Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: História

«A Língua e a Comunidade» [Viriato Teles, RTPN, 20.07.18]

«A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.»

A Língua e a Comunidade

Os governantes dos nove países da CPLP reuniram-se esta semana em Cabo Verde para mais uma cimeira de topo. Que terminou com os costumeiras declarações optimistas dos participantes, mas onde aparentemente pouco se avançou quanto ao que realmente interessa: a Comunidade propriamente dita ainda pouco mais é do que uma boa intenção.

RTP Notícias, 20 Julho 2018

Viriato Teles

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa nasceu em 1996, mais de duas décadas depois do golpe de misericórdia dado pelo 25 de Abril no «império português». Entre os objectivos fundadores da organização, destacavam-se «a cooperação em todos os domínios» e «a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa» – dois pressupostos muito nobres e que, na verdade, deveriam ser inerentes à própria natureza dos países que a integram.

A CPLP é uma organização de Estados, e nessa medida talvez funcione minimamente. Mas ainda não é – ainda, digo eu, que sou um optimista e continuo a acreditar que possa vir a ser – o motor de uma comunidade de povos. Como, eventualmente, terá idealizado o brasileiro que, para todos os efeitos, é com justiça considerado o fundador da CPLP: o embaixador José Aparecido de Oliveira, cuja persistência e talento diplomático foram determinantes para ultrapassar os obstáculos, as desconfianças e as inevitáveis mesquinhices de estados e de almas.

Reduzido à dimensão peninsular de origem, Portugal nunca apostou como deveria na ideia de uma verdadeira «comunidade lusófona». Fosse por «complexo de ex-colonizador», por um sentimento de pobreza congénita, ou por receio de virmos a ser «engolidos» pelos países-irmãos maiores e potencialmente mais poderosos, a verdade é que nunca do lado de cá se deram passos seriamente empenhados nesse sentido.

Mas isto é válido também para o lado dos países africanos de expressão portuguesa, para quem interessavam sobretudo os aspectos da «cooperação em todos os domínios», e mesmo assim com resultados frequentemente muito discutíveis – fruto de décadas de corrupção instalada, tanto lá como cá.

Quanto ao Brasil, o interesse será também essencialmente político-diplomático (e naturalmente económico), já que de cooperação o país não precisa e de cultura está razoavelmente bem servido. Isto apesar de ter sido de lá que partiu a peregrina ideia do «acordo ortográfico», contestado de ambos os lados do Atlântico e (felizmente) ignorado por Angola e Moçambique, mas ainda não exterminado, como merece – um objectivo que, aliás, bem poderia entrar na agenda da CPLP.

Só que, para isso, era necessário que a língua e a cultura fossem realmente importantes para os governos envolvidos. E manifestamente não parecem sê-lo, por mais entusiásticas que sejam as declarações formais de todos eles. O problema não é de agora, nem tem a ver especificamente com este(s) governo(s), mas – por isso mesmo – tem de ser séria e eficazmente combatido, sob pena de se hipotecar irremediavelmente toda uma memória comum.

O influente Novo Jornal Online, de Luanda, alertava há dias em editorial para o «estado absolutamente desastroso em que se encontra o uso da língua portuguesa em Angola». E isto, sendo um problema dos angolanos, é também uma questão que deve preocupar todos os membros desta ainda-não-comunidade de povos – que nasceu e se pretende continue unida pela língua, com respeito pelas diferenças e pelas especificidades que a engrandecem.

Ora a CPLP poderá, se quiser, ter um papel a desempenhar na solução deste e de outros problemas que, lenta e silenciosamente, vão deteriorando irremediavelmente o património cultural comum. Terá de ser uma intervenção séria, sem receio de corrigir erros passados, em que interesses particulares não se sobreponham aos valores comuns. Uma boa maneira de começar seria acabar de vez com o «acordo ortográfico», mas até agora, por razões diferentes, ninguém teve a coragem de dar o primeiro passo.

Nos próximos dois anos, Angola vai assumir a presidência da CPLP. Ironicamente, é neste país e em Moçambique que, actualmente, se continua a falar e a escrever o Português de que o antigo colonizador já prescindiu (na lei, mas não na grei) em nome de interesses alheios à história, à cultura e à identidade da língua e dos povos a que ela pertence.

