Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Guiné-Equatorial

“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

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Diz que a Guiné Equatorial não quer promover o “brasileiro”…

Esta notícia da Agência Brasilusa, reproduzida pelo pasquim acordista “Diário de Notícias”, é aqui transcrita (sem vénia alguma, dados os créditos expressos) mas a transcrição carece de nota prévia.

A ortografia do original foi, como é costume neste sítio optimamente frequentado onde a escrita é escorreita, corrigida automaticamente pela solução Firefox contra o AO90. Porém, lamentável e inevitavelmente, os demais erros de Português “plasmados” na dita notícia (“enveredar esforços”, eheheheheheh, mas que cromos) não podem ser rectificados.

Guiné Equatorial não mostra vontade de promover português – Conselho Científico do IILP

 

A recém-eleita presidente do conselho científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), a portuguesa Margarita Correia, afirmou hoje que “não tem sido muito visível a vontade” da Guiné Equatorial para difundir o português no país.

Não temos tido a participação dos membros da Guiné Equatorial nas reuniões do conselho científico do IILP. Não posso avaliar dessa vontade, na medida em que, pelo menos, ela não tem sido muito visível”, disse à Lusa a linguista e professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que foi eleita na semana passada presidente, até 2020, do conselho científico do IILP, organismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para a promoção e desenvolvimento do português.

A responsável sublinhou que a organização “está consciente e disponível para enveredar esforços para que o português venha a ter outra representatividade na Guiné Equatorial, assim as autoridades do país o desejem”.

“O IILP tem perfeita consciência das suas responsabilidades, mas também das suas possibilidades”, afirmou, recordando que o trabalho é desenvolvido a nível multilateral.

A especialista defendeu que “tem de haver um esforço também da própria CPLP, isso tem de ser reforçado”, sublinhando que “a difusão e desenvolvimento do português na Guiné Equatorial também tem de resultar de vontade política, e essa vontade política não diz respeito ao IILP, mas é assumida por outros órgãos da CPLP“.

Margarita Correia ressalvou que têm havido apoios de Portugal e do Brasil à promoção do português na Guiné Equatorial, um compromisso da adesão desta antiga colónia espanhola quando aderiu à CPLP, em 2014, quando tornou a língua portuguesa como uma das línguas oficiais, a par do espanhol e do francês.

Na reunião do conselho científico realizado na semana passada, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, “foi manifestado apoio à elaboração de um projecto multilateral sobre a promoção da língua portuguesa na Guiné Equatorial no seguimento do pedido feito pelo secretariado executivo da CPLP”, refere o comunicado final do encontro.

Questionada sobre as suas prioridades no IILP, a responsável comentou que o organismo tem “normalmente muitas dificuldades de financiamento”, pelo que vai empenhar-se na procura das “melhores soluções para vencer as dificuldades”.

Mais uma vez, a professora advoga que a CPLP deve “repensar a solução do IILP e dotá-lo dos meios necessários e suficientes para que possa cumprir a função que a CPLP exige dele e que tem vindo a ser reconhecida e reforçada ao longo dos anos, mas sem que isso corresponda até agora a um reforço da estrutura e do financiamento do IILP“.

Na reunião da semana passada, em que não participaram representantes das comissões nacionais da Guiné Equatorial nem da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe entregou o Vocabulário Ortográfico Nacional (VON), que será integrado “tão depressa quanto possível” na Plataforma do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC).

“Temos seis VON já prontos e faltam os de Angola e Guiné-Bissau”, comentou Margarita Correia, que recordou que Luanda “tem vindo a anunciar a realização do seu Vocabulário Ortográfico Nacional”.

“A Guiné-Bissau tem estado numa situação mais instável e esperamos que possa voltar ao nosso convívio e desenvolver os seus trabalhos”, referiu.

O VOC é um instrumento previsto no âmbito do acordo ortográfico e pretende fazer o levantamento das palavras em uso nos países da CPLP.

Na reunião do conselho científico, “foi reconhecido, relativamente à substituição da direcção executiva do IILP, o direito de a Guiné-Bissau apresentar um candidato ao cargo”.

A actual directora executiva é a moçambicana Marisa Mendonça.

O IILP tem sede na cidade da Praia desde a sua criação, em 2002.

