Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: ILCAO

Inactivismo (1)

O inactivismo não é o inverso, oposto ou antónimo de “activismo” — tendo este, aliás, uma conotação política (geralmente de cariz esquerdista) que não é para aqui chamada.

O inactivismo engloba o próprio conceito de “activismo”, na acepção que nos interessa, enquanto inactividade militante ou, levando a ideia ao extremo, quando o activismo resulta em prejuízo grave, em desastre para a Causa — cívica, apartidária — que paradoxalmente deveria ser defendida e não atacada, como é evidente.

O inactivismo é bem mais fácil de entender do que de explicar — até porque os absurdos são por definição axiomas, ou seja, apenas constatáveis mas não comprováveis — e por conseguinte será talvez mais fácil ilustrar o conceito com um exemplo concreto.

Não deve existir um único português com mais de 30 anos que não se recorde da campanha por Timor (“Ai, Timor”, ai, ai). Desses voluntariosos militantes da “causa timorense”, a maioria terá com certeza participado nas “manifs”, nas “marchas”, nas “cadeias humanas”, nos “velórios” de “solidariedade” que se realizaram — em massa e em catadupa — por todo o lado, ao longo da década de 90 e em especial logo a seguir ao referendo de Agosto de 1999.

Houve disso e houve também imenso inactivismo. Esta entrevista ilustra perfeitamente o neologismo que, não por acaso, é um velho preceito.

Francisco Godinho lamenta porém o facto dessa iniciativa ter “descambado logo ao fim de dois ou três meses”, degenerando na melhor das hipóteses na adopção de outras causas pelos subscritores que “não eram capazes de actualizar um website, enfim… de fazer um mínimo de trabalho”.

“Isto acontece no mundo real. E na Internet ainda é mais fácil ignorar os apelos porque as pessoas não se confrontam”, desabafa Francisco Godinho. Uma das mailing-lists de Timor (eram duas), recebeu 200 a 300 adesões no primeiro dia, atingindo 400 a 500 adesões num mês.

“Ao fim do segundo mês tornou a descer drasticamente para 200 subscritores”, conclui Godinho. “Quando verifiquei esses 200 subscritores (interrompi a mailing-lists para ver quantas reclamações me chegavam), das 200 pessoas inscritas restavam cerca de 80, os outros 120 eram contas de email já inactivas”.

Para Francisco Godinho o activismo online requer “pessoas com algum espírito de voluntariado”. Não basta encontrar pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” e “vão a todas”.

“Não é difícil construir um site e colocá-lo online. Difícil é a parte que diz respeito à actualização e à sua dinamização”, confirma Ricardo Silva que, pela diversidade das iniciativas apresentadas através do Guia serem muito diversas, considera que “o Guia do Activismo era tipo um SAPO para a área do activismo online”.

“Lançar uma iniciativa é como lançar um produto no mercado. É necessário vendê-lo, contactar a Comunicação Social e – ao contrário do que muitas pessoas pensam – dar a cara, mesmo na Internet. Face aos Hoaxes (logros), por exemplo, é cada vez mais necessário passar uma imagem de credibilidade da iniciativa e dos próprios organizadores, uma vez que as pessoas andam muito desconfiadas dos emails ‘apelativos’ que surgem nas suas caixas de correio electrónico”

[Publicado em tek.sapo.pt, no dia 28.01.01. Autoria “Casa dos Bits”. Cópia autorizada; ver correspondência de Fevereiro 2002.]
[Sítio de Timor]

Um verdadeiro manifesto do inactivismo, convenhamos. Não está lá tudo, mas está lá muita coisa: a imediata “adopção de outras causas” quando aos “activistas” a coisa começa a cheirar que vai dar trabalho (mesmo que seja mínimo), as “adesões virtuais” em catadupa no início e a conta-gotas daí em diante, pessoas que pensam que “enviar um email é uma arma espectacular” (génios com ideias geniais) e aquelas que “vão a todas” às 2.ªs, 4.ªs e 6.ªs mas não vão a nenhumas às 3.ªs, 5.ªs e sábados, nem nos dias de folga, de férias, de baixa, de “licença”, de “ponte” e de “assuntos inadiáveis”.

É claro que, pelo menos para os activistas em série e para os consumidores de causas em geral, nenhuma bela teoria poderá alguma vez ser demolida pela (porcaria da) realidade, essa enorme maçada por regra inconveniente à narrativa oficial. Se a dita realidade não agrada ou, de forma genérica, não encaixa na “narrativa” correspondente, então mude-se de imediato a realidade porque a narrativa é intocável, inamovível, inalterável, imutável!

