Etiqueta: História

Redundância, hipérbole, alegoria, eufemismo e outras figuras de estilo

O “acordo ortográfico” de 1990, não sendo nem acordo nem ortográfico, de facto e materialmente significa a “adoção” integral da cacografia brasileira e implica a erradicação definitiva do Português-padrão. Trata-se, por conseguinte e por exclusão de partes, de uma manobra política, a curto prazo, e de engenharia social, a médio prazo, com (mais do que) evidentes intuitos de expansão geopolítica e, portanto, financeira, encapsulando uma forma subtil de neo-colonialismo numa espécie de supositório mental com a designação comercial de “CPLP”.
[“
Volta ao AO90 por etapas – 1 a 4″]

 

Peço imensa desculpa pela indecente auto-citação mas, parece-me, a diatribe encaixa como uma luva neste texto de Ana Cristina Leonardo, em especial se atendermos ao conteúdo do primeiro parágrafo, que introduz o tema com uma “perigosa” analogia apenas aparentemente desgarrada e casual, como se o “acidente” individual que refere no início não tivesse nada a ver com o desastre colectivo em que estamos todos — quer queiramos, quer não — afogados. E como remate do artigo a autora utiliza novamente a “táctica”: falar de outra coisa, de algo completamente diferente mas que afinal é… a mesma coisa, uma analogia sob a aparência de auxese. Tiro-lhe, por conseguinte, o meu chapéu, desbarretando-me perante a elegância e a subtileza de uma e, da outra, a alegria da alegoria.

Algumas notas, não abusando, sempre evitando cair na rapsódia do costume, ou seja, discutir questões técnicas ortográficas quanto a um assunto que de ortografia nada tem.

A expressão «valor diacrítico das consoantes não articuladas» é interessante, já que tal formulação denota uma óbvia conotação política: as consoantes não articuladas que refere (o que remete para a etimologia, um pesadelo para a empresa Malaca&Bechara, Lda.) existem no Português-padrão mas não no brasileiro; esta novilíngua socorre-se de uma escrita (isto é, várias, uma por Estado, outra em cada cidade, bairro ou prédio e ainda outra de pessoa para pessoa) que não passa de mera transcrição fonética dos inúmeros “falares” brasileiros; o AO90 tenta desesperadamente pôr alguma ordem naquela imensa cacografia e daí os seus alucinados autores usarem a ridícula expressão “pronúncia culta”; ou seja, cá está, “pronúncia”, logo, transcrição fonética (com o alfabeto comum, não com o fonético, é claro, que naquelas bandas a ignorância é pandémica) e portanto, por exclusão de partes, nada de ortografia. Em resumo: o AO90 brasileiro (passe a redundância) preconiza — numa primeira fase — que “o que não se lê não se escreve”, portanto o brasileiro fica exactamente como era (porque já era isso mesmo) e todas as consoantes a abater (100%) afectam exclusivamente o Português sério e a sério. Numa segunda fase, os prestáveis acordistas portugueses distribuirão entre si os tachos para formar uma CTR (Comissão Técnica de Revisão) que reintroduzirá as consoantes que são “mudas” para nós mas que os brasileiros articulam; por exemplo, “rêcépição” voltará a ser “recepção” para os pândegos tugas; e, dado que no Brasil “corrupto” ou “corrupção” se pronuncia (logo escreve/transcreve) “corruto” ou “corrução”, então em Portugal (e PALOP) a CTR ordenará mais essa patacoada insuportável na “língua universáu“.

Não existe, por conseguinte, pegando-lhe apenas por esta ponta, qualquer espécie de “ortografia pós-Acordo”. Uma das finalidades do AO90, de resto, é abolir administrativamente o próprio conceito de Ortografia — eliminar a Língua Portuguesa substituindo-a pela transcrição fonética do falar dos brasileiros de “pronúncia culta” (Bechara e um primo dele).

Outra afirmação um pouco dúbia no texto: «a Resolução 26/91 que valida o Acordo Ortográfico». Não, não “valida” coisa nenhuma, perdoará a autora a truculência. Essa Resolução da Assembleia da República resultou de uma “Proposta de Resolução” do Governo, como determinam os trâmites previstos no “regulamento” do processo legislativo, não tendo produzido a mais remota das consequências. Prova disso é o facto de toda essa papelada (AO90, PdR, RAR) ter ficado a marinar numa qualquer gaveta durante… 17 anos!

Foi quando o “génio” Cavaco chamou o inefável Santana Lopes e o incumbiu de ir à gaveta buscar aquilo é que o processo de demolição da Língua Portuguesa teve realmente início. E foi, por fim, em 2008 (17 anos depois da RAR 26/91, repito) que a aprovação do II Protocolo Modificativo (via RAR 35/2008) pôs realmente em marcha o camartelo. Sem esta última golpada o AO90 jamais teria saído da abençoada gaveta de onde Santana a repescou e, portanto, a Resolução de 1991 valeria (ou validaria) tanto como um maço de notas do Monopólio.

Por fim, só mais esta: «ortografia pós-Acordo». Bom, ora vejamos. Como direi? Belo oximoro, realmente. Não desmerece.

Parabéns à prima!

