Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: História

“O «acordo» que ninguém quer” [Viriato Teles, RTP, 12.10.18]

O «acordo» que ninguém quer

RTP, 12.10,18

Viriato Teles

 

O «acordo ortográfico» é como aqueles bêbedos chatos que aparecem sem ser convidados: entra, instala-se e não pára de incomodar; mas – por piedade, temor ou excesso de civilidade – ninguém se atreve a pô-lo na rua.

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Uma boa notícia chegou de Luanda, onde esta semana a Academia Angolana de Letras pediu formalmente ao governo de João Lourenço que não ratifique o AO. Se seguida a sugestão, como se espera, Angola dará um passo decisivo para reverter um «acordo» que, como sublinha a AAL, «trouxe mais problemas do que resolveu».

Com uma lucidez que não se tem revelado nas instituições de aquém-mar, os angolanos colocam o dedo na ferida: «Face aos constrangimentos identificados e ao facto de não ser possível a verificação científica dos postulados de todas as bases do AO, factor determinante para a garantia da sua utilização adequada, a AAL é desfavorável à ratificação por parte do Estado angolano.»

As razões apresentadas são as mesmas que, por cá, os vários grupos de resistência cívica ao «acordo» têm sublinhado, com destaque para o «número elevado de excepções à regra» (as absurdas «facultatividades») que «não concorre para a unificação da grafia do idioma, não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão».

A melhor definição do AO ouvi-a ao humorista brasileiro Gregório Duvivier: «O acordo ortográfico é como a tomada de três pinos: criou uma solução para um problema que não havia

Só que o problema, que não havia antes, passou a existir depois.

A confusão instalou-se, alastrou à semântica e à sintaxe, e na formulação escrita da língua portuguesa passou a vigorar a regra do «faz-como-te-der-jeito» – aliás uma constante em documentos oficiais, a começar pelo Diário da República, onde diariamente coincidem na mesma frase as ortografias de antes e de depois do «acordo», e às vezes até outras, inventadas ou induzidas pelo caos em volta.

A verdade é que, tirando Malaca Casteleiro e os seus prosélitos, é quase impossível encontrar defensores do «acordo». Porque é comprovadamente mau e ninguém gosta dele, nem sequer os que, por funções de Estado, se sentem no dever de o aplicar. Só tem faltado quem tenha a coragem de dar o primeiro passo para lhe pôr fim.

É um assunto incómodo para o governo, mesmo se, nele, o vate que ministra na Cultura assobia para o lado porque tanto se lhe dá escrever assim como assado. Felizmente o mesmo não pensa o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que até faz parte do grupo de Professores Contra o Acordo Ortográfico, no Facebook. Não chega, mas é um bom princípio.

Mas este é também um tema desconfortável para a oposição. Afinal, o «acordo» foi impulsionado politicamente, em Portugal, por duas das mais labruscas figuras que geriram o país e a cultura dele (Cavaco e Santana, sim, é bom lembrar) e atravessou a inércia dos sucessivos governos desde então. No parlamento, apenas o PCP levantou reservas e recentemente propôs a reversão. Os demais, à direita e à esquerda, continuam a preferir varrer a areia para debaixo do tapete.

Talvez o impulso da Academia Angolana de Letras ajude Portugal a, de uma vez por todas, encarar a questão de frente, colocando-lhe o ponto final que merece. Querem fazer um acordo? Pois então comecem por concordar em acabar com este, que não tem ponta por onde se lhe pegue.

(Em jeito de nota de rodapé, esclareça-se que a tomada de três pinos referida no texto foi adoptada como norma no Brasil, poucos anos atrás, como parte de um «plano de segurança» da rede eléctrica nacional. Um plano que, tal como o AO, se revelou inútil – porém muito lucrativo para a indústria de material eléctrico, e particularmente para a multinacional que esteve na origem da criação deste suposto «sistema de segurança». Que não é eficaz e mais ninguém usa, mas potencialmente obrigou à substituição de tomadas em 60 milhões de casas em todo o Brasil, operação que terá movimentado para cima de 1400 milhões de reais, algo como 325 milhões de euros. Qualquer semelhança com os negócios que o AO gerou é, naturalmente, mera coincidência.)

