Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

«À vontade do freguês» [N. P., “Público”, 16.11.17]

Sai uma espetada para o senhor espetador!

Na “ortografia unificada” a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Nuno Pacheco, “Público”, 16.11.17

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Andou escondido, durante uns tempos, mas reapareceu. Nada a ver com Tancos, com a tragédia dos incêndios nem com o já cansativo Panteão. Trata-se do espetador. Sim, esse mesmo. Por vergonha, muita gente foi adoptando a grafia “espectador”, talvez por não quererem espetar nada em ninguém. O “espetáculo” ainda vá, lá vai surgindo com “c” ou sem ele, consoante os gostos. Já o espetador tinha desaparecido. Mas reapareceu em todo o seu esplendor. No Teatro da Trindade, agora mais activo em matéria de “espetáculos”, distribui-se um papelinho onde se lê “Antes do espetáculo, venha ao bar do teatro! -30% na comida para espetadores com bilhete do dia.” Qual será o menu? Espetadas? Na contracapa do DVD com o (muito recomendável) filme São Jorge, de Marco Martins, lê-se o seguinte: “Uma obra prima. Um banquete cinematográfico que mantém o espetador colado à cadeira.” Não deviam, antes, dizer pregado à cadeira? Ou espetado na cadeira?

O mais curioso é que se trata da tradução de uma nota elogiosa escrita no The Huffington Post; ou seja, a culpa não é de quem escreveu mas de quem traduziu. Quanto ao “espetador”, que no Brasil se diz e escreve “espectador”, com “c”, embora só se admita a grafia sem “c” para “espetáculo” (e esta é uma das muitas incongruências patentes na grafia oficial brasileira, mesmo antes do acordo ortográfico), o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) de Portugal admite duas variantes, com e sem “c”, à escolha do freguês. Mas há outro erro na frase, “obra prima”: a designação em português para masterpiece, chef-d’ouvre, obra maestra, meisterwerk ou capolavoro é obra-prima com hífen, seja em Portugal ou no Brasil, antes ou depois do acordo (está no VOC, é só conferir). Porque não há obras primas, como não há obras tias ou obras avós; é palavra composta, onde a justaposição por via do hífen lhe dá um significado novo: o de obra máxima, de excelência absoluta. Claro que estas coisas nada dizem às criaturas que tiram e põem hífenes ou consoantes a eito, porque acham que reformas é isso: tirar sinais. Basta ver as notas de rodapé nas televisões, ler legendas de filmes ou andar pelos museus para avaliar o descalabro desta aleatoriedade. Um exemplo: na colecção permanente do Museu Berardo, em Belém, há um painel intitulado “Concetualismo”. No texto desse painel, lê-se essa palavra por mais duas vezes, e lê-se também “coletivo”, respeitando os ditames do acordo ortográfico de 1990 (AO). Mas lê-se “caracterização”, “recepção”, “cariz conceptual” ou “arte conceptual”. Nem uma só vez “concetual” surge no texto. Já agora, esclareça-se que o dito VOC do Brasil não reconhece “concetualismo” nem “concetual”. Elas só existem no VOC de Portugal, mas admitindo dupla grafia. É isso: escolham.

E escolhem, nem que seja ao acaso. Numa separata comercial recente, lê-se “arquitectura” no título (com “c”), mas “atividade”, “direcionada” e “objetivos” (sem “c”) a par de “sector” (com “c”). Que bela salada mista proporciona a “ortografia unificada” que nos impingiram! Sim, porque antes do malfadado AO não havia tais mixórdias. Um exemplo, elegante e digno: a revista especializada Áudio & Cinema em Casa não respeita o AO em nenhum dos seus textos. No entanto, tem um colunista brasileiro (interessantíssimo, aliás), Holbein Menezes, cujas crónicas ou textos de análise respeitam integralmente a grafia brasileira, seja nas “eletrônicas” ou nos “fenômenos”. Vantagem: nuns e noutros textos, a ortografia é impecável, seja no português de Portugal ou do Brasil. Há mais exemplos destes, felizmente, em espectáculos, discos, livros, museus, de onde a mistela ortográfica é afastada como sujidade indesejável. Mas, apesar dessas honrosas excepções, a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Será depois do Verão?, escreveu-se aqui numa das crónicas sobre o malfadado AO. Ainda não foi. Apesar das escusas, dos protestos, da evidência clamorosa de erros, ainda nada se corrigiu e tudo segue na miséria de antes. Saúde-se o sinal de vida dado, esta semana, pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, através de um texto de Rui Valente no PÚBLICO intitulado “4379 Cidadãos para a Língua Portuguesa.” Esta e outras iniciativas contribuem para que não se esqueça tão magno assunto. Não é saudosismo nem reaccionarismo, como pretendem os mentores dessa aberração técnica e linguística conhecida por acordo ortográfico. É apenas senso. E higiene.