Ana Cristina Leonardo
“Público” (suplemento “ípsilon”), 23.07.21

 

 

Em verdade vos digo, caros leitores, em Portugal é mais fácil um estúpido passar pelo buraco de uma agulha do que saber-se a velocidade a que segue o carro de um ministro. Tal mistério (ou segredo de Estado), naturalmente decifrável à luz da Relatividade einsteiniana, implicando, todavia, no caso, a compreensão de fenómenos abstrusos para o comum dos mortais — compreendidos os efectivos da GNR — tais como o efeito Doppler, a dilatação do tempo, a invariância da velocidade da luz e variação da massa, as transformações de Lorentz e o diabo a quatro — isto apesar de Jean Piaget ter concluído que, para crianças mais novas, quanto mais depressa andarmos, menos tempo passa — remete-nos para uma frase de Mark Twain, autor inesgotável no que respeita a frases de espírito: “Leitor, suponha que era um idiota. E suponha que era um membro do Congresso. Mas repito-me”.

Como não lhe dar razão quando olhamos para a Resolução 26/91 que valida o Acordo Ortográfico, o qual, desde então, só nos tem dado alegrias, a nós e aos habitantes da Guiné Equatorial?

Aprovada pela esmagadora maioria (cinco deputados ausentaram-se, PCP, PEV e três deputados do CDS-PP abstiveram-se e apenas votaram contra Manuel Alegre (PS), Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e a deputada não inscrita (ex-PCP) Luísa Mesquita), perguntamo-nos, sem querer ofender ninguém em particular, mas não nos importando de ofender toda a gente em geral, quem, dos parlamentares “acordistas” , seria capaz de justificar o seu voto favorável a este articulado: “O c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, ora se conservam, ora se eliminam”?

Escrevem-se coisas extraordinárias nessa Resolução!

“É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes [mudas] vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua”.
(mais…)

Spelling Bee

 

«A spelling bee is a competition in which contestants are asked to spell a broad selection of words, usually with a varying degree of difficulty. To compete, contestants must memorize the spellings of words as written in dictionaries, and recite them accordingly.»

«The concept is thought to have originated in the United States, and spelling bee events, along with variants, are now also held in some other countries around the world. Spelling bees are common only in countries where English is spoken, because other languages have a more predictable spelling system[Wikipedia]

The 91st Scripps National Spelling Bee was held at the Gaylord National Resort and Convention Center in National Harbor, Md., in 2018. Credit…Scripps National Spelling Bee
July 8, 2021, 3:00 p.m.

By Alan Yuhas

The Scripps National Spelling Bee finals have returned.

 

W-e-l-c-o-m-e to our live coverage of the 93rd Scripps National Spelling Bee finals, where 11 students will face the clock, the cameras and a horde of the dictionary’s orthographic terrors, which are now all that stand between them and the title of national spelling champion.

The finalists, ages 11 to 14, have made it where nearly 200 other contestants could not — defeated by rhonchus, revetment, groupuscule, welkin and motmot, among others. Adding to their challenge, this year the students also face an on-camera vocabulary element to the competition. (A rhonchus is a kind of snoring sound, a revetment is an embankment, a groupuscule is a small group of activists, welkin is the heavens, and a motmot is a type of tropical bird.)

The contest’s organizers have also added another potential challenge since the last Scripps Bee, in 2019, when eight students shared the championship in a tie. In the event of a tie this year, the finalists will face a lightning round spell-off. The champion — or co-champions, if the spell-off itself ends in a tie — will receive a $50,000 cash prize.

[…]

[Transcrição parcial.

É uma actividade pedagógica, séria e consequente, adoptada como parte integrante e fundamental da política educativa em inúmeros países e territórios: Austrália, Bangladesh, CanadáÍndia, Kuwait, Nigéria, Nepal, Holanda, Bélgica, Paquistão, Emiratos Árabes Unidos, Arábia Saudita, Reino Unido, Estados Unidos da América, Vanuatu. Apesar de incidir sobre o Inglês, na actualidade a língua-franca mundial, este tipo de jogo didáctico é um factor estruturante do sistema educativo, principalmente nos USA (50 estados, 50 “países”), constituindo uma base sólida, a partir dos níveis básicos de escolaridade, do processo de ensino/aprendizagem de todas as crianças e jovens (e também de adultos!). Evidentemente, apesar de existir o exemplo contrastante dos concursos de caracteres chineses, estamos num campo até agora reservado a uma Língua cuja ortografia permanece intocada há séculos; também por isso mesmo os concursos de “spelling bee” ultrapassam largamente as fronteiras dos países em que o Inglês é Língua oficial, como, por exemplo, o Japão ou países diversos da América do Sul, através de instituições anglófonas de e para todos os níveis académicos, idades e estratos sociais.

São factos e evidências deste género aquilo que mais irrita os acordistas; irritação muito compreensível, portanto, visto que a realidade colide frontalmente com as suas teorias estapafúrdias, a sua militante imbecilidade na promoção de negociatas disfarçando-a com teorias “pedagógicas” horrivelmente sinistras. A “maior facilidade na aprendizagem” não resulta da “simplificação“, ou seja, não é exterminando a ortografia, substituindo-a por uma espécie de transcrição fonética do(s) falar(es) brasileiro(s), que se consegue maior “proficiência”, eficácia ou aproveitamento na aprendizagem da Língua, seja ela materna ou estrangeira. Essas e outras patranhas, qual delas a mais evidente, sustentaram a adopção do AO90 no sistema de Ensino português… por mais provas que se apresentem e por mais que se demonstre o contrário.
(mais…)

Portugal dos piqueninos

Nada surpreendentemente, vistos os inúmeros casos aqui já citados, exumados e autopsiados in situ, o verdadeiro trabalho de “implementação” da língua brasileira é “obra” não de acordistas, mas, no fundamental, gratuita e alegremente executado por anti-acordistas ou então, pior ainda, por indefectíveis do NIM — a maralha sempre de bem com todos, os “tipos fixes” a quem jamais ocorre dizer NÃO seja ao que for nem SIM a coisa alguma; uma sub-espécie perigosa, a dos fiéis do abençoado e tranquilo “meio-caminho”, a terrível substância alucinogénia que tantos tóxicodependentes criou em Portugal.

