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Sociedades secretas, negócios discretos

Não hostilizemos quem acredita piamente em que um dia, algures no futuro, o Sacavenense ganhará a Taça dos Campeões Europeus. E ainda, sobretudo, mantenhamos a compostura, admitamos que num outro dia um OVNI azul às riscas aterrará no aeroporto internacional de Portalegre e dele sairão, como turistas, uma data de Conguitos verdes paridos em Melmac.

Acreditar em tão profanos milagres é o mesmo que negar a existência de uma sociedade secreta (ou discreta), sem dúvida a mais perigosa de todas, perante cujo poderio é virtualmente impossível fazer seja o que for.

Esta terceira mas primordial seita, estranha simbiose das duas sociedades secretas oficiais (por assim dizer), é constituída por homens de negócios e por políticos (há diferença?), por regra membros de uma das outras duas confissões (ou de ambas, que também há disso), não têm aparentemente qualquer ligação entre si e não praticam rituais próprios de espécie alguma, ocupando-se exclusivamente da congeminação (entre os membros) de grandes negócios, desfalques faraónicos, tráfico de influências (e toda a sorte de outros tráficos), extorsão, lobbying, corrupção, especulação e manipulação de mercados. Etc. Absolutamente nada fica de fora ou está ao abrigo deste tipo de ganância, daquela patológica obsessão pela acumulação de riqueza.

A Maçonaria, cujos membros dizem de si mesmos ser “Pedreiros Livres” — que de pedreiros nada têm e de livres muito menos — e a Opus Dei (ou “Obra de Deus”, uma entidade abstracta que se rege pela lei da letra morta), constituem, pela junção das partes, um imenso grupo de pressão (política, de regime, autárquica, diplomática, empresarial) e constituem, cumulativamente, um conglomerado de interesses não apenas políticos como, ou principalmente, económicos. O aparente laicismo de uns e a religiosidade fingida de outros consistem basicamente (e comummente) na propagação de uma fé inabalável no dinheiro e na prossecução da sua crença no enriquecimento pelo enriquecimento. Para tal desiderato, no qual crêem cegamente, uns e outros socorrem-se de lacaios especializados para as tarefas mais sujas e plebeias, como lavar vestígios ou “abrir portas”, com tudo o que implicam os trabalhos de tais criados pagos à peça ou à ordem, em espécie ou numerário, por grasso ou por atacado.

É com incontornável solicitude que os sabujos, a mando de membros da seita de seitas. envergando a “libré” de “facilitadores” especializados, avançam amiúde com questões aparentemente menores. As trupes de auxiliares servem (na perfeição) os interesses da selecta alcateia de gananciosos patológicos e foi assim que, por exemplo, surgiu e medrou a chamada “questão ortográfica”, ou seja, o AO90.

Ignoremos, ao invés do habitual, as já muito badaladas teorias da conspiração que envolvem as duas sociedades secretas. No entanto, bem entendido, não apenas existem bastos sinais do envolvimento de qualquer delas (ou de ambas) em questões relacionadas com o idioma em particular e com o Ensino em geral, assim como parece evidente que ambas tiveram tudo a ver com a “adoção” da cacografia brasileira; os “irmãos” de ambas as famílias estiveram envolvidos e na dita questão continuam enterrados até ao pescoço; sabemos que assim terá sido e é, sim, mas também podemos estar certos de que jamais viremos a saber ao certo em que medida ocorreu tal envolvimento, quais dos “manos” (de toga ou de batina) estiveram envolvidos e o quê ou quanto, ao certo, isso implicou: não existe nas seitas, por definição e inerência, qualquer tipo de registo; não prestam contas de nada a ninguém, nem ao Fisco nem a quaisquer outras entidades do Estado (é óbvio, eles “são” o Estado); os membros gozam de total imunidade e outorgam a si mesmos o estatuto de total e absoluta impunidade.

À míngua de provas documentais de qualquer espécie, de muito pouco ou nada servirá especular sobre algum ascendente ou assacar-lhes a mais ínfima responsabilidade (claro, nunca foram eles, nunca fizeram nada, são só apreciadores de missinhas, mais nada). Não será, por conseguinte, com vãs (e ocas) polémicas sobre qual das seitas se superioriza moralmente à outra que será possível concluir, por exemplo, pobre analogia, que em Melmac não existe só o Alf. O conceito de moral (ou imoral) está a priori  fora de cogitação, no caso vertente, pelo que a frivolidade da comparação é inútil.

Porém, sem teorias da conspiração ou sequer a mais subtil das conjecturas, ainda que, porque não há provas, não saibamos ao certo o que é a “fé” ou o que ali é feito, todos sabemos perfeitamente… o que é uma sociedade secreta, o que ali é feito, quem, quando, como e para quê. E sabemos isso de ciência exacta precisamente pelo mesmíssimo secretismo que define qualquer das irmandades: se são secretas, então  têm algo a esconder. 

São coisas que se explicam a si próprias e por si mesmas.

Desta premissa podemos nós ter a certeza. Uma certeza clara e limpa e luminosa — o oposto diametral da permanente obscuridade, a escuridão sepulcral da criminalidade ritual.

