Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Francês

Difusão e expansão da língua… francesa!

«Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.» [Wikipédia (brasileira)]

 

French is climbing towards the top!

Publicado por The language nerds. em Domingo, 18 de Novembro de 2018

 

French is now the fifth most spoken world language and growing—thanks to Africans

Africans are making French a truly global language.

By Lynsey Chutel – 

 

French has moved up a place to become the world’s fifth most spoken language, thanks largely to the millions of Africans who speak it each day. There are now 300 million people on five continents who speak French, according to a recent by the Organisation Internationale de la Francophonie (pdf in French). French is ranked behind Chinese, English, Spanish and Arabic.

“The center of gravity of the Francophonie continues to move south,” the report found. The number of people speaking French has shown a steady increase: up nearly 9.6% since 2014. Measuring from 2010 to today, 22.7 million more people speak French: 68% of these are sub-Saharan Africa, while 22% live in North Africa. The Americas are home to 7% of the world’s French speakers, while Europe is home to only 3%.

Much of this is due to Africa’s age demographic, specifically the continent’s youth bulge. The daily use of French has increased by 17% on the African continent from the survey period 2010 to 2014, compared to an 11% growth in the rest of the world. In Asia and the Caribbean the daily use of French is decreasing, and this is largely due to education systems that no longer embrace the language as they did before, opting instead for Chinese or English.

A previous generation of African leaders have been criticized for their failure to introduce the official use of African languages, and yet it seems Africans today are ensuring that European languages remain relevant. Of the Africans who were surveyed by the francophone organization, between 80% and 100% expressed the desire to would want to pass the language on to their children.

French remains the sole official language in 11 African countries, and the second official language in 10. It is also the main or only language of instruction in schools in Benin, Burkina Faso, the Central African Republic, the Comoros, Congo-Brazzaville, the Democratic Republic of Congo, Côte d’Ivoire, Gabon, Guinea, Mali, Niger, Senegal and Togo.

In most of these countries, though, French is one of many languages spoken, which influence how the language is spoken. Nouchi in Côte d’Ivoire and Toli Bangando in Gabon were born out of urban francophone Africa, by young people who made the language their own by combining it with their vernacular languages.

It’s worth noting French, like English and Portuguese in other African countries, serves as a lingua franca in part because of the multitude of languages spoken in many African countries.

In the global economy, language is yet another form of power, and the lopsided relationship between France and its former African colonies already shows that even with the numbers, Africa remains weaker.  This is even as president Emmanuel Macron conceded that (link in French) “France is only one part of the French-speaking world,” and is does not “carry the fate of French alone.”

[Transcrição integral, incluindo imagens e “links”, de artigo publicado no “site” Quartz Africa. Destaques meus.]

«Fundamentalmente porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa, a brasileira e a portuguesa. Do ponto de vista da promoção internacional da língua, era prejudicial. Numa universidade ou instituição estrangeira onde se ensine o português, qual era a ortografia que se ia ensinar? A de Portugal? A do Brasil?» [Malaca Casteleiro, Observador, 02.2017]

 

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O buraco de trás

«They can make you say anything – anything – but they can’t make you believe it.
They can’t get inside you.
»
George Orwell, “1984”

 

“Esclarecido” o que é e porque surgiu o “buraco da frente” vejamos, por analogia (salvo seja, não sei se já tinha dito), o seu émulo das traseiras, na mui douta opinião de outros, se bem que da mesma espécie, especialistas na matéria — canadianos, neste caso.

Isto é, apuremos então em que consiste o conceito de “buraco de trás” e como este outro orifício se enquadra na mesma linha de engenharia linguística para fins de experimentalismo social.

Note-se que sobre o buraco anterior aqui citado, ou seja, dizer “buraco da frente” em vez de dizer (ou escrever) “vagina”, está ainda numa fase precoce de “implementação”, não sendo ainda obrigatório por lei trocar uma designação pela outra, ainda não é CRIME usar o termo “vagina” para designar vagina em vez de “buraco da frente” para designar vagina.