Não deve ser muito difícil entender o mais elementar dos raciocínios a respeito das tácticas de contra-informação e de intoxicação da opinião pública e, portanto, do logro colossal veiculado e da geral anestesia induzida na propaganda, na “narrativa” da seita que se ocupa da demolição da Língua Portuguesa.

Fazer o jogo do adversário é algo que pode ser sintetizado numa relação de causa e efeito tão elementar, de resto, num silogismo de tal forma evidente que verbalizá-lo torna-se quase tão ridículo como explicar uma anedota: se tem alguma, perde a piada toda.

Atirar ao boneco, assim como fazer mira com os dois olhos fechados, sempre acertando ao lado e falhando por sistema, irritantemente, duas imagens que nada têm de metafóricas devem chegar e sobrar para ilustrar o conceito: o AO90 é uma manobra política (premissa maior) contra a qual apenas armas políticas podem e devem ser usadas (outra premissa maior), logo (conclusão), utilizar armas de outro tipo implica a menorização (ou a pura e simples abolição, através do “ruído”, das manobras de diversão) do objectivo que inicialmente se pretendia atingir, errando o alvo em que teoricamente se dizia pretender acertar.

Aqui está mais uma amostra do teorema, neste caso ainda mais flagrante do que o costume, quanto mais não seja pela quase alucinante profusão de encómios e a não menos generosa prodigalidade na adjectivação laudatória. Escrito em Português, ao menos isso, mas no resto quase um desastre.

Sem sequer ralar-se com os rituais da ordem, sem declarações de militância prévias contradizendo flagrantemente os disparos de Diana 50 que acertam no tecto da barraca de tiro-ao-alvo, sem referir uma única vez o AO90, prudentemente, lá vem a lenga-lenga da “universalidade” da língua (a brasileira, pressupõe-se, por exclusão de partes), das “potencialidades” da língua (idem, aspas) e de outras formas de pirotecnia becharo-malaquenha. Embora esteja de todo esgotada a paciência até do mais pachola, convirá ao menos ler de relance esta mescla de “patriotismo lusofónico” com “universalismo” (isto é, de idolatria de um quimérico e sumamente idiota Império “liderado pelo Brasil“), esta sopa de grelos romanescos com nabo grandiloquente, ah, caldinho catita porém um pouco insosso, uma pitadinha de sal era capaz de lhe “puxar” o sabor, chega-me daí o saquinho dos negócios estrangeiros, vai sal e apimenta-se de caminho.

«Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua», por exemplo, diz o senhor que redigiu a coisa. Caramba! Mas que festival!

Ele é um «universo que pensa e fala» onde, pelos vistos, haverá sacanas a «deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono», ou terei porventura entendido mal, o autor deve pretender expressar o contrário, ora bolas, terá sido talvez pela bofetada que levamos em plenas, atónitas faces, com aquela do «pequeno país» (Portugal, aposto), que o Brasil é “um gigante” (também aposto que esta outra ribombante constatação há-de constar com certeza do arrazoado), essa raramente falha nestas loisas encomiásticas. Enfim, não sei bem, ou seja, “de ciência certa”, devo ter ficado esmagado, abananado, ofuscado com qualquer outra frasezinha elegantérrima, talvez a que postula ser «São Salvador, a cidade mais africana do Brasil», ora toma, pim, ou a outra, também lapidar e tremenda, catando da História que a «população portuguesa foi formada e formatada a visualizar um mapa que mostrava um Portugal do Minho a Timor». Olha, cá está, “do Minho a Timor”, já tal se dizia no tempo da “Outra Senhora”, ele a gente nunca espera o que nos aparece pela proa, há quem diga que é o destino, para outros o azar será, pois eu cá lamento mas não faço a mínima ideia de o que raio quer aquilo dizer.

Assim como também não sei, só o escriba saberá, calculo, em quê depositar (quem?) a esperança em «2026, esse ano mágico», na demanda de uma hipótese em que “talvez” «consigamos ter revelado e reavivado a teia de cumplicidades». Linguagem codificada, quase de certeza, ou então estará reservada a membros e por isso é naturalíssima a reserva, existem assuntos assim mais para o sigiloso que é de bom tom conservar em latas estanques.

Sobre a “teia de cumplicidades” estamos já bem mais do que conversados; não resta qualquer sombra de mistério nem permanece a menor dúvida sobre onde e quando, qual foi ao certo o móbil do crime e quem teceu a aracnídea teia.

É absolutamente impossível redigir um texto tendo a Língua Portuguesa como tema único sem jamais referir a própria escrita em Português, a Gramática portuguesa em qualquer das suas componentes, sem ao menos vagamente aludir à ortografia (ou ao léxico, ou à sintaxe, ou à prosódia) e, portanto, sem referir uma única vez o AO90 (ou a CPLP ou o IILP ou “o Camões” ou a BrasiLusa ou a Wikipédjia), mai-la sua esmagadora parafernália de armas de intoxicação em massa e quem as opera, quem põe o dedo em que gatilho. 

Que farei com esta Língua: uma Aldeia Global ou o Portugal dos Pequenitos

Carlos Fragateiro
“Ípsilon” (jornal “Público”), 25 de Junho de 2021

 

Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português.

