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Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Facebook

Natal 2018 — “Time Out” Lisboa

 

 

Nada vai além dos 10€ e há sugestões para todos os gostos.

Publicado por Time Out Lisboa em Quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dezembro é o mês de fazer da agenda um puzzle de jantares com amigos, colegas e familiares e, mais ainda, tratar de arranjar um presente para aquela troca de prendas em que se enfiou quando aceitou a janta. Mas pode começar mais cedo a pensar no que dar ao comparsa para não deixar para a última e comprar uma bagatela qualquer. Se entrou no espírito da época, comece lá a riscar nomes dessa lista com estas ideias de presentes para o amigo secreto – nada vai além dos 10€ e há sugestões para todos os gostos.

Recomendado: Os melhores mercados de Natal em Lisboa

Publicado por João Pedro Graça em Quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Prepare as pernas e parta à aventura! Temos dois roteiros por descobrir: os segredos da Graça e Alfama ou os tesouros e histórias do Bairro Alto e Bica.

O melhor de tudo? Esta aventura vai ser grátis. Com o espírito natalício que se vive na cidade, não quisemos ficar de fora e a Time Out, em parceria com a Secret City Trails, vai oferecer o jogo a todos os participantes durante 48 horas, no último fim-de-semana do ano. É o nosso presente de Natal para si. Por isso não diga que não a mais uma rabanada ou uma fatia de bolo-rei, porque no fim-de-semana a seguir ao Natal vai queimar tudo isso enquanto descobre segredos escondidos da cidade.

Para participar basta escolher o seu jogo aqui (https://www.secretcitytrails.com/timeoutlisboa/), entre os dias 29 e 30 de Dezembro, e inserir o código 48HOURS durante o processo de pagamento para obter o jogo gratuitamente. O link do jogo será enviado para o seu email instantaneamente e o jogo fica imediatamente disponível para que possa sair para a rua e descobrir a cidade – aproveite para apreciar as luzes de Natal pelo caminho, antes que desapareçam por mais um ano.

Nota: o código apenas é válido durante o fim-de-semana de 29 e 30 de Dezembro. Compras efectuadas fora desse período não estão abrangidas por esta campanha.

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Natal 2018 — E-Primatur & BookBuilders

 

 

ÚLTIMA OPORTUNIDADE. Ainda tem prendas por decidir?Sabia que o livro é, comprovadamente, a prenda que tem menor custo…

Publicado por E-Primatur em Segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ÚLTIMA OPORTUNIDADE. Ainda tem prendas por decidir?

Sabia que o livro é, comprovadamente, a prenda que tem menor custo relativamente ao tempo de usufruto da sua leitura?

Visite os sites da E-Primatur e da BookBuilders, todos os nossos livros têm 10% de desconto e os portes são por nossa conta.

www.e-primatur.com
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Last chance. Do you still have gifts to decide?

Did you know that the book is, demonstrably, the gift that is less cost than the time of your reading?

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Facebook em Português de Portugal

Mais um apelo a que ajudem na tradução do Facebook para Português.

Já sabemos que, por exemplo, a “Wikipêdjia lusôfuna” foi tomada de assalto por meia dúzia de brasileiros “adotivos” e que, portanto, enquanto esses sabujos não forem corridos aquilo é impenetrável, mas no Facebook não se passa nada disso. São neste momento 180 os inscritos no grupo de tradutores Português (Portugal) e, desses, pelo que vejo, poucos serão brasileiros genuínos ou portugueses vendidos a servir de “controleiros”. Portanto, estamos ali muito mais à vontade do que na Wikipêdjia ou nos diversos serviços da Google — até porque são conceitos distintos em plataformas com finalidades radicalmente diferentes.

