Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

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Costa faz dieta

Vai uma sopinha de letras? Olhe que são portuguesas e muito nutritivas…

Antes, dava-se sopa de letras às crianças. Agora não é preciso: com a ajuda do “acordo” comem-se letras a eito na fala e na escrita.

Nuno Pacheco
“Público” 02.07.20

 

Não é segredo para ninguém: Portugal tem um primeiro-ministro que come letras. Ele próprio o reconheceu (como se fosse preciso fazê-lo) no passado domingo, no mais recente programa de Ricardo Araújo Pereira, Isto é Gozar Com Quem Trabalha, na SIC. O humorista fez um curioso exercício: mostrou-lhe dois vídeos onde António Costa dizia umas palavras imperceptíveis (aqui o “corretor” está a mandar-me escrever “impercetíveis”, o que me fez mandá-lo, ao dito, a um lugar que não recomendo). Sorridente, não se atrevendo sequer a descodificar o que tinha dito nos vídeos, tarefa impossível, o primeiro-ministro preferiu uma saída airosa, dizendo que a sua mulher lhe dava múltiplos conselhos: “Não comas de mais, não comas fritos, não comas doces e também não comas palavras.” O que faz Costa, para não lhe desagradar e para não correr riscos de saúde? Como tem de comer alguma coisa, escolhe comer palavras. E logo explicou porquê: “É do melhor que há para comer, não têm [ele disse “tem”, mas é melhor emendar, se não devorava também a concordância] glúten, não têm lactose, não têm sal, não têm açúcar.” Aí está: uma dieta palavrosa, livre de doces e fritos, nutritiva e saudável!

No Portugal de antigamente, dava-se sopa de letras às crianças para elas se irem habituando ao que teriam de aprender na escola, ou seja, a usá-las na escrita e na leitura. No Portugal de hoje, manteve-se essa tendência gastronómica, mas dispensando sopas. É que as letras, e certas palavras, são comidas inteiras mesmo na fala e na escrita. António Costa é apenas a ponta de um enorme icebergue desse repasto contínuo, que desde há uns anos tem vindo a ser incentivado por essa coisa a que teimam chamar “acordo ortográfico”. Lembram-se da “exeção”, palavra magnífica que surgiu em letras gordas num cartaz eleitoral do PS? Pois regressou, agora no endereço de uma empresa de utilidades domésticas. Assim: “Todas as lojas estão abertas com exeção da…” Como a excepção (perdão, a “exeção”) desapareceu, a bela palavra desapareceu já dos avisos da empresa. Mas fica a “recordação”, fotografada. Pormenor relevante: só as letras portuguesas é que são nutritivas, pois nas palavras inglesas também ali usadas, “Click & Collect”, nenhuma letra foi devorada. Não é bonito de ver?

Não é só aqui, claro. A pandemia, que já nestas crónicas foi pretexto para falar de palavras como “infetado”, “infeção”, “infecioso” (propriedade exclusiva de Portugal, já que em todo o espaço lusófono, Brasil incluído, se escreve “infectado”, “infecção”, “infeccioso”), entra também neste palavroso repasto, talvez por necessidade de calorias. Se tiverem a paciência de ir ao endereço electrónico da Direcção-Geral da Saúde (DGS), e seguir para as “perguntas frequentes”, lerão nos “sintomas” esta passagem: “nos casos mais graves, pneumonia grave, síndrome respiratória aguda grave, septicémia, choque sético e eventual morte.” Os sublinhados a itálico são meus e assinalam dois erros: “septicémia”, em vez de “septicemia” (como se deve escrever e dizer, apesar de muito vulgarizado o contrário) e “sético” em lugar de “séptico” (em coerência, deviam escrever “seticemia”, sempre era mais uma letra a entrar na dieta).

Ainda assim, talvez porque a fome não apertou a esse ponto, sobram muitas palavras onde o dígrafo “pt” sobreviveu. Sim, os répteis ainda não são “réteis”. Mas indo à edição portuguesa do Houaiss Atual, já com o acordo, é delicioso ler “septicemia” (sem variante com o “e” aberto) e, mais abaixo, “séptico” com esta nota: “o mesmo que sético”, sem que nenhuma das outras 42 palavras começadas por “s” e com o dígrafo “pt” ali coligidas tenha sugestão de variante. O “sético” será por causa do Brasil? Olhe que não… Vejam o Priberam brasileiro, onde “sético” tem esta nota: “Grafia no Brasil: séptico”.

