Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

‘Improba vita, mors optabilior’

Irreversível, o acordo ortográfico? Só uma coisa é irreversível: a morte

Nuno Pacheco
publico.pt, 10 de Janeiro de 2019, 7:30
(actualizada às 11:25)

 

Chegado a 2019, o grupo Cofina decidiu estender a aplicação do acordo ortográfico de 1990 (AO90) às restantes publicações do grupo. Já aplicado no Correio da Manhã, no Destak, no Record e na CMTV, ei-lo agora no Jornal de Negócios e nas revistas Sábado, Máxima e TV Guia.

Razões? Porque “é inegável que a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”, disse o director do Jornal de Negócios. Já a Sábado, na pequena nota que escreveu sobre o assunto, quis deixar bem claro que “o novo acordo não é perfeito, foi mais político do que técnico, mas é hoje uma realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”. Mais: “Quando várias gerações de jovens estudantes já estudam por manuais adaptados à nova grafia e toda a administração pública está vinculada a ele, não faz sentido persistir numa atitude de resistência anacrónica.”

Recuando seis anos, há alguma similitude com o argumento invocado pelo Correio da Manhã para “adotar” (sic) o AO90 a partir de 2 de Janeiro de 2013. “Já é seguido nos manuais escolares, nos livros, na legendagem”, diziam. Para concluir: “Nunca seremos um obstáculo à mudança.” Portanto, toca a “tornar a comunicação mais fácil”. Como? Escolhendo o que mais lhes convinha, claro! “Nas palavras que admitem dupla grafia optámos por manter tal como na ‘escrita antiga’.”

Sim? Fizeram-no em pára e “para”. Mas é bom recordar o resto: se entre espectador e “espetador” e ceptro e “cetro” escolheram as primeiras, no mais fizeram o contrário do que prometiam, optando por “aspeto” em lugar de aspecto, “carateres” em vez de caracteres, “receção” em vez de recepção, “perentório” em vez de peremptório, “setor” em vez de sector, sendo os restantes exemplos falsas escolhas, porque apresentavam como “dupla grafia” palavras que nunca existiram em Portugal, sendo usadas apenas na fala e na escrita brasileira: anistia (amnistia), indenizar (indemnizar), suntuoso (sumptuoso), fato (como facto) ou até gênio (génio)!

É isto optar pela “escrita antiga”? Não leram sequer o que escreveram? Não devem ter lido, senão não deixavam passar esta “dupla grafia” extraordinária: “​fémea” [sic] e fêmea. Escolheram a segunda, claro. Aliás, era fácil, porque a primeira não existe em lado nenhum. Ia assim a brincadeira, nos idos de 2013. Agora, por decisão cofineira, alastrou. Teme-se o pior.

Mas, para lá desta mudança, que só irá contribuir para ampliar o caos ortográfico reinante a que alguns chamam “nova ortografia” (embora não passe de uma ridícula mistura de grafias a esmo, sem freio nem norte), pesemos os argumentos. O AO90 é mesmo uma “realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”? E é verdade que “a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”?

Para palavras, antes tivessem escolhido “enfermeiros”, como fez a Porto Editora. Era mais aplicável neste contexto, até porque a ortografia da língua portuguesa, na forma que lhe foi imposta em Portugal (não por lei, mas já lá iremos), precisa mais de cuidados médicos do que de palavras como “incontornável”, “assimilada”, “estabilizada” e “irreversível”. Todas falsas, como a realidade demonstra.

Mas recuemos a 2011, quando o XIX Governo (PSD-CDS) dizia no seu programa que “acompanhará a adopção do Acordo Ortográfico” (assim mesmo, sem AO90, senão teriam escrito “adoção”) com vista à “crescente universalização” da língua portuguesa. Na mesma altura, o então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, declarava ao Diário Digital: “O acordo ortográfico é uma nova norma do acordo a que se chegou e é para ser implementado. Vamos prosseguir o trabalho de implementação porque é um caminho sem retorno.”

