Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

Quem não sabe ler…


 

…vê os bonecos

 

……………..

 

Esta é só uma pequena amostra de um trabalho em curso que irá sendo actualizado a pouco e pouco. A sequência de imagens é aleatória, não cronológica, e ficará em página própria como repositório ilustrado daquilo que é o Apartado 53.

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Uma fífia monumental

Uma estranhíssima observação com que Nuno Pacheco obsequeia os leitores do “Público” neste seu artigo suscita-me um ou outro comentário, à laia de “nota prévia”.

Refiro-me a apenas parte de uma única frase, em todo o texto, mas, na minha opinião, semelhante formulação terá sido ou mero lapso de memória ou simples confusão mental momentânea do autor. A dita frase, cuja segunda parte não interessa para o caso, é a seguinte:

«Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro) […]»

Perdão? Como assim?

Tal construção frásica implica uma ideia subjacente que nunca, jamais, em tempo algum foi O motivo basilar do lançamento da ILC-AO em Abril de 2010. Nem então foi O motivo como ainda hoje, que eu saiba, apesar de estar “reformado” desde Julho de 2015, tal ideia é sequer UM dos motivos que norteiam a mesma Iniciativa cívica.

Porque, note-se, a interpretação mais óbvia da formulação (exclusiva) de Nuno Pacheco é que bastaria então a ratificação de mais quatro países para que o AO90 entrasse legalmente em vigor em todos os oito membros da CPLP. O que implicaria, nesse caso, que a ILC-AO deixaria de fazer sentido — até com efeitos retroactivos, para cúmulo do absurdo — assim que a Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Timor-Leste ratificassem o II Protocolo Modificativo do “acordo ortográfico” de 1990.

Nada disso. Nada mais falso. Essa hipótese não se coloca, assim como nunca se colocou ou esteve sequer alguma vez sob cogitação;  não existe portanto o mais ínfimo fundamento naquilo que agora diz Pacheco.

Um dos fundamentos basilares da ILC-AO, isso sim, foi e continua a ser, abreviando em extremo, a eliminação — por ilegalidade formal e objectiva — de um expediente exclusivamente político (a RAR que aprovou o tal Protocolo, essa tremenda aldrabice) que os deputados votaram, por disciplina partidária, sem saberem ao certo aquilo que estavam a aprovar.

Todas as motivações da Iniciativa estão contidas no texto com as fundamentações da própria ILC-AO (“pela revogação da entrada em vigor do AO90, anulação da RAR 35/2008“) e todas as explicações e esclarecimentos a respeito constam de milhares de textos (“posts”), comentários, mensagens de e-mail, cartas até dactilografadas ou mesmo escritas à mão, exposições e conferências públicas, debates e entrevistas (pessoais, em grupo e a órgãos de comunicação social). NUNCA aquela formulação foi sequer aflorada por QUALQUER pessoa ligada à ou com responsabilidades na Iniciativa.

Confesso a minha total estupefacção, por conseguinte, já que acabo de ler tal coisa absolutamente pela primeira vez. O que significa, por conseguinte, que afinal não terá sido lapso ou confusão do escriba. Terá sido apenas uma fífia, uma fífia monumental, uma nota de tal forma aguda, desafinada e irritante — até pela sua espantosa amplitude “sonora” — que nem a avantajada Bianca Castafiore conseguiria fazer melhor.

Esta outra, no jornal, partiu não apenas todas as vidraças e espelhos como fez estilhaçarem-se todas as lâmpadas, tampos em vidro, copos,  pratos e travessas aqui na toca. Até o ecrã do portátil rachou de meio a meio.

De tal sorte foi o cagaçal!

Ideias com fífias e músicas sem elas

Continuaremos, no que à língua diz respeito, a ser massacrados por repetidas fífias que mais não fazem do que tentar iludir o óbvio?

Nuno Pacheco
“Público”, 27.09.18

 

Na definição que lhe é dada pelos dicionários, uma fífia é um “som ou nota desafinada, na voz ou em instrumentos de música.” Mas pode ser também, na gíria, sinónimo de erro ou tolice. Agora que se aproxima o Dia Mundial da Música (a 1 de Outubro), ficou no ar uma fífia que convém registar. Recordemo-la: no dia em que chegou a Angola, em visita oficial, o primeiro-ministro português António Costa deu uma entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola) onde, entre muitos outros temas, falou do acordo ortográfico que Angola, aliás, não ratificou. O jornalista Isidro Sanhanga perguntou-lhe, já a entrevista ia adiantada (aos 30:17 num total de 35:41, o vídeo está no Youtube): “A propósito da língua: como é que se vai resolver o grande handicap que é o acordo ortográfico? Até agora não se encontrou uma plataforma comum…” Ao que o primeiro-ministro respondeu: “Bom, Portugal fez a sua parte, cada um está a fazer a sua parte. Eu percebo as resistências que existem aqui e ali, mas eu acho que há uma coisa que é essencial que temos de compreender: as línguas não são fixas, são vivas, e as línguas vivas vão-se transformando, não só na sua ortografia como no seu vocabulário. Hoje, todos nós, quanto mais não seja fruto das novelas, introduzimos na nossa linguagem do dia-a-dia um conjunto de expressões do português do Brasil que nós não utilizávamos e também introduzimos em Portugal muitas expressões, olhe, do português falado em Angola, como ‘bué’. Hoje é uma palavra corrente em Portugal e não era.”

