Etiqueta: História

Chique chiqueiro

Chique, chicana, chiqueiro, ou os ecos de uma saraivada ortográfica

Nuno Pacheco, 28 de Maio de 2020

 

Já o Dia Mundial da Língua Portuguesa ia longe, entendeu o arquitecto Saraiva preencher a sua “Política a Sério” e ao Sol com esta extraordinária tese: “É chique dizer mal do Acordo”. O que o animou a pegar no assunto? Coisas que ele não percebe e outras que lhe dão vontade de rir. Não percebe, afirma, “o encarniçamento de algumas pessoas contra o Acordo” (o Ortográfico, convém esclarecer), pessoas que ainda por cima falam dele “como se fossem especialistas da Língua”; e dá-lhe “vontade de rir quando certas pessoas que não conseguem escrever duas frases seguidas se põem a criticar o Acordo com ar superior”. Ainda se ri mais quando lê no fim de certos textos de alguns colunistas esta nota “profundamente ridícula”: “Este artigo não respeita as regras do Acordo Ortográfico”. “Devem achar que é chique. Que os faz entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto”, conclui Saraiva.Num curto parêntese, convém dizer que esse problema não afecta jornais como o Sol, onde colunistas que, sendo publicamente contra o Acordo Ortográfico e recusando-o na sua escrita corrente (como António Bagão Félix ou Guilherme Valente), são “traduzidos” para “acordês” sem qualquer nota. Talvez por ser ridícula uma nota a dizer: “Este artigo foi ortograficamente alterado contra a prática dos seus autores.” Do mesmo mal padecem o Jornal de Letras (onde os opositores ao Acordo aparecem sempre “traduzidos”) ou o Expresso, que, no entanto, abre escassas excepções a seguidores da “antiga ortografia” — Saraiva há-de achar que cronistas como Miguel Sousa Tavares ou Pedro Mexia são dois “chiques” que anseiam, com tal aviso, “entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto.”

O problema é que Saraiva, que manifestamente não percebe mesmo nada deste assunto, não se fica por curtas graças solares. Também adora retirar delas alguma moral. E conta uma história que, garante, se terá passado com o seu pai, o historiador António José Saraiva (1917-1993). Diz Saraiva filho, o arquitecto, que quando “começaram a ser conhecidos os termos do Acordo Ortográfico, com muita gente a ridicularizá-lo”, decidiu visitar Saraiva pai. “Fui a sua casa e perguntei-lhe o que achava do assunto — certo de que arrasaria o Acordo.” Ou seja, certo de que o pai seria um dos “chiques”. Mas a resposta espantou-o — e aqui é o filho a falar pelo pai, valendo o que vale: “Oh Zé, o mais importante é que os portugueses e os brasileiros façam um esforço de entendimento para que as duas escritas não divirjam muito. Agora, escrever uma palavra assim ou assado não tem importância nenhuma.” Espanto do filho: “Foi para mim uma lição.”

Pois se foi, ficou por aí. Recuando uns aninhos, quando se discutia a insana proposta de Acordo de 1986, que antecedeu o actual, escreveu o arquitecto num editorial do Expresso, de que era então director, em 24 de Maio desse ano: “Se as modificações acordadas no Rio de Janeiro há quinze dias forem ratificadas, o português escrito será quase uma nova língua.” Crítica? De modo algum. Mas resignação: “Portugal terá pois de se sujeitar, substancialmente, à ortografia do português tal como se escreve hoje no Brasil e à evolução que ele for tendo neste país.” E em Junho concluía: “Para que o português escrito aqui e no Brasil seja igual é necessário que Portugal passe a fazer regularmente também modificações… que, muito provavelmente, afastarão cada vez mais a nossa ortografia do modo como pronunciamos a língua”. Acertou. Porque a fala tem vindo a alterar-se devido aos artificialismos impostos à ortografia.