Mas se quanto a esse buraco ainda não é CRIME chamar outra coisa além de “buraco da frente”, em qualquer parte do mundo, cenário bem diferente se passa já quanto a toda uma classe gramatical numa certa parte do mesmo mundo: a classe é a dos pronomes e a parte é o Canadá.

Sucede que o país da “folha do ácer” tem correntemente um Primeiro-Ministro com seu quê de atrasado mental, ou de perfeito imbecil, vá, um tal Justin Trudeau, de sua graça, cuja função primordial parece consistir na demolição sistemática da linguagem: chamando os bois por outros nomes, deixa de haver bois. O que significa que, por exemplo, se a “pobreza” passar a ser “desfavorecimento”, então fica doravante administrativamente erradicada a pobreza, são eliminados de uma assentada todos os pobres e passarão a existir apenas “desfavorecidos”. Proibindo qualquer menção a “ignorância” e se, em vez deste desprezível termo, for obrigatório utilizar a expressão “necessidades educativas especiais” (ou outra patacoada qualquer), então está erradicada a iliteracia, toda a população receberá de imediato os respectivos canudos, à escolha. O próprio conceito de “crime” (quando perpetrado por “criminosos”, tipos violentos), por extenso e extensivamente, desaparecerá de todo — até porque é muito aborrecido, por vezes mete sangue, ou assim, sei lá — caso se passe a designar a coisa como “acidente de percurso” e os coisinhos como “vítimas da sociedade, coitadinhas”.

Coisa brilhante, portanto, que vai aliás fazendo escola — inclusivamente em Portugal, descontando os habituais dez anos de atraso — e que permite destarte resolver todos os problemas sociais sem sequer aflorar absolutamente nenhum deles.

No fundo, salvo seja pela enésima vez, trata-se neste caso de pronomes e, making short a very long story, sucede que a lei canadiana (alterando os próprios preceitos constitucionais) não apenas torna agora obrigatório o uso de pronomes consoante o “género” da pessoa (ou grupo) a que o pronome é aplicado, como CRIMINALIZA a utilização de “apenas” o masculino ou o feminino. Do que resulta isto: qualquer pessoa que pretenda dirigir-se, comunicar com ou referir-se a alguém (ou a um grupo) terá de saber de cor esta tabela de “géneros” alternativos. 

Gender Neutral / Gender Inclusive Pronouns

A gender neutral or gender inclusive pronoun is a pronoun which does not associate a gender with the individual who is being discussed.

Some languages, such as English, do not have a gender neutral or third gender pronoun available, and this has been criticized, since in many instances, writers, speakers, etc. use “he/his” when referring to a generic individual in the third person. Also, the dichotomy of “he and she” in English does not leave room for other gender identities, which is a source of frustration to the transgender and gender queer communities.

People who are limited by languages which do not include gender neutral pronouns have attempted to create them, in the interest of greater equality.

Quem tentar escapar disto, quem mijar fora do penico, ou pede publicamente desculpa aos/às/les/lis/xis/vis ofendidos/as/les/lis/xis/vis ou então paga uma multazinha jeitosa ou ainda, no caso de ser reincidente, vai malhar com os ossos na cadeia.

Isto é em Inglês, claro, e suponho que em Francês também, desgraçados dos Québécois, mas fazendo um exercício de analogia simplificado teríamos em Português algo como “ele, ela, ila, vila, vela, xela, xilo, zil, eles, elas, ilas, vilas, velas, xelas, xilos, zils, seus, suas, trilas, trilos, hezis, silas, xzels”, etc., etc., etc.

Um prodígio da pós-modernidade. Digo, uma prodígia dil pós-modernimil. Ou lst prodígicoise da modernzilic.

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O AO90 e a “maravilhosa projecção internacional da língua” «unificada»

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

 

Faire d’une pierre deux coups. C’est l’ambition du nouveau président angolais Joao Lourenço qui souhaite, contre toute attente, voir son pays, une ancienne colonie portugaise, intégrer à la fois la Francophonie et le Commonwealth britannique.

La mission ne s’annonce pas impossible, à en croire le chef de l’Etat, qui tente coûte que coûte d’attirer les investisseurs étrangers dans son pays producteur de pétrole, mais embourbé depuis des années dans une profonde crise économique.