Frutas, legumes e sociedades secretas

Observador – observador.pt, 28.03.21

António Pedro Barreiro

Imagine-se que o Parlamento decidia aprovar uma nova regulação acerca da produção de legumes – não de frutas, mas apenas de legumes. Certamente, muito haveria a debater sobre uma proposta desta natureza. Seria pertinente? Que efeitos teria na produção agrícola? E que consequências produziria na dieta dos portugueses? Discussões fascinantes e necessárias. Mas, antes de todos esses debates, há uma questão prévia, que é a de perceber que coisa é essa que o legislador entende por legumes. O caso torna-se agudo quando chegamos, por exemplo, ao tomate, que muita gente acredita ser um legume, mas que a ciência sabe, para além de qualquer dúvida, tratar-se de uma fruta.

Eu posso ser o maior defensor da nova regulação sobre a produção de legumes. Mas não posso aceitar que, à boleia de uma lei sobre legumes, o legislador se sinta no direito de legislar sobre o tomate, porque o tomate não é um legume. Seria, aliás, especialmente perigoso que o legislador andasse a brincar com os equívocos e os preconceitos do senso comum, para convencer os portugueses de que o tomate é afinal um legume e deve, por isso, caber no objecto da nova legislação. A política é uma arte nobre de serviço público. Ou se faz com base na verdade – e a verdade, bem o sabemos, é a adequação das ideias à realidade das coisas – ou faz-se mal. E, quando se faz mal, faz mal ao povo.

Em Dezembro de 2019, o PAN propôs que os deputados pudessem, ao preencher o seu registo de interesses, declarar se pertencem a sociedades secretas – ou, como se tem dito, discretasDizia então o deputado André Silva que é “inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não declarar a sua filiação em organizações marcadas por uma forte opacidade, por um grande secretismo e que apelam a fortes laços de hierarquia”. A proposta tem o seu cabimento, até porque existe o risco real de que algumas pessoas se sirvam das relações travadas no contexto da sociedade secreta para subir na vida à custa do tráfico de influências. Mas o problema, como sempre, está nos pormenores. É que, além da Maçonaria – que é, de facto, uma sociedade secreta, que se caracteriza pela opacidade, que se estrutura segundo relações hierárquicas muito fortes e que constitui, com efeito, um espaço onde o tráfico de influências é possível –, o PAN quis incluir no estatuto de sociedade secreta o Opus Dei, que não obedece a nenhuma dessas características.
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«O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão» [João Esperança Barroca, “Público”, 26.03.21]

O busílis da questão, algo que na propaganda acordista passa por anátema amaldiçoado, é a fronteira que a língua brasileira, queiram ou não queiram, já atravessou: à semelhança do que sucedeu em relação ao Latim, com o Português, o Espanhol ou o Francês, por exemplo, a progressiva autonomização acabou por conduzir à inerente e inevitável independência; o fenómeno, salvas as devidas distâncias mas também consideradas as respectivas similitudes, é válido para as línguas assim como para os países. O Brasil adoptou o Português como língua-franca de 1500 em diante e, a partir do momento em que declarou a independência política, em 1822, o país acelerou também o processo de autonomização cultural terminando, a partir de finais do século XIX, por desenvolver de igual modo a sua independência linguística.

Ao invés do que sucedeu com a independência política, que foi súbita e rápida (e simbolicamente liderada por um filho do rei português, nem de propósito), a independência linguística resultou de um processo relativamente lento mas inexorável: paulatinamente, a língua brasileira afastou-se cada vez mais da sua matriz portuguesa e acabou por se transformar tão radicalmente que — por exemplo — qualquer português que diga alguma coisa num canal de TV brasileiro tem de ser legendado.

Tornou-se já virtualmente impossível fingir que um texto brasileiro está redigido em Português; será algo parecido, quando muito, mas ainda mais parecido com o Português é o Galego e afinal pouco diferem da nossa Língua o Espanhol ou o Italiano. Simples diferenças nominais ou ligeiras variações lexicais já não passam de mera bizarria, vulgar e extremamente frequente, no meio de uma floresta com todo um outro sistema comunicacional: além de outra semântica, outra sintaxe, outra semântica, outra prosódia, ou seja, por extenso, toda uma outra Gramática.

Os títulos de filmes ingleses e americanos no Brasil, além de apenas mais um pequeno pormenor, um galho de uma das árvores da floresta linguística (ou do bosque gramatical), são para qualquer português motivo de chacota, quando não de pura risota.

Não seria mau, portanto, que uma obtusidade anedótica como o AO90 servisse em exclusivo os fins para os quais foi inventado: promover os interesses económicos e geopolíticos do Brasil utilizando a língua brasileira como truque de legitimação expansionista, baptizando fraudulentamente essa língua alienígena como “português universal”; “português” de nome, é claro, e “universal”, sim, mas de um “universo” que não vai além das paredes do Palácio do Planalto e dos lisboetas Passos Perdidos.

A língua brasileira separou-se da Língua Portuguesa, então adeus, boa sorte, como sucede em qualquer separação apenas resta a uma das partes desejar à outra que tenha sucesso no seu caminho.