Agora, no texto do Sol, afiança que não se pode dizer que este é um “acordo falhado”, porque “os dois maiores países da CPLP, Portugal e Brasil, assinaram-no, e este era o objetivo [sic] principal: que os outros o adotem [sic] ou não, é um problema deles.” Os dois maiores países da CPLP, foi o que disse? Em influência? Em área geográfica? Em número de habitantes? Em rendimentos? Más contas, para um arquitecto. Mas certas, no raciocínio dos autores da coisa, e aqui ele também acertou: o Acordo é, na verdade, uma manigância luso-brasileira mascarada de multinacional. Na matrioska ortográfica imaginada (e aceite) por Saraiva há um bojudo Brasil que encaixa um menos anafado Portugal, dentro do qual se enfiariam, sempre por submissão ao primeiro, os “irrelevantes” países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e o longínquo Timor-Leste. “Adotem [sic] ou não, é um problema deles.”

Mas não era problema nosso? Não era para unificar a ortografia toda? Era. E é por isso que está mais dividida; que no Brasil se escreve “aspecto”, “infecção” e “recepção”, como dantes, e que em Portugal passou a escrever-se “aspeto”, “infeção” e “receção”; que nos correctores do Word continua a haver duas variantes ortográficas, a de Portugal e a do Brasil, sem espaço para mais. Não é como estávamos? Só na aparência. Porque é pior, muito pior. Agora lemos títulos inimagináveis como este (dia 26, online no Expresso, jornal que Saraiva já dirigiu): “Covid-19: BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos [sic] da economia.” Passando o chique, o Acordo já foi chicana e agora é um chiqueiro. Só que nada nos obriga a viver nele.

Nuno Pacheco

[Os destaques, sublinhados e “links” (a verde) são meus.]

Iniciativa: Cidadãos contra o Acordo Ortográfico

Lei de cidadãos contra Acordo Ortográfico começa a ser discutida um ano depois

 

Agência Lusa/”Observador”, 25.05.20

Um projecto de lei de iniciativa de cidadãos contra o Acordo Ortográfico (AO), com 20.669 assinaturas, começa esta quarta-feira a ser discutido no parlamento, mais de um ano depois de ter sido entregue.

Na agenda de quarta-feira da comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias está prevista “apreciação e votação do parecer sobre a constitucionalidade do projecto de lei n.º 1.195″, entrado na anterior legislatura, em 10 de Abril do ano passado, mas que não caducou com a entrada em funções do parlamento eleito nas eleições de 2019.

O direito de iniciativa legislativa dos cidadãos, previsto no artigo 176.º da Constituição, foi regulamentado em lei em 2017 e permite que grupos de cidadãos eleitores possam apresentar projectos de lei e participar no procedimento legislativo a que derem origem.

Este projecto de apenas três artigos propõe que a Assembleia da República revogue a resolução, também do parlamento, que aprovou o acordo.

No artigo 1.º do texto pode ler-se que “a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 fica suspensa por prazo indeterminado, para que sejam elaborados estudos complementares que atestem a sua viabilidade económica, o seu impacto social e a sua adequação ao contexto histórico, nacional e patrimonial em que se insere”.

O segundo artigo propõe que a “ortografia constante de actos, normas, orientações ou documentos provenientes de entidades públicas, de bens culturais, bem como de manuais escolares e outros recursos didáctico-pedagógicos, com valor oficial ou legalmente sujeitos a reconhecimento, validação ou certificação, será a que vigorou até 31 de Dezembro de 2009 e que nunca foi revogada”.

O terceiro e último artigo estabelece que “este diploma revoga todas as disposições da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 29 de Julho, que com ele sejam incompatíveis”.

A comissão representativa desta iniciativa legislativa de cidadãos é composta por Hermínia Castro, Luís de Matos, Isabel Coutinho Monteiro, Nuno Pacheco, Olga Rodrigues, Henrique Lopes Valente, Rui Valente e Maria do Carmo Vieira.

Em 2019, um grupo de trabalho parlamentar criado para avaliar o impacto da aplicação do Acordo Ortográfico terminou funções em 19 de Julho, sem ter reunido consenso para uma possível alteração a esta convenção.

O grupo de trabalho foi criado em 2017 para avaliar o impacto da aplicação do AO de 1990 e, nos dois anos seguintes, estes dois anos, foram ouvidas várias entidades e personalidades, mas manteve-se a divergência entre os deputados sobre a matéria.

Entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Acordo Ortográfico de 1990 está em vigor em Portugal, no Brasil, em São Tomé e Príncipe e em Cabo Verde, enquanto Timor-Leste e Guiné-Bissau apenas o ratificaram, sem implementar. Falta ainda a ratificação do acordo por parte de Angola e de Moçambique.

Twitter Lusa




«Aperfeiçoar o idioma» [por Luiza Padovam Vieira]

Up

Dia da Língua Nacional: saiba tudo sobre a história da língua portuguesa e veja livros para aperfeiçoar o idioma

 

querobolsa.com.br Luiza Padovam Vieira em 20/05/20

 

Nesta quinta-feira (21), comemora-se o Dia da Língua Nacional. Mais de nove países e 260 milhões de pessoas possuem a língua portuguesa como oficial, incluindo nós, brasileiros. Trata-se do quinto idioma mais usado no mundo, o terceiro no ocidente e o primeiro no Hemisfério Sul.

Dia da Língua Nacional: saiba tudo sobre a história da língua portuguesa e veja livros para aperfeiçoar o idioma

Língua e nações

Linguisticamente falando, a língua é um sistema de representação formado por palavras e regras que, juntas, constituem frases. Seja através da fala ou da escrita, ela é o principal meio de expressão e comunicação utilizado por um grupo específico de pessoas.

Dessa forma, pode-se dizer que a construção da identidade de uma nação está diretamente ligada a língua falada pela mesma. Esta relação é tão profunda que pode influenciar até o comportamento e hábitos de uma nação. A língua, por sua vez, é uma das principais manifestações culturais de um povo e traduz, de maneira única, o modo como as pessoas se mostram perante ao mundo. Um bom exemplo disso é a palavra “saudade”. Por mais que tentemos traduzir, não há nenhuma palavra em nenhum outro idioma que represente o sentimento que estas letras combinadas carregam.

A história da língua portuguesa no Brasil

A língua portuguesa originou-se do latim, idioma disseminado na Europa inteira pelo Império Romano em meados do século III a.C., mas foi decretada como idioma oficial do reino de Portugal em 1290, pelo rei D. Dinis I. Quando chegou ao Brasil, através da colonização portuguesa em 1532, o idioma passou por diversas mudanças originadas de outras línguas como o tupi-guarani.

Além da influência dos nativos indígenas, a língua portuguesa brasileira é um reflexo da interação entre diferentes culturas e momentos históricos, como os povos africanos que foram trazidos para o país durante o período da escravidão e os imigrantes, que por aqui passaram.

Toda essa mistura faz com que a língua portuguesa, apesar de estar presente em diversos países, tenha particularidades e regras específicas em cada nação. Um exemplo disso é que, nem sempre os portugueses entendem o que os brasileiros querem dizer, e vice-versa.

Certas particularidades podem ser observadas até mesmo dentro do nosso país. Se viajarmos pelo imenso território brasileiro, poderemos ouvir diferentes sotaques e palavras que não conhecemos, caracterizando os dialetos de cada região. Entretanto, a língua nacional utilizada é a mesma.

Acordo ortográfico

O primeiro Acordo Ortográfico visando a padronização e unificação da língua portuguesa nos diferentes países em que é falado foi assinado em 1911, em Portugal, porém, a medida não foi extensiva ao Brasil na época.

Em 2008, foi implementada então uma nova reforma que alterou algumas regras da língua portuguesa, com intuito de simplificar e unir a língua escrita e falada, além de facilitar a integração comercial. As novas regras gramaticais estão em vigência no Brasil desde 2016.

+ Novo Acordo Ortográfico: teste seus conhecimentos

A importância da leitura para manutenção do idioma

A data, comemorada todo dia 21 de maio, tem como objetivo homenagear a principal ferramenta de comunicação e de expressão das nações, cada qual com a sua língua, e também busca reforçar a importância do estudo e da atualização do idioma nativo a fim de manter a cultura do país viva . Mais do que ler e escrever, um dos principais motivos da necessidade de estudar é interpretação e compreensão de textos.

Um levantamento feito pelo Melhor Escola, plataforma especializada em educação básica, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que aproximadamente 15 milhões de brasileiros não possuem grau algum de instrução escolar. Este número corresponde a quase 10% da população do país.

