Etiqueta: História

Fia lux e fata lux es

Seria com certeza redundante, além de pretensioso e arrogante, especular sobre o que está por detrás disto. Que “sociedade secreta” (ou apenas “discreta”) e que ligações existirão porventura entre esta espécie de maçonaria católica e a sua congénere pretensamente secular; mais complexo ainda seria, a partir daí, determinar as relações de ambas as seitas, que facilmente se confundem, com outras organizações de características similares.

De uma coisa poderemos estar certos, porém, não apenas quanto a esta mas a respeito de todas as “famílias” e “irmandades” organizadas: não havendo para os seus membros o mais ínfimo risco ou a mais remota espécie de perigo, não sendo nem eles mesmos nem as respectivas “famílias” alvo de qualquer tipo de perseguição, de restrição de movimentos, de reunião, de expressão ou até de propagação das suas “ideias” (ou da sua total inexistência), pois então, por exclusão de partes, algo de muito difícil compreensão (ou de sinistro) compelirá tais “sociedades” a manter-se voluntariamente na clandestinidade. Se nada obsta a que se expressem ou manifestem, se ninguém pretende  segregá-los, denegri-los, caluniá-los, desonrá-los ou cometer contra eles qualquer espécie de violência — física, moral ou psicológica –, se não existe a mais ínfima reserva política ou condicionante jurídica especificamente dirigida a tais organizações, então, se se escondem por detrás do anonimato, se operam apenas nos bastidores, movimentando-se na sombra, como fantasmas ou demónios, algum motivo muito forte ou motivações quiçá inconfessáveis terão os “manos” para persistir no seu bizarro secretismo.

Não se tratando de organizações terroristas (se bem que, à semelhança dessas, também não divulguem  registos nem apresentem contas de espécie alguma) e não perseguindo objectivos de carácter subversivo (muito pelo contrário, já que todos os seus dirigentes pertencem à oligarquia dominante), torna-se para o comum dos mortais ainda mais “incompreensível” essa espécie de brincadeiras “discretas” das tais sociedades “secretas” (ou vice-versa). Ao fim e ao cabo, trata-se de adultos, nenhum deles conhecido por ser muito pobre, indigente, alienado ou particularmente ascético, praticando uma variante do infantil “vamos jogar ao esconde-esconde”. De repente, é facílimo, basta-lhes tirar o avental ou despir a batina e pronto, acabou-se a brincadeira, estão instantaneamente de volta ao seu elemento natural e ao seu ambiente habitual, os corredores do Poder, os “passos perdidos” da política, os recintos inexpugnáveis onde escorre o néctar borbulhante e se degustam canapés requintados enquanto se fecham negócios, compram-se nações e trespassam-se povos, decreta-se o apagamento de memórias inconvenientes e inventam-se “factos” indesmentíveis.

Terá decerto sido num desses lautos repastos que despacharam os confrades entre si, com a solícita participação de tribunos aspirantes, a chamada “questão ortográfica” — flagrante exemplo dos tais “factos indesmentíveis” inventados de raiz —  e como abichar mais uns milhões à conta daquela ridícula vigarice, distribuindo-os depois irmãmente (em sentidos lato e restrito) pelos demais convivas ali presentes e não esquecendo a aquiescência dos políticos envolvidos, a “neutralidade activa” dos respectivos lacaios (vulgo, deputados) e a anestesia, a passividade, a geral paralisia proporcionada pelo competentíssimo trabalho de lavagem cerebral realizado por “jornalistas” e “fazedores de opinião” a soldo. Ah, pois, contas são contas, meus amigos, e naquelas confrarias só pára gente de respeito, no que tange a metal sonante, pague-se o que se tiver de pagar, compre-se quem se tiver de comprar, até ao último centavo não há cá dívidas, raios, para alguma coisa servem os tampos das mesas, por baixo passa tudo.

São assim mesmo, os “irmãos”, quando despojados de suas vestes comprometedoras e interrompendo a contra-gosto seus estilizados rituais, aquilo é tudo gente que honra com escrúpulo compromissos, venha o primeiro que duvide, nunca, jamais um único daqueles senhores deixou por liquidar o montante que prometeu, desonrou a palavra dada a outro envolvido, roeu a corda numa qualquer negociata ou sequer chibou-se quanto a qualquer das piquenas ilegalidades que sempre ocorrem quando se congeminam fraudes, sempre que se compra, vende ou troca o que não é trocável, vendável ou comprável.

E também, que diabo, vejamos, será que existe mesmo alguma coisa absolutamente imune a transacções porque, mesmo tendo um valor incomensurável, ainda assim — ou por isso mesmo — não tem preço?

E haverá de facto alguém que de todo não se venda? Mas então porquê, santo Deus?!

Porque não tem valor? Pois. Não se vende porque não tem valor. Só pode.