Na gíria, dir-se-á que isto é misturar alhos com bugalhos. Por isso suscitou comentários como o dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico: “O PM continua a não olhar para a questão com a devida profundidade e a misturar, por exemplo, léxico e ortografia, limitando-se a chavões que não resistem à lógica.” Ou o do respeitado crítico e ensaísta Eugénio Lisboa, que escreveu: “A resposta do PM é uma perfeita trapalhada, confundindo ortografia com outras coisas que não são ortografia. A teimosia dos vários governos quanto a este miserável AO é perfeitamente incompreensível. Deve andar aqui o papel dos lobbies das editoras de dicionários e outros manuais. Em Portugal, avançou-se de tal maneira no disparate, que agora ficam aterrados com a ideia de voltarem atrás…” O mesmo Eugénio Lisboa que, num artigo publicado no JL, em Agosto de 2008, já avisadamente escrevera: “Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com uma peneira.” Os políticos, sobretudo os que vão detendo à vez o poder, não tiveram até hoje essa coragem. Mas há quem tenha. Dois exemplos: a Casa da Arquitectura (com C) recebe amanhã, em Matosinhos, a exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitetura Brasileira” (sem C). Algum óbice? Nenhum. A Granta em Língua Portuguesa, com Bárbara Bulhosa por editora e Carlos Vaz Marques por director (com C), publica, como escreveu este último em editorial, textos que “percorrem os múltiplos matizes do idioma”, convocando “autores e tradutores com sotaques distintos.” E a finalizar diz: “Na Granta […] aproxima-nos e diferencia-nos a língua – simultaneamente a mesma e outra, consoante o lugar de origem. Em português nos des/entendemos.”

Será preciso muito, para afinarmos ideias a este respeito? Ou continuaremos a ser massacrados por repetidas fífias que pretendem iludir o óbvio? Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro), o Dia Mundial da Música pode permitir-nos “limpar” os ouvidos. Entre mil e uma ofertas, que decerto haverá, quem estiver dia 1 no Porto pode assistir ao projecto A Música Saiu à Rua, na Casa da Música (19h). Em Lisboa, além de um recital de Mariana Abrunheiro e Walter Hidalgo, na Associação José Afonso (19h30, com jantar), há um concerto evocativo de Fernando Lopes-Graça no Largo do Teatro Nacional de São Carlos (18h30), com o coro da Academia de Amadores de Música, o Canto Firme de Tomar e o coro Eborae Musica. Nem de propósito, o programa termina (“coros e público unidos”) com o exaltante Acordai!

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de “Ideias com fífias e músicas sem elas”, por Nuno Pacheco, “Público”, 27.09.18. Imagem de topo de: tintin.com.]

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“Os curiosos protagonistas do activismo” (…)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Ilustremos o paradigma (ou axioma, vá) com um caso flagrante de “consumidora de causas” que aterrou de pára-quedas na ILC-AO: fazia ela então uma campanha chamada “destrua as ondas, não as dunas” (acho que era qualquer coisa assim, se não era isto exactamente era algo igualmente exótico), até tinha um “blog” sobre a matéria (seja lá isso o que for), até tinha um grupo no Facebook (olha, mas que original, hem, grande surpresa, não estava nada à espera) e até tinha, por fim, uma “ideia” para propor à ILC: ela faria campanha pela ILC e, em troca, a ILC fazia campanha pelas dunas…» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.» [Inactivismo (2)]

Os curiosos protagonistas do activismo verde

 

Revista “Sábado”, 28.07.2018
Maria Henrique Espada

Há “associações” que não passam de páginas de Facebook, ligações ao BE, grupos dentro de grupos e até uma comunidade pelo sexo livre nos protestos contra o furo de Aljezur. E há movimentos com outra estrutura que admitem que isto põe um problema de credibilidade aos ambientalistas.

