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Sociedades secretas, negócios discretos

Não hostilizemos quem acredita piamente em que um dia, algures no futuro, o Sacavenense ganhará a Taça dos Campeões Europeus. E ainda, sobretudo, mantenhamos a compostura, admitamos que num outro dia um OVNI azul às riscas aterrará no aeroporto internacional de Portalegre e dele sairão, como turistas, uma data de Conguitos verdes paridos em Melmac.

Acreditar em tão profanos milagres é o mesmo que negar a existência de uma sociedade secreta (ou discreta), sem dúvida a mais perigosa de todas, perante cujo poderio é virtualmente impossível fazer seja o que for.

Esta terceira mas primordial seita, estranha simbiose das duas sociedades secretas oficiais (por assim dizer), é constituída por homens de negócios e por políticos (há diferença?), por regra membros de uma das outras duas confissões (ou de ambas, que também há disso), não têm aparentemente qualquer ligação entre si e não praticam rituais próprios de espécie alguma, ocupando-se exclusivamente da congeminação (entre os membros) de grandes negócios, desfalques faraónicos, tráfico de influências (e toda a sorte de outros tráficos), extorsão, lobbying, corrupção, especulação e manipulação de mercados. Etc. Absolutamente nada fica de fora ou está ao abrigo deste tipo de ganância, daquela patológica obsessão pela acumulação de riqueza.

A Maçonaria, cujos membros dizem de si mesmos ser “Pedreiros Livres” — que de pedreiros nada têm e de livres muito menos — e a Opus Dei (ou “Obra de Deus”, uma entidade abstracta que se rege pela lei da letra morta), constituem, pela junção das partes, um imenso grupo de pressão (política, de regime, autárquica, diplomática, empresarial) e constituem, cumulativamente, um conglomerado de interesses não apenas políticos como, ou principalmente, económicos. O aparente laicismo de uns e a religiosidade fingida de outros consistem basicamente (e comummente) na propagação de uma fé inabalável no dinheiro e na prossecução da sua crença no enriquecimento pelo enriquecimento. Para tal desiderato, no qual crêem cegamente, uns e outros socorrem-se de lacaios especializados para as tarefas mais sujas e plebeias, como lavar vestígios ou “abrir portas”, com tudo o que implicam os trabalhos de tais criados pagos à peça ou à ordem, em espécie ou numerário, por grasso ou por atacado.

É com incontornável solicitude que os sabujos, a mando de membros da seita de seitas. envergando a “libré” de “facilitadores” especializados, avançam amiúde com questões aparentemente menores. As trupes de auxiliares servem (na perfeição) os interesses da selecta alcateia de gananciosos patológicos e foi assim que, por exemplo, surgiu e medrou a chamada “questão ortográfica”, ou seja, o AO90.

Ignoremos, ao invés do habitual, as já muito badaladas teorias da conspiração que envolvem as duas sociedades secretas. No entanto, bem entendido, não apenas existem bastos sinais do envolvimento de qualquer delas (ou de ambas) em questões relacionadas com o idioma em particular e com o Ensino em geral, assim como parece evidente que ambas tiveram tudo a ver com a “adoção” da cacografia brasileira; os “irmãos” de ambas as famílias estiveram envolvidos e na dita questão continuam enterrados até ao pescoço; sabemos que assim terá sido e é, sim, mas também podemos estar certos de que jamais viremos a saber ao certo em que medida ocorreu tal envolvimento, quais dos “manos” (de toga ou de batina) estiveram envolvidos e o quê ou quanto, ao certo, isso implicou: não existe nas seitas, por definição e inerência, qualquer tipo de registo; não prestam contas de nada a ninguém, nem ao Fisco nem a quaisquer outras entidades do Estado (é óbvio, eles “são” o Estado); os membros gozam de total imunidade e outorgam a si mesmos o estatuto de total e absoluta impunidade.

À míngua de provas documentais de qualquer espécie, de muito pouco ou nada servirá especular sobre algum ascendente ou assacar-lhes a mais ínfima responsabilidade (claro, nunca foram eles, nunca fizeram nada, são só apreciadores de missinhas, mais nada). Não será, por conseguinte, com vãs (e ocas) polémicas sobre qual das seitas se superioriza moralmente à outra que será possível concluir, por exemplo, pobre analogia, que em Melmac não existe só o Alf. O conceito de moral (ou imoral) está a priori  fora de cogitação, no caso vertente, pelo que a frivolidade da comparação é inútil.