Enquanto isto, a Assembleia da República discute um parecer que argumenta que uma lei (neste caso proposta por cidadãos, com vista a revogar o segundo protocolo modificativo do acordo ortográfico, o que reduz a três o número de países para entrar em vigor) não pode revogar uma resolução, o que é tanto mais ridículo quanto uma resolução não devia (e não pode) revogar uma lei, e no entanto foi isso que sucedeu com o acordo ortográfico: três resoluções para o impor em Portugal, quando a lei do acordo de 1945 se mantém em plena vigência, nunca tendo sido revogada. Deve haver aqui alguma… “exeção”.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral (da edição em papel), incluindo “links”. Vídeo: “entrevista” de Ricardo Araújo Pereira a António Costa sobre o seu (deste) “pequeno” problema de dicção no programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, da SIC, transmitido em 28.06.20.]

 

 

[Disclaimer: Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Não existe qualquer interesse comercial neste tipo de reproduções/transcrições e não há  outra pretensão que não seja a de prestar um serviço  público: modestamente contribuir para a consolidação da memória colectiva nacional.]

 

«Português, língua nacional angolana» [João Melo, “Jornal de Angola”, 01.07.20]

Português, língua nacional angolana – 1

João Melo*

 

Dois artigos recentes publicados neste jornal por dois confrades e amigos – José Luís Mendonça e Luís Kandjimbo – sobre o tema da língua portuguesa em Angola instigaram-me a dar o meu despretensioso contributo ao assunto.

Tentarei fazê-lo do modo mais simples, sereno e pragmático possível, evitando a paixão com que alguns costumam abordá-lo e que, no meu entender, embora compreensível, é desnecessária e bloqueadora. Em função do espaço disponível, abordarei este tema em dois artigos.

Para mim, desde logo, a assertiva de que língua é expressão de cultura, sendo inquestionável, precisa de ser relativizada, por duas razões. A primeira é que a primeira dimensão da língua (não será mesmo a constitutiva?) é a comunicação. A segunda é que, e ao contrário do que defendem os essencialistas, não há culturas estáticas (logo, se as culturas mudam, por que não poderão as línguas mudar também?).

O meu ponto de partida é que, por causa dos equívocos ideológicos com que a questão tem sido tratada, Angola não possui uma política objectiva e afirmativa em relação à língua portuguesa. Como resultado, certas decisões tardam demais em ser tomadas, com as consequências conhecidas: a degradação crescente do domínio da língua portuguesa, a começar pela leitura e a compreensão de texto, para já não mencionar a escrita (associado à dificuldade de fazer contas básicas, isso diz-nos para onde caminhamos).

A ausência dessa política objectiva e afirmativa relativamente ao português está na contramão, entretanto, da sua expansão. De acordo com o censo de 2014, a língua portuguesa é o primeiro idioma falado em casa pelos angolanos (um pouco mais de 71 por cento), seguido do umbundu (quase 23 por cento). A tendência será continuar a crescer, à medida que o processo de urbanização, que já ultrapassou os 60 por cento, se for alargando, combinando isso com o aumento do número de jovens e a mobilidade territorial dos angolanos.

A pergunta que nos pomos, muitas vezes, é que língua portuguesa é essa que os angolanos falam? Quando “mais” virou “mas” e “sou” é substituído por “só”, por exemplo, a resposta pode ser perturbadora. Isso não deve ser resolvido pela “criatividade popular”, mas, como defende José Luís Mendonça, pela escola. Esta precisa de ter balizas (normas ortográficas, gramática, vocabulário, etc.), para ensinar a língua portuguesa de acordo com as transformações que a mesma vem sofrendo entre nós. O que – espero – não passará pela “normalização” de erros grotescos, como “mais” virar “mas”.

