Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Fakebook

“Os curiosos protagonistas do activismo” (…)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Ilustremos o paradigma (ou axioma, vá) com um caso flagrante de “consumidora de causas” que aterrou de pára-quedas na ILC-AO: fazia ela então uma campanha chamada “destrua as ondas, não as dunas” (acho que era qualquer coisa assim, se não era isto exactamente era algo igualmente exótico), até tinha um “blog” sobre a matéria (seja lá isso o que for), até tinha um grupo no Facebook (olha, mas que original, hem, grande surpresa, não estava nada à espera) e até tinha, por fim, uma “ideia” para propor à ILC: ela faria campanha pela ILC e, em troca, a ILC fazia campanha pelas dunas…» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.» [Inactivismo (2)]

Os curiosos protagonistas do activismo verde

 

Revista “Sábado”, 28.07.2018
Maria Henrique Espada

Há “associações” que não passam de páginas de Facebook, ligações ao BE, grupos dentro de grupos e até uma comunidade pelo sexo livre nos protestos contra o furo de Aljezur. E há movimentos com outra estrutura que admitem que isto põe um problema de credibilidade aos ambientalistas.

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Alentejo Litoral pelo Ambiente. É um dos promotores da manifestação de 14 de Abril, em Lisboa, “Enterrar de vez o furo, tirar as petrolíferas do mar”, e primeiro signatário da carta aberta a pedir a demissão do ministro do Ambiente. Ora, o que é o ALA? Não tem site, apenas uma página de Facebook gerida por Fátima Teixeira, que, na sua própria página de Facebook indica gerir ainda outra página, a Plataforma Transgénicos Fora, e trabalhar no Tamera – a comunidade alternativa do Sudoeste Alentejano, que, no seu site, no segmento “Investigação”, a par da Terra Deva (“ecologia espiritual”), exibe também referências à “sexualidade como poder sagrado”, “sexualidade e parcerias livres”, e conceitos mais difíceis de traduzir a leigos (“Ashram Político”, “Círculo das Pedras”, “Marisis”). Fátima Teixeira esteve a 21 de Abril a representar o ALA no debate Ainda é possível Parar o Petróleo?, em Vila Nova de Milfontes. E o Tamera, por sua vez, também foi um dos movimentos promotores da manifestação de dia 14.

Contactada a página de Facebook do ALA, quem respondeu afinal foi Eugénia Santa Bárbara, que em 2017 participou no protesto na marginal de Sines em que cerca de 10 pessoas se pintaram com tinta de choco para “simular um derrame de petróleo” e dizer não ao furo. Acabou por não ser possível o contacto (nunca por falta de disponibilidade da SÁBADO), e apenas ficou claro numa mensagem que o protesto de 7 de Julho, um cordão humano nas praias contra o furo, estava a ser organizado por outras pessoas, “os movimentos e organizações apoiam e divulgam”. Em resumo: o ALA é uma página de Facebook, com alguma ligação ao Tamera, e não parece ter corpos sociais nem foi possível saber se são 10 ou 100. E pelos vistos só deu o nome.

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O homem do pântano (3.ª parte)

Note-se o endereço de email @gmail (grátis). Numa organização da ONU é um bocadinho esquisito, não?

O ponto é este, reitere-se e reforce-se: Guterres não devia ter feito aquilo. Não existe qualquer justificação, motivo ou sustentação legal para a sua presença, na qualidade de Secretário-Geral da ONU, num evento privado, particular e pago. Por todas as razões, não apenas de ordem política mas também ética e moral (se é que tal coisa existe nos meandros políticos) e ainda por uma questão de legitimidade.

Afinal, em quantos ou em quais “dias da língua” (além daqueles que a ONU de facto reconhece) esteve Guterres ou qualquer dos seus antecessores no cargo? Em quantos ou em quais eventos similares ao promovido pela CPLP esteve presente (e discursou) Guterres ou qualquer dos seus antecessores no cargo?