[Transcrição integral de artigo publicado no “site” da RTP, em 12.10,18, da autoria de Viriato Teles. Inseri “links”.]

[Imagem de topo: publicada em 18.05.15 no “mural” Facebook de Dora Leitão Xarepe. o “meme” original deste tipo de desenhos (“All The Things“) surgiu em 2010 e foi adoptado no Brasil com a designação “Quem Somos/O Que Queremos/Quando Queremos”. (Breve “história” aqui.]

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Academia Angolana de Letras contra ratificação do AO90

Academia Angolana de Letras contra ratificação do acordo ortográfico

A Academia Angolana de Letras pede ao Governo de Angola que não ratifique o Acordo Ortográfico (AO) de 1990, defendendo que “trouxe mais problemas do que resolveu” e que necessita de ser revisto.

José Sousa Dias (Agência Lusa)

“Público”, 10 de Outubro de 2018

A Academia Angolana de Letras (AAL) pediu esta quarta-feira ao Governo de Angola que não ratifique o Acordo Ortográfico (AO) de 1990, perante os “vários constrangimentos identificados” no documento, que necessita de uma revisão.A decisão foi apresentada pelo reitor da Universidade Independente de Angola e membro da AAL, Filipe Zau, numa conferência de imprensa em que, pela primeira vez, a academia, criada oficialmente em Setembro de 2016 e que conta com 43 membros, tomou uma posição pública sobre o acordo ortográfico, apresentado em 1990.

“Recomendamos a todos os Estados [membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP] e ao Estado angolano que é necessário rectificar para que se possa ratificar”, disse à agência Lusa Filipe Zau.

Segundo o docente, a academia, que tem como patrono e ocupante da “cadeira número um” o primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto (1922-1979), decidiu tomar posição após auscultar os seus membros. “Não estamos contra o acordo ortográfico em si, estamos contra este acordo”, sublinhou.

“Um número elevado de excepções”

No comunicado, a AAL apresenta um conjunto de razões para justificar a tomada de posição, destacando que, no âmbito dos pressupostos do Acordo Ortográfico de 1990, existe “um número elevado de excepções à regra” que, acrescenta-se, “não concorre para a unificação da grafia do idioma [português], não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão” em Angola.

Por outro lado, a AAL lembra que o acordo “diverge, em determinados casos”, de normas da Organização Internacional para a Padronização (ISSO) sobre o conceito ligado à ortografia, além de “não reflectir” os princípios da UNESCO nem os da Academia Africana de Letras (Acalan) sobre a “cooperação linguístico-cultural com vista à promoção do conhecimento enciclopédico e de paz”.

“Face aos constrangimentos identificados e ao facto de não ser possível a verificação científica dos postulados de todas as bases do AO, factor determinante para a garantia da sua utilização adequada, a AAL é desfavorável à ratificação por parte do Estado angolano”, lê-se no documento.

A AAL sublinha que, tendo em conta a contribuição de étimos de línguas bantu na edificação do português, o AO não considera a importância das línguas nacionais angolanas como factor de identidade nacional.

“A escrita de vocábulos, cujo étimos provenham de línguas bantu, deve ser feita em conformidade com as normas da ortografia dessas línguas, mesmo quando o texto está escrito em português”, defende a AAL, entidade presidida pelo escritor Boaventura Cardoso e que tem Pepetela como presidente da mesa da assembleia geral.

A academia, sublinha-se no documento, constatou a necessidade de o AO ter de ser objecto de “ampla discussão” entre os vários Estados-membros da CPLP, considerando “indispensável” que se estabeleça um “período determinado para a análise, discussão e concertação de ideias” à volta do assunto.

“Tem de se encontrar um denominador comum que permita harmonizar a aplicação do AO de 1990 em todo o espaço comunitário”, refere a AAL, recomendando “maior investimento” dos Estados num “ensino de qualidade”, quer em português, quer nas línguas nacionais, “como contribuição para a preservação” dos vários idiomas.

