Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Inglês

«A nova gramática do fascismo» [João Gonçalves, “J.N.”]

A nova gramática do fascismo

João Gonçalves

“J.N.”, 12.02.18

O “Diário da República Electrónico” usa o “aborto ortográfico” à semelhança, aliás, do que fazem todos os organismos oficiais, na sua inconfundível língua de pau, e a generalidade da doutrina jurídica editada em livro. Fui lá ler, levado por uma rede social, esta Lei da Assembleia da República. Saiu discretamente na sexta-feira passada (Lei n.º 4/2018, de 9 de Fevereiro), sob a designação de “regime jurídico da avaliação de impacto de género de actos normativos”, e entra em vigor a 1 de Abril. Não tem “memória explicativa”, pelo que entra logo a matar. A “avaliação”, prévia ou sucessiva, destina-se a que os actos normativos do Estado (Central, Regional, do Governo e do Parlamento) “ponderem”, antes de serem produzidos (e “entre outros” aspectos), “a incidência do projecto de acto normativo nas realidades individuais de homens e mulheres, nomeadamente quanto à sua consistência com uma relação mais equitativa entre ambos ou à diminuição dos estereótipos de género que levam à manutenção de papéis sociais tradicionais negativos”. Para o efeito, o, a, ou outra coisa qualquer dantes designada por legislador entende que “a avaliação de impacto de género deve igualmente analisar a utilização de linguagem não discriminatória na redacção de normas através da neutralização ou minimização da especificação do género, do emprego de formas inclusivas ou neutras, designadamente por via do recurso a genéricos verdadeiros ou à utilização de pronomes invariáveis”. O procedimento tem uma “situação de partida” definida como “um diagnóstico da situação inicial sobre a qual vai incidir a iniciativa em preparação, com recurso a informação estatística disponível e informação qualitativa sobre os papéis e estereótipos de género, considerando ainda os objectivos das políticas de igualdade de oportunidades”. E o “impacto” será “positivo” quando, por exemplo, se verificar “um impacto transformador de género” sem que a lei esclareça a que “transformação” se refere. O “impacto” terá ido tão longe que levou o impactado ou a impactada a mudar de sexo? Não diz. Mas pode ser que as “acções de formação” previstas no art. 16.º possam responder. Para isto é preciso uma “polícia do espírito” que assegure o recurso a “genéricos verdadeiros”, a “utilização de pronomes invariáveis” e que proíba, finalmente, “estereótipos de género”. Em suma, precisa-se de agentes públicos que saibam manusear esta nova gramática do fascismo.

João Gonçalves

[Transcrição integral (e conforme o original, sem parágrafos) de artigo de opinião, da autoria de João Gonçalves, publicado no “Jornal de Notícias” de 12.02.18. Imagem de topo (citação de George Orwell) de: http://www.famousquotes123.com/ ]

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“Arranha-nos a mente” [Francisco Vale, director da editora “Relógio d’Água”]

O responsável pela Relógio d’Água, considerado um dos mais destacados editores nacionais, fala da sua relação com os livros, do sector livreiro e dos desafios que se colocam hoje aos jornalistas.

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Números recentes do sector livreiro mostram que há chancelas que, em Portugal, publicam 20 ou 30 livros por mês. Publica-se demasiado?

Isso é subjectivo. Globalmente, não há leitores para tanta edição. Por dia, em Portugal, e considerando todo o género de títulos, publicam-se 30 livros. É excessivo tendo em conta a capacidade da rede livreira, de exposição, divulgação e número de leitores disponíveis. Mesmo que só se editem dez livros de literatura e ensaios, por dia, já é excessivo. Por outro lado, como as tiragens médias baixaram, também se percebe que se esteja a publicar mais. Além disso, a edição tem particularidades que não se verificam noutros sectores. Por exemplo, quase 80% das nossas exportações são para a União Europeia, mas uma editora não pode exportar para a UE. Podemos fazê-lo para os países de língua oficial portuguesa, mas todos eles atravessam problemas graves. Em Angola há umas quatro livrarias. Na Guiné, existe uma pequena livraria, dentro de um hotel. O Brasil, que tem uma rede livreira grande, atravessa dificuldades e é um país continental, o que impossibilita colocar livros em certos locais. Além disso, há a dificuldade da língua.