Para isso, o primeiro passo será livrar-nos do complexo ideológico de que “português é língua de colono”, assumindo com tranquilidade que o referido idioma é e deve ser considerado uma língua nacional angolana, como as demais. Sim, em termos de origem, o português não é uma língua nacional angolana, mas as outras sê-lo-ão? Talvez com excepção do umbundu e do Kimbundu, todas as outras línguas angolanas são faladas por comunidades que são, digamos assim, transfronteiriças, ou seja, em termos de origem, não são exclusivamente nacionais. Sem esquecer que os povos bantu que se tornaram a maioria demográfica em Angola eram estranhos ao seu território (alguns chegaram após a chegada dos portugueses).

Dois factores fazem do português uma língua nacional angolana: a pertença histórica e o alcance. De facto, a História – e só ela – explica por que razão os povos falam determinadas línguas. Em termos de pertença histórica, portanto, o português é tão nacional, como as restantes existentes no país, pois foi nacionalizada pelos angolanos (o mesmo sucedeu com a mandioca e o milho, originários da América do Sul), que deliberadamente se apropriaram dela e há muito têm contribuído para a sua formatação e expressão. Quanto ao alcance, é por todos reconhecido que o português é a única língua de comunicação nacional dos angolanos, o que, aliás, esteve na base da opção dos líderes independentistas em torná-la a língua oficial do país (o impacto dessa decisão pode ser avaliado à luz dos resultados do censo de 2014 que atrás referi).

Por tudo isso, o país precisa de uma política assertiva em relação à língua portuguesa. Internamente, é preciso fazer duas coisas: melhorar urgentemente o seu ensino, o que passa pela formação massiva de professores de qualidade e também pelo estabelecimento de uma norma do “português angolano”, a elaborar por especialistas; e procurar harmonizar, em termos de ensino, utilização, grafia e outros aspectos, a decidir, a difusão da língua portuguesa com as línguas nacionais de origem africana que são faladas igualmente no território nacional (incluindo o lingala, que também já foi nacionalizado).

No próximo artigo, abordarei outros aspectos da política de Angola em relação à língua portuguesa, dessa feita numa perspectiva internacional, incluindo a questão do acordo ortográfico, utilização do português nos organismos regionais e internacionais e ensino do português em países africanos.

João Melo

*Jornalista e escritor

[Transcrição integral de artigo, da autoria de João Melo (Angola), publicado no “Jornal de Angola” de 1 de Julho de 2020. Destaques meus. Imagem de: Gustavo de Melo. Vídeo de: Ngola News.]
[Disclaimer: Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Não existe qualquer interesse comercial neste tipo de reproduções/transcrições e não há  outra pretensão que não seja a de prestar um serviço  público: modestamente contribuir para a consolidação da memória colectiva nacional.]

 

ILC no Parlamento fora do Parlamento

Lei de cidadãos contra Acordo Ortográfico começa a ser discutida um ano depois

Lisboa, 25 mai 2020 (Lusa) – Um projeto de lei de iniciativa de cidadãos, com 20.669 assinaturas, contra o Acordo Ortográfico (AO), começa esta quarta-feira a ser discutido no parlamento, mais de um ano depois de ter sido entregue. [“LUSA” 25.06.20] (em brasileiro, a escrita da LUSA)

 


PS e PSD aprovam parecer contra suspensão do Acordo Ortográfico por iniciativa de cidadãos

A comissão de Assuntos Constitucionais aprovou hoje, por maioria PS-PSD, um parecer do deputado socialista Pedro Delgado Alves que concluiu ser impossível suspender o Acordo Ortográfico através de uma iniciativa legislativa de cidadãos.
O parecer, pedido à comissão de Assuntos Constitucionais pela comissão de Cultura e Comunicação, foi aprovado com os votos favoráveis do PS e PSD, a abstenção do BE e PCP, na ausência de deputados dos restantes partidos, disseram à Lusa deputados da comissão.
O projeto de lei de iniciativa de cidadãos, com 20.669 assinaturas, pela suspensão do AO, foi entregue há mais de ano, passou de uma legislatura para a outra, e está na comissão parlamentar de Cultura, que pediu um parecer sobre a sua constitucionalidade à comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. [“SaPo”, “LUSA” 24.06.20]

 