P.S.: Entre muitos outros textos publicados sobre este tema, destacaria aqui uma série relativamente recente, que tem vindo a ser publicada no PÚBLICO online, da autoria do jornalista, formador e revisor Manuel Matos Monteiro, sob o título genérico “Admirável Língua Nova” (parte I, parte II, parte III e parte IV).

Nuno Pacheco


Nota: os “links” em cor verde são meus.

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«Resistir ao disparate» [Rui Valente, “Público”]

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa

A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se.

Rui Valente –

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No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

O Acordo Ortográfico sempre foi um desastre, sob todos os pontos de vista: científico, político, social. A fuga para a frente e a insistência na sua aplicação só tem servido para agravar ainda mais o estado da ortografia no nosso país. Neste contexto, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. O que correu mal?

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes acabou — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa mas, passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90, cuja única conclusão, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem. Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Rui Valente

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

“Público”, 14.11.17

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AO90: a tomada de três pinos “lusófona”

   Miguel Ferreira 
Published on Oct 21, 2017
Com Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier. Quais são as diferenças entre o português falado no Brasil e o português falado em Portugal? Elas são duas línguas diferentes ou dois lados de uma mesma moeda?

RAP – A gente estava nos bastidores a falar sobre a maneira como o acordo ortográfico não resolve rigorosamente nada.
GD – E cria novos problemas.
RAP – Exacto. Até porque o acordo ortográfico ataca precisamente o único sítio onde a gente não tem muita dificuldade em entender-se. A gente escreve “acção” com dois “cês” e vocês escrevem só com um. Não interessa muito. Agora, a maneira por causa da qual a gente se desentende tem a ver, às vezes, com o vocabulário. Se em Portugal eu disser “tou no acostamento porque a minha perua não tem estepe” não há um português… um português entende que se está a falar português mas ele não sabe nada do que se está a dizer. Porque em Português essa frase diz-se “estou na berma porque a minha carrinha não tem pneu sobressalente”. É muito diferente de “acostamento porque a minha perua não tem estepe”. E, portanto, as nossas diferenças são às vezes de pronúncia e de sotaque e outras vezes são de vocabulário, sendo que essas diferenças nos deviam enriquecer e não afastar. E, como é óbvio, o acordo ortográfico não resolve em nada essa questão.
GD – Além de criar problemas terríveis! Terríveis! Eu acho que, realmente, na minha opinião, foi um crime para mim tão grande quanto a tomada de três pinos. Eu acho que ele é uma tomada de três pinos linguística. Porque ele cria uma solução para um problema que não havia. Ninguém olhava para a tomada de dois pinos e falava “hum, falta alguma coisa aqui!” Não existia isso. Ninguém olhava para a língua portuguesa e falava “hum, tá faltando aqui… ai, esse trema!, eu não aguento esse trema! Não posso com esse trema! Ai, me dá uma preguiça de escrever esse trema!” Ninguém falava isso. Então me irrita profundamente, que é uma solução para um problema que não havia, sabe? De repente tem de jogar fora todos os livros e recomeçar do zero porque “ah, não, é para unificar a língua”, “ah, não, é para as pessoas lerem mais”… realmente, porquê?, porque o pessoal não lia no Brasil?, ninguém lia por causa do trema?
RAP – Estou louco p’ra ler o Machado de Assis mas tenho nojo destes tremas. É isso…

Imagem copiada de “banguelo.com

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O camartelo (3)

By An Siarach at English Wikipedia [Public domain], via Wikimedia Commons

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.» [George Orwell, “1984”]

……….