Porém, sem teorias da conspiração ou sequer a mais subtil das conjecturas, ainda que, porque não há provas, não saibamos ao certo o que é a “fé” ou o que ali é feito, todos sabemos perfeitamente… o que é uma sociedade secreta, o que ali é feito, quem, quando, como e para quê. E sabemos isso de ciência exacta precisamente pelo mesmíssimo secretismo que define qualquer das irmandades: se são secretas, então  têm algo a esconder. 

São coisas que se explicam a si próprias e por si mesmas.

Desta premissa podemos nós ter a certeza. Uma certeza clara e limpa e luminosa — o oposto diametral da permanente obscuridade, a escuridão sepulcral da criminalidade ritual.

Frutas, legumes e sociedades secretas

Observador – observador.pt, 28.03.21

António Pedro Barreiro

Imagine-se que o Parlamento decidia aprovar uma nova regulação acerca da produção de legumes – não de frutas, mas apenas de legumes. Certamente, muito haveria a debater sobre uma proposta desta natureza. Seria pertinente? Que efeitos teria na produção agrícola? E que consequências produziria na dieta dos portugueses? Discussões fascinantes e necessárias. Mas, antes de todos esses debates, há uma questão prévia, que é a de perceber que coisa é essa que o legislador entende por legumes. O caso torna-se agudo quando chegamos, por exemplo, ao tomate, que muita gente acredita ser um legume, mas que a ciência sabe, para além de qualquer dúvida, tratar-se de uma fruta.

Eu posso ser o maior defensor da nova regulação sobre a produção de legumes. Mas não posso aceitar que, à boleia de uma lei sobre legumes, o legislador se sinta no direito de legislar sobre o tomate, porque o tomate não é um legume. Seria, aliás, especialmente perigoso que o legislador andasse a brincar com os equívocos e os preconceitos do senso comum, para convencer os portugueses de que o tomate é afinal um legume e deve, por isso, caber no objecto da nova legislação. A política é uma arte nobre de serviço público. Ou se faz com base na verdade – e a verdade, bem o sabemos, é a adequação das ideias à realidade das coisas – ou faz-se mal. E, quando se faz mal, faz mal ao povo.

Em Dezembro de 2019, o PAN propôs que os deputados pudessem, ao preencher o seu registo de interesses, declarar se pertencem a sociedades secretas – ou, como se tem dito, discretasDizia então o deputado André Silva que é “inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não declarar a sua filiação em organizações marcadas por uma forte opacidade, por um grande secretismo e que apelam a fortes laços de hierarquia”. A proposta tem o seu cabimento, até porque existe o risco real de que algumas pessoas se sirvam das relações travadas no contexto da sociedade secreta para subir na vida à custa do tráfico de influências. Mas o problema, como sempre, está nos pormenores. É que, além da Maçonaria – que é, de facto, uma sociedade secreta, que se caracteriza pela opacidade, que se estrutura segundo relações hierárquicas muito fortes e que constitui, com efeito, um espaço onde o tráfico de influências é possível –, o PAN quis incluir no estatuto de sociedade secreta o Opus Dei, que não obedece a nenhuma dessas características.
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O meio académico do Burkina Faso

 

De novo, o “fait divers” do Inglês. E de novo, como se não fosse redundante (e sumamente idiota) repeti-lo, reitere-se que não existe na “questão ortográfica” um só átomo de “anti-brasileirismo” ou coisa que o valha.

A dita “questão” é estritamente política, como já aqui foi dito e explicado mil vezes. Apenas a um néscio de grau zero (ou a qualquer imbecil irrecuperável) ocorreria a peregrina ideia de atribuir ao Apartado 53 seja que tipo de xenofobia for ou que é crime ousar o dono da caixa de correio comentar as cartas que transcreve; mais um passo, ou seja, um milímetro de neurónios paralíticos, e lá temos o arquivista no papel de autor do que dizem essas cartas.

Alguns, mais afoitos nas artes da raivinha de estimação, essa estranha forma de vida, alcançam inimagináveis patamares de maledicência, que aliás é inerente à sua inelutável condição de deprimente mediocridade. É dessa bizarra espécie de bacanos que emanam os eflúvios venenosos. A alguns deles, em sucedendo que tenham bigode, até se lhes treme o dito bigode, tal é a raivinha que por norma neles provoca e faz saltar, sabe-se lá ao certo porquê, tanto faz, uma coisinha qualquer esgalhada por algum proscrito.See the source image

Serve o Inglês, portanto, como outros assuntos correlacionados e igualmente sérios, de contraponto à doentia obsessão.

