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Portsoc

Pretendia-se que quando a Novilíngua fosse adoptada de uma vez por todas e a Velhalíngua esquecida, um pensamento herético  fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende das palavras. [George Orwell, “1984”]


Como anteriormente aqui disse, e repito, e que me perdoe pelo calão algum mais comichoso dos três leitores deste manual de diatribes contra o AO90 (e outros detritos), estou-me altamente nas tintas para a cagança dos idiotas profissionais que abusam da Língua Inglesa. Por regra e definição, essa pandilha é constituída por tecnocratas que pouco ou nada sabem dizer (e muito menos escrever) em Inglês (e muito menos em Português), além de jargão técnico, tipinhos com uma pronúncia desgraçada (sotaque das Amoreiras, digamos), yuppies do século XXI cuja “pinta” de lorpas se topa a léguas. Enfim, que se danem os inguelishes e que se inglixe a jactância.

Esse estranhíssimo fenómeno (tipos que tentam impressionar a pategada com “buéda” tecnicismos no original) poderia interessar alguma coisinha caso tivesse a ver com assuntos sérios em geral, como a Ortografia, a Gramática portuguesa, a História de Portugal, o nosso património cultural, a independência nacional ou a soberania que estrangeiros nos sonegaram; ou seja, com o “acordo ortográfico”.

O AO90 contém igualmente algo de soluços de vaidosos e muito de tiques de autoritaristas, além de outro tanto de radical imbecilidade, porém é caso único, uma hecatombe que ameaça não deixar pedra sobre pedra dos nossos castelos no ar e apagar para todo o sempre o mais ínfimo vestígio de tudo o que prezamos, valorizamos e, em suma, somos; aquele horrendo crime de lesa-inteligência pretende derrubar todos os que, durante novecentos anos, construíram o que a última geração de estrangeirados ameaça abrasileirar.

No processo de aniquilação em curso, pretendem eles substituir a Língua portuguesa pelo brasileiro utilizando a táctica da novilíngua, isto é, a invenção literal de uma nova língua para eliminar a existente; isto não implica apenas chamar os bois por outros nomes, trata-se de reescrever a História e de “reformar” o próprio pensamento: conceitos, idiossincrasias, ideias simples ou raciocínios complexos, anseios individuais ou colectivos, devaneios ou desejos e mesmo os erros, as falhas, as faltas, os equívocos, as coisas hilariantes e as tristes, até a língua em que sonhamos; tudo, rigorosamente tudo será alterado, adulterado, “corrigido” segundo os sacros mandamentos dos oficiais do Partido, os donos da língua e, portanto, da vontade dos proletas — cujas funções consistirão exclusivamente em gerar outros escravos do Grande “país-Irmão”.

Proibir a língua “velha” (a velhice é já um demónio ao serviço da Nova Igreja) faz parte, obviamente, deste hediondo plano de terraplanagem linguística e cultural através da massificação da catatonia e contando já com o geral estado comatoso que caracteriza a indígena chusma de “pensadores”. As patranhas colossais, as mentiras descabeladas propaladas por alguns traidores e vendidos portugueses, contando com a nacional apatia (uma patologia ancestral), tentam impingir a todo um povo de descendentes de colonizadores a cacografia e, em última análise, a língua dos ex-colonizados. Caso único no mundo, evidentemente, “fundamentado” nesta coisa extraordinária: eles são 210 milhões e nós somos 10 milhões. Ou seja, a língua é só uma questão de contar cabeças; mesmo que os novos colonos provenham de um país a 7.500 km de distância, com o oceano Atlântico de permeio, mesmo que o Brasil seja uma ex-colónia portuguesa independente desde 1822 (e Portugal desde 1143), mesmo que do lado “dji” lá a pronúncia (não confundir com “sotaque”) seja para nós alienígena, a sintaxe abstrusa e a cacografia completamente anárquica, pois ainda assim uma mão-cheia de alucinados — isto é, de gulosos vigaristas — insiste na “adoção” por Portugal do brasileiro como Língua nacional, extinguindo em simultâneo o Português.

George Orwell era um inglês que escrevia, evidentemente, em Língua Inglesa. A sua obra mais genial é, sem dúvida, Nineteen Eighty-Four (1984). Isto sim, é Inglês que se pode (e deve) citar até à exaustão.

Nem sempre utilizar expressões inglesas serve só para impressionar (pategos). Há coisas que fazem parte da Língua em que foram criadas mas que acabam por se tornar património do universo inteiro.

Como a austera, apagada e vil tristeza de Camões, Hamlet (Shakespeare) reflectindo sobre to be or not to be ou, pela inversa, contrariando a sentença lapidar de “1984”,

Victory is possible

Os malefícios de um provincianismo mental acrítico e fascinado pelo novo

Nem a TLEBS, com as suas fastidiosas e aberrantes descrições, nem o AO 90, com os “seus erros, imprecisões e incoerências”, propiciam uma reflexão sobre a Língua.

Maria do Carmo Vieira
“Público”, 11 de Junho de 2021

 

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Fernando Pessoa

 

Regresso a um tema que me é caro e sobre o qual me tenho repetido porquanto, a meu ver, permanece o absurdo que o caracteriza, bem como a doença de que padece e à qual se refere a epígrafe escolhida. Refiro-me à Reforma curricular de 2003, cujo espírito e metodologias se mantêm porquanto “o princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro”, o que ainda não aconteceu.

Não posso deixar de confessar que o presente texto nasceu do livro do Professor Jorge Calado (IST),Limites da Ciência (2.ª edição, 2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “redigido com o Acordo Ortográfico de 1945”, conforme se lê em nota. Será imprescindível transcrever as palavras do autor, a propósito de “A Língua e a linguagem”, para evidenciar a relação com a Reforma de 2003 acima referida e entusiasticamente anunciada. Eis a transcrição, longa, mas imperiosa: “Alguns cientistas, isolados nas suas torres de marfim, pensam que, se ninguém os entende, fazem figura de seres supremamente inteligentes. A verdade é que a construção de uma linguagem hermética, entendida por poucos e benéfica para nenhum, não passa, muitas vezes, de mais um sintoma de impreparação. A nudez da ignorância disfarçada com o manto espesso do artifício. […] A snobeira do falar difícil e pseudocientífico encontrou terreno fértil nas humanidades. […] que dizer da relativamente recente (2004) substituição da velha Nomenclatura Gramatical Portuguesa dos artigos, substantivos, adjectivos, verbos, pronomes, advérbios, preposições, etc., pela pretensiosamente científica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), entretanto suspensa? Uma salgalhada de variáveis, determinantes, auxiliares aspectuais e modais e preciosidades como ‘Um Nome tem um funcionamento não contável quando necessita de um suporte (discretizador ou enumerador) que o discretize ou enumere.’ Ciência, isto?”

Haverá que esclarecer o Professor Jorge Calado que a TLEBS não foi suspensa, apenas “corrigida” (imagine-se o desconforto do vocábulo para os “cientistas” que a trabalharam) continuando activa nos seus “disparates”, em programas e exames de Português. Na tentativa de apagar a polémica e o desastre intelectual que representou, a TLEBS transfigurou-se em Dicionário Terminológico, sendo seu obstinado mentor o Professor João Costa, de há longa data Secretário de Estado da Educação, e obviamente um fervoroso impulsionador da Reforma de 2003 da qual se salienta, no que à disciplina de Português diz respeito, a apologia de textos funcionais, o menosprezo pela Literatura, mormente pela Poesia, o amaldiçoamento de aulas expositivas, bem como do uso da memória e a pseudo-novidade da “Reflexão sobre a Língua” que a TLEBS proporcionaria, segundo “explicaram”, em acções de formação. E acções de formação porquê? Pela constatação da impossibilidade de os professores compreenderem as “inovadoras” descrições terminológicas. Eu própria assisti apenas a uma sessão, não estando inscrita, e foi o suficiente. Perante uma dúvida, a formadora repetiu vezes sem conta a mesma explicação, com o mesmo vocabulário, aberrante e impenetrável, apontando no final, e ostensivamente, a minha “impreparação”.
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10 de Junho, Dia da Língua Portuguesa

Comemora-se hoje, 10 de Junho, o Dia de Portugal, da Língua Portuguesa, de Camões e da diáspora.

Esta é uma data a celebrar, efectivamente, e que nada tem a ver, pelo que em caso algum deve dar azo a quaisquer confusões, por lapso ou contaminação propagandística, com o dia da língua brasileira, a 5 de Maio; esta outra data, totalmente alheia a Portugal, aos portugueses e à sua Língua, consiste numa série de eventos artificiais patrocinados por brasileiros, pelo político profissional António Guterres, por uma organização brasileira (paga pelo erário público português) a que resolveram os implicados chamar “CPLP” e por uma pequena seita de fanáticos brasileirófilos misturados com alguns sôfregos capitalistas e um grupinho de rapazolas para ir apanhar as canas e servir umas caipirinhas.

Por exemplo (se bem que nestes casos exista um dever de observar alguma espécie de gravitas e de dignitas,  dado o estatuto de algumas das pessoas em causa), Cavaco, Malaca, Sócrates, Bechara, Lula, Reis, Santana e Canavilhas contribuiram — cada qual a seu modo e na medida das suas possibilidades políticas e das respectivas “influências” — não apenas para esgalhar o AO90, essa arma de destruição maciça da Língua Portuguesa, como também para inventar a festarola sambística do “5 de Maio“. Esta invenção ocorreu primeiramente em 2018 (caramba!, há três anos, mas que coisa antiga, vetusta, cheia de tradição e verdete) e no ano seguinte, 2019, a UNESCO, sabe-se lá por que bulas e a troco de quê, resolveu puxar o lustro àquela bota “proclamando” essa mesma data como “Dia Mundial” da língua brasileira.

Coisa estranha, esta suspeitíssima manobra diplomática junto da UNESCO, visto que parece ser esse “Dia Mundial” da língua brasileira, precisamente, um caso muito raro ou único. Existe naquele organismo supranacional o “Dia Internacional da Língua Materna”, o que consubstancia um conceito radicalmente diferente, por genérico e abrangente, mas qualquer pesquisa (interna ou via Google) por “Dia da Língua” (ou por “language day”) devolve apenas um resultado, no que respeita a línguas de países historicamente colonizadores: além do tal “5 de Maio”, o “Day” da “bambochata” do “pôrrtugueiss universáu”, não existe qualquer “Day” para qualquer outra Língua nacional. À excepção, evidentemente, dos dias dedicados às línguas de trabalho oficiais admitidas na ONU: Arabic (18 December), Chinese (20 April)English (23 April), French (20 March), Russian (6 June) e Spanish (23 April). Estes seis casos justificam-se por aquilo que representam (línguas de trabalho da ONU), mas o dia da língua brasileira é o único a fintar essa lógica formal.

Dever-se-á talvez rever a definição do verbo “tresandar”. Isto já não é uma história (muito) mal contada. Se a UNESCO e o próprio secretário-geral da ONU estão atolados em tão viscoso entroncamento de lamaçais, então estaremos não apenas perante uma das maiores burlas diplomáticas de sempre como vamos assistindo — muitos, com passividade ou indiferença — a um filme de encenação deprimente, péssimo guião, actores horríveis. Demasiado mau para ser verdade, de facto.

É hoje o único, o verdadeiro Dia da Língua Portuguesa. Eis uma certeza absoluta, séria e fiável.

Deixemos as alucinações para os imperialistas e os xenófobos, as mentiras para os desequilibrados e mitómanos, a verborreia para aqueles “intelectuais” em cuja cabeça apenas existe um preço escrito na testa.

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A arte de transformar uma ILC-AO numa ILCalem-se

Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse uma resolução da própria AR!

Nuno Pacheco
“Público”, 10 de Junho de 2021

Não há inspiração camoniana (“Cale-se de Alexandre e de Trajano…”) no título deste texto, apesar de hoje, 10 de Junho, se celebrar Camões, a par de Portugal e das Comunidades. Não, o motivo é outro e nada tem de metafórico; pelo contrário, é literal. Expliquemo-nos: há um “cantinho” reservado aos cidadãos na Assembleia da República (AR); não para se sentarem, para isso há as galerias, mas para intervirem na actividade parlamentar. É um espaço virtual onde podem ser apresentadas três tipos de iniciativas: legislativas, petições e referendos. E ali se acolhe o que a lei e as regras (há um manual do utilizador, com 23 páginas) permitem. Dia 7, por exemplo, estavam lá três iniciativas legislativas de cidadãos (ILC, com 3393, 3101 e 543 assinaturas, respectivamente) e 36 petições. A mais “pesada”, de Abril, tinha 192.129 assinaturas (para afastar o juiz Ivo Rosa), a segunda 10.625 e a última apenas 3.

Mas, antes delas, uma outra ILC foi fazendo um longo e duro caminho até estar composta, aceite e pronta à votação. Se não tivesse esbarrado, antes, num muro. Falamos da ILC-AO, respeitante ao Acordo Ortográfico (AO90) e de que já aqui se falou mais do que uma vez (declaração de interesses: sou um dos subscritores). As raízes de tal iniciativa remontam a 2008 e centram-se no segundo protocolo modificativo do dito: “[o AO90] entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa.” Isto, que muitos políticos acharam natural, foi um golpe inadmissível. Um acordo que envolve oito países (depois de se lhes juntar Timor-Leste) não podia entrar em vigor só com o “sim” de três; ou melhor, só poderia se todos os oito tivessem ratificado essa alteração de fundo. Só que, de facto, quatro nem sequer ratificaram o acordo, quanto mais os dois protocolos modificativos; e os restantes fizeram-no com métodos e em datas bastante duvidosas, como também oportunamente aqui se demonstrou em Agosto e em Dezembro de 2019. Mas a verdade é que a Assembleia da República aprovou, pela Resolução n.º 35/2008, de 29 de Julho, esse inominável segundo protocolo. Objectivo da ILC-AO? Que a AR o revogasse.

Nestes muitos anos, e enfrentando mudanças de leis e regras, a ILC fez o seu caminho. Foi recolhendo assinaturas, entregou-as em Abril de 2019 (21.206 validadas, feitos os acertos) e foi transformada oficialmente em projecto de lei, com o número 1195/XIII. Datada de 30 de Outubro de 2019, a Nota de Admissibilidade concluía: “A apresentação desta iniciativa cumpre os requisitos formais de admissibilidade previstos na Constituição, no Regimento da Assembleia da República e na Lei sobre a Iniciativa Legislativa dos Cidadãos.” Tudo certo?

Sim e não. Porque depois o assunto emperrou. Em 6 de Novembro, baixou à Comissão de Cultura e foi como se tivesse baixado à terra, na acepção funerária do termo. Debateu-se, contrariou-se, pediram-se pareceres e… ignorou-se a Lei das ILC, a n.º 17/2003, que diz expressamente que o respectivo relatório e parecer devem ser elaborados no prazo de 30 dias e, esgotado tal prazo, a ILC deve ser agendada “para uma das 10 reuniões plenárias seguintes”. Ora o relatório/parecer só foi enviado ao Presidente da AR em 29 de Junho de 2020, com muitos 30 dias já gastos e só em 16 de Setembro de 2020 é que foi discutida em Conferência de Líderes, órgão ao qual cabe decidir a agenda do Plenário. E o que sugeriram os líderes em conferência? Que a ILC fosse transformada em petição. Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse a resolução da própria AR!
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European Portuguese

É inevitável, dizem eles: mais tarde ou mais cedo, a língua do Brasil será o padrão do “portugueiss”, a “língua universáu” e única, pela simples razão de que o Brasil tem “mais de 200 milhões” e Portugal apenas 10 milhões de indígenas; e é “pobre”, oh, raio de paíseco, desprezível chafarica, ainda por cima cheio de fulanos maçadores, tem portanto apenas o que merece, ou seja, será perfeitamente justo que o monstro brasileiro engula a “terrinha” e que, por conseguinte, a língua brasileira seja entronizada como língua nacional neste já retalhado quintal à beira-mar arroteado; quanto a nós, os ditos indígenas, “ignorantes” e “sem História”, devemos engolir (com gosto?) a afronta, há que ficar caladinho e agradecer aos neo-colonos a maçada de ocupar esta “porcaria” atrasadinha, miserável, paupérrima, começando por “adotar” a cacografia da “linda língua” em que se “canta” o samba e se cultiva o barulho com denodo e dedicação à “causa” dos trajes “tipo” fio dental.

Bem entendido, este texto do “The Portugal News” — um dos jornais publicados em Portugal para os residentes (e turistas) de língua inglesa, por acaso muito recomendável para qualquer português que se preze — não passa de um singelo exemplo, se bem que em vários aspectos, tanto de conteúdo no artigo propriamente dito como (ou principalmente) nos comentários que o acompanham (e enxovalham, por arrastamento, na enxurrada de insultos anti-portugueses de alguns trogloditas brasileiros); estes “comentários”, apesar da corajosa resistência de ingleses, são aqui apresentados a título meramente ilustrativo; muitas centenas de outros “mimos” endereçados por zucas aos seus primos tugas podem ser encontrados, por exemplo, no YouTube ou em comentários no Fakebook e no Twitter. São uns compinchas, os brasileiros, adoram-nos.

Esta matéria em concreto, em especial as eructações redigidas a propósito de Desculpem Brasileiros -We want European Portuguese!”, é algo carecendo de pinças para lhe pegar, devido à tendência para o vómito que da sua leitura resulta, já estava por aqui há mais de um ano, ficou a marinar, por assim dizer, mas pronto, é agora, noblesse oblige.

Entre outros aspectos, não desfazendo nas demais manifestações ultra-nacionalistas

ou xenófobas e os sumamente imbecis “gritos do Ipiranga” ao contrário, o factor comum à “opinião” dos brasileiros é a sua estranha obsessão pelo micro-manifesto, isto é, pelas frases soltas curtas (pejadas de erros, apesar da brevidade) endeusando o Brasil e diabolizando simultaneamente Portugal; julgam os zucas cumprir o seu desiderato histórico, uma espécie de II Império, mas agora em versão festiva, com tambores e carros alegóricos; numa espécie de bizarro silogismo, acrescentam, se eles são os maiores,  então a sua língua é proporcionalmente avassaladora, portanto o tuga — esse “xenófobo” que resiste à pax brasiliensis — que fale e escreva em brasileiro (para isso foi feito o AO90) e que se cale, meta a viola no saco (não sei dizer isto em brasileiro) e até agradeça à santinha do Corcovado pela benesse. Quando não, os xenófobos brasileiros, os maníacos anti-portugueses das cavernas paulistas ou cariocas atiram imediatamente com aquele epíteto que tanto agrada aos brasileirófilos tugas: os xenófobos somos nós, não eles; eles limitam-se a insultar tudo o que mexe em Portugal mas esse camartelo é para nosso “bem”, nós é que somos uma cambada de mal-agradecidos.

Se (ou quando) Portugal tomar a iniciativa de se tornar no 28.º Estado brasileiro (e os diamantes de Angola o 29.º e o gás de Moçambique o 30.º), então por fim tudo reentrará nos eixos, ali está o Paraíso, mesmo ao virar da esquina do tempo, a memória por fim extinta pela estupidez supremacista, esmagada pelo peso dos milhões.


Portuguese and brasilian Portuguese.
They are two separate languages, make no mistake about that.
So I agree that portuguese should be distinguished from Brazilian portuguese.
By Anabela from Lisbon on 06-03-2020 07:27

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Amei este Blog – I live in Brasil and my wife is Portuguesa and we plan on going to Portugal in two years -so I speak Portugues Brasileirobut also understand European Portugues Loved this Blog – !! Nota 10 !! By the way I as born in New Zealand
By Stephen Thomas from Other on 14-05-2020 03:00

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Portugal is the mother of the Portuguese language. Moreover, Brazil cannot compare to Portugal in living standard, wages, health care and so on. Brazil is a basket case like most other South American countries. And yes, I find it very difficult to understand Brazilians.
By John from Other on 10-03-2020 07:15

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Thanks for the article, but it should be marked as a sponsored piece or as advertising, not as news. As a US-born world citizen who has lived and worked in many countries, like my UK born husband, who lived and worked for many years in Southern Africa, our priority in coming to live permanently in Portugal was to learn the language, customs and values of our neighbours. We are the exceptions. Most of our friends are Portuguese and few speak any English. The other native English speakers we know also try hard to assimilate. We welcome information about any and all language techniques and take regular classes in Portuguese. Our goal is to become Portuguese citizens, because we love this place and its people, who welcomed us and help us every day. Obrigadinha maravilhoso Portugal.
By Jude Irwin from Beiras on 08-03-2020 09:26

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I’m a Brazilian journalist, and have always wondered why Portuguese-language countries ever signed the Ortographic Agreement back circa 2009 or sooner,  once all other Portuguese-language countries would keep on using their very particular words  like “puto” for boy, which is a very offensive term down here in Brazil. Just like Britons say lorry for truck. Just like they write s instead of z, colour instead of color, and so on. People in Portugal still write many words with a double c, as in acção, inspite of said “Agreement”. Scads of dictionaries were sold, for nothing, after all. Anyways, I can perfectly understand European Portuguese, just like an American would understand BE.The differences are just some words and the accent, in both cases.
By Luiz Leitão da Cunha from Other on 08-03-2020 12:08

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Interesting concepts, the truth is there’s is only one official Portuguese, as it was made standard a few years back, and the Brasilian Portuguese is deemed to be the official one, so eventually the younger generations growing in Portugal today, will be learning Brasilian Portuguese.
As for the brasilians making adjustments on how to speak when in Europe, it’s simple, depends where you’re from in Brasil, they will sound at lot like the Portuguese people.
And let’s be real, the Portuguese themselves cannot understand each other, from one region to another.
By Paulo Medeiros from Other on 07-03-2020 10:33

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Brazilian Portuguese is more evoluted and rich.The pronouce is easier and also Brazil is now one of the most counyry in the world.
By Antonio Heitor Santoro from USA on 07-03-2020 02:40

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On Brazil we are more then 200 millions so sorry Portugal the Portuguese is Brazilian already we even google accept that !
By Tomas Turbano from Other on 07-03-2020 10:57

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All these stupid comments give the sense of a certain “inferiority complex”. See, Portugal is an underdeveloped nation in Europe, economically, financially speaking. People are rude and that is reflected on the way they deal with the prevalence of Brazilian Portuguese. 210 millions people speaking an accent will prevail over the other 10 million folks, mostly when the latter are poorer. There’s no way around.Gotta accept it and deal with it with lots of resilience…
By G.O.A.T. from USA on 07-03-2020 10:50

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Primeiramente, a TV globo não representa o BRASIL, pois trata-se de uma concessão estadunidense que faz política e cultura em verde-amarelo.
Sou professor , e agora há pouco comentava com uma professora de língua portuguesa na escola em que trabalho sobre o idioma português que é falado no Brasil. Bem, assim como o idioma francês , o espanhol , o italiano e a língua lusa derivaram do Lácio romano, e, por consequência da evolução e transformações lingüísticas, se transformaram em expressões idiomáticas genuínas , acredito que o idioma português se transformará no Brasil em uma língua única, sob todos os pontos de vista e escrita. Somos diferentes, mui diferentes, patrícios. O mundo mudou , somos nações, hoje, que falam línguas diferentes, apesar da origem romano. Saúde à lusa Portugal !
By Francis Campos – Amazônia- Pará- Brasil from Other on 07-03-2020 02:15

“Desculpem Brasileiros -We want European Portuguese!”

By Advertiser, In Business · 06 Mar 2020, 01:00 · 54 Comments

Whether you’ve just arrived to Portugal or have already been here for decades, as a non-native, you’re sure to run into daily challenges with understanding the language when it’s spoken in real-life situations.

That’s why PracticePortuguese.com was created back in 2013, and quickly became the most popular method for learning European Portuguese online.

Combining Canadian native Joel Rendall’s practical estrangeiro perspective with Rui Coimbra’s passion for helping foreigners overcome plateaus as they learn his native language, these young co-founders have struck a balance between making online learning effective, while keeping it humourous, relatable and engaging.

Their online platform helps learners master the practical elements of European Portuguese, while improving comprehension skills using short, addictive bursts of practice, with their 1-2 minute “Shorties”; or their new video clips feature, featuring Portuguese natives of all ages speaking thousands of useful phrases.

“We know that there’s no one-size fits all approach to language learning”, explains Portuguese co-founder Rui Coimbra. “Everyone has different reasons for learning the language, different interests, and learning styles. That’s why we provide a wide variety of material for all of our members, and we strive to keep things simple and approachable.
We empower the adult learner by letting them go at their own pace, on their own schedule, all while choosing their own unique path. For example, if you’re buying a Portuguese property, then your language learning needs will be very different from someone who is vacationing for a week. That’s reflected in the flexibility of our platform.”

Based in Lisbon while serving the globe, Practice Portuguese is currently offering 15 percent off their monthly and annual subscriptions, at practiceportuguese.com/PortugalMag

The Portugal News

«Desculpem, brasileiros. Nós queremos Português europeu!»

Por Dep. Marketing, em “Business” · 06 Mar 2020, 01:00 · 54 Comentários

«Quer tenha acabado de chegar a Portugal, quer já cá esteja há décadas, não sendo aqui nascido, pode ter a certeza de que irá lidar com segurança nas mais diversas situações do quotidiano, compreendendo a Língua tal como ela é usada.»

«Foi por isso mesmo que PracticePortuguese.com foi criado, em 2013, tornando-se rapidamente no método mais procurado para aprender Português europeu online.

Combinando a perspectiva de um estrangeiro como é Joel Rendall, nascido e criado no Canadá, com a paixão de Rui Coimbra por ajudar estrangeiros a ultrapassar etapas na aprendizagem da Língua Portuguesa, estes co-fundadores estabeleceram um padrão de eficácia numa aprendizagem online objectiva, relacionada e envolvente.

A plataforma que montaram ajuda os explicandos a dominar os elementos práticos do Português europeu, desenvolvendo em simultâneo a compreensão através de exercícios curtos, quase viciantes, com os seus “Shorties” de 1 a 2 minutos ou através dos seus novos vídeos em que nativos de Português, de todas as idades, utilizam milhares de exemplos de frases mais significativas.

“Sabemos que não existe uma abordagem padronizada na aprendizagem de línguas”, explica o co-fundador Rui Coimbra.

“Cada pessoa tem os seus próprios motivos para aprender a Língua, tem interesses diferentes e diversos tipos de  aprendizagem. Por isso mesmo oferecemos a todos os nossos membros uma gama variada de matérias e esforçamo-nos para transmitir conhecimentos de forma simples e atractiva.”

“A formação de adultos acompanha o ritmo de cada qual, pelo que incentivamos cada um deles a seguir uma calendarização individual e a cada passo decidir que via e métodos mais lhe convêm. Por exemplo, se pretende comprar uma propriedade em Portugal, então os requisitos na sua aprendizagem da Língua serão muito diferentes dos de alguém que está a gozar uma semana de férias. Estes exemplos ilustram a flexibilidade da nossa plataforma.”

Com sede em Lisboa mas acessível a partir de qualquer ponto do Globo, a plataforma ‘Practice Portuguese’ está presentemente a oferecer um desconto de 15% nas subscrições mensais ou anuais. Ver em practiceportuguese.com/PortugalMag»

[Tradução de original em Inglês publicado em The Portugal News. Imagem de topo: página de Beethoven no Facebook.]

A Carta

«Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.» [Paulo Franchetti]

Aqui vai mais um texto de cariz independentista e, por conseguinte, identitário, na sequência da mais recente (e justa) ofensiva anti-acordista que tanto em Portugal como no Brasil vão definindo — sem tergiversações, sem  mentiras e sem sequer “considerandos”, por regra manhosos — a única saída possível para o AO90: essa manobra política não serve para nada, a “língua universal” é um absurdo impraticável, portanto anule-se o “acordo” e que a língua do Brasil siga por si mesma, separando-se finalmente da matriz portuguesa. Ou, para utilizar a expressão de Paulo Franchetti, mais um dos autores brasileiros*** a constatar a definição da expressão portuguesa “óbvio ululante”, “não é a mesma língua!”.

À semelhança do anterior, este outro artigo de outro autor brasileiro, foi também ele publicado num jornal do lado de lá. Lado de lá esse que, no caso vertente, isto é, a luta pela independência da língua brasileira, em nada difere do lado de cá: quanto a isso, sim, as pessoas do lado de lá, do Brasil, estão em perfeita sintonia com as do lado de cá, de Portugal. Finalmente, em suma, estamos uns e outros de acordo quanto a todos os assuntos relacionados com a Língua de cada qual, afinal era (é) facílima — e mais do que evidente — a solução: agora que já não é criança nenhuma, cresceu, desenvolveu-se durante dois séculos, a natureza das coisas segue apenas as coisas da Natureza, a língua do Brasil seguirá o seu próprio caminho, basta que corte de uma vez por todas o cordão umbilical que à força alguns — de lá e de cá — tentaram remendar.

Remendar um cordão umbilical é tão absurdo como banir uma recordação, como rasgar uma carta, como emendar o passado. E emendar o passado é tão impossível como reescrever a História.

(Des)Acordo Ortográfico

Nelson Valente

www.diariodaregiao.com.br, 27.05.21

 

Quantas vezes na vida você já perguntou: Como se escreve tal palavra mesmo? É com z ou com s? Tem acento? (assim mesmo sem circunflexo, pois o chapeuzinho só vai na cabeça antes de plural), tem hífen? Essas dúvidas sempre existiram e vão continuar existindo, só que o novo acordo ortográfico, que de novo não tem nada, pois começou a ser elaborado há 29 anos, mas só entrou completamente em vigor em 2016, ao invés de ajudar, parece ter atrapalhado ainda mais a escrita.

Quer um bom exemplo? Quando uma criança está fazendo a lição de casa e tem uma dúvida, pergunta para quem? Os pais, é claro. Só que a grande maioria desses pais foi educada na transição do acordo ortográfico, portanto cresceram com as mesmas dúvidas. Aí a solução é dar um “google” e eis que a quantidade de explicações é tão extensa, muitas citando outras regras gramaticais, que geralmente a dúvida não é esclarecida e ainda aumenta.

Claro que em educação nada acontece em curto espaço de tempo, mas a demora e o sentimento de que o Acordo Ortográfico dos países de Língua Portuguesa se tornou uma nau sem rumo está criando gerações com grave déficit de escrita. Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, infelizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB. As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério. É fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. Já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil.

Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 218 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir. O Brasil não tem tradicionalmente uma política linguística. A difusão do português brasileiro no exterior ocorre quase por inércia, mais pela importância que o Brasil vem assumindo geograficamente, geopoliticamente e economicamente. Portugal, ao contrário, tem uma política linguística, tem o Instituto Camões, com mais de mil professores espalhados pelo mundo todo, enquanto o Brasil tem 40 leitorados. Cria-se aí, já, uma diferença.

Nós que tínhamos de ter uma política linguística mais agressiva, mas temos uma posição de colonizados, de que, se Portugal já está lá, não precisamos ir. Precisamos, sim. Nós somos 90% de quem fala português no mundo e somos a 7ª economia mundial. Portugal, ao contrário, está no fundo do poço, com essa crise horrível que acontece por lá. Nós que temos de investir e brigar pelo nosso espaço, porque as pessoas de fato querem aproveitar as oportunidades que nós oferecemos.

Não dá para impor uma língua de uma hora para outra a um povo. O padrão da língua no Brasil deve ser a língua falada pela maioria da população brasileira contemporânea, que é o português brasileiro. O que ocorre com o dito Novo Acordo Ortográfico é que na verdade Portugal “colonizador” quer colonizar a língua portuguesa. O que ocorre é um conflito entre português de Portugal e português brasileiro nas escolas. Pois quando um aluno diz que não sabe português, na verdade, está dizendo que não sabe as normas da gramática do português ensinado na escola.

A implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! E a consequência é o caos linguístico que se está verificando nas escolas, na comunicação social, falada/escrita/ouvida e lida. Para que não ocorra um desacordo na nossa língua, quem sabe daqui a alguns anos apaguemos o “português” e fique só o “brasileiro”.

Nelson Valente
Professor universitário; jornalista; escritor

[Transcrição integral de artigo, com o título “(Des)Acordo Ortográfico”, da autoria de Nelson Valente, publicado no jornal brasileirowww.diariodaregiao.com.br em 27.05.21. Destaques e sublinhados meus. Inseri “links” e imagens. Imagem de topo(no artigo): por Pedro Américo – Martins, Lincoln. Pedro Américo: pintor universal. Brasília, Federal District: Fundação Banco do Brasil, 1994 ISBN 85-900092-1-1, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20218656. Imagem de topo de: VortexMag (Brasil).]
[Nota: quando os autores são brasileiros é aqui conservada (evidentemente) a ortografia dos originais.]
[*** Outro nome incontornável, de entre os oposicionistas-independentistas brasileiros, é também o do professor, doutor em filologia, linguista e escritor Marcos Bagno.]

Conversa fiada

Coerência, numa palavra. Também em 1955 o Brasil rescindiu unilateralmente o acordo ortográfico que havia  negociado com Portugal e tinha subscrito dez anos antes, em Agosto de 1945. Honra seja feita aos brasileiros que, alegre e felizmente, romperam há 76 anos e se preparam para repetir agora esse valoroso feito quanto ao estropício de 1990.

É, de facto, para todos os portugueses decentes, motivo de grande regozijo que aquele “país-Continente”, decerto enojado com a miserável bajulação (puxa-saquismo, em brasileiro) de alguns vendidos portugueses, tencione marimbar-se radical e positivamente para o AO90. Pois bem, merecem uma saudação calorosa os “caras”, incluindo os do Itamarati, mesmo que para estes, tanto os da comandita de Lula como os da de Bolsonaro, a coisa seja bem mais difícil: ao fim e ao cabo, para uns e para outros o fim do AO90 será algo equivalente a largar a galinha dos ovos de oiro; lá se vão imensos negócios da China (e de Angola).

Em conclusão: é de saudar entusiasticamente o activismo anti-AO90 de que tem dado bastas provas o escritor, jornalista e critico literário brasileiro Sérgio Rodrigues, na mesma linha de outros autores, políticos, artistas — todos eles igualmente brasileiros, bem entendido — como, por exemplo, o professor Sérgio de Carvalho Pachá, o assessor da Presidência Filipe Martins, Sidney Silveira ou o deputado federal Dr. Jaziel.

Também do lado de lá do Atlântico, como se vê, há quem tenha no sítio o que é preciso, pessoas de coragem, convicções, saber e inteligência mais do que suficientes para denunciar a fraude intelectual inventada há mais de 30 anos, ou seja, o desacordo que nunca serviu fosse para o que fosse… a não ser para baralhar e tornar a dar um “problema” que jamais existiu e para criar conflitos anteriormente inexistentes entre Portugal e o Brasil.

Sérgio Rodrigues Português ou brasileiro? “A ilusão de um idioma único não passa de conversa fiada”

“Diário de Notícias”, Quinta-feira 27/5/2021
Entrevista de João Almeida Moreira – São Paulo (Brasil)
dnot@dn.pt

 

BRASIL Sérgio Rodrigues, escritor brasileiro, aderiu à tese da autonomia do português do Brasil, com base em “argumentos linguísticos fartos” e numa “fenda gramatical que vem se alargando”.

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O escritor e jornalista brasileiro Sérgio Rodrigues, 59 anos, publicou uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, no dia 12 de Maio, a declarar adesão às teses de autonomia do “português brasileiro”. Em entrevista por ‘e-mail’ ao DN, o vencedor do Grande Prémio Portugal Telecom de literatura, de 2014, com O Drible (Companhia das Letras), explica que “argumentos linguísticos fartos e maduros de muitos anos”, assim como a crescente “fenda gramatical” entre o que se escreve e, sobretudo, o que se fala em cada um dos países sustentam a tese.

Para o autor de Elza, a Garota (Quetzal), What Língua Is Esta? (Gradiva), além de Viva a Língua Brasileira e de mais um punhado de obras, quando se deixa “um país do tamanho e da complexidade do Brasil solto por 500 anos, e não se esforça com muito afinco para construir pontes, universidades, editoras, instâncias variadas de controlo, o resultado não poderia ser outro. Os espanhóis fizeram esse esforço, os portugueses não”.

Em coluna do Jornal Folha de S. Paulo, sob o título “Lusofonia, Adeus!”, diz que “o acordo ortográfico [AO] jogou gasolina na fogueira do antibrasileirismo em Portugal” e aproxima-se das teses dos autonomistas do português brasileiro. Quais os pecados do AO, na sua visão, e o que sustenta as teses autonomistas?

Não acho que precise de esmiuçar os defeitos do AO para o público português, que tem sido submetido a uma rica dieta de críticas a ele nos últimos anos, tanto na imprensa quanto em livros. Basta dizer que o AO, a meu ver, carrega um pecado original, o de supor que seria uma boa ideia unificar a ortografia de duas línguas que, embora muito parecidas, já são suficientemente diferentes para precisarem seguir seus próprios caminhos. O que sustenta a tese da autonomia do português brasileiro são argumentos linguísticos fartos e maduros de muitos anos, presentes nos trabalhos de um linguista brasileiro como Marcos Bagno e de um linguista português como Fernando Venâncio, entre outros. A fenda gramatical entre nós vem-se alargando, isso é um facto. Claro que um facto menos óbvio na linguagem escrita, escolarizada, e mais nítido quando consideramos a oralidade e a língua falada pelo povo. Mas um facto ainda assim.

Esse antibrasileirismo a que se refere é sobretudo a propósito de uma reportagem da correspondente da Folha em Lisboa em que se conta que professores consideraram errado o uso do português do Brasil e nalguns casos até baixaram a nota de alunos brasileiros por isso. Mas se um aluno americano escrever theater em vez de theatre em Inglaterra não será corrigido também? Ou se um português no Brasil escrever “mais pequeno”, forma autorizada em Portugal, em vez de “menor”, não teria a nota diminuída?

Você se engana, os episódios relatados pela Folha não tiveram peso algum em meu argumento, além do que chamamos de “gancho” jornalístico. São só um caso recente. Os sinais de que o antibrasileirismo é disseminado, multiforme e crescente na sociedade portuguesa me parecem fartos, o que aliás era previsível, se considerarmos o grande fluxo migratório de brasileiros nos últimos anos. Acho que ocorreria o mesmo em qualquer país. No caso, me interessa mais falar do preconceito linguístico, e aí me parece estar o xis da questão. Poucos portugueses discordariam da afirmação de que os brasileiros falam e escrevem meio  errado, confere? Muitos brasileiros também pensam assim. Isso ocorre porque o nosso português já é outro. Não é errado, é diferente, submetido a outras regras. Enquanto isso não for levado a sério, com todas as suas consequências educacionais e culturais, não será bom para ninguém.

Só Portugal deseja ser “o centro do idioma”, ou nota isso nos dois lados?

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O Apocalipse de agora


É uma excelente imagem.

Não propriamente enquanto metáfora (e trocadilho e jogo de palavras), ainda que essa seja igualmente evidente, mas antes como imagem mesmo, terrível, literalmente ilustrativa: salvas as devidas e respeitosas distâncias, atendendo às vítimas envolvidas, o AO90 fez com o Português o mesmo que as bombas de napalm no Vietnam: arraso total. Dos escombros sobraram apenas alguns detritos indistintos, uma massa negra malcheirosa soltando ainda umas fumarolas, ou sem cor de todo ou empestando a madrugada com o halo infernal em  todos os tons de  cinza e o azul-espectro dos pesadelos.

Neste artigo, o autor adopta na perfeição — e quase sem utilizar muito o zig-zag, se exceptuarmos a putativa “justeza do AO90” e mais um ou outro deslize, por regra imediatamente revertido — a flagrante analogia entre o filme de Francis Ford Coppola e o apocalipse que se abateu sobre a Língua Portuguesa; indo ainda mais longe na analogia, A.J. Pascoal desenha um arco de similitude entre a célebre frase proferida pela personagem interpretada por Robert Duval e aquilo que não é mais do que o nosso dever, ou seja, combater os “impostores da linguagem”, o seu “triunfalismo bacoco” e sem fazer caso da “edificação da sua mitomania”.

Remédio santo, digamos assim, para acabar de uma vez por todas com as mentiras debitadas, em sua solene e circunspecta basófia, por qualquer um dos mais proeminentes acordistas. Por assim dizer, o napalm (ou coisa que o valha) acaba com a tosse e cura instantaneamente todas as maleitas.

De facto, sempre embarretando o seu característico chapéu de Cavalaria e aferrolhando o seu ar impassível debaixo de fogo, o Coronel Kilgore deixa para a história uma frase lapidar, ou, melhor dizendo, duas: que adora o cheiro a napalm pela manhã e que isso “cheira a vitória”.

Felizmente, convenhamos, no caso vertente, Portugal não é os States. Infelizmente, porém, poucos portugueses apreciam odores exóticos ou maçadas, aborrecimentos, chatices. Muito poucos, pouquíssimos, e nem se sabe ao certo se ainda há disso. Dir-se-ia que não, já não há, isto aqui foi chão que deu uvas, agora é mais samba e futchibóu. Quando muito, no que concerne a labaredas, vai uma ou outra churrascada, toda a gente é veterana mas é sempre de “muitos anos a virar frangos”.

Bom, seja por mor e em memória dos heróis do mar, do nobre povo e da nação valente, ou que ao menos sirva de palíndromo histórico, resistir é um dever e o dever é aquilo que nos resta. O “cheiro a vitória”, portanto, ainda assim.

E o som triunfante de uma cavalgada imparável, transparente, majestosa, tão antiga como o anel dos Nibelungos.


[Uma das peças que compõem a “banda sonora” do filme “Apocalypse Now”]
[The “Ride of the Valkyries” (German: Walkürenritt or Ritt der Walküren) refers to the beginning of act 3 of Die Walküre, the second of the four operas constituting Richard Wagner‘s Der Ring des Nibelungen. (Wikipedia)]

O cheiro a consoantes mudas assassinadas pela manhã

António Jacinto Pascoal
publico.pt, 12.05.21

Nada tenho contra a escritora Isabela Figueiredo, a quem desejo êxito literário no exercício do seu labor criativo. Contudo, nem os maiores arautos do Acordo Ortográfico de 1990 terão ficado indiferentes à ligeireza e leviandade com que as suas palavras foram proferidas.

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É tentador assimilar o destino de um povo à convenção hegemónica de uma língua, na afirmação de si mesmo perante a saudade do Império e o sintoma de uma existência e identidade precárias, na constante urgência de reavivar o centro mítico abatido em que aquele vive. Queremos sempre mais do que somos e travestimo-nos, invariavelmente, daquilo que não somos. Ao contrário do que se possa crer, a supressão de grafemas e a purga de acentos que o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) providenciou não se traduz na promessa de um gesto de humildade e de solidariedade para com os países de Língua Portuguesa, mas a mais recente, esfacelada, incompreensível e incoerente tentativa de assegurar a Portugal a sua sobrevivência cultural e, anacronicamente, a expressão épica e controladora que o seu instinto anima.

Abdicámos da natureza ontológica da grafia – e nisso tivemos, com efeito de ceder, “convidando” outras nações a cedências – a fim de manter a intenção de prolongar o estranhíssimo fenómeno do destino imperial e, finalmente, nos convertermos nos sonhadores de nós mesmos e nos idólatras do poder e das honrarias de um ideal fáustico inexistente, análogo ao proposto por Pessoa na Mensagem. O nosso provincianismo é de facto megalómano.

Alfredo Margarido (A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, 2000) – sem esquecer o luso-angolano Leonel Cosme em Os Portugueses. Portugal a Descoberto, 2007) – não foi o primeiro ensaísta a alertar para o terreno movediço da lusofonia, essa pretensão encapotada de neocolonizar territórios onde se fala português, por intermédio da própria língua, nas suas dimensões gráfica, semântica e ideológica, em que “os missionários da lusofonia agem como se não tivéssemos atrás de nós uma longa história de relações polémicas com aqueles que escolheram falar português”. Muito antes, em 1997, já Eduardo Lourenço publicara Imagem e Miragem da Lusofonia, mas também Portugal Como Destino e Mitologia da Saudade, dando-nos conta deste novo mito, sustentado no “sentimento profundo da fragilidade nacional” e na perda identitária do esplendor imperial, enquanto sistema de compensação gerado desde a sacralização das origens, ao sebastianismo de Os Lusíadas (referência icónica da cultura portuguesa, como Lourenço se lhe referiu), à lógica profética de António Vieira, e à utopia Pessoana do Quinto Império, lida, o mais das vezes, sem escrúpulo de vaidades. Lembremos como nem Camões se deixou deslumbrar por acessos narcísicos e megalómanos de larga escala, convencido dos embustes dos egoísmos nacionais e imbuído do discernimento e pudor de não faltarem atrevimentos “Nesta pequena casa Lusitana”.

Em parte, o recente discurso poliédrico do Presidente da República tocou escombros, ruínas, demónios, fantasmas e feridas que não foram de todo resolvidas. Alfredo Margarido dizia noutro lugar que a “descolonização” não simplificou sequer a validade das literaturas africanas e que “a própria existência da ‘descolonização’ prova que ainda não conseguimos libertar-nos da ganga colonialista, já que os portugueses surgiram como únicos actores do processo político: colonizadores graças às malhas que o Império tece, mas também descolonizadores, quando se trata de destecer as mesmas malhas”.
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