PS e PSD aprovam parecer contra suspensão do Acordo Ortográfico

PS e PSD aprovam parecer do deputado socialista Pedro Delgado Alves que concluiu ser impossível suspender o Acordo Ortográfico através de uma iniciativa legislativa de cidadãos. [“Observador” 24.06.20]

 


Parecer conclui que lei de cidadãos não pode suspender Acordo Ortográfico

O parlamento retoma na quarta-feira o debate sobre a suspensão do Acordo Ortográfico (AO), mas o parecer do deputado Pedro Delgado Alves (PS) concluiu que isso não pode ser feito com uma lei da iniciativa de cidadãos. [“Sábado” 23.06.20]

 


Verdes querem avaliação de Acordo Ortográfico e admitem suspensão

Resolução pede ao Governo que faça “avaliação global” e que retire conclusões. [“LUSA” , “Público” 23.06.20]

 


Parecer conclui que lei de cidadãos não pode suspender Acordo Ortográfico

Projeto de lei de iniciativa de cidadãos, com 20. 669 assinaturas, não pode suspender Acordo Ortográfico, segundo a Constituição. Debate sobre a sua suspensão regressa ao parlamento na quarta-feira. [“LUSA”, Observador” 23.06.20]

 


Acordo ortográfico não pode ser suspenso por cidadãos, diz parecer

Projeto de lei de iniciativa de cidadãos foi entregue há mais de um ano e está na comissão parlamentar de Cultura. Conta com mais de 20.500 assinaturas. [“LUSA”, Rádio “Renascença” 23.06.20]

Hau nia lian, hau nia rain


Língua portuguesa motiva confrontos em Timor-Leste

actualizado 17 Junho 2020, 07:41
por Lusa

 

A discussão começou quando Olinda Guterres, do Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO), criticou a deputada do Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT) Fernanda Lay por falar em português numa interpelação durante o debate, na presença da vice-ministra da Solidariedade Social e Inclusão, Signi Chandrawati Verdeal, entre outros.

A senhora Fernanda Lay fez a sua intervenção em português e eu fiz um ponto de ordem porque as pessoas não compreendem português e a pedir para falar em tétum“, disse Olinda Guterres à Lusa.

Pedi para falar em tétum porque o orçamento é importante e as pessoas têm que perceber“, afirmou a deputada do KHUNTO.

Fernanda Lay criticou os comentários de Olinda Guterres, que acusou de ter feito “comentários racistas” e de a ter chamado “china pirata”.

Eu falei em português e ela disse para não falar porque ela não entende. E eu mostrei-lhe a Constituição. Mas ela começou aos berros e chamou-me china pirata. Onde é que já se viu comentários racistas no parlamento“, questionou Lay.

“Se ela não compreende, nós temos aulas gratuitas aqui no Parlamento”, acrescentou.

As deputadas acabaram por se envolver em agressões físicas, tendo que ser separadas por outros deputados.

A presidente da comissão C, Maria Angélica dos Reis, acabou por interromper a audição, que decorria no plenário, tendo sido retomada pouco tempo depois com apelos à calma.

Os incidentes ocorreram durante um debate das comissões especializadas C, D e F sobre um pedido do Governo para um levantamento adicional do Fundo Petrolífero (FP) e de alterações à lei do Fundo Covid-19, para dar mais amplitude às despesas que pode abranger.

A tensão já se tinha sentido na terça-feira com Olinda Guterres — que fez várias intervenções aos gritos – a ter de ser agarrada por colegas da bancada, para impedir que agredisse uma outra deputada do CNRT Vírgina Ana Belo, de acordo com testemunhas ouvidas pela Lusa.

Duas deputadas desentenderam-se em plena sessão plenária devido ao uso da língua portuguesa Lírio da Fonseca – Reuters

RTP/LUSA

(destaques no original)

Discussão sobre uso de português acaba em agressões no parlamento timorense

Deputados envolveram-se em agressões físicas e tiveram de ser separadas no Parlamento.

Duas deputadas timorenses envolveram-se, esta quarta-feira, em confrontos físicos e verbais durante uma discussão sobre o uso do português num debate na comissão de Finanças Públicas, na sala do plenário do Parlamento Nacional.

A discussão começou quando Olinda Guterres, do Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO), criticou a deputada do Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT) Fernanda Lay por falar em português numa interpelação durante o debate, na presença da vice-ministra da Solidariedade Social e Inclusão, Signi Chandrawati Verdeal, entre outros.

