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Um blog contra o AO90 e outros detritos

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Natal 2018 — “Time Out” Lisboa

 

 

Nada vai além dos 10€ e há sugestões para todos os gostos.

Publicado por Time Out Lisboa em Quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dezembro é o mês de fazer da agenda um puzzle de jantares com amigos, colegas e familiares e, mais ainda, tratar de arranjar um presente para aquela troca de prendas em que se enfiou quando aceitou a janta. Mas pode começar mais cedo a pensar no que dar ao comparsa para não deixar para a última e comprar uma bagatela qualquer. Se entrou no espírito da época, comece lá a riscar nomes dessa lista com estas ideias de presentes para o amigo secreto – nada vai além dos 10€ e há sugestões para todos os gostos.

Recomendado: Os melhores mercados de Natal em Lisboa

Publicado por João Pedro Graça em Quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Prepare as pernas e parta à aventura! Temos dois roteiros por descobrir: os segredos da Graça e Alfama ou os tesouros e histórias do Bairro Alto e Bica.

O melhor de tudo? Esta aventura vai ser grátis. Com o espírito natalício que se vive na cidade, não quisemos ficar de fora e a Time Out, em parceria com a Secret City Trails, vai oferecer o jogo a todos os participantes durante 48 horas, no último fim-de-semana do ano. É o nosso presente de Natal para si. Por isso não diga que não a mais uma rabanada ou uma fatia de bolo-rei, porque no fim-de-semana a seguir ao Natal vai queimar tudo isso enquanto descobre segredos escondidos da cidade.

Para participar basta escolher o seu jogo aqui (https://www.secretcitytrails.com/timeoutlisboa/), entre os dias 29 e 30 de Dezembro, e inserir o código 48HOURS durante o processo de pagamento para obter o jogo gratuitamente. O link do jogo será enviado para o seu email instantaneamente e o jogo fica imediatamente disponível para que possa sair para a rua e descobrir a cidade – aproveite para apreciar as luzes de Natal pelo caminho, antes que desapareçam por mais um ano.

Nota: o código apenas é válido durante o fim-de-semana de 29 e 30 de Dezembro. Compras efectuadas fora desse período não estão abrangidas por esta campanha.

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Uma educação de qualidade ou “uma qualidade educação”?

Ministra Educação timorense nega ter política “anti-lingua portuguesa”

 

RTP/Lusa, 29 Nov. 2018

A ministra da Educação timorense negou ter uma política “anti-língua portuguesa” e afirmou estar convicta de que a reforma curricular que promoveu a partir de 2015 “vai funcionar” e ajudar os alunos a obter melhores competências.

 

“A minha política não é nem nunca foi anti-língua portuguesa. E confesso que não penso que existam assim tantas pessoas a considerarem que tenha uma política anti-língua portuguesa”, afirmou Dulce Soares, em entrevista, por escrito, à Lusa em Díli.

“Como não iniciamos a alfabetização em português, algumas pessoas compreenderam incorrectamente que o novo currículo seria, nas suas palavras, `anti-português`. Pelo que, como fui uma das promotoras desta reforma curricular, acabei por ser apelidada como `anti-português`”, explicou.

Dulce Soares concedeu uma entrevista à Lusa para analisar alguns dos aspectos relacionados com o trabalho do seu Ministério, com destaque para questões curriculares, língua e recursos educativos.

A governante considerou “normal” que processos de “profunda revisão curricular” suscitem críticas e divergências e insistiu que o modelo iniciado em 2015 – entre as medidas mais polémicas do Governo -, assenta na “progressão linguística que se inicia no tétum e progride para o português”.

“Sinceramente, acredito que este método definido pelo plano de progressão linguística vai funcionar e ajudar os alunos a adquirirem melhores competências na língua tétum e um melhor domínio da língua portuguesa, sem sacrificar a aquisição de conhecimentos nas restantes áreas disciplinares”, sustentou.

“Esta convicção não assenta apenas nas minhas crenças, esta convicção fundamenta-se em vários estudos na área da educação realizados em contextos multi-linguísticos. A minha política é antes de qualquer coisa pró-educação e pró-aprendizagem de qualidade”, afirmou.

Dulce Soares explicou que foi decidido que “a alfabetização ou a literacia se iria iniciar apenas numa língua oficial e que seria aquela que as crianças compreendessem melhor”, nomeadamente o tétum.

O português seria introduzido “progressivamente, oralmente desde o 1.º ano e na forma escrita a partir do 3.º ano, com o objectivo das crianças alcançarem uma base sólida e forte em ambas as línguas oficiais, aquando da conclusão do segundo ciclo”, explicou.