“Trouxe uma deriva arriscada”

Na conferência de imprensa, o presidente da AAL, Boaventura Cardoso, lembrou que, em Angola, a língua portuguesa é a oficial e é falada “mais ou menos em todo o país”, tendo-se tornado “materna” para grande parte dos angolanos, uma vez que 65% da população utiliza-a na comunicação diária, tal como revelou o último censo populacional de 2016.

Para Boaventura Cardoso, muitos dos problemas que se levantam e que constituem erros passam sobretudo pela ausência do AO de 1990 dos sons pré-nasais, duplos plurais e de respeito pelos radicais das palavras que emigram das línguas nacionais para o português.

“Impõe-se, pois, rever esta situação e, no nosso caso particular, rever a questão da escrita da toponímia angolana, reassumindo os ‘k’, ‘y’ e ‘w’ na grafia da língua portuguesa”, sublinhou, exemplificando ainda com dois casos de sons pré-nasais. “‘Ngola’ ou ‘Gola’. No primeiro caso, ‘Ngola’, trata-se do título do titular máximo do poder no contexto da língua nacional kimbundu. Sem o som pré-nasal, significa a parte superior de uma peça de vestuário. O mesmo se passa com ‘Mfumu’ e ‘Fumo’: ‘Mfumu’ significa ‘chefe’ nas várias hierarquias. Fumo significa o que de tal termo se conhece na Língua Portuguesa”, exemplificou.

Para Boaventura Cardoso, o AO de 1990 “trouxe mais problemas do que resolveu”: “Trouxe o iminente risco de uma deriva arriscada que pode levar à desvirtualização da Língua Portuguesa.”

Dos nove países da CPLP, apenas quatro Estados ratificaram o acordo: Cabo Verde, Brasil, São Tomé e Príncipe e Portugal.

[Transcrição integral de: Academia Angolana de Letras contra ratificação do acordo ortográfico | Língua Portuguesa | PÚBLICO“Links” e destaques meus. Imagem de topo de: “Jornal Cultura” (Angola).]

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Quem não sabe ler…


 

…vê os bonecos

 

……………..

 

Esta é só uma pequena amostra de um trabalho em curso que irá sendo actualizado a pouco e pouco. A sequência de imagens é aleatória, não cronológica, e ficará em página própria como repositório ilustrado daquilo que é o Apartado 53.

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Costa em Angola: bué aldrabão, craro

Visita de Estado de António Costa a Angola

Em declarações à televisão estatal local, o Primeiro-Ministro português revela mais uma vez não apenas a sua total inépcia para a expressão oral em geral como a sua absoluta incapacidade na área da dicção em particular: ou seja, é praticamente impossível entender aquilo que o homem diz porque ele pura e simplesmente despreza a sua própria Língua de forma acintosa e progressivamente arrogante. Isto, é claro, caso não se trate de alguma deficiência — articulatória ou mental — clinicamente diagnosticada, de que seja portador o cidadão em causa, e estando ou não em curso o respectivo tratamento.

Acautelado tal handicap (nesta transcrição substituindo-se por anotações entre parêntesis rectos as expressões ou construções frásicas absolutamente incompreensíveis), resta ainda assim algo de picaresco — para não dizer anedótico — naquilo que debita Sua Excelência a respeito da Língua Portuguesa em geral e do “acordo ortográfico” em particular. Aliás, o facto de nem ter-me dado à maçada de destacar as declarações mais extraordinárias ou bizarras é desde logo indício de que não há ali nada a destacar, tudo o que ele diz sobre tais assuntos (que em absoluto e com indisfarçável orgulho desconhece) é mais do mesmo: puro paleio, verbo de encher, chorrilho de vacuidades, a treta do costume.

Note-se, porém, que este exemplar é um político de carreira e, portanto, há que tentar ouvir o que ele diz não dizendo e, sobretudo, o que ele implicitamente declara nas entrelinhas.

Ora, sob este prisma está lá tudo aquilo que significa actualmente a expressão “língua portuguesa”, o que é e para que serve a CPLP, em que consiste basicamente o AO90: o “acordo” é a base ideológica (conversa para enganar as massas) que sustenta a criação da Comunidade (variante neo-colonialista de cariz mercantilista, já não militar) tendo por finalidade a erradicação  do Português-padrão e a sua substituição pela variante brasileira.

