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De boas intenções…

Mais um artigo fraquinho, infelizmente, na mesma linha de outros igualmente confusos e precipitadamente informados ou coligidos com ligeireza e superficialidade. Parece ter-se já formado uma tendência, se bem que (felizmente) minoritária, esta espécie de anti-acordismo voluntarista, o mau  hábito de escrever com excelentes intenções péssimas fundamentações sobre a cacografia brasileira que o AO90 pretende impor. Ou seja, seria bem mais avisado e sensato abster-se de enumerar razões sobre aquilo que justamente abomina quem não domina o assunto minimamente.

As pessoas sabem, por experiência própria e testemunho alheio, que o AO90 não passa de uma golpada política urdida por alguns ocasionais sobas, arrivistas profissionais, vendedores e comerciantes alçados a governantes.

Apenas sucede que as pessoas, algumas pessoas, conhecem os quês mas pouco ou nada sabem dizer, com um módico de rigor, sobre os porquês; e portanto confundem quem, quando e onde, não são capazes de apontar quem disse o quê a quem, para quê e em que circunstâncias, qual o historial e as incidências do processo, qual o autor X da mentira Y, que relações de causa e efeito existem entre X eY e o facto Z e a fábula N, que jogos de interesses se movimentam (ainda hoje) nos “Passos Perdidos”, o que representa, em essência, a imposição da cacografia brasileira através da eliminação sumária da ortografia portuguesa e quem foram os portugueses que inventaram tal abominação.

A arbitrariedade não se tolera — desmonta-se. A ilegalidade não se desmonta — contesta-se. A imposição não se contesta — combate-se. O absurdo combate-se — e por fim elimina-se.

É afinal bem simples: a eliminação da ortografia não se revê — revoga-se. Sem confusões nem trapalhadas, sem citações a trouxe-mouxe nem “dados” de jogar nem palpites avulso. Só boas intenções não chegam, realmente.

Um acordo que nunca o foi

Um Acordo Ortográfico deve reflectir a natural evolução da língua, e não ser uma aplicação forçada de um normativo ortográfico defeituoso.

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. O novo Acordo Ortográfico (AO90) continua a não ser consensual e falhou os objectivos a que se propôs. Pretendia criar uma ortografia unificada, comum a todos os países de língua oficial portuguesa, mas só a tornou mais díspar e confusa.

Este simplex linguístico erigiu um monumento à incoerência e, ao pretender aligeirar e facilitar demais, trouxe o caos ortográfico. Havia tantas críticas ao acordo anterior e as pessoas já não se entendiam na língua que era falada e escrita?

O AO90 eliminou o uso do hífen de forma totalmente arbitrária. Existe o “guarda-chuva” e o “mandachuva”, o “mal me quer” e o “bem-me-quer”, “paraquedas” e “parachoques”, “cor de laranja” e “cor-de-rosa”, que também pode ser “cor de rosa”, consoante o Vocabulário Ortográfico.

Passou a existir um “corréu”. Não é uma forma verbal mal escrita, é mesmo um “co-réu”, e o dicionário on-line depressa sugere: “Será que queria dizer correu?”

Foram retiradas letras que não se lêem, mas que eram fundamentais para compreender a formação das palavras, numa cedência ao facilitismo. “Óptico”, relativo a olhos, passou a “ótico”, que também pode ser relativo a ouvidos. Quando “ato” uma corda, realizo um “acto”. São coisas distintas.

Em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam distintamente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente. Mais de 2.500 palavras que se escreviam de forma diferente, mantêm-se diferentes, cerca de 500 tornaram-se iguais e mais de mil eram iguais e tornaram-se diferentes. Destas, duas centenas, mudaram apenas em Portugal, onde um “espectador” pode ser “espectador” ou “espetador”.

Contudo, seguindo esta lógica, o Acordo deveria cortar a mais “muda” de todas as consoantes, o “h” inicial, mas não o fez. “Humidade” em Portugal continua a ter “h” e no Brasil não.

Eliminou acentos que antes distinguiam palavras. A expressão popular “alto e pára o baile” passou a “alto e para o baile”, originando uma leitura contraditória. É para parar o baile ou para irmos para o baile?

“Pôr” é uma excepção e mantém o acento, quiçá num rasgo de lucidez para não suscitar mais dúvidas, que já existem em abundância.