Afinal, sendo a CPLP uma efabulação — sem paralelo no mundo — inventada a pretexto de uma pretensa “unificação da língua” (AO90), coisas em relação às quais a maioria da população portuguesa demonstra total indiferença para com a efabulação e absoluta rejeição da invenção, então o cidadão António Guterres, que por acaso é português e que ainda mais por acaso é Secretário-Geral da ONU, patrocinou com a sua presença uma organização particular e apoiou uma determinada tendência de opinião… minoritária, ainda por cima.

Afinal, para que serve o Dia Internacional da Língua Materna? Ou tal efeméride, essa sim, oficialmente reconhecida pela ONU, não inclui a Língua Portuguesa e, por conseguinte, o Secretário Guterres tem de ir “comemorar” para “os jardins” (porquê “nos jardins”?) uma novilíngua inventada ad-hoc para dar cabo da original?

Afinal, se o dia 5 de “maio” foi inventado em 2005, segundo a Wikipédjia lusôfuna, ou foi reinventado em 2009, segundo os jornais, então quantas vezes foi anteriormente “comemorada” essa “efeméride” na ONU? E em quantas dessas “vezes” esteve presente o antecessor de Guterres, Ban Ki-moon, que foi Secretário-Geral de 2007 a 2016?

Afinal, qual o motivo para que nem à Commonwealth nem à Organisation internationale de la Francophonie (OIF) tenha ocorrido a mesma peregrina ideia de ir “comemorar” para “os jardins” (ou nos interiores) da ONU, em eventos abrilhantados por Sua Excelência? Terá sido por não haver em Nova Iorque empresas de catering especializadas em, respectivamente, corned beef e champignons?

O ridículo tem de facto limites… afinal! Para toda a gente menos para os iluminados que pariram a CPLP mai-la sua aldrabice-mor, o AO90.

Guterres não devia e também não podia ter feito aquilo. Para entender algo assim tão “complicado” basta ler as atribuições do cargo: no “profissiograma” do Secretário-Geral da ONU não consta absolutamente nada que sequer remotamente se assemelhe a comparecer e, muito menos, a discursar em eventos privados “nos jardins” da sede da Organização.

Mesmo na informal qualidade de simples convidado, o que não foi o caso; ao titular daquele cargo em concreto estão liminarmente vedadas, pela própria natureza das suas altas funções políticas,  de âmbito transnacional, quaisquer associações de causa e efeito: o facto de um político aparecer em determinado sítio a determinada hora é algo que apenas a ele mesmo e aos ocasionais circunstantes interessa. Quando Guterres vai a um casamento ou a um funeral, por exemplo, isso não confere o direito aos noivos de anunciar nos convites que a boda tem o alto patrocínio das Nações Unidas, assim como não confere ao defunto poderes para mandar gravar na sua lápide tumular os seguintes dizeres: “Aqui jaz Fulano de Tal. Morreu feliz porque o seu discurso fúnebre foi proferido pelo Secretário-Geral da ONU, em nome de todos os Estados-membros. Paz à sua alma (e obrigadinho aos Estados-membros e ao Sr. Guterres)”.

Pouco ou nada importa a contra-informação difundida pelas estruturas ligadas ao Governo brasileiro e ainda menos importa a propaganda brasileirófona da agência “Lusa”. Toda essa intoxicação que profissionais regiamente pagos impingem por sistema à opinião pública tuga (só a esta, porque no Brasil ninguém está “nem aí”) vale rigorosamente zero; apenas uns quantos portugueses, os mais “distraídos” e os mais comprometidos, engolem as patranhas da propaganda neo-imperialista. O Brasil quer tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entre outros objectivos estratégicos expansionistas. O resto é puro paleio.

I Encontro de Academias de Letras da CPLP

As Missões dos países da #CPLP junto à ONU, Nova Iorque, organizaram o I Encontro de Academias de Letras da CPLP, assinalando também o “5 de Maio – Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. Confira a reportagem da Globo!