Seria bom, seria excelente, seria magnífico que não roubassem os gatunos de cá e de lá, neo-imperialistas e vigaristas, aquilo que foi por nós originalmente manufacturado e que usamos há séculos, essa nossa antiquíssima, riquíssima, sólida e honesta ferramenta, o cinzel com que escrevemos a História do futuro.

O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão

A quimera da unificação ortográfica foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Mas basta ler Jorge Amado para corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

João Esperança Barroca
26 de Março de 2021, 17:00

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“O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível. E ainda bem.”
Do blogue Apartado 53, 30-01-2021

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“Acordo Ortográfico, não! Começámos a tirar consoantes às palavras, quando, no Brasil, elas continuam a existir. É ridículo, não é nenhum acordo, é uma grande aldrabice! Sou absolutamente contra. Tenho muita esperança de que se consiga corrigir a grande borrada que foi essa invenção.”
Lena d’Água, cantora, vencedora do Prémio José Afonso 2020

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“Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

“Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos.[…] Língua portuguesa do Acordo Ortográfico? Nem como anedota. As culturas portuguesa e brasileira talharam o idioma à sua medida. É por isso que o romance Wuthering Heights1, de Emily Brontë (1818-1848) se chama por cá Monte dosVendavais e no Brasil, O Morro dos Ventos Uivantes (que é, aliás, a tradução dada pelo tradutor automático da Google). Ou que o filme de Robert Wise The Sound OfMusic (1965) ganhou por título em Portugal Música no Coração e no Brasil foi titulado como A Noviça Rebelde. Isso pode ser comprovado em milhares de livros e filmes, onde cada tradução segue o caminho que lhe ditam os costumes e coloquialismos locais.”
Nuno Pacheco, no jornal Público, em 11-02-2021

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A quimera da unificação ortográfica, a maravilhosa língua unificada foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Essa unificação, imprescindível à expansão e difusão do português, abriria, diziam eles, as portas da ONU, por onde a língua entraria, triunfante, como língua de trabalho, a par do inglês, do francês, do russo, do chinês, do espanhol (castelhano, mais propriamente) e do árabe.

Nuno Pacheco já afirmou um sem-número de vezes que essa língua não existe e como tal, é impossível escrever nela. Por razões que não vêm agora ao caso, o autor deste escrito teve necessidade de reler, há pouco tempo, a obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá do escritor brasileiro Jorge Amado. A versão consultada foi a 11.ª edição, de Outubro de 2005 (em tudo igual aos excertos existentes nos manuais escolares), das Publicações D. Quixote, e essa leitura obriga-nos a corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

Vejamos, então, vários factos (e também alguns fatos de que falava Santana):

– praticamente no início da obra, na página 16, encontramos a interrogação “Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado?” Na variante europeia do português grafaríamos porque e tolo ou parvo (em vez de “bobo”). A mesma situação com o advérbio interrogativo surge ainda na página seguinte no excerto “Mas por que não falar também de inegáveis qualidades?”;

– no excerto da página 18 “… suicidou-se, enforcando-se nos ponteiros, por não mais suportar a lentidão da Manhã…” o advérbio (de quantidade, intensidade ou grau) no português europeu surgiria depois do verbo “suportar”;

– na página 19, lemos “… pouco afeita a regras e códigos, ela o fazia esquecer por alguns momentos a suprema chateação da eternidade e a bronquite crônica.” Este excerto em Portugal seria escrito, talvez, assim: … pouco habituada a regras e códigos, ela fazia-o esquecer por alguns momentos o supremo aborrecimento da eternidade e a bronquite crónica;
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O meio académico do Burkina Faso

 

De novo, o “fait divers” do Inglês. E de novo, como se não fosse redundante (e sumamente idiota) repeti-lo, reitere-se que não existe na “questão ortográfica” um só átomo de “anti-brasileirismo” ou coisa que o valha.

A dita “questão” é estritamente política, como já aqui foi dito e explicado mil vezes. Apenas a um néscio de grau zero (ou a qualquer imbecil irrecuperável) ocorreria a peregrina ideia de atribuir ao Apartado 53 seja que tipo de xenofobia for ou que é crime ousar o dono da caixa de correio comentar as cartas que transcreve; mais um passo, ou seja, um milímetro de neurónios paralíticos, e lá temos o arquivista no papel de autor do que dizem essas cartas.

Alguns, mais afoitos nas artes da raivinha de estimação, essa estranha forma de vida, alcançam inimagináveis patamares de maledicência, que aliás é inerente à sua inelutável condição de deprimente mediocridade. É dessa bizarra espécie de bacanos que emanam os eflúvios venenosos. A alguns deles, em sucedendo que tenham bigode, até se lhes treme o dito bigode, tal é a raivinha que por norma neles provoca e faz saltar, sabe-se lá ao certo porquê, tanto faz, uma coisinha qualquer esgalhada por algum proscrito.See the source image

Serve o Inglês, portanto, como outros assuntos correlacionados e igualmente sérios, de contraponto à doentia obsessão.

A Língua Inglesa é, para todos os efeitos e sem a mais ínfima polémica a envolver o assunto, de tal forma flagrante é a realidade (essa coisa que tanto irrita a nomenklatura portuguesa) e a esse facto não será estranha a independência dos USA (Estados Unidos da América).

