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O AO90 e a “maravilhosa projecção internacional da língua” «unificada»

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

 

Faire d’une pierre deux coups. C’est l’ambition du nouveau président angolais Joao Lourenço qui souhaite, contre toute attente, voir son pays, une ancienne colonie portugaise, intégrer à la fois la Francophonie et le Commonwealth britannique.

La mission ne s’annonce pas impossible, à en croire le chef de l’Etat, qui tente coûte que coûte d’attirer les investisseurs étrangers dans son pays producteur de pétrole, mais embourbé depuis des années dans une profonde crise économique.

Joao Lourenço en veut pour preuve le Mozambique, une autre ex-colonie portugaise qui a rejoint le Commonwealth en 1995.

“L’Angola n’est pas entouré de pays lusophones”, a-t-il benoîtement constaté pour justifier son initiative. Il est pressé au nord par la République démocratique du Congo et le Congo-Brazzaville, adeptes de la langue de Molière. Au sud et à l’est par la Namibie et la Zambie, pratiquants de celle de Shakespeare.

“Par conséquent, ne vous étonnez pas que nous demandions maintenant l’adhésion à la Francophonie et, dans quelques jours, au Commonwealth”, a lancé le président angolais lors d’une récente tournée diplomatique en Europe.

Londres a réagi avec enthousiasme à cette annonce surprise. “Formidable”, s’est extasié le chef de la diplomatie britannique Boris Johnson sur Twitter.

“Nous accueillons avec une grande satisfaction l’engagement du président Lourenço sur des réformes de long terme, la lutte contre la corruption, l’amélioration des droits humains. Au plaisir de l’accueillir bientôt au Royaume-Uni”, a-t-il lancé.

L’intégration au Commonwealth répond à des critères stricts. Sa charte insiste notamment sur “l’égalité et le respect de la protection et de la promotion des droits civils, politiques, économiques, sociaux et culturels” de ses membres.

La perspective d’y ajouter l’Angola réjouit Zenaida Machado, de l’organisation Human Rights Watch (HRW).

“Il devra adhérer à des règles et des principes qui, s’ils sont respectés, seront très bons pour le climat du pays”, se réjouit-elle, “pour nous c’est un bon signal”.

– “Bonne idée” –

Car, de l’avis des ONG, l’Angola n’est pas précisément un parangon de vertu démocratique.

Il sort à peine de trente-huit ans de règne autoritaire de Jose Eduardo dos Santos, qui a largement muselé ses adversaires politiques. Son successeur Joao Lourenço, issu du même parti, le MPLA, a promis d’éradiquer la corruption, mais la route reste longue sur la voie d’un changement de régime.

S’il a autorisé en mars une rare manifestation de l’opposition, sa police a encore été épinglée au début du mois pour avoir abattu sans autre forme de procès un suspect dans la rue.

A ce jour, seuls deux pays sans histoire coloniale commune avec le Royaume-Uni – le Mozambique et le Rwanda – sont membres du Commonwealth. Et ceux qui adhèrent en même temps à la Francophonie (84 membres) et au Commonwealth (53) se comptent sur les doigts des deux mains.

“C’est une bonne idée que l’Angola (les) rejoigne car la majorité des pays africains sont liés à ces organisations”, estime l’analyste politique Augusto Bafua Bafua. “L’Angola est déjà membre de la Communauté des pays de langue portugaise, mais cette organisation est très faible”, fait-il remarquer.

Dans les rues de Luanda, les Angolais, qui se débattent au quotidien avec un chômage de masse et une forte inflation, s’interrogent pourtant sur l’impact de telles adhésions.

“L’Angola fait déjà partie d’organisations similaires et les avantages ne sont pas visibles”, estime Augusto Pedro, chômeur de 36 ans. “Le portugais n’est pas parlé par toute la population, donc on devrait se battre pour rejoindre ces communautés”, nuance un autre habitant, Manuel Joao, 28 ans.

L’opposant Rafael Marques, lui, reste très perplexe. “Les gens en Angola peuvent à peine écrire portugais parce que le système éducatif s’est effondré”, constate-t-il, “si on ne peut pas éduquer son peuple dans la langue officielle, à quoi bon rejoindre deux autres communautés de langue ?”

Alors Rafael Marques, féroce critique du parti au pouvoir, avance une autre explication. “Cette annonce sympathique va lui faire gagner des points dans les médias”, cingle-t-il.