A senhora Fernanda Lay fez a sua intervenção em português e eu fiz um ponto de ordem porque as pessoas não compreendem português e a pedir para falar em tétum”, disse Olinda Guterres à Lusa.

“Pedi para falar em tétum porque o orçamento é importante e as pessoas têm que perceber”, afirmou a deputada do KHUNTO.

Fernanda Lay criticou os comentários de Olinda Guterres, que acusou de ter feito “comentários racistas” e de a ter chamado “china pirata”.

“Eu falei em português e ela disse para não falar porque ela não entende. E eu mostrei-lhe a Constituição. Mas ela começou aos berros e chamou-me china pirata. Onde é que já se viu comentários racistas no parlamento”, questionou Lay.

“Se ela não compreende, nós temos aulas gratuitas aqui no Parlamento”, acrescentou.

As deputadas acabaram por se envolver em agressões físicas, tendo que ser separadas por outros deputados.

A presidente da comissão C, Maria Angélica dos Reis, acabou por interromper a audição, que decorria no plenário, tendo sido retomada pouco tempo depois com apelos à calma.

Os incidentes ocorreram durante um debate das comissões especializadas C, D e F sobre um pedido do Governo para um levantamento adicional do Fundo Petrolífero (FP) e de alterações à lei do Fundo Covid-19, para dar mais amplitude às despesas que pode abranger.

A tensão já se tinha sentido na terça-feira com Olinda Guterres — que fez várias intervenções aos gritos – a ter de ser agarrada por colegas da bancada, para impedir que agredisse uma outra deputada do CNRT Vírgina Ana Belo, de acordo com testemunhas ouvidas pela Lusa.

TSF/LUSA

(destaques meus)


No ano 2000 palmilhei, escoltado por fuzileiros portugueses, as aldeias mais recônditas das montanhas de Timor-Leste. Distribuímos toneladas de livros escolares (que no dia seguinte desapareciam).
Hoje, mais de 20 anos e largos milhões de dólares depois, é isto: pancadaria no Parlamento timorense por causa da língua brasileira “unificada”.

Galegos

Note to self: antes em Inglês, a língua franca ocidental (se não mundial), do que em brasileiro, essa labreguice asquerosa falada (e garatujada) por tacanhos provincianos, boçais intelectualóides, gado vacum em geral e pategos deslumbrados em particular. A anglicização não me aquenta nem me arrefenta mas a brasileirização — o que só a mim mesmo interessa — enoja-me até ao vómito. Em sentido literal.

 

O entusiasmo dos galegos a desconfinar o idioma e a anglicização portuguesa

 

Enquanto o idioma galego luta por uma posição dominante, em Portugal continua a abusar-se do inglês.

Nuno Pacheco
“Público” 11.06.20

 

O confinamento inspirou os galegos a desconfinarem a língua. Assim mesmo. Um movimento intitulado Queremos Galego lançou um manifesto, apadrinhou uma canção motivadora e deu novos ares a uma pretensão antiga: que a língua galega tenha, na Galiza, posição dominante. Questão de brio, naturalmente. E, apesar de o tal manifesto ser uma carta a Ricardo Carvalho Calero (1910-1990), filólogo e escritor galego que foi um ideólogo do reintegracionismo, ou seja, da integração da língua galega no universo da língua portuguesa, ele surge escrito na ortografia galega e não naquela que tem vindo a ser adoptada pelos reintegracionistas, que é a portuguesa resultante do chamado Acordo Ortográfico de 1990.