Dois anos depois, já ex-governante, o mesmo Francisco José Viegas afirmava ao jornal Record (25/3/2013): “Já não suporto falar do acordo ortográfico, acho que já ninguém o suporta. Portugal e o Brasil já não suportam o acordo ortográfico. E o que acontece é que para fechar o acordo é preciso fechar o vocabulário. Agora isso ainda não aconteceu. E o Governo anterior quis correr mais depressa, ser pioneiro nessa matéria, e impôs a entrada em vigor para 2012. Sem Angola ter dito que sim e sem o vocabulário estar concluído.”

Chegados a 2019, eis o panorama: o dito “vocabulário” está “concluído”, não um mas vários e contraditórios entre si; Angola, tal como Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste não entregaram os instrumentos de ratificação do AO90, logo não lhe disseram “sim”; e o AO90, que inventou para Portugal um grande número de palavras que ninguém aplica noutro país (mudando até muitas que aqui e no Brasil se escreviam da mesma maneira), está “em vigor” por resoluções do Conselho de Ministros e da Assembleia da República, enquanto o acordo de 1945 se mantém em vigor por lei – que não foi revogada, nem podia ser, por resoluções ministeriais ou parlamentares.

A finalizar, e parafraseando Francisco José Viegas, se já ninguém suportava o acordo ortográfico em 2013, o que devemos dizer agora, em 2019? Talvez isto: como várias asneiras outrora cometidas e felizmente corrigidas, esta só espera por um momento de clarividência. Porque irreversível, neste mundo, só mesmo a morte.

Errata: Por lapso (já corrigido), escrevi inicialmente, no segundo parágrafo, Visão onde deveria estar, como é óbvio, Sábado. As minhas desculpas aos leitores e às revistas visadas.

Nuno Pacheco

[Os “links” a verde são meus.]

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Tribunal de contas

– Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relógio. E eu aqui, empregado público, tendo deveres para com o Estado, logo às dez horas da manhã.
– Que diabo se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? Cavaqueia-se?
– Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo… Até contas!

‘Os Maias’, Eça de Queirós

 

Palavras inventadas pelo AO90

Desde que Maria Regina Rocha avançou com uns números sobre “a falsa unidade ortográfica”, em Janeiro de 2013, passaram-se mais cinco longos e penosos anos de sistemática demolição da Língua Portuguesa. Aquele  estudo tinha por peça central uma contagem (“feita manualmente”, como honestamente refere a própria autora) com o objectivo de responder à seguinte dúvida: «quantas palavras se escreviam de forma diferente no Brasil em comparação com a forma como as mesmas palavras se escreviam em Portugal e nos restantes países de Língua Oficial Portuguesa antes do Acordo e depois do Acordo?»

Uma pergunta quiçá comprida para a qual parece ter com a dita contagem manual encontrado uma resposta mais ou menos do mesmo tamanho: «havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, ‘facto’ – ‘fato’), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, ‘abstracto’ e ‘abstrato’ resultam em ‘abstrato’), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.»

Tal estudo mai-los respectivos apuros tiveram suas repercussões, na verdade teve esse mérito, e alguns ecos do artigo foram reproduzidas aqui, neste modesta, pequenininha, irrelevante posta restante.

Embirrando, porém, solenemente, com falibilidades em geral e com contagens “feitas à mão” em particular, dediquei-me em Abril de 2017 a autopsiar as contas — as mesmas ossadas do cadáver depositado na morgue que é o “Portal da Língua Portuguesa” — utilizando ferramentas cirúrgicas (folha-de-cálculo) com fórmulas de análise e automatismos de sistematização; esta espécie de dissecação visou obter uma resposta concreta, estatisticamente sustentada, a uma outra pergunta: afinal, é verdade o que diz Bechara (e o que papagueiam outros aldrabões que tal), ou seja, «O Brasil cedeu mais do que Portugal no Acordo Ortográfico»?

A resposta consiste, evidentemente, em três letrinhas apenas: NÃO.

Três letrinhas essas que se expandiram exponencialmente, de caminho, com resultados sempre baseados em dados concretos e segundo cálculos algébricos, algoritmos segundo critérios lógicos, formulações sem qualquer pressuposto ou tendência. Do que resultou que de facto não, o Brasil não cedeu mais do que Portugal e não apenas não cedeu mais, como aquilo (em) que cedeu foi, exactamente, precisamente, rigorosamente… ZERO. O Brasil não cedeu absolutamente nada (nem em coisa nenhuma).