É com certeza pedir demais, mas seria muito interessante verificar que os ventos de mudança que parecem fazer-se sentir em Luanda chegavam, nestes dois anos, também à CPLP. Não haveria, decerto, melhor sinal de que esta ideia de uma «comunidade de países» pode ser mais e melhor do que um mero conjunto de interesses circunstanciais. E tornar-se um dia, quem sabe, num espaço que os netos dos nossos netos venham a partilhar, de um modo fraterno e justo – como as dores da história ainda não nos permitem fazer hoje.

Afinal, trata-se apenas de colocar na lei aquilo que já é uma realidade: o AO só está em vigor teoricamente – e apenas no Brasil (que não o aplica, aliás quase não precisa de o fazer), em Portugal (onde as «facultatividades» e outros disparates instalaram uma confusão ortográfica que, aliada à iliteracia geral, transformou a língua numa caricatura) e, por simples inércia, em Cabo Verde (que, na prática, também o ignora, antes investe na promoção dos crioulos locais).

A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.

Eu sei que a CPLP não produz leis nem negoceia tratados. Mas é (deve ser) a plataforma comum e, deseja-se, o ponto de encontro dos governantes dos países que dela fazem parte. Nada obsta, portanto, a pelos canais de que dispõe este deixe de ser um tema tabu entre os nossos países e seja clara e seriamente discutido. Basta querer.

Para mais, é do conhecimento geral a quantidade dos que – ora no poder, ora na oposição, em Portugal e nos outros – reconhecem a valência dos argumentos «anti-acordistas» e o desconchavo que resultou da sua aparente aplicação. E todos concordam que, à medida que o tempo passa, maiores são os danos e mais difícil se torna a recuperação. Não será então a altura de, duma vez por todas, pôr fim à iniquidade?

Viriato Teles

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Viriato Teles, publicado no “site” da RTP Notícias em 20.07.18. Destaques e “links” meus. Foto de topo de: Miguel Silva (“Público“).]

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“O mundo da lusofonia tem de assumir que a liderança é do Brasil” (Marcelo Rebelo de Sousa)

CPLP em Cabo Verde Foto: TIAGO PETINGA/LUSA

CPLP em Cabo Verde Foto: TIAGO PETINGA/LUSA

 

CPLP aprova recomendação de “esforços para implementação do Acordo Ortográfico”

A Declaração de Santa Maria, aprovada na XII Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Cabo Verde, inclui uma recomendação para “o desenvolvimento de esforços para a implementação do Acordo Ortográfico”.

No texto aprovado na FXII Cimeira da CPLP, que decorre em Santa Maria, na ilha do Sal, Cabo Verde, lê-se que os Estados-membros “recomendaram o desenvolvimento de esforços para a implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, instando à sua ratificação e ao estabelecimento de formas de cooperação efectiva para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON)”.

Por outro lado, os nove Estados-membros “tomaram nota, com satisfação, da dinâmica desenvolvida pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), assumindo-se, cada vez mais, como uma instituição de carácter multilateral e fórum de planeamento e coordenação de projectos ligados ao fortalecimento da Língua Portuguesa”.

Neste plano, “expressaram o seu reconhecimento pelos significativos avanços dos projectos ‘Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC)’ e ‘Portal do Professor de Português língua estrangeira/língua não materna (PPPLE)’, sob responsabilidade do IILP”.

Ainda no que respeita ao ILLP, “reconheceram os esforços desenvolvidos” por este instituto “na articulação com os Observadores Associados”.

Criada há 22 anos, a CPLP tem actualmente nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

A XII Cimeira da CPLP, que marca o início da presidência rotativa desta organização por parte de Cabo Verde, começou na terça-feira e termina hoje, com a participação de todos os chefes de Estado, menos o de Timor-Leste, e ainda dos primeiros-ministros português e cabo-verdiano.

Source: CPLP aprova recomendação de ″esforços para implementação do Acordo Ortográfico″

As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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«Admirável Língua Nova (Parte VIII)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”, 16.07.18]

Admirável Língua Nova (Parte VIII)

Antes do Acordo, há UMA ortografia: “Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.” Com o Acordo, há oito ortografias para a frase. E num livro acordizado há facilmente milhões de ortografias possíveis para o mesmíssimo texto.