[Transcrição integral de “Internacional – Guiné Equatorial não mostra vontade de promover português – Conselho Científico do IILP”, jornal “DN”/Lusa, 14.05.18. Destaques, sublinhados e “links” de minha responsabilidade. Imagem de topo de: Imagem de topo (extraída da página Wiki “Corruption in Equatorial Guinea“: By Rodrigues Pozzebom/ABr – Agência Brasil, 1650FRP051.jpg, CC BY 3.0 br, Link]

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«A humilhação continua» [Francisco Sarsfield Cabral, “Renascença”]

A humilhação continua

Francisco Sarsfield Cabral

05 Jan, 2018

Foi e é humilhante para Portugal a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. País que ainda não deixou de violar o Estado de direito.

“Todos os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) estão obrigados aos seus estatutos, que são claros quando dizem que todos nós nos comprometemos com a prática do Estado de direito e do primado da lei”. Estas recentes afirmações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, tiveram escassa repercussão na nossa comunicação social. Compreende-se: embora não referida, está obviamente em causa a Guiné Equatorial, que agora desgraçadamente faz parte da CPLP, mas manifesta o mais completo desprezo pelo Estado de direito. Há meses ter-se-ão multiplicado ali prisões e torturas a membros da oposição.

A Guiné Equatorial, uma antiga colónia espanhola que não tem laços culturais com os países lusófonos, aderiu formalmente à CPLP na Cimeira de Chefes de Estado e de Governo em Díli, em 2014. Portugal foi então forçado a aceitar o novo membro, perante a pressão de países como Angola. A Guiné Equatorial suspendeu a pena de morte – na lei, não necessariamente na prática – para aderir à CPLP. E comprometeu-se a difundir o uso da língua portuguesa, até agora com escassos resultados.

O Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, tomou o poder em 1979, através de um golpe de Estado contra o próprio tio, Francisco Macías, que foi depois fuzilado. Obiang e membros da sua família têm uma das maiores fortunas em África, segundo a revista Forbes. E enfrentam processos em alguns países por corrupção, fraude e branqueamento de capitais, além de acusações de violação dos direitos humanos.

Não são declarações como a citada no início deste artigo que mudarão o que quer que seja naquele país, onde, aliás, quase não se fala português. De resto, na CPLP não é só a Guiné Equatorial que viola o Estado de direito – veja-se, por exemplo, a incompreensão do novo Presidente de Angola, João Lourenço, para com a separação de poderes entre a área política e o sector da justiça, separação que é respeitada em Portugal, como trave essencial do regime democrático.

Uma vez que os governantes portugueses receiam ofender os seus parceiros na CPLP se lhes apontarem violações ao Estado de direito, mais vale, então, falar o menos possível desta organização e da Guiné Equatorial.

Francisco Sarsfield Cabral

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Francisco Sarsfield Cabral, publicado no “site” da rádio Renascença em 05.01.18. Adicionei “links”.]

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“Lusofonia” instantânea, CPLP a pataco, língua “unificada” a martelo

Sinopse

1. «Antes da CPLP, Obiang tentou Francofonia e Estados Ibero-americanos.»
2. «”O que houve foi uma venda de um lugar e Obiang pagou a alguém”.»
3. «Jorge Borges, antigo ministro das Relações Exteriores de Cabo Verde, disse que, “nas mesas visitadas, foi possível constatar que a votação ocorre de forma ordeira e pacífica, em linha com os procedimentos previstos na legislação nacional e com práticas internacionalmente reconhecidas”.»
4. «“Estou à espera de ser preso e que nos matem a todos aqui no partido, porque aqui não há Estado de Direito”, acrescentou o dirigente da oposição.»

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A oposição tem-se queixado da falta de liberdade política e de expressão, uma crítica que é subscrita por várias organizações não-governamentais.

“Observador”, 10.11.17

Os principais líderes da oposição na Guiné Equatorial que concorrem nas eleições legislativas de domingo acusaram este sábado a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) de ter aceitado “vender” o lugar de país-membro ao Presidente Teodoro Obiang.

“O que houve foi uma venda de um lugar e Obiang pagou a alguém”, disse à Lusa Andrés Esono Ondo, líder da Convergência para a Democracia Social (CPDS) e um dos dirigentes da coligação Juntos Podemos que concorre nas eleições legislativas e autárquicas de domingo. Gabriel Obiang Obono, líder do Cidadãos pela Inovação, concorda com esta análise: “a CPLP foi comprada para permitir a entrada da Guiné Equatorial”.

