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No comment (em tuguês, xarepe)

Variando um pouco, em vez de notícias, conteúdos ou artigos sobre o #AO90, a matéria que hoje aqui reproduzo é uma selecção de comentários a um post sobre a Língua… inglesa. Esta excepção à regra justifica-se não apenas porque os textos do jornalista Pedro Correia, pelo menos aqueles que publica no blogDelito de Opinião“, costumam suscitar alguma febre comentadeira, mas também porque, ou principalmente porque, no caso deste post em concreto, o tema remete para algo que já aqui foi escalpelizado (e devidamente esfolado, espero) por diversas vezes: o purismo linguístico.

Ou seja, aquilo a que o blogger Pedro Correia se refere, aliás fazendo eco de uma corrente de “opinião” cada vez mais grossa — literalmente — e cada vez mais incompreensível, dado ser fundamentalista nos argumentos — basicamente –, é o dever patriótico de verter para Português os estrangeirismos “em geral” e, de entre estes, com particular vigor (ou sanha), os anglicismos.

Trocando em miúdos a provavelmente excessiva adjectivação, trata-se da aborrecidíssima premissa que postula (é favor não confundir, se bem que o tema se preste a inúmeros equívocos, a forma verbal “postula” com o substantivo “pústula”) — liquidar aquelas mais do que malévolas expressões idiomáticas inventadas pelo Mafarrico yankee, tais como “hardware” e “software” e “upload” e “download” e assim (não, “assim” não é um dos pecados cámones), trocando-as pelos respectivos “equivalentes” em Português. Alguns desses puristas diriam “destrocando-as” ou até, quem sabe, “destrocando-zi-as”, mas, faz de conta, ‘isso agora não interessa nada’.

Como também não interessa, pelos vistos[1], que não seja o Inglês, que se impõe naturalmente, porque é a língua franca da actualidade, mas sim o brasileiro, um crioulo de origem portuguesa que se afastou irremediavelmente da sua matriz, a língua que alguns brasileiros “adotivos” tentam impor violentamente a todos os portugueses.

Os “puristas” ralam-se imenso com estrangeirismos, mas pouco ou nada com “usuários” a “subir” e a “baixar”; adoram levar com “futchibóu em gérau” mas ficam furibundos até com sinais de trânsito (o sinal de “stop” deve passar a “párá” em brasileiro, “ô cara”?).

Não confundamos, não pelo menos assim tanto, à portuguesa, alhos com bugalhos: uma coisa é o exagero e o que isso comporta de absurdo (ou de risível), e outra coisa bem diferente, radicalmente diferente, é a eficácia na comunicação, a utilidade — caso a tenha, de facto — do termo ou da expressão original, quantas vezes intraduzível, quantas vezes insubstituível, ou na língua franca ou em qualquer outra; um idiota a armar aos cucos, tentando impressionar (ó patego, olh’ó balão) quem imagina que irá ficar tanto mais impressionado quanto mais ele usar bacoradas em “estrangeiro”, não tem nada a ver com a naturalidade no discurso, com a fluidez e até com o encadeamento de ideias e o rigor da argumentação que anglicismos (ou francesismos, ou espanholismos ou umbundismos ou quimbundismos) podem facultar, se utilizados com alguma parcimónia e um módico de sensatez.

É o que se passa, aliás, nos diversos níveis da linguagem. Da gíria ao calão, passando pelas linguagens técnicas (informática, médica, farmacêutica, arquitectónica, gráfica) ou artísticas (poética, literária, pictórica, musical), existe todo um universo de planetas linguísticos, cada um deles com sua atmosfera e seus relevos, suas matas e seus desertos, seus mares e continentes, até com o próprio Sol e satélites únicos…

O pretensiosismo de alguns cretinos merece, quando muito, se não algumas gargalhadas, a mais soturna indiferença. Confundir o que dizem uns tipos armados em carapaus de corrida com a Língua Portuguesa (ou a inglesa, ou a francesa, ou a servo-croata) é não apenas (igualmente) pretensioso, como não comporta qualquer tipo de mérito ou, de resto, seja o que for de válido — muito menos de um ponto de vista meramente linguístico.

