Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Guiné-Equatorial

“Lusofonia” instantânea, CPLP a pataco, língua “unificada” a martelo

Sinopse

1. «Antes da CPLP, Obiang tentou Francofonia e Estados Ibero-americanos.»
2. «”O que houve foi uma venda de um lugar e Obiang pagou a alguém”.»
3. «Jorge Borges, antigo ministro das Relações Exteriores de Cabo Verde, disse que, “nas mesas visitadas, foi possível constatar que a votação ocorre de forma ordeira e pacífica, em linha com os procedimentos previstos na legislação nacional e com práticas internacionalmente reconhecidas”.»
4. «“Estou à espera de ser preso e que nos matem a todos aqui no partido, porque aqui não há Estado de Direito”, acrescentou o dirigente da oposição.»

.

A oposição tem-se queixado da falta de liberdade política e de expressão, uma crítica que é subscrita por várias organizações não-governamentais.

“Observador”, 10.11.17

Os principais líderes da oposição na Guiné Equatorial que concorrem nas eleições legislativas de domingo acusaram este sábado a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) de ter aceitado “vender” o lugar de país-membro ao Presidente Teodoro Obiang.

“O que houve foi uma venda de um lugar e Obiang pagou a alguém”, disse à Lusa Andrés Esono Ondo, líder da Convergência para a Democracia Social (CPDS) e um dos dirigentes da coligação Juntos Podemos que concorre nas eleições legislativas e autárquicas de domingo. Gabriel Obiang Obono, líder do Cidadãos pela Inovação, concorda com esta análise: “a CPLP foi comprada para permitir a entrada da Guiné Equatorial”.

Antes da CPLP, Obiang tentou Francofonia e Estados Ibero-americanos

“Observador”, 11.11.17

 

“Estou à espera de ser preso e que nos matem a todos aqui no partido, porque aqui não há Estado de Direito”, acrescentou o dirigente da oposição, acusando Obiang de estar a tentar promover a passagem de poder para o seu filho.

Segundo Gabriel Obono, “90% dos representantes do partido CI foram impedidos de estar na mesa de voto” e foram “substituídos por amigos do regime que usdaram credenciais falsas”.

“Observador”, 12.11.17

 

(mais…)

Share

«Crónica de um desacordo anunciado» [Pedro Vieira, “Observador”]

Crónica de um desacordo anunciado

Pedro Vieira, Observador, 30 de Janeiro de 2017

O hífen, os acentos e as consoantes mudas poderão voltar a ser o que eram. Pedro Vieira aplaude os regressos ortográficos e lembra que há outros acordos mais importantes na língua portuguesa.

——

Está a ver a utilidade daqueles conjuntos de fondue que a dada altura todos os agregados familiares portugueses foram obrigados a ter, por via matrimonial ou outra? Ou daquela app da bússola que vem sempre com os smartphones? Ou ainda a utilidade extrema do cargo de ministro da República nos Açores, entretanto substituído por um Representante? Pois. Em relação ao Acordo Ortográfico (AO) sinto o mesmo. Ultrapassam-me as questões académicas, políticas, económicas ou tão somente voluntariosas que levaram à sua concepção. Encolho os ombros ao nacionalismo e ao sentimento de posse da língua e não sei bem se sinto falta do “p” em Egito. O que sei é que quando escrevo “leitor, para para pensar um pouco neste assunto” quero dizer “pára”. Com acento.

A verdade é que nunca precisei de escrever respeitando o dito do Acordo que está mais ou menos em vigor. E quando o resultado final o exigia, contei sempre com a bondade de estranhos, como no eléctrico (com “c”) chamado desejo, e com a atenção e denodo dos revisores, essa profissão tão desprezada nos dias que correm. Por princípio nada me opõe à mudança, se houver uma lógica discernível por trás da mesma, mas esse não é o caso do AO. Aliás, a palavra Acordo está a ser usada de forma desadequada nesta questão, até porque estamos na presença, sim, da TO. A Trapalhada Ortográfica. Também conhecida como Trapalhada de Santa Engrácia (TSE).