 

Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeámos na avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeámos na avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeamos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeamos na Avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeamos na avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeamos na avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Antes do Acordo, há UMA ortografia: “Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.” Com o Acordo, há oito ortografias para a frase.

Com o Acordo, “expectativa” aparece nos dicionários acordizados como sendo de dupla grafia em Portugal, porque se entende que há quem pronuncie e há quem não pronuncie. (São as trémulas “pronúncias cultas”.) Se um aluno escrever “expectativa” no singular e “expetativas” no plural, fazendo uso da facultatividade que o Acordo lhe dá, deverá o professor assinalar a anomalia?

A maiúscula inicial da “Avenida da Liberdade” passa a ser opcional, como resulta da Base XIX, 2.º, i).

E reza a Base IX, 4.º: “É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos) […].”

Chamamos, chamámos, falamos, falámos, brincamos, brincámos, trocamos, trocámos — é facultativo distinguir o tempo pretérito do tempo presente. Se o contexto for ambíguo, o leitor que se amanhe. Em frases que aparecem desgarradas e desprovidas de contexto (na televisão, na imprensa, na Internet), a salgalhada é total. Numa época de hiperinformação tombando a cada instante, em que muitos só lêem os títulos, que mal tem a interpretação contrária quanto ao tempo em que se situa a acção ou quanto ao próprio sentido da frase? “Jogamos mal” ou “pagamos mal”, numa fonte acordizada, pode ser “jogámos mal” ou “pagámos mal”.

Uma palavra hoje muito na moda (que não me suscita simpatia alguma) é “expectável”. O Portal da Língua Portuguesa e a Infopédia, por exemplo, acolhem “expectável” e “expetável” (pronúncia que passam a legitimar e a fomentar…[i]). O verbo acordizado pode escrever-se “expectar” e “expetar”. Ou seja, no pretérito perfeito, temos “nós expetámos/expetamos/expectámos/expectamos”. Não tenho conhecimento de outra língua em que na mesma pessoa, no mesmo tempo, no mesmo verbo, haja quatro ortografias.

No exemplo acima, se o verbo não fosse “passear”, mas um de dupla grafia, teríamos não oito, mas dezasseis formas ortográficas de escrever a frase. Se ainda acrescentarmos o inacreditavelmente facultativo acento de “dêmos”[ii] (para distinguir de “demos”), teremos trinta e duas ortografias para a frase, parágrafo ou texto. Se tivermos o nome de um curso (por exemplo, Medicina), também aqui passa a ser opcional a maiúscula… e vamos em sessenta e quatro ortografias. Um santo (ou santa) seguido do respectivo nome e eis outra nova facultatividade quanto à maiúscula inicial… cento e vinte e oito ortografias. O nome de um edifício (Palácio da Cultura/palácio da Cultura)… e outra facultatividade… duzentas e cinquenta e seis. O nome completo de uma igreja, opcional também a maiúscula inicial… quinhentas e doze ortografias. O nome de uma rua, mais uma nova facultatividade (Rua do Ouro/rua do Ouro)… mil e vinte e quatro ortografias. Basta mais uma palavra de dupla grafia e chegamos às duas mil e quarenta e oito ortografias. Com as facultatividades dos acentos, das maiúsculas iniciais e com as duplas grafias das palavras pronunciadas ora com ora sem consoante, bastarão vinte casos e teremos um milhão quarenta e oito mil quinhentas e setenta seis formas de escrever o mesmo texto. E assim sucessivamente multiplicando por dois. (Os números começam a ser terrivelmente assustadores, o Acordo torna-nos multimilionários das ortografias.)

Num livro acordizado, há facilmente mais do que vinte casos de facultatividades, ou seja, há milhões de ortografias possíveis para o mesmíssimo texto.

Se a isto somar as diferentes interpretações quanto às locuções que perderam os hífenes (e quanto às próprias consoantes mudas), porque os dicionários e os livros de estilo com o Acordo não se entendem [VER ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA PARTE III], a cabeça explode, não apenas pelo número de ortografias possíveis, mas por não haver dois dicionários ou prontuários acordizados que não tenham muitas divergências quanto àquilo que é a ortografia de certa locução ou palavra.