Ou seja, tornando ainda mais claro o paleio de chacha do político, pretende este dizer, esfregando as mãos de contentamento, que o II Império brasileiro é a actual “rota das especiarias”, o El Dorado do século XXI, a casa-forte do Tio Patinhas à qual passarão a ter acesso não apenas os brasileiros de cartola como também os seus “amigos” portugueses — a irrisória minoria de traidores e vendidos, as ratazanas que já vão amarinhando pelo cordame de atracação das novas naus prontas a zarpar, ao invés do sentido da História, do Novo para o Velho Mundo.

Teria até sua piada, este triste, caso não fosse trágico, demente, catastrófico aquilo que na prática significam as suas graçolas.

[27:40] ent. –Os críticos da CPLP dizem que tem havido pouco investimento em matéria de língua, que afinal é o maior capital que a organização devia ter, ou que tem, e o que eu pergunto é, por exemplo, não constrange ao sr. primeiro-ministro o português, por exemplo, não ser língua de trabalho nas Nações Unidas? Vem aí o mês de Setembro, Conselho-Geral das Nações Unidas e aí não lhe constrange, por exemplo,{inaudível/incompreensível].
A.C. —E acho que é um trabalho que temos de continuar a fazer. Hoje temos mais de 230 milhões de falantes, prevê-se que em 2050 [‘tecemos’?] mais de 350 milhões de falantes em todo o mundo, portanto é uma língua que claramente está em expansão, é uma língua cada vez mais global, é uma língua que é falada em 4 continentes e acho que esse trabalho de promoção da língua é cada vez mais importante…

ent. —Mas qual é o óbice para avançar-se nesta matéria?
A.C. —Eu acho que não há óbice. Vamos lá ver. Nós todos temos tido, muitas vezes temos sido confrontados com outras prioridades; nem sempre os últimos anos foram fáceis para todos nós e portanto tivemos que nos concentrar, muitas vezes, na resolução de problemas internos mais do naquilo que podemos fazer, mas agora, que estamos numa fase de viragem, acho que essa, o reforço do investimento [‘da’? ‘na’?] promoção da língua será também importante. Posso-lhe dizer que o orçamento de Estado para o próximo ano em Portugal vai ter um reforço importante no Instituto Camões, que é o responsável pela promoção {inaudível/incompreensível] da língua. Temos feito investimentos importantes no aumento das escolas portuguesas. Por exemplo, não havia uma escola portuguesa em Cabo Verde e está-se a avançar com a escola portuguesa em Cabo Verde. Recentemente adquirimos algo que é absolutamente fundamental para a {inaudível/incompreensível] da língua e da cultura lusófona, que é o Real Gabinete de Leitura no Rio de Janeiro, que foi adquirido pelo Estado português, para o poder preservar, para além da vida sempre contingente da família que o geria. Portanto, temos vindo a procurar fazer esse esforço de investimento e quero acreditar que o vamos fazer, e vejo como muito auspicioso também o acordo que a TPA assinará amanhã com a RTP e com a Lusa, como uma outra forma de divulgar a língua, de promover a língua portuguesa.
ent. —A propósito da língua, como é que se vai resolver o grande handicap que é do acordo ortográfico? Até agora não se encontrou uma plataforma comum. Como é?
A.C. —Bom, Portugal fez a sua parte, cada um está a fazer a sua parte. Eu percebo as resistências que existem aqui e ali, mas eu acho que há uma coisa que é essencial e que temos que compreender: as línguas não são fixas, são vivas. E as línguas vivas vão-se transformando, não só na sua ortografia como no seu vocabulário. Hoje, nós, quanto mais não seja fruto das novelas, introduzimos na nossa linguagem do dia-a-dia um conjunto de expressões do português do Brasil que nós não utilizávamos ou nós também introduzimos em Portugal muitas expressões do — olhe — do português falado em Angola, como “bué”, hoje é uma palavra corrente em Portugal quando não era quando eu andava na escola…

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«Uma arma perigosa à solta: a palavra» [Carlos Aguiar Gomes, “Diário do Minho”, 27.09.18]

«Para não falar do escandaloso chamado Acordo Ortográfico, uma vergonha e que nos quer obrigar a destruir a nossa língua.»

