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(≤700000)+(≤300000)+468665=1468665 (≤1 milhão e quinhentos mil)

 

Importa realçar, pela enésima vez, que isto tem absolutamente tudo a ver com o #AO90. Sem essa patranha original (aliás, inédita a nível mundial), com a subsequente invenção da CPLB (1996), mais a assinatura em segredo do “Estatuto de Igualdade” (2000) e o “Acordo de Mobilidade” de sentido único (2021), a ponte aérea actualmente em curso não seria possível. Mais do que simples relação de causa e efeito, visto que aquela foi inventada para chegar a este, aplica-se aqui, em rigor, a máxima desde sempre utilizada pelos regimes totalitários: “os fins justificam os meios”.
[“F*deu: Portugal Acabou! Vai virar Brasil”]

O tema tem sido para aqui chamado porque importa entender se existe ou não um nexo de causalidade entre o #AO90 e a “ponte aérea” a que temos assistido desde 2009 e, cada vez com mais intensidade, principalmente nos últimos cinco anos.

Pois bem, os factos falam por si mesmos, não deixando qualquer margem para dúvidas.

Sem o “acordo” de imposição da cacografia brasileira, impingida desde 1990 como “unificadora”, não teria sido inventada em 1996 a CPLP, a capa e o pretexto político para a golpada, assim como não teria sido cozinhado — às escondidas da opinião pública — o “Estatuto de Igualdade” e não teria, por fim, sido promulgado o “Acordo de Mobilidade” (2021). Isto, bem entendido, incluindo ainda alguns passos intermédios: a “Declaração de Brasília” (2002), a Resolução CPLP “3 por 8” (2002), o II Protocolo Modificativo (2004), a “ratificação” do #AO90 (Brasil-2004, São Tomé-2005, Cabo Verde-2006), a revisão dos estatutos da CPLP (2007), a RAR 35/2008 e a consequente RCM 8/2011.

Um plano de anexação bem calculado e perfeitamente executado, há que reconhecê-lo, até porque não estamos nisto a lidar com amadores. Plano este que, evidentemente, pressupõe como um dos principais objectivos a alcançar aquilo que agora podemos verificar frequentemente: a dita “ponte aérea” está mesmo em curso.

Daí necessitar a “mão invisível” que o urdiu de activar os seus pasquins avençados para as correspondentes manobras de desinformação.

Os dados que aparecem na imprensa estão sempre atrasados e são tratados “cosmeticamente”, destacando por sistema os contingentes migratórios ultra-minoritários (4,9%, 3,1%, 1,6%) para disfarçar a percentagem esmagadora de brasileiros — mais de 80% — no total de imigrantes em Portugal. Parte integrante desta estratégia de desinformação é o realce que por aí se vai dando aos crimes cometidos por asiáticos ou africanos, tema a que a extrema-direita (tão brasileirista como o centrão e a extrema-esquerda) se atira com sofreguidão sanguinária; mantendo o enfoque sobre a minoria vai dando para que ao menos não se fale da maioria esmagadora.

Além disso, os números variam de forma alucinante (e alucinada), de jornal para jornal, de entidade para entidade, entre os canais de TV ou rádio e até nas redes anti-sociais: cada qual avança os “seus” totais e percentagens, contradizendo-se entre si — por vezes, até no mesmo conteúdo, de um parágrafo para o outro — e não poucas vezes inventando de raiz cifras de tal forma absurdas que nem os próprios autores acreditam nelas. Vale tudo, em suma.

Só que, para azar das eminências pardas (e das excelências parvas), lá calha algum jornalista, ou por não ter recebido ordens a tempo ou por simplesmente lhe fugir o teclado para a verdade, ter de repente um lapsus linguae e assim estragar o arranjinho ao patronato, aos brasileiristas, aos confrades do avental e aos coroas de Escrivá.

É o (espectacular) caso deste artigo do hiper-acordista “Expresso”.

Basta saber fazer contas (de somar) de cabeça. Bem, pronto, para determinar as percentagens correctas se calhar é melhor usar a calculadora.