1. Há mais de 500 anos, os portugueses, os mais aventureiros, saíram de Lisboa e partiram para o mar, não para aquele que seria o mais cómodo e familiar, o Mediterrâneo, mas para o desconhecido, para o mais perigoso e ameaçador e que poderia levá-los em direcção ao abismo, o Atlântico. Essa decisão levou-nos ao encontro de e com outros mundos, até então desconhecidos para os europeus, conduziu à criação do que hoje se chama a primeira aldeia global, e permitiu que Lisboa se tivesse tornado no centro comercial do novo mundo.

Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua que, pela sua profunda ligação ao mar, o espaço da não fronteira por excelência, construiu mais pontes que muros.

Porque vinda de um pequeno país, esta língua foi obrigada a dialogar, a fundir-se, a deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono, que é o que distingue os tempos de hoje dos do início da sua viagem há mais de 500 anos, altura em que o mapa da língua se desenhava a partir de um só lugar, de Portugal e Lisboa, mapa que hoje se desenha a partir de múltiplos lugares.

É o ser uma língua sem dono, e o trazer dentro de si todo o mundo e de estar em todo o mundo, que a torna num instrumento privilegiado para responder aos desafios que a pandemia está a colocar: deixar de olhar o mundo a partir da nossa casa ou do nosso país, como centro de tudo, pois não há muros ou fronteiras que defendam o nosso bem-estar, se esse bem-estar não existir em todo o mundo.

2. Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português. Pilares de que, entre outros, são exemplos: São Salvador, a cidade mais africana do Brasil; Manaus, que, ao lado da Reserva da Biosfera da Ilha do Príncipe, pode ser o grande centro internacional da ecologia e do ambiente e da defesa das culturas e das línguas minoritárias; Goa a cidade/estado de encontro entre o ocidente e o oriente; o Faial, com o Café Peter e o centro de Oceanografia, que, tal como Cabo Verde, é uma plataforma no Atlântico. Estes pilares, porque têm já no seu ADN os gérmenes deste mundo global da língua, são, em cada país ou comunidade, os espaços de cruzamento de ideias e lançamento de projectos que liguem os diferentes pilares e construam as pontes que darão densidade à rede com que o universo da língua portuguesa atravessará todo o mundo.

Reforçar esta rede, e a sua capacidade de intervir globalmente, obriga à construção de uma plataforma onde se cruzem os diferentes projectos e se simulem os cenários para o futuro ou os futuros possíveis. Plataforma que não se limite a descrever o mundo como ele é, mas a criar uma nova forma de o ver, imaginando o inimaginável, sonhando o impossível e fazendo com que ele aconteça.

3. Há uns tempos, num seminário maioritariamente frequentado por europeus, pediram a um doutorando angolano para desenhar o mapa do mundo e, para surpresa de todos, ele começou a desenhá-lo pelo continente africano, e não pela Europa como nós, portugueses e europeus, o fazemos. Fizeram o mesmo pedido a um brasileiro que desenhou o mundo a partir do continente americano.

É em momentos como estes que nos sentimos incapazes de visualizar o mundo de outra forma da que era apresentada no mapa que estava sempre presente nas nossas escolas, com a Europa no centro a América tão distante da China, de tal modo que hoje, sabendo claramente que a terra é redonda, ainda pensamos nas longas viagens que os americanos têm de fazer para chegar perto da China, ignorando completamente o oceano Pacífico e que as viagens não têm necessariamente de passar pela Europa, podendo fazer-se pelo outro lado do mundo.
(mais…)

O tubarão fantasma

«Sucedeu que as instruções do Ministério das Relações Exteriores à Delegação do Brasil na ONU chegaram por telegrama, causando grande impacto. O embaixador chefe da missão recusou-se a pronunciar o voto constrangedor, o seu número dois teve a mesma atitude. Sobrou um, então, jovem diplomata, marxista conhecido, António Houaiss, que declarou a surpreendente posição do Brasil, sob aplausos dos países da Cortina de Ferro, incluindo Cuba. Houaiss foi afastado do Itamaraty quando da Revolução e dedicou-se à grande obra que foi um dicionário, em associação ao filho do, então, chanceler Afonso Arinos.» [1963 e o voto do Brasil contra Portugal – Jornal “O Diabo” (jornaldiabo.com)]

Hydrolagus colliei (Chimaera), peixe cartilaginoso; nome vulgar em Português: quimera ou tubarão-fantasma.A chamada “lusofonia” não existe. É uma quimera. Ou será, quando muito, wishful thinking (passe o barbarismo). Embora possuindo o mesmo ar sinistro do peixe homónimo e, como este, navegue na total obscuridade das profundidades oceânicas, a “lusofonia” não cumpre qualquer papel na cadeia trófica — ou seja, não serve rigorosamente para nada na cadeia alimentar (e nas outras) — nem executa a mais ínfima das funções no que à Língua Portuguesa diz respeito. “Lusofonia” é pura entropia, portanto, algo que, por completamente inútil e sem o menor significado, apresenta num embrulho palavroso o caos da ideia fixa.

No entanto, como sucede neste caso, ainda há quem se agarre com unhas e dentes a essa espécie de quimera (não o peixe, a esperança vã), argumentando pontualmente com surpreendente coerência sobre essa “piquena maravilha” que será (seria) uma “mundovisão” em que toda a gente, “do Minho a Timor” e arredores (incluindo aquele piqueno enclave a que chamaram Brasil) falasse uma espécie de “português universal”.

Baseando-se em alguns dos falsos pressupostos que Houaïss, esse benemérito “promotor” do AO90, inventou para vender os seus calhamaços (e logo ele, valha-me Deus, um fulano tão desprendido, isto é, nada agarrado ao vil metal, um académico marxista, tão desapegado dos bens, terrenos, propriedades, contas bancárias e tudo, um tipo tão fixe, ganda bacano), os “lusofonistas” insistem nos méritos da causa lusofonista com denodo e dedicação extremas.