De boas intenções está o Inferno cheio

A chamada TSE tem uma história longa, que vai pelo menos até 1990. Nessa altura Portugal abraçava toda uma nova modernidade proporcionada pela adesão recente à CEE. Numa vertigem de entusiasmo, estávamos dispostos a trocar tudo pelos euros da altura – marcos, francos, florins – inclusive a frota pesqueira ou as oliveiras que haveriam de fazer tanta falta.

Agarrámo-nos à normalização (o tamanho dos pepinos, o comprimento dos preservativos) e nesse afã procurámos, aparentemente, uma espécie de padrão comum à escrita em português, regulamentando o património mais importante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A seguir ao petróleo angolano e brasileiro. E ao cacau de São Tomé. E àquelas espetadas de cabrito muito pequeninas oriundas de Timor-Leste. Ou será Timor Leste, sem hífen? Adiante.

Referia-me à língua. Esse elo comum que mais tarde haveria de ligar-nos de forma fraterna ao português falado na Guiné Equatorial. Na altura o objectivo era unificar a ortografia entre todos, acabando com as diferenças entre o que se escrevia no Brasil e o que era posto no papel nos outros territórios, aumentando assim o “prestígio do português”, palavra dos promotores da TSE. A verdade é que o conteúdo desta Trapalhada nunca suscitou unanimidade entre académicos, escritores, filólogos, treinadores de bancada, cronistas, jornalistas, professores e políticos, empresários e publicistas.

Que a TSE é fundamental para a pujança económica da língua, um activo com mais de 200 milhões de utilizadores, dizem uns. Que a Trapalhada tem normas incompreensíveis como a supressão das consoantes mudas, agitam outros. Nos dias de hoje é impossível conhecer as reacções provocadas por acordos anteriores, mas pelo menos sabemos que não houve necessidade de fingir consensos ou de fazer petições online, que são quase sempre uma maçada vestida de inconsequência. Excepto no caso vertente.

Golpes de theatro

Até ao século XX, a escrita de português servia-se das suas bases latinas e gregas, sem qualquer Acordo ou TSE ao barulho. Acontece que em 1911, Portugal resolveu dotar a revolução republicana de uma revolução na escrita, aprovando um Formulário Ortográfico que o Brasil esnobou. Ou seja, ficámos a escrever de forma diferente, também na ortografia. É que a escrita dos dois lados do Atlântico teima em ser distinta, e bem, uma vez que a semântica é muito diferente, e essa não se normaliza por decreto.

Inconformados com as divergências, portugueses e brasileiros tentaram novo acordo em 1931, que viria a ser materializado em vocabulários ortográficos da língua portuguesa… diferentes. Portugal publicara o seu em vocabulário oficial em 1940 e o Brasil fizera o mesmo em 1943, registando-se diferenças que obrigaram a uma nova tentativa de acordo em 1945. Aqui no rectângulo adoptámos as novas regras acordadas no ano em que acabou a II Grande Guerra. Mas no Brasil foi tudo por água abaixo e mantiveram-se em vigor as normas adoptadas em 1943. O que significa que é mais fácil terminar um conflito intercontinental que pôs Churchill, Hitler e Estaline à chapada do que chegar a um consenso ortográfico.

(mais…)

Share

«Conferência da CPLP em Brasília: comeram e beberam» [“Gazeta Digital” (Brasil)]

6699752

gazetadigital_br_logoConferência da CPLP em Brasília

Segunda, 07 de novembro de 2016, 00h00

Pio Penna Filho

 

 

Aconteceu na semana passada, em Brasília, a XI Conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A Comunidade foi criada em 1996 e é formada por 9 países: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Guiné Equatorial. Além desses, existem os observadores associados, com os seguintes países: Namíbia, Ilhas Maurício, Senegal, Turquia, Japão, Geórgia, Hungria, República Checa, Eslováquia e Uruguai.

Embora a Comunidade tenha completado 20 anos de existência, pouco se fala dela no Brasil. É bem provável que o desconhecimento público da CPLP no Brasil seja decorrente da falta de resultados concretos da Comunidade. Em quase todas as suas conferências os documentos finais apresentam um verdadeiro rosário de intenções, que quase nunca são levados adiante.