A Língua Inglesa é, para todos os efeitos e sem a mais ínfima polémica a envolver o assunto, de tal forma flagrante é a realidade (essa coisa que tanto irrita a nomenklatura portuguesa) e a esse facto não será estranha a independência dos USA (Estados Unidos da América).

Não advogando, de forma alguma, que vá o sapateiro além da chinela, parece-me modestamente seguro afirmar que tal estatuto de língua-franca foi conferido ao Inglês por um longo e até amiúde sangrento processo, na esteira das Línguas que o antecederam no estatuto: a actual língua-franca em todo o mundo sucedeu enquanto tal na honrosa esteira do Latim (na Europa e no Norte de África), do Francês (em parte da Europa e de África, em meios monárquicos, literários e mais “ilustrados”, além de territórios no Pacífico e em casos raros noutras zonas do globo). Por uma questão de sintetismo discursivo, não se referem nesta sequência os casos do Espanhol e do Português.

Expostos os antecedentes, ainda que de forma extremamente abreviada, talvez resulte mais claro o sucedido e definitivamente compreensíveis as circunstâncias que, a partir de 4 de Julho de 1776, resultaram na instalação (passiva, sem oposição) do Inglês como a única língua-franca que nos dias de hoje alcançou uma pujança esmagadora.

Ora, dando de barato que existe de facto um tremendo exagero (e uma gigantesca parolice) no uso e (principalmente) no abuso do Inglês, não passará de pura idiotice — dar cambalhotas por cima da própria cabeça — tentar demonstrar um espécie de “purismo” militante a pretexto de anglicismos. Por regra, estava capaz de jurar mas não o farei, porque a pequenez é um fenómeno imprevisível, quanto maior a sua ignorância da Língua, mais e com maior violência os “puristas” se atiram a ela. Estranho fenómeno, de facto, se bem que em Portugal já muito pouco ou rigorosamente nada resta de minimamente inteligível na verborreia daqueles que a si mesmos, coçando o queixo e repetindo “espelho meu, espelho meu”, atribuem o estatuto de gajo incrivelmente inteligente ou de pá, eu é que sei, eu é que sei, eu é que sei, óvistes.

Ralam-se imenso com a “invasão” bife mas não se ralam nada, nadinha, com a invasão zuca. Alguns (como é o caso deste agora) até se declaram “contra o AO90” e tudo, mas, ah, e tal, coiso, tenho ali uma panela ao lume, agora não, que não dá jeito.

As tangas do costume e os mesmos ódios de estimação. Não ao Inglês… enfim, só por ócio. Não ao acordês mas… assim com’assim…

Eis, em suma, o NIM ao “acordo”.

Estranha forma de vida.

 

Portugal e o inglês (III)

 

eltrapezio.eu, 22.03.21
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Nos meus artigos anteriores, referi o domínio em Portugal da língua inglesa e o potencial dos portugueses como professores de inglês para hispanofalantes. Quem me conhece sabe que o inglês é importantíssimo para mim, que o uso todos os dias nas redes sociais, e que outrora sonhei em viver nos Estados Unidos e no Canadá. Por isso, o que vou dizer neste artigo poderá ser surpreendente: eu não defendo a supremacia da língua inglesa. Defendo, isso sim, a diversidade, a harmonia e a aceitação mútua. Aquilo que eu procuro, tanto no inglês como no português e no espanhol, são oportunidades de contribuir para a paz e a concórdia no mundo inteiro.

Os meus alunos perguntaram-me recentemente o que acho do Acordo Ortográfico e do perigo de o inglês causar o desaparecimento do português. Se tenho orgulho em Portugal? Tenho. Se devo promover a língua portuguesa? Claro que sim. Se não gostei da maneira como nos foi imposto o Acordo Ortográfico? Claro que não gostei. Mas dito tudo isto, a língua portuguesa não é exclusiva nem de Portugal nem do Brasil. Escrevo e ensino português com as regras do Acordo Ortográfico porque não tenho escolha, mas também em parte porque espero que isso possa ser uma modesta contribuição para uma amizade mais sincera entre Portugal e o Brasil. Qual é a relação entre isto e a língua inglesa? Simples: porque a concórdia é mais importante para mim do que qualquer língua. Para que servem as línguas se não as usamos para isso?