Esses currículos só prevêem que o português comece a ser língua de instrução para componentes curriculares a partir do 4.º ano, dedicando ao ensino do português apenas 25 minutos por semana no 1.º ano.

O tempo real de ensino do português aumenta para 1:15 horas no 2.º ano e 2:30 horas no 3.º e 4.º ano – pode ser ainda mais reduzido, já que muitas das escolas públicas, por falta de professores e demasiados alunos, usam um sistema de turnos.

No que toca ao componente do estudo da língua como componente curricular, o português é meramente oral nos três primeiros anos – 25 minutos por semana no 1.º, 1:15 horas na 2.º e 2:30 horas no 3.º.

O português passa à leitura e escrita apenas a partir do 4.º ano, ainda com 2:30 horas por semana, sendo ampliado ao tempo máximo de 3:20 horas no 5.º e 6.º ano.

“O meu objectivo é que as crianças aprendam e quando me refiro a aprender não é apenas uma língua. Quero que aprendam a fazer contas, aprendam a história de Timor-Leste, aprendam sobre como funciona o seu corpo, como nascem, crescem e vivem os animais e as plantas”, disse Dulce Soares.

“Quero que compreendam o mundo, que sejam capazes de resolver problemas, que saibam respeitar-se uns aos outros e que estabeleçam relações sociais saudáveis com os outros”, afirmou.

Timor-Leste, sublinhou, é único entre os países da CPLP por ter duas línguas oficiais (português e tétum). Por outro lado, acrescentou, promover o domínio linguístico demora “mais do que uma década”, pelo que se deve olhar para experiências na região e no mundo onde esse processo tem tido êxito.

“Temos de analisar estes casos de sucesso, para traçarmos estratégias que também nos permitam ter êxito, (…) que seja um país com duas línguas oficiais dominadas por toda a população”, defendeu.

“Um primeiro passo já foi dado, com o currículo do 1.º e 2.º ciclo do ensino básico que estabelece métodos mais eficazes para o ensino da língua, nomeadamente através da progressão linguística do tétum ao português”, frisou.

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ministra-educacao-timorense-nega-ter-politica-anti-lingua-portuguesa_n1114312

Escola algures nas montanhas, numa clareira rodeada de "madres do cacau".

Publicado por Fotografias de Timor em Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017

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‘Do abuso de autoridade’ (Feira do Livro do Porto 2018)

1. No “site” da ILC-AO denuncia-se a ocorrência

Polícia manda fechar “banca” da ILC-AO na Feira do Livro do Porto

2. A Lei 17/2003 legitima as recolhas de assinaturas e ilegaliza qualquer entrave às ILC

Artigo 5.º
Garantias
O exercício do direito de iniciativa é livre e gratuito, não podendo ser dificultada ou impedida, por qualquer entidade pública ou privada, a recolha de assinaturas e os demais actos necessários para a sua efectivação, nem dar lugar ao pagamento de quaisquer impostos ou taxas.

3. O jornal “Público” esteve no local e publicou notícia sobre o assunto

4. Do abuso de autoridade (Código Penal, Secção III)

 

Artigo 379.º
Concussão

1 – O funcionário que, no exercício das suas funções ou de poderes de facto delas decorrentes, por si ou por interposta pessoa com o seu consentimento ou ratificação, receber, para si, para o Estado ou para terceiro, mediante indução em erro ou aproveitamento de erro da vítima, vantagem patrimonial que lhe não seja devida, ou seja superior à devida, nomeadamente contribuição, taxa, emolumento, multa ou coima, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
2 – Se o facto for praticado por meio de violência ou ameaça com mal importante, o agente é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

Artigo 380.º
Emprego de força pública contra a execução da lei ou de ordem legítima

O funcionário que, sendo competente para requisitar ou ordenar emprego da força pública, requisitar ou ordenar este emprego para impedir a execução de lei, mandado regular da justiça ou ordem legítima de autoridade pública, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias.

Artigo 381.º
Recusa de cooperação

O funcionário que, tendo recebido requisição legal de autoridade competente para prestar a devida cooperação à administração da justiça ou a qualquer serviço público, se recusar a prestá-la, ou sem motivo legítimo a não prestar, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.

Artigo 382.º
Abuso de poder

O funcionário que, fora dos casos previstos nos artigos anteriores, abusar de poderes ou violar deveres inerentes às suas funções, com intenção de obter, para si ou para terceiro, benefício ilegítimo ou causar prejuízo a outra pessoa, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

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«Uma arma perigosa à solta: a palavra» [Carlos Aguiar Gomes, “Diário do Minho”, 27.09.18]

«Para não falar do escandaloso chamado Acordo Ortográfico, uma vergonha e que nos quer obrigar a destruir a nossa língua.»