Em comum, o estudo de MRR, feito “à mão”, e o meu trabalho, feito “à máquina”, tiveram o facto de se basearem nos “dados” — pomposa designação para aquele amadorístico, manhoso, aldrabado amontoado de “entradas” — constantes do chamado “Vocabulário de[sic] Mudança“, uma parvoíce com que o Portal da Língua Portuguesa pretende enganar os incautos, satisfazer os vendidos, bajular os donos da Língua e, sobretudo, justificar o injustificável.

No entanto, se em comum têm a origem dos “dados”, as semelhanças entre os dois estudos ficam-se por aí. Em tudo o mais são radicalmente diferentes, ainda que resultem algumas coincidências e até uma, uma única similitude.

Afirma MRR: «Esta última situação é a mais aberrante: são 200 as palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal.»

Bem, este tirinho quase acertou em cheio na “mouche”. Não são 200, são 215 as palavras INVENTADAS pelo AO90.

215 palavras que antes do AO90 se escreviam exactamente da mesma forma no Brasil e em Portugal (e nos PALOP) mas que por via do AO90 — segundo a “lógica” «o que não se pronuncia não se escreve» — passam a ter duas grafias: no Brasil mantêm-se inalteradas, intactas, mas em Portugal (e nos PALOP) passam a escrever-se de forma que anteriormente não existia em lado algum.

As palavras INVENTADAS pelo AO90 são as seguintes:

aceção
acetor
adocianismo
adociano
adotação
afecional
afecionalidade
angietático
anorético
antártia
antasfítico
anticeticismo
anticético
anticoncecional
anticoncetivo
antiprático
antissético
aperceção
apercetibilidade
apercetível
apercetivo
apocaliticismo
apossético
aprático
artícola
assético
aurifatório
bronquetásico
cato
cardiorrético
cinorético
clidorrético
coatar
coátil
conceção
concecional
concecionário
concetaculífero
concetáculo
concetibilidade
concetismo
concetista
concetístico
concetiva
concetível
concetividade
concetivo
concetual
concetualismo
concetualista
concetualístico
concetualização
concetualizar
concetualmente
confeção
confecionador
confecionar
confecionável
conspeção
contraceção
contracetivo
contrarrutura
corretismo
corretivamente
deceção
dececionado
dececionante
dececionar
dececionável
decetivo
defeção
defetibilidade
defetível
defetividade
defetivo
defetório
defetuoso
desmorrético
deteção
eclítica
eclítico
exterocetivo
exterocetor
extratiforme
filocato
flitena
foteletrão
glitografia
hematossético
heterossético
impercetibilidade
impercetível
impercetivelmente
imperfetibilidade
imperfetível
imperfetivelmente
imperfetividade
imperfetivo
indefetibilidade
indefetível
indetetável
interceção
intercetação
intercetado
intercetador
intercetadora
intercetante
intercetar
intercetável
intercetivo
interceto
intercetor
intercetora
intercetório
interrutor
interrutora
intersetar
intusceção
intuspetivamente
intussusceção
iridorrético
melocato
metamorfótico
metapetina
metrorrético
multinfeção
olfação
oticometria
oticométrico
paralaticamente
penatisseto
perceção
percecionar
percecionismo
percecionista
percetibilidade
percetivamente
percetível
percetivelmente
percetividade
percetivo
perceto
percetual
perenção
perento
perentoriamente
perentoriedade
perentório
perfecional
perfecionismo
perfecionista
perfecionístico
perfetibilismo
perfetibilista
perfetibilizar
perfetivação
perfetível
perfetividade
perfetivo
perirretite
plasmorrético
polipletro
precetista
precetivamente
precetivo
precetor
precetora
precetorado
precetoral
precetoria
precetorial
preconceção
preconcetivo
propriocetivo
propriocetor
prospeção
pseudorrético
quimiorreceção
quimiorrecetividade
quimiorrecetivo
quimiorrecetor
radiorrecetor
receção
rececionado
rececionamento
rececionante
rececionar
rececionável
rececionista
recetação
recetacular
recetáculo
recetado
recetador
recetadora
recetar
recetibilidade
recetiva
recetível
recetividade
recetivo
recetor
recetora
recoleção
refetivo
refetório
rutura
seticidade
sético
subaceção
susceção
teledeteção
teledetetar
transcetor