Aliás, esta espécie de militância desviante (e enviesada) pelo purismo fanático acaba por ser contraproducente: enquanto alguns se entretêm com suas divagações algo onanistas, retiram enfoque àquilo que verdadeira e exclusivamente está em causa. Desviam as atenções, desmobilizam vontades, inutilizam trabalho, diminuem, reduzem e amesquinham — a troco de nada — a luta contra o único (e real) estrangeirismo que merece combate: o extermínio da Língua Portuguesa pela imposição de uma língua alienígena.

Comentários

Em Portugal dever-se-ia falar português, pelo menos nas nossa instituições. Esta senhora está há tanto tempo em Portugal a ser paga principescamente, deveria ter aulas para falar português e não francês, inglês ou outra língua.
A língua portuguesa é uma das línguas oficiais da UE, e é a mais falada, ou uma das mais faladas no mundo, no continente europeu, americano e africano. [Maria Teresa – ]

Estivesse a senhora em Madrid e ao fim do primeiro mês já “hablava” castelhano. Nós, por cá, somos assim.
Se valorizamos tão pouco a nossa língua e dobramos a cerviz a qualquer estrangeiro, como havemos de exigir que a administradora da “empresa aérea de bandeira” portuguesa fale… português? [Pedro Correia]

Concordo. Mas eu passo-me com os estrangeirismos ( digo) palavras inglesas que se lêem e são usados na linguagem verbal, quando temos um vocabulário riquíssimo e que devia ser usado. [Maria Araújo]

A última moda (já com uns bons anitos) na empresa onde trabalho é recebermos correspondência em inglês de escritórios brasileiros. E, pior ainda, respondemos-lhes também em inglês. Há uns anos, a administração ainda se ralava vagamente com isso, e havia indicação para se responder em português (tal como para os nossos vizinhos espanhóis que nos escreviam em castelhano). Hoje em dia já não ligam, e segue tudo em inglês. É o cúmulo do deixa andar. Em contrapartida, para certos clientes franceses que nos escrevem em inglês, respondemos em francês. Não tenho nada contra, mas a falta de coerência é gritante.
E sim, a hegemonia do inglês americano é geral e irreversível. Infelizmente, o que ajuda à comunicação por um lado, prejudica na aprendizagem e no uso das línguas nacionais pelo outro. Não sou purista, mas esta falta de amor pela língua-mãe (que se nota e agrava cada vez mais, e não só em Portugal, como é óbvio) é triste. No mínimo. [Ana CBlink]

Nem fazia ideia disso, Ana. Brasileiros e portugueses a comunicarem em… “amaricano”.
Mas já quase nada me surpreende. [Pedro Correia]

Nem o Pedro calcula a quantidade de brasileiros que nos perguntam ” Fala portugueis?”. Apetece dar uma resposta torta do género ” Eu falo, mas você não.” [Maria Dulce Fernandes]
O declínio das outras línguas preocupa-me pouco ou nada, já o declínio da nossa língua (escrita e falada) é gritante. A maior pérola que “apanhei” foi ter enviado um contrato para o Brasil escrito na nossa língua de Camões e para o mesmo ser aceite lá, teve que ser traduzido com certificação, de Português para Português?!! Tudo isto após acordo ortográfico! [Anónimo – ]
Isso não me espanta. Afinal o “acordo ortográfico” não é Português…! [Zé Nabo – link]

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Ignorância e apatia

«Esse é um problema da nossa justiça, uma espécie de anedota nacional que permite que um pescador de 79 anos seja detido por causa de uma caixa de sardinhas enquanto outros, hábeis com peixes mais graúdos, continuem a passar entre os pingos da chuva.»
[João Mendes, blog “Aventar”, 2015]

Constituir acervo sobre o #AO90, todo o seu historial, incidências, consequências e, em suma, as mentiras descabeladas de que se sustenta, coloca a quem o faz vários factores que podem — ou poderão ou poderiam, depende de cada qual — condicionar (ou não, de todo) as matérias seleccionadas para o efeito, sobretudo quando são prévia ou simultaneamente comentadas. A adjectivação implícita pode mesmo revelar-se algo arriscada, literal e figurativamente, apesar de todas as chamadas “garantias” dos mais elementares direitos titulados na Constituição da República.