Source: L’Angola lusophone fait les yeux doux au Commonwealth et à la Francophonie

https://twitter.com/BorisJohnson/status/1004039780076748802?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=https%3A%2F%2Feco.pt%2F2018%2F06%2F06%2Fboris-johnson-confirma-no-twitter-angola-quer-juntar-se-a-commonwealth%2F

“Do lirismo ao desastre” [Nuno Pacheco, “Público”, 14.06.18]

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

 

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre

Nuno Pacheco
“Público”, 14 de Junho de 2018

Os panegíricos em torno da expansão da língua portuguesa equivalem a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas. Um absurdo.

 

Inflada pelo 5 de Maio, Dia Internacional da Língua Portuguesa, e o 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, anda por aí a euforia do costume em torno da nossa língua. “A quinta mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul”, diz a propaganda, e os políticos rejubilam. “Trabalho bem feito, hã? Valeu o esforço, ora se valeu!” Há como que uma espécie de embriaguez que nos tolda os sentidos e nos impede de ver o que se esconde por detrás dos desejos, da retórica, das frases encomiásticas, das estatísticas que anunciam, sem pejo, que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século. É obra, senhores, é obra!

Mas é obra, sobretudo, da imaginação. Quem preza a língua portuguesa desconfia de tal abundância. Para que isso fosse verdade, era preciso haver um trabalho sério de difusão da língua à escala global (e difundi-la é fazê-la ouvir e ser utilizada no mundo, não é trocá-la pelo inglês à mínima oportunidade, como é hábito nosso), era não confundir língua com ortografia (e o malfadado “acordo” nasce desse equívoco espúrio), era olhar primeiro para a nossa própria casa, que tão desarrumada está, e só depois para o horizonte em torno dela.

O debate que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu no mais recente programa Fronteiras XXI, que a RTP3 transmitiu em directo no dia 6 de Junho, foi bem elucidativo dos equívocos que persistem. Ouvimos Onésimo Teotónio de Almeida, escritor radicado há 46 anos nos Estados Unidos, dizer que o “movimento de crescimento” do português está ali a ter uma curva descendente desde 2015; ouvimos, numa reportagem, dizer que em cada dez crianças que chegam à escola em Moçambique, só uma fala português, e que, segundo o último censo moçambicano, só metade da população fala minimamente o português (só um em cada dez moçambicanos considera o português língua materna, disse-se também); ouvimos Germano Almeida, escritor cabo-verdiano recém-distinguido com o Prémio Camões, dizer que “Cabo Verde não é um país bilingue, é um país que tem uma língua que é o crioulo” e que “talvez 10% da população fale português” em Cabo Verde, sendo que “mais de 50%” entende a língua portuguesa (os restantes, conclui-se, nem sequer a entenderão). A este quadro, poderíamos juntar uma notícia inquietante desse mesmo dia 6: Angola vai pedir adesão à Commonwealth (comunidade com 53 países de língua inglesa) e à Francofonia (57 países), no que, aliás, não está isolada, já que Moçambique pertence também à Commonwealth, pertencendo Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, ambos, à Organização Internacional da Francofonia. Talvez em “troca”, França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia pedem agora adesão à CPLP, como observadores.

Perante tal quadro, que reacções houve? Preocupação? Insistência num trabalho mais firme e profícuo? Não, muito pelo contrário. Ouvimos, espantados, dizer que “o português nunca esteve tão bem”, que “continua firme”, que “está muito bem e recomenda-se”. E ouvimos Luís Antero Reto (um dos autores do panegírico Novo Atlas da Língua Portuguesa) dizer que “o facto mais significativo da língua portuguesa é o seu potencial de crescimento neste século”, garantindo que o português “é a língua que mais cresce a seguir ao árabe” por estar em mais continentes. Estar, está; mas de que modo? Disso os “promotores” da língua não querem saber. Há escolas a ensinar português na China, e isso basta-lhes, é sinal de “crescimento” (e logo na China, caramba!), mas ignoram que mesmo debaixo dos seus olhos Moçambique está como está; Angola afasta-se; o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa); Cabo Verde, São Tomé e Guiné privilegiam, compreensivelmente, os respectivos crioulos; e a língua portuguesa, em todo este enorme universo, corre o risco de minguar em lugar de expandir-se.