Não advogando, de forma alguma, que vá o sapateiro além da chinela, parece-me modestamente seguro afirmar que tal estatuto de língua-franca foi conferido ao Inglês por um longo e até amiúde sangrento processo, na esteira das Línguas que o antecederam no estatuto: a actual língua-franca em todo o mundo sucedeu enquanto tal na honrosa esteira do Latim (na Europa e no Norte de África), do Francês (em parte da Europa e de África, em meios monárquicos, literários e mais “ilustrados”, além de territórios no Pacífico e em casos raros noutras zonas do globo). Por uma questão de sintetismo discursivo, não se referem nesta sequência os casos do Espanhol e do Português.

Expostos os antecedentes, ainda que de forma extremamente abreviada, talvez resulte mais claro o sucedido e definitivamente compreensíveis as circunstâncias que, a partir de 4 de Julho de 1776, resultaram na instalação (passiva, sem oposição) do Inglês como a única língua-franca que nos dias de hoje alcançou uma pujança esmagadora.

Ora, dando de barato que existe de facto um tremendo exagero (e uma gigantesca parolice) no uso e (principalmente) no abuso do Inglês, não passará de pura idiotice — dar cambalhotas por cima da própria cabeça — tentar demonstrar um espécie de “purismo” militante a pretexto de anglicismos. Por regra, estava capaz de jurar mas não o farei, porque a pequenez é um fenómeno imprevisível, quanto maior a sua ignorância da Língua, mais e com maior violência os “puristas” se atiram a ela. Estranho fenómeno, de facto, se bem que em Portugal já muito pouco ou rigorosamente nada resta de minimamente inteligível na verborreia daqueles que a si mesmos, coçando o queixo e repetindo “espelho meu, espelho meu”, atribuem o estatuto de gajo incrivelmente inteligente ou de pá, eu é que sei, eu é que sei, eu é que sei, óvistes.

Ralam-se imenso com a “invasão” bife mas não se ralam nada, nadinha, com a invasão zuca. Alguns (como é o caso deste agora) até se declaram “contra o AO90” e tudo, mas, ah, e tal, coiso, tenho ali uma panela ao lume, agora não, que não dá jeito.

As tangas do costume e os mesmos ódios de estimação. Não ao Inglês… enfim, só por ócio. Não ao acordês mas… assim com’assim…

Eis, em suma, o NIM ao “acordo”.

Estranha forma de vida.

 

Portugal e o inglês (III)

 

eltrapezio.eu, 22.03.21
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Nos meus artigos anteriores, referi o domínio em Portugal da língua inglesa e o potencial dos portugueses como professores de inglês para hispanofalantes. Quem me conhece sabe que o inglês é importantíssimo para mim, que o uso todos os dias nas redes sociais, e que outrora sonhei em viver nos Estados Unidos e no Canadá. Por isso, o que vou dizer neste artigo poderá ser surpreendente: eu não defendo a supremacia da língua inglesa. Defendo, isso sim, a diversidade, a harmonia e a aceitação mútua. Aquilo que eu procuro, tanto no inglês como no português e no espanhol, são oportunidades de contribuir para a paz e a concórdia no mundo inteiro.

Os meus alunos perguntaram-me recentemente o que acho do Acordo Ortográfico e do perigo de o inglês causar o desaparecimento do português. Se tenho orgulho em Portugal? Tenho. Se devo promover a língua portuguesa? Claro que sim. Se não gostei da maneira como nos foi imposto o Acordo Ortográfico? Claro que não gostei. Mas dito tudo isto, a língua portuguesa não é exclusiva nem de Portugal nem do Brasil. Escrevo e ensino português com as regras do Acordo Ortográfico porque não tenho escolha, mas também em parte porque espero que isso possa ser uma modesta contribuição para uma amizade mais sincera entre Portugal e o Brasil. Qual é a relação entre isto e a língua inglesa? Simples: porque a concórdia é mais importante para mim do que qualquer língua. Para que servem as línguas se não as usamos para isso?

O que eu respondi aos meus alunos foi: não acho que o Acordo Ortográfico tenha sido uma boa ideia, mas não culpo o Brasil pelos nossos problemas, e também não acho que a língua portuguesa possa desaparecer de Portugal. Temos uma Constituição que diz que a nossa língua é a língua portuguesa. Fazer desaparecer o português implicaria mudar a Constituição; portanto, insistir que o inglês, ou o português brasileiro, vai fazer desaparecer o português europeu é um exagero. Também lhes disse que há uma coisa que me incomoda muito mais, porque para mim representa um perigo muito mais imediato e real para qualquer pessoa no mundo: a discriminação linguística.