A (triste) realidade, com a qual deparamos inevitavelmente se nos abstrairmos da retórica política, é que as “garantias” de “liberdade de opinião e informação” não garantem per se coisa alguma — do que resulta, na prática, a absoluta nulidade daquilo que se convencionou designar como “liberdade de pensamento”. Neste pressuposto, todo o capítulo da “lei fundamental” portuguesa, em que teoricamente são consagrados direitos, liberdades e garantias, vale o que vale: por alguma estranha razão, seria talvez mais prudente não quantificar esse valor em vez de lhe atribuir um rotundo zero.

Vêm estes considerandos a propósito dos reflexos (condicionados) — uma variante de icterícia mental — que já vão provocando na chamada “situação” (acordista, brasileirista, comodista, capitalista ou simplemente conformista) os alertas para o processo de demolição cultural em curso. São simplesmente palavras, na verdade, mas nada existe de mais perigoso para os ditos situacionistas do que traduzirem essas palavras a realidade, relatarem factos, demonstrarem a evidência das (suas deles) golpadas.

Daí, portanto, utilizarem esses tais a arma mais corriqueira do seu gigantesco arsenal de estupidez: a rotulagem. Característica intrínseca e definidora do vazio de ideias, a rotulagem é uma espécie de reflexo pavloviano que visa exclusivamente silenciar qualquer dissidência, ou, por extensão, seja quem for que se atreva a pôr em causa o “pensamento” tido por único ou vigente.

Rotular algo como “xenofobia” ou alguém como “racista”, nas diversas gradações dos termos e incluindo variantes mais ou menos delirantes (“preconceituoso” ou “reaccionário”, por exemplo), suscita conotações que denotam sobretudo desespero de causa. Ou seja, quem atira insultos assim que uma das suas vacas sagradas é picada fá-lo simplesmente porque não é capaz de articular sequer uma frase inteligível ou elaborar um raciocínio elementar.

Não é nada difícil por conseguinte, adivinhar as “reações” [ʁi.ɐ.ˈsõjʃ] à seguinte conjugação de factores, em termos comparativos.

1 – Entre 1974 e 1978, Portugal (então “continental”) terá acolhido cerca de 700 mil “retornados”, tendo esse facto provocado um naturalíssimo abalo nas estruturas e em todo o complexo tecido social da época, com o impacto do súbito e inusitado aumento populacional daí decorrente e com as inerentes implicações a todos os níveis, habitacional, laboral, empresarial e até cultural.

‘Retornados’ poderão ter sido mais de meio milhão

A estatística oficial diz que Portugal recebeu meio milhão de ‘retornados’ de África, mas o tenente-general na reforma Gonçalves Ribeiro, que coordenou as operações de acolhimento dos desalojados, reconhece que talvez seja “um número subdimensionado”.

(…)

Simultaneamente, a certa altura a lei restringiu os apoios a quem tinha antepassados portugueses, o que excluiu boa parte da população negra. (…) Em entrevista à Lusa, Gonçalves Ribeiro assinalou como o acolhimento das pessoas que deixaram África e vieram para Portugal “surpreendeu, de uma maneira geral, o mundo inteiro, a começar por países europeus, nomeadamente aqueles que também tinham colónias”. Impressionados, perguntavam-lhe: “Como é que um país pequeno como o nosso, em turbulência política, económica e social, pôde, num espaço de tempo relativamente curto, assimilar cerca de seis por cento da população portuguesa?”.

(…)

Olhando para a barra do Tejo, Gonçalves Ribeiro lembra o dia em chegou a Lisboa, no navio “Niassa”, embarcado em Luanda um dia antes da independência de Angola, juntamente com “o derradeiro remanescente da soberania de Portugal” naquela ex-província ultramarina. Mesmo perante a ameaça de “uma série de grupos” envolvidos no PREC, mais preocupados com “o umbigo” do que com o que se passava no Ultramar, a tripulação insistiu em atracar no cais de Alcântara, em Lisboa, onde tinha à espera “pequenas hordas ululantes” que consideravam aqueles últimos militares ao serviço do “império” português “reaccionários, conservadores e fascistas”.