Então vá.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras foi extinto e deu lugar à Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), que tem tido dificuldade em dar resposta aos pedidos de autorização de residência Tiago Miranda [legenda do/no original]

Portugal tem sido capaz de integrar os imigrantes na sociedade?

O Expresso e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) juntam-se para debater as últimas cinco décadas de democracia em Portugal. Até Março, vamos escrever (no Expresso) e falar (na SIC Notícias) sobre 10 tópicos diferentes da sociedade à economia. Em Janeiro, o foco da análise recai sobre as migrações, os desafios e as oportunidades que representa para o país

Francisco de Almeida Fernandes – Jornalista

OS FACTOS

O número de imigrantes que elegeram Portugal como destino manteve-se estável na primeira década do século XXI, que oscilou entre os 400 e 450 mil residentes no país. Porém, entre 2010 e 2015 registou-se uma ligeira redução, que viria a inverter-se a partir de 2016. Em dez anos, o número de estrangeiros a viver em território nacional quase duplicou (90%) e entre 2018 e 2019 o aumento foi de mais de 110 mil pessoas.

De acordo com os últimos dados compilados pela Pordata, Portugal tem hoje quase 800 mil estrangeiros residentes, o que equivale a 7,6% da população. Ainda assim, o país está longe de ser aquele que, na União Europeia (UE), tem maior proporção de imigrantes – ocupa o 10º lugar numa lista liderada pelo Luxemburgo (47%) e Malta (21%)

A origem dos imigrantes tem-se alterado ao longo das últimas três décadas, conforme os movimentos migratórios, mas é a comunidade brasileira que tem maior representatividade (29,3%), seguida das pessoas com origem no Reino Unido (6%) e de Cabo Verde (4.9%). No ranking das nacionalidades com mais peso na imigração, destacam-se os países dos PALOP e juntam-se, a meio da tabela, os naturais do Nepal (3,1%) e, no final da tabela, do Bangladesh (1,6%). Destaque ainda para imigrantes da Europa do Leste, representados pela Roménia (4,1%) e pela Ucrânia (3,9%). Segundo o Eurostat, 76% da população estrangeira tem origem em países fora da UE.

Há outros dados relevantes que pintam o retrato da imigração em Portugal, nomeadamente no campo da educação. Números da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) apontam que um terço dos alunos de doutoramento no país são estrangeiros.

31%
é a percentagem de imigrantes em Portugal que se encontra em situação de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat

 

No que diz respeito às condições de vida, os dados são claros: a população estrangeira tem maiores dificuldades económicas e situações de emprego mais precárias. Aliás, os dados disponibilizados pela Pordata a propósito do Dia Internacional dos Migrantes, que se assinalou a 18 de Dezembro, dizem mesmo que 31% dos imigrantes residentes estão em situação de pobreza ou exclusão social – acima dos 19,8% da população portuguesa, segundo números do Eurostat. Vale a pena recordar, a este propósito, os valores da pobreza em Portugal neste artigo.

Em termos de integração na sociedade, nos últimos 15 anos a nacionalidade portuguesa foi atribuída a perto de meio milhão de pessoas (468.665).

COMO CHEGÁMOS AQUI

A migração não é um tema novo para Portugal, que desde o século XV tem atravessado sucessivos movimentos migratórios, ora de emigração, ora de imigração. Pedro Góis, sociólogo na Universidade de Coimbra e especialista nesta área, compara estes fluxos a “um carrocel tipo montanha-russa, em que a emigração e imigração se cruzam nas estatísticas e na realidade” conforme os períodos económicos. “Numa primeira vaga, [o país] acolheu imigrantes da Europa do Leste, pelos anos 2000, e actualmente de países tão longínquos como o Nepal, o Bangladesh ou o Siri Lanka”, explica.
(mais…)

O/a/e/x Acordo/a/e/x Ortográfico/a/e/x de 1990/n/x

Já não é só recorrente. Nem só obsessivo. Será enjoativo, portanto, ou nauseabundo, se quisermos adjectivar o assunto com alguma precisão escatológica, digamos, já que a mistela vai sendo servida às carradas e em camadas sucessivamente requentadas. O facto é que a agenda das palavras, dos palavros e des palavres (ou dxs pxlxvrxs) ameaça tornar-se “prato” único — em Portugal e no Brasil, porque nos PALOP ninguém se dedica a inventar problemas –, servido até à náusea a uma clientela apesar de tudo heterogénea e, pelo menos parte dela, com idade para ter juízo — ou ao menos algum tento na bola, vá.