Também a frase referida na petição contra o AO90, subscrita por mais de 20 mil pessoas, é caricata: “Não me pelo pelo pelo de quem para para resistir”. Não há contexto que a torne compreensível.

No passado, chegou-se à conclusão que era grave querer uniformizar a língua desta forma, prejudicando a sua diversidade linguística, social e cultural.

A diversidade ortográfica nunca foi um obstáculo à comunicação entre os povos de língua portuguesa, nem razão de empobrecimento. Em inglês também há diferenças entre os britânicos e os americanos, e não é nenhum drama.

Afinal, que interesses veio este acordo beneficiar?

Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não tem o acordo de todos. Que teimosia esta do nosso país em ser pioneiro no que não deve. Recorde-se que dos 27 pareceres solicitados em 2005, 25 foram negativos.

Não se trata de conservadorismo, de preguiça ou de estar contra qualquer mudança. Um Acordo Ortográfico deve reflectir a natural evolução da língua, e não ser uma aplicação forçada de um normativo ortográfico defeituoso.

Não será, por isso, de estranhar que a possibilidade de alterar o novo Acordo, através da reposição de algumas normas, ganhe cada vez mais expressão. Se a língua é património cultural dos povos e um organismo vivo, o novo Acordo Ortográfico não tem de ser inalterável ou irrevogável, obviamente prevendo um período de transição e de adaptação.

O AO90, apesar de coxo, foi longe demais. Uma língua não deve estar sujeita a experimentalismos ortográficos e não se pode resumir a actos politiqueiros. A língua portuguesa merece mais.

Cláudia Madeira

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Cláudia Madeira, publicado no “Jornal Económico” de 12 Agosto 2019. Destaques e “links” meus. Imagem de topo de: Betmotion.]

«Acordo ortográfico? Revogar, claro!» [António Jacinto Pascoal, “Público”, 16.07.19]

Acordo ortográfico? Revogar, claro!

Em vez de homogeneizar, o actual acordo ortográfico estabeleceu uma série incontável de divergências lexicais. Ou seja, falhou. Falhou em toda a linha.

“Público”, 16 de Julho de 2019

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Muito recentemente, em defesa do actual acordo ortográfico (AO90), Lúcia Vaz Pedro (LVP) deu uma pálida ideia da sustentação às alterações gráficas para a língua portuguesa. Para que conste, emaranhou-se numa teia de contradições, optando por um efeito de vitimização que não evitou o espectáculo menor de quem defende a todo o custo e sem qualquer brilho uma das piores opções tomadas ao nível da cultura portuguesa, na última década. O debate ocorreu na Feira do Livro de Lisboa, no decorrer da apresentação da obra Por Amor à Língua (editora Objectiva), de Manuel Matos Monteiro (autor de um notável trabalho de vigilância da Portuguesa língua), contando ainda com a participação do jornalista Nuno Pacheco, do PÚBLICO – a moderação ficou a cargo de Ana Daniela Soares.

A vulnerabilidade deste acordo – que, na verdade, não o é ainda, uma vez que a sociedade científica brasileira não o ratificou até hoje – decorre da ideia simplista de que um sistema gráfico é a tradução de um sistema linguístico oral, conducente a um esquema de reprodução económica e simplificada da verbalização oral. Ora, basta pensar em como os ingleses convivem com dois sistemas que, como se sabe, muito pouco têm de comum, considerando a transcrição fonética.

Um dos momentos protagonizados por LVP (para além do neologismo “analfabetização” e de uma farta dose de auto-elogio) foi o de convocar uma menina da plateia e pedir-lhe que escrevesse uma palavra: tratava-se do vocábulo “óptimo”, que a menina grafou como entretanto lhe ensinaram – “ótimo”; de seguida, encaminhou a menina, fazendo-a ler aquela palavra, com articulação do “p”. E conseguiu. Isto significa apenas que a geração mais recente de alunos não foi treinada para uma leitura pela qual se tomasse consciência da não articulação de certas consoantes.

Lembremos que o AO90 entrou em vigor no sistema de ensino Português no ano lectivo de 2011/12. Nada de estranhar, portanto. Impor-se-ia, num cúmulo de perversão, pedir-se a um aluno mais velho que escrevesse a mesma palavra, de acordo com aquilo que lhe foi ensinado e que estava em vigor antes de 2011. Provavelmente, entraria em cena a consoante “p”.