O que eu respondi aos meus alunos foi: não acho que o Acordo Ortográfico tenha sido uma boa ideia, mas não culpo o Brasil pelos nossos problemas, e também não acho que a língua portuguesa possa desaparecer de Portugal. Temos uma Constituição que diz que a nossa língua é a língua portuguesa. Fazer desaparecer o português implicaria mudar a Constituição; portanto, insistir que o inglês, ou o português brasileiro, vai fazer desaparecer o português europeu é um exagero. Também lhes disse que há uma coisa que me incomoda muito mais, porque para mim representa um perigo muito mais imediato e real para qualquer pessoa no mundo: a discriminação linguística.

Há quem ache uma tremenda falta de educação falar outras línguas na presença de pessoas que só falam inglês, chegando até a interromper conversas de desconhecidos só para exigir que falem inglês. Isto sim, irrita-me. Tendo em conta todos os casos de assédio em países anglófonos contra pessoas que falam outras línguas, e toda a demagogia xenófoba que tem sido fomentada, em primeiro lugar, pelo vexame da política norte-americana, irrita-me. Quem lhes dá o direito de tomar por garantido o privilégio de falarmos inglês? E não importa que aprender a falar idiomas seja um trabalho árduo e exija perseverança? Porque é que todos nós temos de nos esforçar sempre tanto para falar inglês, para conveniência e conforto deles, mesmo perante aqueles que não estão dispostos a fazer o mesmo gesto em troca e não estão interessados em saber nada de nós? Não é essa a verdadeira falta de educação? Acharão eles que lhes somos inferiores?

João Pedro Baltazar Lázaro

[Transcrição integral. “Post” Fakebook via página “Chupa Camões”. Artigo de eltrapezio.eu Posted by em Mar 22, 2021.Transcrição integral (incluindo destaques a “bold” e “links”).]

50 tons de cinza

Peanuts. Aquilo que toda a gente aponta como sendo a “principal culpada” pelo AO90 não é a indústria editorial e essa “acusação” ainda menos pode ser assacada a qualquer editora, grupo de editoras ou associação empresarial do sector. Essa treta não passa, como se diz em “americano”, de amendoins. Servirá a carapuça, quando muito, no improvável caso de alguém a enfiar, para — como de costume — quem tenta desviar as atenções da questão essencial e assim enganar totós ou, ainda que não tenham caído no logro, pôr a conversar uns com os outros, de forma inconsequente e ociosa, os “teóricos” e “especialistas” na matéria.

A questão, evidentemente, é em essência de cariz político — privilegiar os interesses geoestratégicos do Brasil — e em função deste mesmo facto envolve, realmente, “operações financeiras”; mais prosaicamente, o que define e explica o AO90 é o dinheiro, o vil metal: em notas de Banco, letras e livranças, cheques à sorrelfa ou, ainda mais “interessante” para a “difusão da língua” brasileira e para a “expansão da língua” brasileira no mundo, em negociatas de todo o tipo.

O “pequeno pormenor” dos títulos de filmes é de facto “amendoins”, se comparado com os cambalachos esconsos, as roubalheiras escandalosas, os negócios escuros (ou totalmente negros) a que o AO90 confere  cobertura política. Na mesma linha de “peanuts” estratégico, a banda desenhada fabricada no Brasil para impingir às nossas crianças o mais retinto brasileiro, se bem que ainda mais grave (e asqueroso), é uma golpada  igualmente irrelevante, ou de pouca monta, comparativamente falando.

As “traduções” brasileiras, à patada, por grosso e atacado, nos livros e revistas, nas legendas de filmes ou documentários, nas plataformas cibernéticas e nos programas de computador, toda essa parafernália de estupidificação em massa e de anestesia metódica, enfiando-nos goela abaixo, com violência, um linguajar alienígena, até esse triste cortejo de miserável bajulação do “gigante brasileiro” é coisa pouca se nos lembrarmos da abolição do Acordo de Schengen, do ensino do brasileiro em Timor-Leste, da Embraer em Évora, dos governantes brasileirófilos (Durão Barroso, Guterres, Marcelo e tutti quanti), dos vendidos e graxistas, da indústria das telenovelas, do futebol e suas transferências bilionárias, de Angola e suas imensas riquezas…

Efectivamente, vai avançada a anexação da ex-potência colonizadora pela sua ex-colónia. Assim que for nomeada a CTR (Comissão Técnica de Revisão) do AO90 e depois de nela instalados todos os tachistas que já andam por aí em bicos-de-pés, suplicando por um tachinho “académico”, abatidas as derradeiras diferenças (inventadas em 1986) a cacografia da língua brasileira será oficial, integral e radicalmente “adotada” pelo Governo português. Logo após esse sancionamento seguir-se-á a benzedura legislativa (outra golpada, como a RAR 35/2008) e então Portugal passará a ser a única colónia linguística do mundo, isto é, mais exactamente, o único país do sistema solar a escrever numa língua que não existe.