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Alentejo Litoral pelo Ambiente. É um dos promotores da manifestação de 14 de Abril, em Lisboa, “Enterrar de vez o furo, tirar as petrolíferas do mar”, e primeiro signatário da carta aberta a pedir a demissão do ministro do Ambiente. Ora, o que é o ALA? Não tem site, apenas uma página de Facebook gerida por Fátima Teixeira, que, na sua própria página de Facebook indica gerir ainda outra página, a Plataforma Transgénicos Fora, e trabalhar no Tamera – a comunidade alternativa do Sudoeste Alentejano, que, no seu site, no segmento “Investigação”, a par da Terra Deva (“ecologia espiritual”), exibe também referências à “sexualidade como poder sagrado”, “sexualidade e parcerias livres”, e conceitos mais difíceis de traduzir a leigos (“Ashram Político”, “Círculo das Pedras”, “Marisis”). Fátima Teixeira esteve a 21 de Abril a representar o ALA no debate Ainda é possível Parar o Petróleo?, em Vila Nova de Milfontes. E o Tamera, por sua vez, também foi um dos movimentos promotores da manifestação de dia 14.

Contactada a página de Facebook do ALA, quem respondeu afinal foi Eugénia Santa Bárbara, que em 2017 participou no protesto na marginal de Sines em que cerca de 10 pessoas se pintaram com tinta de choco para “simular um derrame de petróleo” e dizer não ao furo. Acabou por não ser possível o contacto (nunca por falta de disponibilidade da SÁBADO), e apenas ficou claro numa mensagem que o protesto de 7 de Julho, um cordão humano nas praias contra o furo, estava a ser organizado por outras pessoas, “os movimentos e organizações apoiam e divulgam”. Em resumo: o ALA é uma página de Facebook, com alguma ligação ao Tamera, e não parece ter corpos sociais nem foi possível saber se são 10 ou 100. E pelos vistos só deu o nome.

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“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

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Cruzadex (2)

«O grupo editorial Leya estima que a adaptação de cada manual escolar ao novo acordo ortográfico poderá custar entre quatro e cinco mil euros, pelo que admite o aumento dos preços de venda às famílias.

“Todo este processo de mudança da ortografia, revisão exaustiva do texto e substituição total das chapas de impressão tem custos muito elevados. Dependendo de cada manual, este valor rondará os quatro a cinco mil euros”, afirma a coordenadora de edições escolares do grupo, que detém entre 30 a 40% da quota de mercado dos manuais.» [“Expresso”, 27.02.09]

Ajuste “direto” (Governo de Portugal)


«Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.» Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), 2 de Setembro de 2009, “Diário Digital” [“post” ILCAO, 29.11.14] Ajuste “direto” (Governo de Portugal)

AP Portugal

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“Cidadania cultural”? Yeah, right…

Estranhava (eu) a presença deste fulano em diversos eventos contra o AO90, entre 2011 e 2012, sempre que Vasco Graça Moura era o orador. Na altura, como (eu) ainda era um bocado “anjinho”, pensava que talvez o tipo fosse anti-acordista, ou assim. Pois, se não fosse, o que diabo estaria ele ali a fazer, invariavelmente mudo e quedo, encolhido a um canto, com seu sorrisinho seráfico por única companhia? Seria ele uma espécie de sombra (ou de “sombrero”) que se limitava a seguir fantasmagoricamente “nosso” Vasquinho?

Mais tarde, e não tardou muito, percebi: este acordista empedernido, que agora já nem disfarça, era amigo íntimo do dito orador. Presumo, por conseguinte, que acompanhasse seu amigo a ver se poderia aprender alguma coisinha.

Ah, pois, está bem. Não resultou.

Essas relações de amizade não tiveram jamais nada a ver com as ralações que agora despudoradamente manifesta, em “perfeito” acordês, em relação ao (como diz) “património” linguístico nacional. Fala neste seu textículo  de “Palmira (Síria)” e da devastação que fundamentalistas ali provocaram, mas poderia bem falar de Palmela (Portugal) e de todos os outros sítios da nossa terra onde outros fundamentalistas vão ocasionando não menor devastação no património histórico, cultural e identitário nacional. Mas isso, pelos vistos, não incomoda nada o “amigo”, tanto se lhe dá como se lhe deu.

Que tristeza, valha-me Deus. Digo eu.

O outro lado do património…

A motivação e a participação dos mais jovens constitui o desafio mais aliciante desta iniciativa.