O autor deste artigo cita diversos exemplos da universal reciclagem da expressão (escrita e oral) na sua faceta mais evidente, isto é, o processo de uniformização em curso visando a destruição de qualquer forma de pensamento independente: «forma de controlar ideologicamente cada um de nós, obrigando-nos ao “pensamento único”».

Orwell deixou-nos, de facto, um arrepiante filme do seu (então) futuro, o qual é hoje a nossa (triste) realidade, com uma acuidade premonitória ao alcance de apenas uns poucos visionários — os que entenderam o imenso poder da linguagem e assim anteciparam («profecia do que se passa hoje») o que com ela fariam  meia dúzia de facínoras.

Como de igual modo nos vamos apercebendo, em verificável, observável, extremamente simples silogismo (ou ainda mais simples relação de causa e efeito), sendo de todo impossível o controlo do pensamento através apenas do sequestro das palavras, então aqueles que tal controlo ambicionam dispõem de um último e ainda mais radical recurso: a destruição das palavras implicará necessariamente a aniquilação do pensamento.

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.» [George Orwell, “1984”]

Uma arma perigosa à solta: a palavra

Carlos Aguiar Gomes
“Diário do Minho”, 27.09.18

 

Quand l’atmosphère général est mauvais, le langage ne saurait rester indemne” (G. Orwell – 1946)

 

A revista francesa «Le Point», de 16 de Agosto pp dedicou a capa e uma série larga de páginas ao autor de “1984”, Eric Blair, conhecido pelo seu pseudónimo Georges Orwell. Li, com o maior interesse estas páginas. Muito interesse. Das muitas passagens dos artigos então e ali publicadas, cheias de interesse pela sua actualidade gritante, retive a que encima este artigo, verdadeira profecia do que se passa hoje.

Na realidade, “Quando a atmosfera geral é má, a linguagem não pode ficar imune”, tal como escreveu o citado autor em 1946, num artigo que publicou.

Olhemos e ouçamos o que se passa à nossa volta, numa “atmosfera” cultural, linguística e espiritual deletéria, depauperada e… manipulada escandalosamente com a nossa linguagem pobre, mentirosa, fraudulenta. Para não falar do escandaloso chamado Acordo Ortográfico, uma vergonha e que nos quer obrigar a destruir a nossa língua.

Mas há mais. Dou alguns exemplos da manipulação da linguagem, habilmente manipulada por ideologias que têm como objectivo a destruição dos nossos valores e da nossa identidade:

– Interrupção voluntária da gravidez – metáfora que se usa cada vez mais, para atenuar o peso e o significado verdadeiro do que é: o aborto. Assim, se apaga a noção de matar um bebé por nascer, tornando este vil acto aceitável por uma população que se recusa a pensar…

– Morte digna e assistida – outra metáfora mentirosa e falaciosa para dizer matar uma pessoa que, por compaixão, dizem, deve ser morta porque “pediu”…

– Namorado – companheiro com quem se vive sem vínculo civil ou religioso, de que se troca como quem muda uma camisa ao fim do dia…

– Acompanhantes de luxo – outrora eram as prostitutas que se faziam pagar bem e tinham aparência de “esposas”. Acrescentem-se os “prostitutos”, mais modernos…

– Desvio de fundos – metáfora, também, para amenizar o crime de roubo, normalmente chorudo e de gente importante…

– Elite – outra metáfora para dizer “os que mandam” bem ou mal, têm poder, mas raramente são modelos…

…E quantas mais palavras o leitor conhece que são verdadeiras radiografias de uma péssima atmosfera de uma sociedade doente e que são usadas constantemente pelos “opinion makers” que são os que, de facto, manipulando as palavras criam uma nova atmosfera intoxicada, poluída e malsã. Esta em que vivemos sem nos revoltarmos e recusarmos a usar a “novilíngua”, como disse Orwell, como forma de controlar ideologicamente cada um de nós, obrigando-nos ao “pensamento único”.

[Transcrição integral de Uma arma perigosa à solta: a palavra, da autoria de Carlos Aguiar Gomes, publicado no “Diário do Minho”, 27.09.18Imagem de topo de: ePresse.]