Publicado por CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

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FAQ AO90 — 6



31. Porque não se unem numa iniciativa conjunta todos os grupos anti-AO90?

A tal “união de esforços“, portanto?

Bom, alguns — mas nem todos — dos que enchem a boca com essa história de embalar, na verdade querem é o contrário: dividir, fraccionar, pulverizar. para assim desmoralizar as hostes, neutralizar as acções, abater a militância, fomentar o inactivismo.

Afinal, paradoxalmente, a julgar pelos efeitos práticos dessa velha e relha ladainha, a “união de esforços” fundamenta-se na lapidar máxima “dividir para reinar”.

São por regra os mais pedantes (ou pretensiosos, porque armados em bonzinhos) quem mais apregoa a “união” divisionista, utilizando para o efeito um argumento “imbatível”: é tudo uma “questão de protagonismo” e portanto vá de fazer o oposto diametral das belas palavras que debitam, toca a lançar a confusão engraxando este e insultando aquele, o que é preciso é acicatar rivalidades — mesmo que ou em especial se estas de facto não existirem. Ou seja, projectam esses vaidosos nos outros o seu próprio penacho mental — fenómeno psicológico de transferência que Freud explica em vários textos, ditados com soberana displicência, palitando os dentes.

Estou em crer, porque já ando “nisto” há muito tempo, que nenhum dos arautos da “união de esforços” faz a mais pequena ideia de que afinal está a sabotar aquilo que diz defender, e muito menor ideia faz de que não passa de uma marioneta manipulada por mão invisível — a dos acordistas, nada menos.

Nunca dizem ao que vêm, os arautos da união com os parasitas dos esforços alheios; não têm qualquer proposta ou ideia concreta, limitam-se a despejar o chavão da “união de esforços”, a seco, sem mais. É atirar o barro à parede, a ver se cola…

“Iniciativa conjunta”? Mas que iniciativa? A ILC que já existe desde 2010 ou uma das petições e outras tretas lançadas consecutivamente, a partir de 2012, para desviar as atenções da primeira?

E essa outra “iniciativa” seria “conjunta” com quem? Com a malta dos grupos, grupinhos e grupelhos do Fakebook? Mas quem é aquela gente? O que fizeram esses grupos, que fez essa virtual malta nesta luta e desde quando e como e com que resultados?

E porque não, contrapondo, com nenhuma dessa gente virtual em virtuais seitas mas com toda a gente verdadeira que existe mesmo na vida real?

Lançar uma nova iniciativa conjuntamente com quem andou a recolher assinaturas para a já existente e depois não as entregou, ficou com elas, sonegou, desviou, roubou essas assinaturas?

Ou pensarão que ninguém percebeu a jogada? O que fizeram a essas subscrições que literalmente roubaram, mai-los respectivos dados dos subscritores, sem conhecimento destes?

Enfim, bem sei que é um pouco estranho responder a uma pergunta frequente com várias perguntas que frequentemente coloco a mim mesmo. Mas pronto, faz-se o que se pode. Até para tentar explicar o que não tem uma explicação humanamente aceitável.

Mas isto sou só eu a falar, evidentemente. Estas são as minhas FAQ AO90, não são as FAQ da ILC-AO, este é o meu modesto “blog”, não é o “site” da ILC — da qual aliás me “reformei” em 2015, por motivos de saúde, entre outros, nomeadamente para não ter de continuar a aturar pulhas ainda piores do que os acordistas.


32. Como reverter o processo de “adoção” no ensino?

Pois. Aparentemente para os adultos é fácil, para as crianças nem tanto. Mas não é nada que não se possa fazer com relativa facilidade: as crianças não nascem necessariamente, em massa, estúpidas ou retardadas. A ideia subjacente ao “acordo” é imbecilizá-las o mais depressa e o mais profundamente possível, mas ainda assim não me parece difícil erradicar o vírus acordista das nossas escolas primárias. Os cérebros juvenis possuem plasticidade (ou maleabilidade) mais do que suficiente para se auto-regenerar em menos de um ano (lectivo).