Antes da CPLP, Obiang tentou Francofonia e Estados Ibero-americanos

“Observador”, 11.11.17

 

“Estou à espera de ser preso e que nos matem a todos aqui no partido, porque aqui não há Estado de Direito”, acrescentou o dirigente da oposição, acusando Obiang de estar a tentar promover a passagem de poder para o seu filho.

Segundo Gabriel Obono, “90% dos representantes do partido CI foram impedidos de estar na mesa de voto” e foram “substituídos por amigos do regime que usdaram credenciais falsas”.

“Observador”, 12.11.17

 

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«Crónica de um desacordo anunciado» [Pedro Vieira, “Observador”]

Crónica de um desacordo anunciado

Pedro Vieira, Observador, 30 de Janeiro de 2017

O hífen, os acentos e as consoantes mudas poderão voltar a ser o que eram. Pedro Vieira aplaude os regressos ortográficos e lembra que há outros acordos mais importantes na língua portuguesa.

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Está a ver a utilidade daqueles conjuntos de fondue que a dada altura todos os agregados familiares portugueses foram obrigados a ter, por via matrimonial ou outra? Ou daquela app da bússola que vem sempre com os smartphones? Ou ainda a utilidade extrema do cargo de ministro da República nos Açores, entretanto substituído por um Representante? Pois. Em relação ao Acordo Ortográfico (AO) sinto o mesmo. Ultrapassam-me as questões académicas, políticas, económicas ou tão somente voluntariosas que levaram à sua concepção. Encolho os ombros ao nacionalismo e ao sentimento de posse da língua e não sei bem se sinto falta do “p” em Egito. O que sei é que quando escrevo “leitor, para para pensar um pouco neste assunto” quero dizer “pára”. Com acento.

A verdade é que nunca precisei de escrever respeitando o dito do Acordo que está mais ou menos em vigor. E quando o resultado final o exigia, contei sempre com a bondade de estranhos, como no eléctrico (com “c”) chamado desejo, e com a atenção e denodo dos revisores, essa profissão tão desprezada nos dias que correm. Por princípio nada me opõe à mudança, se houver uma lógica discernível por trás da mesma, mas esse não é o caso do AO. Aliás, a palavra Acordo está a ser usada de forma desadequada nesta questão, até porque estamos na presença, sim, da TO. A Trapalhada Ortográfica. Também conhecida como Trapalhada de Santa Engrácia (TSE).

De boas intenções está o Inferno cheio

A chamada TSE tem uma história longa, que vai pelo menos até 1990. Nessa altura Portugal abraçava toda uma nova modernidade proporcionada pela adesão recente à CEE. Numa vertigem de entusiasmo, estávamos dispostos a trocar tudo pelos euros da altura – marcos, francos, florins – inclusive a frota pesqueira ou as oliveiras que haveriam de fazer tanta falta.

Agarrámo-nos à normalização (o tamanho dos pepinos, o comprimento dos preservativos) e nesse afã procurámos, aparentemente, uma espécie de padrão comum à escrita em português, regulamentando o património mais importante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A seguir ao petróleo angolano e brasileiro. E ao cacau de São Tomé. E àquelas espetadas de cabrito muito pequeninas oriundas de Timor-Leste. Ou será Timor Leste, sem hífen? Adiante.

Referia-me à língua. Esse elo comum que mais tarde haveria de ligar-nos de forma fraterna ao português falado na Guiné Equatorial. Na altura o objectivo era unificar a ortografia entre todos, acabando com as diferenças entre o que se escrevia no Brasil e o que era posto no papel nos outros territórios, aumentando assim o “prestígio do português”, palavra dos promotores da TSE. A verdade é que o conteúdo desta Trapalhada nunca suscitou unanimidade entre académicos, escritores, filólogos, treinadores de bancada, cronistas, jornalistas, professores e políticos, empresários e publicistas.

Que a TSE é fundamental para a pujança económica da língua, um activo com mais de 200 milhões de utilizadores, dizem uns. Que a Trapalhada tem normas incompreensíveis como a supressão das consoantes mudas, agitam outros. Nos dias de hoje é impossível conhecer as reacções provocadas por acordos anteriores, mas pelo menos sabemos que não houve necessidade de fingir consensos ou de fazer petições online, que são quase sempre uma maçada vestida de inconsequência. Excepto no caso vertente.

