Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

#nãoadoPtoestessilêncios

Estes silêncios que tanto nos “afetam”

É uma coisa que todos os portugueses podem fazer: quebrar, resolutamente, o seu silêncio em matéria de ortografia.

Nuno Pacheco

“Público”, 11 de Janeiro de 2018, 7:35

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No final de 2017 houve em Portugal a costumeira votação da palavra do ano. Uma coisa destinada a cibernautas e promovida pela Porto Editora, que apresentava uma lista à votação. Ganhou, como se sabe, a palavra “incêndios”, apoiada por (diz a editora) 37% dos 30 mil votantes. Mas houve um curioso episódio associado a esta votação que passou despercebido: o apelo ao voto na palavra “afeto” (sem C, tal como a apresentou a Porto Editora, que se rendeu ao acordo ortográfico depois de inicialmente se lhe opor). O primeiro a fazê-lo, publicamente, foi o director (com C) do jornal Correio do Minho, num artigo de opinião intitulado “Incêndios ou afetos?”, publicado no dia 28 de Dezembro. Começava assim: “Em primeiro lugar é bom registar que ainda não aderimos ao novo acordo ortográfico. Em segundo… não escrevi nenhuma gralha no título. Afetos é o nome que aparece no site da Porto Editora, promotora da iniciativa ‘Palavra do Ano 2017’.” E apelava, por razões sociais, ao voto em massa na segunda palavra: “‘Incêndios’ é uma palavra que nos transmite tristeza, morte, angústia, desespero… tudo coisas más. Afeto é o que precisamos para iniciar da melhor maneira o ano de 2018.” Foi o que pensaram muitos votantes. No momento em que o artigo foi publicado, “incêndios” ia com 38% e “afeto” com 18%; terminaram com 37% e 20%.

Mas outros apoiantes de “afeto” vieram a terreiro. No Facebook, o grupo A Favor do Acordo Ortográfico publicou quase de imediato um comentário de incentivo: “Leiam o artigo e, se assim o entenderem, votem na palavra ‘afeto’ (seria a primeira vez que uma palavra alterada pelo acordo ortográfico ganhava uma votação deste género”) – seguia-se um emoji maroto, a piscar o olho. Vejam bem a diferença: um apelou aos sentimentos; os outros, fingindo apoiá-lo, à ortografia.

Mas a que se dedica o grupo A favor do Acordo Ortográfico (AFAO)? A apontar o dedo acusador a quem teima em não aplicar o malfadado acordo. “Ainda há jornalistas que insistem em escrever à antiga. Seis anos para se adaptarem às regras do acordo não chegam? Vergonhoso…” E é recente, a existência de tal grupo? Não, é antiga, tem sete anos no Facebook. No início apresentava “1905 gostos”, confirmados na sua página; em 2016 indicava “1094 pessoas curtiram isso”; e neste dia 10 de Janeiro exibia, triunfal: “1093 pessoas gostam disto”. Dois a menos, em sete anos! Notável feito! Mesmo assim, o AFAO continua, impante, a espalhar a detestável “boa nova” que já não convence ninguém. “Já somos 1000! Obrigado!”, exclamam. Mas, ao contrário do célebre slogan do velho PPD (“hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”), não cresceram, definharam.

Nenhuma comparação com os opositores ao “monstro”. Em 2009, a petição Em Defesa da Língua Portuguesa (e contra o AO) juntou mais de 100.000 assinaturas; actualmente, a petição pública Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” tem 22.140 assinaturas e o grupo a ela ligado cerca de 28.000 membros; também no Facebook, a página dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico tem 24.171 “gostos” e 23.746 seguidores; e o grupo Em aCção contra o Acordo Ortográfico” tem cerca de 53.000 membros. Já a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILCAO) conta com 15.773 assinaturas validadas. De cada vez que o tema se discute, as opiniões maioritariamente expressas, ao vivo ou em votações, são esmagadoramente contra este acordo. O que justifica, então, a sua sobrevivência? O laxismo geral, a ideia (errada) de que é obrigatório por lei (não é, foi imposto por resoluções do conselho de ministros) e a ditadura insana dos correctores ortográficos (que o AO mudou para “corretores”, como os da Bolsa). Caiam todos eles, ou alguns deles, e o “monstro” também cairá, para alívio universal – Brasil, África e Oriente incluídos.