Traduzir o “interface” do Facebook não é propriamente, como dizem os americanos, rocket science (“engenharia aeroespacial”, digamos). Qualquer pessoa, de vez em quando, no intervalo de qualquer coisa ou simplesmente quando não tiver nada que fazer — na sala-de-espera do consultório, na fila para pagar as compras, numa Repartição à espera de vez — pode ao menos ir votando numas quantas traduções em Português correcto.

Quantos mais formos a ajudar nisto, menos provável será que algum dos acordistas de serviço se atreva a sequer votar contra e, muito menos, a alterar as nossas traduções já aprovadas.

E nem mesmo é preciso ser-se tradutor/a profissional, nem estar inscrito na APT. A coisa é bem mais fácil do que, se calhar, parece. Colaborar nesta “empreitada”, posso afiançar, acaba por se tornar quase viciante. Rapidamente o hábito de abrir a página e desatar a votar nas palavras, frases e expressões-chave em Português correcto torna-se rotineiro.

Contando com uma larga maioria de participantes anti-acordistas (de pouco ou nada adianta só falar), é claro, mais facilmente — e mais depressa — veremos “as nossas palavras” (em duplo sentido literal) servindo a milhões de pessoas biliões de vezes.

Esta é uma das páginas do “ambiente de trabalho”, onde podemos ver todo o nosso historial. O quadro mais importante é o da lista das tradução rejeitadas/desaprovadas pela “comunidade”; por aí podemos obter orientações de “consistência” e ver se os acordistas andam a votar contra ou a anular as nossas traduções em PT-PT.

Nesta imagem vemos “Actualizar” (voto) e “esoaço” (em vez de “espaço”; foi erro propositado para testar os “censores” .

Nesta imagem está “interactivos” (tradução) e “eliminar” (votação). Nada de brasileiradas (“interativos”, “deletar”).

Os títulos obtidos (“achievements”) pouco ou nada interessam – são um engodo do Fakebook para captar tradutores e obter traduções inteiramente grátis – mas os números contam (e interessam) muito.

 

“1 T” é “one Trillion” em Inglês, o que corresponde a um bilião, em Português, ou seja, um milhão de milhões.

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Missão omissão

Então, sem ruído, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, entreabriu a porta. O filho escrevia, à luz de duas velas, com o estojo aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pai: e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.

– Estou a escrever, disse ele.

Esfregou as mãos, como arrepiado da friagem do quarto, e acrescentou:

– Amanhã cedo é necessário que o Vilaça vá a Arroios… Estão lá os criados, tenho lá dois cavalos meus, enfim uma porção de arranjos. Eu estou-lhe a escrever. É número 32 a casa dele, não é? O Teixeira há de saber. Boas noites, papá, boas noites.

No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso não pôde sossegar, numa opressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silêncio da casa e do vento que acalmara, ressoavam por cima lentos e contínuos os passos de Pedro.

A madrugada clareava, Afonso ia adormecendo – quando de repente um tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um criado acudia também com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto vinha um cheiro de pólvora; e aos pés da cama, caído de bruços, numa poça de sangue que se ensopava no tapete, Afonso encontrou seu filho morto, apertando uma pistola na mão.

‘Os Maias’, cap. II, 37/519

 

Não me refiro ao facto de não haver naquele epistolar “apelo” uma única referência, uma só alusão ao “acordo”, ainda que metafórica ou elíptica, se bem que essa espécie de “lapso”, essa tão ruidosa omissão merecesse — sem necessariamente chegar a extremos de palmatoadas mentais — alguma espécie de reparo.

Mas deixemos isso, por enquanto.

O caso agora é que… bálhamedeus!

Vês como respira?“, pergunta ele ao coitado do aluno.

“Não, não vejo”, responderia o pobre catraio, aposto, bocejando, se porventura alguém o fosse chatear lendo a cartinha.

Eh, pst, ó Afonso, pá, olha, este tipo de “abordagem”, escorrendo o visco paternalista e condescendente que tipifica a infantilidade moderninha, decididamente, não funciona com a garotada. Não funciona, aliás, com ninguém, use ou não use calções, tenha já ou ainda não largado os cueiros.