Isto apenas interessa para aqui enquanto aparte (não***, o nome do “Apartado 53” não adveio de qualquer aparte nem do verbo “apartar”) e na medida em que a agenda do sexo dos anjos, digo, das palavras tenha algo a ver com a do neo-colonialismo brasileirista em geral ou com o seu veículo primordial, o #AO90, em particular.

Tendo em atenção que — desde a imposição manu militari da “língua universau” brasileira” — os donos da língua (a começar pela designação “língua portuguesa”, da qual se apossaram) são os brasileiros e os seus lacaios tugas, assim como quem ditou a eliminação da gramática do Português foram eles, também são eles quem agora determina — por telefone, por SMS, quem sabe se por telepatia — as “regras” da língua que os (ir)responsáveis políticos portugueses “adotaram”. Portanto, se no Brasil as palavras passam administrativamente a ter sexo (“gênero”, em brasileiro), então Portugal faz o costume, ou seja, baixa a bolinha, agacha-se, põe-se na sua posição favorita — só de cócoras, vá, que a outra, assim à descarada, na tugaria felizmente poucos se atrevem, deve ser por acanhamento.

“A língua não deve servir apenas um passado”, mas há resistência à mudança: afinal o que é linguagem inclusiva? Cinco perguntas e respostas

“Todxs”, “el@s”, “amigues”, “eli”, “elu”. Multiplicam-se as propostas para tornar a Língua Portuguesa mais inclusiva e neutra. Mas que argumentos há para a mudança? E o que dizem os linguistas sobre o futuro do Português?

Cláudia Monarca Almeida
“Expresso”, 30.06.23

Numa sala com dez, cem ou mil mulheres, basta entrar um homem para o “todas” passar a “todos”, “elas” virar “eles”, “amigas” ser “amigos”. A Língua Portuguesa evoluiu assim, mas faz sentido ser assim?

“A linguagem é um reflexo da sociedade em que nós vivemos e se apagamos pronomes femininos, estamos também a apagar pessoas”, argumenta Ary Zara (ele). “Esta seria a primeira luta: dentro deste sistema que foi criado binário, nós conseguirmos pelo menos incluir os dois géneros que são aceites legalmente.”

Mas a linguagem inclusiva é mais que isto, defende o activista. É “olhar em redor e conseguirmos incluir o maior número de pessoas e utilizar as palavras correctas que não as agridam quando nos referimos a elas.”

E acrescenta: “Não sei se alguma vez [a linguagem neutra] terá lugar na nossa língua, porque existe um grande apego. É quase um patriotismo, um nacionalismo que eu não consigo compreender. Nós não somos as mesmas pessoas que éramos há 20 anos. Portugal está um país diferente. Nós temos cada vez mais pessoas de todas as partes do mundo, pessoas com diferentes identidades e a língua deve servir todas as pessoas. A língua não deve servir uma terra ou apenas um passado.”

Por isso defende a necessidade de “uma mudança” que permita “reflectir a sociedade em que nos enquadramos”. Para que pessoas como histórias como a sua, para quem adoptar um pronome é um processo, também se revejam na língua que falam todos os dias.

“Quando nasci decidiram que eu deveria ser mulher e sempre fui tratado com pronomes femininos. Quando comecei a estudar mais o género a nível social, comecei a perceber que se calhar outros pronomes eram mais confortáveis para mim.”

Há cerca de sete anos, Ary Zara tentou utilizar pronomes neutros. “Acabei por abandonar, porque acabava por ser uma dificuldade ainda maior. Eu via as pessoas a lutar para conseguirem corresponder e isso também me deixava desconfortável. E então acabei por adoptar pronomes masculinos, por se enquadrarem mais com a imagem que eu apresentava, mas nem por isso com o meu género.”