Há uma nova tradução da Bíblia para Português. E os leitores vão poder pronunciar-se

Ângela Roque
24 Março 2019 , rr.sapo.pt,

Conferência Episcopal Portuguesa apresenta, esta segunda-feira, a tradução de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’, feita a partir das línguas originais, mas a opinião de quem lê vai ser tida em conta para uma próxima edição. Trabalho iniciado em 2012 envolve mais de 30 biblistas, incluindo dos PALOP.

 

A edição de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ faz parte do projecto de tradução de toda a Bíblia, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O objectivo é conseguir um texto uniforme, traduzido directamente das línguas originais (hebraico, aramaico e grego), que possa ser usado na liturgia, na catequese e em todas as actividades da Igreja, quer em Portugal quer, futuramente, nos outros países lusófonos, que também colaboram neste trabalho. O projecto arrancou em 2012, e segue o acordo ortográfico.

A comissão coordenadora do projecto é presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, e também ele biblista, e inclui vários elementos da Associação Bíblica Portuguesa (ABP).

Em entrevista à Renascença, o padre Mário Sousa, presidente da ABP e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora, explica que já estava na altura da Bíblia ter uma nova tradução em Português, destacando, para além do grande número de colaboradores, o facto de se pretender sujeitar o texto à apreciação dos leitores antes de se avançar para uma versão definitiva.

Por que é que houve necessidade de uma nova tradução da Bíblia?

Porque sempre se sentiu, sobretudo nas traduções litúrgicas, que determinadas expressões não estavam, talvez, bem conseguidas, e que talvez fosse importante fazer-se uma revisão. Depois a Conferência Episcopal julgou ser pertinente em vez de se fazer apenas uma revisão e completar os textos – porque, de facto, nem todos os textos são usados na liturgia, e por isso nem toda a Bíblia estava traduzida a nível litúrgico -, fazer-se uma tradução de raiz, partido das línguas originais, ou seja, do hebraico e do grego, e também do aramaico, para determinadas passagens.

Portanto esta tradução é feita a partir dos originais?

Sim, a partir das línguas originais, e por especialistas. Mais de 30 biblistas, especialistas nos diversos livros. Naturalmente os livros foram divididos por diversas pessoas, não só portugueses, mas também dos PALOP, portanto acaba por se um trabalho muito abrangente a nível dos intervenientes.

Esta tradução tem essa preocupação da escolha mais correcta das palavras, mas abre também novas perspectivas de interpretação dos próprios textos?

Sim, porque cada vez mais há esta sensibilidade de perceber que os textos não existem por si só, mas que são fruto do mundo e de algo que está por detrás desse mundo. Ou seja, temos o texto, que é o que chegou até nós, mas por detrás desse texto está o mundo do texto, ou aquilo a que podíamos chamar hoje a ‘sociologia do texto’, que é preciso ter em conta também na tradução. E isto é muito fácil de ver, sobretudo a partir do grego. De facto, as palavras que nós temos no Novo Testamento são todas em grego, mas por detrás das palavras está um mundo que não é propriamente o mundo helénico. Embora as palavras sejam gregas, o tradutor tem que ter em conta que os conceitos são semitas, são judaicos, ou seja, são conceitos que nos vêm do Antigo Testamento. Embora a forma, digamos assim, seja grega, o conteúdo é judaico. Portanto, esta tradução procura ter estas três características em conta, não só o texto, mas o mundo do texto e o mundo por detrás do texto.

É sobretudo isso que diferencia este vosso trabalho, por exemplo, da tradução que foi feita por Frederico Lourenço, a nova tradução da Bíblia, publicada em 2016?

São trabalhos semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes. Frederico Lourenço fez um trabalho muito meritório, que foi fazer uma tradução da chamada ‘Bíblia dos Setenta’, ou seja, no século II A.C., quando já havia uma grande diáspora judaica e os judeus viviam num mundo que falava grego, e já quase ninguém falava hebraico, sentiu-se a necessidade de fazer uma tradução do hebraico para o grego. O trabalho de Frederico Lourenço, que é de facto um trabalho que em Portugal ainda não estava feito, foi fazer uma tradução desta tradução.

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Casa-grande e CPLP

Só resta a última razão, ou sem-razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! E que mal considera a cegueira humana as voltas da tua roda? Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá, qual é melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos, ou a nobre e honrada dos senhores. [Padre António Vieira, “Vigésimo Sermão do Rosário”]

 

 

Concordando-se ou não, no todo ou em parte, com aquilo que diz o autor, nomeadamente quando ilustra a sua tese com um episódio recente ocorrido no Bairro da “Jamaica” (Vale de Chícharos, Fogueteiro, Seixal), a verdade é que  — na minha simples opinião, claro — neste texto está claramente exposto e muito bem denunciado o carácter intrinsecamente neo-colonialista da CPLP.

Pena é que, talvez devido ao enraizado hábito de atirar sempre ao mesmo “colonizador” (ou seja, Portugal), Sérgio Dundão tenha omitido o verdadeiro nome da potência colonizadora que, servindo-se da CPLP como pano de vela (e do AO90 como alvará), pretende tomar posse administrativa do antigo Império Português, a começar pela respectiva sede; sempre a pretexto da “língua comum”, como sabemos, e escorando-se em efabulações avulsas nas quais fingem acreditar alguns mercenários portugueses.