Ainda agora, nas notícias sobre o Mundial, li em órgãos de comunicação social que seguem o Acordo: “oitavos-de-final”, “quartos-de-final”, “ponta-de-lança” ora com ora sem hífenes, com flutuações dentro do mesmo órgão. Mero exemplo: num canal televisivo (o 5 na minha casa), no espaço de minutos, consegui ler “oitavos-de-final” com e sem hífenes. Antes do Acordo, inquestionavelmente com hífenes. Depois, a salgalhada que faz saltar os olhos. (Se quereis a minha opinião, caros acordistas, com o vosso Acordo, deve ser sem hífenes, ainda que o espírito da lei seja inexcedivelmente ambíguo, como já demonstrei antes. Ou seja, ficais com “guarda-redes”, “defesa-central”, mas “ponta de lança”; com “oitavos de final” e “quartos de final”, mas “meias-finais”[iii].) [VER ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA PARTE II.]

Lembremos as palavras mágicas do Acordo: simplificar, uniformizar, internacionalizar a língua. Hoje, demonstrada a fraude em toda a sua extensão (algum brasileiro passou a comprar um livro português por este seguir o Acordo e vice-versa?), sobra apenas o argumento, ou pretexto, de que já não podemos voltar atrás, de que as crianças já aprendem assim, de que teríamos de imprimir novos livros — blá-blá-blá que esconde o vácuo: apenas a inércia e a obstinação do orgulho de quem não admite que criou e deixou criar um monstro metuendo e indomável permitem que o Acordo não seja atirado para o sítio das coisas que não prestam para nada. O caixote do lixo que não é reciclável.

———————————-

[i] O engenheiro informático João Miranda que trabalha em Praga escreveu-me numa mensagem de correio electrónico: “Uma das características interessantes do Acordo, que se presume ortográfico, é que interfere, esperada ou inesperadamente, com a pronúncia, em vez de interferir apenas com a ortografia. Houve quem mudasse a forma como sempre disse certas palavras (inconscientemente ou não), e, por outro lado, há palavras cuja pronúncia se impõe, porque os autores do Acordo [e aqueles que se viram obrigados a interpretá-lo, nem que fosse para fazer dicionários] acham que se deve dizer de determinada forma (e a grafia impõe essa leitura). ”

[ii] Veja-se o seguinte passo de Camilo Castelo Branco, em O Santo da Montanha: “Já que morreu a serpente, dêmos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.” Perceba e sinta como o tempo verbal sem o acento é lido de outra forma. E já há Camilo acordizado por aí. Pegue na frase “Para que demos tudo?” e veja como a ausência do acento altera o sentido (além de aquele “para” poder tratar-se de um “pára”).

[iii] Lemos na Infopédia, num “artigo de apoio”, que “quartos-de-final” perde os hífenes com a “explicação”: “Com o Acordo Ortográfico, não se usa hífen na maioria das locuções.”

Mas porque acolhem outras com hífenes?! Não explicam. Tal como não explicam como se distingue a maioria da minoria. Porque o Acordo também não o faz na sua prosa enrolada da Base XV, 6.º.

[“Público”, 16.07.18. Textos desta série anteriormente reproduzidos aqui: Parte VII, Parte VI, Parte V, Parte IV, Parte III, Parte II, Parte I. ]

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‘Não há dinheiro, não há palhaços’

Directora apreensiva com indefinição sobre liderança do IILP depois de Dezembro

A directora do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), manifestou-se, em entrevista à agência Lusa, preocupada com o futuro desta instituição da comunidade lusófona devido à indefinição sobre a liderança e aos recorrentes problemas financeiros.

 

Marisa Mendonça, que deixa a presidência do IILP em Dezembro, mostrou-se apreensiva por não existir, até ao momento, decisão sobre quem assumirá a direcção do instituto a partir dessa altura ou manifestações de interesse no cargo.

Cabo Verde assume a presidência da comunidade lusófona na XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), agendada para 17 e 18 de Julho, na ilha do Sal.

As propostas sobre os países que irão assumir a liderança dos órgãos da comunidade são aprovadas durante as cimeiras, mas até ao momento não é conhecida a vontade de qualquer país em apresentar uma candidatura.

