Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

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Cruzadex (2)

«O grupo editorial Leya estima que a adaptação de cada manual escolar ao novo acordo ortográfico poderá custar entre quatro e cinco mil euros, pelo que admite o aumento dos preços de venda às famílias.

“Todo este processo de mudança da ortografia, revisão exaustiva do texto e substituição total das chapas de impressão tem custos muito elevados. Dependendo de cada manual, este valor rondará os quatro a cinco mil euros”, afirma a coordenadora de edições escolares do grupo, que detém entre 30 a 40% da quota de mercado dos manuais.» [“Expresso”, 27.02.09]

Ajuste “direto” (Governo de Portugal)


«Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.» Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), 2 de Setembro de 2009, “Diário Digital” [“post” ILCAO, 29.11.14] Ajuste “direto” (Governo de Portugal)

AP Portugal

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“Cidadania cultural”? Yeah, right…

Estranhava (eu) a presença deste fulano em diversos eventos contra o AO90, entre 2011 e 2012, sempre que Vasco Graça Moura era o orador. Na altura, como (eu) ainda era um bocado “anjinho”, pensava que talvez o tipo fosse anti-acordista, ou assim. Pois, se não fosse, o que diabo estaria ele ali a fazer, invariavelmente mudo e quedo, encolhido a um canto, com seu sorrisinho seráfico por única companhia? Seria ele uma espécie de sombra (ou de “sombrero”) que se limitava a seguir fantasmagoricamente “nosso” Vasquinho?

Mais tarde, e não tardou muito, percebi: este acordista empedernido, que agora já nem disfarça, era amigo íntimo do dito orador. Presumo, por conseguinte, que acompanhasse seu amigo a ver se poderia aprender alguma coisinha.

Ah, pois, está bem. Não resultou.

Essas relações de amizade não tiveram jamais nada a ver com as ralações que agora despudoradamente manifesta, em “perfeito” acordês, em relação ao (como diz) “património” linguístico nacional. Fala neste seu textículo  de “Palmira (Síria)” e da devastação que fundamentalistas ali provocaram, mas poderia bem falar de Palmela (Portugal) e de todos os outros sítios da nossa terra onde outros fundamentalistas vão ocasionando não menor devastação no património histórico, cultural e identitário nacional. Mas isso, pelos vistos, não incomoda nada o “amigo”, tanto se lhe dá como se lhe deu.

Que tristeza, valha-me Deus. Digo eu.

O outro lado do património…

A motivação e a participação dos mais jovens constitui o desafio mais aliciante desta iniciativa.

Guilherme d’Oliveira Martins
“Público”, 8 de Maio de 2018, 6:04

 

A escolha do Património Cultural como o tema da União Europeia neste ano de 2018 não foi produto do acaso. Correspondeu à necessidade de dar um impulso novo a um projeto comum que não pode avançar sem a memória das raízes históricas e culturais e sem um forte desafio de aprendizagem, de inovação e de modernidade. Quando Plácido Domingo, presidente da Europa Nostra, pede para que simbolicamente todos possamos fazer do Hino da Alegria de Beethoven, com o magnífico poema de Schiller, no dia 9 de maio, um verdadeiro símbolo capaz de unir consciências em nome da liberdade, da igualdade, da diversidade, da paz e da solidariedade, está a dizer-nos que há uma herança comum que temos de respeitar e dignificar. Só a atenção e o cuidado, a salvaguarda e a proteção, o não esquecer e não abandonar podem permitir a abertura de horizontes no sentido do desenvolvimento humano. Não esquecemos o dia em que Denis de Rougemont e Albert Einstein idealizaram uma instituição como o CERN (o antigo Centre Européen pour la Recherche Nucléaire) para dar à energia atómica o sentido da paz em vez do estigma da guerra. E se recordamos esse facto é para deixar claro que o património cultural, como realidade viva, liga a cultura, a educação e a ciência. Por isso, Umberto Eco disse um dia que a diferença entre aqueles que não leem e aqueles que leem é que os primeiros vivem apenas algumas dezenas de anos, enquanto os segundos vivem o tempo da civilização, três ou quatro mil anos. De facto, só seremos dignos do que recebemos das gerações que nos antecederam se soubermos combater a ignorância e a mediocridade através da compreensão donde vimos e para onde vamos.