Aliás, é esse carácter neo-colonialista, mesmo não o tendo feito consciente e deliberadamente, que o próprio autor formula como desfecho: «Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.»

Exacto. “Casa-grande“. Faltou o hífen, se calhar por gralha ou abatido pelo AO90. O Brasil, portanto.

CPLP: Uma comunidade ilusória

A CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros.

Sérgio Dundão
publico.pt

 

Os acontecimentos do Bairro da Jamaica mostram como a comunidade supostamente lusófona está alicerçada no equívoco do colonialismo tardio da pós-colónia. Esse colonialismo manifesta-se através da constituição de instrumentos políticos para actuar nos espaços africanos, nomeadamente a CPLP, os institutos culturais e as agências de desenvolvimento, que são uma autêntica réplica do modelo francês de projecção mundial na era global. A forma como a França se projecta no mundo acaba por reflectir, segundo Mbembe (na obra Sair da Grande Noite), a sua resistência em analisar e pensar a pós-colónia. Ao fazer esta projecção sem uma reflexão profunda, e até crítica, do seu papel no mundo, observa-se uma situação de exclusão da mundicidade que se encontra nas suas periferias e de não-aceitação do francês sem a matriz europeia.

Essa situação coloca-se igualmente no projecto português. Por exemplo, a CPLP projectou-se como uma plataforma de Estados falantes de língua portuguesa, mas a unidade linguística guineense e cabo-verdiana é em torno do crioulo, que constitui também uma marca portuguesa na medida em que é uma língua que resulta do cruzamento das línguas africanas com uma língua europeia. Mas os portugueses dificilmente reconhecem este património cultural, desejando somente projectar o português como o único instrumento linguístico na sua acção externa nos países africanos da CPLP. Por isso, na obra A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita, Ruy Duarte de Carvalho considerou a CPLP como um mecanismo de demarcação de um território ao estilo dos machos no reino animal. O que constitui uma rejeição das línguas das comunidades africanas, fortemente enraizadas no espaço “lusófono”.

Portugal pretende assegurar um espaço de influência nos países africanos de forma a permitir que as suas empresas e cidadãos possam retornar em condições extremamente favoráveis aos lugares coloniais, sem o rótulo de colonizadores. Por isso, os quadros portugueses em Angola e Moçambique são hoje vistos como expatriados, representando um status migratório distinto dos africanos em Portugal, enquanto que os moradores do Bairro da Jamaica são meros imigrantes que vivem nos subúrbios. Em alguns casos são os antigos moradores dos “musseques” africanos que agora vivem nos guetos da exclusão e de esquecimento social.

Assim, a CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros. Deixando que as comunidades africanas sejam vistas como incómodas, que nunca aceitaram submeter-se aos valores culturais europeus, tal como os indígenas africanos. O que reproduz uma velha modalidade colonial presente no discurso oficial e na imprensa: que existe uma falta de vontade por parte das comunidades africanas na inclusão e aceitação dos superiores valores europeus.

Essa perspectiva de superioridade cultural constitui uma negação da presença histórica dos portugueses no mundo, impedindo que a língua portuguesa seja assumida nas suas variações linguísticas e geográficas como um património comum. Por conseguinte, mesmo os membros das comunidades falantes de língua portuguesa com cidadania portuguesa são constantemente rejeitados por força da sua origem. Porque hoje já não basta ser cidadão português para se ser considerado um português (ou europeu) de plenos direitos, ideia já traçada por Mbembe a propósito da realidade francesa.

É sob esta perspectiva de rejeição de pertença que os acontecimentos do Bairro da Jamaica foram comentados, i.e., os polícias portugueses agrediram uma família angolana. Esta descrição mostra como a Europa tem vindo a cristalizar a distância entre negros e brancos (os de cá e os de lá). Este fenómeno pode ser explicado pelas vagas de africanos e asiáticos que chegaram ao continente europeu com o fim da colonização, cujos membros são igualmente rejeitados mesmo possuindo a cidadania europeia devido à sua origem não-europeia.

Tornando-se vital, sim, a protecção da população de origem europeia que ficou nos territórios colonizados, através da concessão de cidadania aos descendentes dos europeus. Prevalecendo, desta forma, o princípio de jus sanguinis. Por exemplo, os sujeitos africanos nascidos em Portugal, pelo facto de não pertença à origem europeia, não são tratados automaticamente como portugueses.

Observando essa realidade socio-histórica, torna-se “natural” acreditar que o tratamento dado aos moradores do Bairro da Jamaica faz parte dessa lógica de rejeição. Daí que a constituição de uma comunidade lusófona seja totalmente ilusória, porque está em vigor uma política identitária que visa preservar os europeus como sujeitos brancos e de uma só origem histórica e etno-social.

Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.

[Transcrição integral de: «CPLP: Uma comunidade ilusória», por Sérgio Dundão, “Público”, 12.03.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Imagem de topo de: Prefeitura do Rio de Janeiro, via “ecompras Rio” (Brasil).]

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A “unificação” ao contrário

Palavras iguais que o AO90 torna diferentes

Não, o assunto não está esquecido.

Primeiro, com base nos “dados” disponibilizados em 2017 pelo “Portal da Língua Portuguesa brasileira”, foram quantificadas e enumeradas as palavras literalmente INVENTADAS pelo AO90, ou seja,  aquelas que não existiam nem no Brasil nem em Portugal nem em África nem em qualquer planeta do sistema solar.

De seguida, com base nos mesmos dados da mesma versão, quantificámos por tipo diversos grupos de registos, para responder a outras tantas questões.

Numa terceira abordagem ao tema, ainda usando os dados de 2017, identificámos as quase três centenas de entradas que eram diferentes antes do AO90 e que diferentes permanecem segundo o mesmo.

Ora, entretanto alguém resolveu fazer alguma coisinha, lá pelo ILTEC, e agora os resultados já não conferem a 100%. A trapalhada homérica levou uma volta, algures em 2018, seguindo os “técnicos” lá do sítio a extremamente científica técnica “baralha e torna a dar”, e portanto tornou-se necessário passar a usar os dados da 2.ª “versão”. Nova versão esta que não contém correcção alguma, apenas modificou a confusão da inicial, mas será de todo conveniente não dar margem a desculpas nem abrir espaço a álibis.

E pronto, foi isto, está explicado o longo hiato desde o último quadro de resultados aqui publicado; foi necessário refazer quase tudo, a começar pela transformação dos novos dados redigidos na origem como texto em dados propriamente ditos: uniformes, com campos regulares, segundo critérios definidos. O que implicou, evidentemente, um longo (e repetido) trabalho de detecção e correcção de erros de digitação, de colocação e de formação, além da rectificação de lacunas várias.

Ficam assim também explicadas as diferenças entre as listas anteriores e as mais actuais. Pequenas diferenças, apesar de tudo; por exemplo, a lista de invenções tinha, segundo a versão anterior,  215 registos e, segundo a nova, passa a ter 213.

Para encerrar esta série de quatro “posts” sobre o assunto, retomemos então a questão mais violentamente estúpida, por assim dizer, que envolve o AO90: a supressão liminar do Português-padrão.

No fundo, e em concreto, é a isto mesmo que se referem — ainda que de tal não se apercebam — aqueles que, muito “indignados” e furiosos, rasgam as vestes reclamando a “revisão” do “acordo”. Aquilo a que alguns anti-acordistas chamam “contradições” ou “aberrações” (como se existisse no AO90 algo que não seja flagrante contradição ou pura aberração) e que, segundo protestam os mesmos, deverá ser “imediatamente corrigido“, consiste afinal na reposição das sequências consonânticas (as ditas “consoantes mudas”) que… no Brasil se mantêm, como única ou como dupla grafia. A anulação destas verdadeiras contradições e das aberrações que são as palavras INVENTADAS pelo AO90, eis aquilo em que consiste a tal “revisão”; com tudo o mais, ponham em “ata” para dar em “direto” um “ótimo aspeto” à “redação”, não se ralam os revisionistas.

O que significa que os ditos “anti-acordistas furiosos” reclamam ao Brasil, em substância e como esmola, quando “exigem” “revisão do AO90″ e, por via dessa “revisão”, a reposição no Português-padrão das “consoantes mudas”, apenas que o Brasil consinta (repito: que o Brasil consinta) em que Portugal e os PALOP “adotem”, de uma vez por todas e na íntegra, a desortografia brasileira, consoante e conforme for determinado pelo “falar” brasileiro. Ou seja, tratar-se-ia então de “adotar” não apenas a desortografia brasileira como a ortoépia brasileira, já que aquela depende exclusivamente desta.

Nem todos os casos da lista agora apresentada são lineares, gerais e unívocos, mas todos eles seguem a mesma regra, que aliás é comum a todo o AO90: por um lado, se no Brasil existia dupla grafia, ali continua a existir e aqui é aniquilada a respectiva sequência consonântica; se, por outro lado,  lá havia apenas uma grafia e esta continha consoantes “mudas” cá mas sonoras lá, então no Português-padrão os brasileiros liquidam-nas mas conservam-nas no brasileirês. Não será esta bambochata, em particular, assim tão escandalosa como as palavras INVENTADAS (um truque a que voltarei oportunamente), mas não me parece de inferior gravidade.

Ora então vejamos e confiramos se é assim ou não. Vamos à lista.

Sem contar com as INVENTADAS, que já aqui vimos, e sempre excluindo os casos de acentuação e de hifenização, são 785 registos, no total: palavras que eram iguais no Brasil e em Portugal e PALOP. O Brasil mantém sequências consonânticas (como única ou dupla grafia) que em Portugal e PALOP são aniquiladas pelo AO90.