(…)

Compreendendo as reivindicações que os espoliados, nunca indemnizados pelo Estado, mantêm até hoje, considera que “é insustentável esse tipo de expectativa”.

[Transcrição parcial de artigo publicado por “Notícias Ao Minuto” (com texto da agência Brasilusa), Abril 2014]

2 – Ora então, se 700 mil “retornados” — com a mesma Língua e partilhando os valores histórico-culturais e familiares dos portugueses “residentes” — provocaram semelhante abalo social, como é possível compreender que outros tantos 700 mil estrangeiros de nacionalidade brasileira não causem, segundo a “verdade” oficial, o mais ínfimo impacto no mesmíssimo tecido social nacional?

3 – E, quanto a motivações, em que ficamos? Os portugueses residentes nas ex-colónias tiveram de buscar refúgio na sua Pátria — na maioria dos casos possuindo apenas a roupa que traziam no corpo, caso não fosse emprestada –, ou arriscando a viagem para o “torrão” ou arriscando a própria vida, caso ficassem em África. O que tem esse facto a ver, que similitude existe entre as terríveis provações que todos os “retornados” passaram com a imigração de livre e espontânea vontade, em massa (para os padrões portugueses)? O que motivou uns foi a pura e simples sobrevivência. E quanto aos recém-chegados, o que será?
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Teorema dos assados

«Tento não falar muitas vezes do acordo ortográfico neste blogue, porque estou em crer que, nisto da língua, há muitos temas interessantes e importantes para lá dessa obsessão de tantos, de um e de outro lado da contenda tribal em que a discussão se transformou.» [Marco Neves]

Obsessão“? A sério?
Contenda tribal”? Não. De todo.

Enfim, com algumas reservas, porque nesta matéria devo ser de facto inflexível, aqui fica a transcrição integral de um artigo do (excelente) “Le Monde Diplomatique” sobre a última publicação de Marco Neves, um autor já aqui citado por diversas vezes. Além do texto desse artigo, em forma de entrevista, pode encontrar também, em baixo, uma “playlist” do “podcast” que deu origem ao livro.

À laia de comentário(s), caso queiramos ir “para lá” do significado estrito ou do conteúdo expresso na entrevista, relembremos uma realidade comezinha: a aprendizagem não se restringe à matéria ou ao objecto de estudo; muito se aprende também, e por vezes até mais do que em simples enunciados a granel ou em pilhas de calhamaços, com aquilo que não é jamais referido e, sobretudo, com o que poderá significar a absoluta ausência de referências a uma matéria basilar em determinado contexto discursivo, literário ou… ideológico.

Neste caso, como é por demais evidente, e por maioria de razões tendo em atenção que o tema é a Língua Portuguesa, o que não aparece referido de forma alguma é o #AO90. Nem expressa nem colateral nem subtilmente.

Ora, então, e porquê? Como é possível falar ou escrever sobre a Língua oficial de Angola e Moçambique, ainda para mais quando tanto se fala de “variedade”, sem mencionar uma única vez a manobra tardo-neo-colonialista dos vendidos tugas?

“Contenda tribal”? Isso não é possível. Os trogloditas estão todos do lado do adversário, da seita de vendidos, mercenários e traidores que venderam em 1986 e desde então traficam a Língua Portuguesa e, por inerência, a nossa Cultura, o mais valioso património identitário herdado por todo o povo português.

Para a pancadaria primitiva, é dos outros todo o arsenal de mocas e clavas, ou seja, de mentiras como pedradas, de asneiras violentas a esvoaçar. E é também inteiramente sua a bizarra obsessão (isso sim, é uma obsessão) pelo “gigante”, pelo “país-continente”, pela sonoridade pacóvia dos “230 milhões“.