O autor deste artigo cita diversos exemplos da universal reciclagem da expressão (escrita e oral) na sua faceta mais evidente, isto é, o processo de uniformização em curso visando a destruição de qualquer forma de pensamento independente: «forma de controlar ideologicamente cada um de nós, obrigando-nos ao “pensamento único”».

Orwell deixou-nos, de facto, um arrepiante filme do seu (então) futuro, o qual é hoje a nossa (triste) realidade, com uma acuidade premonitória ao alcance de apenas uns poucos visionários — os que entenderam o imenso poder da linguagem e assim anteciparam («profecia do que se passa hoje») o que com ela fariam  meia dúzia de facínoras.

Como de igual modo nos vamos apercebendo, em verificável, observável, extremamente simples silogismo (ou ainda mais simples relação de causa e efeito), sendo de todo impossível o controlo do pensamento através apenas do sequestro das palavras, então aqueles que tal controlo ambicionam dispõem de um último e ainda mais radical recurso: a destruição das palavras implicará necessariamente a aniquilação do pensamento.

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.» [George Orwell, “1984”]

Uma arma perigosa à solta: a palavra

Carlos Aguiar Gomes
“Diário do Minho”, 27.09.18

 

Quand l’atmosphère général est mauvais, le langage ne saurait rester indemne” (G. Orwell – 1946)

 

A revista francesa «Le Point», de 16 de Agosto pp dedicou a capa e uma série larga de páginas ao autor de “1984”, Eric Blair, conhecido pelo seu pseudónimo Georges Orwell. Li, com o maior interesse estas páginas. Muito interesse. Das muitas passagens dos artigos então e ali publicadas, cheias de interesse pela sua actualidade gritante, retive a que encima este artigo, verdadeira profecia do que se passa hoje.

Na realidade, “Quando a atmosfera geral é má, a linguagem não pode ficar imune”, tal como escreveu o citado autor em 1946, num artigo que publicou.

Olhemos e ouçamos o que se passa à nossa volta, numa “atmosfera” cultural, linguística e espiritual deletéria, depauperada e… manipulada escandalosamente com a nossa linguagem pobre, mentirosa, fraudulenta. Para não falar do escandaloso chamado Acordo Ortográfico, uma vergonha e que nos quer obrigar a destruir a nossa língua.

Mas há mais. Dou alguns exemplos da manipulação da linguagem, habilmente manipulada por ideologias que têm como objectivo a destruição dos nossos valores e da nossa identidade:

– Interrupção voluntária da gravidez – metáfora que se usa cada vez mais, para atenuar o peso e o significado verdadeiro do que é: o aborto. Assim, se apaga a noção de matar um bebé por nascer, tornando este vil acto aceitável por uma população que se recusa a pensar…

– Morte digna e assistida – outra metáfora mentirosa e falaciosa para dizer matar uma pessoa que, por compaixão, dizem, deve ser morta porque “pediu”…

– Namorado – companheiro com quem se vive sem vínculo civil ou religioso, de que se troca como quem muda uma camisa ao fim do dia…

– Acompanhantes de luxo – outrora eram as prostitutas que se faziam pagar bem e tinham aparência de “esposas”. Acrescentem-se os “prostitutos”, mais modernos…

– Desvio de fundos – metáfora, também, para amenizar o crime de roubo, normalmente chorudo e de gente importante…

– Elite – outra metáfora para dizer “os que mandam” bem ou mal, têm poder, mas raramente são modelos…

…E quantas mais palavras o leitor conhece que são verdadeiras radiografias de uma péssima atmosfera de uma sociedade doente e que são usadas constantemente pelos “opinion makers” que são os que, de facto, manipulando as palavras criam uma nova atmosfera intoxicada, poluída e malsã. Esta em que vivemos sem nos revoltarmos e recusarmos a usar a “novilíngua”, como disse Orwell, como forma de controlar ideologicamente cada um de nós, obrigando-nos ao “pensamento único”.