Ouvir os arautos desta mirífica expansão é como assistir a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas: um absurdo. Nos anos 1970, o PPD tinha um curioso slogan: “Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”. Os anarquistas, cáusticos, acrescentaram-lhe um comentário: “Tomem a pílula”. Pois na língua portuguesa não precisamos: já tomámos a pílula da inconsciência, do lirismo e do desvario. A continuar assim, nenhum discurso nos valerá. A menos que abramos os olhos.

Nuno Pachecho

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pacheco, publicado no “Ipsilon” (suplemento do jornal “Público”) em 14.06.18. Inseri “links”. Imagem de topo de: RTP.]

Angola: Francofonia OK, Commonwealth OK, CPLP… KO

Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade

 

Nos últimos dias, Luanda fez saber que quer entrar na Organização Internacional da Francofonia e na Commonwealth. No périplo do novo Governo pela Europa, Portugal não foi incluído. O que significa esta mudança?

Bárbara Reis
“Público”, 07.06.18

 

A intenção foi divulgada esta quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, mas não terá espantado a diplomacia portuguesa: Angola vai pedir adesão à Commonwealth, a comunidade de países de língua inglesa.

A notícia surge dias depois de, em Paris, o novo Presidente angolano, João Lourenço, eleito em Setembro, ter anunciado que Luanda também vai pedir adesão à Organização Internacional da Francofonia.

Diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO notam o facto de João Lourenço não ter sequer incluído Portugal no seu primeiro périplo europeu e, uma vez no continente, ter feito uma aproximação explícita aos clubes anglófono e francófono, relegando a comunidade lusófona para terceiro lugar.

“Angola escolheu Paris e agora Bruxelas”, concorda o deputado social-democrata Paulo Neves, membro da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República e que acompanha a política africana e a CPLP. “Se a lusofonia fosse a prioridade, a primeira visita teria sido a Portugal e à sede da CPLP”, disse ao PÚBLICO.

Para além de serem dois clubes gigantes — 53 na Commonwealth e 57 na Organização Internacional da Francofonia —, Angola é vizinho de vários dos Estados-membros dos dois organismos. Mais do que isso, no entanto, este novo posicionamento é visto como uma forma de Luanda tentar afirmar-se como potência regional (África) e sub-regional (África Austral). Essa é uma velha ambição, que vários especialistas em política africana conhecem. Nos bastidores da diplomacia, há anos que Luanda se afirma por oposição à África do Sul, sublinhando três das suas forças: tem água e petróleo e não tem um problema racial por resolver.

“Sinto um misto de alegria e tristeza”, diz o deputado Paulo Neves. “Vejo que Angola tem finalmente uma política externa clara e ambiciosa, mas vejo também que a nova estratégia de afirmação regional não passa pela lusofonia. Isso deve obrigar-nos a pensar: porque é que a lusofonia não é suficientemente atraente, porque é que a lusofonia deixou de ser a prioridade angolana, como trazer Angola de volta? O problema não é Angola querer estar com os outros. Isso é natural. O problema é não ter começado pela lusofonia. Temos que perguntar: o que é que se passa com a CPLP?”

Nenhum dos embaixadores dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) contactados pelo PÚBLICO quis comentar as intenções de Luanda, incluindo os governos angolano e português.

São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau pertencem à Organização Internacional da Francofonia e Moçambique pertence à Commonwealth. A existência dessas novas alianças, em acumulação com o vínculo histórico à lusofonia, ajuda a reduzir o eventual efeito surpresa que a vontade de Luanda poderia ter. Ao mesmo tempo, na próxima XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP — que este ano é em Cabo Verde — espera-se a confirmação formal da entrada com o estatuto de observador associado da CPLP da França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia.

É cedo para antecipar os possíveis resultados desta expansão do multilateralismo ou os benefícios para as relações internacionais. Para dois dos diplomatas ouvidos, no entanto, a motivação angolana de se aproximar dos clubes da francofonia e da anglofonia junta à ambição imperial um outro factor: as emoções. “Chatear Portugal.”