A página com esta lista tem por título N.A.P., abreviatura/acrónimo de “Não Aplicáveis em Portugal”.

Parece coisa de filme de terror, não é? Tão aviltante rol de horrores, com tal sorte de canalhices implícitas e de canalhas envolvidos, deveria chegar e sobrar para que ao menos — à míngua de vozes sonantes — certos notáveis se dignassem soerguer uma sobrancelha desconfiada ou, mais que não fosse, a avaramente rosnar uma pergunta singela (“mas que merda vem a ser esta?”, por exemplo) ou a acrescentar um adjectivo não menos singelo (“merdoso” serve) quando mencionam o excremento.

Felizmente ainda há quem conserve um módico de juízo, uns poucos, e quem não aprecie ser comido por lorpa, outros tantos. Há os que se acomodam, que são muitos, os que se acobardam ou os que não estão para se ralar com “minudências”, e disso há por aí aos pontapés, mas de uns, de outros e dos restantes não rezará com certeza a História, porque de coveiros, assim como de intenções, está o Inferno cheio.

É disso e é de “gênios”.

Nota: alguns erros mais do que evidentes (ver, p.ex., “sector, sectorização, sectorizar“) na origem não foram deliberadamente corrigidos, como dados, porque são insondáveis os “critérios” do ILTEC.

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«Desacordos entre tentativas de acordo» [“Jornal de Angola”, 08.03.19]

Desacordos entre tentativas de acordo | Reportagem | Jornal de Angola – Online

Reportagem

Matadi Makola

jornaldeangola.sapo.ao, 8 de Março, 2019

 

Sob o lema “África e a normalização ortográfica da língua portuguesa”, a Academia Angolana de Letras promoveu, no Memorial António Agostinho Neto, em Luanda, na tarde da última quarta-feira, uma conferência, proferida pelo professor moçambicano Bento Sitoe.

Entre as várias figuras presentes no evento, destaque para o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, e do presidente da Academia Angolana de Letras, Boaventura Cardoso.

Segundo o Professor da Universidade Eduardo Mondlane, a normalização passa pelo reconhecimento e o estabelecimento de regras que permitam acomodar e não deturpar as palavras de línguas nacionais que entram no vocabulário português, sendo esta a via para se estar em pé de igualdade para discutir o que quer que seja.

“A falsa ideia de que a adesão ao acordo ortográfico só traz prejuízos não é unânime entre os linguistas. Por exemplo, o Brasil abraçou este acordo, mas há um grande desacordo entre os intelectuais e académicos daquele país, que se batem até hoje. O mesmo acontece em Angola ou em Moçambique”, avaliou.

Contudo, afirma Bento Sitoe, o processo emperra nos momentos em que as pessoas misturam questões linguísticas com questões políticas, dado que a articulação entre as instituições PALOP e CPLP podem muito bem servir para distinguir o trigo do joio.

Em debate, o Professor aponta duas possíveis soluções para o problema. “Primeiro, seria divulgar este acordo a todos os níveis e em todos os países, para que o Governo tome decisões, sabendo que todos estão esclarecidos. Em segundo lugar, seria preciso, de facto, avaliar como este acordo não contempla os diferentes portugueses”, referiu.

Porém, não chega ao radicalismo de chamar imposição. A seu ver, houve precipitação na maneira como foi à aprovação. “Não se deu tempo suficiente para que se pudesse discutir isso com calma”, critica.

Uma audiência interventiva

Preenchida maioritariamente por professores renomados e estudantes da especialidade de Linguística e Literatura, muitas foram as intervenções que mereceram a atenção da mesa. A primeira foi da linguista Luísa Costa, que se posicionou a desfavor de Angola aderir à proposta do novo acordo ortográfico.

Já no acordo de 1990 não estávamos preparados e, neste, por tudo o que apresenta, acho que é um acordo ortográfico ilegal”, defendeu.

O escritor Fragata de Morais comungou da linguista, posicionando-se “em total desacordo com o acordo”, que acredita não ser mais do que um caso flagrante que chama de “imperialismo livreiro”.

Insatisfeito, o escritor e Professor universitário Abreu Paxe disse prestar menos atenção à adesão ou não, mas ser necessário aplicar severidade na interpretação e real significação dos termos.

“Dizer Maianga à maneira portuguesa pode somente remeter-nos ao bairro, mas dizer com o sotaque apropriado da língua de origem já nos remete à razão do nome do bairro: a fonte de água”, exemplificou.

Ao coro de vozes, juntaram-se Benedito Homem, linguista formado pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Na sua opinião, a discussão não pode parar, pois se trata de um acordo que não beneficia a todos os países. Porém, assume que os linguistas dos Países Africanos de Língua Portuguesa ainda não chegaram a um consenso no verdadeiro sentido da palavra.