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«Crazy poor portuguese» [Clara Ferreira Alves, “Expresso”, 01.09.18]

«De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.»
Clara Ferreira Alves

CRAZY POOR PORTUGUESE

Clara Ferreira Alves

Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar

Quando saiu do elevador deixou um perfume que entonteceu os sitiados. Orquídeas? Jasmim? Flores brancas das que crescem na Ásia por todo o lado. Os sitiados, que iam para andares diferentes do hotel, ficaram em silêncio a aspirar o cheiro do dinheiro. Tudo, naquela mulher, cheirava a dinheiro. A roupa de marca, a jóia discreta, o cabelo negro lacado, os sapatos de verniz e salto alto, mil euros desenhados por aquele senhor com nome francês que tem casa na costa alentejana. E isto sabendo-se que ao anoitecer a chuva cairia com violência, inundando as ruas e escorrendo nos declives e goteiras com o barulho de uma catarata. Aqueles sapatos nunca saíam à rua, eram sapatos de motorista e carro de luxo, de portas abertas à passagem por gente fardada. Por servos. Aqueles sapatos pertenciam a uma mulher chinesa rica. Podia ser de Xangai, Pequim, Singapura ou Hong Kong, podia ser de Banguecoque, era sem dúvida de ascendência chinesa. Conforme as sábias palavras do grande viajante árabe Ibn Batuta, o marroquino nascido em Tânger em 1304, em nenhuma parte do mundo se encontra gente mais rica do que os chineses.

A frase serve de epígrafe à novela de Kevin Kwan que deu origem ao filme “Crazy Rich Asians”, que bate recordes de bilheteira e que a Netflix tentou comprar sem conseguir. O filme parece que não será visto nas salas portuguesas. A distribuidora assim decidiu, por ser um filme habitado por actores asiáticos e que se passa no universo exclusivo dos multimilionários de Singapura. O filme, como o livro, não passa de um best-seller de aeroporto que vale pelo que mostra desta Ásia com dinheiro, muito dinheiro. Mostra uma parte de um mundo que, para os portugueses que deixaram de ser comerciantes, aventureiros e diplomatas, deveria ser mais bem conhecida e deveria despertar mais curiosidade. Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar. Ali estão os países que determinarão a prosperidade mundial, e os Estados Unidos perceberam isso. Portugal permanece um dos países mais ignorantes e avessos a um continente onde fomos importantes, onde desembarcámos e comerciámos e missionámos, onde construímos e onde deixámos uma elite, pequena, é certo, que foi a única elite do império português. De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.

A ignorância da Ásia prejudica-nos. O nosso conhecimento do continente não pode resumir-se à diáspora emigrante de Macau ou a um pacote de turismo de massas numa praia da Tailândia. Ao contrário dos franceses, que mantiveram os laços com a Indochina, Portugal não estudou nem investiu. Nos mercados asiáticos, não se vê uma marca portuguesa, uma só, esqueçam o pastel de nata, que foi culturalmente apropriado, o que demonstra que perdemos a nossa vocação de comerciantes para nos tornarmos o que somos, um país a vender as pratas da família para poder comer. Portugal está a ser comprado pela China, em largas quantidades, e não nos importamos de vender sectores essenciais que determinarão a soberania e nos reduzirão a uma plataforma logística. A actual ministra do Mar anda por aí num enlevo a ver se vende por grosso os portos portugueses aos chineses, contrato que nenhum outro país da Europa, com excepção da Grécia, assinaria. Pelas implicações futuras e pela demonstração da incapacidade para administrar bem o que nos pertence. O que não for vendido à China será vendido a Singapura ou à Tailândia, como aconteceu com as sobras hoteleiras do império Espírito Santo, que se desmoronou em corrupções e humilhações. Será vendido a gente como a do mundo mostrado em “Crazy Rich Asians”, gente que tem uma visão do mundo determinada pelo privilégio e o poder do dinheiro. Conviria percebê-los melhor, visto que não existem filmes, nem existirão, sobre os interiores e corredores da nomenclatura comunista, constituída também por crazy rich asians.

Não existe gente mais rica do que os chineses, ou não existe gente mais ostensivamente rica do que os chineses. A nossa relação com a Ásia devia ser aprendida e cultivada, ou não passaremos, no tempo que aí vem, de novos funcionários. De servos de gente e de culturas que não conhecemos nem estudámos. E abriremos as portas à sua passagem. Portugal tem especialistas da Ásia, excelentes, que nenhum ignorante político português se lembraria de consultar, tão entretidos que andam com a intriga palaciana e a discussão do Orçamento, único tema de um país na indigência. Crazy poor portuguese.