Guilherme d’Oliveira Martins
“Público”, 8 de Maio de 2018, 6:04

 

A escolha do Património Cultural como o tema da União Europeia neste ano de 2018 não foi produto do acaso. Correspondeu à necessidade de dar um impulso novo a um projeto comum que não pode avançar sem a memória das raízes históricas e culturais e sem um forte desafio de aprendizagem, de inovação e de modernidade. Quando Plácido Domingo, presidente da Europa Nostra, pede para que simbolicamente todos possamos fazer do Hino da Alegria de Beethoven, com o magnífico poema de Schiller, no dia 9 de maio, um verdadeiro símbolo capaz de unir consciências em nome da liberdade, da igualdade, da diversidade, da paz e da solidariedade, está a dizer-nos que há uma herança comum que temos de respeitar e dignificar. Só a atenção e o cuidado, a salvaguarda e a proteção, o não esquecer e não abandonar podem permitir a abertura de horizontes no sentido do desenvolvimento humano. Não esquecemos o dia em que Denis de Rougemont e Albert Einstein idealizaram uma instituição como o CERN (o antigo Centre Européen pour la Recherche Nucléaire) para dar à energia atómica o sentido da paz em vez do estigma da guerra. E se recordamos esse facto é para deixar claro que o património cultural, como realidade viva, liga a cultura, a educação e a ciência. Por isso, Umberto Eco disse um dia que a diferença entre aqueles que não leem e aqueles que leem é que os primeiros vivem apenas algumas dezenas de anos, enquanto os segundos vivem o tempo da civilização, três ou quatro mil anos. De facto, só seremos dignos do que recebemos das gerações que nos antecederam se soubermos combater a ignorância e a mediocridade através da compreensão donde vimos e para onde vamos.

As iniciativas do Ano Europeu do Património Cultural são múltiplas, desde o estudo e investigação, do intercâmbio científico e técnico, do aperfeiçoamento profissional, da sensibilização e da informação, até à educação e à formação, à criação e à divulgação; no entanto, a motivação e a participação dos mais jovens constitui o desafio mais aliciante e exigente. Essa é uma das marcas que Portugal tem procurado definir como essencial, distintiva e prioritária. O envolvimento das escolas, das famílias e das comunidades no estudo, compreensão, conhecimento, na atenção e no cuidado do património cultural deverá representar um dos investimentos mais sérios e duradouros desta iniciativa. Será isso que ficará. Daí o envolvimento da Rede das Bibliotecas Escolares, do Plano Nacional de Leitura e da Universidade Nova de Lisboa neste Ano Europeu – permitindo às escolas e aos jovens cidadãos o contacto com diversas formas de património: monumentos, documentos, vestígios arqueológicos, tradições, manifestações artísticas, costumes, línguas, paisagens… Adotar um monumento ou uma tradição (da gastronomia ou do artesanato, da música ou das artes visuais), tornar compreensível um símbolo, impedir que algo de valioso culturalmente seja deixado ao abandono, usar as novas tecnologias para favorecer a ligação aos valores culturais e naturais, ir ao encontro de outras paragens, de outras regiões ou de outras culturas são atos fundamentais… Daí a importância de um culto do património que favoreça o respeito mútuo, o pluralismo, a diversidade e a importância dos valores comuns de culturas diferentes. Tudo isso permitirá entender o património cultural na sua plena riqueza, assegurando que quando terminarmos este Ano poderemos ter contribuído para fortalecer a consciência patrimonial e a cidadania cultural. Nada melhor do que os mais jovens para poderem continuar a tarefa essencial de assegurar que é a sociedade civil que deve assumir em suas mãos a responsabilidade de proteger e valorizar o património. Devendo o Estado garantir o enquadramento rigoroso e incentivador da qualidade, em nome do bem comum.

O que aconteceu há poucos anos em Palmira (Síria) obriga-nos a pensar seriamente – os monumentos foram barbaramente destruídos, mas o historiador que melhor conhecia essas preciosidades também foi morto. Afinal, só as pedras vivas, as pessoas, é que poderão dar força, valor e significado às pedras mortas. Eis por que razão a mobilização das escolas, dos alunos, dos professores e das famílias constitui a melhor marca de perenidade para esta iniciativa. O outro lado do Património tem a ver com a necessidade de irmos ao encontro da História e das Humanidades, no mais rico sentido de enriquecimento mútuo pelas diferenças…Assim continuaremos a criar condições para formar e mobilizar cada vez melhores educadores, investigadores e técnicos, sobretudo cada vez melhores cidadãos ativos, capazes de tornar o património cultural potenciador de desenvolvimento humano.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Nota: por excepção, propositadamente, para não retirar um átomo ao horror que é assistir à demolição do Português por um fundamentalista, transcrevo a versão abrisileirada do original, conforme foi escrita pelo autor, pessoa raladíssima, segundo diz, com a “destruição do património” (com maiúscula inicial e tudo).

Imagem de topo de: “O Globo” (Brasil) – copyright JOSEPH EID / AFP

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