Na última edição do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudante – avaliação realizada pela OCDE para medir o conhecimento de estudantes de 15 anos e 16 anos de 80 países nas áreas de leitura, matemática e ciência, o Brasil também teve desempenho insatisfatório.
Fonte: OCDE

Aproximadamente 50% dos alunos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, na média da OCDE essa taxa foi de 77%. Neste nível, considerado o básico segundo o relatório, os estudantes devem, no mínimo, ser capazes de identificar a ideia central de um texto médio, encontrar informações explícitas e refletir sobre a finalidade e a forma dos textos quando explicitamente instruídos a fazê-lo.

Dicas de livros de português para crianças

Apesar de ser o idioma nacional, o português é uma língua complexa e de difícil assimilação. Existem diversos livros voltados especialmente para crianças em idade escolar, de 5 a 17 anos, para ajudar no estudo do idioma. O Bookplay, plataforma de streaming 100% brasileira de educação, listou alguns dos livros disponíveis sobre o tema:

(mais…)

“Circulatura do Quadrado” – TVI, 06.05.20

Círculatura do Quadrado – TVI

Espaço de debate onde Jorge Coelho, Pacheco Pereira e Lobo Xavier discutem, semanalmente, os temas políticos actuais da actualidade.

Programa de 6 de Maio de 2020. Extractos da gravação. Pacheco Pereira introduz a crónica publicada no “Público” Também alguns comentários de espectadores/leitores no site original do jornal; edição em papel (online) AQUI

 

(AO43/90) O AO43/90 é filho da ignorância e da corrupção. A ganância dos editores sempre se baseou nestes dois parâmetros. A defender o Aborto Ortográfico temos os que vendem dicionários, gramáticas, prontuários ortográficos, correctores ortográficos, sintetizadores de voz, etc. Comum aos dois países, temos os editores, especialmente os ligados aos livros escolares, Leya, Porto Editora no lado de cá e no planeta o grande gigante mundial a Microsoft que vendeu milhões de novas edições de todos os programas que têm correcção ortográfica. Os restantes têm apenas prejuízo, mas factores ligados à ignorância e à vaidade não os deixam ver mais longe. Em resposta à utopia da ortografia única, consultemos “Nova Gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e Lindley Cintra, de 1984, pág.74:

O jornalista Nuno Pacheco, nas páginas deste jornal, tem informado os seus leitores das aberrações do AO. Alguns exemplos apresentados são verdadeiramente hilariantes e custa a crer que profissionais do ofício da Língua, como Malaca Casteleiro, tenham alinhado nisto, indo ao ponto de edificarem dicionários segundo o novo AO.Nunca o utilizei e, com toda a franqueza, digo que prefiro ler em português do Brasil do que o português do AO.

Como professor de inglês e alemão durante mais de quarenta anos, nunca notei que uma língua demorasse mais a aprender do que a outra. Notei, sim, e costumava dizê-lo aos meus alunos, que o alemão era difícil no início – há aquelas regras gramaticais todas que é preciso interiorizar – e depois ia ficando mais fácil; ao passo que o inglês é ao contrário porque a gramática é simples mas à medida que avançamos vamos encontrando cada vez mais expressões idiomáticas e subtilezas semânticas. Leio com mais prazer em inglês do que em alemão, pesem embora grandes estilistas da língua alemã como Hermann Hesse. E isto, penso eu, pela maior flexibilidade e riqueza expressiva do inglês, resultante em parte de haver poucas regras gramaticais ou ortográficas.

Assino um único jornal nacional: o Público. E faço-o para poder ler um jornal redigido em português, e não em abortês ortográfico! Necessitamos de fazer alguma coisa, eficaz, contra o Aborto Ortográfico!…

Concordo inteiramente com este artigo e louvo a persistência e qualidade argumentativa do José Pacheco Pereira. Só um movimento muito forte poderá vencer a inércia política instalada e pôr cobro a este dito acordo aberrante, e quanto mais demorar mais difícil será revertê-lo.