“Assim ou Assado”. 100 perguntas sobre a língua portuguesa
SAM THEKID E MARCO NEVES
Oficina do Livro, Lisboa, 2022, 128 pp.,
15,50 Euros

Quando se diz a alguém que se é professor de Português ou apenas que se é da das línguas, surgem logo as perguntas sobre como se deve dizer ou escrever. Muitas pessoas querem saber o que é «português correto», dão muita importância a isso ou têm já convicções muito firmes sobre certas «correcções» e «incorreções», que gostam de ver confirmadas. Muita gente exprime opiniões veementes sobre coisas da língua, mesmo sem ter reflectido muito sobre as inúmeras questões que qualquer palavra, expressão ou regra levantam. Como diz Marco Neves, «é mais porque sempre ouvimos alguém dizer que [determinada coisa] não se podia dizer e, pronto, ficámos convencidos de que era assim. É também uma questão de identidade. Uma pessoa tem esta imagem de si de que cumpre esta norma, tem certas ideias sobre essa norma e defende-a, mesmo que implique contrariar a língua real falada pela comunidade». Além disso, acrescenta, «[h]á sempre um pouco de exclusividade social no uso da língua. Há palavras que as pessoas desprezam porque não gostam de quem as usa. Mas também, há outra coisa, há o medo… As pessoas têm medo de que seja tudo possível, lembram-se das regras que aprenderam e acham que agora podemos dizer tudo. Não é assim (antes pelo contrário)» E ele também compreende esse medo: «Há uma insegurança linguística muito marcada num país onde, até há poucas décadas, poucos sabiam escrever. (…) Gostamos muito de dizer “diz-se assim”. “Temos medo, no fundo, do assado.»

Marco Neves é «tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor», e «pai, com o ofício de contar histórias». Samuel «Sam TheKid» Mira é «músico, produtor, poeta, compositor, leitor, realizador e conversador». São ambos conversadores, portanto, e têm em conjunto um podcast chamado Assim ou assado, em que conversam sobre temas de língua. O livro baseia-se nas 10 primeiras emissões do podcast, de 23 de Setembro de 2021 a 20 de Junho de 2022 (disponíveis em https://tvchelas.com/category/podcast). As perguntas e as respostas não são exactamente 100, porque perguntas e respostas não numeradas escondidas no meio das outras, mas 100, 10 perguntas por podcast, é só uma maneira de organizar a coisa. Quando se faz um livro a partir de conversas, ganha-se algo em organização, precisamente, mas há também algo que se perde: «Se transcrevermos uma conversa, vemos que está cheia de hesitações, de frases que não terminam, de meias palavras. Ao escrever, podemos voltar atrás, corrigir (…). A escrita imita a língua falada, mas é outro bicho.»

Como é natural, é mais Samuel Mira a levantar questões — de facto, a trazer à conversa muitas polémicas actuais sobre «erros» da fala e da escrita — e Marco Neves a dar as respostas. E, como acontece em conversas com alguém que saiba de língua e se recuse a ter uma atitude puramente normativa, a conversa passeia pela história da língua, fonética, sintaxe e semântica, sociolinguística, enfim, todas as áreas do saber linguístico.

Quem procure indicações claras do que deve dizer ou corrigir provavelmente ficará desiludido com o livro. O que se procura aqui é, antes, compreender os fenómenos linguísticos e encarar a língua na sua diversidade de registos, não definir taxativamente o que é «correto» ou «incorrecto» — sem cair, porém, no extremo de aceitar displicentemente que vale tudo o que de facto se diz ou escreve, só porque faz realmente parte da língua.

Também não é livro para especialistas. A obra visa claramente um publica leigo e o especialista poderá achar que algumas afirmações pecam por falta de rigor ou excesso de simplificação. O livro centra-se, antes, em conhecimentos básicos em que é preciso continuar a insistir: se, por um lado, é bom dominar a norma culta («as regras de etiqueta da língua») e usá-la nas situações adequadas, também se deve compreender que não há, muitas vezes, mais justificação para essas regras do que para as formas criticadas que se usam nos registos menos formais — e que o excesso de cuidado com a observância de uma regra aceite acriticamente pode, em várias situações empobrecer, descolorir e artificializar o discurso, seja ele falado ou escrito.
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Dicionário brasileiro-Português (1.0)

Aqui está a primeira versão do primeiro dicionário de brasileiro-Português. Também funcionando, é claro, em sentido inverso, por assim dizer: basta ordenar alfabeticamente pela coluna de Português e pronto, em segundos tem o dicionário de Português-brasileiro.