No rescaldo de uma investigação jornalística sua, a TVI lançou em finais de 2017 uma campanha intitulada #NAO ADOTO ESTE SILENCIO. Várias personalidades, segurando um cartaz com tal frase, gravaram vídeos. Ouça-se o de Ricardo Araújo Pereira: “Este caso de uma rede internacional de adopção ilegal de crianças no Lar da Igreja Universal do Reino de Deus é absolutamente chocante e por isso eu não adopto este silêncio. E não adopto com P, porque eu também não adopto o acordo ortográfico. Por isso, não adopto duas vezes este silêncio.” É uma coisa que todos os portugueses podem fazer: quebrar, resolutamente, o seu silêncio em matéria de ortografia.

nuno.pacheco@publico.pt

[“Público” (suplemento “Ipsilon”), 11.01.18. Adicionei “links”. A imagem de topo é um recorte de “webpage” da TVI utilizando a solução Firefox contra o AO90.]

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«Admirável Língua Nova (Parte V)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte V)

Ficámos singularmente isolados (passe a redundância) nesta razia etimológica – em muitos casos, desirmanados até do próprio Brasil, que pronuncia, ao contrário de nós, muitas consoantes etimológicas. Quisemos ser tão modernos, que acabámos parolos.

Manuel Matos Monteiro

“Público”, 17 de Dezembro de 2017

T. S. Eliot, em 1944, no texto ‘Que É Um Clássico?’, explicou que a sua época tendia a confundir sabedoria com conhecimento e conhecimento com informação, procurando resolver os problemas da vida à luz da engenharia. Eliot sentia desabrochar com particular intensidade um conceito de provincianismo que não encontrava nos dicionários. Provinciano não era apenas aquele que estava preso no seu espaço, não conhecendo outros; provinciano era também aquele que estava ancorado no seu tempo, desconhecendo todos os tempos anteriores a si, ignorando o longuíssimo caudal de sabedoria e cultura. O autor propôs assim o conceito de “provincianismo do tempo”, ou, se preferir, “provincianismo temporal”.

O “provincianismo temporal” é hoje mais acentuado numa época de pletora de “notificações” e informações digitais “actualizadas” a cada instante¹; em que o que aconteceu há uns meses já “foi há muito tempo”; em que o que não está no mundo digital não existe nem nunca existiu para muitos; em que tantos formam rapidamente opinião sobre quase tudo (dedicando, em média, três minutos a cada assunto na Rede); em que todos, mesmo sem nunca ter lido um livro na vida, podem ser escritores com o carimbo de uma editora a troco de dinheiro – o poeta, afiançava Eliot, só poderia curar do seu ofício, isto é, escrever poesia, conhecendo bem os seus predecessores.

Serve o intróito para situar o leitor quanto à seguinte proposição: o Novo Acordo é provinciano.

A escolha do critério da “pronúncia culta” (que o Acordo não consegue definir nem rastrear), em detrimento do critério etimológico, significa a mutilação da História que as palavras transportam. Mas o Acordo não fica por aqui. Não se trata apenas da preservação das raízes latinas – da identidade da nossa língua, no fundo. Trata-se ainda da preservação da lógica do hífen na nossa língua, da congruência nas famílias de palavras (elemento importante na aprendizagem das crianças), da maiúscula inicial nos meses por estar lá guardado, não poucas vezes, o nome de um deus – Janeiro, por exemplo, vem do deus Jano, não por acaso o deus que presidia aos inícios, o guardião das portas e dos portões. Mas podemos deixar a mitologia de lado e ir para coisas mais corriqueiras. “X-acto” tem origem na marca, ou seja, X-ACTO é marca comercial. Pois até aí mexeram: com o Acordo, temos o “x-ato” da marca X-ACTO. É a pseudológica dos talhantes das consoantes etimológicas.