Mas as editoras nacionais esperavam que o Acordo Ortográfico abrisse as portas desse mercado.

Essa foi uma das razões invocadas para se avançar com ele. Mas, nem todos os países aderiram, em especial, os maiores países africanos. O que se verifica é que o Brasil aderiu, mas Angola e Moçambique continuam a usar a versão europeia anterior da ortografia. De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. E quando um livro em português do Brasil aparece em Portugal, escrito por um autor mais idiossincrático, parece mais estranho do que ler em francês ou inglês. Arranha-nos a mente. O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.

[Excerto de entrevista publicada pelo “Jornal de Leiria” em 07.02.18. Ver no original e na íntegra:  Francisco Vale: “Só um editor que não lê se pode dar ao luxo de publicar maus livros”]

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Pé ante pé

Este artigo é muito interessante, digo eu, sob diversos aspectos mas principalmente porque a autora, qual equilibrista com sua vara, percorre a passo tímido aquele fino arame que, pretensamente ligando dois pontos sólidos, separa também, precariamente, a lógica do vazio. Ou seja, digo eu de novo, anda ela ali na corda bamba, tem-te e não caias, upa, upa, ai, valha-me Deus, mas que perigo!

Cabe a cada qual, no conforto da sua cadeirinha, decidir se por fim a artista merece aplausos porque, sim, atravessou mesmo o precipício sem se despencar.

Ou não.

Quando falar português, em Portugal, não basta!

05 de Fevereiro de 2018 – 00:00
Juliana Iorio

Faz parte do senso comum dizer que “os brasileiros emigram para Portugal por causa da língua”. Mas, como já referi em outro artigo, as motivações para migrar, bem como para a escolha do país de destino, não se reduzem a um único fator. Quando muito pode dizer-se que o idioma é um dos fatores que podem motivar esta escolha, e que enquanto facilitador da comunicação pode ser um capital social importante na concretização desta mobilidade.

Contudo, ao investigar o caso dos estudantes brasileiros no ensino superior português tenho observado que, para além das dificuldades que encontram com a língua portuguesa falada em Portugal (diferenças de vocabulário, concordância, fonética, sotaques, regionalismos, gírias, etc.), a maioria não sabe que no ensino superior português o conhecimento da língua inglesa é fundamental (é cada vez mais comum o uso do inglês em aulas, bibliografias, participação em conferências e escrita de papers, já que a academia portuguesa quer marcar presença nas principais revistas científicas do mundo, e estas encontram-se, maioritariamente, em inglês).

Portanto, a partilha do mesmo idioma, um dos fatores que têm contribuído para a mobilidade destes estudantes para Portugal, não se tem mostrado muito eficiente quando a questão se prende com a integração dos mesmos no país. Apesar de ambos os países terem como língua oficial a portuguesa, o facto é que os brasileiros incorporaram à “língua de Camões” algumas diferenças (muitas vezes provenientes dos autóctones, de outros colonizadores, imigrantes, etc.), nem sempre vistas com bons olhos pelos portugueses.

Por isso, alguns estudantes brasileiros referem já ter ouvido, inclusive de professores, que o português que falam não é o correto. Custa-me acreditar que um estudante universitário brasileiro não saiba utilizar a língua portuguesa, da forma como a utilizamos no Brasil, corretamente. Mas que a utiliza de forma diferente, é certo! Assim, acho mais plausível admitir que não se trata de uma utilização errada, mas diferente. Obviamente se estes estudantes escolheram vir para Portugal devem fazer um esforço para se adaptarem à língua que aqui é falada. Mas visto que as universidades portuguesas também têm interesse em atrair estudantes estrangeiros, sobretudo dos países lusófonos (como já expliquei em outro artigo), será que elas também não deveriam fazer um esforço para aceitar estas diferenças? Parece-me que separar “erro” de “diferença” é o primeiro passo que deve ser dado em direção a uma maior integração.

Quanto ao uso do inglês, enquanto alguns estudantes brasileiros veem nisso uma “mais-valia”, uma forma de melhorar este idioma, outros consideram “um absurdo”, uma forma “arrogante” de as universidades portuguesas se posicionarem em concordância com os desígnios eurocêntricos de dominação da língua inglesa e de autores anglo-saxões. Ou seja, é paradoxal que o uso do inglês como forma de internacionalização do ensino superior português possa afastar a maior comunidade de estudantes estrangeiros do país: a brasileira.