Esta ferramenta permite pesquisar qualquer palavra ou formulação, tanto em brasileiro como em Língua Portuguesa, incluindo algumas das expressões mais comuns de gíria ou calão.

A principal finalidade deste trabalho é tornar possível a qualquer pessoa obter respostas sem necessidade de conhecimentos de processamento de texto, tratamento de dados, folha-de-cálculo, ou, por junto, de informática; aliás, a simplificação em extremo retoma o significado basilar do próprio termo “informática” (informação automática) e portanto a sua razão de ser meramente utilitária.

Daí a simplicidade, a começar pelo aspecto da “tabela” e terminando na operação: basta, como se costuma dizer “carregar no botão”. Este dicionário tem só dois “botões”: as pontas de seta a apontar para baixo, dentro de um quadrado, que se vêem no topo das colunas (à direita dos títulos das colunas “brasileiro” e “Português”).

“Click” num desses quadrados e irão aparecer as operações disponíveis. “Sort A to Z”, por exemplo, vai ordenar alfabeticamente o dicionário consoante a coluna que tiver escolhido; pode voltar a ordenar às avessas (de Z para A), procurar uma palavra em concreto (escreva onde diz “Search”) ou todas as iniciadas ou terminadas por seja o que for ou a/as que pretender segundo diversos critérios à escolha.O programa utilizado foi o Excel, no original em Inglês (a apresentação pode variar, dependendo das configurações locais de cada utilizador), dado que todo o Microsoft Office em Português já foi também aniquilado pela “língua univérrssáu” brasileira.

Algumas entradas contêm link para a respectiva definição no dicionário da Priberam. Por algum motivo que apenas dirá respeito àquele (excelente) serviço, os verbetes com a menção “Brasil” terminam na letra M.

Que se saiba, isto é, que o Dr. Google saiba, não existia até agora fosse o que fosse parecido com um dicionário de brasileiro-Português. No máximo, o que se encontra por aí — além de umas listazinhas desgarradas, minúsculas e cheias de palpites, muito longe de qualquer realidade — é precisamente em sentido inverso, ou seja, existem uns arremedos de dicionário esgalhados por alguns brasileiros mais aflitos porque chegam aqui e não entendem patavina do que “falô” (em brasileiro não existem declinações do verbo “dizer”) o “tugazinho”, o “seu Manoéu” da “terrinha”. É o caso deste eurodjicaiss, u siguintchi. (mais…)

WordPress (de) Portugal, WordPress (em) Português

Alguns já declararam o óbito e outros fizeram-lhe o enterro, mas ao que se vê essa espécie de gatos-pingados deveria dedicar-se a actividades mais lúdicas, por exemplo à pesca, ao crochet ou ao chinquilho: os “blogs” em geral e o WordPress em particular continuam de boa saúde. Essa é que é essa.

No caso da WordPress Portugal, uma (excelente) ferramenta anti-acordista já por tantas vezes aqui mencionada, tal e tão rica saúdinha vai dando cada vez mais sinais de verdadeira pujança. É o que muito claramente indica o evento agora anunciado para o próximo dia 17 de Novembro em Lisboa.

O surgimento das redes anti-sociais, Facebook, Twitter e os vários “derivados”, sucedâneos parcelares daqueles dois gigantones, parecia até há pouco tempo ameaçar os “blogs” — muitos milhares fecharam ou simplesmente desapareceram — e tornar-se monopolistas das atenções, dos meios e sobretudo das grandes massas de utilizadores que aderiram à comunicação virtual. Não apenas se volatilizaram imensos “blogs” de todos os tipos e feitios, como as próprias plataformas de alojamento e sistemas de criação (Livejournal, Blogspot e Blogger, e ainda, a nível tuga, a Sapo Blogs, entre outros) foram fechando “portas” ou entraram numa espécie de coma induzido… pelo “microblogging”, as ditas redes anti-sociais.