[Transcrição integral de Uma arma perigosa à solta: a palavra, da autoria de Carlos Aguiar Gomes, publicado no “Diário do Minho”, 27.09.18Imagem de topo de: ePresse.]

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Uma fífia monumental

Uma estranhíssima observação com que Nuno Pacheco obsequeia os leitores do “Público” neste seu artigo suscita-me um ou outro comentário, à laia de “nota prévia”.

Refiro-me a apenas parte de uma única frase, em todo o texto, mas, na minha opinião, semelhante formulação terá sido ou mero lapso de memória ou simples confusão mental momentânea do autor. A dita frase, cuja segunda parte não interessa para o caso, é a seguinte:

«Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro) […]»

Perdão? Como assim?

Tal construção frásica implica uma ideia subjacente que nunca, jamais, em tempo algum foi O motivo basilar do lançamento da ILC-AO em Abril de 2010. Nem então foi O motivo como ainda hoje, que eu saiba, apesar de estar “reformado” desde Julho de 2015, tal ideia é sequer UM dos motivos que norteiam a mesma Iniciativa cívica.

Porque, note-se, a interpretação mais óbvia da formulação (exclusiva) de Nuno Pacheco é que bastaria então a ratificação de mais quatro países para que o AO90 entrasse legalmente em vigor em todos os oito membros da CPLP. O que implicaria, nesse caso, que a ILC-AO deixaria de fazer sentido — até com efeitos retroactivos, para cúmulo do absurdo — assim que a Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Timor-Leste ratificassem o II Protocolo Modificativo do “acordo ortográfico” de 1990.

Nada disso. Nada mais falso. Essa hipótese não se coloca, assim como nunca se colocou ou esteve sequer alguma vez sob cogitação;  não existe portanto o mais ínfimo fundamento naquilo que agora diz Pacheco.

Um dos fundamentos basilares da ILC-AO, isso sim, foi e continua a ser, abreviando em extremo, a eliminação — por ilegalidade formal e objectiva — de um expediente exclusivamente político (a RAR que aprovou o tal Protocolo, essa tremenda aldrabice) que os deputados votaram, por disciplina partidária, sem saberem ao certo aquilo que estavam a aprovar.

Todas as motivações da Iniciativa estão contidas no texto com as fundamentações da própria ILC-AO (“pela revogação da entrada em vigor do AO90, anulação da RAR 35/2008“) e todas as explicações e esclarecimentos a respeito constam de milhares de textos (“posts”), comentários, mensagens de e-mail, cartas até dactilografadas ou mesmo escritas à mão, exposições e conferências públicas, debates e entrevistas (pessoais, em grupo e a órgãos de comunicação social). NUNCA aquela formulação foi sequer aflorada por QUALQUER pessoa ligada à ou com responsabilidades na Iniciativa.

Confesso a minha total estupefacção, por conseguinte, já que acabo de ler tal coisa absolutamente pela primeira vez. O que significa, por conseguinte, que afinal não terá sido lapso ou confusão do escriba. Terá sido apenas uma fífia, uma fífia monumental, uma nota de tal forma aguda, desafinada e irritante — até pela sua espantosa amplitude “sonora” — que nem a avantajada Bianca Castafiore conseguiria fazer melhor.

Esta outra, no jornal, partiu não apenas todas as vidraças e espelhos como fez estilhaçarem-se todas as lâmpadas, tampos em vidro, copos,  pratos e travessas aqui na toca. Até o ecrã do portátil rachou de meio a meio.

De tal sorte foi o cagaçal!

Ideias com fífias e músicas sem elas

Continuaremos, no que à língua diz respeito, a ser massacrados por repetidas fífias que mais não fazem do que tentar iludir o óbvio?

