Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Fakebook

«Resistir ao disparate» [Rui Valente, “Público”]

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa

A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se.

Rui Valente –

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No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

O Acordo Ortográfico sempre foi um desastre, sob todos os pontos de vista: científico, político, social. A fuga para a frente e a insistência na sua aplicação só tem servido para agravar ainda mais o estado da ortografia no nosso país. Neste contexto, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. O que correu mal?

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes acabou — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa mas, passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90, cuja única conclusão, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem. Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Rui Valente

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

“Público”, 14.11.17

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«Admirável Língua Nova (Parte IV)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte IV)

Senhores acordistas, por paradoxal que possa parecer, é com o vosso Acordo que nasce uma profusão de erros nas consoantes mudas – eis mais um pretenso problema que o Acordo veio resolver, mas que apenas agudizou.

Manuel Matos Monteiro

 

Observe o leitor ou a leitora o seguinte passo de um livro publicado em 2011.¹

“Contar uma história bem contada, fazer um texto ficar filé. E como é que a gente faz um texto ficar filé? Queimando as pestanas no estudo da parada da literatura. O vô do Tom pediu pra gente contar a tal história do nosso reino, mas tudo o que a gente fez até agora é só garranchos, só xaboque que a gente escreve nas coxas… A gente escreve mal pra chuchu… A parada só entra areia… Mó xaropada…”

Creio que não precisarei de lhe dizer se se trata de um texto em português de Portugal (ou, se preferir, em português europeu) ou em português do Brasil. Não há – felizmente! – acordo ortográfico que ate com uma corda esta diversidade. Não deixa de ser curioso que, no passo transcrito acima, a aplicação do Acordo não altere rigorosamente nada, ou seja, não crie um átomo de aproximação entre o português do Brasil e o português de Portugal – o que é ‘per se’ bem ilustrativo da particular inutilidade desse documento de engenharia verbal quanto ao seu propósito principal. O que é diferente é irreconciliavelmente diferente. Tal diversidade (ortográfica, sintáctica, prosódica, lexical, semântica) é, ademais, prova viva da riqueza da nossa língua.

Sucede que o Acordo é aprovado (é importante ler estes documentos oficiais…) porque “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Acaso alguém deu conta de que o Acordo constituiu um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa?, de que a nossa língua adquiriu mais prestígio internacional com o dito? Estará o prestígio internacional do inglês (que tem dezoito variantes) pelas ruas da amargura? O francês, coitado, tem quinze, e o castelhano, pobre dele, tem vinte e uma.

O argumento da unificação é de uma colossal ignorância – aquilo que se tentou foi apenas uma ligeira aproximação no plano da ortografia. Citando a Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: “As palavras afectadas por tal supressão [das chamadas ‘consoantes mudas’] representam 0,54% do vocabulário geral da língua […] .» Mas essas cinquenta e quatro centésimas (mais as alterações de hífenes e acentos) podem certamente operar maravilhas – não é difícil imaginar que os Brasileiros acorrerão num frenesi às livrarias para ler Camões e Pessoa acordizados, porque “hei-de” perde o hífen e “actor” se passa a escrever “ator”, e que os Portugueses passarão a ler Guimarães Rosa e Machado de Assis como novidades fresquinhas, excitados que estão com a perda das ditas consoantes mudas.

(mais…)

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Se non è vero…

Este cartaz circula no Fakebook há cerca de uma semana. Vi-o pela primeira vez no “mural” respeitável de um não menos respeitável jornalista, facto que seria, em princípio, garantia suficiente de que a coisa é genuína.

Porém, como de costume, à cautela, fui tentar cruzar informação sobre o assunto e encontrei… zero! Apenas existe esta imagem mesmo, mais nada, nenhuma outra referência em texto, uma simples nota de rodapé ou a mais ínfima notícia.

O “português” macarrónico (ou seja, abrasileirado e com erros, passe a redundância) é também estranho e as gralhas, em número e em espécie, seguro indício de aldrabice. Não existe sequer menção a qualquer origem, autoria, entidade ou organização identificável por detrás de tão misterioso (e tenebroso) “evento”.

Isto não passará talvez de pura e dura manobra de contra-informação ou qualquer outro insondável mistério do género.

Enfim, no momento desta publicação a hora da “convocatória” já lá vai, era só o que faltava estar agora aqui fazendo propaganda a semelhante enormidade, mas fica o alerta — quanto mais não seja para memória futura.