Salvas as devidas distâncias, pode estabelecer-se um mais do que evidente paralelo, em termos de inactivismo, entre o que se passou de 1992 a 2002, no caso de Timor, e aquilo que tem sucedido desde 2008 no que à luta contra o AO90 diz respeito. De facto, nota-se perfeitamente, o chamado “português médio” tem imenso jeito para, numa palavra (ou duas, vá), não fazer nenhum.

Nunca há tempo para nada. A não ser para dar palpites, bem entendido, travestindo estes, por regra, em ideias “geniais” que nunca tinham ocorrido a mais ninguém (como “lançar uma petição ou, espera, um referendo, eia, um referendo é que era, hem, sou ou não sou um craque das causas, hem”). Ah, sim, claro, para palpites e “ideias geniais” há todo o tempo do mundo. Para fazer alguma coisinha é que não, raios, tenho ali uma panela ao lume e depois vou levar a sogra à calista, num pode ser, que tenho um bídeo p’ra ber, não me dá jeito, que tenho uma dor no peito, isso não posso, que tenho reumático neste osso, agora não, que tenho de ir dar banho ao cão.

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«A magistratura e a linguagem» [“Público”, Editorial] (com notas)

Editorial

A magistratura e a linguagem

Algumas sentenças revelam como as categorias de percepção de cada juiz podem influir numa decisão judicial; como o preconceito e a moral se podem sobrepor à aplicação do Direito.

Amílcar Correia

“Público”, 1 de Abril de 2018, 7:15

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Há quem cite a Bíblia para invocar o adultério como desculpa para a violência doméstica de um “homem traído, vexado e humilhado pela mulher.” Há quem absolva um arguido acusado de violência doméstica por não compreender o que leva uma mulher “moderna, consciente dos seus direitos, autónoma, não submissa, empregada e com salário próprio” a não denunciar as agressões do marido. Há quem não entenda porque é que uma mulher como Bárbara Guimarães não tenha feito logo essa mesma denúncia. Há quem escreva numa sentença que os ciganos são “pessoas malvistas socialmente, marginais, traiçoeiras” e “integralmente subsidiodependentes”. E há quem reduza o valor da indemnização a uma mulher, impedida de ter relações sexuais depois de operada numa maternidade, porque “já tinha 50 anos e dois filhos” e, nessa idade, o sexo não tem, claro, interesse nenhum. Houve até quem escrevesse, há 30 anos, que duas turistas contribuíram para a sua própria violação por se terem aventurado à boleia “em plena coutada do chamado ‘macho ibérico’”. Estavam mesmo a pedi-las.

Estas decisões são excepções e não fazem jurisprudência. Não se pode exigir ao Conselho Superior de Magistratura que ande, como diz o seu vice-presidente Mário Belo Morgado, “com uma lupa a escrutinar a linguagem dos juízes”. Mas o que todas estas sentenças têm em comum não é apenas um problema de linguagem. É bem mais do que isso. Elas revelam como as categorias de percepção de cada juiz, sejam elas de natureza cultural, ideológica, sociológica, ou outras, podem influir numa decisão judicial; como o preconceito e a moral se podem sobrepor à aplicação do Direito. O que elas também têm em comum é uma visão estereotipada do papel e do poder de género. E o desequilíbrio de poder perpetua-se nessa linguagem que se usa para disciplinar “as mulheres quando elas transgridem os seus papéis tradicionais”, como diz Isabel Ventura, docente da Faculdade de Direito da Universidade Católica.

Nos últimos anos, que se saiba, como se conclui da análise destas sentenças que hoje publicamos no P2, o Conselho Superior de Magistratura (CSM) só uma vez advertiu um juiz. E foi por causa da linguagem “desnecessária, injustificada e indesejável” que aquele utilizou ao discordar da opção pelo novo Acordo Ortográfico na redacção de um relatório de uma direcção-geral. De facto, a magistratura tem mesmo um problema com a linguagem.

Algumas notas sobre o último parágrafo deste Editorial do “Público”

«Nos últimos anos, que se saiba, como se conclui da análise destas sentenças que hoje publicamos no P2, o Conselho Superior de Magistratura (CSM) só uma vez advertiu um juiz. E foi por causa da linguagem “desnecessária, injustificada e indesejável” que aquele utilizou ao discordar da opção pelo novo Acordo Ortográfico na redacção de um relatório de uma direcção-geral. De facto, a magistratura tem mesmo um problema com a linguagem.»