Porém, se quanto à questão das invenções até andou lá perto, já quanto à outra afirmação — mais extensa, mais ao comprido — parece-me, peço humildemente perdão pelo atrevimento, que MRR se estendeu.

Não, não «havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, ‘facto’ – ‘fato’), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, ‘abstracto’ e ‘abstrato’ resultam em ‘abstrato’), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.»

Nada disso. Nem perto.

Como veremos.

[Imagem de topo de: “Oferta de Emprego“.]
[“post” revisto em 02.01.19 às 04:34.]

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Quem não sabe ler…


 

…vê os bonecos

 

……………..

 

Esta é só uma pequena amostra de um trabalho em curso que irá sendo actualizado a pouco e pouco. A sequência de imagens é aleatória, não cronológica, e ficará em página própria como repositório ilustrado daquilo que é o Apartado 53.

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Uma fífia monumental

Uma estranhíssima observação com que Nuno Pacheco obsequeia os leitores do “Público” neste seu artigo suscita-me um ou outro comentário, à laia de “nota prévia”.

Refiro-me a apenas parte de uma única frase, em todo o texto, mas, na minha opinião, semelhante formulação terá sido ou mero lapso de memória ou simples confusão mental momentânea do autor. A dita frase, cuja segunda parte não interessa para o caso, é a seguinte:

«Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro) […]»

Perdão? Como assim?

Tal construção frásica implica uma ideia subjacente que nunca, jamais, em tempo algum foi O motivo basilar do lançamento da ILC-AO em Abril de 2010. Nem então foi O motivo como ainda hoje, que eu saiba, apesar de estar “reformado” desde Julho de 2015, tal ideia é sequer UM dos motivos que norteiam a mesma Iniciativa cívica.

Porque, note-se, a interpretação mais óbvia da formulação (exclusiva) de Nuno Pacheco é que bastaria então a ratificação de mais quatro países para que o AO90 entrasse legalmente em vigor em todos os oito membros da CPLP. O que implicaria, nesse caso, que a ILC-AO deixaria de fazer sentido — até com efeitos retroactivos, para cúmulo do absurdo — assim que a Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Timor-Leste ratificassem o II Protocolo Modificativo do “acordo ortográfico” de 1990.

Nada disso. Nada mais falso. Essa hipótese não se coloca, assim como nunca se colocou ou esteve sequer alguma vez sob cogitação;  não existe portanto o mais ínfimo fundamento naquilo que agora diz Pacheco.

Um dos fundamentos basilares da ILC-AO, isso sim, foi e continua a ser, abreviando em extremo, a eliminação — por ilegalidade formal e objectiva — de um expediente exclusivamente político (a RAR que aprovou o tal Protocolo, essa tremenda aldrabice) que os deputados votaram, por disciplina partidária, sem saberem ao certo aquilo que estavam a aprovar.

Todas as motivações da Iniciativa estão contidas no texto com as fundamentações da própria ILC-AO (“pela revogação da entrada em vigor do AO90, anulação da RAR 35/2008“) e todas as explicações e esclarecimentos a respeito constam de milhares de textos (“posts”), comentários, mensagens de e-mail, cartas até dactilografadas ou mesmo escritas à mão, exposições e conferências públicas, debates e entrevistas (pessoais, em grupo e a órgãos de comunicação social). NUNCA aquela formulação foi sequer aflorada por QUALQUER pessoa ligada à ou com responsabilidades na Iniciativa.

Confesso a minha total estupefacção, por conseguinte, já que acabo de ler tal coisa absolutamente pela primeira vez. O que significa, por conseguinte, que afinal não terá sido lapso ou confusão do escriba. Terá sido apenas uma fífia, uma fífia monumental, uma nota de tal forma aguda, desafinada e irritante — até pela sua espantosa amplitude “sonora” — que nem a avantajada Bianca Castafiore conseguiria fazer melhor.