“Ainda não há uma decisão neste sentido e isto está a deixar-me, de certa forma, muito apreensiva. Estranhamente, até este momento, estamos a menos de 15 dias da cimeira da CPLP, e não há nomes“, disse.

Marisa Mendonça considerou que “seria bom perceber quais são os países ou as pessoas que se estão a perfilar” para a direcção deste organismo, lembrando que, aquando da sua nomeação, Moçambique propôs “muito cedo” o seu nome.

A directora executiva do IILP, que cumpre o seu segundo mandato à frente da instituição, manifestou-se também preocupada com os atrasos recorrentes no pagamento das quotas por parte dos países-membros, adiantando que o instituto tem estado a funcionar com 8% do seu orçamento.

“A nível financeiro estamos numa situação complicada. Quando entrei fizemos um grande esforço de contacto com os Estados-membros, que estavam com uma dívida global acima de um milhão de euros, quatro orçamentos anuais do IILP. Não preciso de entrar em grandes pormenores para se perceber a dificuldades de gerir o instituto nessa situação”, disse.

Adiantou que a dívida chegou a reduzir para 300 mil euros, mas que actualmente ascende a mais de 800 mil euros.

“É uma dificuldade imensa, temos compromissos assumidos diante de outras instituições que dão cobertura técnica às nossas plataformas, aos nossos projectos e andamos muitas vezes com o coração nas mãos, porque não sabemos como honrar os nossos compromissos”, reforçou.

Marisa Mendonça assinalou que se trata de “uma situação recorrente e que vem do passado”.

“Temos vivido sempre com este problema a nível financeiro. Isto não nos permite dar outros passos, temos obrigações, orientações plasmadas nos planos de acção de Brasília, de Lisboa e de Díli, mas temos de ser muito cautelosos quando pensamos abrir mais uma frente de trabalho e trazer outras dimensões àquilo que é a actividade do IILP”, disse.

Ainda assim, a directora executiva do instituto faz um “balanço positivo” do seu mandato, manifestando a expectativa de que os projectos em curso não sejam postos em causa.

“Fez-me muito trabalho, temos projectos em bom nível de desenvolvimento, seria realmente uma pena que estes projectos não pudessem ser continuados. É muito importante pensarmos como é que essas actividades vão continuar, mas antes de pensarmos nisto temos de pensar na consolidação da instituição, temos de pensar noutras formas de manter a instituição viva e com as condições que obrigatoriamente tem de ter”, considerou.

Marisa Mendonça sublinhou a importância de ter dado continuidade aos projectos que estavam em curso na organização – Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), Portal de Português Língua Estrangeira e a Revista Plateau, bem como de ter conseguido iniciar novos projectos.

“Iniciámos e estamos a desenvolver três projectos: CPLP – Comunidade Mais Leitora, que visa o desenvolvimento e promoção da leitura e da escrita, como uma estratégia comum a todos os países da CPLP, o dicionário de autores de literaturas africanas de língua portuguesa, que é a transformação de um dicionário em formato físico num dicionário virtual, e as terminologias científicas e técnicas comuns da língua portuguesa”, enumerou.

Para Marisa Mendonça, este último projecto será “bastante importante” porque “vai trazer uma plataforma consensualizada de terminologias que poderão ser um apoio fundamental para as actividades tanto de tradução como de interpretação de conferências”.

Marisa Mendonça apelou às autoridades cabo-verdianas, que vão presidir à CPLP e país onde está a sede do instituto, que olhem para o IILP “com outra atenção”.

Sediado na cidade da Praia, o IILP é um instrumento para a gestão comum da língua portuguesa, envolvendo todos os Estados-membros da CPLP.

CFF/RYPE // VM

Lusa/Fim

https://24.sapo.pt/noticias/internacional/artigo/diretora-apreensiva-com-indefinicao-sobre-lideranca-do-iilp-depois-de-dezembro_24501232.html

[A transcrição deste texto da Brasilusa, como de costume estropiado pelo AO90, foi corrigida automaticamente pela solução Firefox contra o AO90. Destaques meus.]