Poderá ter sido “só uma vez” que o CSM “advertiu um juiz”, mas de facto poderiam ter sido (ou, se calhar, até foram mesmo) pelo menos três vezes e, portanto, seriam no mínimo três os juízes advertidos e não apenas um.

Os episódios mais divulgados, conhecidos e mediáticos foram os que implicaram os juízes Rui Teixeira e Rui Estrela de Oliveira.

No caso do juiz Rui Teixeira (Tribunal de Torres Vedras), foi instaurado um inquérito, com data de 5 de Novembro de 2013 mas divulgado apenas em finais de Janeiro de 2014, na sequência (e como consequência) da seguinte cronologia:

  1. Juiz Rui Teixeira proíbe o ‘acordo ortográfico’ [CM, 26.05.13]
  2. Juiz Rui Teixeira acusado de três crimes por recusar AO90 (05.11.13)
  3. O caso do juiz Rui Teixeira já chegou ao Brasil (jornal “Opção”, Brasil, 05.11.13)
  4. CSM instaura processo disciplinar ao juiz Rui Teixeira (“Público”, 06.11.13)
  5. CSM recusa divulgar decisão sobre o caso do Juiz Rui Teixeira [SIC N, vídeo] (06.11.13)
  6. Comunicado do CSM – Notícias da comunicação social (07.11.13)
  7. Aditamento ao Comunicado do CSM (11.11.13)

O desfecho do “inquérito”, que redundou em processo disciplinar, foi divulgado em 7 de Julho de 2015: Juiz Rui Teixeira punido por recusar AO90.

Este caso já tinha pelo menos um antecedente, porém: em Fevereiro de 2012, o juiz Rui Estrela de Oliveira (Tribunal de Viana do Castelo) ordenara aos serviços que redigissem os documentos “sem erros ortográficos”; ou seja, mandou o Meritíssimo juiz que os funcionários escrevessem as peças processuais sem assassinar a ortografia da Língua Portuguesa com o AO90, essa arma letal cujo uso e porte deveria ser proibido por lei, digo eu, como os revólveres, as matracas e as navalhas de ponta-e-mola.

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«Admirável Língua Nova (Parte VI)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte VI)

Manuel Matos Monteiro, “Público”, 09.03.18

Não há revisão possível que limpe a face do Acordo e todos os caçadores dispostos a encontrar a “pronúncia culta” voltaram de mãos vazias. Citando Einstein: “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram.”

Procurava explicar numa aula que devemos distinguir “manuscritos” de “dactiloscritos” – os primeiros são escritos à mão; os segundos, à máquina – e logo me lembrei: deixa lá ver como é que os dicionários acordizados acolhem o segundo verbete.

A Infopédia (Porto Editora), um dos dicionários mais consultados, da editora com mais penetração nas escolas, regista o seguinte:

  • dactiloscrito
    dac.ti.los.cri.to
    nome masculino
    original datilografado
    Do grego dáktylos, «dedo» +escrito

O “daCtiloscrito” é, portanto, o original “datilografado”. E que dirá o verbete “datilografado”?

  • datilografado
    da.ti.lo.gra.fa.do
    adjetivo
    escrito à máquina
    Particípio passado de dactilografar

“Datilografado” é, afinal, o particípio passado do verbo “daCtilografar”.

Em se tratando do infinitivo impessoal e do particípio passado do mesmo verbo, ora se preserva ora se mutila a consoante. É isto simplificar a ortografia?! É esta salgalhada um melhor caminho para a aprendizagem da língua portuguesa?!

Continuemos a digressão.

  • tactilidade
    tac.ti.li.da.de
    nome feminino
    1. qualidade do que é táctil
    2. qualidade das substâncias que exercem ação especial no sentido do tato
    De táctil+-i-+-dade

“TaCtilidade” é a qualidade do que é “táCtil”, aquilo que se refere ao sentido do “tato”. O “tato” opera no ecrã “táctil”, muito bem.

Temos…

  • circunspecto
    cir.cuns.pec.to
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»
  • circunspeto
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»

… mas apenas uma grafia para:
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#nãoadoPtoestessilêncios

Estes silêncios que tanto nos “afetam”

É uma coisa que todos os portugueses podem fazer: quebrar, resolutamente, o seu silêncio em matéria de ortografia.