Há quem ache uma tremenda falta de educação falar outras línguas na presença de pessoas que só falam inglês, chegando até a interromper conversas de desconhecidos só para exigir que falem inglês. Isto sim, irrita-me. Tendo em conta todos os casos de assédio em países anglófonos contra pessoas que falam outras línguas, e toda a demagogia xenófoba que tem sido fomentada, em primeiro lugar, pelo vexame da política norte-americana, irrita-me. Quem lhes dá o direito de tomar por garantido o privilégio de falarmos inglês? E não importa que aprender a falar idiomas seja um trabalho árduo e exija perseverança? Porque é que todos nós temos de nos esforçar sempre tanto para falar inglês, para conveniência e conforto deles, mesmo perante aqueles que não estão dispostos a fazer o mesmo gesto em troca e não estão interessados em saber nada de nós? Não é essa a verdadeira falta de educação? Acharão eles que lhes somos inferiores?

João Pedro Baltazar Lázaro

[Transcrição integral. “Post” Fakebook via página “Chupa Camões”. Artigo de eltrapezio.eu Posted by em Mar 22, 2021.Transcrição integral (incluindo destaques a “bold” e “links”).]

Roteiro da Engenharia Linguística

Roteiro da Engenharia Linguística
1. O totalitarismo obscurantista manipula os cidadãos através da Novilíngua, a única versão da língua consentida pela classe dirigente (o “Grande Irmão”).
2. Esta língua, inventada pelo Partido único, que é omnisciente e omnipresente, assemelha-se ao grasnar, ou seja, reproduz sons repetitivos que lembram o quá-quá-quá dos patos, sem qualquer significado inteligível e implicando que o falante/escrevente não raciocine de forma alguma.
3. Excluído o raciocínio, isso implica a anulação completa da inteligência na comunicação (inexistente) e permitindo em simultâneo que a maior imbecilidade ou a mais inacreditável das vacuidades soem como ideias “geniais” ou “brilhantes”.
4. Sistematicamente bombardeados por esta verborreia embrutecedora, os cidadãos acreditarão com fervor religioso — de forma acrítica, passiva e acéfala — em qualquer fábula, mentira ou invenção, sem jamais se questionar e sempre desprezando violentamente os factos que, por regra, não interessam ao Partido e ao Grande Irmão.
5. Escapar ou sequer tentar escapar à Novilíngua é Crimepensar, ou seja, é um delito gravíssimo, algo interdito e violentamente perseguido no “Novo Normal”; conduz inevitavelmente à ostracização — a nova forma de prisão, sem muros nem carcereiros mas com muito maior isolamento: implica despedimento sumário e exclusão total de qualquer dos tipos de  interacção social (incluindo a familiar).
6. A Novilíngua serve para tornar conforme os ditames infalíveis do Grande Irmão e para adaptar a versão dos acontecimentos ou factos consoante mais convier ou der jeito ao Partido. A História, por exemplo, está em permanente revisão, pelo que nem um nem outro alguma vez se enganaram, no passado, ou cometem erros no presente. Se porventura houver ou tiver havido algo a corrigir, pois bem, é muito simples, corrige-se, basta reescrever a História, apagar o que não interessa, destacar ou eliminar previsões consoante o que vier a suceder na realidade.
7. A conformidade terminológica implica a adaptação dos factos, os quais, recauchutados segundo os ditames do Partido e utilizando a Novilíngua como mecanismo de sintetização, servirão para conferir uma absoluta conformidade ideológica ao todo —  uniforme mas tripartido — que subtilmente cria uma nova Trindade: Grande Irmão, Partido, Novilíngua.

 
O AO90, reduzindo isto à nossa minúscula mas grandiosa dimensão (linguística, histórica, patrimonial), é a Novilíngua que a classe dirigente (a dos “homens de negócios”) nos quer impingir. Comparativamente falando, em termos de dimensão o MPC (Manual Politicamente Correcto) seria uma brincadeira de crianças.

Mas, salvas as devidas distâncias, também não é brincadeira nenhuma.

Politicamente correcto ou fascismo linguístico?

“Sol” 21.03.21

Neutralizar os substantivos, alargar a lista de géneros, substituir ‘a’ e ‘o’ por ‘@’, ‘*’ ou ‘X’. O caminho do debate sobre a questão da língua inclusiva já é longo. Mas onde nos vai levar? Atualmente, assistimos a várias propostas e mesmo alterações linguísticas com o objectivo de aumentar a inclusividade e a neutralidade nos discursos, tanto em Portugal como no resto do mundo.

 

Na Universidade de Manchester pretende-se abolir todas as definições binárias. ‘Mulher/homem’ é substituído por ‘pessoa’; ‘senhoras/senhores’ por ‘toda a gente’; e, o mais polémico, ‘mãe/pai’ por ‘progenitor’ ou ‘guardião’ (que em português têm os dois géneros, mas em inglês são palavras neutras). Em Nova Iorque existe uma lista de 31 géneros e é possível o registo civil com terceiro género. O_caminho vem sendo percorrido há mais de uma década. Já em 2008 o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre a linguagem neutra em termos de género. Actualmente, em Portugal ouve-se falar de Acordo Queerográfico e de um novo manual linguístico de inclusão por parte do Conselho Económico e Social (CES).

Mas será a utilização de um género neutro uma forma de promover a inclusão e de afastar percepções desactualizadas sobre homens, mulheres, pessoas com deficiências e grupos minoritários ou estaremos diante um conjunto de artifícios do politicamente correcto que complicam a comunicação e a linguagem?