Reescrever a História significa apagar, fazer desaparecer, eliminar tudo aquilo que não interessa à narrativa que alguém pretende transformar em facto consumado, em verdade incontestável. 

Primeiro, impõe-se essa narrativa com uma premissa minimalista, algo como “é assim porque tem de ser assim” e depois, caso surja alguma espécie de resistência (o que varia na razão directa do nível de imbecilidade veiculada pelo absurdo narrado), então altera-se o passado em conformidade e, por conseguinte, a premissa inflecte imbecilmente: “é assim porque sempre foi assim”.

No que diz respeito a Língua e a ortografia, em particular, este mecanismo eminentemente político — ou seja, de condicionamento mental das massas, vulgo, chicote mental  — implica, como é evidente, técnicas de apagamento da memória utilizando mecanismos com efeitos retroactivos.

Em “1984“, obra publicada em 1949, vemos legiões de funcionários — do Ministério da Verdade, nem de propósito — alterando laboriosamente, dia após dia, 24 sobre 24 horas, todos os documentos, as edições de livros, jornais e revistas, as placas toponímicas e letreiros, as gravações, registos ou inscrições em qualquer suporte. O trabalho daqueles funcionários consiste em quatro directivas simples, claras, objectivas e consequentes entre si:

  1. Todos os factos actualmente determinados como correctos pelo Partido sempre foram estes, jamais se verificaram outros e nunca estes factos se passaram de outra forma que não desta forma.
  2. O que vale para os factos vale para as pessoas, que não passam de factos com pernas, apenas existem enquanto fizerem parte da narrativa oficial: se alguma dessas pessoas cair em desgraça ou por algum motivo deixar de interessar ao Partido, isto é, à “verdade” única, universal e eterna, então essa pessoa será eliminada (“vaporizada”, literalmente, é o termo técnico) sem deixar qualquer vestígio, desaparece o seu nome, nunca existiu, foi uma “não-pessoa” da qual muito em breve ninguém conservará a mais vaga recordação.
  3. E o que vale para factos e para pessoas vale também para a linguagem, para as próprias palavras: a língua antiga deve ser integral e radicalmente substituída pela Novilíngua,  vaporizando-se aquela por grosso e qualquer vestígio dela por atacado.
  4. As três directivas anteriores não existem, nunca existiram e quem disser o contrário também nunca existiu.

Está aqui implícita uma mais do que óbvia analogia, quanto ao que nos interessa em especial:

  • O Partido é o AO90, ou seja, a amálgama de interesses económicos e políticos em que se consubstancia tão horripilante maquinação.
  • Os funcionários do Ministério da Verdade são os mercenários pagos para substituir a língua antiga pela Novilíngua (enfim, o AO90 é mais uma espécie de salgalhada ininteligível).
  • A finalidade prática dos trabalhos de revisão sistemática do passado e de reescrita da História é que a língua antiga seja esquecida.
  • A finalidade política, o objectivo do Partido, é que a Novilíngua substitua a antiga e assim qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.

Ora, o Partido já procedeu à liquidação sumária da diferenciação entre as duas variantes do Português (em teclados, sistemas operativos e programas de computador, nas plataformas e redes virtuais), o Partido já levou à quase extinção a bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais, o Partidotornou obrigatório nos organismos do Estado algo que absolutamente nada tem a ver com o Estado.

Disto já todos sabemos, isto já todos vamos vendo quotidianamente.

Mas aquilo de que ainda muito pouco ou nada se fala (porque será?) é o sinistro processo em curso de revisão do passado. O Partido necessita de “corrigi-lo” para que ele encaixe definitivamente (“porque sempre foi assim”) na tal narrativa oficial que para o dito Partido é a única aceitável — e portanto jamais poderá ter existido qualquer outra.

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“A nossa língua ninguém pode comprar” [revista “Raia Diplomática”, 20.10.17]

“Ki Nobas”?