 

 Não é possível escrever numa língua que
não existe

Nuno Pacheco

www.publico.pt, 11.03.21

 

Em Janeiro, o diário brasileiro O Globo garantia, em título, que as “Editoras independentes brasileiras preparam ofensiva em Portugal”. Boa notícia, para os amantes da leitura. Porém, logo nas primeiras linhas, trazia esta declaração espantosa: “Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos. Querem exemplos? Aqui vai um, bem recente. A editora Planeta DeAgostini, especialista em colecções generalistas, vendidas em bancas de jornais ou papelarias, acaba de lançar o primeiro volume (são 61) de uma família bem célebre na história da banda desenhada: Snoopy, Charlie Brown & Friends – A Peanuts Collection. O título vem em inglês, mas a edição é em português… do Brasil. A ficha, logo nas primeiras páginas, não engana e até o serviço de atendimento “ao colecionador” (sic) é, não em Portugal, mas no Brasil: www.planetadeagostini.com.br. Se o Snoopy fosse criação brasileira, fazia todo o sentido. Mas não: o original é americano, criado por Charles Monroe Schulz em 1950. Por isso, quiseram apenas poupar numa nova tradução, à boleia das promessas do Acordo Ortográfico (edições iguais para todo o espaço lusófono) e das crenças do senhor Silveira.
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Os encantos da corrupção

«Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n’um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque tinha um immenso talento. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco!»
[Eça de Queirós, “A Correspondência de Fradique Mendes”]

 

Chame-se-lhe nepotismo, amiguismo, compadrio ou qualquer outra ternurenta designação do género, a verdade é que nessa alegre actividade, para variar e por excepção, Portugal e Brasil são de facto “países irmãos”; oh, sim, sim, sem dúvida, no que toca a usurpar cargos à conta de “cunhas” ou arrumar tachos consoante a seita, ah, caramba, em tal mister tanto os tugas  como os zucas são verdadeiros especialistas; e se alguém disser que na Itália ainda é pior, isso só pode ser por uma lamentável (e imbecil) carga de ingenuidade: os meliantes que integram organizações de crime organizado como a Mafia (ou a Camorra ou a Ndrangheta) são verdadeiros meninos de coro quando comparados com o crime desorganizado em Portugal e no Brasil.

Vem este intróito a propósito da geral orgia tachista que deu origem ao “acordo ortográfico”, abreviando uma longa história, inventado por agremiações informais de ladrões — de ambos os lados do Atlântico — mas suportado, incentivado e promovido por instituições formais, esses ninhos de compadres, correlegionários, compinchas, tachistas a granel.

A ABL, de que fala um brasileiro no artigo agora reproduzido, o qual, aliás, versa exclusivamente sobre o nepotismo ali vigente, tem o seu lamentável paralelo em membros da tuga ACL; não oficialmente na instituição, propriamente dita, cujo presidente pretende “despiorar” o AO90, mas em alguns bacanos que alegre e ociosamente envergam o traje cerimonial da lisboeta agremiação.

De certa forma, a colaboração — seja ela activa ou passiva — desses académicos na “adoção” em Portugal da cacografia brasileira torna-se compreensível: o papel de tais gerontes brasileiros e portugueses, tradicional e sumamente desocupados, isto é, sem nada que fazer, resume-se a produzir de vez em quando umas papeladas sobre o “acordo” e a mandar umas bocas pseudo-científicas para tentar justificar o AO90. Exercício fútil (e cretino), é claro, dada a impossibilidade técnica (e pragmática) de justificar o injustificável.

Sucede que o AO90, como bem sabemos, não contou na sua atrapalhada feitura com qualquer das duas Academias; quando muito, alguns dos “notáveis” de ambos os tugúrios (como Bechara, por exemplo e desgraça) juntaram umas papeladas à letrada aberração, a ver se porventura conseguiriam aldrabar algum patego ou catolizar um ou outro retardado.

Como sabemos também, ou ainda melhor, o AO90 foi exclusivamente cozinhado entre políticos indiferenciados, governantes (Cavaco, Lula da Silva, José Sócrates) e deputados do PS e do PSD.