Joao Lourenço en veut pour preuve le Mozambique, une autre ex-colonie portugaise qui a rejoint le Commonwealth en 1995.

“L’Angola n’est pas entouré de pays lusophones”, a-t-il benoîtement constaté pour justifier son initiative. Il est pressé au nord par la République démocratique du Congo et le Congo-Brazzaville, adeptes de la langue de Molière. Au sud et à l’est par la Namibie et la Zambie, pratiquants de celle de Shakespeare.

“Par conséquent, ne vous étonnez pas que nous demandions maintenant l’adhésion à la Francophonie et, dans quelques jours, au Commonwealth”, a lancé le président angolais lors d’une récente tournée diplomatique en Europe.

Londres a réagi avec enthousiasme à cette annonce surprise. “Formidable”, s’est extasié le chef de la diplomatie britannique Boris Johnson sur Twitter.

“Nous accueillons avec une grande satisfaction l’engagement du président Lourenço sur des réformes de long terme, la lutte contre la corruption, l’amélioration des droits humains. Au plaisir de l’accueillir bientôt au Royaume-Uni”, a-t-il lancé.

L’intégration au Commonwealth répond à des critères stricts. Sa charte insiste notamment sur “l’égalité et le respect de la protection et de la promotion des droits civils, politiques, économiques, sociaux et culturels” de ses membres.

La perspective d’y ajouter l’Angola réjouit Zenaida Machado, de l’organisation Human Rights Watch (HRW).

“Il devra adhérer à des règles et des principes qui, s’ils sont respectés, seront très bons pour le climat du pays”, se réjouit-elle, “pour nous c’est un bon signal”.

– “Bonne idée” –

Car, de l’avis des ONG, l’Angola n’est pas précisément un parangon de vertu démocratique.

Il sort à peine de trente-huit ans de règne autoritaire de Jose Eduardo dos Santos, qui a largement muselé ses adversaires politiques. Son successeur Joao Lourenço, issu du même parti, le MPLA, a promis d’éradiquer la corruption, mais la route reste longue sur la voie d’un changement de régime.

S’il a autorisé en mars une rare manifestation de l’opposition, sa police a encore été épinglée au début du mois pour avoir abattu sans autre forme de procès un suspect dans la rue.

A ce jour, seuls deux pays sans histoire coloniale commune avec le Royaume-Uni – le Mozambique et le Rwanda – sont membres du Commonwealth. Et ceux qui adhèrent en même temps à la Francophonie (84 membres) et au Commonwealth (53) se comptent sur les doigts des deux mains.

“C’est une bonne idée que l’Angola (les) rejoigne car la majorité des pays africains sont liés à ces organisations”, estime l’analyste politique Augusto Bafua Bafua. “L’Angola est déjà membre de la Communauté des pays de langue portugaise, mais cette organisation est très faible”, fait-il remarquer.

Dans les rues de Luanda, les Angolais, qui se débattent au quotidien avec un chômage de masse et une forte inflation, s’interrogent pourtant sur l’impact de telles adhésions.

“L’Angola fait déjà partie d’organisations similaires et les avantages ne sont pas visibles”, estime Augusto Pedro, chômeur de 36 ans. “Le portugais n’est pas parlé par toute la population, donc on devrait se battre pour rejoindre ces communautés”, nuance un autre habitant, Manuel Joao, 28 ans.

L’opposant Rafael Marques, lui, reste très perplexe. “Les gens en Angola peuvent à peine écrire portugais parce que le système éducatif s’est effondré”, constate-t-il, “si on ne peut pas éduquer son peuple dans la langue officielle, à quoi bon rejoindre deux autres communautés de langue ?”

Alors Rafael Marques, féroce critique du parti au pouvoir, avance une autre explication. “Cette annonce sympathique va lui faire gagner des points dans les médias”, cingle-t-il.

Source: L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

https://twitter.com/BorisJohnson/status/1004039780076748802?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=https%3A%2F%2Feco.pt%2F2018%2F06%2F06%2Fboris-johnson-confirma-no-twitter-angola-quer-juntar-se-a-commonwealth%2F

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“Do lirismo ao desastre” [Nuno Pacheco, “Público”, 14.06.18]

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

 

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre

Nuno Pacheco
“Público”, 14 de Junho de 2018

Os panegíricos em torno da expansão da língua portuguesa equivalem a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas. Um absurdo.