Talvez este processo de reposição da normalidade e estabilidade do código escrito acabe por revelar-se como uma excelente oportunidade para a re-introdução generalizada, nos planos curriculares dos 3 ciclos do ensino obrigatório, de História da Língua, Ortografia e até, porque não, aulas facultativas de caligrafia — uma vertente pedagógica estupidamente abandonada nos anos 70 do século passado (reforma de Veiga Simão, em 1972, se bem me lembro).

Para as editoras de manuais corrigidos, a liquidação do AO90 representaria a duplicação dos chorudos lucros que obtiveram aquando da “adoção”, desde o ano lectivo de 2010/11, já que tudo teria de ser editado, corrigido e publicado novamente.

A eliminação do AO90 no Ensino é uma tarefa prioritária, evidentemente, já que é na identidade em formação de cada uma das nossas crianças que se forma a consciência colectiva da identidade nacional — na qual a ortografia é elemento fundamental e estruturante.


33. Que repercussões teve o AO90 no estrangeiro?

Todo este desastre foi, e será para todo o sempre, uma embaraçosa humilhação, um enxovalho nacional atirado para cima deste país e dos seus oito séculos de História. Os estrangeiros oscilam invariavelmente entre a perplexidade e o espanto quanto confrontados com este caso único, a nível mundial, de colonização cultural às avessas. E como não têm sobre si a pata da máfia acordista luso-brasileira (muito brasileira e pouco lusa), os analistas e cronistas estrangeiros dizem com desarmante simplicidade aquilo que em Portugal ninguém se atreve a verbalizar: o AO90 representa a eliminação sumária do Português-padrão, numa manobra neo-imperialista brasileira coadjuvada, facilitada e promovida por meia dúzia de vendidos portugueses com a cobertura de políticos tecnicamente analfabetos e geneticamente corruptos.

Mas o camartelo acordês teve outro tipo de repercussões a nível mundial, nomeadamente na Internet, a primeira das quais foi a quase extinção da bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais. Claro que já seria suficientemente grave a substituição da bandeira portuguesa pela brasileira, passando esta em vez daquela a identificar o interface em “Português”; mas o arrepiante valor simbólico que representa este arrear de uma e o hastear de outra bandeira não se fica por aí: os próprios conteúdos, que anteriormente eram sobre figuras, monumentos, feitos históricos, objectos, invenções, idiossincrasias portuguesas… tudo foi radicalmente (e com efeitos retroactivos, apagando os antecedentes) substituído pelos respectivos equivalentes sambísticos, fedendo a cachaça.

A Wikipédia é o caso mais flagrante, deste sinistro apagamento da História, da identidade e da nacionalidade portuguesas. Mas não é o único: Google, YouTube, Facebook, em todas as plataformas virtuais desapareceu a opção “Português (Portugal)”, assim como foi liquidado em todas as versões recentes dos programas informáticos de uso corrente (como o MS-Office, por exemplo). Não se tratou “apenas” de substituir conteúdos e de “adotar” a cacografia brasileira; nada disso; o próprio léxico e o jargão técnico passaram a ser integralmente brasileiros (usuário, baixar, curtir, deletar), o mesmo sucedendo até com a sintaxe e as construções frásicas — tudo  integralmente brasileiro.

Uma das patranhas associadas ao “acordo” seria a projecção e expansão da língua portuguesa (leia-se, brasileira) no mundo, o que, em concreto, se traduziria na “adoção” do português (leia-se, do brasileiro) como língua de trabalho da ONU. Claro que também essa tremenda mentira rapidamente foi desmentida pela realidade, o que não obstou a que — por mera “coincidência”, claro — o Brasil tenha começado de imediato a exportar, a granel, às carradas,  professores de “português” para as ex-colónias portuguesas.