Esta aparente brincadeira remete para algo que já se nos vai tornando assustadoramente familiar: há quem se dedique, com o beneplácito de entidades oficiais e perante a apatia geral, a arrancar pedaços do passado, a apagar episódios, marcos, factos, datas e personagens da nossa memória colectiva, assim como quem simplesmente risca, rasga, arranca páginas inteiras da História.

Pode bem suceder que tão inacreditável convocatória veicule a seguinte mensagem subliminar: “habituem-se…”

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Disclaimer: não papo grupos.

Ainda a propósito das chamadas “redes sociais” e da lumparia que por lá circula, à mistura com e fazendo-se passar por pessoas normais, o que temos aqui é uma pequena amostra do imenso arsenal de aldrabices ao dispor de qualquer pulha que delas queira servir-se.

Não apenas é possível inventar (de raiz) “identidades” em série como é facílimo — com essas “identidades” falsas e arrebanhando uns quantos incautos — artilhar “grupos” muito catitas e com imeeeensos “membros”. Entre outras maroteiras, pois claro, que isto hoje em dia, nos meios virtuais, virtualmente já vale tudo.

O que está ali em cima não é o tiroliroliro e aqui em baixo não está o tiroliroló. Não são brincadeira nenhuma, qualquer deles.

Na imagem de cima está uma pequeníssima amostra dos 927.000 resultados devolvidos por uma pesquisa no YouTube segundo um critério aparentemente insuspeito: “facebook group add members“. Nas páginas do mesmo Fakebook também é possível fazer umas artistices do género mas de facto o que mais agrada a vigaristas é a “cena” dos “grupos”. Um nojo.

Mas há ainda pior, se tal é possível.

Aqui em baixo está uma imagem que, ao contrário de qualquer outra, não vale por mil palavras; vale por todas as palavras que existem: seja quem for pode pôr as palavras que entender “na boca” de quem quiser. E depois publicar ou até usar a “composição” de outras formas, que não vou para já explicar mas que facilmente se imaginam, para “provar” que determinada pessoa (ou pessoas)  disse (ou disseram) as maiores enormidades, imbecilidades, inanidades.

Tudo mais falso do que uma nota de 30 €, é claro, mas isso agora não interessa nada, como dizia a outra, os meios existem e servem na perfeição para os fins que interessam a patifes: achincalhar, caluniar, difamar pessoas de bem. Sempre sob a capa de anonimato (identidade falsa), bem entendido, que só nessa condição aqueles cobardes profissionais se dão ao trabalho de tentar demolir o carácter, destruir a reputação, infernizar a vida dos seus inimigos de estimação — ou daqueles cujo assassinato moral tenha sido encomendado a um qualquer escroque por outro.

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A minha é maior q’a tua

Sinal dos tempos. No “maravilhoso mundo novo” tudo é possível, de facto. Neste alucinado e por vezes infecto ambiente virtual tornou-se facílimo mudar de identidade: totalmente, radicalmente, infinitamente.

A “Carla”, por exemplo, que pode muito bem ter sido a criadora (e primeira “signatária”) da sua própria petição para que ela mesma traga bolo, poderia também, já, instantaneamente, mudar de nome, mudar de casa e até… mudar de sexo. Trata-se, nestes avançadíssimos ambientes cibernéticos, de uma operação indolor e rapidíssima (cerca de cinco segundos, incluindo os períodos pré-operatório e de recobro) que garante uma persona novinha em folha, um alter ego com “existência” real, novo endereço postal, casa nova, a estrear, novo emprego, outra idade (à escolha) e, é claro, um endereço de email perfeitamente funcional e “legítimo”.

Este é um dos processos electrónicos de produção de “gente” em série e é desta “gente”, grandes legiões de seres virtuais, que se “recrutam” inúmeros “militantes” cujas “identidades” múltiplas servirão para engrossar, inflacionar, agigantar as “fileiras” de certos (e incertos) “grupos” no Fakebook e para “legalmente” subscrever, por exemplo, petições — também estas integralmente virtuais — a granel.

Aliás, como anteriormente aqui demonstrei, este tipo de “processo” serve em simultâneo para ambos os efeitos: torna-se assim facílimo criar perfis de utilizador no Fakebook e usar estes para “subscrever” petições online. Com a vantagem acessória de que nestes preparos não fica o mais ínfimo rasto nem da aldrabice nem do aldrabão: criado o perfil ad-hoc e “subscrevendo” com esses “dados” uma qualquer petição, bastará então apagar o dito perfil na rede “social”, criar outro, “subscrever” com este outro, apagar, criar de novo, subscrever, apagar… e assim sucessivamente, ad infinitum, à vontade do freguês.