A discussão sobre a linguagem inclusiva não é exclusiva a Portugal. No Brasil, ainda esta semana, instalou-se a polémica em torno do cantor Djavan, por supostamente ter usado linguagem neutra na promoção dos seus concertos. Tratava-se, afinal, de um anúncio escrito em catalão, por o concerto ser em Barcelona. Neste eram referidas “últimes entrades”, anunciando os últimos bilhetes disponíveis para o espectáculo. Também no mundo anglo-saxónico, o pronome “they” é cada vez mais frequentemente utilizado como pronome neutro.

Mas que espaço há na Língua Portuguesa para mudança? Para mais inclusão? O Expresso foi ouvir especialistas em linguística sobre este assunto.

1. Há consenso entre especialistas sobre a linguagem inclusiva?

Nem por isso, dizem-nos o investigador e a investigadora ouvidos pelo Expresso. “Esta questão talvez tenha tido mais mais um destaque nos últimos anos, mas é uma questão que não é nova e questões deste género sempre existiram na no debate sobre a utilização da linguagem”, diz Rui Sousa Silva (ele), coordenador do Centro de Linguística da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

“Há sensibilidades diferentes”, até porque existem diversas “concepções do que é a linguagem”, corrobora Maria Antónia Coutinho (ela), investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (CLUNL). O especialista e a especialista ouvidos pelo Expresso, por exemplo, abordam a linguagem pela sua vertente social e pela forma como a linguagem surge aplicada.

“Há quem diga que esta questão não faz sentido, que não é importante. Há linguistas que dizem que a questão da língua não tem nada a ver com as preocupações sociais. Há quem diga que há muitos problemas de desigualdades e que a linguagem não é o mais importante. É evidente que há problemas mais graves. Isso não significa que não nos preocupemos com outros que são muito importantes, na medida em que reiteram estereótipos e perpetuam-nos ao criarem uma invisibilidade total”, defende a investigadora do CLUNL.

Do ponto de vista do que é a gramática do Português, a questão é inequívoca. O que vem nos manuais é que existem dois géneros – feminino e masculino – e é o segundo que deve ser utilizado como genérico.

“Temos aquilo que nós aprendemos na escola, que é uma certa imposição da norma da língua, mas nós sabemos que a linguagem é muito mais do que a norma”, defende Rui Sousa Silva. A língua tem vários registos, argumenta. Na oralidade, as pessoas utilizam a língua de forma diferente da escrita. O registo formal de uma conversa é muito diferente do informal. Utilizar um registo fora do contexto causa até estranheza.

“A gramática prescritiva, que é aquela que nos diz quais são as normas, é bastante conservadora, mas todos os dias vemos prevaricação (termo técnico da linguística) e ninguém é condenado por isso. Faz parte do processo natural da linguagem.”

E por isso, diz Rui Sousa Silva, as discussões sobre o uso da linguagem são uma questão que permanece sempre em aberto. “Do ponto de vista científico, a discussão naturalmente não se vai esgotar aqui”. O debate começou por um questionamento sobre a imposição do masculino sobre o feminino enquanto o genérico, “mas agora estamos a perceber que este binarismo não resolve todos os problemas”, explica. Por isso, é natural que com as próprias mudanças da sociedade, surjam novas questões. (mais…)

‘Todo o mundo e ninguém’

«Portugal precisa de boa imigração e de investimento, do Brasil e dos países de língua portuguesa, da mesma forma que o Brasil e os outros países precisam de uma porta de entrada para um mercado europeu.»
«O primeiro-ministro português sabe isso e vai lutar na União Europeia por um regime especial para os cidadãos dos países de língua portuguesa, tentando aprovar – ou pelo menos permitir – a criação de uma primeira “cidadania da língua” na história universal.» [José Manuel Diogo, “APBRA200”, 27.06.22] [post «Portugal, um Estado brasileiro na Europa»]

Na dita “comunidade” brasileira um país serve como capacho de entrada na Europa e de trampolim para África. A dita “mobilidade” só existe num sentido. A dita “reciprocidade” vale apenas no papel.
Todos os custos para um e todos os benefícios para o outro, eis aquilo em que consistem os sucessivos “acordos” entre Portugal e o Brasil. [post “Três mil e cem por dia”]

Brasileiros vão ter “estatuto de igualdade” digital e poder tratar do documento online: “Uma solução que é boa para todo o mundo”

O processo de digitalização “já está muito adiantado”, afirmou o secretário de Comunidades Brasileiras e Assuntos Consulares e Jurídicos do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Leonardo Gorgulho, que se encontra em Lisboa para uma série de reuniões de trabalho

“Expresso”, 29.05.23

Os brasileiros residentes em Portugal vão ter um documento digital que lhes confere o estatuto de igualdade em relação aos portugueses em várias matérias e poderão tratar da documentação ‘online, garantiu hoje fonte oficial.