Daniel Cardoso, investigador nas áreas não-monogâmicas consensuais, BDSM, género e sexualidade considera que só é possível, verdadeiramente e partindo de uma posição democrática, ser a favor deste tipo de directrizes linguísticas.

«O que estamos nós no fundo a dizer se formos contra a inclusividade no discurso e contra a inclusividade na linguagem? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de comunicação? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de democracia?», questiona. Para o investigador, a única posição «politicamente responsável» é a favor da inclusividade como um dos grandes princípios básicos da democracia.

Universidade de Manchester: ‘Já não era sem tempo!’

Daniel Cardoso encontra-se no Reino Unido, na Manchester Metropolitan University, a poucos quilómetros da sua concorrente Universidade de Manchester. As directrizes da segunda universidade que baniu algumas palavras do vocabulário dos funcionários sempre que tenham de falar em nome da instituição, com o objectivo de neutralizar géneros e contribuir para a inclusão, não são uma realidade invulgar naquele país. De resto, a mudança há muito que está em curso – e não só no Reino Unido. Já em 2008, o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre linguagem neutra em termos de género que fornecessem conselhos práticos em todas as línguas oficiais. Objectivo: adoptar uma linguagem justa e inclusiva de género.

Daniel Cardoso defende que estas alterações nas universidades e instituições europeias têm sido, na esmagadora maioria dos casos, recebidas com uma certa naturalidade, já que o inglês tem muito menos marcas de género linguístico na ortografia e gramática do que o português. «O português marca de forma generalizada substantivos, adjectivos, mas o inglês não funciona assim. Tem uma forma pronominal neutra embutida no funcionamento da linguagem e portanto, todas estas questões que às vezes parecem muito contenciosas, na verdade são simplesmente mais um detalhe, mais um pormenor a afinar», afirma.

E não esconde a sua satisfação: «Já não era sem tempo. Que bom que estas instituições estão finalmente a rever os seus processos!», congratula-se.

Mas aquilo que o investigador da Manchester Metropolitan University considera ser linguagem inclusiva, para Helena Matos, professora, jornalista, escritora e colunista do Observador, é «o dialecto dos novos bárbaros». «As palavras geram actos e nós usamo-las para nos relacionarmos, mas não para construirmos realidades», comentou na TVI24, «Seria inconcebível que cada um dos diversos conselhos e órgãos do Estado tecesse manuais sobre como devemos comunicar», rematou. Em artigo no Observador manifestou o seu profundo desacordo com as alterações que têm sido propostas: «Não sou progenitora. Sou mãe. Não sou companheira. Sou mulher de», escreveu na crónica ‘Obviamente desincluída’, publicada no dia 14 de março.

CES: Novo manual de linguagem inclusiva

O Conselho Económico e Social apresentou um novo manual de linguagem para tornar a comunicação interna e externa mais neutra e inclusiva. No documento encontram-se vários exemplos que passam por evitar o género masculino, ou utilizar os dois géneros promovendo a igualdade entre homens e mulheres.

Sara Falcão Casaca, socióloga, vice-presidente da CES e uma das contribuidoras da proposta para uma linguagem neutra e inclusiva, defende que «a linguagem reflecte as concepções dominantes de cada contexto sóciocultural, de cada tempo histórico e ainda uma visão assimétrica das mulheres e dos homens, uma valoração desigual que se expressa na invisibilidade das mulheres». A socióloga confia que se colectivamente nos empenharmos em conferir igual visibilidade a mulheres e a homens na linguagem, do ponto de vista simbólico estaremos também «a veicular novas representações sociais – representações igualitárias sobre o seu valor e estatuto social».

Daniel Cardoso acrescenta que não só se assiste a uma invisibilidade feminina, como também uma invisibilidade de outros géneros não binários. E a linguagem tem o poder de alterar isso: «A linguagem é, foi e será algo vivo, algo que se adapta às mudanças que existem na sociedade e, por outro lado, fez, faz e fará parte de um conjunto de ferramentas e abordagens, para provocar mudanças no mundo», declara.
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50 tons de cinza

Peanuts. Aquilo que toda a gente aponta como sendo a “principal culpada” pelo AO90 não é a indústria editorial e essa “acusação” ainda menos pode ser assacada a qualquer editora, grupo de editoras ou associação empresarial do sector. Essa treta não passa, como se diz em “americano”, de amendoins. Servirá a carapuça, quando muito, no improvável caso de alguém a enfiar, para — como de costume — quem tenta desviar as atenções da questão essencial e assim enganar totós ou, ainda que não tenham caído no logro, pôr a conversar uns com os outros, de forma inconsequente e ociosa, os “teóricos” e “especialistas” na matéria.

A questão, evidentemente, é em essência de cariz político — privilegiar os interesses geoestratégicos do Brasil — e em função deste mesmo facto envolve, realmente, “operações financeiras”; mais prosaicamente, o que define e explica o AO90 é o dinheiro, o vil metal: em notas de Banco, letras e livranças, cheques à sorrelfa ou, ainda mais “interessante” para a “difusão da língua” brasileira e para a “expansão da língua” brasileira no mundo, em negociatas de todo o tipo.