E “calhamaço”, caneco, dizes tu, rapaz, na tua missiva à rapaziada, sobre o livro de teu tetravô Eça. Bálhamedeus, repito. Correr ‘Os Maias’ assim, à matroca, dar-lhe roda de “calhamaço”, bem, essa foi cruel, essa foi demasiadamente muito, irra, essa foi de escachar! Eça não merecia essa, digo eu, sem trocadilhos foleiros, que ninguém merece.

E ainda, dizes, “obras como Os Maias e escritores como o Eça de Queiroz dão-te armas para o futuro“. Ui. Nem me lo digas! Armas? Quais armas, quais cacete, santinho!? Mas que ideia tão desnecessariamente marcial, mas que “imagem” tão fatela! Isso das “armas para o futuro” tresanda a “5.ª emenda”, man, lembra a NRA e cromos como Charlton Heston (iach!) ou, horror dos horrores, Chuck Norris (blherrgh!).

Bem sei tratar-se o armamento de simples metáfora (ah, metonímia? Ok, atão vá, metonímia), mas sucede com a Literatura  precisamente o inverso, Afonso, e por maioria de razões é a escrita de Eça, em geral, coisa de paz, e em particular ‘Os Maias’ — paz celestial, oh, doce remanso do sonho vigil, em recato impúdico a pura delícia do sossego absoluto!

Era teu tetravô José Maria (tetravô, notarás, não tretavô) então o mesmo jovem que ainda hoje, aos 130 anos, desmonta elegantemente do seu dog cart, entra em tua casa estugando o passo e assesta em ti o seu monóculo, já rebrilhante, mordaz, faiscando de curiosidade. A escrita desse eterno jovem, jovem, é pura magia, colhe e prende e arrebata — precisamente — pelo fascínio do conforto, o engodo da “verve” escorreita que acolhe numa atmosfera repousante o mais irrequieto dos espíritos. Ou seja, dos velhos de todas as idades entre os 13 e os 130.

Mas que chorrilho de vulgaridades, raios, quero dizer, até um puto sabe disto.

Está, por conseguinte, muito mal formulada a questão, essa bipartida pergunta fraquinha, fraquinha: “Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?

Pois sim, pois respira. Mas não, não precisa de garoto algum para sobreviver. Não cabe pedir aos ganapos  seja o que for. Se querem ler, lêem. Se não querem, não lêem.

E se não quiserem, eles é que ficam a perder. Nisso estás tu, jovem, carregadinho de razão; menos mal, salva-se o final.

Carta ao aluno que não lê “Os Maias”

Sílvia Souto Cunha
visao.sapo.pt, 06.12.18

O escritor Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, escreveu para a VISÃO uma carta aos estudantes sobre o “calhamaço” publicado há 130 anos e ensinado nas nossas escolas. “Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?”

O calhamaço que te obrigam a ler na escola está velho. Foi escrito há 130 anos (imagina a tua vida multiplicada por oito), é pois natural que te pareça demasiado pesado, um cadáver de papel do qual queres livrar-te o mais rapidamente possível. Mas atenção, tem calma. Pega-lhe com cuidado, sopesa-o na palma da mão como o telemóvel do qual dependes.

Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?

Eu sei: a obrigação pesa. Só o facto de te meterem o livro à frente, de o analisarem contigo; pior, de o limitarem àquele tipo de estudo muito vazio que visa o exame, só isso já te estraga a vontade. A mim também estragou. Mas repara: o Eça não tem culpa de o submeterem à burocracia do ensino, de o terem posto nessa camisa de forças, e de te obrigarem a ti, que tens mais que fazer, a acatar ordens. Pensa que ele não escreveu para ti. Quer dizer, para te estragar a vida. Muito pelo contrário.