A CPLP foi criada para congregar os países de língua portuguesa espalhados pelo mundo e tem por objetivo dotar esses países de um fórum que propicie a concertação política e diplomática e a cooperação entre os seus membros, além de difundir a língua portuguesa pelo mundo.

Fica evidente, entretanto, que além de ter avançado pouco em termos de resultados, a Comunidade acabou entrando numa espécie de desvio de rota. A prova mais eloquente disso foi a admissão de um país que não fala português como membro efetivo da CPLP.

Nesse sentido, a entrada da Guiné Equatorial pode ser vista como uma mudança em seus propósitos iniciais, afinal de contas, o que justificaria a entrada de um país que não possui laços linguísticos, históricos e culturais com a maior parte dos membros da CPLP?

Mas além da questão da Guiné Equatorial, e até mesmo mais importante, são as divergências entre os próprios membros originais. Brasil e Portugal, por exemplo, tem distintas visões acerca da CPLP e isso contribui para a sensação de inoperância da Comunidade. Ademais, os países africanos de língua oficial portuguesa também não demonstram muito entusiasmo com o bloco. Posição seguida também por Timor Leste.

Um exemplo do quase fiasco da CPLP é a dificuldade em implementar o já desgastado acordo ortográfico.A ideia era reformar a língua portuguesa para que houvesse mais convergência entre os países que a usam, unificando a sua grafia. Contudo, o acordo continua sofrendo fortes resistências para sua implementação entre a maior parte dos Estados membros. Até hoje, na verdade, apenas três países o colocaram em vigência e mesmo assim com muita confusão.

É difícil acreditar que a Conferência de Brasília vá renovar a CPLP, dando-lhe novo fôlego. De novo, os representantes se sentaram à mesa, conversaram, comeram, beberam, e aprovaram um documento para lá de vago, sem nada de concreto, apesar do pomposo título de uma “Nova Visão Estratégica da CPLP (2016-2026)”.

Assim, é muito provável que cheguemos a 2026 mais ou menos como estamos hoje: cada um dos países membros da CPLP cuidando dos seus assuntos de forma individual e mantendo a aparência de que somos uma verdadeira comunidade.

Pio Penna Filho é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do CNPq E-mail: piopenna@gmail.com

[Transcrição de: Gazeta Digital (Brasil). Destaques e “links” meus.]

Share

Ciências da morte [por Olga Rodrigues]

«The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) (In French: Organisation des Nations unies pour l’éducation, la science et la culture) is a specialized agency of the United Nations (UN) based in Paris. Its declared purpose is to contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights along with fundamental freedom proclaimed in the United Nations Charter. It is the heir of the League of NationsInternational Committee on Intellectual Cooperation.»
[Wikipedia]

 

univporto_unesco_g-e

 

Prémio Internacional UNESCO | Guiné Equatorial para a Investigação em Ciências da Vida (ou da Morte?)

Subsídios para a formação de uma distinta classe de inteletuais

A guiné equatorial (assim mesmo, com letra minúscula), estado soberano, patrocina um prémio para a Investigação em Ciências da Vida. A UNESCO empresta-lhe a credibilidade e o prestígio do seu nome para o tornar visível na esfera internacional.

A notícia, sintomaticamente, aparece no “site” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto englobada no item “Fontes de Financiamento / Bolsas / Oportunidades”.

Será uma boa oportunidade ganhar um prémio monetário no valor de US $300,000, além de um diploma e uma medalha? Com certeza. Tal distinção confere prestígio a quem a obtém? Dificilmente.

É simplesmente um expediente, uma fonte de financiamento que se pode obter de forma rápida, mas que, ao contrário do que os seus promotores pensam, não confere qualquer tipo de prestígio nem de distinção tanto a quem obtém o prémio, como a quem o confere.

É, para utilizar um anglicismo corrente, “business as usual”.

É a viciação e distorção da linguagem no seu máximo esplendor. É patrocinar um prémio de Ciências da Vida com dinheiro obtido da forma mais duvidosa possível e que foi criado apenas para reabilitar o nome mal-afamado de um ditador com demasiados crimes no seu já longo historial.