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«Queremos um português com as características idiomáticas brasileiras»

EXPLICAÇÕES ORTOGRÁFICAS PARA O PORTUGUÊS

Palavras escritas com SS, Ç, SC, C, X, XC geram muitas dúvidas. Afinal, há explicação para tantas diferenças? 

A questão ortográfica da Língua Portuguesa é bem polêmica. Muitas exceções e poucas reflexões convincentes. Nunca me conformei com explicações como: “É assim e pronto!

”Sempre achei horrível não saber, por exemplo, por que a palavra EXCEÇÃO é escrita com “Ç”. Sabemos, pelo contato de comunicação do dia a dia, que algumas pessoas escrevem com “SS” e acabam cometendo o tal “erro” ortográfico.

Este suposto equívoco não ocorre apenas por conta do desconhecimento da regra ou pelo uso. Muitas vezes, ele ocorre por falta de informação. Vamos analisar a origem do vocábulo.

EXCEÇÃO (com “Ç”) significa aquilo que está excluído de um todo. A palavra se originou da raiz latina “CAP”, que significa pegar. Para você entender melhor, essa raiz latina também originou a palavra CAPTEI, isto é, “peguei, compreendi”. O particípio latino da raiz “CAP” é “CAPTUS”, ou seja, aquilo que é pegado.

Para se formar uma palavra com a ideia daquilo que é pegado para fora, diferente ou fora de um todo, colocou-se o prefixo latino “EX”, que significa “para fora”. Com isso, a palavra formada foi: EXCAPTUS, aquilo que é pegado para fora.

Veja: CAP (pegar) formou CAPTUS (pegado), que formou EXCAPTUS (pegado pra fora).

O particípio latino formado com a consoante T (TUS) vai gerar, em Língua Portuguesa, a “terminação” com Ç.

Assim, EXCAPTUS forma EXCEÇÃO. Para você entender melhor, veja outro exemplo. NARE, verbo latino que significa nadar, tem o particípio NATATUS (aquilo que foi nadado) e forma NATAÇÃO (com Ç).

Veja: NARE formou NATATUS, que formou NATAÇÃO.

Alguns colegas alegam que as crianças dos ensinos fundamental e médio, e até adultos do ensino superior, não conseguiriam entender tudo isso. Eu não concordo.

Em uma sociedade altamente desenvolvida do ponto de vista da tecnologia, com ferramentas de realidade aumentada, internet cognitiva e inteligência artificial, os jovens compreendem questões muito mais complexas, sem o menor problema. O que devemos mudar mesmo são os nossos conceitos.

Explicações históricas e coerentes podem auxiliar o aprendizado e, ainda, o interesse pelo idioma.

Queremos um português com as características idiomáticas brasileiras, mas, também, com explicações mais consistentes do que um simples: “É isso e pronto!”

Source: EXPLICAÇÕES ORTOGRÁFICAS PARA O PORTUGUÊS – Prisma – R7 Português de Brasileiro

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A “monstruosa agremiação de pessoas”

«Em Lisboa há uma Academia Real das Ciências, grande título que por si se impõe, deduzindo-se que Lisboa possui sábios e se encontra dotada com um lugar onde se honra e cultiva as ciências… Risum teneatis amici, porque esta Academia não passa de um madeiro que, ao flutuar na água, por vezes pode aparentar um grande barco.»
«Esta Academia é uma monstruosa agremiação de pessoas, umas que não sabem nem têm nada a fazer, outras que não sabem nem querem fazer nada, e ainda de alguns sujeitos que se mexem muito para fingirem que andam muito ocupados e que, no entanto, não produzem mais que aqueles que nada fazem.» [“Panorama de Lisboa no ano de 1796”, J.B.F. Carrère]

 

Se o ridículo matasse…

Afinal, ao que parece, algumas pessoas, até do “respeitável Público”, levam a sério a espécie de sarau que a lisboeta “Academia das Ciências” está a preparar para amanhã, 10 de Julho de 2018.

Ao que parece também, afinal os paineleiros não serão exactamente os anunciados em cartaz para abrilhantar a coisa, mas isso, uma ou outra lacuna, aquela ou aqueloutra ausência (decerto imediatamente colmatada por algum “académico” da assistência, é favor uma das 15 pessoas presentes levantar o braço, obrigado, então pode ser aquele cavalheiro ali ao fundo, o de bigode), não há-de ser nada de cuidado, a eleição da Miss Mundo Lusófono decorrerá conforme previsto, dê lá por onde der.