[Transcrição integral de: Diplomacia | Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade | PÚBLICO, 07.06.18 (edição em papel). Imagem de topo: recorte de foto original © POOL/MIGUEL FIGUEIREDO LOPES/REPUBLIC PRESIDENCY OF ANGOLA/LUSA]

“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

(mais…)

As variações da mentira – III

E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará“.
João, 8:32

Isto é de facto extremamente cansativo. O que aliás faz parte, desde o início, da estratégia acordista: vencer-nos pela exaustão, derrotar-nos pela descrença, paralisar-nos pelo silenciamento.

Já pudemos constatar, na primeira série de patranhas e na segunda, que toda esta gigantesca mentira é uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”: o tema é monótono, as variações monocórdicas.

O que implica, para que semelhante quantidade de patranhas, a granel e a seco, possa ser minimamente deglutida, salvo seja, necessitar um cristão de não despiciente dose de humildade, quando não de puro masoquismo. Trata-se de um cruel exercício de auto-flagelação, quase a raiar a santidade, digamos, se bem que não exista alternativa ao sacrifício para enfrentar a peçonha da mentira.

E pronto, haja coragem, aguentemos estoicamente mais um pouco, para a vintena final já só ficam a faltar outras cinco além das anteriores 10 e de mais estas.

 

11. O AO90  abriu um mercado único de edições (livros, imprensa, etc.). Intrujice.
«Juca Ferreira não acredita que, com o Acordo Ortográfico, o Brasil possa “engolir” o mercado editorial português. “Acho difícil. Acredito mais na possibilidade de cooperação, não só entre Brasil e Portugal, mas de todos os países de Língua Portuguesa, para criarmos um espaço para a literatura dos nossos países neste mundo editorial”» [“Expresso”, 08.2008] Intrujice.

a) «O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.» [Francisco Vale (editor), “Jornal de Leiria”, 02.2018]
b) «A Porto Editora fez uma queixa-crime contra o ex-candidato à Presidência da República, Paulo de Morais, alegando “prejuízo ao bom nome e reputação da empresa” ao associar a editora a corrupção e cartelização do mercado de manuais escolares. Por seu lado, o ex-vice-presidente da autarquia do Porto já reagiu, declarando que considera “inadmissível” o sistema de “cartelização de venda de livros escolares” em Portugal e que irá continuar a denunciar esta situação “enquanto não for efectivamente resolvida”.» [“Público”, 03.2016]
c) «De resto, não vejo qualquer problema em que o português escrito possa ter grafias um pouco diferentes conforme seja de origem portuguesa ou brasileira. Antes pelo contrário, ajuda a mostrar a diversidade das expressões e acentua os factores de diferenciação que nos distinguem realmente e que reforçam a nossa identidade. Aliás, considero míope a visão de que o mercado brasileiro de cultura passará a estar aberto aos autores portugueses em razão da homogeneidade da grafia, pois que o interesse desse mercado pela nossa produção só pode depender do real interesse pelas nossas especificidades e aí a suposta barreira do grafismo não chega a ser uma barreira, pode ser um factor de distinção que acentua o interesse pela diferença.» [Pedro Passos Coelho, 05.2008]

12. O AO90 no ensino facilita e poupa tempo para outras tarefas. Invencionice.
«É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.» [Acordo Ortográfico – Nota ExplicativaInvencionice.

a) Não há “maior facilidade” na aprendizagem coisa nenhuma: no Ensino oficial em Portugal a confusão é total e o cAOs instalado afecta gravemente as crianças e jovens, confundindo-as estúpida e desnecessariamente. Não sendo imbecis ou retardados, os alunos portugueses estão mergulhados num caldo de instabilidade ortográfica no qual não só eles mas principalmente eles já não sabem ao certo como se escreve (ou lê). Por isto mesmo os resultados são cada vez piores desde que o AO90 passou a ser obrigatório nos exames. [Apartado 53, FAQ]
b) «Que avaliação rigorosa foi feita por parte do Governo dos impactos que, do ponto de vista do sistema educativo, teve a entrada em vigor do Acordo Ortográfico? Que avaliação foi feita das consequências que, do ponto de vista científico e pedagógico, nos programas de Português, teve a entrada em vigor do Acordo Ortográfico?» [PCP, Projecto de Resolução, 02.2018]
c) «Estou de acordo com o que disse o Malaca Casteleiro neste aspecto: o ensino é que fracassa completamente. Nós deveríamos ensinar os alunos a dicção correcta do português e devíamos combater esse “engolir” das vogais; os brasileiros fazem o contrário e é essa a grande razão que faz com que muitos estrangeiros prefiram aprender a variante brasileira.» [Teolinda Gersão, Antena 1, 05.2015]