É aproveitar a situação de vulnerabilidade por que estão a passar as Universidades para as fazer aceitar o inaceitável, para reduzir os seus investigadores e professores a funcionários amestrados; atentos, veneradores e obrigados.

É dar um passo mais para a criação de uma novel classe de inteletuais que nada inteligem e que apenas papagueiam de cor e amoralmente a cartilha que os senhores do dinheiro lhes põem à frente.

E quem pensa que a língua não é para aqui chamada, engana-se, pois, uma língua, qualquer que ela seja, serve sobretudo para nos entendermos e fazermo-nos entender melhor, para interrogarmos o mundo à nossa volta e ir obtendo algumas respostas.

É com ela que se faz Ciência, qualquer ciência, que a comunicamos aos outros e vamos construindo com ela uma grande parte da nossa cultura.

Podemos por isso dizer sem medo de errar que quando uma instituição como a UNESCO promove um prémio que pressupõe de forma tácita a abdicação forçada da língua original de uma dada comunidade, no caso presente a nossa, que tem sido obrigada a estropiar a sua língua unicamente para fazer sobressair os projectos pessoais de alguns, está claramente a violar os princípios que a própria organização instituiu: “contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights”.

Na prática mata a Ciência, e logo na raiz, pois defendendo e promovendo activamente  o uso de uma língua artificialmente modificada unicamente para satisfazer fins políticos, estão na realidade a inutilizar o próprio substrato da sua concepção e feitura, logo, estão a inviabilizar o desenvolvimento da Ciência que tanto dizem defender.

É  por isso um evento que premeia as Ciências mortas e as Ciências da Morte.

É, em suma, a negação mais absoluta do trabalho, do estudo e da investigação que tão extremosamente enaltecem (da boca para fora), que querem substituir pelo nada, pelo vazio, pela negação de tudo o que vive e faz mexer qualquer investigador, em qualquer área.

É, no fundo, e ao arrepio de tudo o que afirmam, a mais perfeita negação de tudo o que seja a Vida, nas suas mais sofisticadas manifestações para a substituírem pelo Vazio e pelo Nada que caracterizam a Morte do indivíduo enquanto tal.

Olga Rodrigues

Share

Os planos da pólvora

cimeiracplpbrasilia

Sucedem-se as notícias e os comentários a respeito da Cimeira de Brasília, incidindo por maioria esmagadora, umas e outros, sobre um “projeto” pessoal de António Costa.

Desde o início deste divertido evento, abrilhantado pela presença, entre outros, de um senhor de reputação impecável que dá pelo nome de Teodoro Obiang, muito se tem de facto falado e escrito sobre a extraordinária ideia que assomou à cabeça do Primeiro-Ministro português: rasgar o Acordo de Schengen e abrir as fronteiras da Europa aos demais 8 países membros da CPLP. Desconhece-se ainda, ao certo, a receptividade que tão grandiosa e generosa proposta suscitará em Bruxelas (ou até mesmo em Madrid, vá), mas devemos presumir que certamente o aplauso será geral, pois claro, pelo menos os alemães e os franceses devem ficar todos contentes.

Enquanto esperamos por tais manifestações de alegria, porém, talvez fosse de aproveitar o facto de já estarmos sentados para o efeito e ir lendo uma notícia que não segue o grupo coral, que desafina do tom geral, que talvez por ingenuidade limita-se a dizer o que se passou em Brasília nos últimos dias.

Uma notícia que ignora olimpicamente os planos da pólvora de Costa e que titula apenas o essencial. Uma notícia que terá passado despercebida no meio da barulheira infernal criada em volta daquela gritante manobra de diversão.

Uma notícia que, em suma, mesmo veiculando no texto as patranhas do costume, sintetiza no título todo o programa, toda a agenda da Cimeira de Brasília.

Esta notícia.

voa_logoCPLP quer que todos os países ratifiquem o Acordo Ortográfico

Angola e Moçambique não ratificaram o acordo.

A Declaração de Brasília, que estabelece o plano de trabalho da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para os próximos anos, e a expansão do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa estão na pauta de discussão da 11ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo da comunidade.

Nesta segunda-feira, 31, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos novo países reúnem-se para ultimar os detalhes da Declaração e de outros documentos que serão assinados amanhã.