Talvez por te sentires encurralado, preferes trocar apontamentos nos corredores, pedir os esquemas ao idiota útil que até conseguiu ler a obra toda, ou, mais simples, talvez te decidas pelos primeiros cinco resultados no Google. Estes falam das características físicas e psicológicas das personagens, dão-te tabelas com datas, citações, resumos de cada capítulo, expõem a biografia do Eça – esse escanzelado de monóculo –, explicam a analepse inicial, sempre gigantesca, mostram laivos da vida no século XIX, e descrevem o virar do Romantismo para o Realismo. Mas que te interessa a ti como viviam as pessoas daquela época? De facto, concluis tu, só um parvo pode achar que este livro tem qualquer interesse.

(mais…)

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“O ananás português e o abacaxi brasileiro” [Nuno Pacheco, “Público”, 06.12.18]

Nas voltas da língua, por entre cá e lá

Duas revistas, a ‘Linguará’ brasileira e a ‘Luzes’ galega, reforçam a importância da diversidade da língua, a despeito das distopias “unificadoras” dos novos tempos.

Nuno Pacheco
publico.pt, 06.12.18

 

Entre tantas, e por vezes tão falsas, declarações de amor eterno à língua portuguesa, há uma verdadeiramente notável. Escreveu-a o poeta brasileiro Manoel de Barros (1916-2014) e foi aliás destacada na contracapa da edição portuguesa da sua ‘Poesia Completa’ (ed. Caminho, 2010). Diz assim: “A única língua que estudei com força foi a portuguesa. Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.” Ora este errar não deve ser confundido com desacerto ou engano, porque significa (e quem o lê facilmente o confirma) vaguear, não se fixar, andar de um lugar para outro. E se o fez com mestria o poeta, fê-lo igualmente a língua portuguesa.

Tirando partido dessas errâncias, e do resultado delas, acaba de ser lançada uma revista de nome ‘Linguará’, editada por Carla Paoliello, Maria José Amorim e Priscilla Ballarin, todas elas brasileiras e residentes em Portugal, onde a revista é editada. Quadrimestral, começou na primeira letra do alfabeto, o A, e conta percorrê-las todas, incluindo K, W e Y, colhendo nessa viagem frutos da errância do idioma. Ou, como escrevem em editorial, navegarão “na fonética, morfologia, léxico, sintaxe, acordo, desacordo, o comum, o incomum, as inúmeras transformações da língua portuguesa. O que nos une, o que nos separa. A conexão feita pela via da palavra, igual e diferente, dos países desta mesma língua.” E isso faz-se com poesia, artes plásticas, paisagens (e lá estão, lado a lado, Aveiro ou Alter do Chão, as de cá e as do Brasil, ambas no Pará), palavras diferentes para um mesmo objecto ou coisa. Há um léxico breve, no final, na linha do levantamento que, entre Lisboa e Belém do Pará, haviam feito em livro a portuguesa Anete Costa Ferreira e as brasileiras Rosa Assis e Ana Cerqueira. O livro, lançado em Abril de 2006, chamou-se ‘De Olho na Língua – Palavras de Cá e Lá’. Mas a revista ‘Linguará’ (lançada esta quarta-feira na Livraria-Bar Menina e Moça, ao Cais do Sodré) é também “desmontável”, o que faz com que, tiradas duas das suas páginas, surjam lado a lado o ananás português e o abacaxi brasileiro, o primeiro representado num jarro de cerâmica (de Bordallo Pinheiro) e o segundo numa popular jarra de plástico (da Trol). Além dos nomes do fruto, diferem os do recipiente (jarro, jarra) e as frases que, inscritas no verso, querem dizer a mesma coisa: “Faz crescer água na boca” (cá) e “Dá água na boca” (lá). Se nesta primeira edição o jogo linguístico e vocabular se faz essencialmente entre o Brasil e Portugal, prometem vir a alargar fronteiras aonde quer que a língua viva e se transforme.