E tudo isto em paralelo com um outro fenómeno igualmente espantoso (para os ingénuos): agora, já sem qualquer disfarce, há cursos de brasileiro para estrangeiros e dicionários para traduzir de brasileiro para Francês ou Inglês, por exemplo.
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FAQ AO90 — 3


13. Das quatro vias para acabar com o “acordo ortográfico”, qual a mais viável?

Dessas 4, que afinal são 5, se contarmos com a denúncia unilateral do AO90 enquanto Tratado internacional, existem duas muito semelhantes entre si e são ambas igualmente viáveis: em qualquer destes dois casos, a solução passará sempre pela apresentação de uma iniciativa legislativa — ou por um mínimo de 23 deputados ou por mais de 20.000 subscritores no caso de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC).

Seja de uma forma ou seja de outra, o objectivo terá de ser forçosamente a anulação do instrumento legal que ratificou o II Protocolo Modificativo (alterando este a redacção original do AO90) e que, assim, colocou em vigor o “acordo” na ordem jurídica nacional.

Instrumento legal esse (RAR 35/2008) que fez ainda mais do que “apenas”, ratificando o dito Protocolo, aceitar em nome de Portugal o golpe perpetrado pelo Brasil: a ratificação do Protocolo por apenas 3 Estados implica a automática entrada em vigor do AO90 em todos os oito Estados-membros da CPLP.

Portanto, só revogando aquela Resolução parlamentar será possível reverter a entrada em vigor do AO90 em Portugal; a anulação de qualquer outra legislação subsequente, decorrente e dependente da RAR 35/2008, seria inútil. Por exemplo, a revogação da RCM 8/2011 não teria quaisquer efeitos práticos, já que o AO90 continuaria legalmente em vigor.


14.  Em que diferem do “acordo ortográfico” brasileiro os casos Francês, Espanhol ou Alemão? Porque é que o Inglês nunca teve qualquer “acordo”?

Não existe a mais pequena similitude entre as reformas ortográficas dos países civilizados e aquilo que se passa em Portugal.

Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é  compulsiva, como o AO90.

Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. Ou seja, os estrangeiros fixam a sua norma ortográfica, apenas quando absolutamente necessário, em função das naturais oscilações que porventura ocorram pela simples passagem do tempo. “As Línguas” evoluem, de facto, como tanto gostam de cuspilhar os acordistas portugueses, mas de forma natural e não por decreto.

O caso da Língua inglesa é algo completamente diferente. Evoluiu ao longo de 1.400 anos mas a sua ortografia mantém-se praticamente inalterada há vários séculos. Por alguma razão — ao invés do que dizem acordistas, com a sua alucinada teoria do facilitismo e da “expansão” — o Inglês é “só” a Língua mais falada (e escrita) no Ocidente e é “só” a lingua franca por excelência em todo o mundo. De resto, em todos os países do ex-Império britânico a ortografia e a etimologia são ponto de honra e motivo de orgulho; nos EUA e no Canadá, por exemplo, existem concursos nacionais, regionais e locais dedicados exclusivamente a soletrar: spelling bee.


15. Se existiu desde o início tanta resistência (e indiferença), porque é que o “acordo ortográfico” entrou em vigor?

Por uma questão de agenda: aos políticos implicados na tramóia e aos empresários gananciosos interessados nela (é a grande finança que paga as campanhas eleitorais e os tachos dos políticos) convinha que a coisa avançasse o mais depressa possível. Assim, primeiramente avançou a parte política do assunto — aprovação do II Protocolo Modificativo — preparando o terreno para que os grandes grupos editoriais, por exemplo, começassem de imediato a facturar. A expansão económica brasileira, tendo por objectivos primordiais Angola e a União Europeia (usando Portugal como trampolim, bem entendido), ficaria para mais tarde, a seu tempo.

Primeiro, era necessário garantir que o AO90 entrasse em vigor em todos os países da CPLP, fosse como fosse, à força, à má-fila.