As iniciativas do Ano Europeu do Património Cultural são múltiplas, desde o estudo e investigação, do intercâmbio científico e técnico, do aperfeiçoamento profissional, da sensibilização e da informação, até à educação e à formação, à criação e à divulgação; no entanto, a motivação e a participação dos mais jovens constitui o desafio mais aliciante e exigente. Essa é uma das marcas que Portugal tem procurado definir como essencial, distintiva e prioritária. O envolvimento das escolas, das famílias e das comunidades no estudo, compreensão, conhecimento, na atenção e no cuidado do património cultural deverá representar um dos investimentos mais sérios e duradouros desta iniciativa. Será isso que ficará. Daí o envolvimento da Rede das Bibliotecas Escolares, do Plano Nacional de Leitura e da Universidade Nova de Lisboa neste Ano Europeu – permitindo às escolas e aos jovens cidadãos o contacto com diversas formas de património: monumentos, documentos, vestígios arqueológicos, tradições, manifestações artísticas, costumes, línguas, paisagens… Adotar um monumento ou uma tradição (da gastronomia ou do artesanato, da música ou das artes visuais), tornar compreensível um símbolo, impedir que algo de valioso culturalmente seja deixado ao abandono, usar as novas tecnologias para favorecer a ligação aos valores culturais e naturais, ir ao encontro de outras paragens, de outras regiões ou de outras culturas são atos fundamentais… Daí a importância de um culto do património que favoreça o respeito mútuo, o pluralismo, a diversidade e a importância dos valores comuns de culturas diferentes. Tudo isso permitirá entender o património cultural na sua plena riqueza, assegurando que quando terminarmos este Ano poderemos ter contribuído para fortalecer a consciência patrimonial e a cidadania cultural. Nada melhor do que os mais jovens para poderem continuar a tarefa essencial de assegurar que é a sociedade civil que deve assumir em suas mãos a responsabilidade de proteger e valorizar o património. Devendo o Estado garantir o enquadramento rigoroso e incentivador da qualidade, em nome do bem comum.

O que aconteceu há poucos anos em Palmira (Síria) obriga-nos a pensar seriamente – os monumentos foram barbaramente destruídos, mas o historiador que melhor conhecia essas preciosidades também foi morto. Afinal, só as pedras vivas, as pessoas, é que poderão dar força, valor e significado às pedras mortas. Eis por que razão a mobilização das escolas, dos alunos, dos professores e das famílias constitui a melhor marca de perenidade para esta iniciativa. O outro lado do Património tem a ver com a necessidade de irmos ao encontro da História e das Humanidades, no mais rico sentido de enriquecimento mútuo pelas diferenças…Assim continuaremos a criar condições para formar e mobilizar cada vez melhores educadores, investigadores e técnicos, sobretudo cada vez melhores cidadãos ativos, capazes de tornar o património cultural potenciador de desenvolvimento humano.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Nota: por excepção, propositadamente, para não retirar um átomo ao horror que é assistir à demolição do Português por um fundamentalista, transcrevo a versão abrisileirada do original, conforme foi escrita pelo autor, pessoa raladíssima, segundo diz, com a “destruição do património” (com maiúscula inicial e tudo).

Imagem de topo de: “O Globo” (Brasil) – copyright JOSEPH EID / AFP

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FAQ AO90 — 5


25. Podemos alegar “objecção de consciência” quanto ao “acordo”?

Vale para isto o mesmo que vale para a desobediência civil. Aliás, a objecção de consciência é uma das formas de desobediência aos ditames abusivos e aos actos de violência, não apenas física mas também mental, cometidos pelo Estado. Se bem que a figura da objecção de consciência seja de âmbito restrito e com regulação por lei. Aplica-se de forma geral em relação ao serviço militar obrigatório e pode ser invocada, em situações excepcionais (aborto, eutanásia, experiências com seres humanos ou em animais, etc.), por médicos, técnicos, cientistas e pouco mais do que isto, no âmbito profissional, ético e deontológico.

Em relação ao “acordo”, por conseguinte, não me parece — de todo — que esta figura legal seja aplicável. É de facto uma questão de consciência (ou de inconsciência, no caso dos acordistas), mas trata-se sobretudo de um problema político. Ora, os problemas políticos resolvem-se objectando contra eles, nos regimes democráticos, através do voto ou do combate político.

Na verdade o AO90 é também uma espécie de eutanásia, ou, melhor dizendo, de assassinato, mas nenhum de nós — mesmo usando ao pescoço, como é o meu caso, um estetoscópio ortográfico — pode dizer que se recusa, por questões de consciência, a… quê? Vê-lo?

Mas é esse, precisamente, o problema!