Antes de ‘Linguará’, porém, saiu ‘Luzes’, revista que se edita na Galiza e que dedica a sua 59.ª edição às ligações culturais com Portugal. Sob o título “PortuGaliza, saudade de futuro”, a revista dirigida por Manuel Rivas e Xosé Manuel Pereiro inclui um lote interessantíssimo de artigos e é inteiramente escrita em galego, mesmo os textos de portugueses (Rui Reininho ou Francisco Teixeira da Mota). Isto quer dizer que, apesar do movimento reintegracionista (que quer, na sequência da lei Paz Andrade, instituir na Galiza o “português-padrão”), a língua galega ainda se afirma como veículo cultural identitário. A Rede da Galilusofonia, constituída em Braga, em 23 de Novembro, ainda emitiu dois comunicados paralelos, um em português e outro em galego. Mas é uma riqueza que a visão estreita ameaça, ao tentar anular as diferenças para fazer valer a “novilíngua” imposta pelo dito “acordo ortográfico”.

Enquanto as botas cardadas dos “unificadores” marcam passo, a língua vive. E é bom ler, no editorial da ‘Luzes’: “O que máis ten que unirnos é a historia por facer: encher a saudade de porvir. E que este novo espazo, a Portugaliza, sexa unha referencia de navegar valente na Europa varada.” Precisaram de tradutor? Não, nem agora nem antes. Nas peças quinhentistas apresentadas na semana passada na Sá da Costa pelo Teatro Maizum (que faz um trabalho meritório na afirmação do Teatro Clássico), lá estavam representados, como personagens, o “português”, o “galego” e o “castelhano”. Nos respectivos falares e a séculos de distância da distopia “unificadora” do “acordo ortográfico”. Poderia o célebre Luís de Matos fazê-lo desaparecer, num passe de mágica, no ‘Impossível Ao Vivo’ que vai apresentar no Tivoli? Milhões de portugueses, brasileiros, africanos e galegos agradecer-lhe-iam de bom grado.

[Transcrição integral de artigo do jornal “Público”, da autoria de Nuno Pacheco, publicado em 06.12.18. “Links” e destaques meus. Imagens de topo de: BordalloPinheiro.pt e de: “mercado livre” (jarro “marca” Troll), Brasil, “LOL”.]

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“Erosão da memória colectiva” [Bagão Félix]

Política e políticas

A soberania reside no povo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.

Bagão Félix
“Público”; 30 de Novembro de 2018

 

A política está cada vez mais capturada pela aparência, pela obsessão do actualismo, pela catadupa de notícias devoradas umas pelas outras, pelas sondagens e likes, pelo primado da conveniência, pelo tacticismo sem estratégia, pela erosão do poder-dever. A ideia de política com ética vem-se rarefazendo, porque se para a política muitas vezes basta parecer (e aparecer), para a ética não basta a “markética” de parecer, é mesmo preciso ser.

O espectáculo do anúncio tornou-se central. Já não é preciso fazer, basta anunciar. O escrutínio e acompanhamento da acção política perde-se na penumbra do tempo e na erosão da memória colectiva. Não se age, antes se reage, em agendas mais marcadas pelo oportunismo do que pela convicção. Abraçam-se minudências para se procrastinarem os grandes desafios. Mistura-se a insignificância com a gravidade, a festarola com a solenidade. As ideias tornaram-se moldáveis, volúveis, permutáveis, negociáveis em forma de plasticina intelectual. Pelo mundo fora, há fartura de políticos dos direitos, escasseiam políticos dos deveres e estadista é uma espécie em vias de extinção.

Neste quadro têm sucesso os mais espertos, às vezes os mais falsos, aqueles para quem os fins sempre justificam os meios. Uma forma quase darwinista de preservação.