Baseada na falsa ideia de que uma escrita “fonológica” é mais natural, LVP quis criar o maior obstáculo a que uma reversão do AO90 pudesse (e possa) ter lugar, liquidando-a de vez. E como? Partindo do pressuposto de que uma reversão seria um atentado e uma irresponsabilidade perante uma quantidade inaudita de alunos que fazem parte do sistema vigente, de pais a quem não seria fácil justificar alterações e de professores acostumados a ameaçar novidades. E, por isso, num processo argumentativo falacioso (ad misericordiam), usou (o exemplo d)a menina, que melhor desencoraja a transgressão e reversão, e de forma mais célere impõe a cultura da acomodação: a sociedade precisa (de) que os seus filhos se sintam seguros no mundo do pragmatismo, mesmo quando esquecem as origens. Mas “a menina de LVP”, longe de qualquer disputa linguística, e caso fosse acordado, escreveria “conosco” se assim lho doutrinassem, ou “oje” e “umanidade”, fosse a regra da não articulação oral levada ao seu limite e ensinada nas escolas. Os alunos aprendem o que lhes ensinam – nada de novo, mais uma vez.

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“Volver à barbárie” [por José Augusto Filho (Brasil), “Observador”, 03.07.19]

O multilateralismo vacilante da comunidade lusófona

José Augusto Filho
observador.pt, 03.07.19

 

Numa velocidade sem precedente na história, a atual vaga de globalização tem implodido as barreiras ao fluxo de bens e capitais e à disseminação das tecnologias de informação. Mas mesmo em um mundo cada vez mais interdependente, muitos dos benefícios do desenvolvimento podem deixar de alcançar as regiões mais pobres do planeta.

Ao transformar os modos de vida tradicionais, a globalização produz tensões domésticas e amplifica problemas pré-existentes. Trata-se de questões que costumam escapar à capacidade resolutiva dos governos nacionais. Os países mais afetados pela desintegração social associada à integração económica tendem a ser, lamentavelmente, aqueles mais pobres.

De forma premonitória, ainda em 1997, o economista e professor universitário turco Dani Rodrik, um dos mais influentes e prestigiados do novo século, já questionava: “a globalização foi longe demais?”

Volvidas mais de duas décadas, as virtudes e os vícios daquele fenómeno restam amplamente evidenciados. Até por isso, o mundo assiste atualmente a uma reversão de muitos dos acordos regionais de livre-comércio e de integração económica pactuados na década de 1990. O multilateralismo, outrora considerado uma panaceia para o isolacionismo dos Estados, aparenta viver hoje o seu ocaso. Nem mesmo a União Europeia, a mais notável das Organizações Internacionais, escapou a ter as suas estruturas abaladas por tais ventos revisionistas.

Essa atual conjuntura desfavorável às Organizações Internacionais não deixa de impactar também a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).  Embora ainda incipiente como organização internacional, o potencial do seu património é incontestável. Em suas dimensões política, cultural e socioecónomica, a CPLP reúne condições para trilhar a senda aberta pela Commonwealth inglesa e pela Organização Internacional da Francofonia.

Em recente seminário realizado em Cabo Verde, cujo tema foi a relação Europa-África, o General António Fontes Ramos, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, sublinhou a presença global da CPLP. “A sua internacionalização é facilitada porque existindo em entidades geograficamente separadas, alarga-se ao mundo pela integração dos seus componentes nas múltiplas organizações de que fazem parte, seja a União Europeia, a União Africana, o Mercosul, os BRICS ou no espaço Índico-Pacífico. A capacidade de exposição mundial da CPLP é, pois, evidente e de resto única”.

No entanto, a CPLP não tem se traduzido em desenvolvimento para os seus Estados-membros. Por isso, o desapontamento com a dinâmica daquela Comunidade não deixa de ser justificado. Apesar do inegável potencial para beneficiar os seus integrantes, os resultados da CPLP têm ficado muito aquém do que seria razoável.

Os casos de uma Guiné-Bissau marcada pela instabilidade política e de um Moçambique arrasado pelo Ciclone Idai, para ficar apenas nos casos mais sensíveis, revelam a necessidade e a urgência de a CPLP assumir um protagonismo à altura do seu potencial.