Não pretendo, de forma alguma, com isto dizer que todas as petições virtuais foram já infectadas por esta nova estirpe de vírus cívico. Vigarices e vigaristas sempre existiram, pois está claro. Mas nunca antes em tão esmagadora dimensão, jamais nesta escala verdadeiramente industrial.

Neste preciso momento estão registadas 142 petições no Parlamento português, dizendo aquele total respeito apenas às petições entradas entre 30 de Setembro de 2016 e 9 de Maio de 2017. De entre todas elas, pois com certeza, a maioria será porventura legítima e as respectivas assinaturas — até porque ainda há subscrições em papel e por meios minimamente fiáveis — serão reais e não fictícias.

Porém: os meios fraudulentos existem, a falsificação de subscrições está hoje em dia, como agora se vê e comprova, incrivelmente facilitada.

(mais…)

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“Esta causa é muito importante”. Subscrevam a petição para que a Carla traga bolo

Analisemos “cientificamente”, por mera curiosidade antropológica, porque não se pode nem deve comparar o que não tem comparação possível, assim como caganitas com nêsperas ou o olho do Sol com o olho do cu, aquilo em que de facto consistem as “petições” electrónicas e o que na verdade são as respectivas “assinaturas” virtuais.

Esta, por exemplo, que já 269 cidadãos — presumivelmente em seu perfeito juízo e no completo gozo de seus direitos cívicos — “subscreveram” com insuspeito vigor e não menor cagança, ao que parece apela a que certa empresa de cromos (não daqueles, dos outros, dos da bola) deixe de impingir aldrabices nos respectivos pacotinhos.

Na imagem distinguem-se perfeitamente os “dados” (nome e email) que são “exigidos” aos “subscritores” tanto desta como de qualquer outra “petição”: “Dados” esses que, escusado será dizer, podem perfeitamente ser inventados na hora. E uma hora mais tarde, ou assim, quem quiser pode mudar de computador (ou apenas de local ou de tipo de acesso à rede) e “assinar” de novo com outro nomezinho e com mais um endereçozinho de email, pode ser ao calhas e tudo.

No meu caso, por acaso, que sou um gajo sério e não gramo aldrabices, modéstia à parte, optei por “permitir” que o Fakebook preenchesse os ditos “dados” por mim (a sério, nem é preciso escrever nada, nem uma única letrinha) e depois, para “assinar” a “petição”, só tive de me dar à canseira de carregar no botão verde que diz… “Assinar Petição”!

Tudo “comme il faut”, está bem de ver. Ah, que maravilha, estas “petições” electrónicas são uma delícia, ele é só comodidades, não há cá chatices nem papeis nem nada, e depois ninguém verifica coisa nenhuma, pois claro, aquilo é tudo perfeitamente legal (e legítimo e impec), todas as “assinaturas” são válidas, mesmo as inválidas, que são quase todas elas mas isso agora não interessa nada, o que interessa é que “em 15 dias”, como afirma este escroque, não sei quê, trau, já está, mamã, fui eu que fiz, chamem-me Tarzan.

E por falar em Tarzan, que também era um cromo ruim, pelava-se igualmente por dar punhadas no peito e meter-se em macacadas, descobri lá na fábrica das petições uma outra que (esta sim, sobre a primeira estava a brincar, foi uma reinação inocente) “assinei” de facto. Ei-la:

Causa extremamente meritória, sem dúvida! Ora, portantos, qué-se dezer, “assinei” esta “petição” e daqui “apelamos também à subscrição” da dita, avante, portugueses, vamos todos cumprir o nosso dever cívico, para que alcancemos o desiderato, etc. e tal, trata-se de um desígnio nacional, é preciso que se consiga — “por todos os meios ao nosso alcance” — que a Carla traga bolo. Como podem aliás ver no comentário que deixei lá, dirigido aos valorosos promotores de tão meritória “iniciativa”, é uma vergonha que a Carla não traga bolo!

E ainda há quem se atreva a gozar com estes patrióticos assuntos, ele até há uns gajos desconfiados de que isto das petições não passa de uma vigarice de todo o tamanho.


EU referendum petition: 77,000 signatures removed as fraud investigation launches
Parliamentary officials launch formal investigation into petition calling for second referendum
The Independent

É um escândalo! Esse pasquim abjecto, The Independent, pffff, como se atreve a pôr em causa a “causa” das petições, hem, ao que chega o atrevimento, mas que morcões.

 

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