Assinado por María Pilar García Negro, nele se diz que os pressupostos defendidos por Calero no artigo “O uso do galego para todo” não se cumpriram. “Tal necesidade non se atendeu; antes ben, desprezáronse as actividades, o combate pro-galego, a mobilización cívica de tantas e tantos galegos a prol de poderen viver con normalidade en galego, as 24 horas do día e os 365 días do ano, nen máis nen menos que en calquer lingua das que definimos como normais na sociedade respectiva.” Daí que se defenda uma atitude mais interventiva: “Somos nós, galegas e galegosos lexítimos proprietarios da nosa lingua. Somos, igualmente, os responsábeis de que ela perviva non como unha reliquia ou un monumento literario senón con toda a práctica que aínda lle falta: para a vida de todos os días, para toda a sociedade, para a fala e a escrita, para ouvila e para lela de forma xeral, para non ter que a procurar, cal detectives, en cápsulas controladas.” Quanto à canção, A Fala, com letra do poeta galego Manuel María (1929-2004), foi gravada por Uxía e muitos outros músicos e cantores e ganhou um videoclipe entusiástico durante o confinamento: “O idioma é un herdo,/ Patrimonio do pobo,/ Maxicamente vello,/ Eternamente novo. (…)/ Renunciar ao idioma/ É ser mudo e morrer/ Precisamos a línguaSe queremos vencer!”

É um bom princípio, este, de associar a defesa da língua à defesa de uma cultura e de um património. E defender o galego, língua que Portugal falou nos seus primórdios (para depois criar uma língua sua, mas ainda tão próxima), é acto de coragem e de justiça. De xustiza.

E os portugueses? Também precisam da língua se querem vencer? Quando calha. Nos dias da Língua, nos de Camões (na quinta-feira celebrou-se mais um 10 de Junho) e outros do género, lá vêm as promessas de grandiosidade, geralmente envoltas em girândolas poéticas de ocasião. Mas, arrumada a “sala”, volta à superfície um antigo desprezo não confessado pelo idioma que nos coube. Idêntica atitude tantas vezes corroeu a Galiza (quantos galegos não consideraram inculto o seu idioma?), e daí que a atitude do Queremos Galego seja algo a aplaudir, sem reservas.

Exemplos, temo-los de sobra. Um, já esquecido, que o jornalista Pedro Correia relembrou há dias no blogue Delito de Opinião, é o facto de o governo açoriano de Vasco Cordeiro ter www.azores.gov.pt como endereço do seu portal. Por medo de ficar “a cores”? Porquê, se os paços não receiam passar a “pacos” nos endereços electrónicos (veja-se Paços de Ferreira, ou Paços de Brandão, ou restaurantes e hotéis) e se até o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas não receia tirar a cedilha a caça em endereços seus: https://icnf.pt/caca/despachos? Não será por acharem que em inglês soa, digamos, mais moderno? Pedro Correia não resiste a comentar: “Caso para alguém o interpelar nestes termos, quando o vir: ‘Mr. LambI presume.’”

Esse “Azores” já tinha sido referido, e criticado, no espaço de Opinião do PÚBLICO em 2014 e 2015, em artigos assinados pelo jornalista e escritor Octávio dos Santos. Criticava ele, também, o recurso excessivo ao inglês em títulos de programas televisivos: Chef’s AcademyOff-SideI Love ItRTP RunningShark TankCinebox ou The Money Drop, entre muitos.

aqui, nestas crónicas, também já por mais de uma vez se falou do mesmo assunto, referindo, além das muito ridículas campanhas turísticas Allgarve e Allto Douro, o excesso de denominações inglesas em universidades nacionais, concursos televisivos como The Big PictureGot Talent PortugalCook offThe Voice PortugalFama ShowLove on Top, etc., ou a escolha de NewsMuseum para baptizar um museu dos media, do jornalismo e da comunicação sediado em Sintra. Mas há mais, muito mais. Em campanhas promocionais de lojas e empresas portuguesas, lá temos os “packs”, com os seus “promo code”, um “lunch card” para animar as hostes, o “backstage” em lugar dos (muito provincianos?) bastidores, as “power week”, as “eco life style” ou as secções de “gaming” e de “gifts e merchandising”, já para não falar da inevitável invasão de “apps” e “cookies”.

Quem assim age, duplicando consoantes e abusando do inglês, é geralmente quem as corta a eito no português, em nome da aberração a que gostam de chamar Acordo Ortográfico. O que ganha o português com isso? Só se for um barrete, a ilustrar quão saloia é a sua anglicização.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral e “ipsis verbis”, incluindo “links”, de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” em 11.06.20. Imagem de topo (fora do texto) de Wikipedia Galega Por Anónimo – http://medspains.stanford.edu/demo/lisbon/warriors.jpg, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7645635]

 

Bandeira de Galicia

Na Galipedia, a Wikipedia en galego.