Muito obrigada, Dr. Pacheco Pereira! Esperava ansiosamente que abordasse este assunto na sua crónica semanal! E constatei, com agrado, a sua insistência em introduzir o tema na última “Circulatura do Quadrado”. Porque é URGENTE gritar bem alto o que se mete pelos olhos dentro de quem sabe o que é uma LÍNGUA! E foi o silêncio conivente de tantos que deveriam sabê-lo – e dos ‘media’, com louváveis excepções, entre elas o “Público” – que tornou possível a imposição deste estúpido, débil e aberrante AO90, à revelia da nossa democracia, tão duramente conquistada. Professora reformada de Português (e Francês), conheço e combato o AO90 desde o início. Recolhi centenas de assinaturas para a ILC-AO e ouvi as inúmeras queixas dos nossos compatriotas! Leiam o AO90, e pensem, se são capazes disso!

«Livremo-nos dele» [Nuno Pacheco, “Público”, 07.05.20]

Língua portuguesa: uns só sabem do sonho, outros é mais inquietação, inquietação

 

No Dia Mundial da Língua Portuguesa houve um generalizado tom ufanista que só a custo encontra expressão prática.

Nuno Pacheco, “Público” 07.05.20

António Gedeão, Manuel Freire e José Mário Branco não têm culpa nenhuma disto, mas se tivéssemos de traduzir em música as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, o primeiro desde que a UNESCO fez mundial a data fixada em 2009 pela CPLP, só duas canções nos ocorrem: Pedra filosofal e Inquietação. A insustentável leveza do sonho e o peso do que nos inquieta.

É certo que, a esta hora, já todos viraram a página, até porque o fantasma da recessão que paira sobre as economias relegará mais uma vez a língua para segundo plano. Mas nas mensagens, nos discursos, nos artigos de opinião e nas celebrações que marcaram o dia 5 nos artigos de opinião e nas celebrações que marcaram o dia 5 há um generalizado tom ufanista que só a custo encontra expressão prática. Dos arroubos poéticos da mensagem presidencial (Marcelo Rebelo de Sousa elogiou no português “o génio de ser uma língua do futuro, viva, diversa na unidade, que muda no tempo e no espaço, continuando a ser a mesma no essencial”) à euforia de António Costa (“Na língua portuguesa cabe o mundo inteiro. A língua portuguesa é, porventura, a nossa maior riqueza, colectiva, de todos nós”), passando pelo ufanismo matreiro do texto para o qual o ministro Augusto Santos Silva arregimentou três outros ministros que em matéria de políticas da língua só são chamados quando convém, vai um largo rol de cenários sonhadores e vacuidades. É possível escrever, como se faz neste último texto, sem soltar de imediato uma gargalhada, que “cresce o uso [da língua portuguesa] na economia, nas viagens, na informação”? Em que planeta vivem?

Falantes de português no mundo, hão-de ser 500 milhões no futuro, afiança Costa. Mas hoje há quem fale em 265 milhões, mais de 270 milhões ou cerca de 300 milhões. São números que só querem dizer alguma coisa se descermos à realidade dos países onde a língua é falada ou ensinada e aí veremos que há inúmeros problemas ocultos neste nevoeiro de sonhos. A imagem, idílica, de milhões de estrangeiros ávidos de aprender o português (pouco importa em que variante) esbarra na dura realidade de a língua enfrentar dificuldades no seu próprio terreno, seja no ensino em países africanos (as queixas são públicas e conhecidas), seja na insistência com que o português é facilmente substituído pelo inglês em várias instâncias. A orquestra “lusófona” internacional quer ser bonita, mas anda muito desafinada.

O embaixador de Portugal na UNESCO, António Sampaio da Nóvoa, deu recentemente uma entrevista à Renascença onde, a par de considerar que “temos que fazer mais” pelo ensino da língua no estrangeiro e em Portugal (e se temos de fazer mais é porque não fazemos ainda o suficiente), acenou com esta velha miragem: o português como língua oficial da ONU. Diz ele que hoje “estamos mais perto” de o conseguir. Estamos? Olhe que não. O secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles, também numa entrevista recente à Deutsche Welle África, reconhece “que existe de facto uma vontade de diferentes departamentos das Nações Unidas em poder desenvolver esforços no sentido em que o português venha a ser uma língua oficial”, mas constata que, “para além de uma vontade política, é necessário um enorme esforço financeiro, que obviamente levará o seu tempo a concretizar”. Um enorme esforço financeiro, aí está. Ora a CPLP tem um largo historial de contribuições em atraso e o nada recomendável Instituto Internacional da Língua Portuguesa está financeiramente nu. Portanto sim, há sonhos, planos, protocolos, promessas. Mas não há dinheiro. A isto, dá o sonhador uma singela resposta: “A língua portuguesa é, porventura, a nossa maior riqueza.” Ufanismo de bolsos vazios.