 26. Como posso contribuir para a resistência ao “acordo” e ajudar nesta luta?

Esta não é uma pergunta lá muito frequente, FAQ!

Bom, o primeiro requisito é não desistir. Não esmorecer já seria pedir muito. Não desistir porque, evidentemente, quem desiste não vai seguramente fazer mais nada a partir desse fatídico momento. E a não desistência é, só por si, uma grande ajuda nesta longa e dura luta.

Mas, em termos concretos, o que pode fazer um cidadão? Pois bem, pode começar por não se calar, não se abster, não deixar passar uma única oportunidade para manifestar a sua oposição ao “acordo”. Escrever (e divulgar) textos sobre o assunto, comentar “posts” — os próprios e os de outras pessoas — ou simplesmente puxar o assunto, em conversas pessoais, com a família, os amigos e os colegas de trabalho.

Pode ajudar a única iniciativa cívica — racional e viável– que está em curso, recolhendo assinaturas em papel e enviando mensagens (directas ou por e-mail) para divulgar aquela iniciativa e o modo de subscrição por via electrónica.

Pode colocar o logótipo da Causa no seu “blog” e/ou como “avatar” nos perfis das redes sociais.

Pode mandar fazer e depois usar (e oferecer!) acessórios e “gadgets” (t-shirts, canetas, “pins”, etc.) contra o AO90.

Pode NÃO comprar livros, jornais e revistas em acordês. Quanto aos livros, que os acordistas andam a acordizar com efeitos retroactivos, é fácil e rápido verificar se estão ou não em Português: na folha de ficha técnica, procure o mês de edição; se não tiver maiúscula inicial, salvo gralha, o livro está todo marado, é atirá-lo de volta à prateleira. Quanto a jornais e revistas, uma simples vista-de-olhos nas “gordas” da capa deve bastar; se não topar nada suspeito, procure (geralmente no cabeçalho) a palavra “Director”; se não tiver C, é lixo, volta ao escaparate. E pode (e deve) ainda cancelar a sua assinatura de publicações periódicas acordistas ou não a renovar.

Pode instalar o Firefox contra o AO90 e assim ler páginas de Internet em paz ortográfica e sossego mental. Há ainda outras ferramentas informáticas, nomeadamente correctores ortográficos, que permitem manter o computador limpo, o trabalho enxuto e a mente sã.

Além destas poucas, há ainda muitas outras possibilidades de realmente fazer alguma coisa contra a cacografia. Imaginação não falta aos portugueses, felizmente.

Algumas pessoas fazem um espécie de vandalismo ao contrário: corrigem letreiros à mão. Desde que o AO90 entrou em vigor vemos por aí uns acessórios urbanos já estropiados pelo acordês: placas toponímicas, sinais de trânsito, cartazes e anúncios.  Ora bem, essa pichante actividade militante justifica-se por si mesma, trata-se de repor a normalidade nos dizeres que saíram vandalizados da fábrica, daí o vandalismo ao contrário, mas pode acarretar riscos para o cidadão: as “autoridades” podem fingir — para empochar mais uma multazinha — que corrigir um vandalismo é vandalismo também. Por isso, hem, não estamos aqui incitando o cidadão a meter-se em sarilhos (ah, valente!)…

Enfim, fazer qualquer coisa já é fazer alguma coisa e já é muito. É puro activismo cívico, são e verdadeiro, bem diferente do activismo político, que não é para aqui chamado. E é também o oposto do inactivismo, essa pecha tipicamente portuguesa que fomentam acordistas — na sombra — e cuja definição chega e sobra para entender o conceito, por antonímia.

Com as devidas desculpas pela auto-citação, e alegando em minha defesa que não vale a pena formular de novo o que já está mais do que definido:

Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.

Porque, no fim de contas, é dos livros, e se não for no fim de contas há-de ser logo que possível, apenas uma de duas coisas pode acontecer. Para os activistas a vitória, ainda que no fim percam a luta. Para os inactivistas a derrota, seja qual for o resultado final. [“Inactivismo” (2)]


27. Afinal a RAR 35/2008 foi o quê, ao certo?

Essa é mesmo a mais frequente das perguntas frequentes.