Nuno Pacheco

“Público”, 11 de Janeiro de 2018, 7:35

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No final de 2017 houve em Portugal a costumeira votação da palavra do ano. Uma coisa destinada a cibernautas e promovida pela Porto Editora, que apresentava uma lista à votação. Ganhou, como se sabe, a palavra “incêndios”, apoiada por (diz a editora) 37% dos 30 mil votantes. Mas houve um curioso episódio associado a esta votação que passou despercebido: o apelo ao voto na palavra “afeto” (sem C, tal como a apresentou a Porto Editora, que se rendeu ao acordo ortográfico depois de inicialmente se lhe opor). O primeiro a fazê-lo, publicamente, foi o director (com C) do jornal Correio do Minho, num artigo de opinião intitulado “Incêndios ou afetos?”, publicado no dia 28 de Dezembro. Começava assim: “Em primeiro lugar é bom registar que ainda não aderimos ao novo acordo ortográfico. Em segundo… não escrevi nenhuma gralha no título. Afetos é o nome que aparece no site da Porto Editora, promotora da iniciativa ‘Palavra do Ano 2017’.” E apelava, por razões sociais, ao voto em massa na segunda palavra: “‘Incêndios’ é uma palavra que nos transmite tristeza, morte, angústia, desespero… tudo coisas más. Afeto é o que precisamos para iniciar da melhor maneira o ano de 2018.” Foi o que pensaram muitos votantes. No momento em que o artigo foi publicado, “incêndios” ia com 38% e “afeto” com 18%; terminaram com 37% e 20%.

Mas outros apoiantes de “afeto” vieram a terreiro. No Facebook, o grupo A Favor do Acordo Ortográfico publicou quase de imediato um comentário de incentivo: “Leiam o artigo e, se assim o entenderem, votem na palavra ‘afeto’ (seria a primeira vez que uma palavra alterada pelo acordo ortográfico ganhava uma votação deste género”) – seguia-se um emoji maroto, a piscar o olho. Vejam bem a diferença: um apelou aos sentimentos; os outros, fingindo apoiá-lo, à ortografia.

Mas a que se dedica o grupo A favor do Acordo Ortográfico (AFAO)? A apontar o dedo acusador a quem teima em não aplicar o malfadado acordo. “Ainda há jornalistas que insistem em escrever à antiga. Seis anos para se adaptarem às regras do acordo não chegam? Vergonhoso…” E é recente, a existência de tal grupo? Não, é antiga, tem sete anos no Facebook. No início apresentava “1905 gostos”, confirmados na sua página; em 2016 indicava “1094 pessoas curtiram isso”; e neste dia 10 de Janeiro exibia, triunfal: “1093 pessoas gostam disto”. Dois a menos, em sete anos! Notável feito! Mesmo assim, o AFAO continua, impante, a espalhar a detestável “boa nova” que já não convence ninguém. “Já somos 1000! Obrigado!”, exclamam. Mas, ao contrário do célebre slogan do velho PPD (“hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”), não cresceram, definharam.

Nenhuma comparação com os opositores ao “monstro”. Em 2009, a petição Em Defesa da Língua Portuguesa (e contra o AO) juntou mais de 100.000 assinaturas; actualmente, a petição pública Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” tem 22.140 assinaturas e o grupo a ela ligado cerca de 28.000 membros; também no Facebook, a página dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico tem 24.171 “gostos” e 23.746 seguidores; e o grupo Em aCção contra o Acordo Ortográfico” tem cerca de 53.000 membros. Já a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILCAO) conta com 15.773 assinaturas validadas. De cada vez que o tema se discute, as opiniões maioritariamente expressas, ao vivo ou em votações, são esmagadoramente contra este acordo. O que justifica, então, a sua sobrevivência? O laxismo geral, a ideia (errada) de que é obrigatório por lei (não é, foi imposto por resoluções do conselho de ministros) e a ditadura insana dos correctores ortográficos (que o AO mudou para “corretores”, como os da Bolsa). Caiam todos eles, ou alguns deles, e o “monstro” também cairá, para alívio universal – Brasil, África e Oriente incluídos.