Suas académicas sumidades não se meteram na marosca, pelo menos não de forma a comprometer-se em semelhante alhada, guardando assim nas profundidades de si mesmos, gravemente, prudentemente, o que talvez fosse da sua competência mas que o seu imenso talento emudeceu então e agora cala.

Os encantos da Academia Brasileira

jornaldiabo.com

O século XXI marca o fim de uma instituição que passou mais de cem anos no melhor do imaginário popular e das aspirações dos homens ligados de alguma forma à cultura. Trata-se da Academia Brasileira de Letras (ABL), criação de um grupo efetivamente de grandes valores intelectuais, liderados por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e outras referências da cultura em sua época.

Tendo a Academia Francesa como modelo, a ABL procurou sempre reunir aqueles que se destacavam, especialmente na criação literária. Mas sempre teve espaço para notáveis, como o caso dos presidentes da República, desde Getulio Vargas, eleito por aclamação em pleno Estado Novo, a José Sarney, com obra compatível, e Fernando Henrique Cardoso, sociólogo de esquerda, cuja contribuição à cultura foi ter tido nos seus dois mandatos um ministro da Cultura eficiente, Francisco Weffort, que, curiosamente, a Academia não elegeu. Mas, em troca de favores para a formação de seu património, hoje robusto, derrotou Juscelino Kubitscheck, campeão da pura democracia no Brasil. Não foi de direita nem de esquerda. A Academia sempre foi sensível a abrigar os donos de ‘Media’, como foram os casos de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho.
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Malhas que o II Império não tece

Este artigo de “The Language Nerds” não é de simples opinião, não contém qualquer palpite e não é — evidentemente — propagandístico. Isto é pura constação de factos — consensuais entre todos os linguistas ou seja quem for que de alguma forma se interesse pelo assunto — e consiste no alinhamento lógico dos elementos exactos que suportam, documentam e explicam o título; título esse que, por mera técnica de escrita para captar a atenção dos potenciais leitores, está em forma de pergunta mas que afinal, pois claro, é uma afirmação: sim, toda a gente no mundo há-de acabar por falar Inglês.

Todo este conteúdo, portanto, é o oposto diametral do discurso anárquico (e sumamente enganador) dos acordistas brasileiros e dos seus obedientes lacaios portugueses. De resto, para uns e para outros a “cassette” é de todo indiferente; para essa espécie de vigaristas profissionais, mentirosos patológicos, basta dizer qualquer coisa, seja o que for, pela simples razão de que adoram ouvir-se a si mesmos e deliram com as bojardas que escrevem. Não é de todo necessário dizer alguma coisa de jeito ou que faça o mínimo sentido, basta babujar as tangas do costume sobre a sua querida cacografia “universáu”.

Não aceitam factos ou dados ou evidências, como sabemos, e por conseguinte odeiam que a realidade, essa abominável chatice, lhes estrague a bela teoriazinha, a “língua universal” brasileira, o “valor económico da língua” brasileira”, o II Império brasileiro, enfim, todas as “políticas oficiais” da treta que os tipos propagandeiam geralmente sem se rir.

Ora, em especial para os imensamente letrados brasileiros que esgalharam ou apoiam o AO90, coisa de 0,000001% em 200 milhões, o anti-inglesismo é um pouco estranho, visto que eles usam substantivos, verbos, adjectivos em Inglês (americano) usando uma “ténica” bizarra: adaptam à matroca (e a martelo) os termos americanos originais ou traduzem-nos literalmente para brasileiro. Daí as sua pérolas de “coltura” como deletar, usuário, subir (upload), baixar (download), etc.

Gostariam imenso de trepar num qualquer “ranking” das línguas mais faladas, ou coisa que o valha, mas não têm sorte nenhuma: a língua brasileira jamais terá a menor hipótese, nunca passará das suas próprias fronteiras; invadiu Portugal, pretende extinguir a nossa Língua, começa já a contaminar as ex-colónias portuguesas, mas nem assim o seu neo-imperialismo linguístico passará de um ridículo, inconsequente e irrelevante linguajar.

Pretendem empurrar o Português para fora da História, para o precipício do esquecimento. A “revisão” do AO90, implícita no próprio texto do “Tratado” desde a primeira versão (de 1986), conduzirá ao mais do que evidente objectivo final (Endlösung) que meia-dúzia de brasileiros e uma mão-cheia de vendidos portugueses desejam com ganância: incluir o Português-padrão no clube das línguas mortas, enterrá-lo na honrosa companhia dos honoráveis cadáveres dos idiomas minoritários extintos.