Sabe-se que alguns anti-acordistas ausentaram-se na ocasião da votação da RAR 35/2008: alegaram “conflito de interesses” ou “reserva de opinião” ou ainda “para não quebrar a disciplina de voto”; sabe-se também que previamente foram pedidos pareceres sobre o AO90 a diversas entidades com créditos firmados nas áreas — entre outras — da linguística, do ensino e do meio editorial, sendo as conclusões de todos esses pareceres manifestamente CONTRA o “acordo”, mas… NENHUM deles foi tido em conta (muito provavelmente, ninguém no Parlamento leu deles uma única linha).

O que mais importa reter, quanto a esta Resolução parlamentar, é que tratou-se da mais grave fraude, de entre as várias cometidas ao longo de todo o processo, mas esta com a seguinte  agravante decisiva: sem a aprovação cega e acéfala daquela porcaria o AO90 não estaria em vigor.

Ao certo, ao certo, foi isto a RAR 35/2008: um golpe de estado ortográfico.

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FAQ AO90 — 3


13. Das quatro vias para acabar com o “acordo ortográfico”, qual a mais viável?

Dessas 4, que afinal são 5, se contarmos com a denúncia unilateral do AO90 enquanto Tratado internacional, existem duas muito semelhantes entre si e são ambas igualmente viáveis: em qualquer destes dois casos, a solução passará sempre pela apresentação de uma iniciativa legislativa — ou por um mínimo de 23 deputados ou por mais de 20.000 subscritores no caso de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC).

Seja de uma forma ou seja de outra, o objectivo terá de ser forçosamente a anulação do instrumento legal que ratificou o II Protocolo Modificativo (alterando este a redacção original do AO90) e que, assim, colocou em vigor o “acordo” na ordem jurídica nacional.

Instrumento legal esse (RAR 35/2008) que fez ainda mais do que “apenas”, ratificando o dito Protocolo, aceitar em nome de Portugal o golpe perpetrado pelo Brasil: a ratificação do Protocolo por apenas 3 Estados implica a automática entrada em vigor do AO90 em todos os oito Estados-membros da CPLP.

Portanto, só revogando aquela Resolução parlamentar será possível reverter a entrada em vigor do AO90 em Portugal; a anulação de qualquer outra legislação subsequente, decorrente e dependente da RAR 35/2008, seria inútil. Por exemplo, a revogação da RCM 8/2011 não teria quaisquer efeitos práticos, já que o AO90 continuaria legalmente em vigor.


14.  Em que diferem do “acordo ortográfico” brasileiro os casos Francês, Espanhol ou Alemão? Porque é que o Inglês nunca teve qualquer “acordo”?

Não existe a mais pequena similitude entre as reformas ortográficas dos países civilizados e aquilo que se passa em Portugal.

Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é  compulsiva, como o AO90.

Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. Ou seja, os estrangeiros fixam a sua norma ortográfica, apenas quando absolutamente necessário, em função das naturais oscilações que porventura ocorram pela simples passagem do tempo. “As Línguas” evoluem, de facto, como tanto gostam de cuspilhar os acordistas portugueses, mas de forma natural e não por decreto.

O caso da Língua inglesa é algo completamente diferente. Evoluiu ao longo de 1.400 anos mas a sua ortografia mantém-se praticamente inalterada há vários séculos. Por alguma razão — ao invés do que dizem acordistas, com a sua alucinada teoria do facilitismo e da “expansão” — o Inglês é “só” a Língua mais falada (e escrita) no Ocidente e é “só” a lingua franca por excelência em todo o mundo. De resto, em todos os países do ex-Império britânico a ortografia e a etimologia são ponto de honra e motivo de orgulho; nos EUA e no Canadá, por exemplo, existem concursos nacionais, regionais e locais dedicados exclusivamente a soletrar: spelling bee.


15. Se existiu desde o início tanta resistência (e indiferença), porque é que o “acordo ortográfico” entrou em vigor?

Por uma questão de agenda: aos políticos implicados na tramóia e aos empresários gananciosos interessados nela (é a grande finança que paga as campanhas eleitorais e os tachos dos políticos) convinha que a coisa avançasse o mais depressa possível. Assim, primeiramente avançou a parte política do assunto — aprovação do II Protocolo Modificativo — preparando o terreno para que os grandes grupos editoriais, por exemplo, começassem de imediato a facturar. A expansão económica brasileira, tendo por objectivos primordiais Angola e a União Europeia (usando Portugal como trampolim, bem entendido), ficaria para mais tarde, a seu tempo.

Primeiro, era necessário garantir que o AO90 entrasse em vigor em todos os países da CPLP, fosse como fosse, à força, à má-fila.