“Devemos primeiro arrumar a casa e depois fazer um acordo interno, para posteriormente chegar a uma conclusão”, sugeriu. Contudo, visiona que Angola não perde nada em não aderir ainda. “O tempo é mestre. E só com o tempo é que vamos poder avaliar”, reforça.

Já Mbiavanga Fernandes, linguista afecto ao ISCED-Luanda, avalia positiva a iniciativa da normalização da escrita do português em África, porque pode causar desenvolvimento, principalmente, no que toca à escolarização. “Na minha visão, essa questão acarreta duas obrigações: devemos olhar para a perspectiva política, dado que somos um país e temos interesses a defender. Por outro lado, aderir ao acordo pressupõe que estejamos preparados o suficiente e bem organizados, que é o que ainda falta”, pontua.

Na opinião de Ezequiel Bernardo, mestre em Linguística Crítica, afecto ao ISCED-Cabinda, é urgente que o Estado angolano ratifique o acordo ortográfico, uma vez que a realidade do país assim o exige.

“Estamos dependentes de Portugal e Brasil e é destes dois que extraímos os diversos livros”, justifica.

Por outra, refere que o acordo ortográfico vem a representar o processo histórico dos povos, sendo, para todo os efeitos, uma questão de política da língua. A seu ver, já é hora de darmos espaço e território a essa realidade. “Agora, isso não pressupõe esquecer as línguas nacionais”, adverte.

A rebuscar um caso prático, o sociólogo Paulo de Carvalho provocou a plateia, colocando ao conferencista a questão de um famoso supermercado angolano, cujo nome é um exemplo que se enquadra nos atropelos ou não do português nas línguas locais.

“Entre escrever ‘Candando’ e não ‘Kandando’, já que a ideia é aportuguesar o nome, seria coerente escrever mesmo abraço”, defende, para grande riso dos presentes.

Bornito de Sousa explica troca de “K” pelo “C”

Na primeira fila, o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, contribuiu significativamente para a temática. Disse que tomou a palavra não no sentido de obter resposta, mas de polemizar, para que a discussão continue satisfatoriamente.

“Eu também já fiz provocações no sentido de se perceber qual seria o sentido do acordo ortográfico, quando um país praticamente tem dez milhões de habitantes e o outro tem quase duzentos milhões. Que peso teriam os dez sobre os duzentos, quando não são acolhidos os elementos específicos, sobretudo das línguas culturais dos países africanos? Mas ficando fora, qual é a capacidade de sobrevivência”? Provocou assim a audiência, acrescendo que é um trabalho que deve contar com a colaboração de todos, quer enquanto países (PALOP), quer enquanto estudantes, docentes e indivíduos chamados à discussão.

Factualmente … sobre a normalização ortográfica da Língua Portuguesa em África, Bornito de Sousa manifestou estranheza no caso de se suprimir o “C” antes do “T”, facto que, na sua opinião, não é pelo falar em si, quando dois terços das línguas mantêm essa grafia, como é o caso do Inglês.

“Ora, se o argumento é a pronúncia, o muito teríamos que ter um ‘N’ ou algo assim”, sentenciou.

Um outro caso que lhe constituiu preocupação é a termo “Cokwe”, um exemplo que deve ser salvaguardado no processo de normalização da Língua Portuguesa.

“Para nós, falantes da Língua Portuguesa, ver isso num texto que não está diferenciado ou em itálico, a tendência é ler como está escrito. Qual seria a solução? Mudaríamos a grafia? Um outro caso é o termo ‘Muxima’. Será que escreveremos com x ou ch? Portanto, há um conjunto de questões que continuarão a ser debatidas”, destacou.

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No doubt about it

O que tem a ver com o AO90 um texto sobre a Língua Inglesa escrito por um russo em Inglês?

Bom, tem tudo a ver. Qualquer semelhança entre este argumentário sólido e as tretas acordistas é mera coincidência, bem entendido, seguindo o autor uma linha de raciocínio coerente (e inteligível) que radicalmente difere do discurso errático, polvilhado com “inverdades” escabrosas, que é típico do paleio de Malaca, Bechara, Reis, Canavilhas e outros portadores de mitomania.

E se quanto a semelhanças estamos conversados, já no que diz respeito a diferenças temos apenas esta: não existe a mais leve referência a ortografia. Nem explícita nem implicitamente. Nem claramente expressa nem vagamente aflorada.

O que faz todo o sentido, evidentemente. Tratando-se de anglofonia, falando-se de países anglófonos, analisando-se a (real, efectiva) difusão e expansão da Língua Inglesa, a “questão ortográfica” jamais ocorreria sequer a qualquer anglófono: a ortografia do Inglês permanece intocada há séculos. Aliás, por alguma razão é essa e não outra, hoje em dia e desde há séculos, a única língua-franca universal.

Afinal, vendo bem, este texto tem tudo a ver porque não tem nada a ver.