Mantém-se o programa na íntegra, a julgar pelo que diz o “respeitável Público”, apenas com uma ligeira diferença, questão de pormenor, nada de ainda mais absurdo ou ridículo do que o inicialmente previsto: um dos modelos prevê a oficialização do Português como “língua minoritária”, expressão técnica esta que designa um conceito totalmente estranho aos cerca de 99,999% de cidadãos que jamais chegaram sequer perto da tristonha fachada da ACL.

O que isto significa, traduzido em miúdos, para que as outras pessoas, as normais,  entendam, é que  dentro daquelas tão vetustas quanto impenetráveis paredes preparam-se, uns quantos gatos pingados de borla, capelo e lata, para oficializar num papel, de uma vez por todas, a “solução final“, a liquidação sumária, a extinção definitiva da Língua Portuguesa enquanto património histórico e identitário. 

O que vale é que ninguém lhes liga nenhuma, aos gajos das borlas mai-la sua senil ociosidade.

Qualquer documento que decida exarar, portanto, esse académico colectivo de inúteis sumidades, será para todos os efeitos absolutamente nulo e de nenhum efeito.

“A diversidade na língua não compagina com actos ditatoriais”

Unidade e Diversidade da Língua Portuguesa é o tema de um colóquio que a Academia das Ciências de Lisboa promove esta terça-feira, dia 10, a pensar nas línguas maternas.

Nuno Pacheco
“Público”, 09.07.18

A Academia das Ciências de Lisboa promove esta terça-feira, por iniciativa do seu presidente, Artur Anselmo, um colóquio subordinado ao tema Unidade e Diversidade da Língua Portuguesa, com participação de académicos, professores e autores portugueses mas também brasileiros e africanos. “O colóquio decorrerá durante todo o dia”, diz ao PÚBLICO Artur Anselmo, “com três conferências de cerca de meia hora cada, não mais, e umas 20 a 30 comunicações de 20 minutos. A primeira conferência, de abertura, é feita pelo professor Adriano Moreira, com um título sugestivo: ‘A Língua não é nossa mas também é nossa’; a conferência da tarde é feita pelo Manuel Alegre, que falará, como grande escritor que é, em nome da língua portuguesa viva, dos escritores; e na conferência de fecho, feita por mim, tratarei do direito à diferença, um tema que me agrada muito, no respeito pelas línguas maternas.” O colóquio começa às 9h, no salão nobre da Academia, e terminará por volta das 19h com um intervalo das 13h às 15h.

O que motiva este colóquio é uma preocupação, já antiga, do presidente da Academia das Ciências quanto ao futuro das línguas maternas. Ele explica: “A Língua Portuguesa tem de conviver, cada vez mais, em boa paz, com as outras línguas. Porque nós não podemos alienar um património riquíssimo de línguas maternas. São as dezasseis de Moçambique, são as doze de Angola, são os crioulos. Depois o português vai-se adaptando, como diz o Manuel Ferreira, como diz o Mia Couto. E eu acho que a diversidade não compagina com actos ditatoriais.” Isto aplica-se à convivência entre as línguas maternas ou os crioulos e as variantes que assume a língua portuguesa em cada país, mas também à ortografia, que, embora não sendo tema deste colóquio (foi-o de um anterior, Ortografia e Bom Senso, em 2015), estará presente nalgumas comunicações. Artur Anselmo: “O uso da língua tem de ser um acto de civismo: respeitar os outros, respeitar as línguas maternas, respeitar as áreas dialectais, respeitar os falares (vai haver uma comunicação sobre falares brasileiros, que não são dialectos, são falares!). Como diz Adriano Moreira, a língua não é nossa mas também é nossa. Por isso vamos insistir: a diversidade é um ponto importante. E eu vou apresentar uma comunicação sobre os direitos linguísticos das minorias.”

Source: “A diversidade na língua não compagina com actos ditatoriais” | Língua Portuguesa | PÚBLICO

[Links” meus.]

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