(mais…)

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«À vontade do freguês» [N. P., “Público”, 16.11.17]

Sai uma espetada para o senhor espetador!

Na “ortografia unificada” a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Nuno Pacheco, “Público”, 16.11.17

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Andou escondido, durante uns tempos, mas reapareceu. Nada a ver com Tancos, com a tragédia dos incêndios nem com o já cansativo Panteão. Trata-se do espetador. Sim, esse mesmo. Por vergonha, muita gente foi adoptando a grafia “espectador”, talvez por não quererem espetar nada em ninguém. O “espetáculo” ainda vá, lá vai surgindo com “c” ou sem ele, consoante os gostos. Já o espetador tinha desaparecido. Mas reapareceu em todo o seu esplendor. No Teatro da Trindade, agora mais activo em matéria de “espetáculos”, distribui-se um papelinho onde se lê “Antes do espetáculo, venha ao bar do teatro! -30% na comida para espetadores com bilhete do dia.” Qual será o menu? Espetadas? Na contracapa do DVD com o (muito recomendável) filme São Jorge, de Marco Martins, lê-se o seguinte: “Uma obra prima. Um banquete cinematográfico que mantém o espetador colado à cadeira.” Não deviam, antes, dizer pregado à cadeira? Ou espetado na cadeira?

O mais curioso é que se trata da tradução de uma nota elogiosa escrita no The Huffington Post; ou seja, a culpa não é de quem escreveu mas de quem traduziu. Quanto ao “espetador”, que no Brasil se diz e escreve “espectador”, com “c”, embora só se admita a grafia sem “c” para “espetáculo” (e esta é uma das muitas incongruências patentes na grafia oficial brasileira, mesmo antes do acordo ortográfico), o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) de Portugal admite duas variantes, com e sem “c”, à escolha do freguês. Mas há outro erro na frase, “obra prima”: a designação em português para masterpiece, chef-d’ouvre, obra maestra, meisterwerk ou capolavoro é obra-prima com hífen, seja em Portugal ou no Brasil, antes ou depois do acordo (está no VOC, é só conferir). Porque não há obras primas, como não há obras tias ou obras avós; é palavra composta, onde a justaposição por via do hífen lhe dá um significado novo: o de obra máxima, de excelência absoluta. Claro que estas coisas nada dizem às criaturas que tiram e põem hífenes ou consoantes a eito, porque acham que reformas é isso: tirar sinais. Basta ver as notas de rodapé nas televisões, ler legendas de filmes ou andar pelos museus para avaliar o descalabro desta aleatoriedade. Um exemplo: na colecção permanente do Museu Berardo, em Belém, há um painel intitulado “Concetualismo”. No texto desse painel, lê-se essa palavra por mais duas vezes, e lê-se também “coletivo”, respeitando os ditames do acordo ortográfico de 1990 (AO). Mas lê-se “caracterização”, “recepção”, “cariz conceptual” ou “arte conceptual”. Nem uma só vez “concetual” surge no texto. Já agora, esclareça-se que o dito VOC do Brasil não reconhece “concetualismo” nem “concetual”. Elas só existem no VOC de Portugal, mas admitindo dupla grafia. É isso: escolham.

E escolhem, nem que seja ao acaso. Numa separata comercial recente, lê-se “arquitectura” no título (com “c”), mas “atividade”, “direcionada” e “objetivos” (sem “c”) a par de “sector” (com “c”). Que bela salada mista proporciona a “ortografia unificada” que nos impingiram! Sim, porque antes do malfadado AO não havia tais mixórdias. Um exemplo, elegante e digno: a revista especializada Áudio & Cinema em Casa não respeita o AO em nenhum dos seus textos. No entanto, tem um colunista brasileiro (interessantíssimo, aliás), Holbein Menezes, cujas crónicas ou textos de análise respeitam integralmente a grafia brasileira, seja nas “eletrônicas” ou nos “fenômenos”. Vantagem: nuns e noutros textos, a ortografia é impecável, seja no português de Portugal ou do Brasil. Há mais exemplos destes, felizmente, em espectáculos, discos, livros, museus, de onde a mistela ortográfica é afastada como sujidade indesejável. Mas, apesar dessas honrosas excepções, a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Será depois do Verão?, escreveu-se aqui numa das crónicas sobre o malfadado AO. Ainda não foi. Apesar das escusas, dos protestos, da evidência clamorosa de erros, ainda nada se corrigiu e tudo segue na miséria de antes. Saúde-se o sinal de vida dado, esta semana, pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, através de um texto de Rui Valente no PÚBLICO intitulado “4379 Cidadãos para a Língua Portuguesa.” Esta e outras iniciativas contribuem para que não se esqueça tão magno assunto. Não é saudosismo nem reaccionarismo, como pretendem os mentores dessa aberração técnica e linguística conhecida por acordo ortográfico. É apenas senso. E higiene.