13. O AO90 é simplificação da língua. Tanga.
«Questionado, entretanto, sobre as resistências que existem em Portugal em relação ao Acordo Ortográfico, o ministro disse que este movimento não é tão forte. (…) O Acordo é uma simplificação da Língua.» [José António Pinto Ribeiro, ex-Ministro da Cultura, “Expresso“, 08.2008] Tanga.

a) «(…) é impossível unificar ortograficamente um idioma a partir das suas variantes linguísticas e ignorar por completo a origem comum das palavras; consequentemente, as muitas excepções à regra, por falta de referências estandardizadas, em vez de facilitarem a ortografia, acabam por dificultá-la ainda mais.» [Filipe Zau, “Jornal de Angola”, 05.2016]
b) «O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO), assinado em 1990, possibilita diferentes interpretações das novas regras dado que não estabelece uma ortografia única e inequívoca: a interpretação do vocabulário oficializado em Portugal, a interpretação da Academia das Ciências de Lisboa e a interpretação do vocabulário oficializado no Brasil que, logo após a publicação da sua 5.ª edição, disponibilizou ‘online’ um Encarte de Correções e Aditamentos à 5.ª Edição, além de outras possíveis interpretações do texto propriamente dito.» [Vasco Teixeira (Porto Editora), 01.2013]
c) «Afinal, ainda é preciso ir atrás da pronúncia da moda para saber escrever. Há quem chame a isto “simplificação”. Eu chamo-lhe “pesadelo”.» [Manuel Matos Monteiro,“Público”, 04.2018]

 14. Sem o AO90, o Português-padrão caminharia para a extinção. Fantasia.
«Estará o “português de Portugal” condenado a desaparecer? Será o fechamento das vogais, que aparentemente fará que muitos dos nossos parceiros dos países de língua portuguesa não nos percebam, a sua sentença de morte? A questão foi levantada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros [“DN”, 11.2016] Fantasia.

a) Mas o camartelo acordês teve outro tipo de repercussões a nível mundial, nomeadamente na Internet, a primeira das quais foi a quase extinção da bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais. [Apartado 53, FAQ]
b) «Ao contrário do que diz, a escrita é um repositório de enxames de significações ancoradas em redes etimológicas e um tesouro da memória. Na medida do possível, a ortografia deveria evitar o seu apagamento.» [Maria Filomena Molder, “Público”, 05.2015]
c)
«Que se saiba, isso nunca impediu Portugal ou o Brasil de marcarem presença nas conferências das Nações Unidas e das suas agências especializadas. Ora, se até agora as divergências terminológicas não comprometeram e, aparentemente, não ameaçam vir a comprometer os contributos que os dois países têm a dar em tais fóruns, ilustrando com as suas divergências uma riqueza cultural fundada na diversidade geográfica da Língua Portuguesa, porque virá a ortografia a determinar o seu desaparecimento da cena internacional? Esta questão já foi colocada demasiadas vezes para que os defensores do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 continuem a ignorar que têm de vir a terreiro expor, decentemente, as verdadeiras razões subjacentes à teimosia em impor um acordo que nada resolve, mas tem gerado antagonismos que anteriormente não existiam.» [Isabel Coutinho Monteiro, ILCAO, 05.2014]

15. “Portugal tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil“. Burla.
«Marcelo referiu que o Brasil hoje é a maior potência económica e o maior país lusófono e realçou a ideia que “Portugal precisa mais do Brasil, do que o Brasil de Portugal”. Afirmou que o acordo tem “virtuosidades” e disse que “para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil.”» [JPN, 05.2008] Burla.

a) «Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática.» [Nuno Pacheco, “Público”, 02.2017]
b) «
Países lusófonos apresentam resistência em introduzir as novas normas de modo efetivo. Por quê? O argumento principal é de que se trata de um acordo brasileiro. (…) O Brasil ratificou a norma e deu início à implantação. Porém, o país parece estar só na viabilização dessas políticas públicas. Por quê? A questão é muito simples: toda a lógica instrumental do acordo é brasileira.» [Jornal “Opção” (Brasil), 07.2016]
c)«There are 200 million of us, and not even 11 million of them [in Portugal],” says Tania de Souza Bastos, a Portuguese teacher and linguaphile in Rio. “It only makes sense that ours will be the world’s Portuguese. They have no choice.This bit of realpolitik is understood, if not relished, in Lisbon. “In Portugal, it’s obvious that people don’t feel very good that they are adopting the Brazilian norm, in most cases,” says João Vincente Faustino, a scholar with Portugal’s Instituto Camões (which promotes Portuguese globally) who is now a visiting lecturer on Portuguese at the University of Toronto. “In the background, you have the issue of, Are we being dominated by Brazil?”» [Jornal ‘The Globe and Mail (Canadá), 10.2013’]