As ilimitadas formas de comunicação tornaram o jogo político numa corrida sem tréguas, mas também sem a exigência de se pensar para além do dia seguinte. Mais do que discutir ideias, formulam-se expedientes. O que hoje é considerado fundamental, amanhã pode passar a secundário e vice-versa. O que ontem foi uma promessa, amanhã poderá ser uma omissão. Por tacticismo ou por incompetência, confunde-se a árvore com a floresta. A compulsão de se discordar ou concordar é quase sempre apenas guiada por se ser oposição ou poder.

A míngua da ética da convicção e a diluição da ética da responsabilidade potenciam abordagens egoísticas ou, no máximo, utilitaristas, teleologicamente desprezíveis e favorecem ambientes corruptíveis e dissolventes. Hoje, diante de conflitos de interesses reais ou potenciais, moldam-se as leis e as regras para, não raro, legalizar o que nem sempre é legítimo. O pudor já nem sequer é um fiável regulador ou “termóstato” de conduta.

À falta de argumentos ou à boleia da preguiça intelectual, opta-se crescentemente por etiquetagens redutoras e perigosamente simplistas. Os “ismos” e os “istas” passaram à categoria de insulto alegremente papagueado que, todavia, esconde a ignorância. Em curto-circuitos axiologicamente indigentes, tuita-se, instagrama-se, facebooka-se, numa mistura de pobreza linguística, sintaxe primária, aversão ao raciocínio profundo e desprezo pela memória.

As fronteiras de interesses entre o que é ou deve ser público e sujeito à tutela do bem comum e o que é privado estão sujeitas a subjectivismos interpretativos, volúveis e movediços em função do contexto que existe ou se quer que exista.

A autenticidade, isto é, a conformidade ontológica entre ser-se, estar-se, pensar-se, dizer-se, fazer-se, esboroa-se e o mascarado só precisa de, de quando em vez, trocar de roupagem para prosseguir o fingimento.

Muda-se em razão das conveniências, não em função das convicções. Ou das dinâmicas e das narrativas, como agora se ouve. As doutrinas políticas já não são o que eram e as ideologias cedem ao pragmatismo de qualquer realpolitik doméstica ou importada.

A linguagem parece perder a força da representação genuína para ser um instrumento ao serviço de objectivos ideológicos, que se servem da “correcção política” para tudo moldarem a arquétipos de construtivismo social. A mistura sórdida de individualismo agressivo e indiferentismo esboroa o primado da individualidade e até da dignidade da pessoa.

Os poderes transformam-se em sociedades de marketing comercial e de merchandising político. As estatísticas, torturadas a bel-prazer, tornaram-se a mãe de todos os instrumentos de análise, conveniência ou omissão. O Estado de direito, não raro, fica refém de poderes não escrutinados e de forças ocultas ou dissimuladas.

Cada vez mais se quer fazer restringir a responsabilidade política à culpa pessoal como forma de ultrapassar momentos críticos e de ladear a prestação ética de contas perante os representados. É o tempo do talvez, do apesar de, do caso tivesse sido ou de qualquer outra adversativa. É o tempo de, perante um problema, uma tragédia, se entrar num jogo de culpas, mas não de desculpas, num assomo de hipocrisia, limitando-se (quando conveniente) o Estado à Administração Central. Nada acontece diante da infracção e devassa por meios ilícitos de direitos cívicos inalienáveis, possibilitadas por um Estado de direito fraco, permeável, transaccionável q.b., aproveitado por certa comunicação social vampiresca que não olha a meios. Nada acontece a não ser os inquéritos da praxe sem fim à vista e com os responsáveis a assobiar para o lado.

A soberania reside no povo, dizem os preceitos constitucionais das democracias no mundo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.

Bagão Félix

[Source: Política e políticas | Opinião | PÚBLICO. “Links” e destaques meus. Imagem de topo de: AZ Quotes.]

"If it is not right, do not do it, if it is not true, do not say it."–from MEDITATIONS (c. 121–180 AD)

Publicado por Marcus Aurelius em Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

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