O “pequeno pormenor” dos títulos de filmes é de facto “amendoins”, se comparado com os cambalachos esconsos, as roubalheiras escandalosas, os negócios escuros (ou totalmente negros) a que o AO90 confere  cobertura política. Na mesma linha de “peanuts” estratégico, a banda desenhada fabricada no Brasil para impingir às nossas crianças o mais retinto brasileiro, se bem que ainda mais grave (e asqueroso), é uma golpada  igualmente irrelevante, ou de pouca monta, comparativamente falando.

As “traduções” brasileiras, à patada, por grosso e atacado, nos livros e revistas, nas legendas de filmes ou documentários, nas plataformas cibernéticas e nos programas de computador, toda essa parafernália de estupidificação em massa e de anestesia metódica, enfiando-nos goela abaixo, com violência, um linguajar alienígena, até esse triste cortejo de miserável bajulação do “gigante brasileiro” é coisa pouca se nos lembrarmos da abolição do Acordo de Schengen, do ensino do brasileiro em Timor-Leste, da Embraer em Évora, dos governantes brasileirófilos (Durão Barroso, Guterres, Marcelo e tutti quanti), dos vendidos e graxistas, da indústria das telenovelas, do futebol e suas transferências bilionárias, de Angola e suas imensas riquezas…

Efectivamente, vai avançada a anexação da ex-potência colonizadora pela sua ex-colónia. Assim que for nomeada a CTR (Comissão Técnica de Revisão) do AO90 e depois de nela instalados todos os tachistas que já andam por aí em bicos-de-pés, suplicando por um tachinho “académico”, abatidas as derradeiras diferenças (inventadas em 1986) a cacografia da língua brasileira será oficial, integral e radicalmente “adotada” pelo Governo português. Logo após esse sancionamento seguir-se-á a benzedura legislativa (outra golpada, como a RAR 35/2008) e então Portugal passará a ser a única colónia linguística do mundo, isto é, mais exactamente, o único país do sistema solar a escrever numa língua que não existe.

 

 Não é possível escrever numa língua que
não existe

Nuno Pacheco

www.publico.pt, 11.03.21

 

Em Janeiro, o diário brasileiro O Globo garantia, em título, que as “Editoras independentes brasileiras preparam ofensiva em Portugal”. Boa notícia, para os amantes da leitura. Porém, logo nas primeiras linhas, trazia esta declaração espantosa: “Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos. Querem exemplos? Aqui vai um, bem recente. A editora Planeta DeAgostini, especialista em colecções generalistas, vendidas em bancas de jornais ou papelarias, acaba de lançar o primeiro volume (são 61) de uma família bem célebre na história da banda desenhada: Snoopy, Charlie Brown & Friends – A Peanuts Collection. O título vem em inglês, mas a edição é em português… do Brasil. A ficha, logo nas primeiras páginas, não engana e até o serviço de atendimento “ao colecionador” (sic) é, não em Portugal, mas no Brasil: www.planetadeagostini.com.br. Se o Snoopy fosse criação brasileira, fazia todo o sentido. Mas não: o original é americano, criado por Charles Monroe Schulz em 1950. Por isso, quiseram apenas poupar numa nova tradução, à boleia das promessas do Acordo Ortográfico (edições iguais para todo o espaço lusófono) e das crenças do senhor Silveira.
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Uma questão de milhões

O que dizer sobre isto? Por vezes não é nada fácil conseguir, mesmo retendo com tremendo esforço os palavrões, apresentar ou sequer comentar aqui um artigo; bem sei que a principal “missão” deste modesto blog é constituir acervo sobre o AO90 (e outros detritos), e que, portanto, tenho mesmo de me aguentar à bronca, mas, porém, contudo, no entanto, bálhamedeus, já são demasiadas as ocasiões em que este masoquista exercício torna-se  absolutamente insuportável. Estes acordistas (e também os assimilados, ou seja, os que fingem ser contra) são, de facto, uns aldrabões do piorio; por regra, como agora de novo é o caso, mentem com quantos dentes têm na boca e apenas são capazes de debitar as tretas do costume.

Nem de propósito, como espectacular demonstração de tão inamovível quanto arrepiante premissa, eis aqui uma (inacreditável) entrevista de certa ex-governante, calculo, ex-Directora-Geral de Nãoseiquê, presumo, e ex-pessoa decente, imagino. Escusado será dizer, até porque isso é um vício comum entre os políticos em geral e os acordistas em particular, que mente por método e sistema, de cabo a rabo, sem ponta por onde se lhe pegue no paleio de chacha: um chorrilho, uma torrente, um tsunami de galgas.

Claro que o objectivo é promover os interesses geo-estratégicos do Brasil, aproveitando as raspas dos negócios (estrangeiros), se possível, isto é, correndo atrás das migalhas que porventura possam sobejar dos milhões traficados entre o “país-continente” e, por exemplo, o petróleo venezuelano, a carne argentina, as minas chilenas e até, se calhar, nunca se sabe do que são capazes os meliantes da “língua universáu”, produtos da Colômbia. Uma versão revista e aumentada da CPLP, por conseguinte, sustentadas ambas as teatralizações pela patranha fundamental, aquilo a que chamam “difusão da língua“; da língua brasileira, bem entendido, porque, dizem os mesmos, “eles são 220 milhões e nós somos só 10 milhões“. O Estado português, que paga a CPLP e as demais despesas das negociatas, incluindo os “pacotes” de “turismo linguístico” (ahahahah, boa malha, têm imensa piada com as desculpas para as roubalheiras, são uns pândegos), cala-se muito caladinho ou, mil vezes pior, alinha no caldinho.