A bandeira de Galicia actual foi creada a finais do século XIX polos galeguistas históricos do Rexurdimento e consolidada pola Xeración Nós como insignia nacional[1], a actual bandeira civil. Ten fondo branco e presenta unha franxa azul dende o ángulo superior esquerdo até o inferior dereito. A franxa azul posúe unha largura igual á terceira parte do alto da bandeira.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_Galicia.svg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/64/Flag_of_Galicia.svg
Pedro A. Gracia Fajardo / Public domain


Disclaimer

Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Não existe qualquer interesse comercial neste tipo de reproduções/transcrições e não há  outra pretensão que não seja a de prestar um serviço  público: modestamente contribuir para a consolidação da memória colectiva nacional.

“Não é a mesma língua!” [Paulo Franchetti, “Facebook”, 10.06.20]

“Não é a mesma língua!”

 

Paulo Franchetti, “Facebook, 10.06.20

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Num 10 de junho da década de 1980, fui convidado para discursar junto à estátua de Camões que fica em frente à Biblioteca Mário de Andrade. O autor do convite foi Rodrigo Leal Rodrigues, então e sempre presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes – que parece ter morrido com ele.

Rodrigo era quase uma personagem de lenda. Poeta, pertenceu ao grupo da Távola Redonda, onde assinava como Marcos Leal. Depois de andar por África e boa parte do mundo, estabeleceu-se no Brasil. Aqui, foi um entusiasta da pintura naïf, que promoveu, idealizador de um Liceu Português, que nunca conseguiu erguer, alma da Academia, que funcionava na Casa de Portugal, e diretor de uma revista chamada Voz Lusíada, dedicada à promoção da cultura portuguesa e luso-brasileira. Era um homem de enorme energia e mais enorme interesse em promover a cultura. Graças a ele e à sua influência junto à comunidade portuguesa, fizeram-se no Brasil muitos eventos literários – e todos os que se dedicavam à cultura do seu país tinham nele amparo certo e providências rápidas. No fim da vida, escreveu uma autobiografia intitulada, já à brasileira, “Colcha de retalhos”, cuja leitura permite perceber por que era difícil não se deixar contaminar pelo seu entusiasmo e por era ainda mais difícil negar um pedido seu.

E sou prova (ainda viva) disso, pois não só escrevi vários artigos em cima da hora, só para que ele pudesse completar a revista, mas ainda aceitei integrar a sua Academia (depois de negar vários convites, disse-lhe que só iria no dia em que vagasse a cadeira de Oliveira Martins – o que, de alguma forma, aconteceu pouco depois, o que me deixou, entre o medo e o remorso, disposto a aceitar finalmente), e, por fim, concordei em fazer o tal discurso.

É fácil imaginar o que foi aquilo: num dia de semana, naquele lugar, o hino nacional brasileiro, o hino português, uma exibição de danças folclóricas em trajes típicos, discurso de um representante do governo do Estado, de um representante da Prefeitura, de alguém do consulado português e, por fim, um representante não da Academia ou da universidade, mas do próprio Rodrigo. Ou seja, eu.

Fiz o que pude, sob o olhar dos que moravam na praça, dos que trabalhavam nos prédios, dos passantes, dos motoristas irritados e da comitiva. Não me lembro do que disse, mas disse certamente que éramos unidos pela língua. Afinal, era o dia de Camões e o tema se impunha. E sei que disse isso porque depois do discurso, estava numa rodinha com o Rodrigo e os vários representantes oficiais, quando se aproximou um sujeito que, pelas roupas e pelo jeito, parecia um dos moradores da rua, que teria acordado com o barulho.

Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Paulo Franchetti, publicado na rede anti-social Fakebook em 10.06.20. Evidentemente, nesta transcrição foi conservada a ortografia brasileira do original. Imagem inserida na transcrição de: http://www.jornal3idade.com.br/?p=9877. Imagem de topo de autoria desconhecida, copiada do site “Comunidade Cultura e Arte”.]

Marcos Leal – Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem…)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência: LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação)
Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.

Transcrição/adaptação do autor do “blog” brasileiro “Blog do Castorp”