P.S.: Entre muitos outros textos publicados sobre este tema, destacaria aqui uma série relativamente recente, que tem vindo a ser publicada no PÚBLICO online, da autoria do jornalista, formador e revisor Manuel Matos Monteiro, sob o título genérico “Admirável Língua Nova” (parte I, parte II, parte III e parte IV).

Nuno Pacheco


Nota: os “links” em cor verde são meus.

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«Resistir ao disparate» [Rui Valente, “Público”]

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa

A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se.

Rui Valente –

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No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

O Acordo Ortográfico sempre foi um desastre, sob todos os pontos de vista: científico, político, social. A fuga para a frente e a insistência na sua aplicação só tem servido para agravar ainda mais o estado da ortografia no nosso país. Neste contexto, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. O que correu mal?

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes acabou — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa mas, passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90, cuja única conclusão, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem. Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Rui Valente

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

“Público”, 14.11.17

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AO90: a tomada de três pinos “lusófona”

   Miguel Ferreira 
Published on Oct 21, 2017
Com Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier. Quais são as diferenças entre o português falado no Brasil e o português falado em Portugal? Elas são duas línguas diferentes ou dois lados de uma mesma moeda?

RAP – A gente estava nos bastidores a falar sobre a maneira como o acordo ortográfico não resolve rigorosamente nada.
GD – E cria novos problemas.
RAP – Exacto. Até porque o acordo ortográfico ataca precisamente o único sítio onde a gente não tem muita dificuldade em entender-se. A gente escreve “acção” com dois “cês” e vocês escrevem só com um. Não interessa muito. Agora, a maneira por causa da qual a gente se desentende tem a ver, às vezes, com o vocabulário. Se em Portugal eu disser “tou no acostamento porque a minha perua não tem estepe” não há um português… um português entende que se está a falar português mas ele não sabe nada do que se está a dizer. Porque em Português essa frase diz-se “estou na berma porque a minha carrinha não tem pneu sobressalente”. É muito diferente de “acostamento porque a minha perua não tem estepe”. E, portanto, as nossas diferenças são às vezes de pronúncia e de sotaque e outras vezes são de vocabulário, sendo que essas diferenças nos deviam enriquecer e não afastar. E, como é óbvio, o acordo ortográfico não resolve em nada essa questão.
GD – Além de criar problemas terríveis! Terríveis! Eu acho que, realmente, na minha opinião, foi um crime para mim tão grande quanto a tomada de três pinos. Eu acho que ele é uma tomada de três pinos linguística. Porque ele cria uma solução para um problema que não havia. Ninguém olhava para a tomada de dois pinos e falava “hum, falta alguma coisa aqui!” Não existia isso. Ninguém olhava para a língua portuguesa e falava “hum, tá faltando aqui… ai, esse trema!, eu não aguento esse trema! Não posso com esse trema! Ai, me dá uma preguiça de escrever esse trema!” Ninguém falava isso. Então me irrita profundamente, que é uma solução para um problema que não havia, sabe? De repente tem de jogar fora todos os livros e recomeçar do zero porque “ah, não, é para unificar a língua”, “ah, não, é para as pessoas lerem mais”… realmente, porquê?, porque o pessoal não lia no Brasil?, ninguém lia por causa do trema?
RAP – Estou louco p’ra ler o Machado de Assis mas tenho nojo destes tremas. É isso…

Imagem copiada de “banguelo.com

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O camartelo (3)

By An Siarach at English Wikipedia [Public domain], via Wikimedia Commons

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.» [George Orwell, “1984”]

……….