A inoperância da CPLP decorre em larga medida da negligência dos seus Estados-membros mais destacados, nomeadamente Brasil e Portugal. Com olhos atentos ao jogo internacional mais alargado, ambos tendem a definir as suas preferências desde um ideal de pertença ao tabuleiro das superpotências – ainda que seja apenas para gravitar em sua periferia. E já no âmbito na CPLP, as possibilidades de ação coordenada não raro acabam prejudicadas por disputas pelo protagonismo no seio da comunidade.

Foi em razão dessa disputa que, inebriado de ideologia e incapaz de dimensionar as suas reais capacidades, o Brasil do Partido dos Trabalhadores (PT) tencionou apadrinhar alguns dos países-membros da comunidade lusófona. Aos olhos da política brasileira da altura, tratava-se de um meio de projeção de poder, objetivando fortalecer o pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Tudo isso, é claro, combinado a um esquema de corrupção estruturado com as ditaduras então no poder em Angola e Guiné-Equatorial.

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«Discutir o sexo (oral) dos anjos» [“Jornal de Angola”, 18.06.19]

O acordo errográfico

José Luís Mendonças

“Jornal de Angola”,

 

Conforme respigámos no site Wikipédia, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado com o objectivo de criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa.

Contudo, um dos efeitos do Acordo foi o de dividir ainda mais estes países, criando agora três normas ortográficas: a do Brasil, a de Portugal e a dos restantes países africanos que não implantaram o Acordo apesar de o terem assinado.

Acrescenta ainda aquela fonte que “o teor substantivo e o valor jurídico do tratado não suscitaram consenso entre linguistas, filólogos, académicos, jornalistas, escritores, tradutores e personalidades dos sectores artístico, universitário, político e empresarial das sociedades dos vários países de língua portuguesa.”

A Academia Angolana de Letras (AAL), reunida na cidade de Luanda, na Biblioteca Nacional de Angola, no dia 9 de Outubro de 2018, lançou um comunicado desfavorável à ratificação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, por parte do Estado angolano:
“Tendo em conta a contribuição de étimos de línguas bantu na edificação da própria língua portuguesa, a Academia Angolana de Letras (AAL) considera fundamental, para o caso angolano, que um acordo ortográfico da língua portuguesa que vigore neste país considere a presença e a importância das línguas africanas no contexto social, bem como a necessidade de coexistência entre todas elas.”

O sexo (oral) dos anjos

A minha posição sobre o Acordo Ortográfico (AO) é a mesma dos que defendem que “a ortografia da língua inglesa (e de tantas outras) apresenta variantes nos diversos países anglófonos, sem que a ortografia inglesa tenha sido objecto de regulação estatal legislada”. Por isso, eu chamo a este acordo de Acordo Errográfico.

Em primeiro lugar, se é fundamental, para o caso angolano, tal como defende a AAL, que a língua portuguesa considere a presença e a importância das línguas africanas, a Academia não pode exigir isso do Acordo Ortográfico, nem da CPLP, mas deve exigi-lo do próprio Governo angolano. Mais importante que o AO ou a CPLP é a própria importância que nós, angolanos, damos às nossas línguas. E esta é quase nula.

Em segundo lugar, nota-se uma profunda transformação da Língua Portuguesa (LP) falada e escrita em Angola, pois que as línguas são corpos vivos que influenciam e recebem contributos, alimentam-se de outras línguas e falares. Há uma interpenetração com as línguas africanas e línguas estrangeiras, daí os estrangeirismos, galicismos, anglicanismos e, no nosso caso, excesso de brasileirismos.

O português falado e escrito em Angola acumulou de 42 anos de omissão pedagógica no ensino da língua veicular (e por arrasto, das línguas bantu), a começar pelo nível do ensino de base.

Os modos da fala e da escrita do Brasil penetraram desde o início da transmissão das novelas como O Bem Amado e Gabriela Cravo e Canela, nos anos 80 do século XX até à data e exercem uma tremenda influência nos modos de escrever e falar do nosso povo. Centenas de estudantes beneficiam de bolsas e outras oportunidades de formação superior e pós-graduação no Brasil e nas universidades portuguesas. Estes cidadãos angolanos regressam a Angola, não só com as suas teses, mas também com uma nova forma de escrever, segundo o Acordo Ortográfico (AO).