E assim, abreviando em extremo uma longa — se bem que muito rápida — história, à enxurrada que varreu os “blogs” acabou por resistir e escapar incólume aquele que sempre foi a mais fiável plataforma de alojamento, o sistema mais consistente e o programa mais intuitivo: o WordPress, precisamente.

Já se vão tornando evidentes sinais de exaustão por parte dos utilizadores das redes anti-sociais. O que aliás é compreensível: por regra, o Fakebook — mais governamentalmente instrumentalizado — e o Twitter — idem aspas, mas cheio de cavalgaduras particulares — não passam de antros pessimamente frequentados servindo para propaganda politiqueira, estupidificação em massa, desinformação oficial, conjuntamente governamental e privada.

Portanto, mesmo sem entrar nos escorregadios atalhos da futurologia, não será difícil prever que os “blogs” voltarão a ocupar o seu lugar de natural supremacia e, por maioria de razões, o serviço mais adequado (e preparado) será então o WordPress. Acresce que, no caso do ramo português (em Português), essa experiência poderá representar um saudável regresso às origens, com o acréscimo de ali ter existido um referendo sobre o #AO90 (uma coisa a sério, não mais uma brincadeira dos do costume) e poderem portanto contar com um interface decente***.

A WP-PT é, para os utilizadores portugueses (e dos PALOP), uma garantia não apenas de qualidade como, principalmente, de coerência.

Coisa rara, como sabemos, e em especial nestes perigosos tempos de corrida aos armamentos da estupidez.

Hands-on: WordPress traduzido em português

Details

Neste meetup vamos mostrar como funciona a tradução do WordPress.

Falaremos sobre as melhores práticas para traduzir temas e plugins, que ferramentas podes utilizar, que dificuldades podes encontrar e como a comunidade te pode ajudar.

O meetup terá uma componente prática, se quiseres começar a traduzir algum tema ou plugin, traz o teu computador e participa!

Será apresentado por Pedro Mendonça, editor da tradução portuguesa do WordPress, contribuidor do GlotPress, autor de plugins relacionados com a tradução, designer e apaixonado por blocos a sério – LEGO.

O meetup realiza-se, graças à PTisp, na Sala Valmor do Hotel Príncipe Lisboa, junto ao metro de São Sebastião. [“Meetup“]

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«Está nas nossas mãos» [Internet Archive]

Explore more than 753 billion web pages saved over time

Na imagem acima, o registo da Wikipédia portuguesa que hoje em dia é… brasileira, pois claro: transformou-se na “Wikipédjia Lusôfuna“. Diversos outros exemplos de teor semelhante — e igual eficácia — poderiam ser aqui e agora citados, apenas naquilo que diz respeito aos conteúdos do Apartado 53 (e do “site” original da ILCAO), sobre a forma como aquele extraordinário serviço corta pela raiz qualquer veleidade dos mitómanos patológicos na sua saga de reescrita da História. Enquanto funcionar, a WayBack Machine impossibilita que mentirosos profissionais neguem ter dito ou escrito o que escreveram ou disseram, assim como permite que o mais comum dos utilizadores siga o rasto, toda a história, incluindo eventuais alterações, mudanças ou até o desaparecimento, de qualquer documento, página, gravação, “website”, plataforma ou serviço.

Os vendidos da ordem e os idiotas úteis do costume continuam a negar a realidade e nem esfregando-lhes provas no focinho irão alguma vez admitir a mais comezinha das evidências, uns, ou finalmente acordar para a realidade, outros. Por exemplo, apesar de também isso negarem, como negam tudo o que não convém aos seus patrões, os donos da “língua univérrsau”, o processo de apagamento selectivo da História e da Cultura de Portugal não ocorreu “apenas” na Wikipédia ex-portuguesa, mas também em serviços tão diversos e plataformas tão diferentes como a Google ou os diversos “browsers” (Chrome, Firefox e outros), todas as redes anti-sociais (Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin etc.), os “sistemas operativos” de computadores e até dos telemóveis, mais os programas de trabalho de uso generalizado (processamento de texto, Excel).