Pergunta um luso-descendente do Bairro Português de Malaca a querer saber novidades.

Esta é uma das expressões que oiço habitualmente. Um pouco do nosso Portugal longínquo e flutuante, herança portuguesa de uma outra geração.

Um dia, uma amiga chinesa visitou-me em Malaca e levei-a a conhecer a comunidade. Cruzámo-nos com o Senhor António, que caminhava com o seu carrinho de mão e as suas redes de pesca ao longo da rua Teixeira. Apresentei-o falando em inglês, dizendo que era o meu amigo António. A minha amiga disse “Hello Anthony”, ao qual ele respondeu “My name is António, Portuguese name” apertando a mão e sorrindo.

A identidade de um povo, assim como de uma comunidade, sente-se na alma das pessoas quando convivemos com elas no dia-a-dia, sente-se na sua vontade de querer ser, na forma como reagem e interpretam a sua história e como a projectam no futuro.

Na isti parti di mundo”, deparei-me com várias gerações de pessoas orgulhosas da nossa identidade. O senhor que canta o fado, a criança que joga ao berlinde, o jovem que dança folclore, a senhora que confecciona bolos tradicionais, o senhor da mercearia.

Conheço gente com verdadeira alma lusitana sem nunca terem visitado Portugal. Sentem-se portugueses, sem renegarem a sua nacionalidade Malasiana. Houve uma evolução diferente do Português na comunidade luso-descendente de Malaca, uma evolução que resultou da simples vontade e necessidade de querer comunicar na língua materna. Foi esta vontade, este sentir, esta necessidade de se identificarem com os seus antepassados que permitiu que ainda hoje se possa ouvir em Malaca: “Sou Português”.

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“Justo para o recorde”

1. Julgando a maioria dos deputados estar a votar a admissão de Timor-Leste, a Assembleia da República aprovou em 2008 a entrada em vigor do AO90.

«Como foi possível que a entrada em vigor do “acordo ortográfico” de 1990 tenha sido aprovada pelo Parlamento? Se a esmagadora maioria do povo português demonstra a sua aversão “àquilo”, como espectacularmente demonstram todos os inquéritos e sondagens de opinião, como puderam 230 deputados aprovar a RAR 35/2008 com 17 abstenções e apenas quatro votos contra?» [ILC-AO, 3 de Fevereiro de 2013]

«Na votação de hoje na Assembleia da República, estava em causa apenas a adesão de Timor-Leste ao Acordo Ortográfico e a possibilidade deste poder entrar em vigor após três ratificações, como estabelece o segundo protocolo modificativo.» [“Despacho” da agência Lusa, 16 de Maio de 2008.]

 

2. Em Julho de 2016 o Parlamento simplificou os procedimentos e reduziu os requisitos das Iniciativas Legislativas de Cidadãos, em especial pela anulação do anacronismo, da inutilidade e da redundância que era a exigência dos dados de eleitor nas subscrições.

Requisitos: As assinaturas de todos os proponentes, em suporte papel ou electrónicas, consoante a modalidade de submissão, com indicação do nome completo, do número do bilhete de identidade ou do cartão de cidadão e da data de nascimento correspondentes a cada cidadão subscritor; [Lei Orgânica n.º 1/2016, Art.º 6.º]

 

3. Absolutamente de repente e sem qualquer espécie de motivo, os deputados aprovaram por unanimidade, em Julho de 2017, a reposição do anacronismo, da inutilidade e da redundância que um ano antes tinham anulado.

Requisitos: A identificação de todos os proponentes, em suporte de papel ou por via electrónica, consoante a modalidade de submissão, com indicação do nome completo, do número do bilhete de identidade ou do cartão de cidadão, do número de eleitor e da data de nascimento correspondentes a cada cidadão subscritor; [Lei n.º 52/2017, Art.º 6.º]

 


 

Já aqui tinha desenhado outra sinopse sobre este mesmo assunto mas confesso, devido a um inopinado ataque de perplexidade, que ainda não entendi patavina: como é possível, como raio sucedeu esta coisa?!

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