 

The English Language No Longer Belongs to Britain and America»

Brits and Americans No Longer Own English

By Leonid Bershidsky
“Bloomberg”, 02.03.19

 

The Brexit circus and the unpopularity of President Donald Trump are causing apprehension about the future of the Anglosphere, the cultural, intellectual and political influence of the core English-speaking nations: Britain and the U.S.

As a non-native English speaker who works in the Anglosphere, though, I’m not worried about that; Americans and Brits are merely facing increasing competition from within their accustomed domain rather than from without.

The English language, which has just 379 million native speakers, is spoken at a useful level by some 1.7 billion people, according to the British Council. That has long ensured that U.S. and U.K. voices are heard louder than any others.

There is no indication that the language’s popularity is declining despite the recent damage to the two countries’ soft power. Last year, the British Council forecast that the number of potential learners in Europe will decline by 8.8 percent, or some 15.3 million, between 2015 and 2025. Brexit has nothing to do with this: the expansion of English teaching at schools is expected to cut demand for the organization’s courses. Overall, the market for English in education is predicted to grow by 17 percent a year to reach $22 billion in 2024. That, in large part, is thanks to insatiable demand in Asia.

I learned it in the Soviet Union. I have to admit I did it because of British and U.S. soft power: I wanted to understand rock song lyrics, watch Hollywood movies in the original, and read books that weren’t available in translation. But that wasn’t the reason high-quality instruction was available to me in Moscow in the 1980s: English was the adversary’s mother tongue. Russian President Vladimir Putin is no fan of the U.S. or the U.K., but he has learned their language well enough to speak to other foreign leaders without a translator.

It’s impossible to avoid: 54 percent of all websites are in it. The next most widespread language is Russian, with 6 percent. The most popular translation requests on Google all involve English. The global academic community speaks it, and not just because U.S. and U.K. universities are important: If they all closed tomorrow, scholars would still need a common tongue, and they aren’t going to vote to adopt another one.

Nor will the global political community. The European Union is a case in point: After Brexit, English could lose the status as one of the bloc’s working languages because no remaining members use it officially. Yet the legal departments of all the EU governing bodies have agreed that it can retain its status on the rather thin argument that it’s used in Irish and Maltese law. It’s also the lingua franca for all the Eastern European officials who have never learned French or German. Even after Brexit, it will share with German the status of the most widely spoken language in the EU – that is, as long as one takes into account non-native speakers.

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A terra e a terrinha

Esta política, este S. Bento, esta eloquência, estes bacharéis matam-me. Querem dizer agora aí que isto por fim não é pior que a Bulgária. Histórias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
— Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
— Distingamos! Chafurdo por necessidade, como político: e troço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparável para o país – esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter.
Assim, ali estava o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil…
— Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
— Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Os Maias’, Eça de Queirós

 

Enquanto a Assembleia da República da “terrinha” conserva intacto o balde do lixo onde serão despejados quaisquer laivos de resistência, o patronato brasileiro comemora o décimo aniversário da sua campanha de terraplanagem linguística e cultural. 

São, de facto, mais do que evidentemente concordantes, consequentes, interligados os sinais de um lado e do outro: a extrema arrogância do “gigante” brasileiro, passeando à trela a “sua” língua pequenina, e a vergonhosa, insultuosa, asquerosa passividade do minorca tuga, encolhido a um canto, sempre fingindo que nada se passa, receoso das chibatadas ou ganindo pelos restos que lhe possa atirar o dono.

Esta “notícia” da “terra” (brasileira, claro) é apenas uma de entre as muitas que de igual forma “parabenizam” a sua nacional golpada neo-colonialista — sem cujos acólitos, mercenários, deslumbrados, vendidos tugas não teria sido possível — e exultam, já cantando vitória, pela extinção radical do Português-padrão.

Note-se como os “caras” já nem se ralam com minudências como sejam a existência de outros países na CPLP (não contando com Portugal, pois, que não é um país, é uma choldra) e que a esses outros também “afeta” a cacografia brasileira. No parágrafo inicial da “notícia”, lá aparecem a “choldra” e os “outros” mas isso serve apenas para efeitos contabilísticos, como lembrete do número, quantas são as novas colónias.

No resto, no corpo da “notícia”, o costume: mentiras atrás de mentiras. Em todos os aspectos. Nem vou, desta vez, dar-me à maçada de acrescentar “links” ou notas; é tudo, de cabo a rabo, um chorrilho de mentiras tão descabeladas que nem vale a pena “atrapalhar” mais a fluidez das tangas, o texto ficaria virtualmente ilegível; e mesmo assim, apenas sublinhando ou destacando algumas das patranhas mais significativas, já se torna difícil ler (e muito mais ainda acreditar na lata descomunal daqueles “caras”).

A vertente política da matéria — a única que de facto interessa — é literalmente “chutada para canto”, mas até quanto ao “acordo” propriamente dito não têm qualquer pejo em reafirmar aquilo que toda a gente sabe e que apenas alguns tugas tentam iludir: o AO90 tenta atenuar um pouco a cacografia nos diversos estados do Brasil e impor a salgalhada daí resultante a sete “colônias” no “isstêriô”. Por isto mesmo referem apenas “dificuldades” brasileiras (sobrantes do AO45, não resultantes do AO90), “hábitos” brasileiros, “especialistas” brasileiros, “populações” brasileiras, “pessoas” brasileiras.

