Inglês, etc.) usarem igualmente o dito c nas palavras correspondentes: só que também em todas elas o c é pronunciado. Curiosamente, o autor regista o caso italiano, que não usa o dito c, escrevendo-se infezione, infettare, infetto, justamente porque é assim que se pronunciam. Ou seja, nos exemplos do autor, o tal c escreve-se lá onde se pronuncia, mas não onde não se pronuncia – o que, portanto, não abona a sua tese
Outra das vantagens do Acordo está justamente em registar para os estudantes estrangeiros as diferenças fonéticas e gráficas entre Português europeu e outras línguas próximas. Já se imaginou o problema de um aluno estrangeiro de Português, em Portugal, ao pronunciar a palavra infetar, se ela se escrevesse com c, como querem os sebastianistas ortográficos? Ou, já agora, as palavras ativo, respetivo, efetivo, etc., se escritas com c, à moda antiga, julgando que elas se leem da mesma maneira que na sua própria língua?
Na verdade, ao eliminar esse e outros arcaísmos da ortografia portuguesa, o Acordo Ortográfico também veio facilitar a aprendizagem do português europeu pelos estrangeiros que estudam a nossa Língua.

 


2. Francisco responde a Vital

«Não conheço o artigo científico que serve de base a esta afirmação peremptória e grave do ex-eurodeputado. Fico a aguardar, serenamente, as referências de Vital Moreira. Obviamente, esperarei sentado.» [Francisco Miguel Valada, publico.pt 21.04.20]


3. Vital fica chateado com a resposta de Francisco

Uma língua, uma ortografia

Vital Moreira, publico.pt, 22.04.20

 

Não existe nenhuma razão lógica para que uma mesma língua mantenha tantas divergências ortográficas

 

Desde a sua assinatura em 1990, sou apoiante declarado do acordo ortográfico para unificar tanto quanto possível a língua portuguesa escrita, eliminando as discrepâncias entre a norma europeia (e africana) e a norma brasileira. E também nunca entendi bem as razões pelas quais Portugal, que ratificou o acordo logo em 1991, não fez depois nada para conseguir a ratificação dos Estados que o não fizeram, nem as que agora justificam uma “moratória” de dez anos para a sua efectiva entrada em vigor.

«Afinal de onde vem a Língua Portuguesa?» [Observador, 08.02.20]

Foto de Danilin (Alemanha)«Nem este Acordo Ortográfico nem uma dúzia deles conseguiria travar a deriva em que Português Brasileiro e Português Europeu entraram. E entraram já há séculos, não é fenómeno recente.»

“É promíscua e é liberal”: afinal de onde vem a Língua Portuguesa?

Amores e desamores, roubos, inimigos, tempestades e terramotos criaram a língua que falamos e escrevemos. Entrevistámos Fernando Venâncio, autor de uma história do português.

Joana Emídio Marques – Texto

 

As palavras são de tal forma utilitárias, quotidianas e cada vez mais fúteis, que nos esquecemos que todas elas têm uma história, que cada letra, cada som, foi engendrado num tempo e numa circunstância política, social específica e a ela está para sempre ligado. Muitas palavras nasceram de sensações corporais ou psicológicas concretas, outras de necessidades comezinhas da comunicação  que vai desde a esfera familiar à esfera das leis, dos enamoramentos ou da poesia.

Por isso, a história de uma Língua começa sempre por ser oral e pode demorar dezenas de anos, séculos até aparecer pela primeira vez na sua forma escrita. Cada fenómeno linguístico tem origens antiquíssimas e é um pequeno tesouro patrimonial que herdamos das muitas gerações pretéritas. Um tesouro frágil que todos os dias esmagamos usando sempre um número restrito de palavras, ou que é esmagado por decisões mais ou menos arbitrárias do poder que acredita poder torcer as palavras até elas deixarem de ser rebeldes e se tornarem submissas a um regime artificial como é a ortografia, por exemplo.

Assim, a história de uma Língua está indelevelmente ligada à história de um povo, de uma nação e vice-versa. E, da mesma forma que Portugal e os portugueses não caíram do céu ali por volta de 1143, também a Língua começou a sua odisseia particular muito, muito tempo antes, talvez ali por volta do ano 600, quando nem o Condado Portucalense era sonhado. É pois uma viagem longa, cheia de peripécias, aventuras, amores e desamores, roubos, inimigos, tempestades e terramotos aquela que tem feito a Língua Portuguesa até chegar a esta nossa conversa num jornal digital.