 

Inflada pelo 5 de Maio, Dia Internacional da Língua Portuguesa, e o 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, anda por aí a euforia do costume em torno da nossa língua. “A quinta mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul”, diz a propaganda, e os políticos rejubilam. “Trabalho bem feito, hã? Valeu o esforço, ora se valeu!” Há como que uma espécie de embriaguez que nos tolda os sentidos e nos impede de ver o que se esconde por detrás dos desejos, da retórica, das frases encomiásticas, das estatísticas que anunciam, sem pejo, que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século. É obra, senhores, é obra!

Mas é obra, sobretudo, da imaginação. Quem preza a língua portuguesa desconfia de tal abundância. Para que isso fosse verdade, era preciso haver um trabalho sério de difusão da língua à escala global (e difundi-la é fazê-la ouvir e ser utilizada no mundo, não é trocá-la pelo inglês à mínima oportunidade, como é hábito nosso), era não confundir língua com ortografia (e o malfadado “acordo” nasce desse equívoco espúrio), era olhar primeiro para a nossa própria casa, que tão desarrumada está, e só depois para o horizonte em torno dela.

O debate que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu no mais recente programa Fronteiras XXI, que a RTP3 transmitiu em directo no dia 6 de Junho, foi bem elucidativo dos equívocos que persistem. Ouvimos Onésimo Teotónio de Almeida, escritor radicado há 46 anos nos Estados Unidos, dizer que o “movimento de crescimento” do português está ali a ter uma curva descendente desde 2015; ouvimos, numa reportagem, dizer que em cada dez crianças que chegam à escola em Moçambique, só uma fala português, e que, segundo o último censo moçambicano, só metade da população fala minimamente o português (só um em cada dez moçambicanos considera o português língua materna, disse-se também); ouvimos Germano Almeida, escritor cabo-verdiano recém-distinguido com o Prémio Camões, dizer que “Cabo Verde não é um país bilingue, é um país que tem uma língua que é o crioulo” e que “talvez 10% da população fale português” em Cabo Verde, sendo que “mais de 50%” entende a língua portuguesa (os restantes, conclui-se, nem sequer a entenderão). A este quadro, poderíamos juntar uma notícia inquietante desse mesmo dia 6: Angola vai pedir adesão à Commonwealth (comunidade com 53 países de língua inglesa) e à Francofonia (57 países), no que, aliás, não está isolada, já que Moçambique pertence também à Commonwealth, pertencendo Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, ambos, à Organização Internacional da Francofonia. Talvez em “troca”, França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia pedem agora adesão à CPLP, como observadores.

Perante tal quadro, que reacções houve? Preocupação? Insistência num trabalho mais firme e profícuo? Não, muito pelo contrário. Ouvimos, espantados, dizer que “o português nunca esteve tão bem”, que “continua firme”, que “está muito bem e recomenda-se”. E ouvimos Luís Antero Reto (um dos autores do panegírico Novo Atlas da Língua Portuguesa) dizer que “o facto mais significativo da língua portuguesa é o seu potencial de crescimento neste século”, garantindo que o português “é a língua que mais cresce a seguir ao árabe” por estar em mais continentes. Estar, está; mas de que modo? Disso os “promotores” da língua não querem saber. Há escolas a ensinar português na China, e isso basta-lhes, é sinal de “crescimento” (e logo na China, caramba!), mas ignoram que mesmo debaixo dos seus olhos Moçambique está como está; Angola afasta-se; o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa); Cabo Verde, São Tomé e Guiné privilegiam, compreensivelmente, os respectivos crioulos; e a língua portuguesa, em todo este enorme universo, corre o risco de minguar em lugar de expandir-se.