Afinal, se virmos bem, isto é, se nos artilharmos com todo o arsenal de condescendência do planeta, a tal “lusofonia” até não é assim tão má ideia. Coisa antiga, aliás, que durou até 1975 e finou-se de vez em 1999; a ex-colónia de Vera Cruz não conta, pelo menos desde 1822, neste âmbito, visto ter-se tornado independente sob a forma de Império, com língua própria e com um tremendo ressaibo para com Portugal, “a terrinha”.

Claro que na demanda de uma hipotética “expansão”, torna-se difícil imaginar uns quantos voluntários daquilo a “promover” e a “difundir” a Língua nas ruas de, por exemplo, New York, Paris, Ouagadou, Calcutá ou Pyongyang. Assim como não será muito fácil imaginar a “lusofonia” fazendo notar aos mercados financeiros internacionais o “valor económico da língua” e as respectivas “oportunidades de negócio”.

Pôr uns vendedores a chatear peões em grandes cidades do mundo, assim como quem impinge “time sharing” a transeuntes, bem, uma coisa dessas correria sérios riscos de se tornar um bocadinho ridícula e ligeiramente estúpida.

Quanto aos negócios, pois tende paciência, senhores lusofonistas, isso já está tudo tomado: o Brasil agradece, está claro, se bem que pela calada e em absoluta surdina, e até parece que nos estão fazendo um grande favor quando passam a ocupar, à conta do AO90 e sob o disfarce da CPLP, as nossas posições económicas (e políticas e culturais) um pouco por todo o mundo, nos países e territórios a que outrora aportaram nossos maiores; “do Minho a Timor”, sim, passando por Macau (China) e em breve por Goa (Índia), o novo império dos negócios brasileiros segue pujante e das migalhas sobrantes vão debicando os vendidos tugas, esses galináceos com muito cócórócó na garganta e imenso cocó na cabeça.

Evidentemente, aos tais lusofonistas — alguns deles anti-acordistas convictos — jamais terá ocorrido que a sua “lusofonia” acaba afinal por fazer o jogo (e, em parte, o trabalho) dos acordistas, contribuindo com o seu entusiasmo “lusofónico” para encobrir as negociatas da nomenklatura becharo-malaquenha, usando a suposta irmandade entre um pigmeu com História e um monstro nascido ontem para “justificar” a “liderança do Brasil” no processo de demolição da Língua Portuguesa.

Não lhes podem ser assacadas culpas, pelo menos aos inocentes bem intencionados, assim como aos próprios brasileiros também não, se já não hoje por hoje, pelo menos quanto à genese e ao lançamento da marabunta cacográfica; esta sucedeu por absoluta e exclusiva responsabilidade dos agentes tugas a mando da oligarquia dominante, o “centrão” político-partidário. Foram estes tipos quem, perante a estupefacção e a incredulidade dos brasileiros, surpreendidos por tanta e tão asquerosa bajulação tuga, delinearam toda a tramóia, montaram a estratégia da mentira matraqueada e venderam, em suma, ao próprio Itamarati, o esquema para dissimular os futuros negócios da China (e de Angola). Está claro, do ponto de vista da tradição  brasileira, “tá tudo légau”, valeu, primeiro riram-se dos tugazinhos graxistas (os “puxa-saco”, em brasileiro) mas depois começaram a abrir a pestana e hoje em dia é o que se vê, estão por todo o lado e em tudo fazem comércio, traficam influências e trocam “favores” (via CPLP, por exemplo), vão paulatinamente empochando o “bolo” lusófono — sucessivas camadas de História que nasceram do rasto das caravelas.

A Lusofonia não precisa de ser salva, apenas de ser desadiada (II)

Renato Epifânio
jornal “O Diabo”, 17.06.21

 

 

Espremido o texto, porém, a grande questão que ressalta é, de novo, a questão do Acordo Ortográfico e da relutância portuguesa em segui-lo, o que merece do jornalista e escritor brasileiro a seguinte sentença: “está claro que o português não deseja se tornar uma língua sem centro, com 270 milhões de falantes e algumas variedades nacionais. Chega de perder tempo!”.

É verdade que no Brasil essa relutância portuguesa em seguir o Acordo Ortográfico não é de todo compreendida, como eu próprio já pude testemunhar. Em Maio de 2018 – há precisamente três anos –, coordenei, como Presidente do MIL (Movimento Internacional Lusófono), um debate sobre as “as visões da Lusofonia no Brasil”, integrado num Encontro Científico promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira na cidade brasileira de Mariana, em Minas Gerais. Pois bem: perante um público particularmente culto e qualificado, a grande questão que emergiu ao longo do demorado debate foi precisamente essa: por que razão em Portugal havia tanta relutância em seguir o Acordo Ortográfico? E se essa relutância não deveria ser interpretada como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil?

Esse sentimento é pois real, ainda que, como procurei então aduzir, a conclusão seja, também aqui, “manifestamente exagerada”. Sim, é verdade que há em Portugal uma manifesta relutância em seguir o Acordo Ortográfico. Mas não é de todo verdade que isso deva ser interpretado como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil. Como sempre defendi, a Lusofonia não depende de nenhum Acordo Ortográfico como condição necessária – por mais que este pudesse ser útil, em teoria, assim ele tivesse cumprido a sua promessa de uma real “uniformização ortográfica” (o que ficou muito longe de acontecer, como é sabido). E há em Portugal muitos exemplos de pessoas que, sendo contra o Acordo Ortográfico, não são por isso contra a Lusofonia. Bem pelo contrário.