Como os processos de ratificação tinham vindo a arrastar-se desde 1994, em todos esses países, então o Brasil e seus agentes em Portugal descobriram a pólvora: cozinhar uma espécie de adenda ao “acordo”, o II Protocolo Modificativo, passando a obrigatoriedade de ratificação do AO90 por todos os 7 para apenas 3 Estados-membros; ou seja, a ratificação por 3 Estados implicaria que o AO90 entraria em vigor oficialmente nesses 3… e também nos outros quatro, mesmo que não ratificassem coisa alguma (ratificar é diferente de simplesmente subscrever o AO90, são processos autónomos).

Assim, em 2004 o Brasil (é claro) ratificou, em 2005 Cabo Verde também e por fim São Tomé e Príncipe idem. Pronto, já está, o AO90 entrou em vigor em todos os Estados da CPLP por via administrativa, por imposição de países terceiros. Só faltava então a aquiescência de Portugal para dar um ar de legalidade ao golpe e assim enfiá-lo goela abaixo dos pategos portugueses.

Foi precisamente esta incrível vigarice que o Parlamento português sancionou, através da RAR 35/2008, entrando do mesmo passo o AO90 em vigor também em Portugal.
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FAQ AO90 — 2


7. Que fundamentos alegaram os inventores do “acordo ortográfico” para o justificar?

Três completos absurdos, basicamente:

Não há “unificação” alguma, muito pelo contrário: o AO90 originou ainda mais diferenças entre as duas normas, novos casos de duplas grafias (e triplas e quádruplas). Neste momento (2018) existem não duas mas três “normas”: PT-BR (Brasil), “acordês” (organismos do Estado e algumas empresas em Portugal) e PT-PT (Angola e Moçambique).

Não há qualquer tipo de “projecção e expansão”, acontece o oposto: fecham cada vez mais leitorados de Português no estrangeiro e diversos organismos internacionais extinguem o Português como Língua de trabalho ou institucional.

Não há “maior facilidade” na aprendizagem coisa nenhuma: no Ensino oficial em Portugal a confusão é total e o cAOs instalado afecta gravemente as crianças e jovens, confundindo-as estúpida e desnecessariamente. Não sendo imbecis ou retardados, os alunos portugueses estão mergulhados num caldo de instabilidade ortográfica no qual não só eles mas principalmente eles já não sabem ao certo como se escreve (ou lê). Por isto mesmo os resultados são cada vez piores desde que o AO90 passou a ser obrigatório nos exames.

E os estrangeiros que aprendem Português não são também, em princípio, atrasados mentais: o AO90, abolindo radicalmente a etimologia, afasta ainda mais o Português das demais Línguas de países europeus ex-colonizadores, em especial os das Línguas francesa, espanhola e inglesa.


8. Qual foi a ideia-base para sustentar tecnicamente o “acordo ortográfico”?

Uma ideia de jerico, evidentemente, na qual apenas fingem acreditar alguns idiotas ou pessoas que comem da gamela acordista: prescindir do critério etimológico (a raiz e a evolução ortográfica das palavras) substituindo-o pelo “critério” fonético (“o que não se pronuncia não se escreve”). Uma abominável cretinice, portanto, que jamais passaria pela cabeça de um francês, americano, inglês, espanhol, australiano ou canadiano, para citar apenas alguns povos que são “parvos” por ignorarem as maravilhas dos acordos ortográficos; ideias assim tão asininas, se bem que vendidas como “geniais”, jamais ocorreriam a qualquer cidadão daqueles atrasadíssimos países; só em Portugal e no Brasil, duas super-potências mundiais, como sabemos, existem “génios” capazes de esgalhar semelhante “genialidade”.

Consequência directa do “genial” critério fonético: como no Brasil a pronúncia é completamente diferente das de Portugal e PALOP, a suposta “unificação” resulta em milhares de novas duplas grafias.

Mas esta ideia de jerico deveria levar os ditos “génios” ainda mais longe: sendo o Brasil um país-continente, nada de mais natural do que, apenas ali, existam  “dialectos” — o que, segundo a máxima acordista “se não se pronuncia não se escreve”, deveria dar direito a 16 “ortografias” brasileiras diferentes. Fica a sugestão.

Claro que algum estratagema, de preferência suficientemente idiota para impingir a perfeitos cretinos, teria de ser inventado para mascarar as verdadeiras motivações — ambições políticas e económicas do Brasil — e por conseguinte os acordistas atiraram para o ar um dos absurdos disponíveis no seu arsenal de insanidades: o critério fonético “facilita imenso”.
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