A dificuldade que o brasileiro sempre teve com a língua inglesa baseia-se numa aprendizagem de fraca qualidade durante o ensino fundamental e médio (1.º ao 12.º ano), onde somente quem fosse capaz de custear um curso privado de inglês (ou seja, uma elite) teria chance de ver este défice colmatado. No entanto, com uma maior democratização no ensino superior brasileiro, que possibilitou que não só uma elite pudesse estudar no exterior, mas também aqueles que não tiveram como emendar o fraco aprendizado do inglês, Portugal configurou-se na oportunidade de “estudar fora”, bastando falar português.

Mas não, falar português, em Portugal, não basta! Em Portugal ainda é preciso haver um esforço de entendimento entre os diferentes falantes de língua portuguesa; é preciso que as universidades invistam mais na publicação de artigos nesta língua e aproveitem toda a potencialidade e a diversidade provenientes dos países lusófonos. Só assim talvez se consiga restituir a importância de um idioma que, apesar de subalternizado, ainda é o quarto mais falado no mundo.

Juliana Iorio
Jornalista, Doutoranda em Migrações pelo IGOT – Univ. Lisboa

[Transcrição integral de: Opinião – Quando falar português, em Portugal, não basta!  “Diário de Notícias, 05.02.18. Sendo a autora brasileira, “instruí” a solução “Firefox contra o acordo ortográfico” para não converter a escrita brasileira do original para Português-padrão. Imagem de topo, sem menção de autoria, copiada daqui.]

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Países “atrasados” onde farmácia escreve-se “ainda” com PH

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“A minha grande tristeza é a pouca atenção que se dá à língua portuguesa”

澳門大學

“A minha grande tristeza é a pouca atenção que se dá à língua portuguesa na Universidade de Macau”

Catarina Vila Nova

Jornal “Ponto Final (Macau), 10.01.18

 

Na Universidade de Macau, contrariamente ao que se poderia pensar, não existe a promoção da língua portuguesa. As palavras são de Inocência Mata, antiga subdirectora do Departamento de Português da instituição. Ao PONTO FINAL, a académica apontou um rol de problemas que diz existir no departamento relacionados com a importância – ou falta dela – atribuída à língua portuguesa.

A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) enviou uma carta aberta a Song Yonghua, que tomou ontem posse como reitor da Universidade de Macau (UM). Na missiva, o organismo apela ao académico para “promover a utilização da língua portuguesa na comunicação da UM com a sociedade e com os jornalistas de língua portuguesa de Macau”, algo que considera “que não tem sido prática corrente no passado recente da UM”. Para Inocência Mata, que até Agosto do ano passado era a subdirectora do Departamento de Português da Universidade de Macau (UM), esta carta é vista como “oportuna”. “É oportuna porque na verdade eu creio que para a Universidade de Macau o português não existe”, afirmou a académica em declarações ao PONTO FINAL.

“Eu penso [que esta carta] faz todo o sentido porque contrariamente ao que se poderia imaginar não existe a promoção da língua portuguesa pela e na Universidade de Macau”, declarou Inocência Mata. “Eu gostava que a língua portuguesa fosse uma língua mais promovida não apenas no sentido desse ensino que, como também já é do conhecimento geral, tem sofrido um enorme ‘backlash’. Eu espero que quem toma as decisões na Universidade de Macau perceba que a universidade ganha em promover a língua portuguesa. Não direi já como língua de trabalho mas pelo menos [como] uma das línguas muito importantes para os alunos e para que os alunos se sintam motivados”, sustentou a professora.

Questionada quanto a uma possível alteração do panorama por si traçado com a tomada de posse de Song Yonghua, Inocência Mata duvida que tal esteja directamente dependente do reitor. Porém, a académica também não acredita que este poder esteja concentrado no director do Departamento de Português devido à “relação demasiado vertical” que diz existir na hierarquia da instituição. “Nunca se sabe quem impõe as regras, eu não sei se depende do chefe do departamento porque na verdade é uma relação demasiado vertical que não sei qual é o centro do poder que não tem noção da especificidade da língua portuguesa na região de Macau”, criticou a docente.