Extravasando este “irritante diplomático”, há de facto muito a fazer, como refere Rui Tavares, a começar pela dinamização da própria CPLP, que nem sequer face à tragédia em curso no norte de Moçambique tem dado uma resposta à altura (ainda que aí as responsabilidades maiores estejam a montante). Quanto ao mais, as ideias que lança são em geral boas, ainda que nem todas originais. Apenas um exemplo – precisamente a propósito do artigo de Rui Tavares, António Braz Teixeira, Presidente do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e ex-Vice-Presidente da RTP (entre muitos outros cargos relevantes que ocupou), recordou-me que, em 1987, ele próprio teve a iniciativa de promover uma TV Cultura da CPLP, tendo sido até fundada, em 1991, em Cabo Verde, a Organização das Televisões de Língua Portuguesa, com Estatutos aprovados e Órgãos eleitos. Trinta anos depois, o projecto está ainda por concretizar. Caso para dizer: a Lusofonia não precisa de ser salva – apenas de ser desadiada… ■

[Transcrição integral. Destaques, sublinhados e “links” meus. Foto de Pyongyang, imagem de: Wikipedia.]
[Agradecimentos a Luís Mendes pela ajuda (sobre peixes).]

Portsoc

Pretendia-se que quando a Novilíngua fosse adoptada de uma vez por todas e a Velhalíngua esquecida, um pensamento herético  fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende das palavras. [George Orwell, “1984”]


Como anteriormente aqui disse, e repito, e que me perdoe pelo calão algum mais comichoso dos três leitores deste manual de diatribes contra o AO90 (e outros detritos), estou-me altamente nas tintas para a cagança dos idiotas profissionais que abusam da Língua Inglesa. Por regra e definição, essa pandilha é constituída por tecnocratas que pouco ou nada sabem dizer (e muito menos escrever) em Inglês (e muito menos em Português), além de jargão técnico, tipinhos com uma pronúncia desgraçada (sotaque das Amoreiras, digamos), yuppies do século XXI cuja “pinta” de lorpas se topa a léguas. Enfim, que se danem os inguelishes e que se inglixe a jactância.

Esse estranhíssimo fenómeno (tipos que tentam impressionar a pategada com “buéda” tecnicismos no original) poderia interessar alguma coisinha caso tivesse a ver com assuntos sérios em geral, como a Ortografia, a Gramática portuguesa, a História de Portugal, o nosso património cultural, a independência nacional ou a soberania que estrangeiros nos sonegaram; ou seja, com o “acordo ortográfico”.

O AO90 contém igualmente algo de soluços de vaidosos e muito de tiques de autoritaristas, além de outro tanto de radical imbecilidade, porém é caso único, uma hecatombe que ameaça não deixar pedra sobre pedra dos nossos castelos no ar e apagar para todo o sempre o mais ínfimo vestígio de tudo o que prezamos, valorizamos e, em suma, somos; aquele horrendo crime de lesa-inteligência pretende derrubar todos os que, durante novecentos anos, construíram o que a última geração de estrangeirados ameaça abrasileirar.

No processo de aniquilação em curso, pretendem eles substituir a Língua portuguesa pelo brasileiro utilizando a táctica da novilíngua, isto é, a invenção literal de uma nova língua para eliminar a existente; isto não implica apenas chamar os bois por outros nomes, trata-se de reescrever a História e de “reformar” o próprio pensamento: conceitos, idiossincrasias, ideias simples ou raciocínios complexos, anseios individuais ou colectivos, devaneios ou desejos e mesmo os erros, as falhas, as faltas, os equívocos, as coisas hilariantes e as tristes, até a língua em que sonhamos; tudo, rigorosamente tudo será alterado, adulterado, “corrigido” segundo os sacros mandamentos dos oficiais do Partido, os donos da língua e, portanto, da vontade dos proletas — cujas funções consistirão exclusivamente em gerar outros escravos do Grande “país-Irmão”.

Proibir a língua “velha” (a velhice é já um demónio ao serviço da Nova Igreja) faz parte, obviamente, deste hediondo plano de terraplanagem linguística e cultural através da massificação da catatonia e contando já com o geral estado comatoso que caracteriza a indígena chusma de “pensadores”. As patranhas colossais, as mentiras descabeladas propaladas por alguns traidores e vendidos portugueses, contando com a nacional apatia (uma patologia ancestral), tentam impingir a todo um povo de descendentes de colonizadores a cacografia e, em última análise, a língua dos ex-colonizados. Caso único no mundo, evidentemente, “fundamentado” nesta coisa extraordinária: eles são 210 milhões e nós somos 10 milhões. Ou seja, a língua é só uma questão de contar cabeças; mesmo que os novos colonos provenham de um país a 7.500 km de distância, com o oceano Atlântico de permeio, mesmo que o Brasil seja uma ex-colónia portuguesa independente desde 1822 (e Portugal desde 1143), mesmo que do lado “dji” lá a pronúncia (não confundir com “sotaque”) seja para nós alienígena, a sintaxe abstrusa e a cacografia completamente anárquica, pois ainda assim uma mão-cheia de alucinados — isto é, de gulosos vigaristas — insiste na “adoção” por Portugal do brasileiro como Língua nacional, extinguindo em simultâneo o Português.

George Orwell era um inglês que escrevia, evidentemente, em Língua Inglesa. A sua obra mais genial é, sem dúvida, Nineteen Eighty-Four (1984). Isto sim, é Inglês que se pode (e deve) citar até à exaustão.

Nem sempre utilizar expressões inglesas serve só para impressionar (pategos). Há coisas que fazem parte da Língua em que foram criadas mas que acabam por se tornar património do universo inteiro.