Golpes de theatro

Até ao século XX, a escrita de português servia-se das suas bases latinas e gregas, sem qualquer Acordo ou TSE ao barulho. Acontece que em 1911, Portugal resolveu dotar a revolução republicana de uma revolução na escrita, aprovando um Formulário Ortográfico que o Brasil esnobou. Ou seja, ficámos a escrever de forma diferente, também na ortografia. É que a escrita dos dois lados do Atlântico teima em ser distinta, e bem, uma vez que a semântica é muito diferente, e essa não se normaliza por decreto.

Inconformados com as divergências, portugueses e brasileiros tentaram novo acordo em 1931, que viria a ser materializado em vocabulários ortográficos da língua portuguesa… diferentes. Portugal publicara o seu em vocabulário oficial em 1940 e o Brasil fizera o mesmo em 1943, registando-se diferenças que obrigaram a uma nova tentativa de acordo em 1945. Aqui no rectângulo adoptámos as novas regras acordadas no ano em que acabou a II Grande Guerra. Mas no Brasil foi tudo por água abaixo e mantiveram-se em vigor as normas adoptadas em 1943. O que significa que é mais fácil terminar um conflito intercontinental que pôs Churchill, Hitler e Estaline à chapada do que chegar a um consenso ortográfico.

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«Conferência da CPLP em Brasília: comeram e beberam» [“Gazeta Digital” (Brasil)]

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gazetadigital_br_logoConferência da CPLP em Brasília

Segunda, 07 de novembro de 2016, 00h00

Pio Penna Filho

 

 

Aconteceu na semana passada, em Brasília, a XI Conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A Comunidade foi criada em 1996 e é formada por 9 países: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Guiné Equatorial. Além desses, existem os observadores associados, com os seguintes países: Namíbia, Ilhas Maurício, Senegal, Turquia, Japão, Geórgia, Hungria, República Checa, Eslováquia e Uruguai.

Embora a Comunidade tenha completado 20 anos de existência, pouco se fala dela no Brasil. É bem provável que o desconhecimento público da CPLP no Brasil seja decorrente da falta de resultados concretos da Comunidade. Em quase todas as suas conferências os documentos finais apresentam um verdadeiro rosário de intenções, que quase nunca são levados adiante.

A CPLP foi criada para congregar os países de língua portuguesa espalhados pelo mundo e tem por objetivo dotar esses países de um fórum que propicie a concertação política e diplomática e a cooperação entre os seus membros, além de difundir a língua portuguesa pelo mundo.

Fica evidente, entretanto, que além de ter avançado pouco em termos de resultados, a Comunidade acabou entrando numa espécie de desvio de rota. A prova mais eloquente disso foi a admissão de um país que não fala português como membro efetivo da CPLP.

Nesse sentido, a entrada da Guiné Equatorial pode ser vista como uma mudança em seus propósitos iniciais, afinal de contas, o que justificaria a entrada de um país que não possui laços linguísticos, históricos e culturais com a maior parte dos membros da CPLP?

Mas além da questão da Guiné Equatorial, e até mesmo mais importante, são as divergências entre os próprios membros originais. Brasil e Portugal, por exemplo, tem distintas visões acerca da CPLP e isso contribui para a sensação de inoperância da Comunidade. Ademais, os países africanos de língua oficial portuguesa também não demonstram muito entusiasmo com o bloco. Posição seguida também por Timor Leste.

Um exemplo do quase fiasco da CPLP é a dificuldade em implementar o já desgastado acordo ortográfico.A ideia era reformar a língua portuguesa para que houvesse mais convergência entre os países que a usam, unificando a sua grafia. Contudo, o acordo continua sofrendo fortes resistências para sua implementação entre a maior parte dos Estados membros. Até hoje, na verdade, apenas três países o colocaram em vigência e mesmo assim com muita confusão.

É difícil acreditar que a Conferência de Brasília vá renovar a CPLP, dando-lhe novo fôlego. De novo, os representantes se sentaram à mesa, conversaram, comeram, beberam, e aprovaram um documento para lá de vago, sem nada de concreto, apesar do pomposo título de uma “Nova Visão Estratégica da CPLP (2016-2026)”.

Assim, é muito provável que cheguemos a 2026 mais ou menos como estamos hoje: cada um dos países membros da CPLP cuidando dos seus assuntos de forma individual e mantendo a aparência de que somos uma verdadeira comunidade.

Pio Penna Filho é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do CNPq E-mail: piopenna@gmail.com

[Transcrição de: Gazeta Digital (Brasil). Destaques e “links” meus.]

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