Quanto ao que a motivou a abandonar o cargo de subdirectora, Inocência Mata aponta uma “miríade de razões” sendo a principal o facto de achar que “todas as decisões já estavam tomadas”. “Eu não quis continuar porque achava que não fazia a diferença e eu estou habituada a fazer a diferença. Na casa de onde venho, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, eu estou habituada a que as decisões de ordem pedagógica e científica sejam tomadas pelos professores. Eu cheguei à conclusão que os professores não têm qualquer palavra a dizer, a decisão está toda tomada. Eu não sei onde é que está o centro das decisões, eu sei é que não está no Departamento de Português”.

Inocência Mata faz também a ponte com a instituição onde leccionava em Portugal antes de vir para Macau para criticar o facto de a UM não abrir há três anos um mestrado na área dos estudos literários e culturais de português. Segundo explicou a académica, quando assumia ainda funções como subdirectora foi-lhe comunicado que o mestrado não iria abrir devido ao número de alunos inscritos não ser suficiente.

“Por exemplo, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa é óbvio que os candidatos aos cursos de latim e grego são sempre um número menor do que os candidatos aos cursos de línguas hispânicas ou de português; portanto, deixar de abrir cursos de latim e grego é passar um atestado de óbito. Ou seja, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa arca com este fardo porque tem a ver com o espírito da faculdade e eu penso que a Faculdade de Letras e Humanidades [da UM] devia fazer isto em relação ao português”, sustentou.

A especialista em estudos pós-coloniais no mundo da língua portuguesa critica ainda o facto de, na faculdade, “o que conta são as revistas publicadas em inglês e os artigos publicados em inglês”. “Então não era de se valorizar uma pessoa que é da área do português e haver uma promoção das revistas portuguesas, angolanas, brasileiras, moçambicanas?”, atirou. “Mas não. Para meu espanto cheguei a apercebi-me de que, na verdade, o que conta são as revistas que estão em bases e que são todas elas dos Estados Unidos e da Inglaterra”, contou.

“Obviamente que eu não consigo conviver com isto porque a minha área é a área do português. Porque é que eu tenho de escrever em inglês e publicar em inglês? O inglês aqui é a língua valorizada para publicação, realidade com a qual eu não convivi nada bem”, disse a académica que, contudo, assumiu que “obviamente que as coisas mudaram um bocado”. “Esperemos que as pessoas agora tenham atenção a esta matéria porque esta é a minha grande tristeza, a pouca atenção que se dá à língua portuguesa na Universidade de Macau”.

“QUE OBSTÁCULO É QUE VOCÊS TÊM NO CONTACTO [COM A UM]?”

Contactado pelo PONTO FINAL também sobre a carta da AIPIM, Yao Jingming, director do Departamento de Português da UM, disse que “faz sentido ter sido enviada essa carta”, apesar de defender que “recentemente a universidade tem vindo a trabalhar muito em termos de melhoramento do ensino da língua portuguesa”. “Em termos de relação da Universidade de Macau com os meios de comunicação social em português, as notícias que eles fazem sempre fazem em três línguas. Por isso, que obstáculo é que vocês [jornalistas] têm no contacto e na comunicação com eles?”, questionou o também poeta e tradutor.

Para Yao Jingming, a questão também se coloca de forma inversa ao afirmar que “todos os cidadãos de Macau também têm que aprender outras línguas”. “Os portugueses que vivem aqui em Macau também têm que aprender e sentir-se mais motivados para aprender chinês. Se todos pudessem falar outras línguas a comunicação e o convívio seria muito mais fácil. Os chineses claro que têm que aprender mais português enquanto que os portugueses que vivem em Macau também têm de estar mais motivados para aprender a língua e a cultura chinesas”.

Quanto ao novo reitor, o responsável pelo Departamento de Português disse que Song Yonghua “precisa de tempo para conhecer a realidade da língua portuguesa para [poder] tomar medidas em termos da promoção desta língua, porque ele chegou a Macau há poucos dias”.

[Transcrição integral de: “A minha grande tristeza é a pouca atenção que se dá à língua portuguesa na Universidade de Macau”. Autoria: Catarina Vila Nova. Jornal “Ponto Final” (Macau), 10.01.18.]