Como a austera, apagada e vil tristeza de Camões, Hamlet (Shakespeare) reflectindo sobre to be or not to be ou, pela inversa, contrariando a sentença lapidar de “1984”,

Victory is possible

Os malefícios de um provincianismo mental acrítico e fascinado pelo novo

Nem a TLEBS, com as suas fastidiosas e aberrantes descrições, nem o AO 90, com os “seus erros, imprecisões e incoerências”, propiciam uma reflexão sobre a Língua.

Maria do Carmo Vieira
“Público”, 11 de Junho de 2021

 

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Fernando Pessoa

 

Regresso a um tema que me é caro e sobre o qual me tenho repetido porquanto, a meu ver, permanece o absurdo que o caracteriza, bem como a doença de que padece e à qual se refere a epígrafe escolhida. Refiro-me à Reforma curricular de 2003, cujo espírito e metodologias se mantêm porquanto “o princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro”, o que ainda não aconteceu.

Não posso deixar de confessar que o presente texto nasceu do livro do Professor Jorge Calado (IST),Limites da Ciência (2.ª edição, 2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “redigido com o Acordo Ortográfico de 1945”, conforme se lê em nota. Será imprescindível transcrever as palavras do autor, a propósito de “A Língua e a linguagem”, para evidenciar a relação com a Reforma de 2003 acima referida e entusiasticamente anunciada. Eis a transcrição, longa, mas imperiosa: “Alguns cientistas, isolados nas suas torres de marfim, pensam que, se ninguém os entende, fazem figura de seres supremamente inteligentes. A verdade é que a construção de uma linguagem hermética, entendida por poucos e benéfica para nenhum, não passa, muitas vezes, de mais um sintoma de impreparação. A nudez da ignorância disfarçada com o manto espesso do artifício. […] A snobeira do falar difícil e pseudocientífico encontrou terreno fértil nas humanidades. […] que dizer da relativamente recente (2004) substituição da velha Nomenclatura Gramatical Portuguesa dos artigos, substantivos, adjectivos, verbos, pronomes, advérbios, preposições, etc., pela pretensiosamente científica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), entretanto suspensa? Uma salgalhada de variáveis, determinantes, auxiliares aspectuais e modais e preciosidades como ‘Um Nome tem um funcionamento não contável quando necessita de um suporte (discretizador ou enumerador) que o discretize ou enumere.’ Ciência, isto?”

Haverá que esclarecer o Professor Jorge Calado que a TLEBS não foi suspensa, apenas “corrigida” (imagine-se o desconforto do vocábulo para os “cientistas” que a trabalharam) continuando activa nos seus “disparates”, em programas e exames de Português. Na tentativa de apagar a polémica e o desastre intelectual que representou, a TLEBS transfigurou-se em Dicionário Terminológico, sendo seu obstinado mentor o Professor João Costa, de há longa data Secretário de Estado da Educação, e obviamente um fervoroso impulsionador da Reforma de 2003 da qual se salienta, no que à disciplina de Português diz respeito, a apologia de textos funcionais, o menosprezo pela Literatura, mormente pela Poesia, o amaldiçoamento de aulas expositivas, bem como do uso da memória e a pseudo-novidade da “Reflexão sobre a Língua” que a TLEBS proporcionaria, segundo “explicaram”, em acções de formação. E acções de formação porquê? Pela constatação da impossibilidade de os professores compreenderem as “inovadoras” descrições terminológicas. Eu própria assisti apenas a uma sessão, não estando inscrita, e foi o suficiente. Perante uma dúvida, a formadora repetiu vezes sem conta a mesma explicação, com o mesmo vocabulário, aberrante e impenetrável, apontando no final, e ostensivamente, a minha “impreparação”.
(mais…)

10 de Junho, Dia da Língua Portuguesa

Comemora-se hoje, 10 de Junho, o Dia de Portugal, da Língua Portuguesa, de Camões e da diáspora.

Esta é uma data a celebrar, efectivamente, e que nada tem a ver, pelo que em caso algum deve dar azo a quaisquer confusões, por lapso ou contaminação propagandística, com o dia da língua brasileira, a 5 de Maio; esta outra data, totalmente alheia a Portugal, aos portugueses e à sua Língua, consiste numa série de eventos artificiais patrocinados por brasileiros, pelo político profissional António Guterres, por uma organização brasileira (paga pelo erário público português) a que resolveram os implicados chamar “CPLP” e por uma pequena seita de fanáticos brasileirófilos misturados com alguns sôfregos capitalistas e um grupinho de rapazolas para ir apanhar as canas e servir umas caipirinhas.

Por exemplo (se bem que nestes casos exista um dever de observar alguma espécie de gravitas e de dignitas,  dado o estatuto de algumas das pessoas em causa), Cavaco, Malaca, Sócrates, Bechara, Lula, Reis, Santana e Canavilhas contribuiram — cada qual a seu modo e na medida das suas possibilidades políticas e das respectivas “influências” — não apenas para esgalhar o AO90, essa arma de destruição maciça da Língua Portuguesa, como também para inventar a festarola sambística do “5 de Maio“. Esta invenção ocorreu primeiramente em 2018 (caramba!, há três anos, mas que coisa antiga, vetusta, cheia de tradição e verdete) e no ano seguinte, 2019, a UNESCO, sabe-se lá por que bulas e a troco de quê, resolveu puxar o lustro àquela bota “proclamando” essa mesma data como “Dia Mundial” da língua brasileira.

Coisa estranha, esta suspeitíssima manobra diplomática junto da UNESCO, visto que parece ser esse “Dia Mundial” da língua brasileira, precisamente, um caso muito raro ou único. Existe naquele organismo supranacional o “Dia Internacional da Língua Materna”, o que consubstancia um conceito radicalmente diferente, por genérico e abrangente, mas qualquer pesquisa (interna ou via Google) por “Dia da Língua” (ou por “language day”) devolve apenas um resultado, no que respeita a línguas de países historicamente colonizadores: além do tal “5 de Maio”, o “Day” da “bambochata” do “pôrrtugueiss universáu”, não existe qualquer “Day” para qualquer outra Língua nacional. À excepção, evidentemente, dos dias dedicados às línguas de trabalho oficiais admitidas na ONU: Arabic (18 December), Chinese (20 April)English (23 April), French (20 March), Russian (6 June) e Spanish (23 April). Estes seis casos justificam-se por aquilo que representam (línguas de trabalho da ONU), mas o dia da língua brasileira é o único a fintar essa lógica formal.

Dever-se-á talvez rever a definição do verbo “tresandar”. Isto já não é uma história (muito) mal contada. Se a UNESCO e o próprio secretário-geral da ONU estão atolados em tão viscoso entroncamento de lamaçais, então estaremos não apenas perante uma das maiores burlas diplomáticas de sempre como vamos assistindo — muitos, com passividade ou indiferença — a um filme de encenação deprimente, péssimo guião, actores horríveis. Demasiado mau para ser verdade, de facto.

É hoje o único, o verdadeiro Dia da Língua Portuguesa. Eis uma certeza absoluta, séria e fiável.

Deixemos as alucinações para os imperialistas e os xenófobos, as mentiras para os desequilibrados e mitómanos, a verborreia para aqueles “intelectuais” em cuja cabeça apenas existe um preço escrito na testa.

JPG


A arte de transformar uma ILC-AO numa ILCalem-se

Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse uma resolução da própria AR!

Nuno Pacheco
“Público”, 10 de Junho de 2021

Não há inspiração camoniana (“Cale-se de Alexandre e de Trajano…”) no título deste texto, apesar de hoje, 10 de Junho, se celebrar Camões, a par de Portugal e das Comunidades. Não, o motivo é outro e nada tem de metafórico; pelo contrário, é literal. Expliquemo-nos: há um “cantinho” reservado aos cidadãos na Assembleia da República (AR); não para se sentarem, para isso há as galerias, mas para intervirem na actividade parlamentar. É um espaço virtual onde podem ser apresentadas três tipos de iniciativas: legislativas, petições e referendos. E ali se acolhe o que a lei e as regras (há um manual do utilizador, com 23 páginas) permitem. Dia 7, por exemplo, estavam lá três iniciativas legislativas de cidadãos (ILC, com 3393, 3101 e 543 assinaturas, respectivamente) e 36 petições. A mais “pesada”, de Abril, tinha 192.129 assinaturas (para afastar o juiz Ivo Rosa), a segunda 10.625 e a última apenas 3.

Mas, antes delas, uma outra ILC foi fazendo um longo e duro caminho até estar composta, aceite e pronta à votação. Se não tivesse esbarrado, antes, num muro. Falamos da ILC-AO, respeitante ao Acordo Ortográfico (AO90) e de que já aqui se falou mais do que uma vez (declaração de interesses: sou um dos subscritores). As raízes de tal iniciativa remontam a 2008 e centram-se no segundo protocolo modificativo do dito: “[o AO90] entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa.” Isto, que muitos políticos acharam natural, foi um golpe inadmissível. Um acordo que envolve oito países (depois de se lhes juntar Timor-Leste) não podia entrar em vigor só com o “sim” de três; ou melhor, só poderia se todos os oito tivessem ratificado essa alteração de fundo. Só que, de facto, quatro nem sequer ratificaram o acordo, quanto mais os dois protocolos modificativos; e os restantes fizeram-no com métodos e em datas bastante duvidosas, como também oportunamente aqui se demonstrou em Agosto e em Dezembro de 2019. Mas a verdade é que a Assembleia da República aprovou, pela Resolução n.º 35/2008, de 29 de Julho, esse inominável segundo protocolo. Objectivo da ILC-AO? Que a AR o revogasse.

Nestes muitos anos, e enfrentando mudanças de leis e regras, a ILC fez o seu caminho. Foi recolhendo assinaturas, entregou-as em Abril de 2019 (21.206 validadas, feitos os acertos) e foi transformada oficialmente em projecto de lei, com o número 1195/XIII. Datada de 30 de Outubro de 2019, a Nota de Admissibilidade concluía: “A apresentação desta iniciativa cumpre os requisitos formais de admissibilidade previstos na Constituição, no Regimento da Assembleia da República e na Lei sobre a Iniciativa Legislativa dos Cidadãos.” Tudo certo?

Sim e não. Porque depois o assunto emperrou. Em 6 de Novembro, baixou à Comissão de Cultura e foi como se tivesse baixado à terra, na acepção funerária do termo. Debateu-se, contrariou-se, pediram-se pareceres e… ignorou-se a Lei das ILC, a n.º 17/2003, que diz expressamente que o respectivo relatório e parecer devem ser elaborados no prazo de 30 dias e, esgotado tal prazo, a ILC deve ser agendada “para uma das 10 reuniões plenárias seguintes”. Ora o relatório/parecer só foi enviado ao Presidente da AR em 29 de Junho de 2020, com muitos 30 dias já gastos e só em 16 de Setembro de 2020 é que foi discutida em Conferência de Líderes, órgão ao qual cabe decidir a agenda do Plenário. E o que sugeriram os líderes em conferência? Que a ILC fosse transformada em petição. Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse a resolução da própria AR!
(mais…)