Will Everyone In The World Eventually Speak English?

thelanguagenerds.com

We can’t predict the future, but we can certainly learn from the past. And the answer to the above question is a resounding NO. Of course, you may have a difference of opinion, but consider the line of reasoning first. While it is true that more than 50% of the 6000-7000 languages in the world are endangered and will be dead in a matter of a century, that still leaves billions of people speaking the rest of the remaining languages, which can be numbered between 600-700. Compared to one, this is a huge number.

Not only that. The concern that is spreading now with the popularity of English and that it could replace other languages is not a new thing. In fact, people throughout history thought the same could happen with other languages. Let’s see some of them below.

1. Greek:

We all know the flourish that Greek enjoyed in the last three centuries BC. Its prestige and practical value, especially to the peoples in the Mediterranean basin, were immense. It was the primary language in which science, commerce, and art were carried out. Important matters such as trade and politics were discussed overwhelmingly in Greek, similar to English today, and with few real competitors than English has. Then rose Rome, and the political situation eventually changed. The popularity of Greek started to shrink. It gradually decreased and now used only in the eastern Mediterranean. Then, after the Muslim conquests, it shrank even more, as it was spoken only in Anatolia and Greece. Then, it shrank even further after the Ottoman conquests. Then, after the population exchanges in the 1920s, Greek met its ultimate semi-demise and was confined to Greece only. Although Greek didn’t completely die out, it didn’t replace other languages and was not even close. It didn’t replace even the languages in the area in which it had been spoken for three millennia.


2. Latin:

The spread of Latin was enormously accelerated with the rise of the Roman empire, which disseminated Latin across a wide area including western Europe, North Africa, and parts of the Balkans. But again, the equation of power changed. The Arabs took over North Africa, the Slavs took over the Balkans, the Germanic tribes took over England, Rhineland, Austria, and Switzerland. This resulted in the total displacement of Latin from these areas, and ultimately the colloquial verities that remained disintegrated into unintelligible varieties that we know today as Spanish, French, Italian, etc, with Classical Latin a completely dead language. (Read about how Latin is not dead and still spoken today [here]).

The distribution of Latin

3. Arabic

Arabic had gained a tremendous status and prestige in the 7th century not just in the Arabian Peninsula, but throughout the whole of the Middle East and far out into North Africa. Muslim conquests played a major role in spreading Arabic in these areas, exploiting the unprecedented weakness of Byzantium and Persian empires. It replaced Greek in the major cities and many Afro-Asiatic languages like Aramaic and Coptic in the countrysides. Briefly after two or three centuries, however, the Muslim Caliphate collapsed, and with it collapsed the status and prestige of Arabic. Now Arabic shrank into a language mostly used for religious purposes.

The distribution of Arabic. From Wikipedia

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Valha-me Zeus

 

Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses em forma de cavalos e os bois pintariam os deuses em forma de bois. [Xenófanes (570 a.C. – 475 a.C.)]

 

 

Mais uma espécie de crónica de Nuno Pacheco, no “Público”, sobre o AO90. Desta vez, para variar, até há poucas listas de palavras abstrusas (e listas mais curtas do que o costume, outra inovação refrescante), o que deixa espaço para algumas incursões pelos primórdios da fantasmagórica nacional-aldrabice que os políticos profissionais baptizaram como “acordo ortográfico de 1990”.

Ora, assim sendo, além de passar a integrar o repositório em curso aqui no Apartado 53, este artigo, transcrito (em baixo) na íntegra, é também uma oportunidade para fazer as conexões da ordem, isto é, através de “links” reconstituir… ligações. Sempre foi demasiadamente evidente que, por um lado, relacionar as coisas umas com as outras faz todo o sentido, e que, por outro lado, que “isso dá trabalho”; ora, tudo o que em Portugal “dá trabalho” não é para “se fazer”, é para “se ir fazendo”. Estabelecer relações de causa e efeito ou nexos de causalidade ou, quanto mais não seja, apontar algo ou alguém que ilustre, explique ou simplesmente refira factos, assinale fontes, identifique autorias, atribua citações ou, em suma, relacione entre si diversos conteúdos, bem, como sabemos, por regra tal tarefa é uma espécie de castigo de Sísifo: por algum insondável mistério, visto não haver culpa formada, os deuses mandam que se empurre um penedo monte acima e, quando finalmente o condenado chega ao topo do monte, o penedo rola de novo encosta abaixo. Ou seja, eterno esforço recompensado apenas com eterna desilusão. Repetir ad infinitum um castigo é outra forma de explicar (e expiar) o conceito de “dever”.