Como os processos de ratificação tinham vindo a arrastar-se desde 1994, em todos esses países, então o Brasil e seus agentes em Portugal descobriram a pólvora: cozinhar uma espécie de adenda ao “acordo”, o II Protocolo Modificativo, passando a obrigatoriedade de ratificação do AO90 por todos os 7 para apenas 3 Estados-membros; ou seja, a ratificação por 3 Estados implicaria que o AO90 entraria em vigor oficialmente nesses 3… e também nos outros quatro, mesmo que não ratificassem coisa alguma (ratificar é diferente de simplesmente subscrever o AO90, são processos autónomos).

Assim, em 2004 o Brasil (é claro) ratificou, em 2005 Cabo Verde também e por fim São Tomé e Príncipe idem. Pronto, já está, o AO90 entrou em vigor em todos os Estados da CPLP por via administrativa, por imposição de países terceiros. Só faltava então a aquiescência de Portugal para dar um ar de legalidade ao golpe e assim enfiá-lo goela abaixo dos pategos portugueses.

Foi precisamente esta incrível vigarice que o Parlamento português sancionou, através da RAR 35/2008, entrando do mesmo passo o AO90 em vigor também em Portugal.
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Inactivismo (2)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

Como já vimos, não custa nada pular de “causa” em “causa”, como um elefante saltitando elegantemente de nenúfar em nenúfar, e ainda menos custa fabricar desculpas em série, como se fossem pipocas a sair quentinhas daquelas máquinas dos arraiais, para fazer montes de absolutamente nada.

No entanto, a preguiça, o laxismo, o fascínio pela bandalheira, o culto da inactividade, tudo isso por junto não se aproxima sequer, em termos de inactivismo “gourmet”, do que, à míngua de melhor designação, poderíamos chamar “ó bálhamedeus, vossemecês não se ralem com isso, carago”. Refiro-me, com tão informal quanto pouco científica expressão, àquele extraordinário pessoal, tuga até à medula, que debita sistematicamente esta sentença lapidar: «façam como eu, não sigam o AO90 e pronto.»

Até se me eriçam os pêlos da língua, caramba! Por vezes, quando tal oiço ou leio, chego a puxar a culatra atrás, isto é, recua-se-me a mão como se de repente ganhasse vida própria, e, em suma, ficamos ambos, eu e a minha mão, prontíssimos para esbofetear alguém: trau!

Tirando os acordistas propriamente ditos, é esta gente do partido NSAP (Não Sigam o AO90 e Pronto) que mais me tira do sério.

Partido esse cujos militantes (e simpatizantes), extremamente imaginativos, possuem um imenso arsenal de três variantes da sua imbecil ideia programática única:

  • Ah, e tal, eu cá vou continuar a escrever como aprendi e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá levei muitas réguadas na escola para aprender a escrever, não é agora que vou mudar e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá não escrevo segundo as novas regras nem que me obriguem e pronto.

“E pronto”? Aiaiaiaiaiaiaiai. Caraças, só de enumerar estas enormidades já me está a apetecer trocar a chapada na cara pelo o pontapé no cu.

Mas, ó santinhas, ó santinhos, para que raio serve isso, hem? Porventura andará por aí o Malaca, omnipresente e munido de um taco de basebol para castigar os renitentes, pegando na mãozinha das pessoas, uma a uma, e obrigando-as a escrever em acordês? Quem, em seu perfeito juízo, desata de repente a escrever em acordês “só porque sim”?