Como se não bastasse, há ainda o incómodo Acordo Ortográfico. Ratificado por quatro países, que só parcialmente o aplicam (com as incongruências a ele associadas e com uma trapalhada enorme nas datas de ratificação, como já várias vezes aqui se escreveu), vem agora Cabo Verde dizer que a atitude do país “é não entrar em posições fracturantes, neste momento”, ao passo que Angola, cujo ministro das Relações Exteriores, Téte António, diz “estar a trabalhar com vista à ratificação”, sublinha que ali o português apresenta “particularidades discursivas, pragmáticas, sintácticas, léxicas, morfológicas, fonológicas e prosódicas.” Concluindo: é uma variante e quer ser como tal reconhecida. A amálgama “unificadora” actual não lhe serve.

E a Portugal muito menos. Atente-se nesta passagem da já citada entrevista de Sampaio da Nóvoa: “O professor Adriano Moreira, num texto recente, dizia que tínhamos que acabar com a inquietação do Acordo Ortográfico. Julgo que é preciso, serenamente, fazer uma avaliação, pensarmos no que nunca aconteceu ao longo destes últimos anos e décadas. Pensar o que isso significa para as gerações mais jovens, o que significa para as gerações menos jovens como a minha e a partir dessa avaliação encontramos soluções de futuro. É uma resposta que lhe estou a dar a título pessoal, mas creio que está na altura de fazermos essa avaliação e, retomando as palavras do professor Adriano Moreira, acabar com esta inquietação.” É um ponto de partida tardio. Mas a inquietação só terminará quando for reconhecido o logro que este acordo é. Livremo-nos dele, que terminará a inquietação. E haverá paz ortográfica.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral. “Links” (a verde), destaques, sublinhados e comentários meus.]
A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). [“livro de estilo”]

Aprova, para ratificação, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A Assembleia da República resolve, nos termos dos artigos 164.º, alínea j), e 169.º, n.º 5, da Constituição, aprovar, para ratificação, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa a 16 de Dezembro de 1990, que segue em anexo. Aprovada em 4 de Junho de 1991.

5 de Maio: dia mundial da língua brasileira

O texto que se segue NÃO É, ao contrário do habitual, uma reprodução para efeitos de constituição e repositório de acervo sobre o AO90. Apesar de a base do texto citado ser a publicada no jornal, a versão aqui vertida é a (minha) interpretação factual e política deste folheto propagandístico, mais uma manobra de contra-informação e de intoxicação da opinião pública sobre a inacreditável farsa com que hoje em dia se designa a língua brasileira veiculada pelo “acordo”, rebaptizado como “Língua Portuguesa” — uma palhaçada nojenta.


UNESCO oficializa o 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasleira

Sérgio C. Andrade

publico.pt, 05.05.20


A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) ratificou esta segunda-feira de manhã, em Paris, o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasileira.

A oficialização foi assinada na sede da organização, na capital francesa, por uma delegação portuguesa composta pelo primeiro-ministro António Costa, pela ministra da Cultura Graça Fonseca, pela secretária de Estado das Comunidades Portuguesas Berta Nunes, e pelo Embaixador de Portugal na UNESCO António Sampaio da Nóvoa.

A ratificação pela UNESCO do 5 de Maio como o dia oficial da língua portuguesa brsileira “é um passo muito importante para o reconhecimento global desta língua que é falada oficialmente em nove países, quatro continentes, e é a quinta mais utilizada no espaço da internet”, disse António Costa aos jornalistas, em Paris, citado pela Lusa. À RTP, o primeiro-ministro lembrou também que o Português brasileiro é “a língua oficial de 260 milhões de pessoas, e a mais falada no hemisfério Sul”. E realçou ainda que a língua portuguesa brasileira vai ter “um forte crescimento”, prevendo-se que, no “final do século, serão 500 milhões” a falá-la, tornando-a uma “língua cada vez mais global”. É, por essa razão, uma “prioridade fundamental na nossa política externa”, acrescentou António Costa.