Ouvir os arautos desta mirífica expansão é como assistir a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas: um absurdo. Nos anos 1970, o PPD tinha um curioso slogan: “Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”. Os anarquistas, cáusticos, acrescentaram-lhe um comentário: “Tomem a pílula”. Pois na língua portuguesa não precisamos: já tomámos a pílula da inconsciência, do lirismo e do desvario. A continuar assim, nenhum discurso nos valerá. A menos que abramos os olhos.

Nuno Pachecho

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pacheco, publicado no “Ipsilon” (suplemento do jornal “Público”) em 14.06.18. Inseri “links”. Imagem de topo de: RTP.]

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Angola: Francofonia OK, Commonwealth OK, CPLP… KO

Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade

 

Nos últimos dias, Luanda fez saber que quer entrar na Organização Internacional da Francofonia e na Commonwealth. No périplo do novo Governo pela Europa, Portugal não foi incluído. O que significa esta mudança?

Bárbara Reis
“Público”, 07.06.18

 

A intenção foi divulgada esta quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, mas não terá espantado a diplomacia portuguesa: Angola vai pedir adesão à Commonwealth, a comunidade de países de língua inglesa.

A notícia surge dias depois de, em Paris, o novo Presidente angolano, João Lourenço, eleito em Setembro, ter anunciado que Luanda também vai pedir adesão à Organização Internacional da Francofonia.

Diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO notam o facto de João Lourenço não ter sequer incluído Portugal no seu primeiro périplo europeu e, uma vez no continente, ter feito uma aproximação explícita aos clubes anglófono e francófono, relegando a comunidade lusófona para terceiro lugar.

“Angola escolheu Paris e agora Bruxelas”, concorda o deputado social-democrata Paulo Neves, membro da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República e que acompanha a política africana e a CPLP. “Se a lusofonia fosse a prioridade, a primeira visita teria sido a Portugal e à sede da CPLP”, disse ao PÚBLICO.

Para além de serem dois clubes gigantes — 53 na Commonwealth e 57 na Organização Internacional da Francofonia —, Angola é vizinho de vários dos Estados-membros dos dois organismos. Mais do que isso, no entanto, este novo posicionamento é visto como uma forma de Luanda tentar afirmar-se como potência regional (África) e sub-regional (África Austral). Essa é uma velha ambição, que vários especialistas em política africana conhecem. Nos bastidores da diplomacia, há anos que Luanda se afirma por oposição à África do Sul, sublinhando três das suas forças: tem água e petróleo e não tem um problema racial por resolver.

“Sinto um misto de alegria e tristeza”, diz o deputado Paulo Neves. “Vejo que Angola tem finalmente uma política externa clara e ambiciosa, mas vejo também que a nova estratégia de afirmação regional não passa pela lusofonia. Isso deve obrigar-nos a pensar: porque é que a lusofonia não é suficientemente atraente, porque é que a lusofonia deixou de ser a prioridade angolana, como trazer Angola de volta? O problema não é Angola querer estar com os outros. Isso é natural. O problema é não ter começado pela lusofonia. Temos que perguntar: o que é que se passa com a CPLP?”

Nenhum dos embaixadores dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) contactados pelo PÚBLICO quis comentar as intenções de Luanda, incluindo os governos angolano e português.

São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau pertencem à Organização Internacional da Francofonia e Moçambique pertence à Commonwealth. A existência dessas novas alianças, em acumulação com o vínculo histórico à lusofonia, ajuda a reduzir o eventual efeito surpresa que a vontade de Luanda poderia ter. Ao mesmo tempo, na próxima XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP — que este ano é em Cabo Verde — espera-se a confirmação formal da entrada com o estatuto de observador associado da CPLP da França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia.

É cedo para antecipar os possíveis resultados desta expansão do multilateralismo ou os benefícios para as relações internacionais. Para dois dos diplomatas ouvidos, no entanto, a motivação angolana de se aproximar dos clubes da francofonia e da anglofonia junta à ambição imperial um outro factor: as emoções. “Chatear Portugal.”

[Transcrição integral de: Diplomacia | Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade | PÚBLICO, 07.06.18 (edição em papel). Imagem de topo: recorte de foto original © POOL/MIGUEL FIGUEIREDO LOPES/REPUBLIC PRESIDENCY OF ANGOLA/LUSA]

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“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

(mais…)

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