O processo de digitalização “já está muito adiantado”, afirmou o secretário de Comunidades Brasileiras e Assuntos Consulares e Jurídicos do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Leonardo Gorgulho, que se encontra em Lisboa para uma série de reuniões de trabalho.

“Tivemos hoje uma conversa com o SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], apresentamos a eles o documento que estamos desenvolvendo em seu formato que pretendemos seja o final (…), digital, e a receptividade foi muito boa“, referiu o diplomata.

O embaixador falava ao final da manhã no consulado-geral do Brasil na capital portuguesa, admitindo que o documento poderá estar apto naquele formato já no decurso de Junho.

“Eles estão muito satisfeitos e ficaram muito agradecidos de que a gente propicie esse tipo de alternativa“, acrescentou Leonardo Gorgulho, no encontro em que também participou o cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Wladimir Valler Filho.

“Uma solução que é boa para todo o mundo. É boa para o cidadão, que vai receber em menos tempo [o cartão], é boa para o consulado, que consegue fazer o serviço e dispensa a vinda da pessoa aqui [ao consulado-geral em Lisboa] e é boa para o SEF, porque é um documento que vai ter as medidas de segurança que eles precisam que tenha”, explicou.

Segundo o responsável do Itamaraty (Ministério dos Negócios Estrangeiros), a ideia do Governo brasileiro é fazer um processo totalmente virtual dentro do e-consular (programa do consulado) com o qual as pessoas já estão familiarizadas.

“Assim como elas entram hoje no consulado para pedir passaporte e certidões entrarão no e-consular para pedir esse certificado, farão todas as etapas lá dentro, enviarão para validação e receberão um ‘e-mail’. Por esse ‘e-mail’ poderão acessar a esse documento”, especificou Leonardo Gorgulho.

O “documento vai ter um formato digital, um ‘keycode’ [código de acesso] e um ‘link’ para verificação da autenticidade. E as autoridades portuguesas através do código e do ‘link’ darão a validade necessária”, continuou.

De acordo com o responsável do Itamaraty, o Governo brasileiro espera que vá agilizar muito o processo, evitar filas e facilitar a vida das pessoas, pois não precisam de esperar agendamento no consulado para tirar o documento “e vão receber sem sair de sua casa o documento“.

No entanto, Leonardo Gorgulho alertou que se trata de “um documento só para Portugal”, acrescentando que isso demonstra a importância que o Governo brasileiro “dá à comunidade brasileira em Portugal”.

Segundo o diplomata do Itamaraty, o documento reflecte também o diálogo e a utilidade das reuniões de coordenação consular e das bilaterais regulares com Portugal ao longo dos últimos meses.

Por fim, mostra que “as soluções para os problemas podem vir de muitas formas”.

Quanto ao tempo para a entrada em vigor do processo, respondeu:”Não sei em que prazo nós vamos começar a emitir [o documento digital], mas vai ser muito em breve, não vai ser coisa de meses“.

“Estamos fazendo testes, porque isso não pode ser uma coisa leviana. Vamos fazer uma base de piloto, num ambiente controlado, mas isso tudo em etapas muito breves e próximas. A nossa ideia é que ao longo de Junho isso esteja apto”, concluiu.

[Transcrição integral. Cacografia brasileira do original corrigida automaticamente. Gráfico de: “ECO“.]