Pois sim, pois sim. Em Angola não há dificuldades nem há populações. Em Moçambique não há hábitos nem especialistas. E em Portugal ainda é pior: aqui na “terrinha” não há pessoas, só há impessoas. E “grupos de trabalho”.

Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos

Acentuação e hifenização ainda são maiores dificuldades apontadas por especialistas

No dia 1º de janeiro de 2009, entrava em vigor no Brasil o novo Acordo Ortográfico, medida que pretendia padronizar a grafia das palavras do Português nos nove países que adotam o idioma como língua oficial. Estima-se que as novas regras afetaram de 0,5% a 0,8% das palavras do Português brasileiro, bem menos do que as alterações estimadas para o Português de Portugal, que ficaram em 1,5% – o que explicaria a menor resistência do brasileiro em abraçar o Acordo.

“Mudanças na ortografia, por meio de leis e acordos, ocorrem de tempos em tempos no Português. O último acordo, antes do vigente, datava de 1943, com alterações em 1971. Sempre haverá, nesses momentos, quem esperneie e blasfeme quanto às mudanças, mas nenhum Acordo nesse sentido é feito para dificultar – e sim para tornar as coisas mais simples, mais fluentes. O Português carecia de uniformidade em sua modalidade escrita. São 250 milhões de usuários que escreviam e liam com diferenças que atrapalhavam essa uniformidade do idioma. A sintaxe, a forma de combinar as frases, o vocabulário de cada localidade falante dos diversos tipos de Português não sofreram alteração. Sob o ponto de vista simbólico, essa uniformização valoriza a Língua Portuguesa em sua representatividade no cenário internacional”, avalia Yeso Osawa Ribeiro, professor de Língua Portuguesa e Redação no Curso Positivo, de Curitiba (PR).

Gestado desde 1990, como desdobramento de um encontro para unificação do Português ocorrido em 1986, o Acordo Ortográfico deveria ter entrado em vigor em 1994. Em vez disso, por questões burocráticas, ele só passou a ser adotado há uma década, quando o Brasil iniciou a implantação, fazendo com que os outros países iniciassem seus processos em seguida. Por alguns anos, as novas regras conviviam com as antigas sem qualquer problema. Porém, desde 2016, quando terminou o período de transição, somente o novo Acordo Ortográfico passou a ser aceito no Brasil.

O assessor pedagógico de Língua Portuguesa do Sistema Positivo de Ensino, Caio Castro, afirma que, apesar de o novo Acordo Ortográfico pretender facilitar a comunicação entre os países de Língua Portuguesa, é comum as pessoas apresentarem dúvidas em relação à nova ortografia – principalmente aquelas que estavam acostumadas com as normas antigas há mais tempo. Segundo ele, uma das alterações que mais confunde as pessoas, atualmente, estão ligadas à hifenização. “É muito comum nos perguntarem em que situações o hífen deixou de ser usado, como em ‘antirreligioso’ e ‘autorretrato’, e em quais não, como ‘bem-vindo’ e ‘anti-inflamatório'”, explica. Outro caso em que o hífen deixou de ser usado e ainda gera confusão na população é quando o prefixo termina em vogal e o sufixo começa com uma vogal diferente, como em aeroespacial, lembra o especialista.

Com as novas regras do Acordo Ortográfico, palavras como “assembleia”, “ideia” e “jiboia” perderam o acento, por serem paroxítonas, enquanto “herói”, “chapéu” e “anéis”, que são oxítonas, mantiveram o acento. Para Ribeiro, o caso que mais trouxe dor de cabeça, principalmente aos adultos, foi o da mudança nos ditongos abertos em “ei”, “eu”, “oi”. “Antes, todos eles eram acentuados, indistintamente. Agora, apenas quando ocorrem em palavras oxítonas”, explica o professor. Outra dificuldade de assimilação citada por ele foi a extinção do acento circunflexo nos hiatos “oo” e “ee”, o que fez com que palavras como “voo” e “leem” não sejam mais acentuadas; bem como o fim do acento diferencial em palavras com a mesma grafia, mas pronúncia e significados diferentes, como é o caso do verbo e da preposição para, ou do substantivo e da preposição pelo. “As regras dos acentos diferenciais e dos hiatos em vogais dobradas ainda causam problemas, embora a frequência seja muito menor do que os dos ditongos”, explica Ribeiro.

Por outro lado, diz ele, algumas alterações, como o fim do trema, só expressaram o que já acontecia de fato e foram rapidamente absorvidas. “As pessoas, de um modo em geral, não usavam trema; a regra, nesse sentido, facilitou o trabalho para a maioria”.

Source: Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos (destaques meus)

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