Sempre a coberto das falácias mais imbecis (o que confere, atendendo a quem as propaga e quem lhes dá ouvidos), da “língua univérsau” ao “mundô dá lusôfuniá”, passando pelo mercado único “de 280 milhões de falantes” de brasileiro, aquela gentinha continua a propagandear — com o apoio activo dos caciques tugas (PR, PM, Governo, deputados) — os putativos méritos da aniquilação da Língua Portuguesa a troco do “valor económico da língua” brasileira.

Pois se quanto a computadores pessoais a “lei” da obsolescência torna difícil comprovar que tudo aquilo que cheirasse vagamente a Português (ou a português, adjectivo) foi e continua a ser metódica e selvaticamente eliminado por acordistas e outros desgraçados, já quanto aos conteúdos da Internet não é assim, felizmente: não tendo o exclusivo absoluto — algumas secretas fazem o mesmo nos seus “inexpugnáveis” servers –, o serviço de Internet Archive é o único verdadeiramente à disposição de qualquer pessoa.

Esta WayBack Machine é ainda uma das já escassas ferramentas ao serviço da sociedade civil, à escala global, incluindo a defesa dos direitos, liberdades e garantias individuais outrora constitucionalmente protegidos… nos bons velhos tempos em que a Constituição tinha algum valor.

Das referidas prerrogativas básicas, agora servindo apenas para tiro-ao-alvo de agentes, delatores e provocadores por conta dos donos disto tudo, como sejam a liberdade de opinião e o direito ao livre pensamento, a única hipótese de defesa — conviria talvez tentar decifrar o que não está, por motivos óbvios, expresso na formulação — é a confrontação utilizando… factos. Isto é, no cada vez mais improvável caso de haver querela judicial, então quem for acusado apenas poderá defender-se expondo as contradições, denunciando as mentiras da acusação. Quanto à presumível idoneidade do juiz em semelhante litígio — que julgará em causa própria, bem entendido –, bom, esmiuçar isso talvez seja para já um pouco extemporâneo. Lá iremos, em podendo.

A verdade é que do chamado “estado de direito democrático”, sem quaisquer maiúsculas, note-se, já pouco resta de democrático, de direito sobram apenas as letras, muita conversa e alguns “pareceres”, e quanto ao Estado propriamente dito estamos mais do que conversados. A instauração metódica de um regime de pensamento único, a feroz ditadura da linguagem politicamente correcta e, por fim, a imposição ditatorial de uma língua (logo, de uma cultura) estrangeira, são tudo coisas que não auguram nada de bom. Qual banda do Titanic que estivesse agora mesmo entoando uma marcha fúnebre.

“E então o que se pode fazer?”

Bem, algumas coisas. Pequenas coisas. Muitas pequenas coisas não é coisa pequena.

Neste caso, por exemplo, apoiando o Arquivo da Internet. Afinal, quem lá trabalha só pede ajuda para continuar a ajudar toda a gente…

Dear Patron,

A little while ago, I asked you to make a donation to the Internet Archive, and you said “maybe later.” Now more than ever before, we need your help—will you support a library you can trust?

CHIP IN

They’re trying to change history—don’t let them. Today disinformation and misinformation are more dangerous than ever before. The Internet Archive is working to bring trustworthy, verifiable information to anyone looking for it: history that cannot be rewritten, facts that cannot be contorted, and events that cannot be “disappeared”.

Today is the Internet’s day. As current events develop, we’re all turning to our screens for information—and we want to make sure that it’s information you can trust. Right now the Internet Archive is preserving history as it unfolds. We’re hard at work preserving the record of what’s being said, who’s saying it, and when, creating a record of verifiable information in the midst of rapidly developing situations.

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Brewster Kahle
Founder & Digital Librarian

[Imagens de topo e de rodapé de: Britannica.]