“Valor económico da língua” brasileira

“ranking” de passaportes por países em função do número de destinos

Armando Baptista-Bastos (1934 – 2017)

“Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

Rui Cardoso
“Expresso”, 09.05.17

Baptista-Bastos, 83 anos, morreu esta terça-feira. Rui Cardoso, editor de internacional do Expresso,escreve-lhe uma carta de despedida, eles que se conheceram no espaço mais íntimo do jornalismo: a redacção

Quando comecei a colaborar no “Diário Popular”, em finais de 1977, já não fui a tempo de conhecer todos os grandes repórteres que tinham feito a grandeza do jornal. Dois destes eram famosos e iguais em valor profissional, ainda que opostos no plano das ideias: José de Freitas, já então falecido e simpatizante da esquerda, e Urbano Carrasco, que ainda conheci, incondicional do salazarismo.

Durante os anos quentes de 1974/75, o bom senso, inspirado por José Manuel Rodrigues da Silva, prevalecera e o jornal seguira o lema “trabalhadores não saneiam trabalhadores” e ninguém foi afastado por razões políticas, em nome de um bem maior que era continuar a fazer um bom jornal.

Nesta redacção, a única da imprensa portuguesa com um director eleito – Jacinto Baptista –, aprendi a profissão, vendo trabalhar grandes profissionais, infelizmente desaparecidos com o correr dos anos: Abel Pereira, meu primeiro chefe de redacção, que me dizia sempre “olha a pressa rapaz, a pressa passa mas as asneiras ficam”; Acácio Barradas, que o substituiu, eleito pelos seus camaradas de trabalho; Adelino Cardoso, Humberto de Vasconcelos, Ângelo Granja, que era tão alto que na brincadeira lhe chamávamos “o maior jornalista português”.

E havia o Baptista-Bastos, claro. Sempre impecavelmente vestido, dava-se por ele quando entrava na redacção, até porque raramente era o primeiro a fazê-lo. Com voz de trovão, elevando-se acima do matraquear das máquinas de escrever e de dúzias de conversas em voz alta ao telefone, lançava um tonitruante “bom dia camaradas” que às vezes, ao sabor das indisposições e dos ódios de estimação, evoluía para fórmulas das quais a única publicável era “bom dia a todos menos a um”.

Era um dos últimos representantes do velho jornalismo da boémia e do Bairro Alto (onde ficavam, entre outros, o “Popular”, “A Capital”, o “Diário de Lisboa”, a “Bola”, o “Record” e o “Século”), o que fazia com que pertencer a esta profissão significava estar paredes meias com a literatura, as artes, a ciência a política e a filosofia. E, acima de tudo, com a correcção da escrita e a virtuosidade no uso da palavra.

Bastos, com obra publicada, escrevia primorosamente e não tolerava tiques de escrita, modismos ou prosas escritas à pressa. Muito menos cacofonias, erros de sintaxe ou de ortografia. Ainda não se sonhava com acordo ortográfico e já ele berrava a plenos pulmões: “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”.

Seria impensável naquele tempo encontrar nas páginas do “Diário Popular” prosas cheias de “implementar”, “imperdível”, “emblemático”, “de acordo com” e demais barbaridades hoje tornadas corriqueiras, para não falar nos desmandos vindos de quem nem fala inglês nem português e nos mimoseia com “serviços de inteligência”, “oficiais do governo”, “adictos” ou “jovens mulheres”…

Eu e o João Garcia, que naquele tempo éramos os miúdos daquela redacção, habituámo-nos a ver partir muitos daqueles que nos ensinaram a ser o que somos. Foi agora a vez do Bastos. Até sempre, camarada!

 

Fonte: Expresso | “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

«Dois tempos desortografados» [Nuno Pacheco, “Público”]

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Dois tempos desortografados

Nuno Pacheco

“Público”, 30.03.17

Regredimos, em pleno século XXI português, aos tempos em que a instabilidade ortográfica era vulgar