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Pèidéluó, Pútáoyá (2)

(continuação)

As generalizações são, por definição, terreno perigoso: podemos incorrer no pecado da soberba e cair na tentação de trocar o arquétipo pelo estereótipo ou de promover algo que ocorre regra geral a fenómeno obedecendo a uma pretensa lei universal.

Existem, contudo, traços distintivos geralmente (e pacificamente) aceites como características típicas: por exemplo, os destros distinguem-se dos canhotos porque todos estes são canhotos, nem de propósito; mas tal característica — individual e colectiva — não deve nem pode ser confundida com uma qualquer imagem estereotipada e caricatural.

Como aquela que, também por exemplo, brasileiros traçam do “português”: chama-se invariavelmente Manoel, é padeiro, está casado com uma tal Maria, senhora que jamais apara seu farfalhudo bigode e que passa o tempo todo a dançar com “Seu Manoel” o “Vira”.

Não sei se haverá alguma amostra de achincalhamento deste tipo — verdadeiramente racista — em sentido contrário, ou seja, presumo que não exista uma única gravação de portugueses aos saltos a guinchar insultos contra o povo brasileiro.

Não, ora cá está uma característica geral dos portugueses, nós gostamos mais de gozar connosco mesmos. Por vezes até gozamos com aquilo em que nos achamos os melhores do mundo e arredores: “o português tem muito jeito para as línguas”, dizem muitos com orgulho, do que se riem alguns outros com gosto.

Trata-se de outra forma de generalização abusiva, se bem que não incrivelmente estúpida, como aquela dos “Mamonas Assassinas” (raio de nome), mas ainda assim houve logo alguém que se lembrou de virar a gabarolice do avesso: o humorista Herman José, português de ascendência alemã, criou um excelente “boneco”, Lauro Dérmio de sua graça, para caricaturar o português sem jeito nenhum para falar “estrangeiro”.

Trata-se de um realizador de cinema cujo “jeito” para a Língua inglesa deixa um bocadinho a desejar. Sem mais demoras, letes luque éta treila.

Temos, portanto, por um lado a “falta de jeito” (Lauro, Sócrates, Mourinho, Soares) e por outro lado temos, além dos casos pontuais de inépcia individual na pronúncia, a própria incapacidade fisiológica dos falantes na articulação de certas sonoridades “alienígenas”, como nos já citados casos de chineses e anglófonos com os “érres” e de portugueses quanto à pronúncia do inglês “TH”.

Ora, se podemos delinear nesta matéria traços distintivos, de forma geral, genérica e prototípica quanto a chineses, americanos, ingleses e lusitanos, então porque não tentarmos ao menos espreitar o caso brasileiro? Haverá algum traço comum, deste mesmo ponto de vista, que se possa designar como “tipicamente brasileiro”?

Bem, talvez seja de pesquisar um pouco. Vejamos se os brasileiros dizem sobre isto alguma coisa de si mesmos.

Alguns trabalhos já foram realizados sobre o assunto e verificaram que, em grande parte do território nacional, predomina a variante vocalizada dessa consoante, ou seja, o /l/ em final de sílaba transforma-se em uma semivogal [w], formando, muitas vezes, um ditongo com a vogal do núcleo da sílaba. Sendo assim, palavras como mal e mau (ou vil e viu) confundem-se numa mesma pronúncia: mau e viu. Podemos, portanto, afirmar que ocorre um processo de neutralização entre esses dois fonemas quando esses ocorrem em final de sílaba.

Como podemos observar, há duas principais realizações do fonema na posição de coda. Uma que se denomina de velarizada […], mais próxima da lateral plena [l], e uma variante vocalizada [w].

Dialetalmente falando, a variante velarizada é própria do português de Portugal, ao passo que a variante vocalizada é uma marca bem clara do português falado no Brasil (SÁ, 2006).

A VARIAÇÃO DA LATERAL POSVOCÁLICA /L/ NO PORTUGUÊS DO BRASIL, Antonio José de Pinho

Ah, cá está, já se conseguem vislumbrar as primeiras diferenças e até parece que — desde que as fontes estejam plasmadas numa linguagem hermeticamente académica — afinal o assunto não é tabu e nem mesmo roça a fronteira do politicamente incorrecto.

(mais…)

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