No rescaldo de uma investigação jornalística sua, a TVI lançou em finais de 2017 uma campanha intitulada #NAO ADOTO ESTE SILENCIO. Várias personalidades, segurando um cartaz com tal frase, gravaram vídeos. Ouça-se o de Ricardo Araújo Pereira: “Este caso de uma rede internacional de adopção ilegal de crianças no Lar da Igreja Universal do Reino de Deus é absolutamente chocante e por isso eu não adopto este silêncio. E não adopto com P, porque eu também não adopto o acordo ortográfico. Por isso, não adopto duas vezes este silêncio.” É uma coisa que todos os portugueses podem fazer: quebrar, resolutamente, o seu silêncio em matéria de ortografia.

nuno.pacheco@publico.pt

[“Público” (suplemento “Ipsilon”), 11.01.18. Adicionei “links”. A imagem de topo é um recorte de “webpage” da TVI utilizando a solução Firefox contra o AO90.]

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«Admirável Língua Nova (Parte V)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte V)

Ficámos singularmente isolados (passe a redundância) nesta razia etimológica – em muitos casos, desirmanados até do próprio Brasil, que pronuncia, ao contrário de nós, muitas consoantes etimológicas. Quisemos ser tão modernos, que acabámos parolos.

Manuel Matos Monteiro

“Público”, 17 de Dezembro de 2017

T. S. Eliot, em 1944, no texto ‘Que É Um Clássico?’, explicou que a sua época tendia a confundir sabedoria com conhecimento e conhecimento com informação, procurando resolver os problemas da vida à luz da engenharia. Eliot sentia desabrochar com particular intensidade um conceito de provincianismo que não encontrava nos dicionários. Provinciano não era apenas aquele que estava preso no seu espaço, não conhecendo outros; provinciano era também aquele que estava ancorado no seu tempo, desconhecendo todos os tempos anteriores a si, ignorando o longuíssimo caudal de sabedoria e cultura. O autor propôs assim o conceito de “provincianismo do tempo”, ou, se preferir, “provincianismo temporal”.

O “provincianismo temporal” é hoje mais acentuado numa época de pletora de “notificações” e informações digitais “actualizadas” a cada instante¹; em que o que aconteceu há uns meses já “foi há muito tempo”; em que o que não está no mundo digital não existe nem nunca existiu para muitos; em que tantos formam rapidamente opinião sobre quase tudo (dedicando, em média, três minutos a cada assunto na Rede); em que todos, mesmo sem nunca ter lido um livro na vida, podem ser escritores com o carimbo de uma editora a troco de dinheiro – o poeta, afiançava Eliot, só poderia curar do seu ofício, isto é, escrever poesia, conhecendo bem os seus predecessores.

Serve o intróito para situar o leitor quanto à seguinte proposição: o Novo Acordo é provinciano.

A escolha do critério da “pronúncia culta” (que o Acordo não consegue definir nem rastrear), em detrimento do critério etimológico, significa a mutilação da História que as palavras transportam. Mas o Acordo não fica por aqui. Não se trata apenas da preservação das raízes latinas – da identidade da nossa língua, no fundo. Trata-se ainda da preservação da lógica do hífen na nossa língua, da congruência nas famílias de palavras (elemento importante na aprendizagem das crianças), da maiúscula inicial nos meses por estar lá guardado, não poucas vezes, o nome de um deus – Janeiro, por exemplo, vem do deus Jano, não por acaso o deus que presidia aos inícios, o guardião das portas e dos portões. Mas podemos deixar a mitologia de lado e ir para coisas mais corriqueiras. “X-acto” tem origem na marca, ou seja, X-ACTO é marca comercial. Pois até aí mexeram: com o Acordo, temos o “x-ato” da marca X-ACTO. É a pseudológica dos talhantes das consoantes etimológicas.

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«À vontade do freguês» [N. P., “Público”, 16.11.17]

Sai uma espetada para o senhor espetador!

Na “ortografia unificada” a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Nuno Pacheco, “Público”, 16.11.17

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Andou escondido, durante uns tempos, mas reapareceu. Nada a ver com Tancos, com a tragédia dos incêndios nem com o já cansativo Panteão. Trata-se do espetador. Sim, esse mesmo. Por vergonha, muita gente foi adoptando a grafia “espectador”, talvez por não quererem espetar nada em ninguém. O “espetáculo” ainda vá, lá vai surgindo com “c” ou sem ele, consoante os gostos. Já o espetador tinha desaparecido. Mas reapareceu em todo o seu esplendor. No Teatro da Trindade, agora mais activo em matéria de “espetáculos”, distribui-se um papelinho onde se lê “Antes do espetáculo, venha ao bar do teatro! -30% na comida para espetadores com bilhete do dia.” Qual será o menu? Espetadas? Na contracapa do DVD com o (muito recomendável) filme São Jorge, de Marco Martins, lê-se o seguinte: “Uma obra prima. Um banquete cinematográfico que mantém o espetador colado à cadeira.” Não deviam, antes, dizer pregado à cadeira? Ou espetado na cadeira?