Na promoção de eventos propagandísticos, sessões de esclarecimento de mentiras delirantes, igualmente escabrosas mas também hilariantes, o Estado português faz a todos nós, em nome da “expansão da língua” brasileira no mundo, o favor de torrar milhões sonegados aos nossos impostos.

Fica assim explicado, com todos os éfes e érres, esplendorosa e escarrapachadamente, o significado da expressão “valor económico da língua“, essa fulcral aldrabice que tanto os fascina e de que tanto se esticam nas suas ridículas prelecções.

Agora era capaz de citar o “jingle” do Euromilhões mas não queremos abusar, enfim, por algum motivo isto dos milhões (de dólares, por hipótese) provoca uns reflexos condicionados aborrecidos, é fácil, é barato e rima com aldrabões.

Já quanto a outro tipo de milhões, por assim dizer, ao que parece os 280 da CPLB (Comunidade dos Países de Língua Brasileira) afinal não chegam, agora o alvo da “difusão” é constituído por 800 milhões de alminhas, nada menos, soma aos tais 280 do Brasil e anexos (incluindo Portugal) os 50 de Espanha e os sobrantes 470 milhões acumulados no Uruguai, no Peru, na Argentina, na Colômbia, no Chile e nos restantes países da América do Sul e arredores.

Bem, convenhamos, de facto é um magote de respeito. E devem estar  todas elas, as referidas alminhas, da cordilheira dos Andes às Pampas, até aposto, lá estarão todos contentes, felizes da vida com esta coisa da OEI que uns señores simpáticos pariram, oh, extraordinário milagre, isto ele nem na América.

São tão altos dignitários — e destes, em especial, os que têm dedo para o negócio — realmente uns cómicos, por conseguinte (se bem que não tenham gracinha nenhuma) e, como se vê, essa chusma de maduros (salvo seja) apenas pretendem, segundo protestam — além da “difusão”, ou lá o que é –, o melhor para apascentar os povos: e estes outros, perdidos no meio de 800 milhões, agora também alardeiam com imenso salero e não menor precisão a vinda de tão fantásticos salvadores linguísticos da Pátria, oops, melhor dizendo, das pátrias.

Bem, longa história, abreviemos. A ver se a Espanha cai desse cavalo abaixo. Palpita-me que não.

Y olé, olé, ¡arriba, arriba! ¡Ándale, ándale!

 

A Estratégia da OEI para a língua Portuguesa

raiadiplomatica.info, 05.03.21

 

Em 2017 foi inaugurada a delegação em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI). Em entrevista à Raia Diplomática, Ana Paula Laborinho, directora da OEI em Portugal, contou-nos a estratégia desta organização internacional para a difusão da língua portuguesa no espaço ibero-americano. Para além disso, ainda houve tempo para falar da dimensão científica, cultural…e da cidadania ibero-americana.

Quais foram as razões para a abertura de uma delegação em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI)?

Portugal é Estado membro da OEI desde 2002 e, nesse sentido, desde essa data se perspectivava a abertura de uma representação nacional. Portugal tem participado desde [o] princípio nas Cimeiras Ibero-americanas e tem reforçado o seu interesse pelo espaço ibero-americano onde tem dois parceiros relevantes – Brasil e Espanha – mas também tem havido um aumento das relações com outros países da região, seja económica, seja cultural como foram os casos das Feiras do Livro de Bogotá (2013) e de Gu[a]dalajara (2018) em que Portugal foi o país convidado.

Durante vários anos foi a Directora do Instituto Camões. Quais são as diferenças nas suas competências na promoção da Língua Portuguesa como directora em Portugal da OEI com as anteriores funções de Directora do Instituto Camões?

As minhas actuais funções têm um âmbito centrado na região ibero-americana, o que desde logo se distingue das anteriores funções. Também se concentram nas áreas de actuação da organização – educação, ciência e cultura – enquanto as responsabilidades na área da cooperação da instituição que dirigi são muito mais alargadas. Fui recentemente nomeada Directora-Geral de Bilinguismo e Difusão da Língua Portuguesa da OEI, sendo a minha primeira acção melhorar a cooperação entre línguas em áreas em que a sua relevância é grande, desde logo a educação, incluindo o ensino superior, mas também ao nível da produção científica aberta e plurilingue, área fundamental para o reconhecimento internacional das duas línguas. Estamos também a desenvolver um grande esforço para tornar a OEI verdadeiramente bilingue, desde logo produzindo toda a sua documentação nas duas línguas, incluindo relatórios técnicos, mas também conferências, reuniões técnicas, o que tem possibilitado o envolvimento da CPLP, de que somos Observadores Associados e que também é Observador Associado da OEI.
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