Claro que todos esses tugas referem-se à sua escrita particular, no Fakebook, nas suas mensagens de email, em listas de compras e em recados para a mulher-a-dias, por exemplo. Experimentem lá “ignorar o AO90” se forem funcionários públicos, nas vossas papeladas, no vosso trabalho. A ver se vosso chefinho, qual bófia da escrita Malaquenha, não vos mete logo um processozinho disciplinar em cima…

E, de resto, nem a profunda estupidez dos NSAP explica o facto de não poderem — nem eles nem ninguém — “ignorar o AO90”, não na escrita mas na leitura; nas legendas dos filmes, nos letreiros e placas toponímicas ou de trânsito, nos livros (bem, essa gente não lê livros), nos jornais (bem, essa gente não lê jornais, o Correio da Manhã ou a A Bola não contam), nas “faturas”, na publicidade, em qualquer página da Internet, na Wikipédia brasileirófona ou seja onde for que tenha uma bandeira brasileira para identificar o interface “português”.

Ignoremos os traidores, os vendidos e os imbecis que fazem objectivamente o jogo do inimigo. Desses não rezará jamais a História e deles não restará qualquer memória.

Os desistentes, os conformados, os indiferentes e os apáticos não são piores do que os inactivistas. Cada qual a seu modo, os índios de todas essas tribos não passam de pequenas armas de destruição maciça com pernas. Em comum têm o facto de não fazerem nem deixarem fazer nada.

Lá dizia o General romano Galba (século III a. C.), horrorizado com o que viu na Lusitânia, cheio de vontade de regressar à sua abençoada Roma natal e ir de imediato a banhos: «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»

Não se governa nem se deixa governar assim como não faz nem deixa fazer, não luta nem deixa lutar, não quer saber nem deixa que alguém queira (ou que alguém saiba). Quem lhes tira o abençoado remanso da inactividade militante tira-lhes tudo.

É assim o inactivismo, como já vimos e como continuamos a ver, este tuguismo, este nacional porreirismo, a mediocridade. a apatia, a indiferença, o empurrar com a barriga qualquer problema. Ou, como há quase cinco séculos muito certeiramente agoirou  Camões, é esta “a austera, apagada e vil tristeza” (Os Lusíadas, X, 145) em que estamos atolados.

Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.

Porque, no fim de contas, é dos livros, e se não for no fim de contas há-de ser logo que possível, apenas uma de duas coisas pode acontecer.

Para os activistas a vitória, ainda que no fim percam a luta.

Para os inactivistas a derrota, seja qual for o resultado final.

Victory Has A Thousand Fathers But Defeat Is An Orpahn

Imagem de topo: recorte de foto publicada na página Portugato (Facebook)

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Inactivismo (1)

O inactivismo não é o inverso, oposto ou antónimo de “activismo” — tendo este, aliás, uma conotação política (geralmente de cariz esquerdista) que não é para aqui chamada.

O inactivismo engloba o próprio conceito de “activismo”, na acepção que nos interessa, enquanto inactividade militante ou, levando a ideia ao extremo, quando o activismo resulta em prejuízo grave, em desastre para a Causa — cívica, apartidária — que paradoxalmente deveria ser defendida e não atacada, como é evidente.

O inactivismo é bem mais fácil de entender do que de explicar — até porque os absurdos são por definição axiomas, ou seja, apenas constatáveis mas não comprováveis — e por conseguinte será talvez mais fácil ilustrar o conceito com um exemplo concreto.

Não deve existir um único português com mais de 30 anos que não se recorde da campanha por Timor (“Ai, Timor”, ai, ai). Desses voluntariosos militantes da “causa timorense”, a maioria terá com certeza participado nas “manifs”, nas “marchas”, nas “cadeias humanas”, nos “velórios” de “solidariedade” que se realizaram — em massa e em catadupa — por todo o lado, ao longo da década de 90 e em especial logo a seguir ao referendo de Agosto de 1999.

Houve disso e houve também imenso inactivismo. Esta entrevista ilustra perfeitamente o neologismo que, não por acaso, é um velho preceito.

Francisco Godinho lamenta porém o facto dessa iniciativa ter “descambado logo ao fim de dois ou três meses”, degenerando na melhor das hipóteses na adopção de outras causas pelos subscritores que “não eram capazes de actualizar um website, enfim… de fazer um mínimo de trabalho”.