Quem a conta é o linguista Fernando Venâncio, num livro fascinante, culto, complexo mas, ao mesmo tempo didático, acessível a qualquer falante do português. A obra, cheia de exemplos e curiosidades, não teme polémicas nem humor, tem a chancela da Guerra & Paz e chama-se Assim Nasceu Uma Língua/ Assi Naceu ũa Lingua e mostra que aquilo a que hoje chamamos “minha pátria”, a Língua Portuguesa, é uma derivação do galego, a sua origem matricial. O Observador falou com Fernando Venâncio sobre as suas aventuras no português.

Neste livro, dá-nos a ver a história da Língua Portuguesa como uma odisseia. Já não é a heroicidade de um povo, como fez Camões, nem de um homem, como fez Homero. Podemos comparar o caminho de uma língua a uma odisseia sem fim cheia de aventuras, perdas e conquistas?
Acho essa imagem, a da história de uma língua como uma odisseia, extremamente sugestiva. Digamos que, no seu percurso, cada idioma passa por muitas. Ao ponto de, como é infelizmente caso comum, ele soçobrar. A tal ideia de que sempre que morre o último falante de uma língua, o Mundo perdeu uma enciclopédia. O nosso idioma não soçobrou, e está hoje vivíssimo. Mas poderia não ter sido nunca nosso. Bastaria, para isso, que Portugal nunca tivesse surgido. Hoje existiria uma idioma extremamente parecido ao nosso, mas sem nós. É, concedo, um cenário ousado. Mas historicamente realista. O nosso idioma surgiu, e fez-se grande e sólido, quando Portugal ainda não existia. Nós herdámo-lo e fizemo-lo ainda maior.

Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.

A premissa deste seu livro, que o português deriva do galego, não é uma novidade, mas é algo que em Portugal os filósofos e os historiadores não encararam seriamente. Porquê?
Exacto. A origem galega do nosso idioma não é a notícia mais sexy. Acostumámo-nos a conceber-nos únicos, com uma língua exclusiva e original. Esquecemos que ela nasceu em território galego. É certo que o grande linguista Ivo Castro já no-lo disse com todas as letras. Mas um passado de marca galega, insisto, não nos lisonjeia. Na melhor da hipóteses, e como o exprimiu Eduardo Lourenço, trazemos a Galiza diluída em nós, e não a reconhecemos já. Continuamos a contar-nos lindas histórias no cantinho da lareira e, para mantermos a auto-estima, fugimos com o rabo à seringa.

 Nesta obra mostra como insistimos em ver-nos como se caídos do céu, um país, um estado, uma língua, um povo, tudo pronto desde 1143. Uma mistificação que a história da Língua Portuguesa nega com veemência. Como foi então que nasceu o Português?
Nasceu há muito tempo e teve uma longa infância. No livro, reúno uma porção de informações para identificar o momento em que na Galécia deixou de falar-se latim, com a criação duma língua nova, e cheguei ao ano 600 d.C. É então que se dão no latim do Noroeste peninsular modificações de monta e únicas na Latinidade. A principal delas foi a queda de L e N entre vogais. Para dar os exemplos clássicos: “salire” tornou-se “sair” e “luna” tornou-se “lua”. Parece pouca coisa, mas o fenómeno afectou centenas e centenas de palavras. Várias outras novidades se deram e, a partir de então, existia uma língua própria nesse território que ocupava a actual Galiza e um troço noroeste do futuro Portugal. Começava em Melgaço, tocava Vila Real e vinha acabar em cunha na Ria de Aveiro. Essa é a geografia inicial do idioma, ainda hoje perfeitamente desenhada na toponímia. Os nomes de terras, lugares e lugarejos. Faltava ainda muito para surgir o Condado Portucalense e, evidentemente, o Reino de Portugal. Quando eles surgiram, falavam a língua ali disponível: o galego. O português só bastante mais tarde se constrói.