Na Internet abundam estudos académicos sobre os mais diferentes temas e assuntos científicos, de modo que os nossos estudantes, num clic, chegam a essas fontes.

E essas fontes estão escritas no português do Brasil e de Portugal. E é essa forma de redacção da LP que os nossos jovens estudantes reproduzem fielmente na Universidade. A essa forma de reescrever o português junta-se-lhe outro aspecto muito peculiar que é o facto de haver, na esfera da Administração Pública (escolas, meios de comunicação estatais, repartições oficiais) tantos modos de escrever a língua veicular, quantos os níveis de aquisição de (in)competência linguística pelos utentes. A fala também absorve esta fenomenologia do discurso, porém a plurimorfose linguística na oralidade é universal, esmaltada no tempo e perfeitamente inócua. Quando vou engraxar sapatos, não sou obrigado a falar um português normal, falo sem pestanejar no calão dos engraxadores.

O actual estádio de evolução da polémica em torno do AO (que já leva 28 anos de impasse), prova que, discutir a universalidade e validade do AO para o nosso país, é como discutir o sexo (oral) dos anjos.

Refundar o ensino da Língua

Angola não pode continuar a pautar-se oficialmente como o país mais lusófono da Lusofonia, quando no seu âmago linguístico, no seio das grandes massas e até da Administração Pública do mais alto escalão, tem uma prática contrária à sua discordância protocolar.

Na minha qualidade de escritor recomendo a devida ponderação deste fenómeno histórico-cultural pelo Executivo angolano e a necessária concentração das autoridades responsáveis pelo ensino e preservação da(s) língua(s) angolanas (português e línguas bantu) na essência da questão, sem se deixar conduzir para a berma da estrada.

Se o Ensino em Angola, devido ao acumular de deficiências estruturais, não demonstra capacidade para ensinar massivamente a gramática da LP (mesmo a nossa LP angolana), como é que terá capacidade para ensinar (em paralelo) as línguas africanas?

Mais importante e imperioso do que a polémica em torno do acordo, é refundar o ensino da Língua Portuguesa em Angola, de maneira a produzir uma competência linguística a vários níveis, principalmente na Administração Pública, e esta tarefa nacional dispensa o conservadorismo do modelo linguístico do português que ainda nos dá que falar, pela sua colagem ao Acordo Ortográfico de 1990. Não dispensa, nunca, é o ensino correcto da norma da língua oficial, o Português, seja ele o que guardamos desde o tempo colonial, ou outro qualquer que se estipule com variações acumuladas pelo tempo de uso.

Mas algum modelo de gramática tem de ser ensinada nas escolas. Essa coisa de dizer que o Português é língua do colono e ficarmo-nos na preguicite oficiosa, não colhe. Que se ensine então o tal Português Angolano, mas a língua que se defende tem de ter uma norma a ser ensinada na Escola.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de José Luís Mendonças, publicado pelo “Jornal de Angola” em

Porquê

 

«Porque chicoteia o senhor o seu próprio escravo, mesmo sabendo que o desvaloriza? Porque pode. Para lembrar ao escravo que é um escravo.
Do mesmo modo chicoteiam os acordistas a sua própria Língua, sabendo que a desvalorizam. Porque podem. Para dizer aos falantes que até podem usar a Língua, sim — mas os verdadeiros donos da Língua são eles
Rui Valente

 

 

As respostas estão muito bem escondidas por detrás de um biombo de palavras, este dissimulado por uma cortina de mentiras, tudo entre muros de silêncio, janelas cerradas, portas fechadas à chave. Ninguém sabe responder a coisa nenhuma porque ninguém sequer sabe que perguntas fazer. Para chegar à verdade, sepultada num sarcófago de chumbo em local secreto, é preciso percorrer um longo e irresolúvel labirinto, confuso, retorcido, repleto de becos sem saída.

Saturada a vox populi, à qual, à falta de melhor expressão, tanto se lhe dá como se lhe deu a questão, quanto mais ter sobre ela opinião, resta por fatalidade o recurso último (e único) de ao menos deixar testemunho e prova, sendo esta viável, dos desmandos, do destrato, da histórica vergonha — deliberado paradoxo — a que vão sujeitando malfeitores a Língua Portuguesa.

E, no entanto, é viável.