Reescrever a História significa apagar, fazer desaparecer, eliminar tudo aquilo que não interessa à narrativa que alguém pretende transformar em facto consumado, em verdade incontestável. 

Primeiro, impõe-se essa narrativa com uma premissa minimalista, algo como “é assim porque tem de ser assim” e depois, caso surja alguma espécie de resistência (o que varia na razão directa do nível de imbecilidade veiculada pelo absurdo narrado), então altera-se o passado em conformidade e, por conseguinte, a premissa inflecte imbecilmente: “é assim porque sempre foi assim”.

No que diz respeito a Língua e a ortografia, em particular, este mecanismo eminentemente político — ou seja, de condicionamento mental das massas, vulgo, chicote mental  — implica, como é evidente, técnicas de apagamento da memória utilizando mecanismos com efeitos retroactivos.

Em “1984“, obra publicada em 1949, vemos legiões de funcionários — do Ministério da Verdade, nem de propósito — alterando laboriosamente, dia após dia, 24 sobre 24 horas, todos os documentos, as edições de livros, jornais e revistas, as placas toponímicas e letreiros, as gravações, registos ou inscrições em qualquer suporte. O trabalho daqueles funcionários consiste em quatro directivas simples, claras, objectivas e consequentes entre si:

  1. Todos os factos actualmente determinados como correctos pelo Partido sempre foram estes, jamais se verificaram outros e nunca estes factos se passaram de outra forma que não desta forma.
  2. O que vale para os factos vale para as pessoas, que não passam de factos com pernas, apenas existem enquanto fizerem parte da narrativa oficial: se alguma dessas pessoas cair em desgraça ou por algum motivo deixar de interessar ao Partido, isto é, à “verdade” única, universal e eterna, então essa pessoa será eliminada (“vaporizada”, literalmente, é o termo técnico) sem deixar qualquer vestígio, desaparece o seu nome, nunca existiu, foi uma “não-pessoa” da qual muito em breve ninguém conservará a mais vaga recordação.
  3. E o que vale para factos e para pessoas vale também para a linguagem, para as próprias palavras: a língua antiga deve ser integral e radicalmente substituída pela Novilíngua,  vaporizando-se aquela por grosso e qualquer vestígio dela por atacado.
  4. As três directivas anteriores não existem, nunca existiram e quem disser o contrário também nunca existiu.

Está aqui implícita uma mais do que óbvia analogia, quanto ao que nos interessa em especial:

  • O Partido é o AO90, ou seja, a amálgama de interesses económicos e políticos em que se consubstancia tão horripilante maquinação.
  • Os funcionários do Ministério da Verdade são os mercenários pagos para substituir a língua antiga pela Novilíngua (enfim, o AO90 é mais uma espécie de salgalhada ininteligível).
  • A finalidade prática dos trabalhos de revisão sistemática do passado e de reescrita da História é que a língua antiga seja esquecida.
  • A finalidade política, o objectivo do Partido, é que a Novilíngua substitua a antiga e assim qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.

Ora, o Partido já procedeu à liquidação sumária da diferenciação entre as duas variantes do Português (em teclados, sistemas operativos e programas de computador, nas plataformas e redes virtuais), o Partido já levou à quase extinção a bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais, o Partidotornou obrigatório nos organismos do Estado algo que absolutamente nada tem a ver com o Estado.

Disto já todos sabemos, isto já todos vamos vendo quotidianamente.

Mas aquilo de que ainda muito pouco ou nada se fala (porque será?) é o sinistro processo em curso de revisão do passado. O Partido necessita de “corrigi-lo” para que ele encaixe definitivamente (“porque sempre foi assim”) na tal narrativa oficial que para o dito Partido é a única aceitável — e portanto jamais poderá ter existido qualquer outra.

(mais…)

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