“Isto acontece no mundo real. E na Internet ainda é mais fácil ignorar os apelos porque as pessoas não se confrontam”, desabafa Francisco Godinho. Uma das mailing-lists de Timor (eram duas), recebeu 200 a 300 adesões no primeiro dia, atingindo 400 a 500 adesões num mês.

“Ao fim do segundo mês tornou a descer drasticamente para 200 subscritores”, conclui Godinho. “Quando verifiquei esses 200 subscritores (interrompi a mailing-lists para ver quantas reclamações me chegavam), das 200 pessoas inscritas restavam cerca de 80, os outros 120 eram contas de email já inactivas”.

Para Francisco Godinho o activismo online requer “pessoas com algum espírito de voluntariado”. Não basta encontrar pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” e “vão a todas”.

“Não é difícil construir um site e colocá-lo online. Difícil é a parte que diz respeito à actualização e à sua dinamização”, confirma Ricardo Silva que, pela diversidade das iniciativas apresentadas através do Guia serem muito diversas, considera que “o Guia do Activismo era tipo um SAPO para a área do activismo online”.

“Lançar uma iniciativa é como lançar um produto no mercado. É necessário vendê-lo, contactar a Comunicação Social e – ao contrário do que muitas pessoas pensam – dar a cara, mesmo na Internet. Face aos Hoaxes (logros), por exemplo, é cada vez mais necessário passar uma imagem de credibilidade da iniciativa e dos próprios organizadores, uma vez que as pessoas andam muito desconfiadas dos emails ‘apelativos’ que surgem nas suas caixas de correio electrónico”

[Publicado em tek.sapo.pt, no dia 28.01.01. Autoria “Casa dos Bits”. Cópia autorizada; ver correspondência de Fevereiro 2002.]
[Sítio de Timor]

Um verdadeiro manifesto do inactivismo, convenhamos. Não está lá tudo, mas está lá muita coisa: a imediata “adopção de outras causas” quando aos “activistas” a coisa começa a cheirar que vai dar trabalho (mesmo que seja mínimo), as “adesões virtuais” em catadupa no início e a conta-gotas daí em diante, pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” (génios com ideias geniais) e aquelas que “vão a todas” às 2.ªs, 4.ªs e 6.ªs mas não vão a nenhumas às 3.ªs, 5.ªs e sábados, nem nos dias de folga, de férias, de baixa, de “licença”, de “ponte” e de “assuntos inadiáveis”.

É claro que, pelo menos para os activistas em série e para os consumidores de causas em geral, nenhuma bela teoria poderá alguma vez ser demolida pela (porcaria da) realidade, essa enorme maçada por regra inconveniente à narrativa oficial. Se a dita realidade não agrada ou, de forma genérica, não encaixa na “narrativa” correspondente, então mude-se de imediato a realidade porque a narrativa é intocável, inamovível, inalterável, imutável!

Salvas as devidas distâncias, pode estabelecer-se um mais do que evidente paralelo, em termos de inactivismo, entre o que se passou de 1992 a 2002, no caso de Timor, e aquilo que tem sucedido desde 2008 no que à luta contra o AO90 diz respeito. De facto, nota-se perfeitamente, o chamado “português médio” tem imenso jeito para, numa palavra (ou duas, vá), não fazer nenhum.

Nunca há tempo para nada. A não ser para dar palpites, bem entendido, travestindo estes, por regra, em ideias “geniais” que nunca tinham ocorrido a mais ninguém (como “lançar uma petição ou, espera, um referendo, eia, um referendo é que era, hem, sou ou não sou um craque das causas, hem”). Ah, sim, claro, para palpites e “ideias geniais” há todo o tempo do mundo. Para fazer alguma coisinha é que não, raios, tenho ali uma panela ao lume e depois vou levar a sogra à calista, num pode ser, que tenho um bídeo p’ra ber, não me dá jeito, que tenho uma dor no peito, isso não posso, que tenho reumático neste osso, agora não, que tenho de ir dar banho ao cão.

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