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Já aqui se falou disto várias vezes, mas como a praga não passa nem sequer se atenua, convém falar outra vez. Peguemos numa revista, entre muitas. Numa página, em título destacado, lemos a palavra “atualidades”, num texto “atuais”, lendo-se noutras páginas e em diferentes textos, “actual” e “actuais”. Lê-se também, num apontamento literário, a palavra “correta”, isto apesar de noutras páginas da revista, e em textos distintos, surgirem as palavras “correcta” e “correctamente”. Que revista pensam que é? A Atual do Expresso? Podia ser. Essa ou qualquer outra dos nossos dias. Mas é a Revista Portugueza ABC de 6 de Junho de 1929, vendida por uns módicos 1$50 e, claro, visada pela Comissão de Censura. Nela havia ainda palavras como “auctores”, “azes de cinêma”, “hespanhol”, “anciosa”, “scêna”, “sciência” e uma secção dedicada a “todos os sports” (onde se falava, claro, de “football”). Tinham passado dezoito anos sobre a reforma ortográfica de 1911 e faltavam outros tantos para a de 1945. A instabilidade ortográfica era vulgar nessa altura, não só na ABC, mas noutras revistas da mesma época. Pois em pleno século XXI português regredimos a esses tempos. Uns dirão que isso se deve à não-aplicação integral do acordo ortográfico de 1990; outros, que é precisamente a tentativa de aplicá-lo, na irrazoabilidade das suas regras, que gera o caos. E estes últimos têm comprovada razão. Basta ver o que se passa com o Diário da República, que devia ser modelar nesse zelo aplicativo, para levar as mãos à cabeça em desalento absoluto. De resto, um passeio por lugares públicos é também instrutivo a este respeito. As legendas de obras expostas em museus são uma delícia de ortografias mistas. Na exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que esteve no Museu do Chiado, em duas paredes vizinhas e logo nos títulos de textos ali estampados, falava-se, à esquerda, da “recepção” que Amadeo tivera em Lisboa e, à direita, na “receção” que teve, à época, no Porto. Um primor. No CCB, também em cartazes enormes, lê-se que ali pode ser vista a “colecção Berardo” e, mais adiante, a “coleção Berardo”. Outro primor.

Pior, muito pior, é a sanha implacável dos que não olham a meios para aplicar o dito “acordo” a tudo o que mexa. Exemplo: um livro como Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, de Mário Soares (edição Temas & Debates, Círculo de Leitores) está inexplicavelmente “traduzido” para acordês, isto quando qualquer carta deveria manter ao ser editada a ortografia com que foi escrita. Outro exemplo: na mais recente crónica de Ana Cristina Leonardo na revista do Expresso (a da edição de 25 de Março) ela cita António Guerreiro a propósito de Rentes de Carvalho. A frase citada (de um artigo que ele escreveu no Ípsilon em 6 de Maio de 2016) refere, a dada altura, “a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa”. Isto foi o que ele escreveu. Na transcrição aparece “atual” em vez de “actual”. Ora sabendo que a autora, tal como o citado, não são partidários do chamado AO90, a emenda é da responsabilidade do próprio Expresso. Desrespeito absoluto. Que é norma instituída. Há editoras que forçam os autores, até os vencerem pelo cansaço, a aceitarem uma ortografia que não usam e rejeitam. E há quem fique com livros por publicar por causa disso. Até ilustres membros da Academia das Ciências de Lisboa!

Contra este estado de coisas, já muito se tem feito. Mas não chega, como é bom repetir. Entre as acções anti-acordo, está em curso uma deveras curiosa: conseguir estampá-lo em papel higiénico. Em rigor não é escatologia. Há papel higiénico estampado com quase tudo, desde coisas simpáticas até coisas repugnantes: rosas, pinguins, flamingos, sapos, pais natais, noivos sorridentes, hello kittys, jacarés, arame farpado, palavras cruzadas, grelhas de sudoku, notas de dólar e de euro, caras de políticos (Che, Fidel, Estaline, Putin, etc) ou presidentes norte-americanos como George W. Bush, Barack Obama e até já Donald Trump. A que visa o AO90 chama-se Operação Folha Dupla e está em curso. Haverá para a ortografia uma “saída airosa, para bem de todos”, como em 2106 profetizou Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa? Pois se não for airosa, ao menos que seja higiénica. Útil para muitos, talvez alguns até a emoldurem.

Nuno Pacheco

[Artigo da autoria de Nuno Pacheco, “Público”, 30.03.17. Imagem de topo copiada do “blog” Malomil. “Links” meus.]