Esta outra, no jornal, partiu não apenas todas as vidraças e espelhos como fez estilhaçarem-se todas as lâmpadas, tampos em vidro, copos,  pratos e travessas aqui na toca. Até o ecrã do portátil rachou de meio a meio.

De tal sorte foi o cagaçal!

Ideias com fífias e músicas sem elas

Continuaremos, no que à língua diz respeito, a ser massacrados por repetidas fífias que mais não fazem do que tentar iludir o óbvio?

Nuno Pacheco
“Público”, 27.09.18

 

Na definição que lhe é dada pelos dicionários, uma fífia é um “som ou nota desafinada, na voz ou em instrumentos de música.” Mas pode ser também, na gíria, sinónimo de erro ou tolice. Agora que se aproxima o Dia Mundial da Música (a 1 de Outubro), ficou no ar uma fífia que convém registar. Recordemo-la: no dia em que chegou a Angola, em visita oficial, o primeiro-ministro português António Costa deu uma entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola) onde, entre muitos outros temas, falou do acordo ortográfico que Angola, aliás, não ratificou. O jornalista Isidro Sanhanga perguntou-lhe, já a entrevista ia adiantada (aos 30:17 num total de 35:41, o vídeo está no Youtube): “A propósito da língua: como é que se vai resolver o grande handicap que é o acordo ortográfico? Até agora não se encontrou uma plataforma comum…” Ao que o primeiro-ministro respondeu: “Bom, Portugal fez a sua parte, cada um está a fazer a sua parte. Eu percebo as resistências que existem aqui e ali, mas eu acho que há uma coisa que é essencial que temos de compreender: as línguas não são fixas, são vivas, e as línguas vivas vão-se transformando, não só na sua ortografia como no seu vocabulário. Hoje, todos nós, quanto mais não seja fruto das novelas, introduzimos na nossa linguagem do dia-a-dia um conjunto de expressões do português do Brasil que nós não utilizávamos e também introduzimos em Portugal muitas expressões, olhe, do português falado em Angola, como ‘bué’. Hoje é uma palavra corrente em Portugal e não era.”

Na gíria, dir-se-á que isto é misturar alhos com bugalhos. Por isso suscitou comentários como o dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico: “O PM continua a não olhar para a questão com a devida profundidade e a misturar, por exemplo, léxico e ortografia, limitando-se a chavões que não resistem à lógica.” Ou o do respeitado crítico e ensaísta Eugénio Lisboa, que escreveu: “A resposta do PM é uma perfeita trapalhada, confundindo ortografia com outras coisas que não são ortografia. A teimosia dos vários governos quanto a este miserável AO é perfeitamente incompreensível. Deve andar aqui o papel dos lobbies das editoras de dicionários e outros manuais. Em Portugal, avançou-se de tal maneira no disparate, que agora ficam aterrados com a ideia de voltarem atrás…” O mesmo Eugénio Lisboa que, num artigo publicado no JL, em Agosto de 2008, já avisadamente escrevera: “Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com uma peneira.” Os políticos, sobretudo os que vão detendo à vez o poder, não tiveram até hoje essa coragem. Mas há quem tenha. Dois exemplos: a Casa da Arquitectura (com C) recebe amanhã, em Matosinhos, a exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitetura Brasileira” (sem C). Algum óbice? Nenhum. A Granta em Língua Portuguesa, com Bárbara Bulhosa por editora e Carlos Vaz Marques por director (com C), publica, como escreveu este último em editorial, textos que “percorrem os múltiplos matizes do idioma”, convocando “autores e tradutores com sotaques distintos.” E a finalizar diz: “Na Granta […] aproxima-nos e diferencia-nos a língua – simultaneamente a mesma e outra, consoante o lugar de origem. Em português nos des/entendemos.”