Antes da promulgação final do Dia Mundial da Língua Portuguesa Brasileira pela 40.ª Conferência Geral da UNESCO, o governante português visitou a sede da instituição, reunindo-se com a sua directora, Audrey Azoulay, e com os embaixadores dos países da CPLP. Aos jornalistas, António Costa notou ainda que este reconhecimento constitui “um passo importante” para tornar o Português brasileiro uma das línguas de trabalho da Organização das Nações Unidas.

Questionado sobre a polémica em volta do Acordo Ortográfico, o primeiro-ministro reconheceu que o Português permite diferentes grafias e que a língua não pertence a Portugal. “Essa é uma questão que os Estados têm debatido: as línguas não são só escritas, têm também uma dimensão falada. O Português tem uma característica importante, tem-se sabido adaptar a diferentes territórios onde tem evoluído. Hoje é uma língua que pertence a muito mais pessoas no Mundo do que só a nós portugueses, e isso traduz-se em formas diversas de escrever”, concluiu o primeiro-ministro, citado Lusa.

O acto desta segunda-feira na UNESCO vem oficializar uma decisão já tomada no mês de Outubro, quando todos os países lusófonos apresentaram esta proposta à organização das Nações Unidas. Tomada por unanimidade pelos países da CPLP, a proposta acabou por contar também com o apoio de 24 outros países, entre os quais o Luxemburgo, a Geórgia, a Argentina, o Chile e o Uruguai. É a primeira vez que uma língua nāo-oficial da UNESCO vê declarado um dia mundial.

Não é ainda conhecido o programa, mas, quando da decisão de Outubro, António Sampaio da Nóvoa antecipou à Lusa que o dia 5 de Maio de 2020 seria assinalado em Paris com um vasto leque de iniciativas “relacionadas com a arte, a literatura e música”.

Optimismo e reservas

Ouvido pelo PÚBLICO, o professor universitário António M. Feijó não acredita que o título da UNESCO venha trazer algum ganho significativo para a afirmação da língua portuguesa brasileira. “Como é habitual nestas ocasiões, o país entra em autocongratulação, mas isso é um bocado vazio, nada decorre dela”, diz o também presidente do Concelho Geral Independente (CGI) da RTP. “Se os poderes públicos quiserem levar a defesa da língua portuguesa a sério, então têm de o demonstrar no orçamento para a educação e a cultura, apostando num aumento efectivo das verbas nesse domínio”, acrescenta Feijó.

Perspectiva diferente é a do professor e teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva, que vê na decisão da UNESCO “um motivo de orgulho para Portugal” e um desafio a “construir o futuro em comunhão com os países que têm como língua oficial a materna língua portuguesa, sobretudo o Brasil e Angola”, recordando serem “dois pilares fundamentais do universo” da nossa língua.

O autor de Teoria da Literatura diz que o Português – “independentemente das estatísticas, que em países como Angola, Moçambique e mesmo no Brasil nem sempre batem certo” – é “realmente uma das grandes línguas do mundo, uma das grandes línguas de comunicação e de construção de cultura, de ciência e de tecnologia”. E que a criação de um dia oficial por parte da UNESCO vem agora conferir-lhe “um prestígio acrescido”.

Vítor Aguiar e Silva está confiante em que os diferentes países irão dar a esta iniciativa “uma concretização extremamente relevante”, não deixando também de pensar na diáspora e na língua de comunicação dos milhões de portugueses espalhados pelo mundo. E acredita que a polémica que se vive em volta do Acordo Ortográfico não virá afectar essa celebração. “O importante não é atender às diferenças, mas àquilo que nos une, que é mais profundo do que o que nos desune”, diz o professor e investigador, lembrando que “a língua é liberdade, e é dentro desse conceito e da maneira de ser e de estar dos países que falam e escrevem a língua portuguesa brasileira que temos de perspectivar o futuro”.

Notícia actualizada com a posição de Vítor Aguiar e Silva.

 

[“Links” (a verde), destaques, sublinhados e comentários meus.]