Deixemos porém, a obscuridade mitológica, sempre tão desarmante na sua clareza, e voltemos ao trivial quotidiano. Efectivamente, como diz agora a crónica (em sentido duplo), foi Cavaco o mandante e Santana o pau-mandado. Estes dois, lídimos representantes da mais pura e dura mediocridade nacional, em ambos os casos provindos das direitas políticas civilizadamente trogloditas, foram a posteriori acolitados por outros que tal das esquerdas, com José Sócrates — esse colosso de honestidade e transparência — e sua seita à cabeça. O camartelo acordista, uma aparente bandeira das direitas, os azuis, foi afinal acarinhado e promovido por esquerdistas, os vermelhos. Explica-se tal fenómeno com a maior das facilidades: o dinheiro não tem cor. Não adianta tentar intrujar a História e descrever um zarolho as vistas; o AO90 não é só um assalto dos direitolas, o gang inclui inúmeros esquerdolas (além do respectivo suporte “doutrinário”, veja-se e analise-se o´”Berloque de Esquerda”, um caso patológico) e para todos os envolvidos a questão resume-se a cifrões, o resto é palha para ração de jumentos.

As actuais graçolas sobre o AO90, além de recorrentes e tão engraçadas como tirar cera dos ouvidos, são um eco já ténue daquilo que ameaça fazer desaparecer para sempre, no mesmo vórtice, a Língua Portuguesa e quem em Portugal tirou a tampa do ralo cultural. Fingir que a questão surgiu do nada, sugerir que não houve objectivamente culpados, insinuar em cada mentira uma espécie de proselitismo devoto, tentar explicar todo o logro, enfim, por uma espécie de fatalidade do bem, isso é insuportável, castigo demasiado.

Pois nem assim Sísifo desistirá de cumprir o seu dever, sempre empurrando para cima o pedregulho que sempre rola para baixo, e sendo preciso também se sujeitará de novo ao suplício de Tântalo. A decepção como recompensa pelo esforço e o inalcançável logo ali, à distância do braço, mesmo cumulativamente os dois castigos são coisa pouca.

Bem pior, verdadeira maldição, é não querer ver. Nem com o olho único da testa, à maneira dos ciclopes.

 

Os factos de Marcelo e o fato sem salvação de Santana

 

 

Muito antes de imaginar que viria a ser Presidente da República (feito que bisou), Marcelo Rebelo de Sousa foi conhecido como “criador de factos políticos”, tarefa que desempenhou afincadamente a partir de vários jornais, para gáudio de uns e desespero de outros. Já Pedro Santana Lopes, politicamente formado no mesmo PPD (hoje PSD) que Marcelo, viria a ser conhecido pela criação de um “fato” ortográfico: o acordo assinado na Ajuda em 1990.

E “fato” porquê? Porque foi ele quem escreveu, em 2012: “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).” Acrescentando, em defesa deste raciocínio: “Mas também ‘caso’ (de Justiça) é igual a ‘caso’ (do verbo casar) e ‘falta’ (no desporto) é igual a ‘falta’ (de carência). E nem vale a pena falar do que os nossos avós tiveram de se habituar, para deixar de escrever ‘pharmácia’, palavra com tantas tradições.” Se fosse ao dicionário, teria milhares de exemplos, tantas são as palavras com dois, três ou mesmo dezenas de significados, no português como noutras línguas.

Mas o que levou Santana a vestir aquele “fato” foi a defesa do acordo ortográfico (AO90) no qual se empenhou. Num artigo publicado em 14/2/2012 no semanário Sol, Santana insurgia-se contra o facto de Vasco Graça Moura “desrespeitar” o AO90 na Fundação das Descobertas: “Não é aceitável”, dizia. E dava exemplos de como se escrevia no século XIX, afirmando que “a língua mudou e a pátria […] não acabou”, numa bizarra confusão entre língua e escrita. Depois puxava lustro aos seus botões, garantindo que foi Cavaco quem lhe entregou a tarefa de “negociar e assinar o Acordo Ortográfico”: “A este propósito, Cavaco Silva foi peremptório: em seu entender, o Acordo Ortográfico era essencial para que, no século XXI, o português falado em Portugal não ficasse com um estatuto equivalente ao do latim.” É curioso que nem Cavaco escrevia no dito acordo. Em casa, escrevia “à antiga”. Depois… “traduziam-no”.

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