Expresso, Revista E, 01SET,2018

[Transcrição integral de transcrição integral publicada no “blog ” Cadernos da Libânia de artigo, da autoria de Clara Ferreira Alves, publicado no semanário “Expresso” de 01.0918. A desortografia  abrasileirada do original foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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O buraco de trás

«They can make you say anything – anything – but they can’t make you believe it.
They can’t get inside you.
»
George Orwell, “1984”

 

“Esclarecido” o que é e porque surgiu o “buraco da frente” vejamos, por analogia (salvo seja, não sei se já tinha dito), o seu émulo das traseiras, na mui douta opinião de outros, se bem que da mesma espécie, especialistas na matéria — canadianos, neste caso.

Isto é, apuremos então em que consiste o conceito de “buraco de trás” e como este outro orifício se enquadra na mesma linha de engenharia linguística para fins de experimentalismo social.

Note-se que sobre o buraco anterior aqui citado, ou seja, dizer “buraco da frente” em vez de dizer (ou escrever) “vagina”, está ainda numa fase precoce de “implementação”, não sendo ainda obrigatório por lei trocar uma designação pela outra, ainda não é CRIME usar o termo “vagina” para designar vagina em vez de “buraco da frente” para designar vagina.

Mas se quanto a esse buraco ainda não é CRIME chamar outra coisa além de “buraco da frente”, em qualquer parte do mundo, cenário bem diferente se passa já quanto a toda uma classe gramatical numa certa parte do mesmo mundo: a classe é a dos pronomes e a parte é o Canadá.

Sucede que o país da “folha do ácer” tem correntemente um Primeiro-Ministro com seu quê de atrasado mental, ou de perfeito imbecil, vá, um tal Justin Trudeau, de sua graça, cuja função primordial parece consistir na demolição sistemática da linguagem: chamando os bois por outros nomes, deixa de haver bois. O que significa que, por exemplo, se a “pobreza” passar a ser “desfavorecimento”, então fica doravante administrativamente erradicada a pobreza, são eliminados de uma assentada todos os pobres e passarão a existir apenas “desfavorecidos”. Proibindo qualquer menção a “ignorância” e se, em vez deste desprezível termo, for obrigatório utilizar a expressão “necessidades educativas especiais” (ou outra patacoada qualquer), então está erradicada a iliteracia, toda a população receberá de imediato os respectivos canudos, à escolha. O próprio conceito de “crime” (quando perpetrado por “criminosos”, tipos violentos), por extenso e extensivamente, desaparecerá de todo — até porque é muito aborrecido, por vezes mete sangue, ou assim, sei lá — caso se passe a designar a coisa como “acidente de percurso” e os coisinhos como “vítimas da sociedade, coitadinhas”.

Coisa brilhante, portanto, que vai aliás fazendo escola — inclusivamente em Portugal, descontando os habituais dez anos de atraso — e que permite destarte resolver todos os problemas sociais sem sequer aflorar absolutamente nenhum deles.

No fundo, salvo seja pela enésima vez, trata-se neste caso de pronomes e, making short a very long story, sucede que a lei canadiana (alterando os próprios preceitos constitucionais) não apenas torna agora obrigatório o uso de pronomes consoante o “género” da pessoa (ou grupo) a que o pronome é aplicado, como CRIMINALIZA a utilização de “apenas” o masculino ou o feminino. Do que resulta isto: qualquer pessoa que pretenda dirigir-se, comunicar com ou referir-se a alguém (ou a um grupo) terá de saber de cor esta tabela de “géneros” alternativos. 

Gender Neutral / Gender Inclusive Pronouns

A gender neutral or gender inclusive pronoun is a pronoun which does not associate a gender with the individual who is being discussed.

Some languages, such as English, do not have a gender neutral or third gender pronoun available, and this has been criticized, since in many instances, writers, speakers, etc. use “he/his” when referring to a generic individual in the third person. Also, the dichotomy of “he and she” in English does not leave room for other gender identities, which is a source of frustration to the transgender and gender queer communities.

People who are limited by languages which do not include gender neutral pronouns have attempted to create them, in the interest of greater equality.

Quem tentar escapar disto, quem mijar fora do penico, ou pede publicamente desculpa aos/às/les/lis/xis/vis ofendidos/as/les/lis/xis/vis ou então paga uma multazinha jeitosa ou ainda, no caso de ser reincidente, vai malhar com os ossos na cadeia.

Isto é em Inglês, claro, e suponho que em Francês também, desgraçados dos Québécois, mas fazendo um exercício de analogia simplificado teríamos em Português algo como “ele, ela, ila, vila, vela, xela, xilo, zil, eles, elas, ilas, vilas, velas, xelas, xilos, zils, seus, suas, trilas, trilos, hezis, silas, xzels”, etc., etc., etc.

Um prodígio da pós-modernidade. Digo, uma prodígia dil pós-modernimil. Ou lst prodígicoise da modernzilic.

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