Será preciso muito, para afinarmos ideias a este respeito? Ou continuaremos a ser massacrados por repetidas fífias que pretendem iludir o óbvio? Enquanto avançam iniciativas como a ILC-AO, procurando reconduzir o AO ao seu enquadramento inicial (sem a ratificação dos oito países envolvidos, nada feito; e só ratificaram quatro), o Dia Mundial da Música pode permitir-nos “limpar” os ouvidos. Entre mil e uma ofertas, que decerto haverá, quem estiver dia 1 no Porto pode assistir ao projecto A Música Saiu à Rua, na Casa da Música (19h). Em Lisboa, além de um recital de Mariana Abrunheiro e Walter Hidalgo, na Associação José Afonso (19h30, com jantar), há um concerto evocativo de Fernando Lopes-Graça no Largo do Teatro Nacional de São Carlos (18h30), com o coro da Academia de Amadores de Música, o Canto Firme de Tomar e o coro Eborae Musica. Nem de propósito, o programa termina (“coros e público unidos”) com o exaltante Acordai!

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de “Ideias com fífias e músicas sem elas”, por Nuno Pacheco, “Público”, 27.09.18. Imagem de topo de: tintin.com.]

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“Os curiosos protagonistas do activismo” (…)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Ilustremos o paradigma (ou axioma, vá) com um caso flagrante de “consumidora de causas” que aterrou de pára-quedas na ILC-AO: fazia ela então uma campanha chamada “destrua as ondas, não as dunas” (acho que era qualquer coisa assim, se não era isto exactamente era algo igualmente exótico), até tinha um “blog” sobre a matéria (seja lá isso o que for), até tinha um grupo no Facebook (olha, mas que original, hem, grande surpresa, não estava nada à espera) e até tinha, por fim, uma “ideia” para propor à ILC: ela faria campanha pela ILC e, em troca, a ILC fazia campanha pelas dunas…» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

«Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.» [Inactivismo (2)]

Os curiosos protagonistas do activismo verde

 

Revista “Sábado”, 28.07.2018
Maria Henrique Espada

Há “associações” que não passam de páginas de Facebook, ligações ao BE, grupos dentro de grupos e até uma comunidade pelo sexo livre nos protestos contra o furo de Aljezur. E há movimentos com outra estrutura que admitem que isto põe um problema de credibilidade aos ambientalistas.

————————–

Alentejo Litoral pelo Ambiente. É um dos promotores da manifestação de 14 de Abril, em Lisboa, “Enterrar de vez o furo, tirar as petrolíferas do mar”, e primeiro signatário da carta aberta a pedir a demissão do ministro do Ambiente. Ora, o que é o ALA? Não tem site, apenas uma página de Facebook gerida por Fátima Teixeira, que, na sua própria página de Facebook indica gerir ainda outra página, a Plataforma Transgénicos Fora, e trabalhar no Tamera – a comunidade alternativa do Sudoeste Alentejano, que, no seu site, no segmento “Investigação”, a par da Terra Deva (“ecologia espiritual”), exibe também referências à “sexualidade como poder sagrado”, “sexualidade e parcerias livres”, e conceitos mais difíceis de traduzir a leigos (“Ashram Político”, “Círculo das Pedras”, “Marisis”). Fátima Teixeira esteve a 21 de Abril a representar o ALA no debate Ainda é possível Parar o Petróleo?, em Vila Nova de Milfontes. E o Tamera, por sua vez, também foi um dos movimentos promotores da manifestação de dia 14.

Contactada a página de Facebook do ALA, quem respondeu afinal foi Eugénia Santa Bárbara, que em 2017 participou no protesto na marginal de Sines em que cerca de 10 pessoas se pintaram com tinta de choco para “simular um derrame de petróleo” e dizer não ao furo. Acabou por não ser possível o contacto (nunca por falta de disponibilidade da SÁBADO), e apenas ficou claro numa mensagem que o protesto de 7 de Julho, um cordão humano nas praias contra o furo, estava a ser organizado por outras pessoas, “os movimentos e organizações apoiam e divulgam”. Em resumo: o ALA é uma página de Facebook, com alguma ligação ao Tamera, e não parece ter corpos sociais nem foi possível saber se são 10 ou 100. E pelos vistos só deu o nome.

(mais…)

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“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

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