Aquele “vocabulário de mudança” mai-la sua caótica lista de palavras “afetadas”, o sarcófago, torna-se afinal acessível e assim, podendo qualquer um conhecer as respostas, saber cada qual que perguntas fazer — das quais a primeira será certamente a última: porquê?

 

 

Move-se a busca, é viável a demanda da prova e portanto, se dela deixarmos testemunho, poderá talvez traçar-se um roteiro para sair do labirinto, derrubar muros, abrir portas e por fim deixar a verdade, como a luz eterna, entrar pelas janelas abertas de par em par.


 

FAQ AO90

[Imagem de topo de: Pinclipart]

No doubt about it

O que tem a ver com o AO90 um texto sobre a Língua Inglesa escrito por um russo em Inglês?

Bom, tem tudo a ver. Qualquer semelhança entre este argumentário sólido e as tretas acordistas é mera coincidência, bem entendido, seguindo o autor uma linha de raciocínio coerente (e inteligível) que radicalmente difere do discurso errático, polvilhado com “inverdades” escabrosas, que é típico do paleio de Malaca, Bechara, Reis, Canavilhas e outros portadores de mitomania.

E se quanto a semelhanças estamos conversados, já no que diz respeito a diferenças temos apenas esta: não existe a mais leve referência a ortografia. Nem explícita nem implicitamente. Nem claramente expressa nem vagamente aflorada.

O que faz todo o sentido, evidentemente. Tratando-se de anglofonia, falando-se de países anglófonos, analisando-se a (real, efectiva) difusão e expansão da Língua Inglesa, a “questão ortográfica” jamais ocorreria sequer a qualquer anglófono: a ortografia do Inglês permanece intocada há séculos. Aliás, por alguma razão é essa e não outra, hoje em dia e desde há séculos, a única língua-franca universal.

Afinal, vendo bem, este texto tem tudo a ver porque não tem nada a ver.

 

The English Language No Longer Belongs to Britain and America»

Brits and Americans No Longer Own English

By Leonid Bershidsky
“Bloomberg”, 02.03.19

 

The Brexit circus and the unpopularity of President Donald Trump are causing apprehension about the future of the Anglosphere, the cultural, intellectual and political influence of the core English-speaking nations: Britain and the U.S.

As a non-native English speaker who works in the Anglosphere, though, I’m not worried about that; Americans and Brits are merely facing increasing competition from within their accustomed domain rather than from without.

The English language, which has just 379 million native speakers, is spoken at a useful level by some 1.7 billion people, according to the British Council. That has long ensured that U.S. and U.K. voices are heard louder than any others.

There is no indication that the language’s popularity is declining despite the recent damage to the two countries’ soft power. Last year, the British Council forecast that the number of potential learners in Europe will decline by 8.8 percent, or some 15.3 million, between 2015 and 2025. Brexit has nothing to do with this: the expansion of English teaching at schools is expected to cut demand for the organization’s courses. Overall, the market for English in education is predicted to grow by 17 percent a year to reach $22 billion in 2024. That, in large part, is thanks to insatiable demand in Asia.

I learned it in the Soviet Union. I have to admit I did it because of British and U.S. soft power: I wanted to understand rock song lyrics, watch Hollywood movies in the original, and read books that weren’t available in translation. But that wasn’t the reason high-quality instruction was available to me in Moscow in the 1980s: English was the adversary’s mother tongue. Russian President Vladimir Putin is no fan of the U.S. or the U.K., but he has learned their language well enough to speak to other foreign leaders without a translator.

It’s impossible to avoid: 54 percent of all websites are in it. The next most widespread language is Russian, with 6 percent. The most popular translation requests on Google all involve English. The global academic community speaks it, and not just because U.S. and U.K. universities are important: If they all closed tomorrow, scholars would still need a common tongue, and they aren’t going to vote to adopt another one.

Nor will the global political community. The European Union is a case in point: After Brexit, English could lose the status as one of the bloc’s working languages because no remaining members use it officially. Yet the legal departments of all the EU governing bodies have agreed that it can retain its status on the rather thin argument that it’s used in Irish and Maltese law. It’s also the lingua franca for all the Eastern European officials who have never learned French or German. Even after Brexit, it will share with German the status of the most widely spoken language in the EU – that is, as long as one takes into account non-native speakers.

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