O subsecretário para África e Médio Oriente do Ministério brasileiro das Relações Exteriores, Fernando Abreu, põe ênfase na ratificação do acordo ortográfico em Angola e Moçambique.

“Isso facilitará a divulgação da língua portuguesa e determinadas tarefas, como a divulgação de livros, será facilitada porque teremos uma ortografia única. Evidentemente, respeitando as expressões regionais, de cada país, a um vocabulário ortográfico convencional”, explica Abreu..

Nesta conferência, o Brasil assumirá a presidência da CPLP pelo próximo biênio, sucedendo o Timor-Leste, no ano em que a organização comemora 20 anos de existência.

Além da valorização da língua portuguesa, a CPLP desenvolve projetos de cooperação entre os países-membros em várias áreas, como educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, cultura e desporto.

Source: CPLP quer que todos os países ratifiquem o Acordo Ortográfico

[Conservei propositadamente a ortografia brasileira do original porque este artigo foi redigido por um brasileiro. No entanto, quase todos os conteúdos do “portal” da rádio Voz da América – Serviço em Português para África estão em Português-padrão.]

[Imagem de topo de: “Mundo Lusíada” (Brasil)]

Share

O elefante na sala (Obiang) e o esqueleto no armário (AO90)

temer_obiang

logo_shareObiang, o elefante na sala da CPLP

Eunice Lourenço (Brasília)

31/10/2016 – 21:08

Marcelo e Costa evitam falar da Guiné Equatorial, mas presença de Obiang é mais um dos obstáculos ao relançamento da CPLP. Liberdade de circulação e residência pode seguir a vários ritmos na próxima década.

————————

Nos discursos de abertura da XI Cimeira da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) o Presidente de Timor-Leste saudou nesta segunda-feira a presença do novo membro, a Guiné Equatorial, um país que ainda tem pena de morte e está constantemente na lista de países que menos respeitam os direito humanos. A Guiné Equatorial é o “elefante na sala” desta cimeira de Brasília, que todos tentam ignorar ou contornar.

Questionados com insistência pelos jornalistas portugueses sobre a participação do Presidente Obiang nesta cimeira, tanto Marcelo Rebelo de Sousa como António Costa e até mesmo António Guterres nunca se pronunciaram sobre o país em concreto, preferindo falar em genérico sobre como é importante defender os princípios dos direitos humanos e pô-los em prática.

“Penso que uma das missões de todas as organizações internacionais é trabalhar com os seus próprios Estados-membros no sentido de que a agenda universal dos direitos humanos, que é hoje uma componente essencial do nosso património internacional, seja também adoptada por todos eles”, disse Guterres, em conferência de imprensa, depois da abertura da cimeira na capital brasileira.

O Presidente da Guiné Equatorial tomou o poder em 1979, na sequência de um golpe de Estado sangrento. Está instalado no mesmo hotel que o Presidente e o primeiro-ministro portugueses e também António Guterres. Marcelo atribuiu o facto a circunstâncias logísticas, e não políticas.

Até quando falou da sua proposta de liberdade de circulação e residência, António Costa evitou falar deste país incómodo que só há três dias entregou a ratificação da sua entrada na CPLP. Só quando lhe perguntaram se a proposta portuguesa não se aplicaria aos cidadãos da Guiné Equatorial, o primeiro-ministro respondeu: “Faz parte da CPLP, mas é evidente que a relação com os países que falam português é distinta.”

A proposta portuguesa de promover a liberdade de circulação e de residência no espaço da CPLP deve fazer parte da declaração final da cimeira como princípio a trabalhar nos próximos anos. António Costa falou mesmo de um contributo para “uma década”, embora gostasse de ver o princípio da liberdade de residência avançar para já.

Em declarações aos jornalistas portugueses, Costa defendeu a liberdade de circulação e de residência como essencial para cimentar a própria comunidade de países de língua portuguesa, que vive dias de estagnação. Mas reconheceu que a proposta pode seguir a vários ritmos com diferentes parceiros. Rádio Renascença

[“Público”, edição em papel de 01.11.16.  Destaques e “links” meus. Foto: AFP/EVARISTO SA.]

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme