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Descolonização, já!

«Em exposição desde o dia 12 de junho, no Centro Cultural Brasil-Angola.
Escritor Ondjaki coordena programação cultural»

«Primeiro museu no mundo totalmente dedicado a um idioma, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz, prédio-símbolo de São Paulo, em 2006. Em quase dez anos de funcionamento recebeu cerca de 4 milhões de visitantes. Hoje está em reconstrução.»

«A exposição “A Língua Portuguesa em Nós” é uma iniciativa do Itamaraty, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Museu da Língua Portuguesa e o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, com coordenação da Expomus.»

«O Museu da Língua Portuguesa é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, concebido e realizado em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Tem como patrocinador máster a EDP, patrocinadores Grupo Globo, Grupo Itaú e Sabesp e apoio do Governo Federal, por meio da lei federal de incentivo à cultura. O IDBrasil é a organização social responsável pela gestão do Museu.» [“Plataforma 9” (Brasil)]

Lá diz o ditado, mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Se bem que neste caso sejam vários os coxos e, ainda por cima, com a agravante de serem esses mesmos também os mentirosos. Ou, parafraseando não sei que “intelectual” de igual coturno, mas não coxo nem mentiroso, “isto anda tudo ligado”.

No que diz respeito ao AO90 e, portanto, no que respeita aos mentirosos que o engendraram e às mentiras que propagam, existem diversos factores comuns facilmente identificáveis.

O primeiro pressuposto a considerar, em especial quanto à matéria agora considerada, é que as empresas privadas às quais são adjudicadas arbitrariamente a montagem e organização de “exposições” sobre a língua brasileira limitam-se a criar ambientes de “espetáculo” onde actuam os palhaços do costume, também eles sempre os mesmos, os dos sapatões clássicos, trajados a rigor com seus casacos de lantejoulas e ceroulas turcas mai-lo inevitável remate do pom-pom vermelho a fazer de nariz “engraçado”.

As técnicas utilizadas nesses espectáculos circenses são igualmente sempre iguais e resumem-se a divertir o “honorável público” com umas “iniciativas”, umas “discussões” e, como presigo, fotografias de exemplares amestrados (os obedientes aprendizes de brasileiro) e de outros mais selvagens (alguns palavrosos anti-acordistas confusos), segundo acham os organizadores, mandantes da pantomina, tudo regado a aguardente de cana e outros acepipes regionais.

Uma dessas técnicas, porventura a mais especializada, é a da chamada “mesa-redonda”, ao redor da qual abancam 90% de acordistas, brasileirófilos em geral, agentes e bufos da polícia política e os inerentes cães-de-fila (ou farejadores ou Bloodhound), todos fingindo discutir o AO90, a CPLP, o IILP, “o” Camões, a “difusão e expansão da língua” brasileira no mundo, “o valor económico da língua” brasileira, que “ninguém é dono da língua” brasileira (exceptuando o Brasil, calculo), tudo coisas assim, penas de pavão pesando toneladas, halteres de cortiça erguidos com imenso esforço acima do cocuruto, toda aquela gentinha aferrolhando um ar sorumbático, grave e sério.

Por exemplo, aquilo que agora se pretende levar a cabo em Glasgow, segundo diz a agência BrasiLusa, não apenas tresanda a pura propaganda como não passará efectivamente (basta ler os nomes dos participantes) de mais uma sessão de intoxicação da opinião pública, promovida (e paga?) pelas entidades portuguesas que habitualmente, estruturalmente, ideologicamente, gananciosamente servem os interesses geo-estratégicos e político-económicos do Brasil. Na habitual proporção de 90% de acordistas, esta “discussão” não passará de mais uma das ratoeiras circenses que a seita acordista armadilha amiúde.

  • Tem a ver com o aspecto das variantes, dos sotaques, que na verdade são variedades do português, são línguas que são diferentes, mas são a mesma língua portuguesa
Não, não é uma questão de sotaque. O Português e o brasileiro “são línguas que são diferentes”, evidentemente, e por isso mesmo… não são a mesma língua! Aliás, ou uma coisa ou outra — as duas na mesma frase ou ambas como premissas da mesma ideia são incompatíveis entre si e auto-excludentes.
  • “Em certa medida, ainda há uma sensação de que Portugal é o dono da língua portuguesa, quando, na verdade, a maior parte dos países que falam português têm mais falantes do que Portugal, salvo algumas excepções. É uma questão que está muito presa na língua portuguesa, mais do que noutras línguas, como o inglês

Uma das patranhas favoritas deste tipo de prestidigitadores: a língua depende do número de falantes; a destruição liminar da Língua Portuguesa deverá ocorrer porque os Brasileiros são mais do que 200 milhões e Portugal apenas tem dez milhõezinhos de almas-penadas. Seria ocioso comentar de novo semelhante bojarda ou explanar de novo as mordentes evidências que por excesso servem para estraçalhar tão imbecil delírio.

  • «A apresentação do Dicionário do Português de Moçambique (DiPoMo) pela coordenadora, Inês Machungo, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, vai abrir o simpósio e lançar o debate»

E pronto. Ora cá está. Aquilo é só mais uma sessão de propaganda do AO90. Qualquer “discussão” prévia é mero engodo. A rapsódia dos “dicionários” parcelares sempre foi uma “exigência” de anti-acordistas confusos e de outros confusionistas. Moçambique… check. Portugal, check. Brasil, check. O resto do “evento” será mais do mesmo, pura treta para enganar os alvos predilectos dos acordistas: papalvos.

A seu tempo farão outros dicionários, um por cada ex-colónia portuguesa, e assim, de mentira em mentira, de check em check, julga o estado-maior acordista que algum dia chegarão a checkmate.

Académicos no Reino Unido debatem descolonização da língua portuguesa

Simpósio realiza-se em Glasgow, na Escócia, com a presença de professores e académicos que vão discutir questões relacionadas com as “variedades, ou variantes, da língua portuguesa no contexto da descolonização do currículo”.

“Público”, 26 de Junho de 2021, 12:41
Lusa

 

A “descolonização do currículo” e as variantes da língua portuguesa vão estar em debate este sábado em Glasgow, Escócia, num simpósio da Tropo UK, a Associação de Professores e Investigadores de Língua Portuguesa no Reino Unido.

Professores e académicos vão discutir questões relacionadas com as “variedades, ou variantes, da língua portuguesa no contexto da descolonização do currículo”, adiantou a organização, a cargo do departamento de Português da Universidade de Glasgow.

O tema surgiu do incentivo, sobretudo no último ano, da instituição britânica a docentes e alunos para analisarem o impacto da colonização no programa lectivo, tendo inclusivamente criado um centro de estudos sobre a escravatura.

Sensibilizado por esta questão, Luís Gomes, co-organizador e professor de Português naquela universidade, considera importante debater a descolonização do ensino do português como língua estrangeira, segunda língua e língua de herança. “Em certa medida, ainda há uma sensação de que Portugal é o dono da língua portuguesa, quando, na verdade, a maior parte dos países que falam português têm mais falantes do que Portugal, salvo algumas excepções. É uma questão que está muito presa na língua portuguesa, mais do que noutras línguas, como o inglês”, disse Luís Gomes à agência Lusa.

Isto reflecte-se, refere, na ideia existente em muitos dos membros da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), como Moçambique, de que é mais correcto o “português de Lisboa ou o português de Viseu” do que a própria variante ou sotaque local. Outro exemplo é o facto de o português de Cabo Verde ser normalmente denominado por “crioulo” e não visto como uma variante do português ou português de Cabo Verde.

“Tem a ver com o aspecto das variantes, dos sotaques, que na verdade são variedades do português, são línguas que são diferentes, mas são a mesma língua portuguesa”, argumentou Luís Gomes, questionando: “Se há o português do Brasil e o português europeu, porque é que não há o português de Angola ou de Moçambique ou da Guiné?”. A discussão, acrescenta, não pretende influenciar necessariamente decisões políticas, mas contribuir para a forma como os professores trabalham, ensinando e aceitando diferentes formas de escrever e falar português.

A apresentação do Dicionário do Português de Moçambique (DiPoMo) pela coordenadora, Inês Machungo, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, vai abrir o simpósio e lançar o debate. Numa mesa redonda vão estar a presidente do conselho científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), Margarita Correia, a directora da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura e antiga presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, e rapper brasileiro Vinicius Terra, bem como os professores Fernando Venâncio (Universidade de Amesterdão), Francisco Calvo del Olmo (Universidade Federal do Paraná, Brasil) e Sílvia Melo-Pfeifer (Hamburgo, Alemanha).

[Transcrição integral. Publicação: “Ípsilon”, suplemento do jornal “Público”, em 26 de Junho de 2021. Imagem da exposição “deles” de: “Plataforma 9“. Fotografia de cão da raça Bloodhound de: “Vetstreet“. Destaques, sublinhados e “links” (se não constantes dos originais citados) de minha autoria, por regra a cor verde.]

Portugal dos piqueninos

Nada surpreendentemente, vistos os inúmeros casos aqui já citados, exumados e autopsiados in situ, o verdadeiro trabalho de “implementação” da língua brasileira é “obra” não de acordistas, mas, no fundamental, gratuita e alegremente executado por anti-acordistas ou então, pior ainda, por indefectíveis do NIM — a maralha sempre de bem com todos, os “tipos fixes” a quem jamais ocorre dizer NÃO seja ao que for nem SIM a coisa alguma; uma sub-espécie perigosa, a dos fiéis do abençoado e tranquilo “meio-caminho”, a terrível substância alucinogénia que tantos tóxicodependentes criou em Portugal.

Não deve ser muito difícil entender o mais elementar dos raciocínios a respeito das tácticas de contra-informação e de intoxicação da opinião pública e, portanto, do logro colossal veiculado e da geral anestesia induzida na propaganda, na “narrativa” da seita que se ocupa da demolição da Língua Portuguesa.

Fazer o jogo do adversário é algo que pode ser sintetizado numa relação de causa e efeito tão elementar, de resto, num silogismo de tal forma evidente que verbalizá-lo torna-se quase tão ridículo como explicar uma anedota: se tem alguma, perde a piada toda.

Atirar ao boneco, assim como fazer mira com os dois olhos fechados, sempre acertando ao lado e falhando por sistema, irritantemente, duas imagens que nada têm de metafóricas devem chegar e sobrar para ilustrar o conceito: o AO90 é uma manobra política (premissa maior) contra a qual apenas armas políticas podem e devem ser usadas (outra premissa maior), logo (conclusão), utilizar armas de outro tipo implica a menorização (ou a pura e simples abolição, através do “ruído”, das manobras de diversão) do objectivo que inicialmente se pretendia atingir, errando o alvo em que teoricamente se dizia pretender acertar.

Aqui está mais uma amostra do teorema, neste caso ainda mais flagrante do que o costume, quanto mais não seja pela quase alucinante profusão de encómios e a não menos generosa prodigalidade na adjectivação laudatória. Escrito em Português, ao menos isso, mas no resto quase um desastre.

Sem sequer ralar-se com os rituais da ordem, sem declarações de militância prévias contradizendo flagrantemente os disparos de Diana 50 que acertam no tecto da barraca de tiro-ao-alvo, sem referir uma única vez o AO90, prudentemente, lá vem a lenga-lenga da “universalidade” da língua (a brasileira, pressupõe-se, por exclusão de partes), das “potencialidades” da língua (idem, aspas) e de outras formas de pirotecnia becharo-malaquenha. Embora esteja de todo esgotada a paciência até do mais pachola, convirá ao menos ler de relance esta mescla de “patriotismo lusofónico” com “universalismo” (isto é, de idolatria de um quimérico e sumamente idiota Império “liderado pelo Brasil“), esta sopa de grelos romanescos com nabo grandiloquente, ah, caldinho catita porém um pouco insosso, uma pitadinha de sal era capaz de lhe “puxar” o sabor, chega-me daí o saquinho dos negócios estrangeiros, vai sal e apimenta-se de caminho.

«Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua», por exemplo, diz o senhor que redigiu a coisa. Caramba! Mas que festival!

Ele é um «universo que pensa e fala» onde, pelos vistos, haverá sacanas a «deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono», ou terei porventura entendido mal, o autor deve pretender expressar o contrário, ora bolas, terá sido talvez pela bofetada que levamos em plenas, atónitas faces, com aquela do «pequeno país» (Portugal, aposto), que o Brasil é “um gigante” (também aposto que esta outra ribombante constatação há-de constar com certeza do arrazoado), essa raramente falha nestas loisas encomiásticas. Enfim, não sei bem, ou seja, “de ciência certa”, devo ter ficado esmagado, abananado, ofuscado com qualquer outra frasezinha elegantérrima, talvez a que postula ser «São Salvador, a cidade mais africana do Brasil», ora toma, pim, ou a outra, também lapidar e tremenda, catando da História que a «população portuguesa foi formada e formatada a visualizar um mapa que mostrava um Portugal do Minho a Timor». Olha, cá está, “do Minho a Timor”, já tal se dizia no tempo da “Outra Senhora”, ele a gente nunca espera o que nos aparece pela proa, há quem diga que é o destino, para outros o azar será, pois eu cá lamento mas não faço a mínima ideia de o que raio quer aquilo dizer.

Assim como também não sei, só o escriba saberá, calculo, em quê depositar (quem?) a esperança em «2026, esse ano mágico», na demanda de uma hipótese em que “talvez” «consigamos ter revelado e reavivado a teia de cumplicidades». Linguagem codificada, quase de certeza, ou então estará reservada a membros e por isso é naturalíssima a reserva, existem assuntos assim mais para o sigiloso que é de bom tom conservar em latas estanques.

Sobre a “teia de cumplicidades” estamos já bem mais do que conversados; não resta qualquer sombra de mistério nem permanece a menor dúvida sobre onde e quando, qual foi ao certo o móbil do crime e quem teceu a aracnídea teia.

É absolutamente impossível redigir um texto tendo a Língua Portuguesa como tema único sem jamais referir a própria escrita em Português, a Gramática portuguesa em qualquer das suas componentes, sem ao menos vagamente aludir à ortografia (ou ao léxico, ou à sintaxe, ou à prosódia) e, portanto, sem referir uma única vez o AO90 (ou a CPLP ou o IILP ou “o Camões” ou a BrasiLusa ou a Wikipédjia), mai-la sua esmagadora parafernália de armas de intoxicação em massa e quem as opera, quem põe o dedo em que gatilho. 

Que farei com esta Língua: uma Aldeia Global ou o Portugal dos Pequenitos

Carlos Fragateiro
“Ípsilon” (jornal “Público”), 25 de Junho de 2021

 

Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português.

1. Há mais de 500 anos, os portugueses, os mais aventureiros, saíram de Lisboa e partiram para o mar, não para aquele que seria o mais cómodo e familiar, o Mediterrâneo, mas para o desconhecido, para o mais perigoso e ameaçador e que poderia levá-los em direcção ao abismo, o Atlântico. Essa decisão levou-nos ao encontro de e com outros mundos, até então desconhecidos para os europeus, conduziu à criação do que hoje se chama a primeira aldeia global, e permitiu que Lisboa se tivesse tornado no centro comercial do novo mundo.

Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua que, pela sua profunda ligação ao mar, o espaço da não fronteira por excelência, construiu mais pontes que muros.

Porque vinda de um pequeno país, esta língua foi obrigada a dialogar, a fundir-se, a deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono, que é o que distingue os tempos de hoje dos do início da sua viagem há mais de 500 anos, altura em que o mapa da língua se desenhava a partir de um só lugar, de Portugal e Lisboa, mapa que hoje se desenha a partir de múltiplos lugares.

É o ser uma língua sem dono, e o trazer dentro de si todo o mundo e de estar em todo o mundo, que a torna num instrumento privilegiado para responder aos desafios que a pandemia está a colocar: deixar de olhar o mundo a partir da nossa casa ou do nosso país, como centro de tudo, pois não há muros ou fronteiras que defendam o nosso bem-estar, se esse bem-estar não existir em todo o mundo.

2. Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português. Pilares de que, entre outros, são exemplos: São Salvador, a cidade mais africana do Brasil; Manaus, que, ao lado da Reserva da Biosfera da Ilha do Príncipe, pode ser o grande centro internacional da ecologia e do ambiente e da defesa das culturas e das línguas minoritárias; Goa a cidade/estado de encontro entre o ocidente e o oriente; o Faial, com o Café Peter e o centro de Oceanografia, que, tal como Cabo Verde, é uma plataforma no Atlântico. Estes pilares, porque têm já no seu ADN os gérmenes deste mundo global da língua, são, em cada país ou comunidade, os espaços de cruzamento de ideias e lançamento de projectos que liguem os diferentes pilares e construam as pontes que darão densidade à rede com que o universo da língua portuguesa atravessará todo o mundo.

Reforçar esta rede, e a sua capacidade de intervir globalmente, obriga à construção de uma plataforma onde se cruzem os diferentes projectos e se simulem os cenários para o futuro ou os futuros possíveis. Plataforma que não se limite a descrever o mundo como ele é, mas a criar uma nova forma de o ver, imaginando o inimaginável, sonhando o impossível e fazendo com que ele aconteça.

3. Há uns tempos, num seminário maioritariamente frequentado por europeus, pediram a um doutorando angolano para desenhar o mapa do mundo e, para surpresa de todos, ele começou a desenhá-lo pelo continente africano, e não pela Europa como nós, portugueses e europeus, o fazemos. Fizeram o mesmo pedido a um brasileiro que desenhou o mundo a partir do continente americano.

É em momentos como estes que nos sentimos incapazes de visualizar o mundo de outra forma da que era apresentada no mapa que estava sempre presente nas nossas escolas, com a Europa no centro a América tão distante da China, de tal modo que hoje, sabendo claramente que a terra é redonda, ainda pensamos nas longas viagens que os americanos têm de fazer para chegar perto da China, ignorando completamente o oceano Pacífico e que as viagens não têm necessariamente de passar pela Europa, podendo fazer-se pelo outro lado do mundo.
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Um murro na chipala

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[veja aqui um “filme” falado em “Portuguese” (“língua universal” brasileira)]
[imagem Facebook de uma empresa qualquer de “ensino” de “Portuguese” (brasileiro) online]
O AO90 não tem nem “erros” nem “deficiências”. O AO90 é um erro, todo ele, e é uma deficiência total, de cabo a rabo. Para que algo contenha “erros” e “deficiências” necessariamente deverá conter alguma coisa acertada, algo que faça pelo menos algum sentido ou, no mínimo, que tenha uma ponta por onde se lhe pegar; ora, é mais do que evidente que o “acordo ortográfico”, não sendo sequer um acordo e não contendo absolutamente nada de ortográfico, não apenas não tem ponta por onde se lhe pegue como também nem mesmo tenta disfarçar o seu carácter exclusivamente político e, por inerência, as suas finalidades: o aniquilamento do Português-padrão substituindo-o por uma versão exclusivamente brasileira visando a “adoção” dessa versão, sob a capa ficcionada de “língua universal”, para que seja “adotada” em alguns organismos supra-nacionais e assim “facilitar” os interesses geo-económicos do Brasil; esta dupla manobra de neo-colonização ao contrário utiliza na integra os ditames brasileiros com a colaboração de uma ridícula cáfila de traidores portugueses vendidos a sinecuras várias na CPLP (uma organização fantoche) no IILP e em outras instituições outrora portuguesas (Instituto Camões, LUSA, etc.).

Por conseguinte, sendo exclusivamente político, tentar “despiorar” o AO90 equivale a transformar um insulto à inteligência num simpático remoque. Ou tornar um monstro numa coisinha um bocadinho menos monstruosa. Ou ainda transformar, por artes nada mágicas, uma aberração informe numa elegante flor de papel.

O artigo que se segue, de uma publicação angolana (em Português correcto, visto que dos oito países da CPLP apenas Portugal “adotou” a aberrante cacografia) tenta inicialmente traçar uma espécie de “background” da questão e depois desenvolve a coisa num estilo bem mais solto, digamos, atirando-se vorazmente às canelas dos tugas que inventaram — para bajular ainda mais o Brasil, é claro — a CPLP e a sua excrescência a armar ao “ténico” (tem duas consoantes seguidas, não pode), aquela bambochata a que chamaram IILP.

Que não doam a mão e a escrita aos angolanos, é o que se espera e deseja. Cada cachaporra no toutiço daqueles anormais é mais uma pazada de terra (ou esterco) atirada para cima do cadáver adiado, o zombie ressuscitado por Cavaco, Lula e Sócrates.

Vasco Graça Moura, a CPLP e o… português

jornalf8.net. 03.01.21

 

Como o Folha 8 escreveu hoje, o Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural distinguiu o gestor e jurista Emílio Rui Vilar, cujo percurso profissional “constituiu um expressivo exemplo de cidadania cultural”. Vasco Graça Moura nasceu no dia 3 de Janeiro de 1942 e morreu em 2014.

Vasco Graça Moura considerava que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) era uma espécie de organização fantasma, “que não serve para rigorosamente nada”, a não ser “ocupar gente desocupada”.

“O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer”, disse em Julho de 2010 o escritor e também poeta, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP.

“Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada”, acrescentou na altura em declarações à Lusa. Para o escritor, o IILP “é uma entidade fantasma criada dentro de outra entidade fantasma.”

“Não se nota que exista qualquer espécie de política da língua da parte do Governo português e nota-se, da parte da mesma entidade, uma enorme estupidez na forma de tratar a língua, no que diz respeito ao Acordo Ortográfico”, disse o escritor.

Vasco Graça Moura, que foi uma das vozes contrárias ao Acordo Ortográfico por considerar que este tem deficiências e erros que lesam o Português, considerava que o Governo estava a cometer um crime contra a língua portuguesa.

Os crimes que este Governo está a cometer e está em vias de cometer em relação à língua diz respeito ao Acordo Ortográfico. Portanto, não há política de língua digna deste nome. Há uma série de equívocos em que este Governo está a persistir”, sublinhou.

Segundo o escritor, “o acordo ortográfico é um atentado criminoso contra a língua portuguesa tal como se fala em Portugal, Angola, Moçambique, na Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.”

“É um atentado que tenta desfigurar completamente a língua e é absolutamente irresponsável da parte de quem negociou e da parte de quem o aprovou”, disse.

“As pessoas falam português em qualquer parte do mundo e se entendem, seja no aspecto familiar, cultural, negocial, diplomático, isso nunca prejudicou ninguém (o facto de não haver um acordo ortográfico)”, referiu.

Graça Moura sublinhou também a importância dos países africanos lusófonos na projecção do português no âmbito internacional, além de Portugal e Brasil.

“Basta considerar o número de habitantes de todos os países que falam a língua portuguesa, não apenas o Brasil, não apenas Portugal. Se considerarmos os países africanos de língua portuguesa, temos mais 50 milhões de pessoas, pelo menos, a falar português”, indicou na altura.

Para Graça Moura, nunca foi preciso um Acordo Ortográfico para a projecção internacional do português.

“A projecção do português pode passar pelas organizações internacionais, pode passar pela promoção da cultura da língua, pela promoção da aprendizagem. Neste momento, a melhor maneira de projectar a língua é acabar, pura e simplesmente, com o Acordo Ortográfico”, concluiu.

Recordemos Amélia Mingas

No dia 21 de Julho de 2009, a directora executiva do Instituto Internacional de Língua Português (IILP), Amélia Mingas, disse que não iria recandidatar-se ao cargo em 2010, alegando que estava “cansada de ser sacrificada”.

Bater com a porta é, nestes casos, uma boa solução. Na altura esperava-se que o barulho fizesse algo pela comunidade lusófona (algo mais do que a mera CPLP), acordando-a da longa, mas bem nutrida, letargia em que ainda hoje se encontra.

“Tudo o que poderia ter dado já dei, com muito sofrimento e com muitas noites sem dormir para tentar ver o que poderia ser feito para dar visibilidade ao IILP. A única coisa que se comenta é que o IILP não fez nada e que é inoperante. Mas nunca deram meios”, afirmou a linguista angolana, nomeada em 2006 e reconduzida em 2008.

Também nós somos dos que dizem que o IILP é, tal como a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, um elefante branco anestesiado pelas sucessivas tentativas de o tornar ora cor-de-rosa, ora laranja, ora outra coisa qualquer.

Isso não significa, nem significou como o Folha 8 escreveu em 24de Maio de 2016, uma crítica a Amélia Mingas, a não ser que deveria (exactamente porque nunca lhe deram meios) ter há muito dado um valente murro na mesa ou, talvez, até na chipala dos que se julgam donos da CPLP.

Amélia Mingas comentava nessa data os resultados da 14ª Reunião do Conselho de Ministros da CPLP, que decorreu na Cidade da Praia, em Cabo Verde, em que foi decidido criar um grupo de trabalho para pensar a refundação do Instituto, criado em 1989.

Questionada sobre se a perspectiva de Angola assumir a presidência da CPLP em Julho de 2010 poderia trazer benefícios para a direcção do IILP, Amélia Mingas foi clara na resposta: “Quando tudo isso for aprovado e capaz de ser posto em acção, já não estarei cá. Termino a minha comissão em Julho do próximo ano. E não me recandidato.”

Amélia Mingas sabia, melhor do que todos nós, que a refundação nada mais significaria do que a constatação do óbito do Instituto Internacional de Língua Português. Isto porque, ao esperarem que ele sobreviva sem “comer”, vão verificar que quando estava já a saber viver sem “comer”… morreu.

“Tem sido uma travessia difícil. A verdade é que, quer se queira ou não, o IILP tem uma directora executiva, que o representa e que dá a cara sempre que necessário, mas nunca se fala dos meios que lhe puseram à disposição. Foi uma missão muito ingrata”, sustentou.

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