Mas e de onde vem o galego? Fale-nos dessa Gallaecia matricial, ali a norte do Douro…
O galego formou-se, como descrevi há bocadinho, a partir do latim. É uma língua directamente surgida dele, como o leonês,o castelhano, o catalão, o occitano, o francês, o italiano. Do leonês sobra hoje, no nosso país, o mirandês. E o occitano tem existência já muito precária, por acção do centralismo parisiense. Que o Noroeste ibérico pudesse gerar um idioma único e forte, vários factores o favoreceram. Era, como ainda é hoje, um território densamente povoado, empreendedor, consciente de si próprio. Ao mesmo tempo, mantinha-se isolado. As novidades de Roma chegavam com muito atraso, incluindo as linguísticas. Em comparação com o que sucedia na Itália, na futura França e mesmo em Castela, o latim da Galécia foi sempre antiquado. Continuamos a distinguir as pronúncias “sêde” e “séde”, ou “côrte” e “córte”, diferenças sonoras que o castelhano ignora.

Apesar da formação do país em 1143, a verdade é que só em 1488 vai surgir o primeiro documento que se pode dizer escrito em português? Passámos então três séculos a falar galego até termos aquilo que se pode chamar uma língua nossa…
1488 é o ano do primeiro livro impresso em Portugal. O português, como língua própria, diferente do galego, começa a tomar corpo por volta de 1400. É uma criação de Lisboa, tornada centro do Reino, com a instalação da dinastia de Avis, ciosa do seu elevado nível cultural. Inicia-se então um processo acelerado de distanciamento das marcas nortenhas do idioma, substituídas por novidades do Sul. Esse processo de “desgaleguização” do idioma está bem descrito em obras da linguista Esperança Cardeira.

E o que acontecia no Sul? Que língua se falava nesse sul dominado pelos muçulmanos, que tinham uma cultura literária muito superior à dos cristãos?
Sabemos muito pouco daquilo que se passava a sul do Vouga. É certo que Coimbra foi, antes da chamada Reconquista, um forte centro de dominação moçárabe, mas falta saber se o moçárabe era a língua veicular. Ivo Castro duvida que os conquistadores cristãos ainda ouvissem esse idioma em uso nos territórios que foram ocupando. Também não é provável que se falasse ainda berbere, e mesmo árabe só seria dominado por uma elite instruída. Continua ainda tudo por esclarecer. Que a cultura literária árabe, audível em cantigas e em poesia, era de superior qualidade, disso não resta dúvida. Mas era uma cultura de elite.

Uma das faces desse processo foi o momento em que Portugal se enamora pela língua castelhana e introduz no seu léxico centenas de palavras castelhanas. Aqui o Fernando Venâncio fala em “relatinização”, ou seja muita da herança latina vem desse espanhol que incorporamos…
A vitória portuguesa em Aljubarrota, em 1385, accionou, embora não pareça, uma reviravolta cultural. Castela era uma cultura pujante, e de repente os portugueses podiam aproveitar-se dela em boa consciência. Iam a Toledo vestir-se e voltavam encantados e com a sua labiazinha castelhana. Na corte, as coisas fiavam mais fino, e convidavam-se sábios de Castela para virem relacionar-se com a Ínclita Geração. Em breve, o castelhano se tornou entre nós língua “de cultura”, situação que se manteria até por volta de 1750, quando foi Paris a decidir os modelos. Os da vestimenta e os do idioma. Durante esses 300 anos, o português foi-se acomodando à prestigiosa língua da forte Castela, longo tempo dominante também na Europa. Entraram muitas palavras novas, em catadupas, feitas na Meseta, e até bastantes dos L e N, que haviam caído séculos antes, regressaram aos seus lugares. Foi o processo de “castelhanização”, paralelo ao da “desgaleguização”. Não que os portugueses da altura se dessem conta disso. Os mais atentos supunham, mesmo, que o português estava a latinizar-se. Estava, decerto, mas muito menos do que se julgava e ainda se julga. Adoptavam-se não só numerosos materiais de feitura castelhana, como também muitos latinos que, pelo castelhano, se nos alojavam no idioma. Atenção: tudo isto se fez na convicção duma “modernização” do português. E mais: duma “internacionalização” dele. Os grandes clássicos Camões e Vieira, também grandes castelhanizantes, sonhariam (é a uma hipótese atrevida, mas venha outra) poder ser lidos directamente na Península e na Europa.

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