Nuno Pacheco
“Público”, 27.09.18

 

Na definição que lhe é dada pelos dicionários, uma fífia é um “som ou nota desafinada, na voz ou em instrumentos de música.” Mas pode ser também, na gíria, sinónimo de erro ou tolice. Agora que se aproxima o Dia Mundial da Música (a 1 de Outubro), ficou no ar uma fífia que convém registar. Recordemo-la: no dia em que chegou a Angola, em visita oficial, o primeiro-ministro português António Costa deu uma entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola) onde, entre muitos outros temas, falou do acordo ortográfico que Angola, aliás, não ratificou. O jornalista Isidro Sanhanga perguntou-lhe, já a entrevista ia adiantada (aos 30:17 num total de 35:41, o vídeo está no Youtube): “A propósito da língua: como é que se vai resolver o grande handicap que é o acordo ortográfico? Até agora não se encontrou uma plataforma comum…” Ao que o primeiro-ministro respondeu: “Bom, Portugal fez a sua parte, cada um está a fazer a sua parte. Eu percebo as resistências que existem aqui e ali, mas eu acho que há uma coisa que é essencial que temos de compreender: as línguas não são fixas, são vivas, e as línguas vivas vão-se transformando, não só na sua ortografia como no seu vocabulário. Hoje, todos nós, quanto mais não seja fruto das novelas, introduzimos na nossa linguagem do dia-a-dia um conjunto de expressões do português do Brasil que nós não utilizávamos e também introduzimos em Portugal muitas expressões, olhe, do português falado em Angola, como ‘bué’. Hoje é uma palavra corrente em Portugal e não era.”

Na gíria, dir-se-á que isto é misturar alhos com bugalhos. Por isso suscitou comentários como o dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico: “O PM continua a não olhar para a questão com a devida profundidade e a misturar, por exemplo, léxico e ortografia, limitando-se a chavões que não resistem à lógica.” Ou o do respeitado crítico e ensaísta Eugénio Lisboa, que escreveu: “A resposta do PM é uma perfeita trapalhada, confundindo ortografia com outras coisas que não são ortografia. A teimosia dos vários governos quanto a este miserável AO é perfeitamente incompreensível. Deve andar aqui o papel dos lobbies das editoras de dicionários e outros manuais. Em Portugal, avançou-se de tal maneira no disparate, que agora ficam aterrados com a ideia de voltarem atrás…” O mesmo Eugénio Lisboa que, num artigo publicado no JL, em Agosto de 2008, já avisadamente escrevera: “Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com uma peneira.” Os políticos, sobretudo os que vão detendo à vez o poder, não tiveram até hoje essa coragem. Mas há quem tenha. Dois exemplos: a Casa da Arquitectura (com C) recebe amanhã, em Matosinhos, a exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitetura Brasileira” (sem C). Algum óbice? Nenhum. A Granta em Língua Portuguesa, com Bárbara Bulhosa por editora e Carlos Vaz Marques por director (com C), publica, como escreveu este último em editorial, textos que “percorrem os múltiplos matizes do idioma”, convocando “autores e tradutores com sotaques distintos.” E a finalizar diz: “Na Granta […] aproxima-nos e diferencia-nos a língua – simultaneamente a mesma e outra, consoante o lugar de origem. Em português nos des/entendemos.”

Será preciso muito, para afinarmos ideias a este respeito? Ou continuaremos a ser massacrados por repetidas fífias que pretendem iludir o óbvio? Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro), o Dia Mundial da Música pode permitir-nos “limpar” os ouvidos. Entre mil e uma ofertas, que decerto haverá, quem estiver dia 1 no Porto pode assistir ao projecto A Música Saiu à Rua, na Casa da Música (19h). Em Lisboa, além de um recital de Mariana Abrunheiro e Walter Hidalgo, na Associação José Afonso (19h30, com jantar), há um concerto evocativo de Fernando Lopes-Graça no Largo do Teatro Nacional de São Carlos (18h30), com o coro da Academia de Amadores de Música, o Canto Firme de Tomar e o coro Eborae Musica. Nem de propósito, o programa termina (“coros e público unidos”) com o exaltante Acordai!

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de “Ideias com fífias e músicas sem elas”, por Nuno Pacheco, “Público”, 27.09.18. Imagem de topo de: tintin.com.]

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