 

As variações da mentira – II

As primeiras cinco poderão ter sido um pouco incomodativas, com estas outras cinco o incómodo passará talvez à fase do enjoo. Suponho que no fim da tareia, completados uns 20 “assaltos” de 3 minutos (se não houver prolongamento), qualquer pessoa normal sentir-se-á completamente estonteada, nauseada, prestes a vomitar. Efectivamente, a imaginação delirante dos mentirosos compulsivos, quando “servida” assim, em “rounds” consecutivos e sistemáticos, deita qualquer um abaixo, põe-nos de rastos… por momentos.

Claro que já todos ouvimos e lemos inúmeras vezes todos estes violentíssimos insultos à nossa inteligência, equivalentes a murros no estômago e patadas na cabeça. mas uma coisa é levar com a agressividade doentia dos aldrabões acordistas de forma esparsa e esporádica e outra coisa bem diferente é seriar, enumerar, esquematizar-lhes as pancadas.

 

6. Não existe “brasileiro”, apenas existe “português do Brasil”. Mentirola.
«Há poucos dias, o provedor da Santa Casa da Misericórdia estava no emblemático Empire State Building, em Nova Iorque, quando viu algo que não lhe agradou. «Lá em baixo havia uma placa a dizer: ‘Vídeo disponível em alemão, inglês, italiano, espanhol, brasileiro’. Com a bandeira do Brasil. Confesso que fiquei transtornado» [“Sol”, 06.2016] Mentirola.

a) «Norma culta portuguesa contra o brasileiro: Para o linguista, as preocupações do governante estão relacionadas com as “questões da norma culta portuguesa contra o brasileiro“, que também estiveram na base de muitas das críticas nacionais à aplicação do acordo.» [Malaca Casteleiro, “DN”, 11.2016]
b) «A maioria dos brasileiros não tem qualquer relação com Portugal. Existe um certo desprezo. O que vai acontecer é que vamos cada vez mais distanciar-nos, o português de Portugal vai acabar por ser um mero dialecto da língua brasileira.» [Luiz Ruffato, jornal “Hoje Macau”, 03.2016]
c) «
O Brasil salvará o português? Infelizmente, não. Uma política errada de falta de cooperação separou já o português do Brasil do português de Portugal de forma irreversível. Em termos escritos, o português do Brasil é hoje uma língua estranha e estrangeira. Com os seus duzentos milhões de falantes, o português do Brasil sobreviverá, sem que com isso salve o nosso português.» [Jorge Fonseca de Almeida, “Jornal de Negócios”, 02.2018]

7. O AO90 extingue duas normas ortográficas, passando a haver uma única. Aldrabice.
«Em segundo lugar, a harmonização ortográfica nos países da CPLP é fundamental para que os cerca de 250 milhões de falantes, presentes em comunidades portuguesas no estrangeiro, nos países de língua oficial portuguesa ou, ainda, integrados no crescente número de pessoas que procuram a língua portuguesa por outras razões, possam comunicar utilizando uma grafia comum.» [RCM 8/2011] Aldrabice.

a) «A versão 3.6 do LanguageTool inclui também suporte ao Acordo Ortográfico de 90 e às variantes do português utilizadas em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Macau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.» [Revista PC Guia, 12.2016]
b) Não há “unificação” alguma, muito pelo contrário: o AO90 originou ainda mais diferenças entre as duas normas, novos casos de duplas grafias (e triplas e quádruplas). Neste momento (2018) existem não duas mas três “normas”: PT-BR (Brasil), “acordês” (organismos do Estado e algumas empresas em Portugal) e PT-PT (Angola e Moçambique). [Apartado 53, FAQ]
c) «De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. » [Francisco Vale (editor), “Jornal de Leiria”, 02.2018]

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