O mais curioso é que se trata da tradução de uma nota elogiosa escrita no The Huffington Post; ou seja, a culpa não é de quem escreveu mas de quem traduziu. Quanto ao “espetador”, que no Brasil se diz e escreve “espectador”, com “c”, embora só se admita a grafia sem “c” para “espetáculo” (e esta é uma das muitas incongruências patentes na grafia oficial brasileira, mesmo antes do acordo ortográfico), o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) de Portugal admite duas variantes, com e sem “c”, à escolha do freguês. Mas há outro erro na frase, “obra prima”: a designação em português para masterpiece, chef-d’ouvre, obra maestra, meisterwerk ou capolavoro é obra-prima com hífen, seja em Portugal ou no Brasil, antes ou depois do acordo (está no VOC, é só conferir). Porque não há obras primas, como não há obras tias ou obras avós; é palavra composta, onde a justaposição por via do hífen lhe dá um significado novo: o de obra máxima, de excelência absoluta. Claro que estas coisas nada dizem às criaturas que tiram e põem hífenes ou consoantes a eito, porque acham que reformas é isso: tirar sinais. Basta ver as notas de rodapé nas televisões, ler legendas de filmes ou andar pelos museus para avaliar o descalabro desta aleatoriedade. Um exemplo: na colecção permanente do Museu Berardo, em Belém, há um painel intitulado “Concetualismo”. No texto desse painel, lê-se essa palavra por mais duas vezes, e lê-se também “coletivo”, respeitando os ditames do acordo ortográfico de 1990 (AO). Mas lê-se “caracterização”, “recepção”, “cariz conceptual” ou “arte conceptual”. Nem uma só vez “concetual” surge no texto. Já agora, esclareça-se que o dito VOC do Brasil não reconhece “concetualismo” nem “concetual”. Elas só existem no VOC de Portugal, mas admitindo dupla grafia. É isso: escolham.

E escolhem, nem que seja ao acaso. Numa separata comercial recente, lê-se “arquitectura” no título (com “c”), mas “atividade”, “direcionada” e “objetivos” (sem “c”) a par de “sector” (com “c”). Que bela salada mista proporciona a “ortografia unificada” que nos impingiram! Sim, porque antes do malfadado AO não havia tais mixórdias. Um exemplo, elegante e digno: a revista especializada Áudio & Cinema em Casa não respeita o AO em nenhum dos seus textos. No entanto, tem um colunista brasileiro (interessantíssimo, aliás), Holbein Menezes, cujas crónicas ou textos de análise respeitam integralmente a grafia brasileira, seja nas “eletrônicas” ou nos “fenômenos”. Vantagem: nuns e noutros textos, a ortografia é impecável, seja no português de Portugal ou do Brasil. Há mais exemplos destes, felizmente, em espectáculos, discos, livros, museus, de onde a mistela ortográfica é afastada como sujidade indesejável. Mas, apesar dessas honrosas excepções, a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Será depois do Verão?, escreveu-se aqui numa das crónicas sobre o malfadado AO. Ainda não foi. Apesar das escusas, dos protestos, da evidência clamorosa de erros, ainda nada se corrigiu e tudo segue na miséria de antes. Saúde-se o sinal de vida dado, esta semana, pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, através de um texto de Rui Valente no PÚBLICO intitulado “4379 Cidadãos para a Língua Portuguesa.” Esta e outras iniciativas contribuem para que não se esqueça tão magno assunto. Não é saudosismo nem reaccionarismo, como pretendem os mentores dessa aberração técnica e linguística conhecida por acordo ortográfico. É apenas senso. E higiene.

P.S.: Entre muitos outros textos publicados sobre este tema, destacaria aqui uma série relativamente recente, que tem vindo a ser publicada no PÚBLICO online, da autoria do jornalista, formador e revisor Manuel Matos Monteiro, sob o título genérico “Admirável Língua Nova” (parte I, parte II, parte III e parte IV).

Nuno Pacheco


Nota: os “links” em cor verde são meus.

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